sexta-feira, dezembro 31, 2021

Provavelmente, um Ano Ainda Mais Estranho que os Dois Últimos...


Não tenho muitas palavras bonitas para tentar ilustrar o ano que está quase a chegar.

Até mesmo a esperança, parece ser uma palavra vã...

Passados quase dois anos de pandemia ainda continuamos com muitas dúvidas. Mas grave, é sentirmos que a DGS (maldita sigla...) continua a colocar os pés pelas mãos, as mãos pelos pés. Aquela senhora que gosta muito de se ver na televisão, continua a ser capaz de dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário.

Os hospitais não funcionam. É uma desorganização que compromete todos os agentes de saúde... embora se fique com a sensação que médicos e enfermeiros gostem deste "mundo" onde todos os relógios andam atrasados. 

Os centros de saúde continuam a ser desvalorizados por todos (faltam médicos, enfermeiros, funcionários...) e depois não querem que as pessoas, mesmo com problemas que podiam resolver em casa, se desloquem para as urgências...

A linha Saúde 24 não resolve problema nenhum a ninguém. Além das esperas de horas, limita-se a dizer às pessoas (se não estiverem para morrer...) para ficarem sossegadinhas em casa... e se tiverem sintomas de "covid 19", marquem um teste, mesmo que só o consigam fazer quase depois de passar o tempo de "quarentena". Ou seja, limitam-se a "prender" as pessoas em casa...

E falta a parte "melhor". Havia uma série de sonhadores (ou mentirosos...), que diziam que a pandemia era uma lição para o Mundo e que se ia acabar com o egoísmo e o cinismo, e que o humanismo ia voltar em força... Só que as pessoas agora até fogem umas das outras, com a desculpa da "pandemia"...

E é melhor ficar por aqui. Porque nem sei o que vos desejar para 2022... 

Até tenho medo de falar em "esperança", pois até já há epidemiologistas que dizem, que o melhor era todos apanharmos "covid 19", porque este "vírus sul africano" é quase amigo de todos nós...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, dezembro 28, 2021

Um Natal "sem sapatinho" para Jesus...


Só nesta última semana é que percebi que Jorge Jesus não tinha condições para continuar a treinar a equipa principal de futebol do Benfica.

Não me lembro de assistir a uma "campanha tão negra" da comunicação social, contra um treinador. Até dá a sensação de terem sido eles a pagarem a passagem do dirigente do Flamengo para Portugal, para alimentar ainda mais a "novela" sobre o final de "reinado" de Jesus na Luz...

E o treinador parece que ainda soube mais tarde que eu... Talvez por estar no "centro do furacão", não teve a percepção da realidade, ou então, deixou-se, mais uma vez, "cegar" pela vaidade, pela mania de que é "o melhor do mundo"... 

Mas é estranho que alguém com a sua experiência de tantos anos de futebol (deve ter treinado dúzias de "camaleões" e "víboras"...) não ter percebido que os lenços brancos exibidos nas bancadas e os hinos obscenos a mandá-lo embora, eram "música" para os ouvidos dos jogadores descontentes (não é por acaso que Pizzi aparece na história...), pois sentem que é ainda mais fácil "boicotar" o trabalho do treinador... 

Penso que se o Jesus não fosse tão vaidoso e convencido, tinha percebido muito mais cedo com quem é que estava metido. E é isso que me faz mais confusão, pois parece que não aprendeu tanto como devia com os erros próprios e alheios.

Ruben Amorim apesar da sua juventude, já demonstra ser superior a grande parte dos treinadores portugueses, em muitos aspectos. Onde noto uma maior diferença é na comunicação e na construção dos planteis das suas equipas. Amorim é muito criterioso e prefere um ou dois profissionais que tenham a qualidade e o carácter que ele exige, a meia-dúzia de "craques" de origem duvidosa, ou que ele já "conheça de ginjeira". Ao contrário de Jesus ou até de Mourinho, se ele puder escolher, não trabalha com jogadores da bola, mas sim com verdadeiros profissionais. 

É também por isso que Cristiano Ronaldo nunca será jogador do Sporting, enquanto Ruben Amorim for treinador do clube de Alvalade...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, dezembro 27, 2021

Os "Ecos", as Mentiras com "Perna mais Comprida" e a Realidade...


Todos sabemos que o "eco" das redes sociais é muito superior a qualquer montanha, por muito gigante que seja e consiga projectar a nossa voz a quilómetros e quilómetros.

E isto acontece com as coisas mais insignificantes, como é o caso do desporto (apesar do seu peso na nossa sociedade...), mas também com as mais importantes. A saúde, por todas as razões que sabemos, tem sido uma grande vítima, com informações para todos os gostos, que vão desde o "facilitismo" dos governantes, ao "pessimismo" da oposição, e claro, as "mentiras" dos negacionistas.

E com isto tudo, a mentira passou a ter a "perna mais comprida", embora continue a ser suplantada pela realidade, mais tarde ou mais cedo.

Esta última vaga de infecções com covid 19 tem contribuído para o silêncio de uma boa parte dos negacionistas, porque a maior parte dos casos graves de pessoas infectadas nos hospitais (assim como os óbitos...), são pessoas que não foram vacinadas.

A vida diz-nos que a realidade raramente se compadece com ficções, mesmo as mais bem engendradas. Muitas vezes são é desmontadas tarde demais...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, dezembro 24, 2021

Feliz Natal


Se retirarmos as habituais doses de hipocrisia, daqueles que até "escolhem" um pobrezinho para sentar na sua noite de Natal (quase como "personagem" de presépio), esta festa cada vez menos religiosa, continua a ser sobretudo da família e das crianças.

Se há data do ano que consegue reunir a família é o Natal. Esquecem-se quezílias, mesmo que seja só por uma noite...

E não há nada como o ar expectante e a alegria das crianças, de cada vez que recebem um presente (embora o "excesso" quebre a espontaneidade...).

É também por isso que desejo um Feliz Natal para todos os que passam por aqui, de uma forma visível e de uma forma invisível.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, dezembro 22, 2021

«Se tiveres alguma imaginação, isso é o menos importante.»


Mesmo agora, durante a pandemia, as pessoas continuam a entrar dentro da cabine telefónica e tentam falar com alguém... Pelo menos pegam no telefone e marcam números.

É o que diz a mulher do prédio da frente, que passa a vida à janela e adora conversar com quem passa. Posso acrescentar que conhece toda a vizinhança e sabe coisas como quantos autocarros passam pela rua de baixo e com que atrasos costumam circular.

