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segunda-feira, abril 06, 2026

Faz-nos muita falta ler coisas que nos façam pensar...


Há muitos anos que não lia um livro de Jorge Amado (provavelmente, há mais de trinta...). No início estranhei aquela forma "crescente" de agarrar o leitor à história, de quem não está preocupado em prender o leitor logo no primeiro capítulo, mas depois vamos ganhando confiança com as personagens e por ali ficamos até à última página. Foi assim com este "Terras do Sem Fim".

Mas não é sobre isso que quero falar, aliás escrever. Ao ler estes romances que falam sem rodriguinhos da vida das pessoas num tempo que parece estar a voltar, em que se volta a desvalorizar a vida humana e se cresce socialmente pisando e matando os outros, fico a perceber o quanto são importantes os livros que falam com crueza sobre a vida e sobre as pessoas. São eles que nos ajudam a abrir os horizontes em relação a este "novo-velho" mundo que nos cerca...

Podem ser histórias do século XIX, princípios do século XX, mas percebe-se que podem ser facilmente transpostas para o período actual que estamos a viver no século XXI. Sim, tanto Trump como Putin ou Netanyahu, podem muito bem ser comparados com os "coroneis" dos romances de Amado, pela forma como não respeitam as leis (o "Direito Internacional" tornou-se uma anedota...) e se tentam livrar dos inimigos políticos.

Faz-nos falta voltar a ler livros (ou até reportagens de revistas e jornais...), que nos façam pensar e sentir que pode existir um outro mundo, melhor para todos nós. Um mundo distante destas "matanças diárias", que só estão a acontecer pela ambição humana doentia e desmedida provocada pelo poder.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 16, 2025

"O que é meu é meu, o que é teu é nosso..."


Esta semana devolvi a chamada de um amigo (com mais de uma semana de atraso...), que me queria falar da publicação misteriosa de um dos seus trabalhos no "facebook". Até porque a sua aguarela tinha sido feita propositadamente para a capa de um dos meus livros.

Ele estranhou o facto, por calcular que se ele não tinha "oferecido" a imagem ao sujeito pequenino, que sempre foi hábil a usar as costas dos outros, para chegar ao alto das "montanhas da vida", eu muito menos.

Ficou incomodado, eu nem por isso. 

Sei que este mundo está mais do lado da "criatura", que do nosso, porque ele sempre agiu daquela maneira engraçada de que, "o que é meu é meu, o que é teu é nosso..." E, infelizmente, as redes sociais continuam adequadas à forma cobarde como ele age no dia a dia.

Claro que sabia por terceiros que "copiavam" textos e fotografias minhas e que as publicavam nestes lugares - onde o ar se torna irrespirável, mais vezes do que devia -, ignorando a autoria, como se fossem eles os seus criadores. 

Foi este sentimento de impunidade que sempre me afastou das redes sociais. Não preciso de me chatear (como acontece com o meu amigo e com muitas outras pessoas...), por estes lugares terem sido tomados por cobardes que se escondem atrás de um "nick name" e acham que podem fazer tudo, desde insultar as pessoas de quem não gostam a roubar os textos e as imagens dos outros, para "embelezarem" as suas "pocilgas"... 

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, julho 26, 2025

Os "artistas" que fazem parte do "cenário" dos políticos (quando estes estão à frente das câmaras)


Não sei como lhes chame. Na maior parte das vezes são personagens secundárias, embora também existam ministros a fazer esse papel. Por vezes parecem espantalhos, outras figurantes, mas se puderem, não falham a presença na "caixa mágica".

Ficam ao lado e atrás (mas quase encostados, para também aparecerem nas notícias da televisão...). As suas expressões são engraçadas e diversas. Uns ficam com os olhos a brilhar, como se "lambessem" todas as palavras de quem fala (ou então é a emoção de aparecer na televisão...), outros fazem cara séria, porque "aquilo não é uma brincadeira", outros sorriem, porque "tristezas não pagam dívidas", outros ainda, não conseguem estar quietos, talvez porque assim seja mais fácil centrar as atenções lá por casa, se bem que também podem ter essa coisa que chamam, "bicho de carpinteiro"...

A única coisa de que não tenho dúvidas, é que são todos bonecos, bonecos televisivos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, abril 08, 2025

A arte de "tirar o tapete debaixo dos pés"...


