sexta-feira, setembro 30, 2016

Os Livros não Querem Ficar para Trás...

Ontem falei aqui da importância do cinema nas nossas vidas, e nem de propósito, recebi logo uma lição durante a leitura da "Tenda dos Milagres"...

Jorge Amado ao caracterizar a personagem principal colou um espelho à minha frente, de repente senti-me Baiano: «Archanjo era solicito e gentil, jamais humilde, reverente ou adulador - assim é o povo da Baía. O homem mais pobre da cidade é igual ao mais poderoso magnata, em seu orgulho de homem; e é com certeza, mais civilizado.»

Graças ao meu pai, desde cedo aprendi que não sou mais nem menos que ninguém, quanto muito serei diferente... E nunca gostei de adular e ainda menos de ser bajulado. Quando ao ser solicito e gentil, essa parte herdei da minha mãe...

(Óleo de Steven Christopher Seward)

quinta-feira, setembro 29, 2016

O Cinema Continua a Ser um dos Nossos Melhores Espelhos


Sempre gostei muito de cinema.  Já o devo ter dito aqui, mais que uma vez.

Ainda me recordo dos primeiros filmes animados que vi no "Cine Pinheiro Chagas", dobrados em português do Brasil (foi por isso e por existir o Zé Carioca que durante a infância pensava que o Walt Disney era brasileiro).

Continuo a pensar que o cinema me ajudou mais a crescer que os livros. Até por ter deixado quase de ler na parte final da adolescência e começo da idade adulta.

Os nossos primeiros contactos com o bem e o mal -  pelo menos de uma forma explicita - aconteceu  com os filmes. Experimentámos pela primeira vez o sentimento de injustiça e de abuso de autoridade com os westerns ou policiais, que nos fizeram querer vestir a pele de "índio" ou "ladrão", e não de "branco" ou "polícia".

Com o amor e com o sexo aconteceu a mesma coisa. Até por ser uma coisa que não era normal falar-se em casa...

Mas além de também funcionar como "escola", continuo a pensar que cinema é um dos nossos melhores espelhos, com mais ou menos exageros...

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, setembro 28, 2016

Voltar a Ler Jorge Amado...


A Biblioteca da Incrível Almadense (onde colaboro como "bibliotecário"...) de vez em quanto recebe livros que faziam parte do espólio de antigos associados, que quando partem, deixam os familiares sem saber o que fazer com estas "heranças" (por falta de espaço e também por falta de interesse...). 

Muitos lembram-se da Incrível e vão saber se a Colectividade Almadense recebe livros. Por uma questão cultural, nunca se diz que não. E quando passo por lá dizem-me que há uns sacos com livros a precisarem de ser arrumados na biblioteca...

Como gosto de livros, é sempre um prazer manuseá-los e arranjar espaço para eles nas estantes, onde se sintam mais apresentáveis...

Claro que nem todos os livros estão em boas condições. No último lote que recebemos, um exemplar da "Tenda dos Milagres" de Jorge Amado estava completamente descolado, com quase todas as suas folhas soltas. Parecia irrecuperável mas pensei logo em armar-me em "encadernador" e dar-lhe uma segunda vida. Trouxe-o para casa, e depois de o "salvar" , folhei-o, para ver se estava preparado para novas leituras. Apesar de ter umas letras minúsculas, piscou-me o olho com alguma lata e já vou na página oitenta e dois.

Há alguns anos que não lia Jorge Amado, embora ele continue a ser o autor brasileiro que mais li e um dos meus preferidos do "país irmão".

E posso dizer que tem sido uma maravilha este regresso ao realismo mágico baiano, com o Jorge a dar vida a Pedro Archanjo, que  tentou aproveitar o bom da vida, sem ter de se desviar do seu caminho. Está ali o povo brasileiro, capaz de sorrir e de desafiar todas  as amarguras do dia a dia, por acreditar que tem sempre uma "tenda dos milagres" à sua espera...

terça-feira, setembro 27, 2016

«Passávamos o tempo na rua a jogar à bola.»

Hoje quando fui levar a minha filha à escola ela perguntou-me se tinha jogado futebol quando era pequeno.

Disse-lhe a sorrir que joguei quando era pequeno e quando era grande.

E depois voltei à minha infância e disse-lhe que no bairro onde cresci «passávamos o tempo na rua a jogar à bola.» Recordei os baldios que transformávamos em campos de futebol, como o campo de "terra preta" que nos pintava as pernas e que irritavam a avó, que ameaçava proibirmo-nos de ir brincar para a rua detrás...

Já de regresso pensei que em nome da "segurança" e da "especulação imobiliária" foram-nos roubando a rua e hoje é raro vermos crianças a brincar fora de casa (excepção para os espaços criados para esse efeito...).

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, setembro 25, 2016

Quando Quem vê Caras Pensa que vê Corações...

