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sábado, abril 04, 2026

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»


Embora ainda estivesse a alguma distância dos oitentas, sabia que era uma idade complicada. Além das doenças que apareciam, quase do nada, havia também algumas coisas que começavam a funcionar mal, outras deixavam mesmo de funcionar...

Tinha à minha volta pessoas que me lembravam desta perda de faculdades, desde a minha mãe ao Chico. Mas as queixas deles eram mais físicas que intelectuais (e ainda bem...).

Sento-me menos vezes na esplanada do café da minha praça, porque raramente encontro alguém conhecido, com quem possa trocar algumas palavras. Desta vez apeteceu-me ficar um pouco por ali, à sombra, a beber café a ver quem passa.

Foi quando um senhor com quem não falava há uns dois, três anos (ou mais que agora o tempo também começa a passar a correr por mim...), me perguntou se se podia sentar. Claro que podia, e devia.

Com o tempo fui percebendo que tinha muitas falas guardadas, por não ter pessoas que gostassem de livros por perto. Foi por isso que foi falando mais do que eu. Até me contou que às vezes tinha saudades de escrever um poema, mas as palavras já não lhe saiam da cabeça, há muito tempo. Mas disse isto sem qualquer mágoa.

Depois disse-me que tinha uma coisa boa para me contar, acrescentando: «Boa para mim, claro.»

E depois contou-me que a leitura deixara de lhe dar o prazer de outros tempos. E estava reticente em voltar aos "autores da sua vida" por um "medo" que nem é assim tão estranho no seio dos leitores.

Mas encheu-se coragem e lá voltou a ler um dos vários livros de Camilo Castelo Branco que nunca lera. Sentiu-se muito reconfortado, por encontrar o Camilo de sempre. Sorriu quando me disse:

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa) 


terça-feira, dezembro 03, 2024

As tertúlias de café, das certezas e das dúvidas...


Estava sozinho a beber café, mesmo ao lado de um grupo de tertulianos, que passam a manhã, por ali, a pôr as "certezas" em dia.

Pensei nas minhas tertúlias, que são tão diferentes daquela. Normalmente são povoadas de gente cheia de dúvidas, que se senta para ver se aprende alguma coisa, e se diverte, claro.

Percebi à légua que um deles, ainda tinha mais certezas, que todos os outros. Ouvi-o dizer pelo menos três vezes: «Não é nada disso.» Antes de tentar vender o seu "charrouco" aos companheiros.

Ao contrário daqueles senhores, temos algumas dúvidas de que o Sporting vá ser campeão ou que o Almirante possa ser Presidente da República...

E o melhor disto tudo, é não fazermos apostas, não termos medo de errar ou de estar errados. 

O pior que nos pode acontecer, no dia seguinte, é sermos alvo de "chacota" durante um ou dois minutos.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, outubro 01, 2024

A Vida, a Poesia e a Ficção, com e sem sentido...


A vida não faz muito sentido. Nunca fez.

Não era essa a questão.

Mas sempre se podia apanhar boleia.

E era melhor falar de literatura que da vida...

Mas a verdadeira questão nem era assim tão estranha. Se a vida não faz muito sentido, por que razão a ficção e a poesia têm de fazer sentido?

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Ainda hoje tenta "descodificar a frase: "ser diferente e fazer a diferença"...


Passaram-se uns trinta anos, desde que ele era um promissor actor e houve alguém que lhe disse que só valia a pena continuar ali, se estivesse mesmo apostado "em ser diferente e fazer a diferença".

Foi a pior crítica e conselho que podiam fazer a um jovem, Ainda por cima veio de um encenador. Porque dizia tudo e não dizia nada. Ficou intrigado e ao mesmo tempo desgostoso. Na época pensou que o que o encenador lhe quis dizer, foi que estava na profissão errada, que nunca iria ser ninguém nos palcos.

A frase acabou por ser determinante para que seguisse o conselho (e a vontade...) dos pais e acabar o cursinho e ter uma vida igual a tantas outras, deixando para trás o sonho da representação. 

Finge que não se arrepende da opção tomada, quando vê que muitos dos companheiros com quem se iniciou no teatro também não conseguiram "ser diferentes nem fazer a diferença"...

Mas nos últimos tempos começou a pensar que aquela frase não se referia apenas ao talento, também queria entrar na sexualidade, no que somos e no que desejamos. Recordava-se dos avanços tímidos do encenador, com pequenos toques e olhares quase profundos. Mas ele não era isso. Sabia que era de raparigas que gostava...

