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domingo, agosto 30, 2026

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances»


Há tantas coisas sobre a qual nunca pensámos, algumas importantes outras quase sem importância nenhuma, muitas vezes são apenas meras teorias ou conjecturas.

O Rui voltou a ler os livros de crónicas de António Lobo Antunes, depois de ter lido, e gostado, dos seus poemas. E por essa razão resolveu criar algum alvoroço na nossa mesa de críticos literários sem jornal, com uma frase daquelas, que não se apresentam todos os dias à mesa de café:

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances.»

Mas não se ficou por aqui, explicou bem demais a sua tese, baseada nos livros de ficção do bom do António que só se liam com grande esforço e paciência, de trás para a frente e da frente para trás, porque ele "habitava noutra galáxia". Só descia à terra quando tinha de escrever as crónicas semanais, que gostava de desvalorizar, por lhe parecerem coisas demasiado simples e corriqueiras, mesmo sem o serem...

Depois de duas ou três tentativas para desmontar a sua teoria, acabámos quase convencidos, porque o Rui vinha bem preparado para uma possível "guerra literária".

Quando nos levantámos da mesa, percebemos que estávamos quase sem argumentos, graças ao bom exemplo que nos foi apresentado, sobre alguém que se faz entender  mais como cronista e poeta que como romancista, pelo menos para o leitor comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 01, 2026

Largos que se deixam ficar apenas pela memória...


Há textos que nos deixam a pensar, porque o mundo está longe de ser o que queremos ou imaginamos. As pessoas de hoje são diferentes das de ontem, porque as respostas que temos de dar a tudo aquilo que nos rodeia, também são diferentes... E isso altera tudo, até a paisagem com que estávamos habituados a conviver diariamente.

Foi o que aconteceu com as primeiras palavras da crónica de Ana Cristina Leonardo no "Ípsilon" de sexta-feira:

«Desde que fechou o café do largo junto à estrada que serpenteia até à vila, a vida no monte foi estreitando. Foi-se a caminhada diária que exercitava as pernas e os sentidos, incluindo o sentido comunitário, e não há tai chi walking que nos valha.
Para muitos, tratava-se de um hábito de décadas, ponto de encontro das mulheres pela manhã bem cedo, dos homens pela tarde para o petisco, posta-restante, central de notícias, posto avançado onde paravam obrigatoriamente o padeiro e o peixeiro, o “marroquino”, o homem dos queijos e chouriços, até, esporadicamente, o vendedor de conquilhas.
O largo passou a apresentar-se deserto, rendido ao silêncio que pesa sobre as duas únicas casas que restam. Além destas e do edifício do café encerrado, apenas uma charneca abandonada onde as chuvas se afundam no Inverno e no Verão se contorcem plantas rasteiras ressequidas pelo Sol.»

Não tem nada de premonitório, porque aqui o "Largo" continua com gente, mesmo que falem pouco ou quase nada (a Rosa é a excepção que confirma a regra), gostam de ficar por aqui, sentados nos velhos bancos de jardim, a ler, a olhar ou simplesmente a ver o tempo passar...

Mesmo assim, não deixa de ser uma boa maneira de começar Agosto. Até porque a realidade fez menos mal do que parece...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 29, 2025

Sol, livros, mar, livros, sol, livros, mar livros...


Talvez os frequentadores da minha praia, não sejam pessoas muito normais. Talvez...

Noto isso pelo número de pessoas agarradas a livros que encontro rente aos chapéus de sol, com vista para o mar. 

Até parece que aquele lugar tem uma placa qualquer, invisível, onde se informa qualquer coisa como: "praia aconselhável a leitores de livros".

Sim, o nosso caso esteve longe de ser único (três pessoas com três livros abertos...). E ainda bem. 

Nota não menos importante, havia leitores de todas as idades. Sim, não me venham cá com o "filme" de que os jovens não lêem, eles eram praticamente iguais em número aos pais e aos avós, que gostam de ler deitados e sentados na toalha, a sentir aquela brisa quase azul que vem do Oceano.

