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sexta-feira, outubro 03, 2025

O silêncio dos culpados...


Não sei se sou só eu que reparo, que cinquenta anos depois de Abril, há quem queira "encolher" o nosso país, que apesar de ter o tal "mar plantado", no seu lado ocidental, sempre esteve longe de ser o "paraíso" dos poemas e da prosa poética.

Descubro um país com menos escolhas e também com menos espaço para as diferenças.

Um país com mais "verdades absolutas", mesmo que a maior parte das vezes, não passem de deturpações da realidade. 

Tal como aconteceu noutros tempos, em que a realidade era pintada diariamente com cinzentos, este país parece querer voltar atrás no tempo. Parece querer avivar os medos, como por exemplo, o medo das palavras. 

E atrás deste medo, vêm outros medos, que tornam cada vez mais difícil perceber onde começa a ficção e acaba a realidade no país e nas nossas vidas.

Se um juiz pode ser escutado e perseguido durante três anos, apenas porque há alguém no ministério público que lhe quer colocar um autocolante de "corrupto" na testa, pode-se fazer quase tudo às nossas vidas.

Curiosamente (ou não), os políticos dos partidos e os governantes dos muitos poderes existentes, ficaram em silêncio. 

Já nem sequer dizem a frase batida, que só cumprem quando lhes dá jeito: "à política o que é da política, à justiça o que é da justiça."

Infelizmente, é cada vez mais audível, o silêncio dos culpados...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, agosto 13, 2025

Todos sabíamos que havia mais que uma definição de silêncio...


Às vezes acontece, a crítica a um livro "dá corda" a conversas que não precisam nem querem um termo. O livro, História do Silêncio, de Alain Corbel, prestou-se a isso, mesmo sem o termos lido, com apenas a leitura das palavras da Cláudia Carvalho Silva (Público).

Houve logo uma frase que deu tecido mais que suficiente para as mangas, que não fazem falta nenhuma neste Verão excessivo: "A língua da alma é o silêncio". Ninguém a conseguiu contrariar.

Entre outras variações, houve uma que não trouxe consensos, eu sorri, por gostar de me reencontrar de uma maneira e de outra. Mas claro que a possibilidade de escutar o mar, as árvores quando abraçam o vento, o piar de uma ave ou até os passos de alguém na rua (à noite há sempre mais coisas para escutar...). A frase foi "o silêncio é uma forma do individuo se ouvir, de se reencontrar". Pois é, nós urbanos além de vermos sempre poucas estrelas no céu, também não conhecemos muitos sons que invadem os campos e suplantam as vozes humanas...

E é por isso que ganhamos a capacidade de nos "reencontramos" no meio da multidão.

Vinha para casa a pensar que há demasiadas pessoas dentro das cidades a precisarem de passar um mês, numa das muitas aldeias, quase desertas do país (não é dessas de "brincar ao turismo"...), porque o silêncio não é quando o mundo fica sem som, é quando o que está à nossa volta ganha vida...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quinta-feira, abril 17, 2025

Deuses que nos vão abandonando, desiludidos, e um tanto ou quanto, "descrentes"...


Embora nos últimos anos nos tenhamos tornado uma "miscelânia humana", há um povo, os judeus, que parece permanecer cada vez mais anónimo. Isso acontece, por razões que todos conseguimos entender.

A tentativa do governo de Israel acabar com um povo e com uma nação que vive ao seu lado, envergonha qualquer ser humano, com um mínimo de dignidade e de respeito pelo próximo, mesmo que seja israelita.

A maioria permanece em silêncio. 

Tem sido assim nos últimos setenta anos. 

Escritores como Amos Oz são a excepção que confirma a regra. Se ele ainda estivesse entre nós, não esconderia a revolta e a vergonha por ter como líder político, um assassino.

É um silêncio ensurdecedor, que entre outras coisas, nos afasta cada vez mais do território dos deuses.

Deuses que nos vão abandonando, desiludidos, e um tanto ou quanto, "descrentes" ...

(Fotografia de Luís Eme - S. Martinho do Porto)


sexta-feira, abril 12, 2024

O "silêncio ensurdecedor" das mulheres portuguesas (as "esquerdistas" do costume não contam...)


