sexta-feira, outubro 15, 2021

Cinquenta Anos é Pouco Tempo...


Olho para o nosso País e reparo como cinquenta anos é pouco tempo...

É verdade que Portugal cresceu muito. Uma das coisas mais visíveis é a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Quase que se erradicaram as barracas, de Norte a Sul. A educação e a saúde tentam chegar a todos.

Onde pouco mudou foi na pequenez mental, no cinismo e no egoísmo de algumas pessoas, que fazem tudo para se perpetuarem no poder. Pouco preocupados com os outros, fazem apenas o que é melhor para eles, é por isso que lutam com todas as suas forças para manter o velho sistema desigual de "castas". 

Durante algum tempo cheguei a pensar que eram as pessoas que continuavam a ter medo de se sentirem cidadãos iguais, tanto nos direitos e nos deveres. Ingenuidade minha.

Voltando à minha primeira frase, onde se nota mais que meio século é pouco tempo, é na justiça (tribunais), na segurança (polícias) e na religião (igreja católica), onde permanecem bem vivos os velhos hábitos de estar quase sempre ao lado dos "mais fortes", como se a sua principal função fosse  manter bem visível a linha que separa o "mundo dos ricos" e o "mundo dos pobres". E com tantos "guardiões" do tempo velho, dificilmente nos conseguiremos sentir como iguais, mesmo que tenhamos uma das constituições mais avançadas do mundo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, outubro 14, 2021

Dar uma Volta com "Os Passos em Volta"...


Voltei a ler, mais de vinte anos depois, "Os Passos em Volta", de Herberto Helder, o poeta-escritor madeirense, que optou pela falta de comparência nas apresentações, feiras ou entrevistas, deixando que os livros falassem por eles próprios.

Ninguém me tira da cabeça, que nada disto foi inocente, ele devia saber que esta sua "não existência" só o poderia transformar, mais tarde ou mais cedo, numa figura mitológica da nossa literatura.

É por isso que lhe vou fazer a vontade e deixar que "Os (seus) Passos em Volta", falem...

É quase um livro de viagens. É quase um diário. É quase um poema. Quase... mas na verdade é apenas um livro de contos. Contos que comunicam (pelo menos comigo fartaram-se de conversar...), que questionam (também me perguntaram algumas coisas...). À medida que fui lendo as palavras do Herberto, fui-me sentindo "perdido", para estar ao mesmo nível dele, tentei evitar alguns absurdos e ficar apenas preso à sua linguagem, que parece, e é, simples...

A única coisa que continua a ser uma dor de cabeça é o "mundo" que vai saindo e entrando das páginas do livro. Embora se use cada vez menos esta palavra, vivemos numa "caixa" cada vez mais surreal...

Para terminar, só posso dizer que este é mais um daqueles livros que li cedo demais... A experiência de vida e também de leituras, fez com que agora lesse muito mais "páginas" e que encontrasse mais "personagens", quase a quererem cravar-me um cigarro. Ainda bem que não o fizeram, evitaram-me o embaraço de ter de dizer que não fumo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, outubro 13, 2021

A "Legenda" sem Música (de ontem)


De vez em quanto escrevo coisas quase incompreensíveis, porque eu próprio não sei bem o que dizer sobre alguns acontecimentos, que ajudam a "perder a fé" na espécie humana. Espera, "perder a esperança", talvez faça mais sentido.

O filho de um amigo meu toca num banda e convidou-me (com bastante insistência) para estar presente no primeiro concerto a sério pós pandemia. A sua música até é do meu agrado, anda pelo jazz e pelo blues, sem fugir da zona do rock.

Só não estava à espera que fosse "impossível" entrar. Nem mesmo pela famosa "porta do cavalo" (havia uma fila enorme também para a porta mais pequena, para os amigos e familiares...).

O que me espantou mais foi a loucura daquela gente. Gritavam, barafustavam, saltavam para cima uns dos outros, apontavam o dedo, ameaçavam, etc. Afastei-me um bocado e fingi perceber o porquê daquela algazarra, com noventa e nove por cento daquela gente sem máscara. Até fui capaz de pensar que qualquer vírus, com dois dedos de testa, fugia dali a sete pés (pois é, só que a covid 19 é outra coisa, mais fina do que parece e nem sequer tem testa...).

E foi por isso que ontem até inventei uma saída airosa, de um filme, onde nem sequer entrei. Mas, sim, vim com o Pedro para baixo e dissemos aquelas coisas e outras muito piores.

Ficámos com a sensação de que as discotecas e bares com música ao vivo não vão estar abertos muito tempo, e não é por falta de álcool (há sempre reservas e mais reservas de bebidas que queimam quase todas as "células do bom senso"...). Aliás, basta ver e ouvir as notícias, com violência diária dentro das noites lisboetas e portistas, e até mortes...

Polícias? Vi dois. Mas estavam ainda mais afastados que eu. Não deviam gostar de ouvir gritos (quem é que gosta?).

São coisas que sempre existiram? Então fechamos os olhos e a vida continua. As morgues e as urgências dos hospitais também servem para estes "vírus"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 12, 2021

«Não ligues, são novos e só olham para fora. Gostam de fingir que não têm "dentro", que são ocos»


Estive por ali, dois ou três minutos. Depois virei costas a toda aquela gente, irritada com o vulcão que nunca mais aparece, para virar a cidade de pernas para o ar. 

Não me lembrava de ver tantos dedos apontadores, tanta gente chateada porque nunca mais chove. 

Vim-me embora, nem me dei ao cudado de fingir que vinha fumar um cigarro à porta do salão.

Já na rua acabei por sorrir, porque estava por ali um amigo, que fumava mesmo um cigarro. Ele estava à espera de companhia para descer até ao centro da cidade.

Enquanto caminhávamos de regresso ao nosso bairro, percebemos o quanto estávamos velhos, Era uma tarefa quase impossível entender aqueles jovens rebeldes, estávamos mesmo fora deste tempo. No nosso tempo, éramos diferentes, nunca quisemos agarrar a lua sem no mínimo saltar.

O que estranhámos mais foi não haver qualquer possibilidade de diálogo. Foi quando o Pedro me disse, sem conter o riso: «Não ligues são novos e só olham para fora. Gostam de fingir que não têm "dentro", que são ocos.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 10, 2021

A Lisnave Voltou a Ter Vida por Dois Dias


O homem olhava para a baixa, do alto do morro, onde ainda permanecem as marcas de uma dos maiores estaleiros navais da Europa, curioso.

