Mostrar mensagens com a etiqueta Crianças. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crianças. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, maio 04, 2026

Que famílias são estas? Quem são estes pais?


Quando algumas crianças, entre os cinco e os sete anos, resolvem agredir outra criança, cega, mais desprotegida que elas, não nos deve apenas fazer pensar. 

Diz que é urgente agir, especialmente dentro das famílias. 

A primeira pergunta que faço é esta: "quem são os pais destas crianças agressoras?"

Sim, são eles os primeiros, e principais culpados, desta agressão cobarde e preconceituosa.

Não venham culpar as escolas e a falta de auxiliares, muito menos as guerras que assolam o Planeta. 

O problema começa e acaba nas nossas casas. Ponto final.

No meio desta atitude vergonhosa, só espero que não exista nenhum pai ou mãe, que ainda tenha ficado orgulhoso, do rebento que tem por casa, por ser bom a "bater no ceguinho".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, agosto 14, 2025

A Solidão do Filipe no areal da praia...


Durante dias seguidos dois casais jovens e duas crianças montavam um "acampamento" próximo do nosso velho chapéu verde e por ali ficavam, até ao final do dia, presos ao "rectángulo mágico", provavelmente, a correr mundo, uns deitados na toalha outros sentados nas cadeirinhas de riscas para a época.

As duas crianças eram completamente diferentes, uma menina de oito,  nove anos, incapaz de partir partos e um garoto de cinco seis anos, que assim que podia pegava na bola de futebol e afastava-se ligeiramente do "acampamento", para dar toques na sua "mais que tudo", inventando jogos, enquanto chutava para o ar e corria atrás da bola, para um lado para o outro, gritando umas vezes pelo Benfica e outras pelo Sporting...

Na dezena de dias que  partilhámos a praia nunca vi o pai ou o tio, levantarem-se, um da toalha outro da cadeira, para inventarem um "adversário a sério", ou um "companheiro de equipa", nos jogos diários do Filipe.

Ao fim do segundo, terceiro dia, já tinha pensado no quanto esta criança precisava de um amigo de férias, para enganar a solidão, ou mesmo de um primo ou prima, que fosse diferente da irmã, que gostasse como ele, de correr e saltar no areal da praia...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)

Nota: segunda "crónica algarvia".


domingo, junho 01, 2025

Parece normal, mas é tudo menos isso...


Talvez não seja uma coisa muito inteligente de se escrever, no primeiro dia de Junho. 

Talvez...

Mas foi por hoje ser um dia especial, que pensei na forma, cada vez mais descontraída, como nós, adultos, "usamos e abusamos" do querer das crianças, como se estas fossem o reflexo do espelho onde nos miramos. Sim, damos muitas vezes o empurrão necessário para que elas façam as coisas que gostamos (ou pensamos gostar mas não não tivemos tempo e espaço para 0 fazermos nas nossas infâncias...) e não o que lhes apetece fazer.

Parece normal, mas sei que é tudo menos isso... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, maio 31, 2025

As palavras difíceis de explicar e de lhes oferecer o seu verdadeiro sentido...


Ele podia perguntar a outra pessoa, mas veio logo perguntar-me a mim (isto de ter fama de "intelectual" tem que se lhe diga...), o que queria dizer "honra", palavra que ouvira duas ou três vezes durante o jantar.

Tive dificuldade em explicar às primeiras aquele miúdo curioso, de oito anos, o significado desta palavra tão em desuso. Percebi que não havia uma forma fácil de explicar algo que fora tão importante no seio das famílias, mesmo nas mais humildes. O quanto era importante para eles honrar os seu nome...

Foi quando me lembrei de lhe dizer que a honra era o orgulho que sentíamos pelos nossos pais, tios ou avós, por serem boas pessoas. Ao ponto de querermos seguir os seus exemplos pela vida fora.

Como acontece com as crianças, não se ficou com uma explicação tão simples e continuou a querer saber coisas: «Então os tios que não são boas pessoas, deixam de ser da família?»

Disse-lhe que não. Por mais disparates que os nossos familiares façam, são sempre da nossa família. Lembrei-me da expressão "laços de sangue", mas guardei-a para mim, achei que era melhor não complicar as coisas...

Não lhe quis estar a dar lições de moral, mas ainda lhe disse que não estarmos sempre a mentir, também era uma questão de honra. O que lhe fui dizer, falou-me logo, com um sorriso, do "maior mentiroso do mundo", esse mesmo o Trump, que quer tudo menos ser uma "pessoa honrada". 

