domingo, janeiro 31, 2021

«A culpa não pode morrer solteira»


É em alturas como a que estamos a viver que ficamos a perceber que há demasiadas pessoas a exercerem funções governamentais e institucionais, sem a devida capacidade profissional e humana. Além de não serem competentes, não são responsáveis, muito menos justos ou solidários.

Acabamos todos por ser vítimas destes "elefantes", que passam os dias a "partirem louça", umas vezes sem terem a mínima ideia do que estão a fazer, outras, para mal dos nossos pecados, a saberem bem demais o que fazem, deixando que os seus interesses pessoais se sobreponham aos colectivos.

Estou convencido que isto só mudará quando os partidos (todos...) deixaram de funcionar como "agências de emprego", colocando os "seus" em funções onde a competência e a seriedade deviam estar acima da velha desculpa esfarrapada a que chamam: "confiança política".

Em grande parte é isto que explica a falta de planeamento e de prevenção dos nossos governantes, assim como a sua inacção, e claro, os demasiados atropelos ao que entendemos por senso comum, sem esquecer o compadrio e o amiguismo, que os leva tantas vezes a "fecharem os olhos" a problemas que nos afectam a todos, na saúde, na educação ou na justiça.

Sei que esta pode não ser a altura certa para se fazerem mudanças, mas num país normal, os ministros da administração interna, da justiça e da saúde, já tinham pedido a demissão e sido substituídos.

Como uma vez disse um ministro ao pedir a demissão: «A culpa não pode morrer solteira.»

(Fotografia de Luís Eme - Setúbal)


sábado, janeiro 30, 2021

Precisamos Mais do que um Polícia em Cada Esquina...


Não estou a falar das ruas, embora ontem dois polícias provocassem alguma agitação na minha rua sossegada, ao perseguir meia-dúzia de miúdos de cor, que "ocuparam" o polidesportivo ao ar livre que fica no final da rua das traseiras, para fazerem o que mais gostam, jogar à bola.

Eles tentam fingir que está tudo normal, não usam máscaras nem distanciamentos entre eles. Talvez se desculpem com o facto de estarem ao ar livre... mas nem é sobre eles que quero falar (muito menos sobre os imbecis que se fecham dentro de restaurantes aos magotes).

É sobre a decisão governamental de tornar mil políticos prioritários na vacinação contra o vírus... Talvez seja uma medida profilática para evitar que os muitos "chico-espertos" com cartões partidários dos dois partidos do costume - que já começaram a usar os seus cargos e o "poder" para se colocarem à frente da fila, deixando para trás os que estão no terreno a cuidar dos doentes - sejam apanhados na curva. Ou seja, é uma forma de "validar" o caciquismo praticado pelos "calixtos" das cidades, vilas e aldeias deste pobre país, que continuam a achar-se acima de todos os outros, e até da própria lei.

Sinto vergonha desta gente, cuja falta de carácter e de dignidade, faz mais pelo crescimento do populismo no nosso país, que qualquer discurso do pseudo-líder da extrema direita.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 29, 2021

"Refúgios" e Tempos Diferentes...


Estes tempos de pandemia acabam por acentuar as nossas diferenças de hábitos e gostos, por sermos forçados a partilhar mais horas do que estávamos a contar, com os nossos filhos e  companheira ou companheiro com quem escolhemos viver, fechados em casa.

Enquanto leio livros nas horas mortas, eles viajam por aqui e ali, quase sem perderem de vista aquele rectângulo, mágico e viciante, muito maior que o meu, que continuo a usar apenas como telefone.

Há dias que falamos mais, outros menos. Quase nunca discutimos, talvez por sentirmos que estes tempos não precisam dessas "miudezas". Também é raro ouvirmos música em conjunto (a não ser que escolhamos algum programa televisivo como o "Eléctrico" ou um concerto...). Cada um ouve o que lhe apetece usando os "headphones"...

A televisão só ganha vida mais para o fim do dia... e com a indiferença quase completa dos meus filhos (até as séries já vêm no computador...). Os canais noticiosos são um suplício, ao ponto de poderem ser confundidos com "filmes de terror", sobre hospitais, médicos, doentes e bombeiros. Quem está no sossego do lar chega a duvidar que aquilo esteja mesmo a acontecer "lá fora", que dia após dia, o número de vitimas continue a subir, como se nada fizesse sentido, nem mesmo a "nossa prisão" voluntária...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, janeiro 28, 2021

Vestígios do "Estado Novo" em Almada...


