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sexta-feira, outubro 30, 2026

Será que as pessoas estão mesmo fartas de viver em liberdade?


Pensava que nunca iria chegar esse dia, mas com o aconteceu esta semana com um jogador da bola francês (e dos multimilionários...), que ao dizer uma piadola sobre o "camarada Mau", causou uma onda de indignação nunca vista entre os países que olham de lado para a democracia. O menos estranho em tudo isto, foi o presidente da liga de futebol espanhola "pôr-se de cócoras" e fazer pedidos aos anjinhos chineses (a pensar nos cifrões chineses que se podiam perder...). Como se sabe, no "jogo do pontapé na bola" quase tudo é permitido...

Quando se começaram a erguer os alicerces do "museu do estado novo", em Santa Comba Dão, o nosso "velho do restelo mor", disse-nos que estávamos cada vez mais perto do senhor ventura se tornar primeiro-ministro. Sorrimos, mesmo sem grande vontade.

Talvez ele esteja mais certo do que nós... e um dia destes, as estátuas de Salazar (o museu já está...), Franco, Hitler e Staline, que conseguiram escaparam à ira popular e devem estar escondidas nas arrecadações dos museus, voltem ao espaço público (pelos vistos as de Mao Tsé Tung continuam nas praças e museus da China...). 

O problema é que os ecos do trump, da meloni, dos bolsonaros, da le pen, do ventura, do milei, do abascal, do orbán, de que a democracia é o pior dos regimes (ate já devem ter apagado o resto da frase de Winston Churchill...), parecem querer transformar-se, cada vez mais, em realidade.

E eu faço a pergunta de muitos números: será que as pessoas estão mesmo a ficar fartas de viver em liberdade?

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, outubro 21, 2026

O rasto deixado pelo "rabo de palha" e o "fantasma que aparece ao espelho"...


Cada vez que vejo na televisão o ministro da Administração Interna a valorizar o papel das autoridades e a dizer que toda a gente tem de cumprir a lei, penso logo no seu passado recente. Não consigo deixar de o ver a virar as costas aos jornalistas e deixar atrás de si o rasto dos seus "rabos de palha"... mesmo com os olhos fechados.

Foi por isso que ao ler o que o João Pedro Henriques escreveu hoje no "Expresso", identifiquei-me completamente com as suas palavras.

«Faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Nem é preciso dizer mais nada. Ontem, se dúvidas houvesse, ficou esplendorosamente à vista do país inteiro o que representa neste momento ter alguém como Luís Neves à frente do ministério da Administração Interna. Sendo certo que a polícia lhe cumpre ainda as ordens, é ainda mais certo, perante o país inteiro, que Luís já só é um fantasma ao espelho: como não se consegue ver, imagina-se.»

Eu sei que para Montenegro a função de governante, é muito pouco exigente (é quase para qualquer um...), mas é penoso ver ministros a fazerem o papel de "moralistas de pacotilha"...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


sexta-feira, outubro 16, 2026

«Chegar atrasada não é faltar!»


A subida da rua Emília Pomar invertera-se e agora era descida, para quem deixava o bairro em direcção ao centro da cidade.

Uma mulher que ia mais apressada, ganhava vantagem em relação à meia-dúzia de pessoas que seguiam na mesma direcção. Foi quando uma das vizinhas, que seguia a passo quase lento, com todo o tempo do mundo para beber o primeiro café da manhã na esplanada, povoada de gente, que ainda gostava de conversar e de ler o jornal em papel,  lhe lançou quase um grito, afirmativo, para a acalmar:

«Chegar atrasada não é faltar!»

Como coleccionador de frases do quotidiano, gravei de imediato aquelas palavras, com a certeza de que nunca as escutara, mesmo que não tivessem nada de especial. 

Sim, eram uma daquelas evidências, que até deviam constar na lista do senhor das palissadas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 12, 2026

«Se isto continuar assim, vou ter de fechar...»


«Se isto continuar assim, vou ter de fechar...»

Ouvia aquele desabafo, a cinco metros de mim, e sabia que não se tratava de "música de cordel". Caminhávamos novamente para o fundo de qualquer coisa. A vida voltara a estar difícil, para todos, sem excepção (a meia dúzia do costume não conta...).