O problema é a cabine estar avariada há mais de uma dúzia de anos. Nunca a devem ter tirado dali porque pensam que preenche o imaginário dos turistas e por isso é tão fotografada e visitada.

Ninguém acreditou muito naquela história, mas o Tiago acrescentou que «se tiveres imaginação, isso é o menos importante.» Adiantou que podia escrever uma peça, só com uma cabine telefónica e uma personagem.

Olhámos uns para os outros e sorrimos. Só podia ser uma coisa quase parecida com o surrealismo. Foi por isso que a Alice disse que era boa ideia colocar ali o Cesariny a fazer telefonemas poéticos para o António Maria Lisboa e para outros amigos que agora deviam ser nuvens.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, dezembro 21, 2021

"A Memória das Palavras" (02)


No "universo" largo das ideias nós mudamos muito lentamente, ou então nem sequer mudamos. O mais curioso, é que nem sempre nos incomodamos por continuarmos a cometer os mesmos erros. Talvez seja por isso que ainda continuam a circular à nossa volta tantas citações de Eça de Queirós... que fingem ser actuais.

Um dos problemas mais graves do nosso tempo, é o medo e a desconfiança em relação ao outro, por ter uma pele de cor diferente, professar outra religião, ou simplesmente, por ser alguém que veio "de fora".

A chamada globalização mundial faz com que cada vez as pessoas aceitem menos um futuro de fome ou de guerra nos seus países e continentes e, partam para outros continentes, onde tudo parece ser melhor.

Manuel António Pina escreveu muito bem, sobre o "medo", na revista "Visão", de 19 de Outubro de 2006. Intitulou a sua crónica com um elucidativo "Vêm aí os mouros". Transcrevemos com a devida vénia os dois primeiros parágrafos:

«Contou-me quem assistiu que, um dia destes, numa igreja do Porto, quando o novo padre (de origem guineense) fez, na homilia, um apelo à paz e à tolerância religiosa e, para ilustrar as piedosas palavras, revelou aos crentes que toda a sua família era muçulmana, estes, na maioria mulheres e idosos, ouvindo pronunciar a palavra "islão", lembraram-se de repente que tinham deixado o jantar ao lume ou haviam ficado de ir buscar os netos ao infantário e, um a um, persignando-se, puseram-se rapidamente a milhas, não fosse o homem trazer alguma bomba debaixo da batina.
O episódio é revelador do medo que por aí vai, alimentado não só pelas imagens na TV da fúria da "rua" islâmica contra tudo o que mexe, Papa incluído, mas também pelos exemplos de cobardia que vão chegando da Europa "civilizada".»

Quinze anos depois pouco mudou. E houve coisas que até aumentaram, como a tal cobardia da Europa "civilizada", na forma como lida com as migrações e os migrantes...

(Fotografia de Luís Eme - Idanha-a-Velha)


segunda-feira, dezembro 20, 2021

Contrariar o "Politicamente Correcto"


Nos nossos almoços da segunda-feira, quase que obrigámos o Orlando a trazer sempre no bolso uma anedota para nos contar, mesmo que seja das velhinhas.

Aliás a que nos contou hoje pertencia a esse grupo e mesmo assim  fez com que soltássemos uma gargalhada grande, graças à sua arte de contador de estórias.

Esta nossa proposta ficou a dever-se à vontade de contrariar o cada vez mais reinante "politicamente correcto", que nos está a roubar várias coisas, inclusive a bonomia. 

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


domingo, dezembro 19, 2021

O Problema de se Saber Demais (e de ler "os manuais de instrução dos medicamentos"...)


Soube ontem de alguém que trabalha na área da saúde (que não deve ser um caso isolado...), que não foi, nem quer, ser vacinada.

Conheço-a, embora seja uma pessoa inteligente, é um pouco complicada. 

O principal argumento para não querer ser vacinada são as contra-indicações da vacina (que felizmente nos passam ligeiramente ao lado. Lembrei-me logo das folhas de papel que acompanham os medicamentos e que se fôssemos a levar a sério às suas contra-indicações, deixávamos-nos estar sossegadinhos...).

Mas o seu "defensor" (que tinha apanhado o vírus e sido vacinado) ainda foi mais longe e falou de um caso que conhecia de um rapaz que ficou paralisado depois de ter tomado a vacina. 

Eu era apenas uma "terceira pessoa", estava ali apenas a ouvir. Mas depois deste argumento levantei-me e fui ver se também estava Sol na minha rua.

Numa fase destas da pandemia, fazem-me muita confusão estes argumentos. Até porque os países europeus com taxas mais baixas de vacinação são os que têm mais casos graves (alguns deles nunca tinham números tão elevados de infectados e de mortes, como neste Outono de 2021...). 

E mesmo entre nós, a maioria dos casos graves de infecções, são de pessoas que não foram vacinadas.

Continuo a pensar que a vacina não deve ser obrigatória, mas quem trabalha diariamente com pessoas doentes ou idosas, devia ser obrigada a optar entre vacinar-se e continuar a trabalhar com pessoas de risco ou mudar de ocupação.

Isto só me diz que o conhecimento por si só não chega, para resolver qualquer problema. Muitas vezes o bom senso, é a melhor "arma" que se deve usar.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, dezembro 17, 2021

As Minhas "Cores de Verão"...


Durante o primeiro ano de pandemia escrevi pouca ficção. A única explicação que encontro para isso, foi ambiente depressivo que nos rodeava. Também senti dificuldade em "ficcionar" um mundo, já tão ficcionado, diariamente, através da difusão de notícias diárias, umas mentirosas, outras cheias de contradições. Enfim...

Este Verão voltei à minha praia dos últimos anos, lá para o Sul. E foi inspirado nas cores de alguns fatos de banho, em palavras soltas que se aproximaram dos meus ouvidos e também em rostos, que andavam de um lado para o outro na praia, que voltei a escrever e a "inventar" pequenas estórias...

Todas as estórias que escrevi têm algum conteúdo moral, mas não passam de ficções... por exemplo, vou publicar aqui "o corpo que se esconde dentro dos calções pretos", que é o retrato imaginado sobre uma adolescente de cabelo curto, que estava vestida na praia de forma estranha, com calções de rapaz e uma parte de cima desportiva. Ela estava lá na praia, mas fui eu que insisti (sem a consultar) na história de mudança de sexo...