Não sei se é por causa do "cheiro a poder" que inunda o PSD, que não há praticamente ninguém no partido, que se mostre incomodado com os problemas mal explicados de Luís Montenegro (a excepção que confirma a regra é Poiares Maduro...).

No PS acontece o contrário, Já se cheira a "derrota", o que é sempre uma oportunidade para todos aqueles que são bons na "arte de tirar o tapete debaixo dos pés" do bom do Pedro Nuno, sairem da toca. 

É por isso que penso que é tudo menos inocente, a recusa de Fernando Medina em fazer parte das listas de deputados. Tal como a "birra" de José Luís Carneiro, de só aceitar ser candidato por Braga, mesmo indo contra a vontade dos dirigentes locais. É de "artista".

E nem vale a pena passarem o tempo a falar de pluralismo ou de democracia, para justificar as diferenças socialistas, cada vez mais evidentes, assim como o "apetite" pelo lugar de secretário-geral...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, abril 05, 2025

«Não eras tu que querias chuva?»


«Não eras tu que querias chuva?»

Não respondi, mas se calhar era, como quase todos os portugueses que passavam por rios ou barragens, com escassez de água.

Talvez agora seja o tempo de recebermos tudo em excesso. Aquilo que chamamos equilíbrio, perdeu-se há muito tempo. Agora recebes tudo ou nada...

Penso que o ser humano não nasceu para se confrontar diariamente com todos estes desafios. Não li estudo nenhum, mas de certeza que isto não faz bem à saúde mental de ninguém.

Claro que isto não serve de explicação, muito menos de desculpa, para violadores ou para os assassinos que não deviam andar por ai nas estradas, que matam e fogem...

Pois... Também é tempo dos cobardes. Há demasiados lugares que permitem às pessoas serem outras coisas (e até lucrarem com isso, com a fila enorme de seguidores...), ao ponto de se sentirem "super-heróis", e acharem que "podem fazer tudo"...

Eu sei que isto não tem nada a ver com a chuva, com rios, com barragens. 

Só tem a ver com as pessoas, com vaidades, com loucuras...

(Fotografia de Luís Eme - Constança)


sábado, fevereiro 15, 2025

É sempre a velha história, "faz o que eu digo, não faças o que eu faço"...


Olhamos para a frente, para o lado e para trás, e sentimos que a velha história, do "faz o que eu digo, não faças o que eu faço", permanece sempre actual, consegue adaptar-se a todos os tempos e a todas as gentes...

Quando o vice-presidente dos EUA vem à Europa dar lições de liberdade, quando limitou essa mesma liberdade aos nativos do seu país, está tudo dito, mostra como tudo anda de "pernas para o ar". Até agora, a falta de liberdade nunca foi um problema no velho Continente, faz parte sobretudo das Américas, das Áfricas e dos Orientes...

O primeiro-ministro há muito tempo que segue a cartilha mofa cavaquista, só lhe falta mesmo munir-se da imortal fatia de bolo rei, e mastigar as palavras, em vez de responder aos jornalistas (o que só faz quando lhe apetece e apetece-lhe muito poucas vezes, à frente das câmaras). Ainda consegue suplantar o Costa, na arte de fingir que "está tudo bem", como se não fosse ele o principal responsável pela governação...

Não deixa de ser curioso, que tenha sido uma mulher do Chega, a despertar o Parlamento, para um ano de insultos, de falta de respeito e de mentiras, de um grupo de bandalhos, que pensa que "vale tudo, menos tirar olhos", naquela que deveria ser a Casa da Democracia e não da bandalheira. Apesar de ser um partido misógino, xenofobista, racista e machista, consegue ter mulheres a disparar para os seus próprios pés e a ofender outras mulheres...

Esta frase também pode ser aplicada ao "rei do Norte", que nos deixou hoje. Embora seja dia de "dizer bem", continuo a ter a mesma opinião, que tem por exemplo, Frederico Varandas. Não esqueço o que vi nos Estádios, no começo dos anos 90 do século passado, em que reinava outra figurinha histórica dos nortes, o "guarda abel", que era de carne e osso e não uma mera personagem de ficção...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, fevereiro 10, 2025

Esta coisa de "não conseguir respeitar quem não me respeita"...


Embora possam não ser muito "católicos", há vários princípios paternos que sigo, quase sem me aperceber. Percebo, pela minha experiência de vida, que não consigo ser de outra maneira...