Estava à espera de assistir a reacções mais contundentes das mulheres portuguesas sobre o que alguns homens escreveram (num livro) e disseram (na apresentação e depois). Sim, alguns não se sentiram completamente realizados na sua tarefa da defesa da "família tradicional" e já vieram com propostas ainda mais "interessantes", como a do "estatuto da dona de casa".

Não frequento as redes sociais, pelo que não sei se estou completamente certo, sobre este "silêncio ensurdecedor" das mulheres portuguesas (tanto as antigas como as modernas).

E há ainda outra questão: até podem haver por aí muitas mulheres que querem que se volte ao tempo em que elas se limitavam a ser mães e donas de casa... Só que isso só poderá ser garantido a uma minoria de mulheres (as esposas dos "empresários" e dos "políticos"  bem sucedidos do nosso país...), pelo menos com um nível de vida economicamente aceitável.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 16, 2023

Agora, quando o Benfica perde, ninguém quer falar de futebol...


É curioso, nesta altura do campeonato, quando o Benfica perde, nem mesmo os sportinguistas e portistas (aqui no Sul, claro), têm muita vontade de falar de futebol.

Talvez por saberem que não são tempos de euforias. Quatro pontos são quatro pontos. Nada está perdido, nada está ganho...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, janeiro 10, 2022

Conversas e Silêncios sobre os Negócios do Corpo...


Sabia que ele gostava de pensar as coisas ao contrário, especialmente quando uma ou outra mulher se misturava na conversa.

Mas o que achei mais estranho foi estarem a conversar sobre a profissão que costumam dizer ser a "mais velha do mundo" (nunca percebi muito bem porquê...). 

Uma das mulheres fingia não perceber o porquê de as pessoas venderem o corpo. Não valia de nada falar em "mercado" ou "comércio", na existência de oferta ou de procura. Preferiu sim, dizer que as mulheres eram mais uma vez vítimas do mundo dos homens, onde o normal eram serem exploradas e humilhadas.

Foi quando ele disse que lhe fazia muita confusão, aquela história das mulheres vítimas dos homens, nos dias de hoje, em que a figura do "proxeneta" quase que desapareceu. Se deixar que o interrompessem acrescentou que se os homens pagavam para ter sexo e as mulheres recebiam o preço acordado, não conseguia ver aqui nenhuma exploração, muito menos vítimas. Era apenas negócio.

As mulheres continuavam a não aceitar a situação, muito menos o negócio. E eu sai como entrei, sem oferecer uma palavra que fosse à discussão...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quinta-feira, abril 22, 2021

O "#Me Too" Chega ao nosso País com o Atraso do Costume...


Foi preciso uma actriz contar no "confessionário" televisivo  - onde as figuras públicas podem e devem chorar, com ou sem vontade... - que tinha sido vitima de assédio sexual por parte de alguém poderoso (cujo nome continua "escondido", à espera de melhores dias...) de uma produtora que trabalhava para um canal televisivo (que não é a SIC, pelo que suponho ser o seu concorrente mais feroz...), para começarem a surgir mais relatos sobre assédio sexual.

Mas Sofia Arruda não se ficou pelo assédio, foi ainda mais longe. Disse que, tal  como fora ameaçada pelo "assediador" (que passados estes dias continua "anónino", vá-se lá saber porquê...), esteve vários anos sem conseguir trabalhar para esse canal de televisão...

Nada disto é novidade para quem trabalha ou conhece os bastidores da televisão, embora o assédio seja tanto homossexual como heterossexual (será que algum actor masculino alguma vez irá falar disso?).

O curioso é o "#Me Too" chegar ao nosso País, com os anos de atraso do costume. Ou seja, as coisas no nosso "cantinho", não mudaram assim tanto como nos tentam fazer crer.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, julho 26, 2020

Somos Racistas e Cobardes


O que aconteceu ontem em Moscavide, não diz apenas que somos racistas. Diz algo que sei há muito tempo: somos uns cobardes.

Cobardia que se torna ainda mais nítida no calor do Verão, através da acção de dezenas e dezenas de incendiários, que destroem diariamente milhares e milhares de hectares das nossas zonas verdes...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)

sábado, junho 06, 2020

As Ruas Silenciosas e uma Memória...