Foi bom, porque nos deu uma oportunidade para mudarmos de assunto...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, dezembro 08, 2024

A Europa não é o Oriente...


Há uma questão da qual nunca se fala, quando nos referimos às diferenças sociais, atribuídas às crenças e credos religiosos.

Estava a ver duas mães rodeadas dos filhos, a pescarem, rente ao Tejo, ainda em Cacilhas, no começo do Ginjal, com o rosto tapado com as suas "burkas" e fiquei a pensar nas crianças que as rodeavam.

Por muito que os pais insistam em "viver numa ilha", eles com toda a certeza, andam na escola, até porque é decisivo que aprendam português, para serem cidadãos como nós, para conhecerem melhor este mundo diferente que os cerca.

Será que eles acham graça a este "baile de máscaras" protagonizado diariamente pelas suas mães (sei que ainda há uma pergunta a fazer antes desta, é se estas mulheres se sentem confortáveis, quando circulam de rosto escondido, nas nossas ruas...)?

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, outubro 29, 2024

O passado, além de nos começar a perseguir, a partir de uma certa altura das nossas vidas, também pode ser motivo de orgulho...


Estava com as mãos na terra castanha, a apanhar as ervas que cercavam os pés das videiras, antes de as podar, e a pensar no prazer que tenho em mexer e remexer nesta areia diferente, que me pinta as mãos de castanho, por deixar as luvas arrumadas na prateleira da garagem, voluntariamente...

Sou o único que faz isso. Todos os restantes elementos da família, antes de fazerem qualquer coisa, no terreno com cada vez menos uso, enfiam as luvas nas mãos, como se este mundo lhes fosse estranho. E é...

Nenhum deles teve um Avô, agricultor a tempo inteiro, numa aldeia que era o espaço privilegiado das férias grandes, minhas e do meu irmão, que tinham muito mais campo que mar, na infância... 

Penso sempre nele, quando olho para as minhas mãos castanhas enquanto mexo na terra estranha, que produz muito mais ervas daninhas que plantas para consumo interno. Se tivesse escutado os seus conselhos em vez de andar a brincar com o meu irmão, muitas vezes em "terrenos proibidos", onde deixávamos sempre a marca do nosso calçado, quase como "impressão digital", talvez o hoje fosse diferente... Mas aqueles eram tempos de brincar, e eu estava longe de sonhar ser agricultor, até por saber e ver a roda viva do avó, que saltava quase diariamente de fazenda em fazenda, porque era ali que estava o seu sustento...

E gosto de pensar no Avô, não só por ser um tempo feliz, este da infância, mas por sentir um grande orgulho neste homem, excessivamente sério, incapaz de apanhar uma peça de fruta, mesmo da que cai no chão, de uma fazenda que não fosse sua...

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)


segunda-feira, outubro 21, 2024

«Sabes, o mundo hoje fugiu da minha janela»


Há semanas que começam sem que tenhamos algo para dizer ou escrever, outras é ao contrário.

E esta segunda começou logo com um encontro delicioso na descida (e subida, para a dona Maria é sempre a subir...) da minha casa, que nos leva para a Gil Vicente, para quebrar o nevoeiro matinal.

A Catarina vinha de mão dada com a mãe, que a ia deixar na pré-primária do meu bairro e antes que eu dissesse alguma coisa deu-me a novidade da manhã: «Sabes, o mundo hoje fugiu da minha janela.»

Sorrimos todos. Depois disse-lhe para não se preocupar, que antes do almoço ele devia voltar, com o Sol.

Ela concordou e desejámos um dia bom para todos.

Esta menina bastante expressiva fez com que recuasse no tempo e voltasse a sentir a mão pequenina da minha filha quase apegada à minha, quando me dizia coisas giras e curiosas, nestas belas idades da nossa vida...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, agosto 15, 2024

O meu querido 15 de Agosto...


O feriado do 15 de Agosto, contínua - e continuará - associado a um Portugal que já não existe, onde não existiam supermercados, apenas mercearias e pequenos minimercados, e as feiras que se realizavam nas localidades, adquiriam uma importância primordial, tanto social como económica.

Na cidade da minha meninice a "Feira Anual do 15 de Agosto" realizava-se na Mata da Rainha (das Caldas). Aos meus olhos de criança, era um acontecimento memorável, que ocupava todo o espaço que rodeada o Campo da Mata, que pela sua dimensão e equilíbrio do terreno, era ocupado pelas principais diversões.

Parece que ainda oiço os vendedores de "banha da cobra" (que vendiam tudo menos este produto), à medida que ia andando de mão dada com a mãe ou o pai, para não me perder no meio da multidão...