Talvez seja mais uma dessas coisas que nascem e ficam para sempre connosco, e das quais até me me orgulho. 

Uma das coisas que tentei passar aos meus filhos, foi um traço definidor do pai, muito simples e não menos importante, que nos foi transmitido através de palavras e actos ao longo da sua vida, de que: "ninguém é mais nem menos que nós".

Pensei nisso hoje, depois de ser atendido de uma forma estúpida, e perceber, que o facto de não me calar, iria fazer com que "pagasse com juros este meu atrevimento". E de facto assim, aconteceu, o que poderia ser resolvido em 10 minutos demorou 60... E apenas para me mostrarem "quem é que mandava ali".

Fui salvo por uma Beatriz, que embora fosse uma pessoa normal, tinha quase ar de "anjo", no meio de todos aqueles "belzebus", apostados em dificultar a vida dos outros...

Já escrevi mais que uma vez sobre todos estes "dificultadores", que adoram tornar o fácil difícil, e que parecem estar sempre em maioria nos lugares de atendimento público (não comprei nenhum pneu, a fotografia é apenas irónica, como outras que publico aqui). São quase uma "praga"...

Claro que, também sei que já não vou mudar, depois dos sessenta. Até por ser mais forte do que eu, esta coisa de "não conseguir respeitar quem não me respeita"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, janeiro 14, 2025

Um primeiro-ministro que passa o tempo armado em "chico-esperto" e a insultar a nossa inteligência


Não sei o que se passa, ao certo, em relação a uma boa parte dos nossos governantes - com especial relevo para o primeiro-ministro -, que passam o tempo a insultar a nossa inteligência, com jogos de palavras, que acabam por dizer muito de quem são e do que lhes vai pela cabeça...

Posso começar pelo dinheiro, que cada vez condiciona mais as nossas vidas. Quando um primeiro-ministro contrata um secretário-geral para o seu governo, que vai ganhar seis mil euros mensais, e tem o desplante de dizer que este "vai pagar para trabalhar", insulta quase dez milhões de portugueses, que nem um terço deste valor recebem das suas ocupações profissionais.

Mais graves são as "comparações" que tenta fazer entre as manifestações contra o racismo e a favor deste, tentando armar-se em "balança". Além da desproporção entre as manifestações e os manifestantes (a manifestação contra a discriminação racial trouxe para a rua dezenas de milhares de pessoas, de todos os quadrantes políticos - até sociais democratas - enquanto a promovida pelo Chega contou com pouco mais de uma centena de pessoas, todos racistas...).

Mas os números nem são o mais importante. A questão de fundo é comparar quem luta pelos direitos humanos e pela igualdade de tratamento entre todos as pessoas, independentemente da sua cor de pele, naturalidade ou credo religioso, com gente racista, que aproveita todas as oportunidades para colocar em causa que é diferente deles...

Embora seja um lugar cada vez mais comum, é triste percebermos que estes políticos não aprenderam nada, continuam agarrados aos mesmos vícios do final do século dezanove, tão bem caracterizados na escrita pelo grande Eça de Queirós e na arte do desenho humorístico pelo enorme Rafael Bordalo Pinheiro.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, janeiro 03, 2025

A arte com e sem "areia nos olhos"...


Continuo a visitar exposições, sempre que posso e quando os artistas me dizem alguma coisa. Às vezes também são possíveis reencontros com alguns artistas, que nos fazem a visita guiada e com que quem se fala sobre tudo e sobre nada, seja das artes ou das vidas...

Não falámos de uma forma concreta sobre a banana e a fita isoladora cinzenta, falámos sim dos "intrujas", que se têm intrometido em tudo o que possa dar dinheiro na sociedade, inflacionando, sempre que podem os valores reais de casas, carros, jogadores da bola e obras de arte, entre outras milhentas de coisas.

Mas o mais impressionante não é transformarem qualquer vulgaridade em arte, é terem a capacidade de lucrarem com ela. Sim, não é para todos comprarem uma "banana" por dez mil euros e depois conseguirem vendê-la por vinte mil...

Pois é, convém andar com óculos por aí, nem que sejam de sol, por que vai aparecer sempre alguém, a querer atirar-nos areia para os olhos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, dezembro 27, 2024

Clamar aos deuses apenas porque sim...