Nunca fiz a leitura da placa do "Castelo de Almada", como hoje, talvez por nunca me ter debruçado muito sobre ela...

E cheirou-me tanto a "Estado Novo"... Sim, duas mentiras daquelas que eram "fabricadas" para encher o peito do povo...

Pois é, nem os homens são de aço nem as muralhas do "castelo" são de granito. Mas que aquilo pegava, pegava...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, janeiro 27, 2021

Quase "Metáforas" de uma Caminhada...


Como já escrevi por aqui, dia sim dia não faço uma caminhada entre os 45 minutos e a hora e um quarto. Escolho percursos onde sei que quase não me cruzo com pessoas, quando abandono o espaço urbano.

Ainda na "aldeia" achei curioso que à porta de um café estivessem cinco pessoas, sem máscara, a fumar, e a dizer mal do governo, em relação ao combate ao "covid 19". O seu exemplo foi pragmático, em relação ao género de pessoas que gosta de apontar o dedo aos outros, sem se "olhar ao espelho"...

Quando já estava no "campo" ouvi vozes e do alto pude ver oito pessoas, que além de não usarem máscara não respeitavam o distanciamento. Era inevitável cruzarmo-nos, a não ser que eu voltasse para trás. Não voltei. Como viram que eu tinha máscara, quatro elementos do grupo misto colocaram a sua, os outros quatro permaneceram indiferentes embora mantivessem a distância em relação a mim. Deviam ter menos de 30 anos e falavam inglês uns com os outros.

Também me cruzei com um cão (é esse mesmo, o da fotografia...), que tal como eu, passeava "sem dono".  E o cuidado que ele teve com o distanciamento quando passou a meu lado...

Para variar, ao longo do percurso que fiz, encontrei quase uma dezena de máscaras usadas deixadas no chão. 

Este pequeno exemplo diz muito do nosso civismo e do respeito que temos pelo espaço público...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, janeiro 26, 2021

Os "Esquecidos"...


Quando se fazem contas sobre os resultados eleitorais, tratam-se os abstencionistas um pouco como os anónimos em alguns blogues (faz-se de conta que não "existem"...), dá-se o mínimo valor possível, a quem não quis exercer um dos poucos direitos que tem, de poder "mudar alguma coisa".

Sem me servir de qualquer estudo, estou convencido de que os abstencionistas de 2021 não são os mesmos de outros anos. Há muita gente de idade avançada que não votou pela primeira vez, por causa do cerco que o "covid 19" tem feito a todos nós (mas com maior incidência mortal a quem tem mais de 75 anos...). Tenho dois exemplos na família. Tanto a minha sogra como a minha mãe não foram votar nestas eleições. Ambas sabiam que o Marcelo ia ganhar com larga maioria e por isso não acharam que valesse a pena irem para filas das secções de voto, porque à partida estava tudo decidido.

Pelos resultados é fácil constatar que uma boa parte das pessoas que não foram votar votam à esquerda (o PCP e o BE valem mais que os votos no João e na Marisa, mesmo que alguns tenham "viajado" para a Ana... e no próprio PS houve quem não votasse por não querer votar à direita e não gostar da "embaixatriz"). Também se pode pensar que algumas pessoas da extrema direita devem ter votado pela primeira vez (especialmente os jovens...) em eleições, por finalmente se sentirem "representados" por alguém.

Ou seja, estas eleições foram de tal forma especiais, que no meu entender, não permitem uma boa parte das leituras que têm sido feitas pelos analistas e comentadores. Se no Alentejo profundo pode ter existido um voto "anti-cigano" (há muitas comunidades que se têm fixado nesta província e têm comportamentos que desagradam às populações nativas...), não acredito que isso tenha acontecido em Setúbal. Digo isto quando olho para os resultados e por saber que conheço mais de uma dúzia de pessoas que não foram votar e que habitualmente votam na CDU...

Espero estar certo. Mas como disse anteriormente, a "ameaça" veio para ficar...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, janeiro 25, 2021

Já é Mais que uma Ameaça...


O populismo da extrema-direita já é mais que uma ameaça, começa a ter expressão eleitoral.

