sábado, maio 21, 2022

Uma Crónica com Várias Crónicas dentro (e um esquecimento)...


Sei que tenho alguma facilidade em misturar assuntos nos textos. que escrevo. Quando começo a escrever estou a pensar numa coisa mas depois a minha mão inclina-se para outras direcções e quando dou por ela, Já "estou noutra rua"...

Foi mais ou menos o que aconteceu ontem. Depois de ler o que escrevi, fiquei com a sensação de que tinha escrito matéria que daria para três textos diferentes. Ou seja, escrevi por ontem, hoje e amanhã.

Em parte isso aconteceu por ter sido o primeiro a levantar-me de manhã e ter ido buscar pão à mercearia.

Quando falei na falta que nos fazem as "viagens para longe daqui", esqueci-me de dizer que isso não acontece com a frequência que uma boa parte de nós deseja, porque cada vez temos menos poder de compra, ou seja, estão a querer transformar-nos, quase todos, em pobrezinhos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


Não é como Ser Merceeiro, Mas...


De longe a longe encontro um rapaz que escreve nos jornais e que também continua a preferir a calma da blogosfera aos "turbilhões" (a palavra é dele...) de outras redes sociais, tal como eu.

Falamos da actualidade, de jornalismo, de livros, de cinema e também desta forma de comunicar.

Ele nunca conseguiu ter muitos comentários (nem mesmo nos tempos em que a "blogosfera" estava na moda...) e foi por isso que acabou por fechar a respectiva caixa. Ele fica espantado por eu continuar a ter comentadores e pergunta-me qual é a "fórmula"... E eu fico sem saber o que dizer, por ter consciência que há coisas que não são lineares nem carecem de qualquer explicação "científica". 

Depois de várias insistências disse-lhe que tento que o "Largo" seja um lugar agradável para passear e se visitar. E para que as pessoas se sintam bem, até tem uma "boa esplanada" com um café que é uma delicia. Ele acabou por sorrir e mudar de assunto.

Hoje de manhã, quando fui à mercearia cá do bairro, por ser o único cliente fiquei à conversa com o rapaz que vi crescer e hoje é quase um homenzarrão. Entre outras coisas, falei-lhe do "jeito que ele tem para namorar as velhinhas, que não lhe desamparam a loja". E ele recordou-me que também elas o conhecem de menino (sabe o nome de todas...) e por isso existe algum maternalismo à mistura, que acaba por ser bom para o negócio.

Pois é, o "truque" é sempre o mesmo. Se tratarmos bem os clientes, eles voltam, sempre...

Embora a realidade não deva ser confundida com a virtualidade, e nestes espaços não existam rostos, idades, sexos, religiões, partidos, etc., os princípios acabam por ser os mesmos. Somos sobretudo pessoas, que gostamos de estar onde nos sentimos bem. E se for possível, olhamos e conversamos, mesmo com quem não conhecemos de lado nenhum (isso acontece tanto quando viajamos...).

Talvez estejamos todos a precisar de "partir", nem que seja até à rua que fica para lá da esquina. Sinto que falta a este mundo, essa ponta de humanismo que nos leva a falar disto e daquilo, desinteressadamente, a oferecer um sorriso, até a um estranho, apenas por que sim.

Não tenho dúvidas de que temos de fazer mais, bastante mais, para que esse "mundo" (que nos está a fugir...) nos seja devolvido...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 19, 2022

Os "Sabichões das Dúzias" das Tevês (e as redes sociais)...


É normal que se continuem a criticar as redes sociais (e até os blogues...), por serem espaços com "excessiva" liberdade. O facto de qualquer pessoa pode dizer o que muito bem entende, nem sempre tem o melhor uso, mas não há nada a fazer, porque a liberdade é isso. E mais importante, continua a ser um privilégio apenas das democracias.

Só que as redes sociais, ainda estão muito "verdinhas", na "batalha da desinformação". Não conseguem sequer chegar aos "calcanhares" da televisão...

Basta termos memória para "batermos" de frente com o nosso Presidente da República, que popularizou melhor do que ninguém, a figura do comentador "tudólogo" televisivo. O seu exemplo quase que se fez "lei" e acabou por dar "palco" a pequenos "marcelinhos" e "marcelinhas", com "lábia" suficiente para opinarem sobre tudo e mais alguma coisa, ao ponto de serem capazes de dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário.