A igreja do líder do Chega e de outros instigadores de ódio que andam por aí, sem esquecer os muitos padres (que se guiam sobretudo pela frase célebre e cada vez mais seguida: "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço") poderá ter por lá algum deus menor, mas Jesus de Nazaré, não terá com toda a certeza.

Por muitos padres nossos, avés marias ou credos que saibam dizer, alto ou baixinho, de certeza que não chegam ao tal mundo dos justos e dos iguais, que dizem ser o paraíso.

Provavelmente, isso pouco lhes importa. Querem é andar por cá de barriguinha e bolsos cheios, a satisfazer os seus caprichos. No fundo, talvez acreditem que quando fecharem os olhos acaba tudo, por muito que olhem para o céu e clamem aos deuses...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, dezembro 21, 2024

Algo de estranho se passa no "reino da Madeira"...


Não acredito que seja apenas o medo da mudança que faz com que as pessoas continuem a votar em Albuquerque, na Madeira.

Mesmo sendo arguido, as pessoas da ilha devem ter a percepção de que continua a ser o mal menor para todas elas.

Isso acontece porque a oposição deve ser do mais "manhoso" que existe, no campo político (e são, ao ponto de terem todos vontade de se unir, só para ascenderem ao poder. Só não o fazem por vergonha...).

Em vez de fazerem pela vida nas campanhas eleitorais, parecem estar à espera de "vitórias administrativas".

Até o "bokassa", que esteve quarenta anos no poder, aparece aqui e ali, armado em "salvador da pátria", a querer vingar-se do homem que o tirou do poder...

Não tenho dúvidas, de que se Albuquerque, vencer as próximas eleições, será a democracia a funcionar, ou seja a vontade do povo.

Mesmo assim, sei que algo de estranho se passa, no "reino da Madeira"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, dezembro 18, 2024

Um argumento forte, como ela...


Cada vez nos era mais difícil dizermos que ela não era actriz.

Puxava da lista da sua filmografia, com a participação em mais de 30 fitas e nós olhávamos uns para os outros, sem saber o que dizer. Escutávamos as suas palavras, naquela sua voz muito fininha, que não resultava em televisão ou cinema, a não ser para interpretar uma qualquer personagem complexa e ridícula. Só que, esses papeis complicados, estavam destinados para os bons actores e não para meros figurantes...

Ela merecia ser confrontada com a realidade, com o facto de nesses trinta e poucos filmes, não ter dito mais de trinta palavras...

Mas para quê? Estragava-se o sonho, a ilusão, ou o que lhe queiramos chamar.

Pensava que ela não sabia como era tratada nas ausências. Estava enganado. Foi ela que me disse, para não me preocupar se ouvisse chamarem-lhe, a "actriz gorda". Acrescentando que essa era a prova de que ela era mesmo actriz...

Parecia ser um argumento forte, parecido como ela...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, novembro 15, 2024

Conversas com memórias (das curiosas e boas)...


Por motivos profissionais, por vezes cruzamo-nos com figuras públicas, e por razões óbvias, tratamos-as como qualquer outra pessoa. Até somos capazes de fingir que não vemos telenovelas ou programas de "novidades artísticas", apenas porque sim...

Conversámos sobre isso ao jantar, porque a minha filha, que dá os primeiros passos na sua vida profissional, confrontou-se com uma situação destas e disse-nos que se sentiu confortável, por ser capaz de tratar a "vedeta" como qualquer outro paciente.

Acabei por viajar no tempo e ver alguns "filmes" a passarem por mim. 

Primeiro passaram estes artistas da televisão. Nunca esqueci a cena patética de um actor que passou por mim, três ou quatro vezes no corredor de um supermercado, e em vez de ser eu a olhar para ele, era ele que não parava de olhar para mim. Não se tratou de uma cena de "assédio sexual" (duas palavras que andam na moda...), mas sim de busca de reconhecimento. Não só fingi que não o conhecia, como deixei o meu olhar ficar preso nas prateleiras deste espaço comercial.

E depois apareceu-me um outro "filme" e passaram por mim as pessoas que só são conhecidas por uma minoria, os leitores. Claro que falo de escritores. Normalmente preferem observar em vez de ser observados, pelo que têm uma postura antagónica em relação à gente da televisão, que já sai de casa com a preocupação de ser vista. 