«O corpo é de mulher mas o corte de cabelo é de rapazinho, assim como o andar, quase desengonçado, e os calções de banho pretos e compridos que usa na praia.
Só a parte de cima é que destoa, ainda não conseguiu arranjar uma forma de disfarçar as maminhas, que cresceram mais do que queria. Mesmo assim, tenta escondê-las, da melhor maneira possível, dentro de um sutiã desportivo, também preto, a cor que mais se aproxima da sua vida.
Quer muito mudar, sonha ser o rapaz que tem dentro de si, expulsando o diabo de saias que manda no corpo com que nasceu.
A avó nem quer ouvir falar da história que se fala quase em surdina, da sua Joana se transformar em breve num João. Mas os pais sabem que não existe outra forma, de devolver a filha ao mundo das pessoas quase normais, tentando dar-lhe a identidade que talvez lhe permita ver, ao longe, a felicidade…»


quinta-feira, dezembro 16, 2021

Os Museus, as Exposições e as Pessoas Especiais...


Hoje voltei ao Museu da Cidade (os governantes que estão no poder resolveram "baptizá-lo" de novo e agora pensam que é o Museu de Almada, mas estão enganados, continua a ser o "Museu da Cidade"...) para ver, finalmente, as exposições de fotografia de Vitor Cid e de Leslie Howard.

Embora não tivesse um guia, acabei por ter outra coisa melhor, uma cúmplice, capaz de me dar algumas informações preciosas (especialmente sobre este inglês que viveu na Margem Sul...), ao mesmo tempo que íamos conversando sobre algumas pessoas e lugares que resolviam aparecer, aqui e ali, acabando por se meterem na conversa.

Voltei a ver a exposição "Entre Dois Mares e um Rio", que me deixara ligeiramente desiludido. Com uma ou outra explicação da minha companheira de jornada, acabei por descobrir alguns sentidos, que mesmo sem estarem muito à mostra, fazem todo o sentido.

Quando vinha para casa acabei por pensar que, apesar de gostar bastante de ver exposições sozinho (gosto muito de caminhar entre quadros, estátuas, instalações, parando aqui e ali, quando sinto que é mesmo necessário "olhar com olhos de ver"...), não há nada melhor que visitar uma exposição na companhia do próprio autor ou de alguém que nos possa satisfazer a curiosidade e oferecer mais saber.

E lá voltei a recordar a melhor visita guiada que tive, na "Casa Museu Lagoa Henriques", guiado por este excelente escultor e comunicador (ficava ao lado do seu atelier em Belém e foi engolida pelo tempo e pela vontade de "alguém" que não gostava do Mestre...). Durante mais de duas horas o Mestre Lagoa Henriques contou-me a história de cada peça exposta, juntando um ou outro episódio mais pitoresco, que acabaram por ser importantes no seu processo criativo. Ainda o consigo ouvir a comunicar, como só ele sabia, com a voz, com o olhar, com as mãos e com os braços...

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


quarta-feira, dezembro 15, 2021

Rogério Samora e o Cinema


"O Delfim", continua a ser um dos melhores filmes portugueses, a que tive o prazer de assistir. Já tinha gostado muito do romance de José Cardoso Pires, que foi bem adaptado por Vasco Pulido Valente, o argumentista escolhido por Fernando Lopes, o grande realizador, que também foi muito feliz na escolha do par de protagonistas, a Alexandra Lencastre e o Rogério Samora.

Sei que o Rogério é mais conhecido do grande público pelos seus inúmeros papeis em telenovelas, que pela personagem Tomás da Palma Bravo, mas este filme foi de tal forma marcante na sua carreira de actor, que ele disse que havia um antes e um depois d' "O Delfim"...

Não foi por acaso que em quarenta anos de carreira, o Rogério participou em quase meia centena de filmes, tendo trabalhado com os nossos melhores realizadores (Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, António-Pedro Vasconcelos, João Botelho, Joaquim Leitão, José Fonseca e Costa, Luís Filipe Rocha,  Margarida Cardoso, Miguel Gomes, Manuel Mozos, José Mário Grilo, José Álvaro Morais, Rosa Coutinho Cabral, Maria Medeiros, Jorge Cramez e o chileno Raoul Ruiz). 

A relação que teve com Fernando Lopes foi especial (o realizador chegou a dizer que Rogério era "uma espécie de irmão das aventuras cinematográficas"...), ao ponto de ser considerado o seu "alter-ego" (participou em "Matar Saudades", 1988; "O Delfim", 2002; "Lá Fora", 2004; "88 Octanas", 2006 e "Os Sorrisos do Destino", 2009). Curiosamente, até fez mais filmes com o Mestre Manoel de Oliveira, embora com menos destaque ("O Sapato de Cetim, 1985; "Os Canibais", 1988; "A Caixa", 1994; "Party", 1996; "Palavra e Utopia", 2000; "Porto da Minha Infância", 2002; "Quinto Império", 2004 e "Singularidades de uma Rapariga Loura", 2009).

Esta minha homenagem a Rogério Samora começa e acaba com o cinema, porque, mesmo sem termos uma "indústria de cinema", o Rogério teve uma relação especial com as câmaras e com a Sétima Arte e ficará com toda a certeza como um dos grandes actores da história do nosso cinema.

(Fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, dezembro 14, 2021

A Memória das Palavras (01)


Uma das minhas "outras vidas" obriga-me a consultar jornais e revistas de outros tempos e a descobrir coisas "do arco da velha". Nos primeiros tempos uma das coisas que mais me surpreendia, era a "longa vida" dos muitos maus hábitos que proliferavam na sociedade portuguesa, especialmente na política, no desporto e na cultura.

Foi a leitura de dezenas de "pérolas" que me fez pensar em criar uma nova rúbrica aqui no blogue (em princípio quinzenal), com um título "roubado" ao grande poeta e diarista, José Gomes Ferreira, "A Memória das Palavras" (o grande Zé Gomes também era óptimo a escolher títulos...).

E começo com uma transcrição de uma crónica assinada pela jornalista Áurea Sampaio, que tem como título, "Um Partido Doente", publicada na revista "Visão", a 27 de Setembro de 2007:

«O PSD parece uma agremiação de garotos que se entretêm, nas horas vagas, numa luta de galos pela conquista do clube de bairro lá do sítio. Até podia ser divertido assistir aos relatos das peripécias, dos insultos e das alegadas "golpadas" que um e outro lado desferem contra o adversário, pois a coisa até tem os ingredientes básicos de um folhetim de novela barata: há ódios à solta, acusações de fraude e compra de votos, ameaças, denúncias..., enfim, o rol do costume. Ora acontece que o PSD não é um clube de bairro, mas, sim, o principal partido da oposição, com responsabilidades, quer como alternativa de poder quer na definição das políticas mais sensíveis a nível de Estado.»