Embora nem seja coisa que me deixe incomodado, reparo que um dos pedintes habituais das paragens do metro de Almada é selectivo. Só pede esmola a mulheres e dá preferência às que têm idade para serem suas mães, embora na falta de "mamãs", também peça uma moedinha a alguém com cara de "irmã caridosa".

Olho-o, discretamente, na sua tentativa de arranjar uns cobres para o vicio que quase já lhe roeu a carne toda. 

Embora seja insistente junto das mulheres que percebe ficarem na dúvida (dou, não dou, ajudo não ajudo...), nunca é mal educado.

E eu continuo à espera que ele um dia me peça uma moeda...

(Fotografia de Elliot Erwitt)

sábado, setembro 24, 2016

Quando se "Inventa" para Ficar na História...


A história de Almada saltou para cima da mesa do café (tal como tem acontecido tantas vezes...) e na defesa dos meus pontos de vista e da história local, acabei por de alguma forma chamar mentiroso a um dos meus companheiros de "tertúlia". Sei que era mais simples ter dito que a verdade não era bem assim, mas em algumas coisas sou demasiado intransigente.

A minha experiência - primeiro como jornalista e depois como historiador - de quase três décadas, faz com que apanhe um "mentiroso" com relativa facilidade. Basta fazer duas ou três perguntas sobre o mesmo tema, para encontrar contradições. Ou estão estar a par dos factos (o que aconteceu...).

É por isso que sempre que quero saber coisas do passado, recorro normalmente a duas ou três fontes, que são de uma honestidade rara. 

Claro que quem "mete os pés pelas mãos" nem sempre o faz por mal. A passagem do tempo faz com que muitas pessoas não tenham a noção de que já se passaram décadas e décadas sobre determinado acontecimento, é isso faz com que se enganem com relativa facilidade na data, e por vezes até do local. Mas pior são  mesmo as pessoas que gostam de se meter dentro da história. Fala-se sobre determinado acontecimento e a primeira coisa que dizem é, «eu estive lá», quando lhes era impossível estarem presentes fisicamente, por serem demasiado pequenos,  por residirem noutra cidade ou até por ainda não serem nascidos...

Eu sei que por vezes é difícil resistir à tentação, de ficarmos na história, mesmo que esta nos tenha passado ao lado. Espero ter sempre a lucidez suficiente para ser um autor e uma fonte credível...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, setembro 23, 2016

É Sexta-Feira...

Sexta-feira sempre foi um dia desejado, porque teve a sorte de ficar à porta do fim de semana.

Embora não tenha um patrão definido, nem trabalhe das nove às cinco, há sextas que me apetecem mais que outras. Esta é uma delas.

Não que tenha previsto alguma coisa especial para amanhã ou para domingo. Mas sim porque me sinto cansado. Começou a escola e como sou o "despertador" cá de casa, isso significa levantar mais cedo e estar na rua ainda antes de "a vida começar"...

Há pelo menos uma vantagem  em todas estas mudanças, a manhã começa mais cedo e como é mais produtiva (sempre aproveitei mais as manhãs que as tardes...), ficamos todos a ganhar.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, setembro 22, 2016

Segredos que não são Segredos...

Todos nós sabemos coisas sobre os outros que se ficam pelas conversas entre amigos, nem sequer são para espalhar aos sete ventos, muito menos para serem soprados para jornais ou revistas. Pertencem a uma palavra que nos estão a querer roubar, de mil e uma maneira: a privacidade.

O problema é que a palavra privacidade não rima apenas com outra palavra, que ainda nos devia ser mais querida, a liberdade. Ambas têm um trajecto de vida em comum muito rico, mesmo que nem sempre se pense ou fale no assunto.

Poderia dar muitos exemplos, desde essa coisa ridícula que agora anda na moda, chamada "burquini", mas que não pode, nem deve ser proibida, muito menos no país da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", aos telemóveis e à internet, que começam a saber quase mais do que nós, ao ponto de conseguirem transmitir a terceiros não só a nossa localização, mas também a nossa ocupação...

Todas estas mudanças na sociedade só deveriam valorizar a tal palavra, privacidade, que cada vez tem menos espaço na nossa vida (pelas "invasões" a que nos deixamos submeter diariamente...). É por isso que não consigo entender que alguém que foi director de jornais possa escrever um livro em que o tema principal é a vida privada dos outros, neste caso particular, políticos. Quando se dirige um jornal vive-se num clima de "guerra diária", entre o que se pode ou não publicar. Questionam-se muitas coisas; se a notícia "tem pernas para andar", se as fontes são credíveis, se foi feito o "contraditório" (algo que parece já não se usar...), etc.

É por isso que só entendo que alguém publique um livro do género por duas razões: para ganhar dinheiro (sim, o livro vai vender muito, as pessoas que normalmente dizem que não o vão ler, são as primeiras a irem às livrarias e a levarem-no para casa, à procura das páginas mais escabrosas...) e para ser notícia de jornal. Como não acredite que o senhor esteja "falido", só pode mesmo querer ver a fotografia nos jornais e revistas e ser falado e comentado  por milhões (mesmo que seja da pior maneira...) nas redes sociais.