Foi o barulho dos motores dos carros de corrida que lhe chamou a atenção, mesmo sem saber que se trata do "Almada Extreme Sprint". Olhou e descobriu "vida" naquela mistura barulhenta de carros e pessoas, que ia durar dois dias.

Não desceu. Preferiu ficar por ali, com o seu pequeno cão, que era fácil de perceber que estava interessado em tudo menos nas corridas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, outubro 09, 2021

O Velho que de Longe a Longe sai das Catacumbas


De longe a longe, o velho sai das catacumbas, olha-se ao espelho e escolhe o seu ar de "sábio". Depois aperta o nó da gravata vem até à janela, espreita para todos os lados, volta para dentro e imagina que está a dar uma das suas aulas monótonas, de economia, misturada com finanças e de ciência política. 

Como continua a gostar de engolir cassetes, as suas palavras permanecem presas ao século passado. É capaz de dizer coisas como: «No meu tempo é que era bom» ou então: «Ainda está para nascer alguém tão bom como eu.» Consegue passar o dia inteiro neste registo, inchado como um pavão e com o ar mais sério do mundo.

Poucos conseguiram caracterizar tão bem  e com tanta simplicidade, o seu tempo, como o realizador Fernando Lopes. Consigo escutar a sua voz singular a dizer: 

«Quando não sabes o que fazer e tens carro, vais para a estrada. As pessoas hoje quase todas têm carro. Herdámos isso do cavaquismo. E também a ideia dele do progresso: ter carro, frigorifico e televisão e nada na cabeça. Não é por acaso que vivemos tão intensamente o 25 de Abril e estamos hoje tão despolitizados.» ("Jornal de Letras", 13 de Setembro de 2006)

O problema é que em 2021 estamos muito pior que em 2006. Além de estarmos despolitizados e descultarizados, tentam enfiar-nos coisas na "cabeça vazia".

(Fotografia de Luís Eme - Covilhã)



sexta-feira, outubro 08, 2021

O Futebol e as "Pinceladas" Surrealistas...


O futebol há muito tempo que é um mundo estranho e mal frequentado, por ser um negócio cada vez mais apetecível. Mas não são só os milhões que atraem gente do piorio, é também a facilidade com que se consegue colocar dinheiro nas várias "máquinas" que lavam mais branco, mesmo sem "skip"...

É também este "vale tudo" que lhe oferece uma carga pitoresca e humorística (para quem o olha à distância...). Aparece sempre um ou outro artista que lhe oferece umas "pinceladas" surrealistas, que o aproximam dos espectáculos mais fantásticos do mundo, onde quase tudo é possível.

Talvez isso ajude a explicar o porquê do presidente do Barcelona dizer que estava esperançado que Lionel Messi lhe dissesse que jogava de graça no clube, que o amor falasse mais alto que os milhões... Só pode ser uma brincadeira, mesmo dita com o ar mais sério do mundo por Laporta. 

Sei que a memória das pessoas é curta, mas a dos amantes do futebol ainda consegue ser mais "curtinha"... Até parece que não lhe fizeram a "vida negra", no seu último ano e meio de contrato,  para no final ele acabar por deixar o clube a custo zero...

E cá no nosso burgo, também não deixa de ser curioso, ouvirmos o presidente que se diz diferente dos outros, afirmar que na sua profissão como médico, ganhava mais dinheiro que como dirigente do Sporting (para justificar o pedido de aumento da administração do futebol profissional...). Até parece que alguém lhe apontou "uma pistola" para ele se candidatar à presidência do clube leonino, ou que uma das premissas da sua eleição era ganhar um ordenado idêntico, ou superior, ao que ganhava na sua profissão...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, outubro 07, 2021

Passos e Pensamentos em Volta


Estou a reler "Os Passos em Volta" de Herberto Helder (li-o cedo demais, compreendo muito melhor hoje o que o autor quer dizer que ontem...).

Sem me querer embrulhar com a sua qualidade (ou antes, singularidade), tenho gostado bastante da forma como ele tem comunicado comigo. Faz-me pensar em muitas coisas, quase sempre diferentes das suas histórias...

E como eu gosto que os livros e os filmes "falem comigo"... Que me dêem tempo e espaço para inventar outras histórias, outros episódios, mesmo que seja apenas na minha cabeça...

(Fotografia de Luís Eme - Tavira)


quarta-feira, outubro 06, 2021

O Sucesso Também se Explica...


Ontem ao fim da tarde estive a ver o "Futebol Total" (do canal 11, da FPF), que tinha sido transmitido no começo da madrugada.

Sei que uma boa parte das pessoas que visitam o "Largo" passam ao lado dos futebóis, mesmo dos de salão. Mas eu só me estou a referir a este programa futebolístico (não, não é desportivo...), porque o convidado da primeira parte foi o seleccionador nacional de futsal, Jorge Braz, que além de se ter sagrado Campeão do Mundo, há quatro anos que é considerado o melhor treinador do Mundo de futsal.

Quem assistisse a este programa, ficava a perceber que nada disto aconteceu por acaso. Jorge Braz além de revelar um conhecimento profundo sobre a modalidade, conhece como poucos a natureza humana. E é através deste conhecimento que consegue tirar o máximo rendimento dos seus jogadores, aproveitando sempre que lhe é possível o seu talento e a sua criatividade. Tem plena consciência que são eles dentro do campo que podem e devem fazer a diferença.

Estava a ouvi-lo a pensar o quanto Fernando Santos tinha a aprender com ele, sobretudo a nível táctico, já que apenas concede liberdade ao seu "mais que tudo", não aproveitando o talento e a criatividade de um João Félix (tal como Simeone...), de um Bernardo Silva ou de um Bruno Fernandes.

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)


terça-feira, outubro 05, 2021

«Um homem é um homem e um bicho é um bicho»


A "notícia ao minuto" lida por um dos meus companheiros de café dentro do seu telemóvel não só interrompeu a conversa de circunstância que estávamos a ter, como serviu para falarmos à "italiana", como tanto gostamos. 

Ele disse-nos que quase 100 animais tinham sido retirados de um alojamento em Elvas, por viverem em condições que violavam as normas do bem estar dos animais, segundo divulgação do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas.