Achei esta frase curiosa, por manter quase toda a actualidade, mais de 14 anos depois, ainda que com protagonistas diferentes...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, dezembro 13, 2021

«Não sei se as pessoas ainda gostam de ouvir contar estórias»


Acho no mínimo curiosas algumas coisas que dois ou três amigos me vão contando, nestes tempos estranhos em que se conversa bastante menos, olhos nos olhos. 

A única coisa que sei, é que não podemos culpar a pandemia por tudo o que mudou nas nossas vidas. Até porque antes já estava praticamente instituído o hábito de se conversar mais com os dedos que com a boca.

Quando o Jorge disse, com alguma melancolia: «Não sei se as pessoas ainda gostam de ouvir contar estórias», ele queria dizer outra coisa. Queria lastimar-se por os filhos gostarem cada vez menos de ouvir as suas histórias. A sua esperança está nos netos. Vive com a esperança de que eles um dia venham a gostar das suas palavras, tal como ele gostava das do avô. 

O Chico a sorrir disse que estes tempos são bastante reticentes em relação a todo o tipo de futurologias.

Eu que acabara de ouvir contar meia-dúzia de estórias deliciosas (a da Olímpia Quaresma é impagável...), acrescentei que a culpa não era das estórias, mas sim da maneira com se contam. O Jorge fingiu-se quase ofendido, exclamando que eu estava a colocar em causa a sua qualidade como contador de estórias. Disse-lhe que não era nada disso. Tinha mais a ver com a paciência dos ouvintes. 

Fruto desta época de "consumos imediatos" e de "palavreados curtos", quase todos nós temos menos vontade de escutar estórias longas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, dezembro 11, 2021

Tanta Coisa que Muda em Apenas Noventa Minutos...


O que se está a passar com Jorge Jesus é sintomático de como é o dia-a-dia da profissão de treinador. Não há ninguém que esteja tão dependente dos resultados como os responsáveis técnicos de qualquer equipa do mundo desportivo. E se se tratar de um desporto profissional, como é o caso do futebol, os problemas adensam-se, por tudo o que está em jogo...

Provavelmente, por ser uma das profissões mais bem pagas do mundo, é também aquela que é mais escrutinada e que mais coloca em causa a auto-estima de cada treinador, que em apenas 90 minutos, pode passar de bestial a besta. É preciso ser-se muito seguro de si e gostar bastante de futebol, para se aguentar toda esta carga dramática diária e conseguir fazer carreira neste desporto que chamam rei. 

Voltando a Jorge Jesus, eu gosto dele, entre outras razões, por ser tão humano e transparente, ao ponto de deixar à vista de todos, as suas qualidades e os seus defeitos.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sexta-feira, dezembro 10, 2021

Fingimos que não Vemos... Fingimos que não Percebemos...


Fingimos que não vemos... Fingimos que não percebemos... Sempre foi a forma mais fácil de olhar para o mundo à nossa volta. 

Devíamos ter vergonha desta Europa em que habitamos, que gosta de se fingir mais democrática e humanista, do que realmente é.

Acho que também foi, mais ou menos assim, o nosso comportamento durante os anos intermináveis da Segunda Guerra Mundial.

As gentes dessa época também fingiram não perceber o que se estava a passar com todos os perseguidos, especialmente com os judeus.

Obrigado Rosarlette (cliquem no nome), por nos recordares que existem crianças presas nos muitos centros de acolhimento de refugiados espalhados pelo mundo, em mais um Inverno do nosso descontentamento...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, dezembro 09, 2021

A "Minha Liberdade" e a "Liberdade dos Outros"...


Quase que me virou de pernas para o ar, ouvir Bolsonaro dar vivas à Liberdade individual (em relação à vacinação no seu país...). Mas os ditadores de hoje são muito mais sofisticados e mentirosos que os do século passado.

Não sei se o nosso Salazar era rapaz para meter a palavra "liberdade" (fosse ela qual fosse...), nos seus discursos. Acho que não. Era uma palavra capaz de lhe provocar arrepios e até coisas piores, por isso é que lutou tanto contra a "liberdade dos outros".

Foi também por isso que fiquei a pensar que a liberdade dos nossos dias tem um significado diferente da de ontem. As palavras e as contas que se faziam no século XX eram mais fáceis de perceber e de somar ou subtrair. A ausência de liberdade significava quase sempre prisão, literalmente. Hoje as coisas são diferentes, vão-nos tirando a liberdade, por decreto e também por imposição social.

E nem vou falar de coisas fora de moda como o prazer de fumar, de caçar ou de assistir a uma corrida de touros. Falo sim da facilidade com que se aponta o dedo ao nosso vizinho que se veste de uma forma estranha, que pinta o cabelo de azul ou que gosta de passear por ruas que dizem ser mal frequentadas.

Gosto muito pouco desta "americanização" da nossa sociedade, cada vez mais evidente. Não é só o politicamente correcto que volta em força, é também aquela vaidadezinha de tornar novamente os vícios privados e as virtudes publicas, esta sim, uma coisa completamente salazarenta.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, dezembro 08, 2021

A Vida Moderna é Mesmo Assim...


Já escrevi mais que uma vez que não acho muita piada a tentativa de "humanizar" os animais.

Hoje quando passava pela sala, quase que "choquei" de frente com uma mulher que estava dentro do canal de televisão que a minha companheira estava a ver, porque ela disse que tinha escolhido uma raça de cães (um nome das europas estranho..) porque havia um fotógrafo que os fotografava como se fossem pessoas e que queria um cão que fosse o mais parecido possível com os humanos...

Não fiquei a saber nenhuma novidade, mas mesmo assim fez-me confusão. Já os vestem, só falta mesmo ensinar os pobres animais a falar...

A vida moderna é mesmo assim, mas fez-me confusão.

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)


segunda-feira, dezembro 06, 2021

Somos Mesmo um "Bicho Estranho"...


É curioso, como um pacote com 150 canais da televisão por cabo, com o tempo acaba por se tornar insuficiente. É como se tudo se fosse tornando igual (sei que não é verdade, mas parece...).

Lembro-me que entre os meus 20 e 30 anos, via muito pouco televisão. Quando estava em casa ouvia música, às vezes com o som demasiado alto. Curiosamente, acho que o vizinho de baixo só me veio bater à porta uma vez, quase a querer dizer-me que não gostava da música que ouvia.

Nesses tempos, quase longínquos, passava muito tempo fora de casa. Trabalhava, fazia desporto, estudava de noite... E sempre que podia ia ao cinema. Não perdia um bom filme. E lia, lia bastante.

A televisão era um objecto que estava por ali, em cima do móvel preto... Sabia que tinha "pessoas lá dentro", mas estava longe de ser a minha companhia preferida.