Penso que a primeira pessoa do "mundo dos livros" que cruzou o seu olhar comigo, foi o grande José Gomes Ferreira, no Chiado, no começo da década de 80 (tinha acabado de chegar à "cidade grande"...). A sua farta cabeleira branca que o vento levantava, não enganava. Durante uns segundos olhámos um para um outro com espanto e também com vontade sorrir, como se fossemos apanhados em qualquer situação imprevista. Depois perdemo-nos na multidão, sem sequer trocarmos um bom dia ou boa tarde. Fiquei sempre com pena de não lhe dizer: "Olá "Poeta Gigante".

Acabei por recordar outros encontros. O mais curioso aconteceu com a Maria Gabriela Llansol, que estava à porta de uma livraria (também no Chiado...) e me ofereceu um sorriso, daqueles bonitos, também sem palavras. Sem fugir da zona, na escadaria do metro, na estação Baixa-Chiado, cruzei-me, recentemente, com o Mário de Carvalho, ele descia e eu subia. Também ficámos uns segundos a olhar um para o outro, mais uma vez sem dizermos uma palavra, com a tal vontade de sorrir, fruto da cumplicidade que existe entre leitor e autor.

Também podia falar do encontro na Praça Gil Vicente com Luísa Costa Gomes, onde experimentámos o mesmo espanto. Mas tenho uma história ainda mais curiosa e diferente, de todas estas, que teve como protagonista a minha poeta preferida, a Sophia. Nos anos 90 cruzámo-nos na Graça (nessa altura não sabia que ela vivia por ali...), ela vinha com um saco de compras e falava sozinha. Por ter óculos escuros, só a reconheci depois de nos cruzarmos. Desta vez não houve troca de olhares. Ela estava tão entretida a "falar com os seus botões", dentro do seu mundo, que o resto devia ser apenas paisagem. Mas pela elegância e altivez, só podia ser ela, a minha Poeta...

Só por estas "viagens dentro da minha memória", valeu a pena a conversa durante o jantar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 14, 2024

As mulheres que gostam de mulheres e os livros...


Estava a caracterizar uma personagem no meu "caderno de ficções"  e de repente comecei a dar-lhe rostos, por ser diferente de outras. 

Escrevi: A "aparição" da Leonor recordou-me que gosto de mulheres que gostam de mulheres, tal como eu. O que pareceu uma coisa estranha, foi-se tornando normal, à medida que iam aparecendo outros rostos femininos a quererem colar-se ao papel.

Não, não tinha nada de estranho, muito menos tinha qualquer relação com preferências sexuais. Olhava para elas sobretudo como pessoas. E as mulheres que se iam soltando da minha cabeça, eram "gente boa"...

O mais curioso, foi, ter recuado no tempo enquanto escrevia. Lembrei-me da Carla, por quem tive uma ligeira paixoneta (talvez por ela me dar para trás). Demorei algum tempo a perceber que ela gostava de uma amiga comum, que era muito menos feminina que ela (os seus traços físicos dominantes eram o cabelo curto, as roupas largas e um andar sem curvas na rua). Além de eu ser distraído, nessa altura - nos finais dos anos 80 -, a sociedade obrigava-as a serem discretas...

Depois lembrei-me do Francisco (José Viegas), que foi o principal responsável por o Pedro Gama (personagem principal do meu primeiro e único romance...) ter sido trocado por uma mulher, depois da sua separação. Além de bom conversador, o Francisco era um bom conselheiro. Tivemos conversas memoráveis no seu gabinete de trabalho, em Benfica, sobre livros, cinema e futebol...

Voltei ao "caderno das ficções" e pensei que tinha ido longe demais ao escrever: Claro que não falo das mulheres que têm um homem dentro delas, que cortam o cabelo à escovinha, escondem as curvas do corpo com roupas de homem e andam de forma desengonçada. 

Não, nada disso. A ficção pode, e deve ser, pura e dura. E cada personagem pode esconder dentro de si, várias pessoas que conhecemos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 03, 2024

Parece que não chegam os "50 palhaços" que estão na Assembleia da República...


Embora seja importante descodificar estes "timings" que unem a justiça a alguma comunicação social, nos "tribunais populares", os factos falam por si, tal como o papel dos seus protagonistas...