As ruas estão muito mais silenciosas, quando se ouve uma voz humana, chama-nos logo a atenção.

Foi o que aconteceu há pouco, com duas vizinhas que aproveitaram para colocar as "novidades" em dia, sem se aperceberem que as suas vozes entravam nas nossas janelas, como se quisessem falar connosco.

Sorri e recordei o meu pai, que sempre foi avesso à chamada "quadrilhice" ou "coscuvilhice", que ainda continua a fazer mais parte do universo feminino que do masculino. Se havia pessoa que ele não achava muita piada no nosso bairro era à leiteira (uma senhora que passava todos os dias pelas ruas do nosso bairro, com o seu carro metálico com rodas de bicicleta, que deveria ter um sistema qualquer de refrigeração  - nem que fosse uma pedra enorme de gelo - e vendia leite do dia em pacote, ao mesmo tempo que também oferecia "notícias fresquinhas" a quem lhe dava dois dedos de conversa...).

"Lá vem o jornal do bairro", dizia ele, por graça. 

E ela era mesmo boa, sabia tudo sobre a vida dos outros. Podia inventar algumas coisas, mas era uma autêntica investigadora, especialista em mexericos. Podia assinar muita da prosa das revistas (que são mais da cor de burro quando foge, que rosa...) ou ter uma página de facebook muito visitada e comentada...

(Fotografia de Luís Eme - o "Segredo" de Lagoa Henriques, Lisboa)

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Nada se Mantinha como Dantes, mas...


Não queria as paredes pintadas, dizia que tudo devia ficar como sempre fora... Fingia esquecer que nada se mantinha como dantes.

A mulher mais madura disse que as mulheres demoram mais a apaixonar-se, mas depois resistem mais ao processo de desmoronamento.

Eu fiquei em silêncio. Devia ter dito que em relação ao amor, as mulheres e os homens não são assim tão diferentes... Mas talvez estivesse errado.

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos)

sábado, fevereiro 01, 2020

O Silêncio e o Sossego Nocturno da Minha Rua


Espreito a rua deserta, da varanda. 

Descubro algumas luzes acesas no interior das casas dos prédios de frente, mas nem um vulto a cirandar pelas divisões. Provavelmente, estão todos sentados no sofá...

Olho para cima e descubro o céu pintado a várias tonalidades de cinzento, quase a prometer mais água para amanhã.

Quando "regresso" à minha rua, penso no seu sossego diário, especialmente depois de anoitecer. Sei que é este silêncio que faz com que o sábado adormeça mais rápido por aqui, que noutros lugares.

É por isso que me apetece chamar-lhe, "maldita rua". Não tem uma única loja do que quer que seja, muito menos um café ou bar, que deixasse entrar e sair dois ou três bêbados, capazes de partir um copo, dar um grito ou uma gargalhada na rua e conseguir o feito, de prolongar o sábado para dentro do domingo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Não Somos Bem Racistas...


Nós não somos "bem" racistas, só não gostamos é muito (perto do nada...) de pretos e de ciganos...

Eu diria que o que somos muito é hipócritas e cínicos.

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Gente Castigada pela Vida Duas Vezes...


Ontem fiz uma coisa que está longe de ser das que mais me agradam, fui a um hospital  público como acompanhante, e onde, naturalmente, permaneci mais de um bom par de horas. Isso deve ter acontecido para sentir na pele que as coisas estão bem piores do que o "quadro que nos tentam pintar" e oferecer...

As pessoas que já estão doentes, são sujeitas a um martírio de horas, desde os tempos de espera, à forma como são tratadas, como se não lhes bastasse a maleita que padecem, ainda têm de ser "castigadas" pela desordem reinante da maior parte dos serviços...

Não sei se foi por estar a observar tudo aquilo que me rodeava, com atenção, que até acabei por não ficar excessivamente impaciente...

Outra coisa que me incomodou foi ver a falta de cuidado dos funcionários para com os doentes com gripe, que estavam por ali, lado a lado com as pessoas saudáveis e com os outros doentes, que não precisavam de "comprar" mais nada no hospital... 

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

terça-feira, novembro 12, 2019

Nunca Sabemos o que se Esconde Atrás dos Muros de Nuvens...