Só me faltou mesmo, andar de chapéu em chapéu, a ver o que se lia mais, romances, ensaios ou poesias...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)

Nota: quarta e última crónica algarvia.


terça-feira, agosto 12, 2025

As praias privadas, e as outras, que são só para quem as conhece...


Este ano notei que a minha praia dos últimos quinze anos (a Praia do Cabeço, sem vigilância e concessionário...), está a perder qualidades. Começou a ser descoberta e já não tem aquele aspecto de "paraíso", com muito mais areia que chapéus e pessoas.

Sorri, ao pensar nos "condes da Comporta", que sabem que o dinheiro compra quase tudo, ao ponto de terem o privilégio de ter praias apenas para eles, a família e os amigos.

A falta de acessos vai continuar, porque há muito tempo que o "povo" perdeu aquela "batalha de Tróia", que se prolonga desta bonita praia até Melides. Os preços dos bilhetes dos ferrys que fazem a travessia entre Setúbal e a Margem Sul (aposto que nenhum ricaço de Tróia lhe chama isso...) e os obstáculos pouco naturais, que dificultam a chegada ao mar, são um bom exemplo de quem quer praias sem a presença dos "outros"...

Curiosamente, em nenhum momento quis ter "uma praia só para mim", até por saber que isso é possível, lá para Outubro. 

Claro que dispensava a companhia tão próxima dos espanhóis que falam pelos cotovelos e parecem ter um autofalante na boca. Apesar de terem quase toda a praia para eles, gostam de colocar o chapéu a menos de cinco metros de quem preferia estar por ali, sossegado, a ler e a ouvir apenas as ondas do mar...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve) 

Nota: primeira das minhas "crónicas algarvias".


domingo, agosto 03, 2025

Coisas normais de quem regressa a casa...


Não devia ser estranho, normalmente é assim. É domingo e as férias acabaram.

Normais são também os vestígios de quem acabou de regressar a casa, que se acumulam pelas várias divisões da casa. 

As coisas parecem não querer voltar aos lugares. É todos os anos a mesma coisa... 

Devemos ser nós, que estamos com pouca vontade de pensar que amanhã é segunda-feira.

Por isso é melhor mudar de assunto.

Estive a ver as fotografias que tirei nas férias e como algumas estão ligadas a coisas que fui vendo e escrevendo (além de ler, também escrevi bastante...), talvez ensaie uma coisa chamada "crónicas algarvias", uma ou duas vezes por semana aqui no "Largo". 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Mar)


sexta-feira, maio 23, 2025

Não explica mas ajuda a compreender...


Não é que estivesse sem assunto, mas queria mudar de página, deixar este mundo de "sabujos" (onde o PSD e o PS continuam a ter a maioria...), que se julgam mais espertos que os outros, passando a vida a prometer o que sabem que nunca irão dar...

Mas como achei a crónica de Ana Cristina Leonardo no "Ípsilon" de hoje, muito feliz - tem alguns enigmas mas é sobretudo rica em retratos do mundo e do país -, achei que a transcrição de um dos parágrafos era boa para fazer de conta que vou "encerrar" o assunto:

«Se apelidar alguém de gordo pode ser interpretado como discurso de ódio, se questionar a participação de mulheres trans em competições desportivas femininas pode ser (e geralmente é, que o diga J. K. Rowling…) visto como transfobia, se recusar a chamada linguagem inclusiva que multiplica casos e casinhos pode ser entendido como discriminatório, se optar por usar a palavra deficientes em vez da designação pessoas com deficiência pode ser lido como prova de insensibilidade, se contar uma piada passou a ser razoável apenas e só se a piada não ofender ninguém, se… se… se… Já aparecer nas televisões e nos jornais a afirmar mentirosamente (desmentido pelos serviços hospitalares e pela PSP) que os ciganos o queriam matar, ou a expressar ideias boçais que nem na taberna de Eco, como fez o deputado Pedro Pinto (Deputado! Por Toutatis!) — “Não podem querer que André Ventura vá para uma cama onde ao lado esteja, por exemplo, alguém de etnia cigana” — passou a ser admissível e, além de admissível, aceitável.
Repare-se, porém, no detalhe (e o Diabo, é sabido, está nos detalhes): Pedro Pinto, recorrendo, até ele, e apesar da boçalidade, ao politicamente correcto — um entendimento linguístico que nos conduziu à ideia de que é possível mexer na merda sem sujar as mãos… —, não diz ciganos, diz alguém de etnia cigana. É o progresso!»