É por isso que tiro o chapéu (que não uso) à Feira de São Mateus, de Viseu, que vai conseguindo resistir a todas as mudanças que se dão a nível planetário.

(Fotografia de Luís Eme - Viseu)


segunda-feira, junho 17, 2024

Os "filhos do euro"...


Sei que há publicidade e publicidade e que os profissionais do ramo, tentam ir cada vez mais longe.

Não me lembro se os primeiros anúncios sobre os "filhos do euro" já tem nove meses, mas deverão ter. Ou pelo menos deveriam ter.

Falámos sobre isso ao jantar cá por casa, se a taxa da natalidade terá aumentado ou se é apenas mais um anúncio. Todos achámos que não, que um campeonato de futebol não é uma motivação para se encher Portugal de crianças. Mas nunca se sabe...

Já tínhamos falado também sobre as "noivas de Santo António" (acho curioso nunca se falar dos "noivos de Santo António, já faltou mais...), mas aí não estivemos de acordo. Mesmo sem dados estatísticos, achámos que embora seja uma oportunidade, está longe de ter tudo "para dar certo"...

Sim, apesar do "espectáculo" fazer cada vez mais parte da nossa vida, isso não indica que sejamos mais felizes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 02, 2023

Ai liberdade, liberdade, para onde te estão a querer levar...


Mesmo pessoas como eu, que se estão borrifando para o "politicamente correcto", por vezes também ficam a pensar se devem, ou não, fazer isto ou aquilo. 

A onda crescente de "censura" e de "censores" é tal, que tenta varrer tudo o que lhes faz comichão - mesmo que seja só na ponta do nariz -, para qualquer caixote do lixo. Gostam tanto de se fazer notar, que nem sempre lhe conseguimos ser indiferentes.

Escrevo isto porque tenho alguns livros infantis e juvenis que os meus filhos não querem e que são para dar a outras crianças, que gostem de livros. 

Mas com todas estas manias sexistas, que quase querem proibir as meninas de andarem de cor de rosa e os meninos de azul, não sei se será boa ideia dar alguns livros da minha filha (mesmo que tenham sido escolhidos por ela, há apenas uma dúzia de anos...), como os que estão na fotografia...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, novembro 29, 2022

A Ignorância é Tantas Vezes Atrevida...


Há crianças com apenas 14 anos, que já viveram mais dramas traumáticos, que muitos adultos com mais de 30 anos.

Felizmente hoje existe mais cuidado na forma como se lida com estes casos. Quando a família negligencia estes menores, as escolas por norma não deixam passar em claro comportamentos inadequados. Tem sido desta forma que se descobrem casos de violência doméstica e até de violação de menores.

Foi por isso que acabei por me meter numa conversa em que se discutiam "os interrogatórios" de uma psicóloga a uma destas crianças problemáticas. A avó desabafava com a minha companheira, expressando a vontade de retirar o neto destas consultas, porque, segundo ele, ela só lhe fazia perguntas que lhe recordavam "tudo o que ele precisava de esquecer"...

Eu disse que a psicóloga só o poderia ajudar, depois de descobrir, o que de facto, o perturbava. E isso só era possível, questionando-o sobre o que o incomodava...

A avó, que tinha a responsabilidade parental da criança, não ficou muito convencida, mas pelo menos deixou de dizer que ia retirar o neto das consultas (gratuitas...) da psicóloga que, com toda a certeza, só o quer ajudar.

E eu fiquei a pensar, que a ignorância é tantas vezes atrevida...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 29, 2022

Memórias da "Quinta Pedagógica" dos Avós e de Outros Amigos de Quatro Patas da Infância...


Não começámos a falar de animais, pelos melhores motivos. Mas as queixas sobre os maus hábitos do cão da filha, que "era de casa" e fazia as necessidades onde quer que calhava, acabaram por nos levar de viagem, para histórias bem mais felizes...

Contei-lhe a história da minha infância, rodeado de animais...

Ao contrário dela, cresci com animais. O meu pai sempre teve cães, mas eram de rua, "moravam no quintal da "garagem-armazém" que ele alugara, quase no fim do bairro. A convivência foi sempre boa porque eles gostam de crianças. Os meus tios quando moraram perto de nós também tinham um "Rex" no quintal. Um pastor alemão que fui mais que uma vez buscar ao pinhal porque a garotada da vizinhança da "vila"  achavam-no parecido com um touro e faziam-lhe mil e uma partida, do lado de fora do muro. Ele não aceitava desaforos e acabava por partir a corrente, para depois saltar o muro e correr  e ladrar, lançando o pânico no corredor comum de todo aquele casario.