Acho que nem sequer tinha grande opinião sobre o "pequeno ecrã", ao contrário do que acontece nos nossos dias. Sinto que ano após ano, é cada vez mais um depósito de "lixo", ao ponto de ter cada vez menos paciência para ouvir notícias. Eu sempre soube que quantidade nunca foi sinónimo de qualidade, mas...

Não sei ao certo se sou eu, que ano após ano me vou tornando mais exigente, ou se é mesmo o mundo à minha volta, que está a regredir. 

Fartamo-nos de inventar coisas para tornar a vida mais fácil, ao mesmo tempo que destruímos outras tantas coisas, que nos deviam ser preciosas... 

Somos mesmo um "bicho estranho"...

(Fotografia de Luís Eme - Arealva)


domingo, dezembro 05, 2021

A Porcaria Reinante


Sei que a televisão tem feito um esforço para "endeusar" a música pimba, que ao contrário de alguns estudiosos como o cantor Emanuel defendem, se resume a uma palavra: porcaria.

O facto dos seus interpretes cantarem de borla e andaram aos fins de semana a animar os arraiais improvisados pelas antenas de televisão generalistas, em muitas das nossa vilas e cidades (eu sei que o negócio dos "telefonemas macacos" que dão carros e etc., são uma das partes principais desta vidinha feirante...), pode-lhes aumentar a popularidade, mas não aumenta a qualidade.

Alguns sabem cantar, outros nem isso. Mesmo sem voz e afinação, conseguem construir carreiras musicais, domingo a domingo, porque o que é realmente importante para eles é o palco. É por isso que nem sequer se importam de cantar sempre a mesma canção, anos a fio...

Claro que o exemplo da música pode ser passado para quase todas as áreas da sociedade, onde reina a mediocridade. E metermos a poesia no meio do caminho, também não é solução, porque na vida não é "tudo é possível" nem "podemos ser tudo o que quisermos", por muito que "vendam" estas frases em livros, filmes e programas televisivos. O mundo real é muito diferente do mundo dos sonhos. Sem talento natural devíamos ser os primeiros a perceber que a música, a literatura e as outras artes, são sobretudo para os predestinados.

É por isso que Pedro Gonçalves, Jorge Palma, Sónia Tavares, Paulo de Carvalho, Rui Reininho, Dulce Pontes, José Cid, António Zambujo, Manuela Azevedo, Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão, Cristina Branco, Rui Veloso, Sérgio Godinho ou Capicua, entre dezenas de excelentes interpretes nacionais, farão sempre a diferença, porque reinventam-se de disco a disco, de espectáculo em espectáculo.

Queria continuar a homenagear o Pedro e todos os nossos músicos de qualidade, mas como de costume, as palavras foram-se agarrando umas às outras e lá se foi a "síntese". Até porque a primeira frase, diz tudo. Talvez em vez de porcaria devesse colocar um outro sinónimo. mas...

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)


sábado, dezembro 04, 2021

O Fim, Depois do Fim...


De vez em quando surge entre nós um projecto musical que prima pela originalidade e pela qualidade. Os "Dead Combo" foram um bom exemplo desta diferença positiva, trazendo muitas coisas boas à nossa música, impregnada de versões e de cantores com pouco talento que cantam sempre a mesma canção.

O Pedro Gonçalves podia e devia ter-nos dado mais música... mas a vida, infelizmente, também é feita de perdas.


sexta-feira, dezembro 03, 2021

Cristiano Ronaldo e José Mourinho, entre a Inveja e a Memória Curta


Sei que entre nós ainda há a tendência a achar que "o que é de fora é que é bom", é por isso que ainda há pessoas que se fingem pouco convencidas com a qualidade futebolística de Cristiano Ronaldo e de José Mourinho, que fazem que sejam dos melhores do mundo na sua profissão.

Não sei o que é que Cristiano Ronaldo ou José Mourinho precisam de fazer mais, para convencer toda esta gente invejosa e de memória curta, que adora "pintar-lhes a manta" de cores pouco garridas.

Bastava-lhes os críticos de Espanha, Itália ou Inglaterra, que passaram (e passam...) o tempo a questionar as suas qualidades e à procura de polémicas (o que lhes custa ver um português no topo do mundo...). 

Cristiano Ronaldo, por se encontrar mais próximo dos holofotes, obriga, domingo sim domingo não, os seus "coveiros" ingleses (antes foram os espanhóis e os italianos...) a engolirem as suas palavras e a terem de ficar de braços cruzados, desesperados, à espera que ele deixe de marcar golos e de bater recordes...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)

Adenda: Depois da derrota com o Sporting, apetece-me colocar o Jorge Jesus também aqui, porque é um grande treinador e talvez tenha mesmo de voltar para o Brasil, para se voltar a sentir "bem amado"...


quinta-feira, dezembro 02, 2021

A "Alma do Romance e a "Dança com as Palavras" ...


Houve uma amiga que me chamou a atenção sobre a maneira como vou "dançando com as palavras", aqui no Largo (foi esta a expressão...). Espanta-se com a forma como passo da política e do futebol para a cultura, sem me esquecer de descrever o que vai acontecendo nas ruas.

Como é alguém das culturas prefere que o assunto seja sobre livros, música, cinema ou teatro. Só que este é um blogue mais "sobre o que me apetece", que cultural...

Entre outras coisas, falámos sobre o último romance que li ("A Gorda" de Isabela Figueiredo), que ela já lera há uns tempos. Ambos gostámos de ler esta história, que por acaso, tem como cenário a nossa Margem Sul. A única coisa com a qual não estivemos de acordo, foi com a sua definição. Para mim trata-se de uma autobiografia e não de um romance. Embora no nosso país se tenha instituído chamar a quase tudo romance. Talvez tenha a ver com o negócio, porque este é o género literário que mais vende (os livros de autoajuda estão fora da lista...).

Acabámos por falar de mais três livros, em que ambos concordámos que se tratavam de "romances falsificados", pois percebia-se que eram contos, que depois foram "montados" de uma forma que permitiam ser "colados com cuspo". Um leitor experimentado, percebia com facilidade que lhes faltava a alma do romance...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, dezembro 01, 2021

A Força do Futebol faz Esquecer quase Tudo...


A força do futebol é de tal forma avassaladora, que faz esquecer quase tudo à sua volta.