As palavras de Ana Cristina não explicam, mas ajudam a compreender este mundo, o lugar para onde estamos a caminhar. 

E a sua referência final da crónica ao hospital do Algarve (com cronologia e tudo) é bastante elucidativa do papel dos "sabujos" neste "país do faz de conta" ao longo das últimas décadas. E lá está, talvez a soma do banal dois mais dois, ajude a compreender - com mais nitidez - a vitória do Chega no "reino dos algarves"...

(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)


quinta-feira, fevereiro 27, 2025

Gostar da chuva é coisa de poetas e de cronistas do quotidiano...


Temos poucos dias como o de hoje, quase de chuva ininterrupta, mesmo nos piores dias de Inverno.

Sim, hoje é quase impossível andar na rua, sem molhar os pés...

Nem sequer podemos beber o café nas esplanadas, temos de olhar para quem passa do lado de dentro dos cafés...

Foi ao balcão, a saborear este liquido que faz elevar a tensão, que pensei que gostar de chuva é coisa de poetas...

Acrescento um quase a esta coisa da chuva ser inspiradora para os poetas e os cronistas do quotidiano. Sei que o grande José Gomes Ferreira e a minha querida Maria Judite (de Carvalho) devem ter escrito coisas bonitas sobre essa coisa pouco agradável de andar de chapéu de chuva aberto pelas ruas. Mas como sabemos, especialmente nestes tempos estranhos, há "malucos" para tudo...

Felizmente, o Inverno do nosso país até permite que deixemos o chapéu de chuva em casa e aproveitemos as várias abertas, tal como a protecção das muitas varandas das avenidas, para conseguirmos ir andando até ao nosso destino, passando quase pelos intervalos dos pingos da chuva.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 20, 2024

"As donas de casa não são donas de nada"


Gostei de ler (como de costume...) o artigo de opinião de Susana Peralta, no Público" de ontem, intitulado, "As donas de casa não são donas de nada", em que historiou a vida familiar das avós e tias, que acaba por ser comum a muitos de nós, que descendemos de habitantes das aldeias portugueses, onde por exemplo, a electricidade só chegou depois de Abril...

À mulher estava destinado um papel secundário na sociedade. E isso fazia-se sentir logo no acesso ao ensino primário, que se não era para todos os meninos, menos seria para todas as meninas... E nem vale a pena falarmos do ensino secundário ou da universidade...

É muito importante termos memória (mesmo que exista tanta gente a querer fugir dela, por representar uma vida de pobreza...). Foi por isso que gostei de ler a Susana. Sim, as minhas avós, materna e paterna, também não foram à escola. Mas o mesmo se passou com os meus avôs. Claro que eu sou da geração anterior da economista (devo levar-lhe uns vinte anos de avanço...), os seus avós já são da geração dos meus país, que embora fossem confrontados com os mesmos problemas, puderam lutar mais pela aprendizagem, nem que fosse já "fora de horas" (como ela refere em relação a uma tia...).