Havia sempre alguém que passava pela nossa casa e dizia que o "cão tinha fugido". E lá ia eu à sua procura. Ele assim que me via, corria alegre na minha direcção. Dava-lhe uma reprimenda e depois regressava a casa comigo. Às vezes levava-me quase de arrasto, tal a força que tinha, quando ouvia no corredor as vozes que o provocavam...

Mas o melhor era quando ia para a casa dos meus avós maternos. Todos aqueles pátios e currais eram uma verdadeira "quinta pedagógica". O avó tinha uma parelha de bois que o ajudava  nos trabalhos do campo, assim como uma burra e uma carroça (eram o "tractor e a froguneta" desses tempos...), porcos, galinhas, coelhos, patos, e até dois ou três porquinhos da índia, que andavam à solta num dos pátios e nem sempre se deixavam ver... Curiosamente nunca tiveram cães, e mesmo gatos, foi já na última fase das suas vidas.

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


domingo, junho 26, 2022

Este Acordar Tarde Demais...


Este nosso hábito de "acordar tarde demais" para os problemas, faz sempre vítimas, muitas vezes de uma forma irremediável, como aconteceu em Setúbal, com uma menina de três anos, que foi abandonada por todos nós (mesmo sem sabermos...).

Se pensar que o "Estado" somos nós (é o que os governantes dizem...), fomos todos nós que permitimos o que aconteceu à pequenina Jéssica - que na sua tão curta existência, poucas vezes deve ter sentido o significado da palavra amor...

Se por um lado, há por aí demasiadas pessoas que não são dignas de ter filhos, por outro, há demasiados funcionários de serviços de apoio social, que são completamente incompetentes.

Sobra ainda outra pergunta, não menos importante: onde estiveram durante todo este tempo, os familiares, amigos e vizinhos, que deviam ser os primeiros a defender todas as "Jéssicas" deste mundo?

O que não aconteceu, mais um vez...

Além do espectáculo gratuito que é aproveitado pelas televisões, não valem de nada as "esperas" nos tribunais e os "gritos" nos velórios, no dia seguinte. 

Vêm sempre com o atraso fatal de dias, meses ou anos...

(Fotografia de Luís Eme - Peniche)


quinta-feira, abril 14, 2022

Que Saudades do "Futebol de Rua"...


Foi também no Seixal que descobri um "campo da Lua", com uns pequenotes a darem uns chutos na bola.

Fiquei extremamente feliz por encontrar esta imagem rara, um quase baldio, ocupado como campo de futebol pela miudagem, quer continua a adorar o "futebol de rua".

(Fotografia de Luís Eme - Seixal)


segunda-feira, janeiro 24, 2022

Marcas que Ficam Destes Tempos...


Hoje ao almoço, falámos de muitas coisas, como de costume. 

Além das eleições de domingo, é difícil passar ao lado da "guerra fria" entre a Rússia e a Ucrânia ou do número crescente de infectados. 

Mas o mais marcante para mim, foi o desabafo do Chico, por o neto há mais de um ano que não ter ninguém da sua idade, com quem brincar fora da escola.

Ninguém sabe quais serão as marcas que ficarão para o futuro destes tempos de pandemia, para as crianças e adolescentes.

A única coisa que sabemos é que com a redução das actividades ao ar livre, aumentaram, de uma forma assustadora as horas diárias passadas à frente do ecrã do telemóvel, dos nossos netos e dos nossos filhos (mas também de quase todos os adultos...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, janeiro 19, 2022

«Vou chamar a polícia e tu vais preso» (há brincadeiras e brincadeiras...)


Um pequenote, de cinco, seis anos, estava entretido a brincar no parque infantil próximo da minha casa, correndo de estação para estação, ora escorregava ora andava nos cavalos de molas, enquanto a mãe conversava com uma mulher mais velha, que estava à janela do primeiro andar.

Embora a criança não estivesse a fazer nada de mal (os parques já não têm fitas a proibir a sua utilização...), a companheira de conversa da mãe - com idade para ser sua avó -, talvez cansada, só de ver toda aquela energia infantil, saiu-se com uma frase que eu pensava que já não se usava nestes tempos: «Vou chamar a polícia e tu vais preso.»

Felizmente o pequeno continuou a brincar, sem medo de qualquer polícia, fingindo não ouvir a senhora do primeiro andar. Até por ter o parque infantil só para ele.