O que aconteceu na Bolívia nos últimos dias, é apenas mais um dos vários golpes políticos, que têm conseguido virar de pernas para o ar, os vários países da Latina-América, quando tentam caminhar na direcção das "setas" indicadoras do socialismo e do comunismo.

Mesmo que não seja adepto das "teorias de conspiração", não posso deixar de pensar nos relatos de alguns amigos comunistas, que sempre que acontece algo de anormal por aqueles lados, apontam o dedo à CIA e aos EUA. 

E se estivermos atentos à história recente da América do Sul, é difícil não lhes dar razão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, outubro 26, 2019

As Palavras e o Silêncio...


Sei que estou mais comedido a falar com pessoas que não conheço bem sobre o dia-a-dia. E então se for para dizer mal dos políticos, dos polícias, dos médicos, dos professores, dos enfermeiros... Não há qualquer hipótese de diálogo.

Só os meus amigos é que conseguem que me "liberte" e diga coisas quase terríveis, misturadas com outras, divertidas, sobre estes tempos com demasiadas cores (mesmo que muitas desapareçam com os primeiros pingos de chuva...).

Os "70" foram tema de conversa, assim como o bloco central, que sempre pareceu uma "cozinha", pela quantidade de tachos e panelas e também de ingredientes diferentes (para tantos paladares...). 

Como não podia deixar de ser, também se criticou, de alto a baixo, a sua qualidade. A deixa foi aproveitada para se alargarem horizontes e se trazerem, à vez, para a mesa, os actuais líderes do mundo, que usam e abusam da meia branca e dos penteados exóticos. Enquanto eles iam dizendo raios e coriscos, lembrei-me do Hitler, do Salazar, do Franco e do Estaline, mas fiquei em silêncio...

O mundo nunca foi um lugar muito recomendável para se viver, na paz do senhor (ou da senhora)...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, setembro 23, 2019

Esconder (e fugir) a Realidade...


Estes tempos estão cada vez mais perigosos, porque esconder a realidade tornou-se o "jogo" preferido dos vários políticos irresponsáveis, que chefiam alguns dos países mais importantes no Mundo.

Já nem se trata de negar a ida do homem à Lua ou a existência do holocausto, é muito mais grave que isso. 

Não sei por quanto tempo mais irão continuar a fechar os olhos a todas as evidências sobre as mudanças climáticas e  a fazer de conta que o futuro não faz parte do presente...

(Fotografia de Luís Eme - Lua)

terça-feira, maio 07, 2019

Este Tempo dos "Campos Inclinados"...


Já o disse aqui, mais que uma vez, que uma das razões que me leva a evitar falar de futebol, é conhecer o seu lado menor, por já ter feito jornalismo desportivo. Sei bem demais que o chamado "desporto-rei", além de ser muito mal frequentado, é de tal forma apaixonante, que retira a lucidez a muito boa gente quando fala dos clubes que gostam.

Mas não posso, de maneira alguma, deixar de registar o que se passou ontem no Estádio do Bonfim, durante o jogo entre o Vitória de Setúbal e o Boavista. É muito triste vermos um árbitro a querer ser a "figura do jogo", pelos piores motivos. Tentou "inclinar" o relvado, utilizando uma dualidade de critérios tal, que mexeu com as emoções dos jogadores da casa, ao ponto de a equipa do Vitória ter acabado o jogo com apenas oito jogadores em campo... 

No final de campeonato olha-se sempre para cima, discutem-se os jogos do Benfica, do Porto e do Sporting e esquece-se o que se passa cá por baixo, em que há sempre uma ou outra equipa, que começa a ser "empurrada" para a Segunda Liga. Felizmente há muitas que conseguem resistir e ser mais fortes que as "decisões mentirosas dos árbitros". Espero que seja esse o caso do Vitória de Setúbal, no final da época.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, maio 02, 2019

Conversas, Queixas e Coisas Loucas...


Nos últimos tempos ouço muitas queixas sobre os outros, essa imensidão de gente.

Reparo que fico mais vezes calado, também com pouca vontade de ouvir. Sei que me falta aprender a levantar das cadeiras ou bancos, atrás de qualquer coisa imaginária, deixando os outros de boca ou de olhos abertos à espantalho...