Não posso deixar de transcrever a parte final do seu texto, que diz muito do que se avançou e também dos defensores do "estatuto da dona de casa": 

«O enorme contraste entre a minha vida e a das mulheres da geração que me precede na família é revolucionário, no sentido Goldiano e no sentido de Abril. Neste lugar de fala que granjeei, penso muito na voz que elas não tiveram: apesar da inteligência e fino espírito analítico de algumas delas, o país decidiu encerrá-las numa vida de donas de casa na qual, na verdade, não foram donas de nada.
A revolução silenciosa de Claudia Goldin demonstra que a participação de pleno direito das mulheres no mercado de trabalho. é a conquista de um lugar na sociedade, o domínio da fertilidade e a libertação da tarefa de cuidar, que não é paga, nem valorizada. Uma história de poder. As mulheres poderosas metem medo aos machos fracos que as querem mandar para casa.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, julho 03, 2023

A "Tranquilidade" de Maria Judite de Carvalho


Continuo a ler as crónicas de "Este Tempo" de Maria Judite de Carvalho (vou lendo uma ou duas crónicas por dia, para perpetuar a prazer da sua leitura...) e achar este livro editado em 1991, quase "profético", mesmo que as crónicas mais recentes da Maria Judite tenham sido escritas há quarenta anos (as mais antigas foram escritas nas páginas do "Diário de Lisboa em 1968 e as mais recentes no "O Jornal" em 1983...).

Às vezes penso que só nos últimos anos é que nos tornámos egoístas e esquecemos com facilidade o "essencial" nas nossas vidas. Mas parece que estou enganado. É essa a sensação que experimento ao ler a crónica "Tranquilidade", que transcrevo na integra, e diz muito do que somos e já éramos:

«Num dos dias de maior calor deste Verão apareceu no patamar, deitado, sequioso e quase morto (pelo menos assim parecia), um cão arruivado. Todos os que subiam ou desciam a escada paravam, olhavam para o bicho com piedade, pobrezinho, como teria vindo ali parar?, houve quem lhe desse um pires de leite, uma pessoa acabou por o levar consigo não sei para onde.
Há dias, antes do Natal, quando a longa seca terminou e se abriram de par em par as comportadas do céu, um homem de água, muito velho e muito trémulo, quase completamente surdo e talvez meio cego, apareceu sentado num degrau daquela mesmo escada. Um inquilino tentou expulsá-lo, aos gritos, mas ele, coitado, não ouvia ou não percebia o que lhe diziam e tinha um meio sorriso parado na cara escura e engelhada. Depois, quando o deixaram só, encostou a cabeça à parede e adormeceu. As pessoas iam subindo e descendo mas ninguém pensou em ajudar o velho. Talvez as pessoas andassem mesmo mais depressa do que era costume, com receio de que ele, de repente, acordasse e pedisse qualquer coisa, ou fugissem de si próprias ao fugir dele, para não se sentirem culpadas, talvez.
Depois, daí por meia hora o velho acordou, levantou-se com dificuldade e foi-se embora apoiando-se às paredes. As arcadas luminosas do Natal iluminavam-lhe talvez o rosto deserto.
Na escada ficou a marca do seu corpo molhado. E a tranquilidade voltou ao prédio.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 23, 2023

Um Livro Especial, num Dia Especial...


Aproveito a comemoração do Dia Mundial do Livro, para falar de um livro especial, pela forma viva como o seu autor nos relata as suas memórias da infância, adolescência e começo da idade adulta, vividas numa África que parece muito mais multicultural, do que era de facto.

Falo da  "Crónica de África" de Manuel S. (de Santos...) Fonseca, cuja escrita é tão intensa que nos faz "estar (quase) lá", nas ruas de areia vermelha, a assistir de camarote às aventuras daquela juventude inquieta e colorida.

Estas bonitas memórias estão cheias de gente boa e de lugares inesquecíveis (para o Manuel...), que por vezes se misturam com os "filmes das nossas vidas", com a mestria do senhor Fonseca, que respira cinema por demasiados poros (e ainda bem...), sem nunca perder o sentido e o humor nesta sua escrita brilhante.

Como leitor, é sempre uma maravilha ler um livro que é aberto sempre com redobrado prazer e por muito que queiramos, não conseguimos "eternizar" a sua leitura.