Enquanto se continua à "espera de Godot", que devia ter estado no Jamor,  a quando do jogo entre o Benfica e do Belenenses SAD, não se fala do aumento do número crescente de pessoas infectadas; das filas nos postos de vacinação, de Norte a Sul; da falta de testes para que as pessoas possam seguir as orientações da DGS (esta sigla lembra-se sempre a outra...) e sejam testadas... E até o PSD teve direito ao descanso merecido, depois de Rio ter conseguido levar a melhor no "jogo da apanhada" com Rangel, que foi apenas o "vencedor antecipado".

Só mesmo Marcelo é que conseguiu dar um ar da sua graça com o chumbo da lei da morte medicamente assistida, mas também sem o "ar grave" de outros tempos. 

Quem gostaria que existissem mais dois ou três jogos estranhos, até 30 de Janeiro, era o bom do Costa, que já foi salvo, mais que uma vez, pela tal força avassaladora do futebol, que faz esquecer quase tudo à sua volta.

(Fotografia de Luís Eme - uma homenagem ao verdadeiro Clube de Futebol Os Belenenses, que tem vindo à baila, neste imbróglio, sem ter nada a ver com o "negócio"...)


terça-feira, novembro 30, 2021

«Deixámos fugir o Tempo...»


«Deixámos fugir o Tempo...»

Sorrio, sem saber o que dizer. E ele continua: «Era tão bom termos Tempo para conversar.»

Deixo cair o sorriso. Ele tem razão. Andamos a correr de um lado para o outro como baratas tontas, a perder Tempo com inutilidades. 

Ele continua a dizer coisas, demasiado certeiras, sobre este nosso Tempo...

«Há já algum Tempo que deixámos de olhar para os outros. Já viste que só nós dois é que temos telemóveis da idade da pedra? Daqueles que só servem para telefonar?»

Diz isto com orgulho. Detesta que uma simples maquineta rectangular seja o "deus" destes Tempos modernos. 

E depois volta a insistir: «Como é que fomos tão estúpidos, ao ponto de deixarmos fugir, o Tempo, uma coisa que nos era tão preciosa?»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 29, 2021

O Futebol (por cá e no mundo) de Farsa em Farsa...


De repente toda a gente ficou escandalizada por uma equipa da Primeira Liga, ter começado um jogo de futebol apenas com nove jogadores (provavelmente por ter sido contra o Benfica e por este já estar a vencer por sete a zero ao intervalo...).

Aceito que isto faça confusão ao cidadão comum, agora aos dirigentes dos clubes...  oh "santa hipocrisia". Sim, foram estes mesmos clubes que aprovaram nas reuniões da Liga (a bem do negócio...), que o futebol não podia parar durante a pandemia e todos os clubes eram obrigados a ir a jogo, desde que tivessem sete jogadores disponíveis para entrarem em campo (o número mínimo autorizado, para que os clubes não perdessem por falta de comparência...). Nessa altura não pensaram na aberração que estavam a aprovar, pois qualquer equipa que entre em campo com menos de onze jogadores, entra logo a perder, ainda antes do apito inicial do árbitro... 

Da mesma forma que acabaram com as "quarentenas" nos planteis dos clubes. Para jogar bastava ter um teste negativo, não importava que estivessem durante a semana em contacto com os infectados... (embora isso estranhamente não acontecesse neste caso, provavelmente por causa da nova variante do vírus). Ou seja, como de costume, o futebol funciona com regras à margem da própria sociedade. 

Talvez não estivessem a contar que acontecesse o inesperado (apesar de estar regulado). Mas aconteceu, e se não alterarem as regras, irá acontecer mais vezes durante a época futebolística.

Embora seja muito menos grave não deixa de ser uma brincadeira de mau gosto a atribuição da Bola de Ouro a Lionel Messi, talvez naquela que foi uma das suas piores épocas de sempre, por todos os problemas que viveu no Barcelona e também pelas dificuldades de adaptação a Paris. Mas o futebol é isto...

Gostava de saber o que disseram Salah, Benzema, Jorginho, de Bruyne ou Lewandowski sobre o assunto, depois de saberem o "resultado final"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, novembro 28, 2021

A "Véspera de Viagem" do Fernando e da Teresa Rita


Há alguns livros que têm um prazer especial em se meterem mais connosco, ao ponto de nos levantarem mais que duas ou três questões, daquelas que achamos pertinentes, ao ponto de nos apetecer encontrar os autores numa esplanada qualquer, para tirarmos a "pulguita" que ficou a saltitar de orelha para orelha. 

Foi o que me aconteceu com leitura da peça de teatro, "Vésperas de Viagem", de Teresa Rita Lopes, com o Fernando Pessoa já na cama do hospital, preparado para a derradeira viagem, recebendo a visita de Ofélia e Álvaro de Campos. Na última cena, surgem também os "irmãos gémeos" de Álvaro, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares.

Foi bom ficar a saber mais coisas sobre o nosso poeta maior e sobre a sua história de amor com a Ofélia. O engenheiro Campos acaba por ter um papel relevante em todo este drama, por de alguma forma funcionar como a "má consciência" do poeta, é aquele a quem é permitido dizer quase tudo. O que é muito bom para o leitor e para a peça.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 27, 2021

Os "Abraços sem Braços"...

Estava a pensar na importância do convívio entre amigos, nestes tempos estranhos em que quase se acabaram os contactos sociais, quando me surgiu a frase curta que intitula este pequeno texto.

Embora os casos estejam a aumentar de novo, nesta passagem do Outono para o Inverno, vamos fazer os possíveis para continuar a almoçar à segundas-feiras, pela importância que estes encontros de amigos têm dentro de cada um de nós. Há o prazer da conversa à "italiana", mas há também a cumplicidade que se nota no olhar, quase risonho, por estarmos a partilhar muito mais que o bacalhau com grão ou o delicioso arroz doce (para nós o melhor de Almada...), na nossa mesa. 

Durante a pandemia perdi dois amigos com quem também almoçava periodicamente, o Fernando e o Manel. Eram encontros muito ricos, por sermos amigos e por termos bastantes coisas em comum. As conversas fluíam com naturalidade, quase sem pausas ou silêncios. Falávamos ao telefone e sei o quanto sofreram com a quase prisão que lhes foi imposta, onde ficou tão marcado que o nosso país (e o mundo...) não é para velhos...

E é mesmo verdade, os nossos almoços são "abraços sem braços", não precisamos de nos tocar nem de estarmos em cima uns dos outros, para nos abraçarmos com palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Alcacer do Sal)


quinta-feira, novembro 25, 2021

«Há anos que não leio um livro. Tenho tantas saudades!...»


Um dos amigos com quem almoço de vez em quando, na última vez que estivemos juntos teve um desabafo, que me tocou particularmente. 