Houve logo alguém que falou do "excelente negócio" que eram os animais de companhia. Acrescentando que não devia existir um prédio em Portugal onde não morassem pelo menos um cão e um gato. A pandemia também foi "acusada", tal como a "esperteza humana", que aproveita todas as oportunidades de negócio.

O Carlos foi o mais crítico ao que estão a fazer aos animais, contrariando a sua humanização, assim como os partidos e as associações que defendem coisas que também violam o bem estar dos animais. Foi ainda mais cáustico, mesmo usando o humor: «Alguém perguntou aos cães se queriam usar alguma camisola para o frio ou gabardine para a chuva?», seguido de um palavrão.

Mas foi ainda mais longe, quando acrescentou que as pessoas estavam a esquecer-se de algo muito importante. Ficámos em silêncio à espera do que aí vinha, sem imaginar que era algo tão óbvio: «Um homem é um homem e um bicho é um bicho.»

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


segunda-feira, outubro 04, 2021

"Crónica de uma Morte Encenada"


«Resolvi perceber até que ponto o quase milhar de amigos virtuais, se preocupava comigo. Foi por isso que fiz uma daquelas brincadeiras "macabras", que alguns famosos também fazem, em busca da atenção perdida. Escrevi um último texto, de despedida, com estas palavras: 

"Foi muito bom estar na vossa companhia. Ajudaram-me a que estes últimos tempos fossem menos dolorosos. Infelizmente, amanhã já cá não devo estar. Grato pela campanhia peço-vos que aceitem o conselho do grande Raúl Solnado e façam o favor de ser felizes".

Durante três dias fiz-me de morto, embora continuasse com o telemóvel ligado e com o e-mail activo. Curiosamente, ou talvez não, ninguém me ligou ou enviou qualquer e-mail. Limitaram-se a encher o meu facebook de mensagens de adeus, que foram partilhadas pelo mundo fora (provavelmente chegaram à China). Ou seja, a minha "morte encenada" foi praticamente uma festa. Nem sentiram curiosidade em saber se este "adeus", era mesmo um adeus. Ou o porquê... se foi doença ou uma daquelas complexas vontade de partir.» 

Nota: este texto é uma ficção pura e dura, baseado apenas em conversas com alguns amigos "facebokianos", que não só acharam graça à "partida", como alimentaram esta minha ideia, com coisas ainda mais mirabolantes, que as que escrevi.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, outubro 03, 2021

Viagens sem Rede (Dentro e Fora de Mim...)


Não tenho grandes dúvidas de que faço parte ao grupo de pessoas que precisam mais de silêncio e de solidão, que da confusão do quotidiano.

Sinto-me melhor a caminhar sozinho, ou a dois (mais que dois podem ser uma multidão...), por lugares calmos, onde os sons do mar, dos pássaros ou das árvores, não são abafados pelas vozes humanas.

Sei também que o gosto da escrita encontra mais palavras dentro do silêncio dos espaços abertos e isolados que no burburinho citadino.

Claro que este meu pensamento é controverso, porque também gosto de andar pelas ruas movimentadas, ou de estar sentado numa esplanada ruidosa com amigos. Lugares tantas vezes inspiradores, pelas palavras que andam à solta de mesa em mesa...

Mas nós somos o que somos, mesmo os que gostam da palavra coerência, não conseguem fugir de uma ou outra contradição...

Toda esta conversa porque ainda há amigos que insistem que devia ter conta do facebook, para estarmos mais próximos. O meu último argumento, de não gostar de visitar centros comerciais, especialmente aos fins de semana, não surtiu grande efeito, eles disseram que também não se passeiam por lá...

Mas talvez eu não queira nem precise dessa proximidade...

E é aqui que descubro que sou mais solitário do que pareço. Tirando uma ou outra pessoa, de quem tenho bastantes saudades, de ver e de conversar, estou longe de querer voltar aos tempos de liceu ou de revisitar esta ou aquela namorada...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, outubro 02, 2021

O Poder da Imagem...


Paro muitas vezes, aqui e ali, para olhar os rostos com publicidade, que estão espalhados pelas ruas e largos das cidades. 

Publicidade que está sempre a mudar, sempre a ver-nos de maneiras diferentes.

Reparo que cada vez ocupam mais espaço, que cada vez se valoriza mais um ou dois pormenores. O olhar continua a ser essencial, assim como a expressão facial. São eles os primeiros a captar a nossa atenção, só depois é que aparecem as palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, outubro 01, 2021

O Regresso dos Almoços Cheios de Palavras...


O convívio com os amigos vai voltando, aos poucos, sem ser preciso correr contra o tempo.

Foi também por isso que hoje estive num daqueles almoços cheios de palavras, que se prolongam pela tarde dentro, em que as histórias que se cruzam com o ontem, o hoje e o amanhã.

Os amigos mais antigos tentaram abraçar o "ontem", que é cada vez mais esquecido, por este tempo que parece não ter passado, presente ou futuro. Às vezes parece que é apenas uma corrida atrás do "nada"...

Foi por isso que um rapaz ligeiramente mais novo que eu, a partir de certa altura, resolveu seguir o caminho mais simples, culpando os "jovens" por todos as mudanças a que vamos assistindo. Falou da sua "vida fácil" e do excessivo "proteccionismo dos pais".

Discordei dele e disse saber que os meus filhos vão ter uma vida muito mais complicada que a minha, porque o mundo do trabalho mudou muito, e para pior. Ao ponto da precariedade começar a ser encarada com normalidade pela própria sociedade. Precariedade essa que está a deixar marcas na sociedade, começando a "destruir" coisas como o conceito da família tradicional, com casamento, filhos, casa própria, etc, porque o individualismo ameaça derrotar a toda a linha o colectivismo...

Acrescento: Na minha apresentação mais recente de um livro, do meu amigo Orlando, quase no final, usei uma expressão que é entendida muitas vezes como comunista, de que "um homem sozinho não vale nada". Mas ela é sobretudo humanista. E embora contrarie estes tempos em que o capitalismo se embrulha com o liberalismo e promete virar tudo de pernas para o ar, continua a fazer todo um sentido, porque somos demasiado "frágeis" para vivermos sozinhos, fechados em qualquer "torre de castelo".

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, setembro 30, 2021

Este Setembro que vai Embora...


Sempre gostei de Setembro (nascer dentro deste mês deve ter ajudado...).