Falando mais a sério, acho que não mudámos assim tanto. O que mudou foi o "mundo à nossa volta".

Sim, faz-me confusão escutar algumas pessoas que têm o facebook, a dizerem mal desta rede social. É quase como as pessoas que gostam tanto de espreitar pelo buraco da fechadura, como de criticar o que vêem...

Sabia que podia ser possível chamar "puta" a uma mulher dentro de oitenta comentários, utilizando oitenta palavras diferentes. Mas não acreditei. A imaginação é outra coisa... Mais parecida com querer ter asas e voar.

Mas não deixa de ser triste, que a cobardia comece a ser mais celebrada que a coragem, da mesma forma que a mentira tente deixar de ter pernas curtas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quarta-feira, abril 24, 2019

O Dia que Ainda Não É...


O 24 de Abril na actualidade é sobretudo um dia de antecipações de festas por todo o País (entre nós joga-se muito na "antecipação", para ficarmos primeiro na fotografia que os outros...).

Mas há 45 anos a história era muito diferente...

Ao contrário do que por vezes se diz por aí, a preparação da Revolução foi um segredo muito bem guardado. Isso ficou a dever-se em grande parte ao facto de ter sido protagonizado por militares, que normalmente são disciplinados e têm um sentido de honra diferente do comum dos mortais. Por outro lado sabiam o que estava em risco, caso falhasse a tentativa de Golpe de Estado. Pelo que quanto menos pessoas soubessem e estivessem envolvidas melhor (especialmente para elas). 

Mesmo no dia 25 de Abril havia alguma desconfiança, pelo menos nos sectores mais politizados, pois não sabiam muito bem se o golpe era democrático ou da extrema direita (Kaúlza de Arriaga conseguia estar à direita do regime...). Foi por isso que houve quem se mantivesse na "clandestinidade" por mais alguns dias, e até meses...).

Ou seja, o dia 24 de Abril de 1974, para a maioria dos portugueses foi um dia igual aos outros. Tanto para quem ouvia as "conversas em família" como para quem conspirava contra a falsa "primavera marcelista".

A DGS continuou a perseguir e a querer prender "comunistas"... e os antifascistas continuaram a tentar antecipar os seus passos, fugindo sempre que podiam...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, março 28, 2019

O Testemunho de um Homem do Teatro...


Ontem festejou-se o Teatro, mas o que me ficou deste dia foi a entrevista que Jorge Silva Melo deu ao "DN". Provavelmente, por ele ter tido a coragem de colocar o dedo "numa das feridas"...

«O Estado permite que haja teatro em condições cada vez mais fechadas para os espectadores, com espectáculos que fazem três/ quatro récitas. É uma coisa inadmissível, porque é o mesmo que dizer "não venham cá", levar os empresários teatrais institucionais a não acreditarem nos espectáculos que só têm dois/ três dias porque têm a certeza que os primos, os namorados e os irmãos irão ver mas não acreditam na capacidade de se tornarem acontecimentos. São pequenas festas entre amigos e é isso que tem acontecido lamentavelmente. Nos últimos cinco anos o teatro é insultuoso para os espectadores, pois estão a dizer 'vocês não são da profissão e nós só estamos a trabalhar para os profissionais da profissão'. A maior parte dos teatros institucionais têm o seu público entre aspirantes a pessoas que fazem teatro e reformados de pessoas que fazem teatro, portanto são festas de primos em vez de abrangerem a sociedade. O teatro que eu pensei ser possível também em Portugal seria o teatro cívico, ou seja, para a sociedade numa cidade grande como foi Lisboa antes de ficar esvaziada. Qual é o lugar do teatro?»

É uma boa pergunta... Este não será, com toda a certeza.

É raro vermos alguém "do meio" a fazer um retrato tão lúcido de uma Arte (e infelizmente não é a única...), que se está a deixar  levar "pela onda", para não perder os subsídios atribuídos...

Mas é uma pena que a gente do teatro puxe cada vez menos  pela imaginação, aceitando as "regras do jogo", institucionais, sem perceber que aos poucos e poucos, vai perdendo  a independência e a liberdade, elementos-chave para que este espectáculo seja único...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)