Os resultados das eleições presidenciais de ontem à primeira vista parecem estranhos, e até absurdos, se pensarmos que o candidato xenófobo, racista, homofóbico e com alergia à democracia (para não dizer outra coisa...), ficou em segundo lugar em quase todos os distritos do país. E conseguiu ainda esta coisa curiosa de ter obtido os seus melhores resultados no Alentejo (20% em Portalegre, 16,7 % em Évora e 16,1 % em Beja), que durante anos e anos foi comunista.

Penso que não é o caso de "os extremos tocarem-se", como me disse, com alguma ironia, um amigo ao telefone. São talvez os filhos e netos desses comunistas, desiludidos por mais de quatro décadas desta "governação a brincar", que nos fazem  pensar tantas vezes que os "taxistas" e "barbeiros" deste país têm razão. Esses mesmo, que só não ostentam a fotografia de Salazar nos seus carros e barbearias, por terem medo de perder a clientela...

Incomodou-me bastante que no meu distrito (de esquerda desde Abril...) o candidato da extrema-direita tivesse ficado com a mesma percentagem de votos da Ana Gomes. Mas como eu só tenho direito a um voto, pouco posso fazer...

O que eu gostava mesmo era que os políticos tirassem ilações destes resultados (o que mais uma vez não deverá acontecer...) e que ministros como o senhor Cabrita metessem a "viola no saco" e fossem "desafinar" para a sua casa. Mas quando Rui Rio (que pode ser quem tem mais a perder com este "avanço") teve o desplante de falar ontem à noite como um "vencedor", em toda a linha, está tudo dito...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)


domingo, janeiro 24, 2021

O Voto é um Direito de Todos Nós


Já fui votar. Como de costume na minha mesa de voto não foi necessário esperar (não sei se tem menos eleitores, sei que tem sido assim nos últimos anos, costuma ser a única que não tem filas...).

Reparei que aparentemente manteve-se tudo igual na escola secundária (é provável e desejável que existam mais mesas de voto...), com apenas uma entrada na escola, para todos os votantes.

Havia filas no interior e no exterior da escola, com a devida distância, mas que poderiam ser reduzidas, se os organizadores tivessem pensado em organizar o acto eleitoral com pelo menos mais uma entrada para as mesas de voto (e a escola tem várias...).

Nestas eleições votei essencialmente contra o candidato que não tem qualquer pejo em assumir que não respeita a constituição nem o regime democrático.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, janeiro 23, 2021

A Realidade Nunca é Muito Diferente da Ficção...


Um amigo contou-me uma vez, um daqueles episódios familiares que nenhum de nós deseja viver. Foi um episódio de tal forma marcante, que nunca mais conseguiu olhar e recordar o pai da mesma forma...

Alguns meses depois dele partir, receberam um telefonema da América estranhíssimo. No início pensaram que era engano ou uma brincadeira de mau gosto, mas pelos detalhes que lhes foram oferecidos, perceberam que ele tinha outra família nos Estados Unidos da América (uma mulher e dois filhos).  Os meio-irmãos americanos não só entraram em contacto com eles como quiseram conhecer, a "outra família", do pai.

E alguns meses depois viajaram até ao nosso país. Não foi um encontro feliz nem infeliz. Foi sobretudo estranho, para todos. Deve ter sido por isso que nunca retribuíram a visita, não sentiram qualquer curiosidade em conhecer a América que foi do pai.

Se a história dos "marinheiros que tinham uma mulher em cada porto" era exagerada, também não foi difícil concluir que havia alguma verdade dentro dela... Talvez o pai nem fosse caso único. 

"Embarcadiço", passou uma boa parte da sua vida no meio do Atlântico, ao serviço de uma companhia de navegação americana, e nos intervalos das viagens, tinha "duas casas e duas famílias", em dois continentes. Durante mais de vinte anos conseguiu dividir-se entre Nova Jersey e Malveira,  sem levantar grandes questões, embora nunca passasse de um marido e de um pai ausente... 

Confidenciou-me que os presentes bonitos que recebia, e que eram novidade, nunca foram suficientes para apagar a sensação de ter um pai, quase sempre, em viagem, à volta do mundo. Na infância e adolescência inventou muitas histórias e transformou o pai num "herói", quase ao nível dos nossos descobridores. Depois cresceu e a vida tratou de lhe devolver um pai diferente, distante (talvez saudoso da "outra família", com quem foi mais feliz...) e pouco heroico. 