Uma noite antes passara por outro lugar de petiscos, que não visitávamos há meses (mais largos do que pensava, facto comprovado pelas as mesas e as cadeiras novas, oferta de uma cervejeira...). A minha companheira estranhou encontrar clientes diferentes, mais jovens, mas que quase enchiam a casa.

Depois percebemos que era a noite dos "jogos de tabuleiro". O dono, de quem nos tornámos amigos durante a pandemia (era um dos poucos lugares onde bebíamos café sem grandes incómodos, por ter uma esplanada que mantinha as distâncias), contou-nos a história daquele encontro de amigos, e quase que nos disse: "venham elas, as noites de jogos, todos os dias"...

Claro que não seria comigo que estas "casas de pasto" se iriam governar. Além do meu almoço tertuliano semanal, fazia praticamente todas as outras refeições em casa...

Mas era triste ouvir o discurso do primeiro-ministro, sempre preparado para apontar o dedo aos "xocialistas", ao mesmo tempo que mentia descaradamente, ao dizer que "estava tudo melhor". 

Não é o que dizem os rostos das pessoas, muito menos as ruas, com cada vez mais lojas e restaurantes fechados...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, outubro 10, 2026

«Eu podia ter escrito esse livro...»


Há bastante tempo que não ouvia a frase: «Eu podia ter escrito esse livro...»

Respondi com um daqueles sorrisos que trazem algumas palavras coladas, nem sempre fáceis de decifrar.

Afastei-me um pouco e fui até à janela aberta, para ver o mundo do lado de fora, por saber que tem muito mais largueza, tanto para Norte como para Sul. Foi a olhar para o azul do céu e do rio que recordei a primeira vez que escutei esta frase, que além de enigmática, fica quase sempre a dever pouco aos elogios. 

Entretanto passaram mais de vinte anos e com o engenho possível, fui capaz de escrever mais de duas dezenas de livros...

Ela era professora  e no alto da "sua cátedra", depois da frase, ainda foi capaz de me dizer o que fazia de diferente (mesmo que nunca escrevesse pela vida fora qualquer livro). Eu depois de a ouvir, disse que "o livro dela" era uma outra coisa e que ela o devia escrever...

Sorri ao pensar nas quase anedotas que se contam à conta do "se"... que muitas vezes contam o que poderia acontecer se os nossos avós tivessem rodas. Sim tanto podiam ser "camiões", "carros" como "bicicletas"...

Depois, menos a brincar (mas ainda com ironia...), pensei nas primeiras polémicas que estão a surgir com os escritores e a inteligência artificial. Talvez  esta até seja uma ferramenta de grande utilidade para os pretensos escritores, sem obra, que falam muito mais do que o que escrevem... e que gostam de ter a preguiça como amiga...

Sim, que isto de escrever dá um bocadinho de trabalho... e por vezes, cansa.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, outubro 07, 2026

Claro que é possível, claro que há mais mundo...


Passei dois dias a cruzar-me com pessoas, sem que estas me falassem do "fenómeno" mundial, que segundo as vozes e as nozes do planeta, é quem tem mais seguidores nas redes sociais em todo o mundo.

Falámos de Paris, do Outubro de 26, que pela banalização da violência nunca será "Maio de 68". Evitámos falar do Brasil, por sentirmos que, tal como tinha acontecido nas últimas eleições dos EUA, estão a disputar o poder dois candidatos errados (para quem está de fora e não vota, claro...).

E foi disso que falámos, da ausência, cada vez mais notória, de políticos credíveis, no topo das listas dos partidos, inclusive no nosso país. Das portas abertas de par em par para os "populistas"...

Alguns pais com filhos em idade escolar, queixaram-se da falta de professores neste início de ano lectivo em disciplinas importantes, com são a Biologia ou a Matemática.

Aliás, foi a propósito deste assunto, que o Carlos fez das suas e ofereceu-nos uma directa, quase disfarçada: «Abençoados telefonemas que o operário Luís faz. Este para o "DFT" (depois explicou o significado da sigla, "dono do futebol todo"), enfiou no fundo da gaveta todos os seus problemas, até o doutor Neves. Pelo menos até à próxima pequena grande questão governamental, só se fala do CR7.»

Mais uma vez, ninguém desenvolveu o assunto. 