Infelizmente, ano após ano, não conseguimos sair deste registo. A falta de sentido de Estado é notória na maior parte dos políticos que estão envolvidos em processos de privatização, com os privados a fazerem sempre o papel de "espertos" e os representantes do Governo de "parvos". Muitos, de parvos não têm nada (Miguel Relvas é um bom exemplo...), outros "assinam" em branco, sem terem percebido muito bem onde estão metidos (por impreparação e incompetência, talvez seja este o papel de Pinto Luz na privatização da TAP...).

O mais grave é esta gente do "bloco central" (há poucas diferenças entre PS e PSD nestas negociatas...) ainda não ter entendido a mensagem que lhes foi dada, por uma parte do povo português, quando quase gritou, "Já chega!", e abriu a porta a "50 palhaços" na Assembleia da República...

É triste esta gente não perceber que o mundo real fica ligeiramente ao lado do mundo onde vivem...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, junho 16, 2024

O mundo com "coitadinhos" e com a "gente que só tem direitos"...


Nunca percebi muito bem a quem é que interessa um estado exageradamente assistencialista, como é cada vez mais o nosso. O problema é que à medida que vou procurando respostas, vou descobrindo interesses onde não esperava. Mas a vida é isso...

Sei que quanto mais nos viramos para a direita (a mais clássica, não a liberal...), mais se faz sentir a filosofia de um mundo com "coitadinhos", como se o mundo fosse mais bonito com pobrezinhos e estropiados. Também sei que os socialistas contribuíram para "este estado de coisas", ao evitarem resolver alguns problemas sociais que careciam de alguma urgência, roubando a dignidade a cada vez mais pessoas...

E também se mantém a ligação ao catolicismo mais conservador, que gosta que exista a "esmola", quase como instituição, alimentando a fábula de que os ricos à medida que vão distribuindo umas moeditas aos pobres, "compram" o seu espaço no céu...

Normalmente quem recebe rendimentos mínimos e afins, são as franjas que cresceram (e habitam...) em meios mais pobres, muitos, mesmo jovens, nunca chegaram a terminar o secundário. O mais curioso é a sua filosofia de vida: fazer o mínimo possível e sacar o mais possível ao estado, à igreja ou seja a quem for (fazem da pedincha um modo de vida e são capazes de ir buscas alimentos ao máximo de instituições que puderem, muitas vezes para os venderem, obrigando a que sejam criados sistemas burocráticos, que não permitam estes abusos completamente egoístas). Ou seja, fazem da "esperteza" um modo de vida (só que nós não somos todos estúpidos, como eles pensam...).

E por muito que queiramos proteger ou ajudar esta gente, rapidamente percebemos que não pertencemos a este mundo, onde as pessoas, por serem "pobrezinhas" (às vezes até parece que gostam deste estatuto...), pensam que só têm direitos e nada de deveres...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, junho 15, 2024

«Somos todos malucos. É por isso que continuamos aqui, à espera do Godot...»


Muitas vezes fico sem muitas palavras para meter nos diálogos, quando converso com amigos. Parece que fico preso àquela frase velha e gasta de que, "só sei que nada sei". 

Talvez seja por isso que gosto do depois. Sim, é o depois que me faz acordar com uma vontade imensa de escrever, no dia seguinte e nos outros, sobre as pontas soltas e as outras.

Pois é, a noite tanto é boa como má conselheira.

Aquecia o café e não me saía da cabeça a proximidade daqueles amigos teatreiros com a "Avenida do Brasil". Foi a Rita que disse, num ar alegre, com a concordância geral: «Somos todos malucos. É por isso que continuamos aqui, à espera do Godot...»

Sim, mas além da tal loucura, deve ser preciso alguma dose de marginalidade, e até ausência de amor próprio, como se sentiu no desabafo do Ricardo. A "sopa" que os alimenta, deve ter ainda mais ingredientes, para os ajudar a viver tantas vidas diferentes, esquecendo o "Eu", que é nada mais nada menos, que o primeiro rosto que encontram quando se olham ao espelho de manhã (que quase nunca é de manhã...), e dizem para ele, «estou uma desgraça», como nos contou a Ana a sorrir.

Por serem parecidos com os palhaços, tão são capazes de rir com as coisas sérias, como de chorar, a fingir, porque a personagem que encostaram à pele é ainda mais melodrámatica que eles...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, maio 06, 2024

Há coisas que não se perguntam...