Esta obra tem ainda outra virtude, como se alimenta de memórias, também mexe e remexe com as nossas, levando-nos a registar um ou outro episódio, que estavam esquecidos, num canto qualquer dentro de nós...


sexta-feira, fevereiro 24, 2023

A sabedoria popular explica quase tudo...


Bruno Nogueira escreveu uma crónica na "Sábado", quase venenosa, dedicada aos seus pares, com menos talento, com mais idade e claro, com um futuro menos risonho. Mas vai mais longe e diz que o seu "desporto" preferido, é dizerem mal dos outros, ao mesmo tempo que se acham "os melhores do mundo".

Provavelmente nem estou a sintetizar o artigo da melhor maneira, por ser repetitivo e ligeiramente confuso. Mas nem é disso que quero falar.

O actor não fala em nomes. E foi esta generalização que gerou alguma polémica, na conversa que decorreu no intervalo para o café.

Fui quase o único a dizer que não eram precisos nomes, porque aquela "sintomatologia" devia ter muitos seguidores na profissão. Nós é que andamos mal informados sobre as muitas tricas que rodeiam os bastidores dos palcos e das telenovelas. 

Quem vive nesse mundo, sabe com toda a certeza, para quem é que esta crónica é dirigida. E também explica um modo de ser muito português, onde o que menos faltam são os "apontadores de dedos", que fingem que é mais fácil olhar para os outros que para o espelho...

Houve alguém que recorreu à sabedoria popular e nos deixou a sorrir, ao mesmo tempo que disse que ela explica quase tudo. E explica mesmo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, agosto 03, 2022

"O Homem no Arame" da Maria Judite de Carvalho


O segundo livro que levei para ler nas minhas férias curtas foi "O Homem no Arame", uma selecção das crónicas da autoria de Maria Judite de Carvalho, publicadas no "Diário de Lisboa" entre 1970 e 1975.

Uma boa parte dos textos de Maria Judite contraria a história das crónicas, que estão quase sempre presas ao tempo, ou seja, são intemporais, permanecem vivos com o passar dos anos.

Um bom exemplo é a crónica/ conto, "O Cabelo na Sopa", do qual transcrevo um parágrafo, com a devida vénia:

«Que não há outra coisa a fazer? Talvez não haja. Em todo o caso, sempre é bom ir prevenindo as gentes - irmo-nos prevenindo a nós próprios - do lento suicidio colectivo em que estamos todos activa ou passivamente a colaborar.»

É difícil encontrar um texto tão actual, dentro de uma crónica, escrita há perto de cinquenta anos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, maio 22, 2022

Uma Crónica com Várias Crónicas dentro (e um esquecimento)...


Sei que tenho alguma facilidade em misturar assuntos nos textos. que escrevo. Quando começo a escrever estou a pensar numa coisa mas depois a minha mão inclina-se para outras direcções e quando dou por ela, Já "estou noutra rua"...

Foi mais ou menos o que aconteceu ontem. Depois de ler o que escrevi, fiquei com a sensação de que tinha escrito matéria que daria para três textos diferentes. Ou seja, escrevi por ontem, hoje e amanhã.

Em parte isso aconteceu por ter sido o primeiro a levantar-me de manhã e ter ido buscar pão à mercearia.

Quando falei na falta que nos fazem as "viagens para longe daqui", esqueci-me de dizer que isso não acontece com a frequência que uma boa parte de nós deseja, porque cada vez temos menos poder de compra, ou seja, estão a querer transformar-nos, quase todos, em pobrezinhos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, fevereiro 08, 2022

Os Diários e a Escrita do Quotidiano...


Ao ler os "Diários de Emília Bravo" de Maria Judite de Carvalho, fiquei com vontade de escrever sobre eles. Isso acontece sobretudo pela pertinência do seu conteúdo.  Mesmo quando deixa de ser o "Diário de uma dona de casa" (o livro está dividido em três partes), a temática não se altera muito. Convém referir também que estes textos foram publicados nas páginas do "Diário de Lisboa", no começo dos anos 1970.

