sábado, fevereiro 24, 2007

O Barbeiro das Avenidas Novas


O senhor Araújo foi um barbeiro bem sucedido, pela tenacidade, pela competência e pela parcimónia, qualidades que trouxe da sua Beira natal e praticou até ao último dia.
Começou como empregado numa barbearia popular de Alfama, onde aperfeiçoou os conhecimentos rudimentares da arte que aprendera na aldeia e não tardou muito que se tornasse proprietário do estabelecimento.
Ali, foram seus clientes os fragateiros, os estivadores, os bufarinheiros e outra gente da beira-rio, mundo estreito para si, até que se mudou para as avenidas novas - bom dia senhor doutor, boa tarde senhor engenheiro - três cadeiras, manicura, engraxador e tabuleta.
Alfama foi também o meu bairro na segunda metade dos anos sessenta, mas só nas avenidas novas o conheci e durante mais de trinta anos lhe confiei o meu cabelo, retinto e forte, nos primeiros tempos, encanecido e ralo, por último.
Barbeiro à antiga - cabeleireiro de homens que é lá isso, meu amigo?! - olhava com desconfiança para as novas tecnologias da profissão que aceitava a contragosto depois de testadas pelo seu empregado de sempre, o senhor António, mas se fosse ele a mandar, a tesoura continuaria a ser a extensão natural do seu braço, com o som ritmado e sonolento de sempre, e as lâminas descartáveis – um desperdício, meu amigo, nada que chegue a uma navalha bem afiada! - escusavam de ter aparecido.
Mas não pensem que esta barbearia era obsoleta ou retrógrada, pois o senhor Araújo era um homem de brios e não aceitaria ficar atrás dos outros, nem permitiria que nas bancadas do seu estabelecimento faltasse qualquer dos instrumentos modernos da profissão.
O senhor Araújo tinha uma farta cabeleira branca, impecavelmente penteada, o que acentuava a elegância do seu porte e, por si só, o recomendava a qualquer cliente.
Quando lhe perguntei o segredo - que champô, que creme, que loção - intimamente desejoso de vir a ter uma cabeleira parecida:
- Sabão, meu amigo !
- De seda, senhor Araújo?
- De seda?! Azul, meu amigo, azul!.
Aqui há anos, já perto dos 80, o senhor Araújo teve apalavrado o trespasse do seu estabelecimento, tendo finalmente admitido que era tempo de descansar e de regressar à terra, onde tinha uma mansão que só abria uma vez por ano, na semana do padroeiro, que o seu estabelecimento patrocinava.
À medida que se aproximava o dia da escritura, o senhor Araújo começou a andar nervoso, ficou mesmo doente e, sem olhar ao prejuízo, devolveu em dobro o sinal que tinha recebido.
- Pensando melhor, o que é que eu ia fazer com o dinheiro, meu amigo?
O senhor Araújo cortou-me o cabelo pouco antes de eu ir de férias - assim curtinho, parece mais cheio e dá menos trabalho – e quando voltei passado um mês, encontrei uma cadeira vazia:
- Não me digam que o senhor Araújo sempre foi de férias ?!
Mas não, o senhor Araújo não tinha ido de férias, o senhor Araújo deixara-nos definitivamente num dos domingos anteriores, ia a caminho de casa ao volante do seu velho Taunus, depois de ter passado pela barbearia, para ver se tudo estava em ordem.
Faleceu
in itinere, diria um dos seus clientes versado em leis e, se o conhecesse bem, descontar-lhe-ia o facto de ser dia de descanso semanal.
Com a receita do sabão azul, o senhor Araújo augurou-me um cabelo farto até ao fim dos meus dias. Já o desonerei desta promessa, mas às vezes me apeteçe-me cobrá-la do seu genro, agora que finalmente é ele o patrão e o meu cabelo vai ficando cada vez mais ralo:
- Então, senhor Carlos, já não se cumprem as promessas?
O senhor Araújo quis ser cremado e dispôs que suas cinzas fossem espalhadas na serra mãe, a Gardunha, onde nasceu, granjeou a terra e guardou o gado, era ainda criança e muito dura a vida.
Foi um sábio, o senhor Araújo, na sua Arte, na sua Vida e na sua morte!


Mais um excelente texto de Joaquim Nascimento, que desta vez tem dedicatória: «Para a minha filha que me deu o mote.» A fotografia do Marechal no barbeiro é de Eduardo Gageiro.

12 comentários:

  1. Um texto belíssimo que recomendo aos antropólogos em especial. Qualquer dia deixa de haver barbeiros como espaço social, como lugar de encontro. Pode ser um bom princípio para uma tese de mestrado, quem sabe... Ainda bem o autor deste texto e de outros anteriores aqui colocados se resolveu a tirar da íntima gaveta estas prosas cheias de poesia. Todos ficamos a ganhar...

    ResponderEliminar
  2. Bonito texto de memórias, afectos, mortes e vidas em nós. Que ficam, como seda ou sabão azul, e nos dão o conforto de cabelos que mesmo mais ralos permanecem.

    ResponderEliminar
  3. Mais uma profissão ameaçada, com os cabeleireiros unisexo...
    Bom trabalho o daquele barbeiro, que conseguia deixar algum do cabelo do Senhor Marechal para que ele pudesse puxar uma reservas...
    Gostei muito deste texto.

    ResponderEliminar
  4. Sim, há de facto grandes alterações na sociedade, Zé do Carmo...
    Já nem se deve discutir futebol no barbeiro com a intensidade de outros tempos...

    ResponderEliminar
  5. É de facto um belo texto de memórias, Paula...

    ResponderEliminar
  6. Pois é Sininho, a modernidade está a dar cabo de uma série de profissões catitas...

    As profissões de barbeiro e de taxista são das que exigem maior cultura geral, para tornar possível o diálogo com gente tão diferente, nos gostos e saberes...

    ResponderEliminar
  7. Que me desculpe o barbeiro da foto e o amigo Gageiro, mas a figura o Araújo, ao pé da deste honrado barbeiro, era a de um verdadeiro lord inglês, mesmo considerando que o seu traje de trabalhio era uma bata curta que sempre quiz verde a mesma cor da "baeta" que punha aos omboros dos seus clientes, em memória do tempo em que foi um lagarto totalmente sectário. Devo ao senhor Araújo e à sua memória uma fotografia dele próprio no seu estabelecimento para desfazer confusões. Tenho assim que voltar um dia ao senhor Araújo.
    Obrigado
    Joaquim nascimento

    ResponderEliminar
  8. E.T.
    E que me desculpe o General que li com esperança em "Portugal e o Futuro" perdoando ao seu monóculo o facto de me ter apurado para a tropa no princípio dos anos 60, era já coronel.
    Joaquim Nascimento

    ResponderEliminar
  9. Não sei o que será deste barbeiro, trinta e alguns anos depois...
    mas concerteza que tanto ele como o Gageiro, não se incomodam com as diferenças do salão e do estilo do senhor Araújo...

    ResponderEliminar
  10. Para quem já foi distinguido com o privilégio de ler estes textos em primeira mão só resta o lamento de não não serem publicados, por editor escrupuloso, para que não se perca para além destas perdas irreparáveis a irreparável perda da sua memória.

    ResponderEliminar
  11. Pois... é a velha questão de sempre, Rui, das portas que se abrem só para alguns, nas editoras do costume.

    ResponderEliminar
  12. Boa tarde, alguem sabe onde se situava esta barbearia e se ainda existe?Procuro uma barbearia para iniciar o meu trabalho e, tendo em conta o historial, cativou-me...obrigada

    ResponderEliminar