E eu continuei a marcha até a casa, a pensar nos "papões" que existiam quando eu tinha a idade daquela criança, que estava demasiado entretida a brincar, para se assustar com "polícias" ou com os tais "papões" do meu tempo de menino...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, janeiro 01, 2022

"A Criança e a Vida"


Por saber que a maior parte dos livros que temos, acabarão por ter a má sorte de não serem lidos, às vezes apenas por terem o selo de "esquecidos". Podem passar anos e anos numa estante (se tiverem pior sorte, podem ficar mais escondidos, dentro numa caixa de papelão guardada no sótão ou na garagem...), foi por isso que fiquei extremamente feliz por uma colectânea que deu muito que falar, ainda antes de Abril (a primeira edição até acabou por ser apreendida...), me ter feito um sinal.

Falo de "A Criança e a Vida", uma colectânea organizada por Maria Rosa Colaço e escrita pelos seus alunos da escola primária onde começou a dar aulas, em Cacilhas.

No seu texto de apresentação ela explica muito bem como foi o seu primeiro dia de aulas: 

«O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia: esculpidos em vento e mar.
Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro de lata, de sabe Deus donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros - não sei porquê mas traziam - folhas de plátano douradas. O Outono perfumava-lhes os cabelos.
Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.
Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua-apoio que o director me oferecera e dei-a ao que me pareceu mais velho: "Toma! Vai atirar fora." E depois... não o que lhe disse. Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto. E foi assim que ficamos solidários e Amigos-para-sempre.
Aprendi então que a verdade é uma palavra essencial.
E a lealdade também.»

Sei que o conteúdo do livro pode ter sido "amenizado" pela professora, mas não deixa de ser um documento histórico, que foi traduzido e editado em dezenas de países. E inédito, uma professora dar voz aos alunos em plena ditadura, tem muito que se lhe diga... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, dezembro 24, 2021

Feliz Natal


Se retirarmos as habituais doses de hipocrisia, daqueles que até "escolhem" um pobrezinho para sentar na sua noite de Natal (quase como "personagem" de presépio), esta festa cada vez menos religiosa, continua a ser sobretudo da família e das crianças.

Se há data do ano que consegue reunir a família é o Natal. Esquecem-se quezílias, mesmo que seja só por uma noite...

E não há nada como o ar expectante e a alegria das crianças, de cada vez que recebem um presente (embora o "excesso" quebre a espontaneidade...).

É também por isso que desejo um Feliz Natal para todos os que passam por aqui, de uma forma visível e de uma forma invisível.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, maio 11, 2020

Não Há Palavras...


Não há palavras para explicar ou definir um pai que mata uma filha com as próprias mãos e que depois inventa a história de um desaparecimento, colocando toda uma cidade à procura de um sinal, de uma menina de nove anos...

Tal como também não existiam, por muito que se quisesse encontrar uma explicação, para a mãe que colocou o seu filho, recém-nascido, num caixote do lixo (com tantas portas abertas na cidade ou ruas onde passam pessoas... para deixar o bebé indesejado).

A única coisa que me parece explicável é a  "ausência" de humanidade, crescente, sempre que este mundo em que vivemos, se  torna mais desigual e desequilibrado...

Esta quase obrigatoriedade de "sobreviver a qualquer custo", faz com acabemos por nos distrair, das coisas que realmente importam.

Mas continuo a acreditar, que se estivermos um pouco mais atentos ao que se vai passando à nossa volta, poderemos evitar alguns dos dramas sociais, que aparentemente nos parecem inexplicáveis...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, novembro 30, 2019

Gente com Cada vez Menos Palavras no Bolso...


Estávamos sentados à mesa e estranhamos o silêncio das duas únicas crianças que estavam em casa. Algo impossível noutros tempos, em que se tinha uma atenção especial à escada, que era descida e subida em correrias levadas da breca... Estavam presos aos sofás da sala pelos telemóveis, onde deviam correr, mas apenas com os olhos e os dedos...

Na mesa, o uso abusivo do telemóvel foi transportado para o desconhecimento de palavras, que fujam do "vocabulário básico" usado nas mensagens, nos jogos e nas redes sociais, que substituem cada vez mais, uma boa conversa... Com exemplos e tudo, dados pelos dois professores presentes.

O Chico falou dos livros que hoje não se lêem (ou se lêem cada vez menos...), onde descobríamos uma porção de palavras novas. E eu acrescentei a quase ausência de conversas, substituídas pela "conversa com os dedos", que enviam mensagens para cá e para lá, a um ritmo quase diabólico, mas utilizando quase sempre as mesmas palavras, e até abreviações...

São os tempos modernos, da economia das palavras, da gente com cada vez menos palavras no bolso...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)