São pequenos relatos do quotidiano, como o nome sugere, são muito virados para o sexo feminino. Por vezes surge por ali uma mulher, que quase grita com as outras mulheres, por se sentirem confortáveis numa sociedade completamente desigual. Há também muitas referências culturais ao teatro, ao cinema, à arte ou à música (provavelmente foi uma das primeiras pessoas a elogiar o Zé Mário Branco, então em Paris, no final do ano de 1971, com referências elogiosas que se estendem a Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e  Luís Cília (fala dele como "exilado", a censura devia estar distraída...). 

Mesmo sem ter a qualidade da ficção e das crónicas livres da Maria Judite (tenho encontrado algumas deliciosas nas páginas amarelecidas de "O Jornal"...), gostei da leveza da sua escrita e do seu habitual olhar atento a um tempo no mínimo estranho, para todos os portugueses, mas especialmente para as mulheres. 

Não posso deixar de referir um outro grande escritor do quotidiano, o poeta José Gomes Ferreira. O "Poeta Militante" tem coisas de grande beleza sobre os dias, que fingem ser iguais uns aos outros. Além dos seus "Dias Comuns" (vários volumes), há também os olhares poéticos registados nas páginas de a "Gaveta de Nuvens" ou na "Calçada do Sol".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, janeiro 16, 2022

O "Espírito do Tempo"...

Durante este fim de semana li um artigo de opinião de José Gil (já com alguns anitos), que me deixou a pensar, e a concordar, com o seu ponto de vista.

Numa linguagem mais simplista e menos filosófica, Gil entendia que o presente estava a ocupar demasiado espaço na vida das pessoas, afastando-as do passado (que se tornava cada vez era menos importante na vida das pessoas...), ao mesmo tempo que desvalorizava o futuro, por ele, simplesmente, não "existir".

Penso que com o passar dos anos, esta sua ideia ainda se agravou mais. Até mesmo o presente, apesar da sua "largura", ficou cada vez mais "balofo", sem substância. 

E se o passado é uma fotografia ou um filme a preto e branco, o futuro é algo que pode ser tão "tenebroso", que o melhor mesmo, é esquecê-lo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, dezembro 14, 2021

A Memória das Palavras (01)


Uma das minhas "outras vidas" obriga-me a consultar jornais e revistas de outros tempos e a descobrir coisas "do arco da velha". Nos primeiros tempos uma das coisas que mais me surpreendia, era a "longa vida" dos muitos maus hábitos que proliferavam na sociedade portuguesa, especialmente na política, no desporto e na cultura.

Foi a leitura de dezenas de "pérolas" que me fez pensar em criar uma nova rúbrica aqui no blogue (em princípio quinzenal), com um título "roubado" ao grande poeta e diarista, José Gomes Ferreira, "A Memória das Palavras" (o grande Zé Gomes também era óptimo a escolher títulos...).

E começo com uma transcrição de uma crónica assinada pela jornalista Áurea Sampaio, que tem como título, "Um Partido Doente", publicada na revista "Visão", a 27 de Setembro de 2007:

«O PSD parece uma agremiação de garotos que se entretêm, nas horas vagas, numa luta de galos pela conquista do clube de bairro lá do sítio. Até podia ser divertido assistir aos relatos das peripécias, dos insultos e das alegadas "golpadas" que um e outro lado desferem contra o adversário, pois a coisa até tem os ingredientes básicos de um folhetim de novela barata: há ódios à solta, acusações de fraude e compra de votos, ameaças, denúncias..., enfim, o rol do costume. Ora acontece que o PSD não é um clube de bairro, mas, sim, o principal partido da oposição, com responsabilidades, quer como alternativa de poder quer na definição das políticas mais sensíveis a nível de Estado.»

Achei esta frase curiosa, por manter quase toda a actualidade, mais de 14 anos depois, ainda que com protagonistas diferentes...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)