Hoje apeteceu-me visitar a "minha praia" e escutar a voz do mar mais falador que conheço.

Sentado na areal quase deserto, viajei, deliciado, no tempo.

Voltei a correr à beira-mar e a mergulhar no mar selvagem, com os amigos de infância e adolescência, nas férias que duravam de  Junho a Setembro. 

Descobri o sorriso traquina de uma "maria-rapaz", que foi uma das minhas primeiras namoradas e gostava de fazer parte de muitas das nossas brincadeiras. Como também ia para a praia de bicicleta e morava a meio caminho, era normal esperá-la e levá-la a casa, pelo caminho mais longo, à beira da Lagoa...

Quando voltei as costas ao "meu mar" e à "minha praia", sabia que estava a começar a despedir de Setembro.

E como de costume, não esperava grandes coisas de Outubro...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)


quarta-feira, setembro 29, 2021

As "Mulheres" Chegaram a Casa...


Recebi hoje uma "encomenda" com livros, de uma antologia  que tem a Mulher como figura central, e por isso se chama "Mulheres".

Pensava que eram só contos, mas ao folhear um exemplar, o frontispício informou-me que se trata de "contos e ensaios". São doze histórias escritas por doze autores. Falo de Ana Cristina Silva, Ana Vidal, António Luiz Pacheco, Cecília Barreira, Cristina Torrão, Gäelle Istambul, Henrique Levy, João J. A. Madeira, Julieta Monginho, Eu, Maria João Cantinho e Pedro A. Sande (que teve um papel fundamental na edição do livro).

Gosto muito do quadro da capa, da autoria de Ana Faria.

Ainda não comecei e já sei que vou gostar de ler estas histórias de e com vidas.


terça-feira, setembro 28, 2021

O que Mudou nas Autarquias nos Últimos Anos ( ou o "aumento de órfãos políticos"...)


As eleições autárquicas sempre foram diferentes de todas as outras, tinham características muito próprias. Havia uma proximidade entre eleitos e eleitores quase natural, que se foi perdendo, com o passar dos anos.

Não era uma coisa fora do comum ver pessoas de esquerda a votarem em candidatos mais conservadores, e vice-versa, ver pessoas conservadoras a votarem em partidos de esquerda. A familiaridade e a obra visível conseguiam suplantar a "partidarite". Posso dar como exemplo a cidade onde vivo, Almada, onde o PS ganhava todas as eleições menos as autárquicas, que eram conquistadas pela CDU (foi assim durante mais de quarenta anos...).

A limitação de mandatos, apesar de trazer mais aspectos positivos que negativos à política (a manutenção no poder por largos anos de um partido e de um governante só cria coisas nefastas à sua volta...), acabou por ser subvertida. Como acontece quase sempre, os políticos e os partidos, conseguem condicionar todas as mudanças, em nome do poder. Ou seja, a limitação de mandatos fez com que muitos autarcas em vez de irem descansar para casa, continuassem candidatos, mas agora noutras localidades...

Em muitos casos o resultado acabou por ser desastroso, com gente a candidatar-se a terras que só conheciam de nome e a sofrer derrotas humilhantes...

O povo pode ser "parvo e estúpido" (aos olhos dos políticos), mas gosta pouco destas "espertezas saloias", em que o poder parece ser a única coisa importante. Não é por acaso que a abstenção tem crescido de uma forma significativa nos últimos doze anos...

E se as mentalidades dos políticos não mudarem, em nome da "familiaridade perdida", é muito provável que continue a crescer e que os movimentos de cidadãos também continuem a aumentar a tomar conta de muitas autarquias, de Norte a Sul.

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)

 

segunda-feira, setembro 27, 2021

A Imprevisibilidade Eleitoral a Fazer Mais uma Vez das Suas


Não posso dizer que não me lembro de umas eleições com resultados tão "imprevisíveis", porque de longe a longe isso costuma acontecer entre nós, como se o povo quisesse lançar um grito de alerta aos políticos: "Tenham atenção! É bom que abram os olhos! Não somos tão estúpidos como vocês nos passam o tempo a 'pintar' e 'desenhar'".

Não sei se o primeiro-ministro continua hoje a falar de vitória. Mas como político hábil que é, é capaz de fazer contas de somar com o número de câmaras conquistadas, esquecendo o que se perdeu, mesmo que Lisboa esteja à frente dos seus olhos.

Rui Rio ainda não deve saber bem o que lhe aconteceu. Mas uma vez foi salvo pelo "gong", quase no final do último assalto. Rangel e companhia devem passar o dia de hoje a "morder meias usadas".

A CDU continua em queda. Ainda tinha algumas ilusões que fosse possível conquistar Almada, depois de quatro anos péssimos do PS, que andou mais entretido em destruir que em construir (infelizmente vai ser o que irá acontecer em Lisboa nos próximos quatro anos...). Mas a maioria dos almadenses (pelo menos os que votam) fechou o ciclo comunista...

Digam o que disserem de Santana Lopes, ele é muito mais que um "menino guerreiro". Voltou a reerguer-se, contra tudo e contra todos. Não é "imortal", mas bate qualquer gato em "vidas políticas".

E as minhas últimas palavras vão para o "Vamos Mudar", o movimento independente que conseguiu "roubar" o Município das Caldas ao PSD (37 anos de governação laranja de tão má memória, sem tirar qualquer partido da beleza da Cidade e das suas potencialidades comerciais e turísticas, especialmente das termas, que foram em tempos tão afamadas). Só desejo que consigam fazer das Caldas da Rainha um lugar mais agradável para se viver e para se visitar.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 25, 2021

Quando a Boca lhes Foge para a "Verdade"...


As palavras de um político, que é tudo menos "brilhante", talvez estejam mais fiéis ao pensamento socialista, do que aquilo que imaginamos.

Ninguém tem dúvidas de que o País perdeu com a "covid 19". Perdeu do ponto de vista humano com o desaparecimento de milhares de pessoas (imagino como deve ter ficado alguém que perdeu um ou mais familiares durante a pandemia...) e também do ponto de vista económico e social, com o fecho de dezenas de pequenas empresas, que não mais voltarão a abrir, assim como com o desemprego dos seus funcionários.

Agora o PS e os socialistas, com a famosa "bazuca", há muito que devem andar  a fazer contas de cabeça e a planear a "distribuição" dos ditos milhões (viu-se isso durante a campanha eleitoral...). E na sua cabeça, "ganharam". 

