quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Os Pêssegos da Avó Maria

Quando chegar o Verão havemos de voltar ao rio, de manhã cedinho, para comermos pêssegos maduros, ainda húmidos do orvalho da manhã, ou então escolheremos o fim da tarde para regarmos a horta, só para sentirmos o cheiro da terra molhada.
Os pêssegos do rio são os melhores pêssegos do Mundo e para o confirmar basta tactear-lhes a pele, de seguida abri-los com cuidado para que não se perca uma gota sequer do seu suco e só depois trincá-los, para apreciarmos em toda a plenitude o seu cheiro e o seu sabor.
Lindos por fora na sua pele rosada que qualquer mulher gostaria de imitar - pele de pêssego com se diz de uma pele jovem - lindos por dentro no carmim da sua concha, cujo negativo o caroço imprimiu, os pêssegos do rio foram criados para saciar bocas gulosas, mais do que estômagos famintos, e foram estes pêssegos que eu procurei sempre de cada vez que comi pêssegos ao longo da minha vida, mas raramente os terei voltado a encontrar.
Os pêssegos melhores do Mundo são os pêssegos do rio Torto, mas posso garantir que, dentre eles, os melhores são os pêssegos da avó Maria, no rio do Gato, um trecho do mesmo rio, que o rio da minha terra é um rio de muitos nomes, à medida que passa por nós ou nós por ele, nas curvas do seu destino.
Parecidos com os pêssegos da Avó Maria só as maçãs do José Francisco que ele trazia do Oeste, para oferecer à Fernanda, a nossa e não a outra, nem enormes, nem pintadas, mas que, na modéstia do seu tamanho, enchiam logo todo o espaço á sua volta com o gosto antigo da maçãs de cheiro.
Vamos então ao rio apanhar pêssegos, enquanto o orvalho da manhã os conserva frescos, e assim os teremos no mais vivo da sua cor, no mais intenso do seu perfume, no mais requintado do seu sabor!
Vamos a pé, pelo caminho velho, à ida pelos seus atalhos, pois é a descer e todos os santos ajudam, à vinda, mais devagar, por cada uma das suas curvas que ainda havemos de reconhecer, apesar de o mato ter feito um enorme esforço para apagá-las.
Quando chegarmos, uma ligeira brisa há-de agitar a folha espessa dos salgueiros, um marantéu que é o mais lindo de todos pássaros, há-de cantar num dos seus ramos mais altos, enquanto debica a primeira refeição do dia e o feno das margens há-de cheirar à roupa lavada que, na véspera, ali esteve a corar. Se tivermos sorte, esquadras de libelinhas hão-de voar ao rés-da-água e com elas vamos espreitar o fundo do rio, de calhaus rolados e água pura.
No próximo Verão havemos de voltar ao rio, para nos emocionarmos com a sorte dos pessegueiros que já ninguém cultiva e para lamentarmos que tenha desaparecido das vargens o cheiro fecundo da terra regada.
No próximo verão, uma última vez !


Este bonito texto da autoria de Joaquim Nascimento está ilustrado com a "Ponte Rústica de Colares", óleo da autoria de Alfredo Keil.

9 comentários:

  1. Nostálgico e sentido.
    Continua o bom gosto - texto/imagem.

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  2. Gostei de tudo e mais que tudo da expressão «havemos de voltar». Porque é isso que se sente nestes textos onde se ouve a voz da terra. Fazendo uma ponte que, como numa oração, une de novo dois tempos e dois mundos separados pela distância, pela angústia e pela morte. Escrever é também isso...

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  3. Mais uma estória muito bonita...
    Pena que não consiga ver a imagem...

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  4. Tens razão, Sininho.

    Joaquim Nascimento está de parabéns.

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  5. É uma história de um país que começa a existir, quase só na nossa memória...

    O que deixámos fazer à agricultura, a troco de milhões de euros, foi um crime, Zé do Carmo.

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  6. Parece que está difícil olhar as imagens...

    Ás vezes acontece, Maria...

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  7. muito bem... que pena que não é Verão, se nãoa proveitava a viagem para degustar os ditos pêssegos...

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  8. Deixa lá, daqui a uns dias já é Verão...

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  9. Havemos de voltar. E voltamos sempre que nos pomos a pensar, e às vezes temos medo de voltar, porque no fundo da lucidez mais crua, sabemos que não encontramos no rio aquilo que só podemos manter nas margens da nossa mais profunda memória.

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