Eu sei, há muitas coisas que não se perguntam. O Rui estava certo quando nos contou que ficou surpreendido com a reportagem da revista "E" sobre o doutor Carvalho (edição de 25 de Abril), figura parda da Censura e que depois da Revolução de Abril se regenerou e se tornou um simpático e generoso (para os amigos, claro...) democrata.

Conheceu a personalidade. Como também conheceu um agente da PIDE/ DGS, que era da família da companheira. Ao contrário do doutor da Linha (viveu mesmo uma "segunda vida"...), toda a gente próxima sabia do passado pidesco do senhor, que no contacto pessoal, até dava ares de boa pessoa.

Apesar de tudo isso, havia uma espécie de "muro invisível" que o separava, que fazia com que o Rui não quisesse ter qualquer proximidade com este familiar afastado, ao ponto de ser capaz de "fugir" de reuniões familiares, porque havia qualquer coisa que os separava, para todo o sempre... 

Falaram poucas vezes, de coisas banais. Embora fosse curioso (somos todos os que escrevemos...), nunca lhe passou pela cabeça perguntar o que quer que fosse sobre a sua "vidinha" de agente pouco secreto, que se assemelhava mais a "fode vidas" (a expressão é do Pedro), que a outra coisa.

Também nunca lhe disse, mas ele sabia, que o Rui era neto de um "perigoso comunista", que esteve "internado" (ainda há alguns "filhos da puta" que preferem usar esta palavra e não a de preso...) em Caxias e em Peniche...

O antigo agente da polícia política também sabia que há coisas que não se perguntam...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 25, 2024

Ontem falei de títulos, hoje falo dos nomes das personagens dos livros...


Não conheci António Tabucchi. Mas li dois ou três livros da sua autoria. Entre os quais "Afirma Pereira", que despertou alguma confusão com o nome de personagens, à hora do café. O Jorge falou da existência de um senhor Ventura nesta sua história sobre Lisboa e sobre Pessoa. Quem lera o livro não se lembrava da existência da dita personagem (eu por ser péssimo em nomes, não entrei na discussão). Foi quando o Mário trouxe outro livro para a mesa, "O Senhor Ventura" de Miguel Torga, que tinha mesmo esta personagem. 

Se li o livro, não me lembro dele nem do senhor Ventura. O Mário disse que se tratava da história de um emigrante, um português mais perto do nosso Fernão Mendes Pinto que do comum emigrante dos arrabaldes de Paris, pois era bastante curioso e não tinha medo do mundo.

A existência deste livro fez com que o Jorge mantivesse a sua vontade de nos provocar, por causa desse grande mentiroso, que lidera a extrema-direita, que até foi capaz de inventar uma história de resistência e de fuga à guerra colonial de um nosso emigrante que partiu a salto para França, em 1976, eleito agora deputado pelo círculo da Europa.

E lá cometemos o erro mais comum dos jornalistas e comentadores: começámos a falar deste pequeno caso, de mais uma mentirinha do outro senhor Ventura. O Jorge queria saber se as pessoas tinham noção de que aquele sujeito tinha dificuldade em dizer uma frase sem mentir. A maior parte de nós, achámos que essa característica era secundária na vida política, só passaria a importante se ele alguma vez fosse primeiro-ministro, defraudando as espectativas dos seus seguidores como está a acontecer na Argentina, por exemplo.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, fevereiro 19, 2024

A transformação de um debate num "Benfica-Sporting"...



Sem fugir do tema de ontem, hoje foi dia de "derby" (não há grandes hipóteses de escapar à "futebolização", graças às televisões e aos seus comentadores...). 

Foi um "Benfica-Sporting" (sei que Montenegro é portista, mas não há jogo que gere tantas paixões como este, entre os grandes de Lisboa...), com uma vitória clara do socialista, que me apetece "colar" ao Benfica, por razões pouco racionais.

Após o debate, nem mesmo os comentadores que usam mais a mão e o braço direito, foram capazes de "puxar" o líder da AD para cima, porque ele além de não responder a questões essenciais, quis "interromper", mais vezes do que devia o adversário político, usando a táctica (ainda que mais tímida...) do homem que já o apelidou de "prostituta"...

Não sei se este debate foi bom para os indecisos. Provavelmente ficaram ainda mais baralhados. Muitos estão fartos de saber que o PS não merece o seu voto (os últimos três anos deixaram muito a desejar), mas com a prestação do candidato da AD, as dúvidas em vez de diminuírem cresceram...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)