Sei que uns dizem que isto acontece por sermos "invejosos". Mas acho que não. Quando se inveja, não se inveja em silêncio...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 04, 2026

Os deputados da vergonha (mesmo no interior das suas famílias)...


Eu estou farto de saber que o mundo nunca foi a apenas "preto e branco". Há toda uma paleta de cores, que faz com que o mundo seja muito mais coisas, do que aquelas que imaginamos.

E ainda fico algumas vezes surpreendido com as histórias que me contam. É por isso que me apetece usar o slogan comercial mais popular do Pessoa sobre a bebida pela qual Salazar nunca morreu de amores: "primeiro estranha-se, depois entranha-se"...

Não fazia ideia que no interior de algumas das chamadas "boas famílias", se dizia o pior possível do Chega, por estas saberem "o que a casa gastava". O partido tinha imergido no seu seio, com os seus piores elementos, ou seja, com os filhos que eles nunca escolheriam para gerir as suas empresas ou os seus interesses. O que lhes faltava em competência, sobrava em esperteza e isso nunca foi bom para os negócios. Aquele "vale tudo" assustava-os, por saberem que normalmente era isso que os levava à ruína.

Alguns mais desbocados, nem sequer escondiam a vergonha que sentiam pelas tristes figuras que os seus familiares faziam no Parlamento.

Claro que também sei que há muitas outras famílias do "antigo regime", que se sentem orgulhosas do crescimento do Chega, por terem a sensação de que o 24 de Abril já esteve mais longe...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, outubro 01, 2026

«Anda a esconder o quê?»


A pergunta foi directa e provocatória. «Anda a esconder o quê?»

Por isso mesmo, só devia ter uma resposta ainda mais curta, das que não dão grande margem para outras questões: «Tudo!»

Percebi que aquela mulher era das que não desistem, das que querem saber tudo. E continuou a insistir: «Havia um concurso na televisão, acho que era "Com a verdade me enganas". É capaz de ir ao seu encontro.»

Continuei a responder usando apenas uma palavra: «Provavelmente...» Ela nem por isso.

«No outro dia falava pelos cotovelos com os seus amigos, homens. Só é assim com as mulheres?»

Ela queria ir ainda mais longe e eu estava decidido a não abandonar o "jogo de uma só palavra" e afirmei: «Só.»

Depois da troca de olhares entre as cinco pessoas daquela mesa de café, surgiu uma gargalhada sonora, que abanou a "alma de perguntadora" da jornalista sem jornal, quase da minha geração.

Depois surgiram outras conversas e a minha singularidade, de ser o único na mesa sem smartphone e redes sociais, deixou de ser assunto. Claro que isso não iria evitar que existissem mais pessoas a pensar que quem não tem "facebook", "instagram" ou "tik-tok", tem uma data de armários fechados em casa.

Outro aspecto curioso, foi eu ter falado nos "blogues" e isso não ter despertado qualquer reacção, positiva ou negativa...

Só espero que, com o tempo, estas singularidades não se tornem um "caso de polícia"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 29, 2026

«A liberdade de expressão é falarmos sobre o que nos apetece, mesmo quando dizemos disparates»


Nem sempre pensamos no verdadeiro significado das três palavras que fazem a "liberdade de expressão". O normal é querermos esta liberdade só para nós, estarmos pouco abertos a parvoeiras ditas pelos outros.

Só nas verdadeiras tertúlias, é que é possível dizer coisas absurdas e estúpidas, sem que estas sejam silenciadas. Da mesma forma que são sempre contrariadas, porque estes espaços de amigos, são também de aculturação, de ensinamento, das coisas mais simples às mais complexas. Só é necessário estarmos abertos à partilha de saberes...

E é bom sentirmos a evolução de alguns companheiros, que vão aprendendo a deixar de apontar dedos, por tudo e por nada. E também se habituam a ouvir, mesmo quando dizemos coisas que eles não concordam.

Nunca me esqueço da chamada de atenção que o meu amigo Orlando fez à mesa, na nossa memorável "Tertúlia", quando alguém tentou diminuir a opinião de um de nós, menos informado: «A liberdade de expressão é falarmos sobre o que nos apetece, mesmo quando dizemos disparates.»