Infelizmente (para quase todos nós...) a maioria dos políticos, além de mentirosos, são mesquinhos, cínicos e egoístas. Acredito, que muitas vezes pensem mais no seu umbigo e nos seus bolsos, que no País e nas pessoas que governam...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, setembro 24, 2021

"Torrão", "Jamaica" e "Outros Paraísos" da Margem Sul...


Eu que gosto de passear pelo Seixal, às vezes pergunto-me porque razão nunca me aproximei do "Jamaica"... Posso dizer o mesmo do "Torrão", que fica entre a Trafaria e a Cova do Vapor. Logo que me é possível mudo de pensamento, por saber que a pergunta é no mínimo hipócrita, pois sei qual é a sua resposta, bem demais... 

A primeira desculpa que me ocorre fixa-se quase sempre nos episódios de violência, comuns a todos os "guettos", para a possibilidade de sairmos de um lugar destes apenas em roupa interior. Mesmo que a maior parte das vezes, estas "cenas", pertençam mais à mais ficção que realidade.

A verdade é outra. Ninguém no seu juízo, gosta de ser  confrontado com a vida difícil, com gente de todas as idades, que consegue sobreviver, dia após dia, em condições degradantes, muito abaixo, daquilo que pensávamos existir no século XXI.

Sei que há muitas pessoas que culpam os próprios moradores, por viverem em autênticas barracas, onde falta de tudo um pouco, menos a raiva e o ódio, por se viver e crescer desta forma. Embora tenham ido morar para ali voluntariamente (com o nosso empurrão invisível...) , culpam tudo e todos, por não conseguirem ter uma vida minimamente decente.

A sua grande reivindicação é ter uma "casinha". Para eles, ter uma casa, mudava tudo nas suas vidas. É apenas mais uma ilusão, que juntam a tantas outras nas suas vidas...

Eles sabem que nada mudará nas suas vidas, enquanto ganharem ordenados miseráveis, que em alguns meses nem sequer são suficientes para alimentarem e vestir os filhos.

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


quinta-feira, setembro 23, 2021

A Campanha dos "Uns mais Iguais que Outros" (agora ainda com mais lata)


A campanha eleitoral socialista, com a presença do primeiro-ministro, tem sido das coisas mais escandalosas a que tenho assistido nos últimos anos.

Sempre que discursa António Costa consegue deixar escapar a mensagem que os "socialistas são mais iguais que os outros", acenando com o dinheiro das europas para obras locais, ao mesmo tempo que pisca o olho aos seus candidatos. Estes além de se deixarem levar na mesma onda, quando podem, ainda tentam ir mais longe nas suas promessas, que o seu "mais que tudo".

A oposição tem aproveitado para denunciar algumas destas promessas de "favorecimento" aos candidatos rosa, apontando o dedo ao primeiro-ministro e ao PS. Mas estes assobiam para o ar e as pessoas também não parecem muito chocadas.

Penso que isto só acontece porque andamos todos aparvalhados, com a pandemia, mas também com a estupidez humana dos negacionistas e dos fascistas.

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)


quarta-feira, setembro 22, 2021

As Pessoas Estão sempre em Segundo ou Terceiro Lugar...



Não deixa de ser curioso, que a maior parte das obras que se fazem antes das eleições pelos autarcas, tenham como objectivo "mudar", para que "tudo fique na mesma".

São capazes de colocar pisos novos em praças, mais uma ou outra árvore, mas nem sequer pensam, por exemplo, nas pessoas que têm problemas de mobilidade. Em pleno século XXI, continua a ser um "inferno" andar pela maior parte das artérias das cidades de cadeira de rodas ou de carrinho de bebé.

E mesmo os projectos de habitação anunciados, continuam a ter poucas preocupações sociais (Em Lisboa e no Porto, até se evita falar dos bairros históricos e das pessoas que foram "corridas" das suas casas...). 

Neste caso particular, vou olhar para a minha cidade, Almada, como referência. O Município fez um grande aparato comunicacional com a apresentação do "Inovation District", a nossa "Silicon Valley", no Monte de Caparica, numas das encostas do Tejo (que é dirigido sobretudo à classe média alta...). Curiosamente não se ouve uma palavra em relação ao "Bairro Amarelo", o tal a que presidente invejou as vistas,  numa das suas várias "pérolas" memoráveis (devia ter visitado as casas, que é onde as pessoas vivem, e não nas suas janelas...) ou ao Torrão, onde as pessoas vivem em situações miseráveis.

Mas a vida é isto mesmo, as pessoas estão sempre em segundo ou terceiro lugar, nas prioridades dos políticos, até mesmo nas promessas eleitorais. O importante é a chamada "obra de encher o olho"...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


segunda-feira, setembro 20, 2021

A Montanha dos Espelhos Mentirosos que Querem "Tapar o Céu"...


Embora não tenha nenhuma bola de cristal, estou convicto que a nossa extrema direita será derrotada, mais ano menos ano, pelas muitas mentiras com que tenta tapar a realidade e pela apologia que faz da estupidez.

Se por um lado somos tolerantes a muitas das "chico-espertices", que continuam a ser protagonizadas pelos principais líderes dos partidos do poder, por outro, não achamos muita piada quando tentam insultar a nossa inteligência (embora isto também também possa ser colado na pele do Costa e do Cabrita, por exemplo...).

Os exemplos oferecidos por Ricardo Araújo Pereira no seu programa de ontem à noite, de alguns candidatos do Chega, deve ser mais que suficiente para percebermos quem é esta gente, que entre outras coisas, parece ter saído de qualquer hospício.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, setembro 19, 2021

Um Dia Mais "Igual que os Outros"...


Hoje foi apenas mais um dia, em que tive a sensação de que ao escolher esta margem do Rio para viver, escolhi o lado certo da vida.

Sei que a espaços esta minha frase até pode parecer um "slogan" eleitoral, mas não, é mesmo o que sinto.

Mesmo que isso até possa acontecer por sorte, ou por um simples acerto do relógio, que nos fez estar à hora certa no sítio certo, o mais importante é a sensação de que "esta é a nossa Terra".

Até porque os olhos e o coração não vêm sempre as mesmas coisas. A Cidade onde vivi desde o começo da gravidez da minha mãe até aos dezoito anos (só houve uma pequena interrupção, para ir nascer à casa da avó, a maternidade da família...), é muito mais bonita que Almada.

