sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Lisboa dos Anos Oitenta (II)


Graças a dois amigos especiais, o Tozé e o Henrique, lisboetas de gema, percorri várias Lisboas, muitas vezes a passo, porque a cidade dos primeiros anos da década de oitenta era muito mais aberta e descontraída, praticamente sem focos de criminalidade violenta. A única coisa que tínhamos de ter cuidado, era com os muitos carteiristas que apareciam e desapareciam nas carruagens do metro e nos autocarros, nas horas de ponta.
Nessa época víamos muito cinema, nas salas grandes - ainda existia o Condes, o São Jorge e o Eden, que davam vida à Avenida da Liberdade – e nos pequenos estúdios espalhados pela cidade, como o Apolo 70, o Londres, o Castil ou o Nimas.
Também nos aventurávamos na noite (quase sempre às quintas), muito mais curta que nos nossos dias. Às quatro da manhã fechavam quase todos os bares e discotecas. Os únicos locais que permaneciam abertos estavam ligados a uma Lisboa mais marginal, onde acabam a noite prostitutas, proxenetas, homossexuais e gente da vida artística, que também conheci, muito superficialmente.
Voltando à Avenida da Liberdade, as esplanadas enchiam-se de gente de todas as idades, da Primavera até ao Outono.
Era uma cidade mais viva, mas também mais viciosa...
Próximo do Elevador da Glória passeavam prostitutas, sempre com o mesmo convite: «Queres vir para o quarto querido?», e claro com outras promessas, que de certeza, ficavam por cumprir... Os homossexuais também apareciam em todas as esquinas, com perseguições e olhares matadores, que tinham tanto de cómico como de ridículo.
Com o aparecimento do HIV, as prostitutas e os homossexuais quase que desapareceram das ruas da baixa.
Os outros lisboetas? Devem ter começado a dispersar, lentamente, frequentando outros lugares, primeiro as “Amoreiras”, depois o “Colombo” e mais tarde o “El Corte Inglês”...
Este texto está ilustrado com um óleo de Botelho sobre Lisboa, os "Restauradores".

8 comentários:

  1. Exactamente 20 anos antes eu chegava a Lisboa que era a cidade dos eléctricos. Como morava entre Campolide e Campo de Ourique vinha de electrico para o trabalho, ia de eléctrico para a Escola à noite e ia de eléctrico para o futebol ao domingo. O 5 para a Luz, o 16 para Belém, o 18 para a Tapadinha e o 2 para o estádio de Alvalade. As ruas estavam sossegadas mas as prisões estavam cheias...

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  2. Essa é uma grande verdade, jcfrancisco...
    Nos anos oitenta as minhas noites passavam-se entre o Largo da Misericórdia, o João Sebastião Bar e a Trindade...
    Depois era apanhar o último combóio no Cais do Sodré, dormir a correr, tomar um duche e ir trabalhar...
    Era muito agitado, mas tenho saudades.
    BOm fim de semana

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  3. Fascinante era também o movimento das cestas com as lancheiras do pessoal da Carris que passavma de mão em mão, de electrico para eléctrico. No Rato passavam e paravam o 22, o 23, o 24, o 25, o 26, o 29, o 30 e o 5 que vinha de Benfica para o Carmo. Essas cestas com a lancheira nunca se perdiam. Antes da Net eram uma rede de amizade e de simpatia.

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  4. Não foram apenas estes aspectos que falas, que afastaram as pessoas de Lisboa.

    Se quem quer comprar casa (ainda hoje é assim) tem de ir para fora da cidade, isso dá cabo do coração de qualquer cidade.

    Quem manda quis transformar o centro da capital num espaço preferencialmente de serviços. Isso mais tarde ou mais cedo, paga-se.

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  5. Essa Lisboa ds anos sessenta devia ser tão diferente...

    Para o bem e para o mal, Zé do Carmo.

    Já não conheci essa Lisboa solidária, das lancheiras dos autocarros. Conheci a Lisboa da indiferença, ignorando os outros passageiros.

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  6. A agitação foi sempre crescendo, Maria.

    Os lugares iam mudando, do bairro alto para a 24 de Julho, e posteriormente para as docas...

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  7. Há realmente outros problemas sociais, que vou focar numa outra crónica, Alice, que desertificaram o centro da cidade.

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  8. Como eu gostava do bulício da "Baixa", do Grandella, dos Armazéns do Chiado, dos cinemas, das pastelarias, de subir a Rua do Carmo e entrar nas sapatarias, nas discotecas (que eram lojas de venda de discos...),
    de comprar tecidos a metro, quando havia quem os costurasse e até de ver os "sinaleiros" a orientar o trânsito...E dos cisnes, nos lagos da Avenida da Liberdade.
    E de tudo isso e outras coisas, o que mais sinto é o desaparecimento de todas as grandes salas de cinema.
    Para mim, a Baixa morreu com o incêndio do Chiado.

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