Ele tem uma vida complicada há vários anos, por ser pai de dois filhos problemáticos e também por ter uma esposa com problemas de saúde. Trabalha em vários sítios com conseguir o "milagre da sobrevivência" de todos (há ainda a netinha, de quem ele é mais pai que avô...).

Os almoços e o convívio com os poucos amigos que tem, são a única coisa que o faz esquecer, por momentos, o "turbilhão" em que vive diariamente. Percebemos muito bem quando anda a braços com problemas pelo seu semblante. Nunca o questionamos, por ele estar longe de ser a pessoa mais expansiva do mundo. Tentamos animá-lo com episódios brejeiros e com histórias alegres vividas no mundo do jornalismo e das artes. Acaba por ser uma alegria colectiva vê-lo a sorrir.

No meio da conversa falámos de dois ou três livros e dos seus autores. Foi quando ele me disse: «Há anos que não leio um livro. Tenho tantas saudades!...»

A frase passou despercebida aos outros dois amigos, que entretanto estavam a falar de outras coisas. Não fui capaz de dizer nada, embora estremecesse por dentro... 

Ele também já nos confidenciara uma vez, que não tinha um espaço "seu" em casa, uma simples secretária onde pudesse organizar as suas coisas... o que se compreende, pois são cinco pessoas as que vivem no seu T2.

Por sabermos que a "vidinha" já nos coloca tantos obstáculos, divisões e diferenças no nosso dia a dia, é que é bom que se continue a falar e lutar pela igualdades de oportunidades na "outra vida".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, novembro 24, 2021

Se Calhar Devia Comprar um Barco...


Tinha decidido ir a Lisboa hoje de manhã, porque precisava de comprar um caderno que só se vende na Capital. Embora fosse uma coisa sem urgências, não me estava a apetecer deixar a viagem para amanhã. Nem sequer me assustei com as nuvens que brincavam às escondidas com o Sol, quando espreitei à janela.

Cheguei a Cacilhas um pouco depois das dez e meia e o próximo cacilheiro era às 10.55 horas. Dei uma volta pelas redondezas e cinco minutos antes da partida, verifiquei que a hora de embarque fora alterada. Passara para as 11.15 horas.

Resolvi voltar a casa, porque não me estava a apetecer ficar ali mais 20 minutos, até porque havia a possibilidade dos funcionários da Transtejo mudarem novamente de ideias e suprimirem mais um horário.

Antes de me vir embora ainda passei pela bilheteira e dei mostras do meu descontentamento, falando da falta de respeito que os trabalhadores da empresa têm pelos outros trabalhadores.

E nem sequer falei da pandemia, de o cais de embarque estar cada vez com mais pessoas, que iriam encher o cacilheiro (sei que agora não há limitação de pessoas, mas um pouco de cuidado não fará, com toda a certeza, mal a ninguém...).

Vinha para casa e comecei a pensar que é um problema quando não temos escolha, como acontece hoje nos transportes fluviais. Antes de Abril de 1974, havia pelo menos três empresas a operarem nas travessias do Tejo. Mesmo alguém como eu, que é a favor do serviço público, detesta ser tratado de forma miserável e não ter outra alternativa (podem falar do comboio ou dos autocarros que passam a ponte, mas isso é outra coisa...). 

Sei que a comparação não é a melhor, porque há restaurantes em quase todas as esquinas, mas gostava de ter a liberdade de fazer com os transportes - ou com outro qualquer serviço público péssimo - o que faço com as casas de pasto: quando sou mal atendido, não volto a colocar lá os pés.

O que eu gostava mesmo era que a minha única solução para resolver este berbicacho e conseguir atravessar o Tejo sem problemas de maior, não fosse ter de comprar um barco...

Apesar de se falar muito de empreendorismo, continuamos a ser um país com poucas escolhas e demasiados "monopólios"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, novembro 23, 2021

O Surrealismo é Outra Coisa...


A entrevista ao "fugitivo" mais badalado do nosso país (mesmo que esta não tenha tido nada de espectacular, o espertalhaço nem sequer precisou de correr ou disparar para o ar. Bastou-lhe apenas comprar bilhete de avião para Londres e partir, sem que alguém o incomodasse, antes de ser lida a sentença que o iria condenar a prisão efectiva), foi o grande "furo jornalístico" da estreia da nossa CNN.

Embora não ache muita piada à "publicidade" extra que se dá a esta gente rasteira, acabei por perceber que foi importante ouvir as "piadas" que ele tinha para nos dizer, com o ar mais sério do mundo.

Explicou que só volta ao nosso país se for ilibado dos crimes que cometeu ou com um indulto presidencial. Marcelo como de costume não deixou para amanhã o que podia dizer hoje e respondeu muito bem, sem fugir do registo telenovelesco, dizendo-lhe que "já era tarde para amar", pois já tinham sido ultrapassados todos os prazos para fazer o pedido...

Mas faltava a parte melhor: o pulha está a ponderar pedir de um indeminização ao Estado (já tem um valor e tudo, 40 milhões...), pelo anos que o seu caso se arrastou nos tribunais, como se não fosse ele a utilizar todos os recursos possíveis para adiar a sentença. E o rombo de 700 milhões do seu BPP?

E ainda conseguiu dizer que não há lesados do seu antigo banco e lançar as suspeitas sobre o advogado me relação à fuga. E esta?

Tenho de dar razão ao Vitinha, quando diz: «Ele só é bandido porque o deixaram ser. Toda a gente sabe que a maneira mais fácil de roubar um banco é ser o dono.  Qual fuga? Assim também eu. Sem qualquer polícia à perna e com o dinheiro que o gajo deve ter escondido dentro das meias, até conseguia ir para um lugar mais fixe que Belize.»

E sim, isto não tem nada de surrealismo. Parece tudo mais brincadeira de carnaval. O surrealismo é outra coisa, muito mais séria...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 22, 2021

«Tudo se compra e vende, menos a dignidade. Ponto final.»


Encontrei hoje um amigo que já não encontrava há meses. Entre outras coisas, acabámos por falar dos livros que foram de um nosso amigo comum, que agora estão à venda num alfarrabista. Pelo meio contou-me duas ou três histórias, ainda mais sinistras, com a cara destes tempos modernos.

Falou-me com preocupação desta gente que só vê dinheiro à frente dos olhos e para quem tudo tem preço. Para eles tudo se compra e vende. Coisas tão simples como o amor ao próximo, a generosidade ou a honestidade, parecem pertencer ao século passado e só são praticadas por "otários"...