O meu pai, por exemplo, detestava a Margem Sul. Habituado a paisagens mais bucólicas, detestava as "florestas de betão" que rodeavam a Capital. Mas compreendia e acreditava, quando eu lhe dizia que as pessoas de Almada eram muito mais autênticas que as das Caldas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, setembro 17, 2021

Regressos (felizmente) Mais Lentos...


Hoje  a meio da tarde descobri um paquete a despedir-se de Lisboa.

E percebi mais uma vez que à beira-rio é difícil não ter pensamentos "utópicos"...

Se pudesse escolher, preferia o regresso dos golfinhos à visita destas "cidades flutuantes", que deixam uma mancha nas águas do Tejo.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, setembro 16, 2021

O Quase Normal não é o Normal... e "Telefona-me"...


Como antes da pandemia já andava ligeiramente afastado das coisas do associativismo e da cultura, mais de dois anos depois da pandemia, participei numa homenagem a um amigo e à apresentação de um opúsculo biográfico, escrito por outro amigo.

Por muito normal que queiramos que as coisas sejam, as máscaras e a redução da presença humana nos auditórios (aquele, segundo as novas regras da DGS, poderia e deveria levar mais pessoas, até por ser arejado) causaram-me mais estranheza do que estava à espera. 

A coisa melhor foi reencontrar pessoas que não via "há séculos" (pois é, parece que esta coisa já dura há tanto tempo...). Como acontece sempre, algumas são mais especiais que outras. Foi por isso que depois do lançamento eu e uma amiga saímos juntos e ficámos a conversar sentados no pequeno muro da Praça da Liberdade. E como não moramos muito longe um do outro fomos juntos até à Praça Gil Vicente (com obras e mais obras, cujo o objectivo principal é gastar dinheiro para que "fique quase tudo na mesma")...

Mas não foi apenas a conversa que foi boa, tinha também "dois presentes" da Clara (um ainda era do Natal passado...). Gostei particularmente do seu caderno "Ironias", onde ela mistura as suas palavras poéticas com imagens que recorta daqui e dali (um excelente exemplo de "poesia ilustrada"). É por isso que publico aqui o seu poema "Telefona-me", que tem tanto que ver com este tempo:

Telefona-me, não te esqueças
P'ra não nos sentirmos sós
Não quero mensagens nem emails
Quero ouvir a tua voz
Ouvindo a voz dos amigos
É totalmente diferente
Tudo o resto que inventaram
Não é bem cá para a gente
E aqui botei a sentença
"Que me andava a incomodar"
Estou achando impessoal
"As maneiras de falar"

Tantas pessoas de quem nos esquecemos de ir telefonando (eu esqueci-me tantas vezes, até de meter a conversa em dia com a Clara...), nestes tempos estranhos. Sim, todos temos amigos e familiares que vivem sozinhos, que precisam tanto de receber palavras com sabor a "mel"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quarta-feira, setembro 15, 2021

Dúvidas (quase) Permanentes...


Incomoda-me bastante que alguns jornalistas e comentadores desportivos  - cá dentro e lá fora -, tenham como passatempo preferido, colocar alguns futebolistas no fio da navalha. Por mais que estes defendam ou façam golos, a dúvida é uma constante nas suas análises, escritas e faladas.

Exemplos? Aí vão dois.

Não sei o que é preciso que Vlachodimos faça mais, na baliza do Benfica, para deixar de ser constantemente considerado apenas um bom guarda-redes e não um excelente guardião (que é o que ele é, de facto).

Mais gritante é que se começa a dizer de Cristiano Ronaldo, antes de cada época... Só que ele obriga, ano após ano, uma boa parte de comentadores (muitos deles antigos jogadores, cheios de dores na articulação do braço...) por esse mundo fora, a engolir as palavras, porque tanto ele como o Messi, continuam únicos, não têm ninguém que lhes faça sombra.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, setembro 14, 2021

As Minorias a Liberdade e a Autoridade


Não é o país que está a ficar maluco, são meia-dúzia de pessoas, que acham que o "facebook" é uma nação e que podem fazer vingar a vontade de minorias, sobretudo por fazerem muito barulho nas redes sociais e nas ruas. 

O mais estranho tem sido a complacência da polícia na maior parte destes protestos, quando saltam dos computadores para a rua. Num deles, um bandalho qualquer, até se armou em "autoridade judicial" e enfrentou a PSP, de frente, por sentir as "costas quentes" pelas câmaras de televisão que o rodeavam e testemunharam e divulgaram o acontecimento. Só faltou mesmo ter enfiado um dedo num dos olhos do agente da polícia ou no intendente, que foram estranhamente calmos, vá-se lá saber porquê...

Se já havia um problema de justiça, agora parece haver de autoridade (se tivermos a pele clara...).

E a Liberdade de Expressão é outra coisa, muito diferente de insultar, caluniar ou mentir.

(Fotografia de Luís Eme - Caramujo)


segunda-feira, setembro 13, 2021

"Há pessoas que mesmo sem terem nada de importante para dizer, andam a vida toda a dizer coisas"


A pandemia parou quase tudo aquilo que continua a ser "acessório" à sociedade, ou seja, quase tudo o que tem pouco peso na economia do país.

A cultura e os seus agentes talvez tenham sido as maiores vítimas deste tempo estranho, que ainda tornou mais difícil, aquilo que já era difícil. Não sei quem se segue na lista. Talvez seja o desporto amador e de lazer (o futebol profissional deixou de ter público mas esteve parado muito pouco tempo, por ser uma "indústria de milhões"...), com o encerramento prolongado de pavilhões, piscinas, ginásios, sedes de clubes desportivos e muitas outras instalações ao ar livre.

Antes da pandemia tinha feito uma pausa voluntária na minha participação associativa e cultural. Isso fez com que não sentisse tanto na "pele" o fecho das bibliotecas, teatros, auditórios, galerias, sedes de associações, etc. Provavelmente é por isso que só esta semana é que vou participar em dois eventos culturais (lançamentos de livros...).

Pensei nestas coisas porque um dos meus amigos, que é uma mistura de "António Aleixo" e de "Alberto Caeiro", cuja quarta classe somada aos muitos anos de café e de associativismo, vale mais que alguns cursos universitários, fez-me uma pergunta curiosa.