O que ele estranhou foi só pensar nisso agora. Nunca antes pensar que o "ser diferente" pudesse estar ligado à sua opção sexual. E até podia não estar. Mas a dúvida estava ali, bem viva...

Quando me contou este episódio, não fui capaz de o ajudar, porque a frase era de facto bastante enigmática. Adiantei que aquelas palavras só deviam ter a ver com o teatro, sem certezas.

Mas mesmo que ele quisesse esclarecer o assunto, já era tarde demais, pois o encenador já não está entre nós...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, fevereiro 04, 2023

Tem Tudo para Dar Errado...


Li a notícia no site do "Record" e pensei logo que tinha tudo para dar errado...

Estou a falar da decisão tomada na assembleia geral do Clube Desportivo Cova da Piedade (aliás, tomada pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Clube, através do seu voto de qualidade, após um empate entre 33 sins e de 33 nãos...), de acolher o clube "sem abrigo", cujo nome passou a designar-se por apenas uma letra a B, após ter sido "corrido" do Clube de Futebol "Os Belenenses", que apesar de ser um clube de primeira, não teve qualquer problema em voltar aos distritais.

Felizmente foi subindo todos os anos de divisão e hoje já está na Liga 3, que parece um campeonato de históricos, principalmente na sua zona, onde tem como adversários o Vitória de Setúbal, a Académica, o Caldas, o Alverca, o União de Leiria e o Amora, que já estiveram na Primeira Divisão.

Voltando ao Cova da Piedade, depois de ter tido uma SAD com capital chinês de triste memória, que depois de deixar um rasto de dívidas, decretou falência, volta a "navegar" no erro, ao juntar-se a outra sociedade que pelo exemplo que deixou em Belém, também não honra os seus compromissos. 

Percebe-se à légua que a lei sobre as sociedades desportivas devia ser mais transparente e também mais exigente. Contam-se os exemplos de mais de uma dúzia de clubes, que tiveram de mudar de nome para poderem continuar disputar os campeonatos de futebol. E outros, tiveram de fazer como o Belenenses, começar de novo nos distritais... 

Talvez o exemplo mais recente e mediático, seja o do Desportivo das Aves, que até teve a Taça de Portugal, que conquistou no jogo com o Sporting de triste memória (depois da invasão de Alcochete...), em leilão...

E é por tudo isto que digo, que esta união, tem tudo para dar errado.

E ainda há um aspecto não menos interessante: onde irá jogar esta SAD? Será que vai voltar ao Estádio Municipal da Cova da Piedade, apesar do rasto de incumprimentos que deixou atrás de si?

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


sexta-feira, fevereiro 03, 2023

«Isto está a ficar bonito está...»


Ela está tomar o pequeno-almoço a ver as notícias que lhe seleccionaram dentro do telemóvel.

Quando disse, «isto está ficar bonito está...», não falou apenas para mim, mas para todos os que a quiseram ouvir.

Depois descobriu que afinal aquele caso de violência era antigo, já tinha sido noticiado algum tempo antes. Não percebia porque estavam a voltar a dar aquela notícia...

Eu percebi mas fiquei ali no meu canto, em silêncio, a pensar até que ponto era real o aumento de violência no nosso país. Na minha experiência prática de andar por aqui e ali, notava mais a falta de respeito e a indiferença pelo próximo, que da violência em si. Mas eu não costumava caminhar por sítios problemáticos.

Mas claro que tinha aumentado, um pouco por todo o lado. Quanto mais não fosse pelo sentimento de impunidade que se sente ao ver e ler as notícias sobre os juízes e tribunais, onde se fica com a sensação de quase toda a gente sai em liberdade, com termo de identidade e residência. O pior é sentirmos que não é uma "justiça cega", tem alvos preferidos dentro de algumas minorias. Mas o mais grave é uma coisa que ainda não percebi muito bem o que é, que tem laivos de marialvismo e até de machismo: o deixar em liberdade, vezes de mais, os cobardes que perseguem, agridem as mulheres que fingem ser das suas vidas. Mulheres, que em alguns casos acabam mesmo por matar, devido à complacência desta justiça, que não deixa atrás das grades estes potenciais assassinos.

A minha dúvida era se o facto de termos uma televisão que se alimenta de "sangue", que transforma qualquer crime, pequeno ou grande numa telenovela, tinha, ou não, alguma influência no aumento da criminalidade no nosso país...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)