Depois entrei no metro, cheio de gente (devem andar a espaçar os horários, para que as pessoas fiquem mais "unidas"...) e fiquei por ali a pensar, até porque entretanto passou um ceguinho com garrafa de plástico numa das mãos, cortada ao meio, a pedir moedas ou notas.
Para conseguir sobreviver neste mundo, tinha de andar nos transportes e nas ruas a expor a sua fragilidade maior, em busca de almas sensíveis, que lhe enchessem a bolsa que trazia a tiracolo de moedas...
A ideia que se colou a mim, foi a aparente dualidade que surge em quase tudo, quando queremos simplificar demasiado as coisas: branco, preto, verdade, mentira, gordo, magro, alto, baixo, triste, alegre, e poderia continuar, quase numa lengalenga, sem aprofundar qualquer questão.
Muitas vezes escondemos as nossas fragilidades, porque queremos mostrar que somos pessoas iguais às outras, preparadas para andar por aí, nas "batalhas urbanas". Ou seja, somos o contrário dos "coitadinhos", que se alimentam das suas aparentes dificuldades (muitas vezes postiças, a televisão hoje vive muito disso...).
Claro que não estou a meter neste plano o ceguinho, que para comer uma sopa, tem de andar de mão esticada, porque sei que as coisas nunca são assim tão simples, com apenas dois lados, como as moedas...
(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)
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