Ele perguntou-me há dias, qual seria a vidinha, neste último ano e meio, de algumas pessoas que nós conhecemos que passavam o tempo a correr atrás de um microfone. Eu disse-lhe que se deviam socorrer dos espelhos de casa, para não perderem o "palco". Havia também a possibilidade de terem descoberto o "youtube"...

Muito tempo antes ele tinha caracterizado esta gente de uma forma exemplar, depois de saber que eu enquanto moderador de uma sessão literária tinha somado mais um inimigo, ao recusar dar-lhe o microfone (havia pessoas convidadas para falar e não estava prevista a participação do público, por falta de tempo... e abrir uma excepção era o mesmo que abrir a famosa  "caixa de pandora"). 

Ele disse-me: "Há pessoas que mesmo sem terem nada de importante para dizer, andam a vida toda a dizer coisas." 

A simplicidade da frase tocou-me bastante e faz-me sempre pensar duas vezes quando sou convidado para falar sobre isto ou aquilo em qualquer lugar público...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, setembro 12, 2021

"Elas Estiveram nas Prisões do Fascismo"



Ontem passei pelo Salão de Festas da Incrível Almadense, onde foi apresentado o livro, "Elas Estiveram nas Prisões do Fascismo", editado pela URAP (União dos Resistentes Antifascistas Portugueses).

Não fiquei muito tempo por razões familiares, mas adquiri a obra com todo o gosto. Foi a minha forma de homenagear e ficar a saber mais, sobre estas mulheres, tantas vezes "esquecidas" pela própria história, que é quase sempre feita pelos e para os homens.

A única coisa que não me agrada neste livro, tão significativo, até por estarmos a assistir a um momento decisivo na história das mulheres afegãs e da luta pela liberdade e emancipação feminina, é que os seus textos não estejam assinados. Eles foram escritos por alguém. Até podem ser vinte ou trinta os seus autores, a divulgação dos seus nomes, só valorizava este livro, que lembra quem foram as 1755 mulheres que passaram pelas prisões fascistas do nosso país.


sábado, setembro 11, 2021

Palavras à Espera do Vento...


Quando desaparece alguém, é comum dizer-se bem, mesmo nos casos em que se devia dizer mal. Claro que quando se deixam pontas soltas, é impossível "tapar o sol com a peneira"... 

De longe a longe lá aparece um caso que consegue quase a unanimidade, tanto no campo do exercício de funções públicas como no seu exemplo de cidadania. Ou seja, sobrou muito pouco espaço para se dizer mal de Jorge Sampaio.

Mesmo assim, não deixa de ser curiosa a quantidade de políticos, da esquerda à direita (nem o líder do Chega faltou ao "ramalhete"...), que elogiaram a postura do homem, do advogado e do político. Só é pena que não tenham grande vontade de lhe seguir o exemplo...

Infelizmente são palavras que apenas esperam o vento, para voarem para outras paragens. Com a velocidade que o mundo gira. hoje o seu bom exemplo já caminha para o esquecimento...

Até porque eram muitos os que lhe chamavam "antónio" e não Jorge (a maioria faz parte da sua "família política"...),  irritados por o seu exemplo não lhes deixar grande margem para fazerem o que mais gostavam: colher benefícios pessoais através do exercício de funções públicas. 

(Fotografia de Luís Eme - Arealva)


sexta-feira, setembro 10, 2021

Jorge Sampaio (1939-2021)


Jorge Sampaio deixou-nos hoje.

Jorge Sampaio foi muito mais que Presidente da República ou do Município de Lisboa. Foi um Resistente desde os seus tempos de estudante cuja coragem suplantou sempre a sua aparente fragilidade física. Foi um advogado de causas, antes e depois de Abril, deixando sempre um rasto de integridade e humanismo nos tribunais por onde passou.

Jorge Sampaio é um dos portugueses raros, que sempre contrariou o que é mais fácil e usual fazer-se no mundo da política, servindo o país, privilegiando sempre os interesses colectivos e nunca os pessoais. 

Para mal dos nossos pecados, são raras as pessoas que passaram por cargos políticos com um perfil próximo do seu. De memória lembro-me apenas de Maria de Lurdes Pintassilgo, Gonçalo Ribeiro Teles, José Cutileiro e Ramalho Eanes.

Escolhi esta fotografia de Gonçalo Rosa da Silva ("Expresso"), pela sua luminosidade, transportando Jorge Sampaio para um universo muito maior que este onde vivemos.


quinta-feira, setembro 09, 2021

Um "Diário" de Conversas de Rua...


Gosto de escrever por aqui sobre os encontros que tenho nas ruas, sejam eles combinados ou inesperados. E tanto posso "falar" sobre a alegria que me proporcionam algumas conversas, como pela curiosidade que me despertam, e claro,  pelo seu lado caricatural.

Hoje estive cinco minutos à conversa com um daqueles mentirosos, que não conseguem dizer uma frase sem uma "introdução" ou  uma "criação" pessoal.

Como estava bem disposto achei piada às duas ou três mentiras que me disse. Notei que ele estava feliz com a "venda" de novidades, foi por isso que me limitei a sorrir, sem qualquer vontade de o desmentir.

Mas fiquei a pensar que ele deveria saber que eu estava a par de pelo menos uma ou outra "novidade" que me contara e que um pouco de "rigor" (como se tal fosse possível...) não tinha feito mal nenhum ao nosso diálogo...

É também por isto que é bom o blogue ser um "diário"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, setembro 08, 2021

Quando o Calculismo Político tem Sexo...


Não vou atrás das "ondas" que enchem de adjectivos Paulo Rangel, deputado europeu do PSD, por aos 53 anos ter assumido publicamente a sua homossexualidade.

A única coisa que descubro nesta posição é calculismo político. Coragem para mim era ele ter assumido a sua orientação sexual antes dos 40 anos de idade.

Como já se percebeu Rangel quer ser líder do PSD e desvia do caminho tudo aquilo que possa ser prejudicial para  a concretização deste seu sonho político (até por saber do que são capazes os seus colegas de partido, que divulgaram recentemente um vídeo antigo, ainda dos tempos em que ele era "anafadinho" onde surge a caminhar pelas ruas de Bruxelas com um "grãozinho na asa"...).

Não esqueço que enquanto deputado (em Portugal e na Europa), Rangel colocou-se quase sempre ao lado das maiorias, votando contra a sua própria natureza sexual, ao contrário de muitos heterossexuais, que não têm qualquer problema em defender os interesses das minorias, quando os acham justos.