Por mais que tente, não consegue perdoar a "cobardia" ao pai. Não é tanto o facto de ele ter "duas famílias", mas sim por ter conseguido levar este seu segredo para a "cova". Fez alguns interrogatórios no seio da família e percebeu que nem mesmo os seus irmãos sabiam desta "duplicidade" familiar.

Depois de se reformar o pai passou os seus últimos dez anos de vida no nosso país (só viajou uma vez para a América, para festejar o centenário da empresa onde trabalhara...). Nem este afastamento da sua família americana fez com que desabafasse com alguém sobre este dilema, que pensamos muitas vezes, que só se passa nos filmes e nas telenovelas...

Este é apenas mais um episódio que nos diz que a realidade nunca é muito diferente da ficção...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, janeiro 22, 2021

Caminhar, sim, mas sem Paragens e sem Conversas...


Sinto estes últimos dias mais parecidos com Março...

As "loucuras" do primeiro fim de semana acabaram por correr o mundo inteiro (sabe-se lá com que comentários, dos holandeses e afins...) e fazer com que perdêssemos, por algum tempo, a "beira-mar" e a "beira-rio" (nesta margem do Tejo por enquanto ainda não existem barreiras...).

Até os bancos de jardim, voltaram a ser apenas dos pombos e das gaivotas. É estranho, mas tem de ser...

Mesmo sem termos um cão, precisamos de caminhar. Faz bem ao corpo e à alma. De preferência sem paragens e sem conversas... e sem perder de vista o nosso bairro (isso é que é mais difícil de cumprir, pelo menos para mim, que não gosto de andar às voltinhas, prefiro dar uma volta grande...).

Hoje nem sequer saí de casa (estou a fazer uma marcha de pelo menos uma hora, dia sim dia não...), estive entretido a recordar meia dúzia de pormenores técnicos da minha primeira profissão (aprendiz de estofador...), ao forrar algumas cadeiras. O que acabou por ter alguma vantagem, já que me desviou do computador durante várias horas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, janeiro 21, 2021

As Mercearias de Bairro Voltaram a ser "Especiais" (será?)...


Desde o primeiro confinamento que fiquei com a sensação de que a limitação de movimentos obrigatória nos tinha "empurrado" para as "velhas" mercearias de bairro.

Quase um ano depois - e de novo confinados - dou comigo a pensar que pode ser apenas uma "coisa minha", e talvez as coisas não tenham mudado assim tanto, por esses "bairros" fora...

Posso ter sido apenas eu a "mudar"... E a voltar a frequentar a mercearia do meu bairro...

E por acaso até já escrevi sobre esta loja especial aqui no "largo" (a propósito do dono, rapaz que vi crescer e era filho da senhora que me tornou cliente, muito graças à simpatia e jeito para o "comércio", coisa que ele herdou...). 

É por isso que o que eu queria mesmo era "generalizar". Mas como não sei se é assim em todos os bairros, é melhor não "inventar". Há sempre a possibilidade de "os outros" não terem tido a nossa sorte...

Embora deva confessar que não se tratou de "amor à primeira vista". A mercearia foi-se tornando importante para nós, aos poucos. Primeiro apenas quase como "padaria" (tem um pão alentejano do Cercal delicioso...), e só depois como "loja de tudo". Como os preços não são muito altos (senti-me várias vezes "enganado" por gente que pensa que somos todos "parvos" e vendem as coisas ao dobro do preço dos supermercados e das grandes superfícies comerciais...), e a fruta e os legumes têm bom ar, é fácil levar sempre mais qualquer coisa...

Mas talvez seja a familiaridade que se vai ganhando, dia após dia (algo que só raramente se conquista com a caixa de qualquer supermercado), que torna as mercearias de bairro especiais...

(Fotografia Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, janeiro 19, 2021

É tão Importante Saber Perder como Saber Ganhar...


Mesmo sem ser sportinguista, gostei de ver o Sérgio Conceição ficar, mais uma vez, "aziado", depois da derrota na primeira meia-final da Taça da Liga.

Parece que as "corridas" em direcção ao árbitro (dos jogadores) e os gritos ameaçadores do banco de suplentes (dos treinadores, dirigentes e até do massagista), estão a deixar de surtir o efeito desejado...

Continuo a pensar que quem não sabe perder, está a mais no desporto. Porque no mundo dos desportos colectivos  normalmente existem  três resultados possíveis, a vitória, o empate e a derrota...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)