Claro que nesta "Liberdade", tão especial, também está presente o respeito pelo outro, embora muito boa gente a confunda com o insulto, ela é outra coisa, muito mais bonita...

(Fotografia de Luís Eme - Almada - escolhi este retrato, porque desde pequeno que embirro com a palavra "proibido")


quinta-feira, setembro 17, 2026

Mais um adepto do "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço"...


Assistir à presença de Nuno Crato em mais que um debate sobre educação nas televisões, armado em "salvador da pátria", vai ao encontro da falta de memória dos portugueses (inclusive jornalistas que não gostam muito de fazer o trabalho de casa...) e da vaidade pessoal de quem se acha muito melhor do que realmente é...

Crato é apenas mais um político da "escola do cavaco", daqueles que nunca se enganam e gostam de apontar dedos aos outros. E logo ele, que cometeu erros como ministro em toda a linha, desde a pré-primária à universidade... 

Por saber que foi dos ministros da Educação mais contestados - e considerado por muito boa gente o pior ministro desde a Revolução de Abril - resolvi fazer alguma pesquisa e encontrei um belo resumo do muito que se fez de mal às escolas e aos professores no seu mandato. Embora a minha escolha siga a direcção do quadrante político oposto, achei esta frase da socialista Alexandra Leitão (publicada no "Diário de Notícias de 22 de Maio do corrente ano...) a mais completa sobre a sua passagem como responsável pela educação:

«Em 2011, o Ministro da Educação, Nuno Crato, afirmou que o Ministério era “uma máquina gigantesca que se acha dona da Educação em Portugal. Eu quero acabar com isso”. E, na verdade, durante o período em que Nuno Crato foi ministro, que correspondeu ao período de intervenção da Troika, desapareceram quase três mil estabelecimentos escolares, aumentou-se o número de alunos por turma, cortaram-se apoios educativos, incluindo na educação especial, e retiraram-se 30.000 professores das escolas. Detenhamo-nos neste último ponto. Quando já era previsível, atendendo ao perfil etário dos professores, que num futuro próximo haveria falta de docentes por causa das saídas para a reforma, o Ministério tirou do sistema dezenas de milhares de professores, essencialmente contratados, ou seja, os mais jovens. Estes professores foram até convidados a emigrar pelo Primeiro-Ministro Passos Coelho.»

 Mais palavras para quê, é um governante português, e está tudo dito...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 15, 2026

A honra suprema de uma má actriz de telenovelas que faz o papel de jornalista com grande êxito


Sei que tanto uma como a outra, não frequentam blogues. São adeptas de lugares mais populares, onde se pode representar, cantar, dançar, pescar, caçar, e claro, "pintar a manta", com mais descontração (e imaginação...).

Mas mesmo assim achei que não podia perder esta "caricatura" de bairro, desenhada com tanta perfeição.

Falava-se de qualquer coisa na mercearia, e uma das senhoras dizia, "fale com a Tânia, que ela sabe", repetiu isto umas três vezes até que uma senhora, que tal como eu, pertencia ao  clube dos "incautos" e "ignorantes" do lugar, curiosa, perguntou quem era essa tal de Tânia. A mulher que falava pelos cotovelos sorriu e esclareceu o assunto numa penada:

«E esta? Claro que sabe quem é a Tânia. Não conhece você outra coisa!» Sem que deixasse que alguém a interrompesse, virou-se para mim e disse: «É a loira que mora na rua deste senhor.» E depois concluiu, «Ela é a mulher mais bem informada do bairro. Como tem o cabelo amarelo e é avantajada de carnes, houve alguém com olho que a batizou, e muito bem, de Tânia Laranjo.»

Gargalhada geral. Até eu que não apreciava o estilo, conhecia esta "peça principal" do jornalismo de faz de conta do "Correio da Manhã"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, setembro 12, 2026

Viver com as coisas "fixas", que nunca mudam...


Não vale a pena pensar no que é melhor ou pior. Somos o que somos. E não deixa de ser boa ideia, aceitarmos que temos de viver com essas coisas "fixas", que nunca mudam...

E não é por a escritora Rosa Montero ter metido esta frase dentro de uma das suas personagens, que banalizava as coisas: «Ela não sabia fazê-lo. Não sabia jogar esse jogo de intrigas nem conquistar pessoas com quem antipatizava.»