(Fotografia de Luís Eme - Nuvem Lisboeta)


terça-feira, setembro 07, 2021

Este Portugal cada Vez mais Pequenino...


Com a passagem de alguns militantes envolvidos na campanha eleitoral para as autárquicas, acabei por trocar algumas palavras com dois amigos (já esgotámos as palavras sobre as obras que nos cercavam, que pouco irão contribuir para a melhoria da mobilidade do centro da Cidade, já que apenas se limitam a criar duas novas rotundas...) sobre as gentes do nosso país.

A nossa conversa acabou por se focar na passividade das pessoas, perante os vários problemas que nos cercam. Percebemos - mas não aceitamos - que a principal forma de protesto que utilizam, é não votar (que normalmente costuma favorece quem está no poder...). 

O Carlos disse que muita gente tem medo de se manifestar, porque não quer ser confundida com os populistas e  com os fascistas. Ficámos um pouco perplexos, mas não conseguimos contrapor esta opinião com nenhuma outra explicação.

A única coisa em que coincidimos foi no facto indesmentível, de que cada vez nos vamos tornando mais pobres. Muitos de nós há mais de dez anos que não somos aumentados, ao mesmo tempo em tudo à nossa volta foi aumentando, ano após ano, desde os produtos essenciais para a nossa alimentação, à luz, à água, aos combustíveis e a tantas outras coisas...

E quem ouvir falar os nossos políticos, com o optimista do António Costa, sempre na primeira fila, até é capaz de ficar a pensar que vive num outro país e esquece este Portugal, cada vez vez mais pequenino.

(Fotografia de Luís Eme - Ayamonte)

 

segunda-feira, setembro 06, 2021

A "Trilogia do Costume" (encaixa em tudo)...


Fazem-me muita confusão as pessoas do futebol (neste caso até são os que ainda têm um pé de fora no dirigismo desportivo...), que adoram seguir a expressão que se tornou popular com Pimenta Machado, de que o que "hoje é verdade amanhã é mentira", frase que continua a ser um bom hino para os bons e maus mentirosos.

A trilogia "O Velho, o Rapaz e o Burro" assenta que nem uma luva nos adeptos do Benfica, que assim que Luís Filipe Vieira foi preso, queriam eleições de imediato no Clube, sem se preocuparem com o seu quotidiano e com todos os problemas se avizinhavam (um empréstimo obrigacionista, a formação do plantel, os jogos de acesso à Liga dos Campeões e o começo do campeonato...).

Rui Costa mostrou não estar agarrado ao poder e descansou todos os adeptos (especialmente os sedentos de poder...), dizendo que logo que possível seriam marcadas eleições, ainda antes do final do ano de 2021.

Para mal dos pecados dos "opositores" da actual direcção, tudo foi resolvido em benefício ao Benfica. E como todos sabemos, as vitórias acabam por fazer esquecer os vários problemas, que continuam a preocupar todos os verdadeiros benfiquistas. E como a vitória parece estar mais longe do seu horizonte, dizem que o tempo que têm para preparar as eleições é curto. Com toda a certeza, se fosse marcada para o fim do ano, diziam que era tarde demais...

É muito complicado lidar com gente assim, que adora viver num mundo onde "o que hoje é verdade amanhã é mentira" e vice-versa...

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)


sábado, setembro 04, 2021

Uma "Viagem" a Caminho de 2040...


Ontem tive uma conversa, com alguma profundidade, sobre como será o nosso País (e também a Europa...) daqui a vinte anos.

No início prevaleceu a ideia da existência de duas europas, um de "ricos" e outra de "pobres". E claro que para nós estava destinado o "lado pobre". O futuro acabou de ser confrontado com as alterações climáticas e com as migrações, que pouco a pouco, foram destruindo as teses de que o "dinheiro tudo vence", porque as catástrofes podem acontecer onde menos se espera, como se verificou este ano com as cheias na Alemanha (o país de que se dizia, que não cometia erros ambientais, nem construía em zonas consideradas como leitos de cheia...).

Se a estatística nos diz que não gostamos de famílias grandes (temos zero, um ou dois filhos no máximo...), os novos europeus que têm chegado de África e do Oriente, fazem questão de ter meia dúzia de filhos. E isso não só mudará os "retratos sociais" como dificultará bastante a "futurologia"...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, setembro 03, 2021

As "Desculpas de Mau Pagador" do Seleccionador


Os últimos jogos da selecção têm-me irritado bastante. E deste último nem é bom falar. Se não fosse o ressurgimento do nosso "santo milagreiro", nos últimos cinco minutos, com dois golos de cabeça, tínhamos perdido com uma selecção europeia mediana, que não ganha um jogo há catorze jogos.

Achei curiosas as desculpas de Fernando Santos, que disse hoje: «Não temos tempo para criar rotinas e acho que esta janela das selecções não faz sentido. Antes tínhamos dois ou três dias para treinar e rectificar as coisas. Agora fazemos o treino de 20 minutos e temos uma viagem de três horas e meia.»

Embora tenha razão naquilo que disse, se não treina, pergunto eu: como é que é capaz de "inventar" tanto e colocar tantos jogadores a jogarem fora das suas posições habituais nos clubes? 

Se fosse um bocadinho mais inteligente e menos teimoso, como não tem tempo para treinar, tentava obter o melhor rendimento possível dos seus atletas, colocando-os nos lugares onde jogam habitualmente, e onde se sentem mais confortáveis, tanto a atacar como a defender...

(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)


quinta-feira, setembro 02, 2021

Olhar o Tejo Quase Azul...


Foi bom passear no Tejo, na manhã de domingo, num sítio único, que tem sido tão maltratado nos últimos anos: as "Portas de Rodão".

Gostei de ver com os meus olhos que o "melhor rio do mundo", está mais limpo, mais transparente. Acredito que isso não se deve apenas ao facto de este ano ter sido um "ano molhado", pelo menos até Abril. 

Graças aos "guardiões do rio" (esses mesmo que até chegaram a ser processados pelos donos das fábricas poluidoras...), que nunca desistem de lutar pela vida e por um ambiente mais saudável para todos, os nossos governantes tiveram de fazer alguma coisa, retirando as mãos do bolso e deixando de assobiar para o ar, pelo menos por alguns momentos...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Velha de Rodão)