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, setembro 21, 2016

Fugir do Nome das Coisas...


É um lugar comum dizer que a Língua Portuguesa é extremamente rica. Riqueza que os ingleses, franceses, alemães ou espanhóis, também encontram, com toda a certeza, no seu "mundo de palavras". 

O que é certo é que descobrimos sempre formas e usos para evitar os chamados "choques frontais", quanto muito damos o flanco e lá surge uma vez por outra um "choque lateral"...

É por isso que se faz tanto o uso da ironia e das metáforas, até mesmo nas notícias dos jornais, que deviam ser objectivas e "servidas a seco", de preferência.

Toda esta introdução para falar da literatura, aliás, dos seus autores, ou para ser ainda mais específico, dos "críticos". De um mundo onde fiquei a saber que existem pelo menos três divisões: os escritores, os escritorzinhos e os escritorzecos. O mais curioso foi perceber que se podem colocar praticamente todas as pessoas que escrevem apenas nestas "três assoalhadas".

Quando pedi que fossem mais longe, até por ser parte interessada (mesmo que escrevesse apenas nos "campeonatos distritais"...), foi um pagode. Até porque a escolha era guiada sobretudo pela opinião pessoal que aquela mesa de "críticos" tinha de quem escrevia, a valia da sua obra era um assunto de importância menor. Ou seja, os "escritorzecos" acabaram por ter a lista literária mais extensa, cabendo aqui e ali até um ou outro candidato ao Nobel. Os "críticos" até se acotovelavam para colocar lá mais um escritor, mesmo que fosse apenas pela maneira de vestir e de andar, entre gargalhadas e palavras jocosas.

Ou seja, devo ficar sempre de pé atrás se me chamaram "escritorzinho". Mas pior, pior, é ser considerado um "escritorzeco"...

As coisas que se inventam para fugir do nome das coisas...

(Óleo de Georg Grosz)

terça-feira, setembro 20, 2016

De Vez Enquanto lá Aparece o País Velho...

Foi impossível passar ao lado da alegria do homem que contava a toda a gente que tinha assistido ao jogo do Benfica ao lado de um dos médicos que o tratara no hospital. A felicidade que ele sentia por ter descoberto que o doutor também chamava nomes feios ao árbitro e aos jogadores adversários...

Pensava que já não existiam pessoas assim. Pensava...

De vez enquanto lá aparece o "país velho", do povo e dos doutores e engenheiros...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, setembro 19, 2016

Olhar para o Futuro e Ver Nada...

Eu sei que o Chico tem razão, o futuro não existe. Mesmo que esteja a apenas um segundo de distância das minhas palavras.

É por isso que também sei que o futuro pode ser uma coisa melhor ou pior, dependendo do nosso presente...

E olhar para as portugueses e para Portugal não ajuda nada. Olho e  perco a vontade de ditar soluções para isto ou para aquilo, entre passado, presente ou futuro. E começo a falar um pouco mais baixo.

Não sei até que ponto me deixo influenciar pelo facto de ter em casa um filhote de dezoito anos, sem saber muito bem o que quer do futuro. E o pior é que tenho a sensação de que o futuro ainda quer menos com ele...

Se ficar, pode acabar o curso e depois candidatar-se à condução de um "tuk-tuk" a um emprego na restauração ou na hotelaria. Mesmo que perceba que não se pode encher a cidade destas "motoretas", nem fazer de cada número de polícia um café, um restaurante, um hostel ou uma loja de "recuerdos". Porque isso parece-me não ser solução para coisa nenhuma.

Mas talvez este país esteja a caminhar para não ser " coisa nenhuma" e também para não ser "para ninguém". 

É possível que alguns empresários acreditem que a (sua...) "galinha dos ovos de ouro" é ficarmos por cá a fazer apenas parte da felicidade dos outros, esses todos que chegam do mundo inteiro com dinheiro para comprar quase tudo, até a nossa dignidade (se deixarmos...). 

Estes "empreendedores" têm os olhos cheios de cifrões e pensam que os portugueses como são simpáticos e gostam de ajudar os outros, que vêm de fora, são o povo "eleito" para  os servir (perto do que se entendia noutras épocas por "escravos" , embora devam continuar a ter a a mania que são cidadãos livres...).

(Fotografia de Alfredo Cunha)

domingo, setembro 18, 2016

Passear e Fotografar Lisboa

Hoje andei a passear por Lisboa na parte de manhã.

E embora tenha passado por ruas que me são familiares, descobri vários motivos de interesse como a casa do "Manel Barbeiro" (na zona da Bica), com um horário muito peculiar, muito virado para os clientes da "vida artística"...

E não levem a loura a sério, porque é uma "Marylin" a brincar...

(Fotografia de Luís Eme)