Eu também não sabia (nem queria...) gostar de quem não gostava de mim. Nunca consegui ser agradável para quem me é desagradável (e houve alturas que me esforcei...).

Sim, pudemos gostar de Jesus de Nazaré e achar o gesto magnânimo, de dar a outra face, uma estupidez...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 08, 2026

Talvez seja a melancolia de Setembro a aparecer mais cedo...


Estava ali e não estava.

Ouvia mas pensava em outras coisas. Claro que sabia que ritual não era sinónimo de hábito, mas nem sequer me dei ao trabalho de "jogar às diferenças".

A cor dos dias estava diferente, as sombras apareciam a horas desiguais porque os dias começavam a encurtar de uma forma visível. Ver o pôr do sol às nove do começo da noite agora só no começo do Verão de 2027...

Foi quando pensei que as minhas ausências, discretas, não perturbavam ninguém. Deviam estar ligadas à melancolia que costumo colar ao mês de Setembro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, setembro 06, 2026

«Foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados»


Sabia que aquela frase podia ser o começo de um guião para qualquer telenovela portuguesa.

Mas não, referia-se mesmo a uma mulher, que tinha escolhido há semanas um de nós para "cortejar".

Começámos a reparar nisso quando os vestidos da senhora começaram a encurtar e o rosto ganhou alguma cor, nos olhos e nos lábios. E claro, quando começou a dar atenção a mais a um de nós e a desafazer-se em sorrisos.

Não foi preciso o Carlos insistir, quase poeticamente, «foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados.»

Foi quando ele fingiu que ia comprar tabaco (por sorte, não se vendia naquele café...) ao outro lado da rua, mesmo sem fumar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 03, 2026

Homens que bebem para viver, sem perderem de vista os lugares onde foram felizes...


Há muitas formas de convívio, de estar e de conversar com os amigos.

Gostei de estar ali sentado, de sentir que havia uma outra forma de gostar, de conversar e até de rir nas esplanadas. Por ser um estranho, deixaram-me beber apenas uma imperial, enquanto eles já iam na quarta ou quinta.

Não deixei de ser bem recebido, porque um "amigo de um amigo", naquela mesa recebe também o mesmo tratamento.

Sorri muitas vezes, porque as conversas são muito diferentes das que estou habituado entre amigos. Há um jeito trocista na forma como se olha para o bairro, para o país e para o mundo, que é descontraído com os lados cómicos da vida, alimentados pelas imperiais de Verão e pelas taças de tinto no Inverno.

Nas nossas mesas com livros, teatros e cinemas não se ia falar das "quatro mulheres" de um dos convivas, que querem se encontrar e conhecer no aniversário dele, muito menos qualificá-las com o habitual humor masculino de tasca, com gargalhadas de todos, inclusive do homem que fazia o papel de "galã" na mesa e que se preparava para fazer setenta anos.

O meu amigo fez-me sinal, de que estava na hora. Despedi-me daqueles companheiros de ocasião, que como acontece em quase todas as tertúlias, me trataram como se fosse um deles.

Já no carro, ele ainda disse que esperava que não tivesse desgostado de todo daquele "circo humano". Claro que não, respondi com um sorriso. Ainda acrescentou que havia ali um ou outro rapaz, que até poderia querer ser personagem de alguma das minhas aventuras literárias.

O mais curioso naquela tertúlia de "amigos do copo", era terem nascido todos por ali e serem amigos desde os tempos da primária. E perceber-se que continuavam a gostar, muito, de estar uns com os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 01, 2026

«Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»


Alguns leitores, assumidamente, não comentadores do "Largo" gostam de dizer coisas sobre o que escrevo, como foi o caso do "anónimo" da camisola azul que frequenta o café da praça. Não só teve o descaramento de acrescentar palavras sobre os livros, como o disse de uma perspectiva sobretudo comercial: «Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»

Pois foi... ninguém me disse. Mas é o que acontece, mais vezes do que pensamos. 

O "anónimo" da camisola azul, está cheio de razão... Desde que a Feira do Livro se tornou um "hiper-mercado", até mesmo os leitores de livros acabam por comprar ainda mais livros, que sabem que nunca irão ler. 

São apenas os livros que gostavam de ler um dia...