Contou-me mais dois ou três exemplos de espólios artísticos de pessoas conhecidas, que desapareceram mal os seus donos fecharam os olhos. Os livros, os discos, as peças de cerâmica e os quadros, coleccionados uma vida inteira com amor, foram imediatamente colocados à venda. Nem as obras de arte, que normalmente valorizam com o tempo, escaparam a esta "corrida ao ouro"...

Num destes casos, a viúva, mãe e sogra, ainda com alguma autonomia e lucidez, foi "depositada" num lar, como se já estivesse incapaz de decidir o que era melhor para si própria. Ao mesmo tempo que os dois filhos colocavam tudo o que estava dentro de casa em "leilão"...

Quando se despediu, este meu amigo, sem esconder a desilusão, disse-me: «Tudo se compra e vende, menos a dignidade. Ponto final.»

Quando vinha para casa, tentei desvalorizar a colagem destes casos a este tempo, dizendo para os meus botões, que sempre existiram pessoas capazes de vender tudo, até a alma. 

Talvez sim, mas eram muito menos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, novembro 21, 2021

A Polónia e a Bielorrússia tão Longe...


Quase que parece que a Polónia e a Bieolorrússia ficam num outro continente, algures no Oriente, em África ou na América Latina, onde ainda existem mais que um tipo de seres humanos.

Mas não, ficam mesmo na Europa...

Com o passar do tempo, fomos perdendo a noção do que realmente devia contar nas nossas vidas. Talvez tudo comece na dificuldade cada vez maior em distinguir ética de moral, alimentando um egoísmo que faz com que se privilegie cada vez mais o "eu", ignorando o "nós". 

Talvez estejamos já num ponto sem retorno e não nos seja possível voltar a reencontrar a nossa condição humana.

Isso ajuda a explicar a nossa passividade em relação aos passos que temos de dar para tentarmos salvar a Terra, que nos acolhe com cada vez menos serenidade.

Pensei nisto enquanto chovia e fazia sol em simultâneo, a meio da tarde... e eu esperava que este vencesse a chuva, debaixo dum varandim...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, novembro 20, 2021

Os Bairros, as Pessoas e o Homem do Cachimbo


Não estou a escrever sobre o Homem do Cachimbo por ser sábado, o dia em que nos encontrávamos no café e dávamos vida à nossa Tertúlia das culturas (só faltava mesmo a da "batata"...). Foi na quarta-feira quando nos cruzámos mais uma vez, enquanto eu descia e ele subia a Rua Emília Pomar (essa mesma a tia do Pintor de Lisboa e do Mundo), que pensei em escrever sobre as andanças humanas. 

Trocámos um cumprimento e um sorriso, coisa recente, apesar de termos um historial de encontros e cruzamentos  com provavelmente mais de trinta anos, contando com o tempo em que éramos completamente invisíveis um para o outro. Sim, falámos pela primeira vez já nos tempos estranhos da pandemia, quando numa manhã lhe perguntei pelo cachimbo.

Olhou-me com surpresa e com um sorriso enquanto parava e pousava no chão o saco de compras. Depois pôs a mão no bolso e tirou o seu companheiro de tantas aventuras e mostrou-mo com orgulho. A partir daqui sempre que passamos um pelo outro, cumprimentamo-nos e trocamos um sorriso.

Reparei que envelheceu muito durante a pandemia. Perdeu peso e passou a andar com o apoio de uma bengala. Até eu ganhei cabelos brancos, rugas (e até algumas nuvens dentro de mim...), quanto mais as pessoas de idade, que eram apontadas como o principal alvo da covid 19.

Comecei a reparar nele na nossa esplanada. Sentava-se numa mesa da ponta e ficava por ali sozinho. Fingia que não nos via e ouvia, embora sorri-se de vez em quando (talvez devido às nossas "certezas" e ao nosso  gosto de falarmos "à italiana"), enquanto perfumava as nossas mesas com o seu cachimbo.

Pois é, como diria o bom do poeta Gomes Ferreira, isto da vizinhança tem muito que se lhe diga. Somos de tal forma estranhos, que até somos capazes de passar quase rente a algumas pessoas, durante trinta ou quarenta anos, sem nunca trocarmos sequer um bom dia ou boa tarde, mesmo que sejamos do mesmo bairro (uma denominação que já não se usa nas cidades, vá-se lá saber porquê)...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, novembro 18, 2021

As "Mulheres-Sombra" da nossa Cultura...


Vou aproveitar a comemoração do centenário do nascimento de Natália Nunes, companheira desse "homem-duplo", que foi Rómulo de Carvalho e António Gedeão, para falar das "mulheres-sombras" na nossa cultura, cujo talento foi relevado para segundo plano, quase sempre por vontade própria.

Quando escrevo "vontade própria", refiro-me à forma voluntária como se deixavam secundar, dando todo o espaço do mundo aos seus companheiros. Provavelmente não queriam ficar conhecidas como a "esposa de" e como no seu tempo não havia muito espaço para escritores anónimos (a PIDE e a Censura não gostavam dessas aventuras, antes de Abril...), escreveram muito menos do que podiam e deviam.

Talvez Maria Judite de Carvalho (companheira de Urbano Tavares Rodrigues), tenha conseguido ser ela própria, por ter uma escrita muito singular e por fazer jornalismo. Mas nunca quis "voar" muito alto, por ser avessa à exposição e porque o "escritor da casa" era o Urbano...

E se caminhasse na direcção de outras artes, cruzava-me logo com a Sarah Afonso, esposa de Almada Negreiros, que nunca teve dúvidas de quem era o "pintor da casa". 

Haverá com toda a certeza dezenas de casos, de mulheres extraordinárias que abdicaram do que mais gostavam de fazer por amor.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, novembro 17, 2021

«São apenas gestos de boa vontade masculina»


Nós fartamo-nos de nos repetirmos, e não falo apenas dos pequenos gestos do quotidiano. Passa-se o mesmo com os "jogos de palavras" que fazemos, seja nas páginas de um jornal, num site ou num blogue.

Mas continua a não me entrar na cabeça que a mulher queira ser igual ao homem, mas depois não dispense os "cavalheirismos" do costume, que a tentam colocar no pedestal. Muito menos os seus jogos de sedução, para obter o que quer (e que normalmente consegue)...

Foi por isso desta vez enfrentei a "fera" indo directo ao assunto, perguntando-lhe - com alguma lata, diga-se de passagem - se não ficava incomodada com tanto cavalheirismo à sua volta. Disse-me que não. E quando lhe falei do seu feminismo, disse-me que isso era outra coisa. 

Acabou a piscar-me o olho e a dizer: «São apenas gestos de boa vontade masculina.» 

Nenhuma fadista se conseguia sair tão bem deste "fado" como ela...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)