A "febre" do consumismo é isto... leva-nos sempre a comprar coisas, que não nos fazem falta, nem mesmo na nossa cabeça. 

Pois é, nada escapa a esta vontade de vender e de comprar destes tempos, nem mesmo os livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 31, 2026

Tantas vezes que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa...


Tive de partir a conversa sobre a genialidade de alguns escritores como o nosso Lobo Antunes, em dois.

Acontece demasiadas vezes estarmos à conversa e misturarmos assuntos, ao ponto de fingirmos que não percebemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa. 

Pois... à mesa, nem sempre temos agilidade suficiente para "separar as águas". Felizmente, as palavras escritas são muito menos complicadas que as palavras faladas...

Ou seja, além de se falar do escritor, também se falou dos seus leitores, dando realce aos "compradores de livros com autógrafo", mais coleccionadores que leitores, tanto do António como do Saramago e companhia...

Foi a Carla que melhor caricaturou o tal sujeito (não deixa de ser curioso, que fizesse um boneco engraçado masculino...), oferecendo-lhe um lenço ao pescoço e colocando-o na primeira fila dos lançamentos dos chamados consagrados (os "eusébios" dos livros...), de perna cruzada, com mão no queixo e ar interessado pela tramóia bem resumida pelas palavras do apresentador. Sem se esquecer de dizer que ele é sempre um dos primeiros a ir para a fila para sacar o respectivo autógrafo do livro que tem o destino habitual: embelezar a estante cheia de livros assinados, que nunca leu, nem vai ler...

Todos sorrimos, por gostarmos de ter amigos que têm a capacidade de fingir que o mundo é muito melhor do que é, dizendo coisas que fazem sorrir as mesmas pedras da calçada, que soltam lágrimas com os fados da desgraçadinha...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 30, 2026

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances»


Há tantas coisas sobre a qual nunca pensámos, algumas importantes outras quase sem importância nenhuma, muitas vezes são apenas meras teorias ou conjecturas.

O Rui voltou a ler os livros de crónicas de António Lobo Antunes, depois de ter lido, e gostado, dos seus poemas. E por essa razão resolveu criar algum alvoroço na nossa mesa de críticos literários sem jornal, com uma frase daquelas, que não se apresentam todos os dias à mesa de café:

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances.»

Mas não se ficou por aqui, explicou bem demais a sua tese, baseada nos livros de ficção do bom do António que só se liam com grande esforço e paciência, de trás para a frente e da frente para trás, porque ele "habitava noutra galáxia". Só descia à terra quando tinha de escrever as crónicas semanais, que gostava de desvalorizar, por lhe parecerem coisas demasiado simples e corriqueiras, mesmo sem o serem...

Depois de duas ou três tentativas para desmontar a sua teoria, acabámos quase convencidos, porque o Rui vinha bem preparado para uma possível "guerra literária".

Quando nos levantámos da mesa, percebemos que estávamos quase sem argumentos, graças ao bom exemplo que nos foi apresentado, sobre alguém que se faz entender  mais como cronista e poeta que como romancista, pelo menos para o leitor comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 29, 2026

Quando capitalista rima com vigarista...


Embora estivesse longe de ser uma exclusividade nossa, era impossível negar que capitalista rimava vezes de mais com vigarista, mesmo que fossem palavras demasiado compridas para caber em qualquer poema-canção, mesmo de intervenção.

Mas a realidade é o que é.

Há mais de cem anos já havia quem pensasse dessa maneira, mesmo que usasse palavras diferentes. Era um tempo em que não se usavam muito as palavras acabadas em "ismo", desde comunismo, passando por capitalismo e acabando em fascismo...

Voltando à actualidade, naquele caso particular tratava-se apenas de um negócio, em que alguém, por avançar com a totalidade do dinheiro, queria ficar com 90% das acções e dos lucros da empresa, mesmo que para isso não precisasse de "mexer uma palha" em relação ao negócio...

Como o protagonista da história estava longe de ser alguém desesperado ou sem trabalho, pôde dizer ao fulano com alma de "agiota", para escolher outro "otário".

Claro que sabíamos que não havia nada a fazer. Este é um exemplo, simples e cru de um adepto do capitalismo selvagem, que tenta sempre usar, explorar, enganar, e até escravizar o outro, para maximizar o seu lucro...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)