E a transformação da informação em espectáculo, nunca mais parou.

Infelizmente, os últimos três anos  têm sido "ouro" para todos estes "bandidos". Primeiro foi a pandemia e agora a guerra (depois do desfile diário de "especialistas em vírus", estava longe de pensar que ainda tínhamos mais "especialistas em batalhas"...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


A acção com imagens é sempre mais directa que a que usa apenas palavras»


A conversa que tive sobre cinema acabou também por ir parar aos livros, como se a acção que está dentro das histórias escritas fosse igual às das imagens...

Não concordei nada e disse que eram coisas diferentes. A acção dos filmes entra mais rapidamente dentro de nós, por razões óbvias. Agora os livros, são outra coisa.

Acrescentei que, mesmo um filme medíocre, se tiver bastante movimento, com as cenas a mudarem quase de segundo a segundo, deixa-nos presos ao écran, a querer saber o que se vai passar a seguir... Nos livros as coisas não funcionam assim, a acção tem de ser também acompanhada de boa literatura, ou seja, as palavras precisam de fazer mais sentido. O meu companheiro de conversa não ficou muito convencido, talvez por não ser um grande leitor.

Acho que poucas pessoas duvidam de que «a acção com imagens é sempre mais directa que a que usa apenas palavras.» 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, maio 18, 2022

Filmes, Mentiras & Generalizações


Quando escrevi aqui que vi muito cinema português nos anos 80 e 90 do século passado, um leitor do "Largo" fingiu não acreditar. E claro, aproveitou logo a embalagem para dizer mal dos filmes portugueses. Mesmo que desconheça uma boa parte deles...

Disse-lhe que há vários realizadores que contrariam a técnica e o pensamento cinéfilo de Manoel de Oliveira e dei exemplos. Fernando Lopes, António Pedro-Vasconcelos, José Fonseca e Costa e Joaquim Leitão, são realizadores que gostam de acção, de movimento,  não fazem os famosos "filmes parados", que acabaram por ficar como imagem de marca. E podia falar de mais gente, especialmente jovens. Tenho pena que Ana Luísa Guimarães se tenha ficado pela "Nuvem" e que Patrícia Sequeira (gostei muito do filme sobre as Doce...) faça mais televisão do que devia...

O problema do cinema português é um problema comum a muitas áreas da nossa cultura (e não só...): a falta de dinheiro. Sem meios, é impossível fazer um filme com acção, movimento e cenários diferentes. Há quem espere quase dez anos para conseguir produzir e exibir um filme...

Sei que este meu amigo não ficou muito convencido. Mas também não o queria convencer. Queria sim combater as "generalizações", que além de mentirosas, minam o que de bom se faz no cinema português.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, maio 17, 2022

Gerir (ou não) os "Tempos da Vida"...


Algumas pessoas a partir de uma certa altura, vivem a vida quase sem método, limitam-se a ver passar os dias e a aproveitar as brechas que esta lhes oferece, para fazer uma ou outra coisa, que lhes dá prazer.

Outras nunca desistem do "comando" invisível que pensam ter nas mãos. Por vezes até dá a sensação de que tentam aproximar a vida ao cinema ou ao teatro, criando "actos" e gerindo "tempos" de acção. É por isso que seguem à risca o que escrevem nas suas agendas. 

Mesmo que muitas coisas acabem por "sair furadas", não desistem de ser eles a comandar os seus passos...

Andamos a vida inteira nisto, a tentar gerir "os tempos da vida", entre a ilusão e a desilusão. Uns desistem, outros não...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, maio 16, 2022

O Normal é os Escritores não Acharem Muita Piada às Adaptações Cinematográficas dos seus Livros (mas a vida é isso...)


Sei que os escritores normalmente não gostam muito das adaptações cinematográficas dos seus livros. Sentem que "roubaram" a alma ao livro que escreveram e que estão a ver "uma coisa diferente" na tela.

Podia falar de Ernest Hemingway, que detestou a passagem para o cinema da maior parte das suas obras literárias. Ou então referir as muitas palavras (directas e indirectas...) atiradas pela dona Agustina ao Manoel de Oliveira, por não se identificar com as várias adaptações dos seus textos feitas pelo Mestre. Ele nunca entrou em polémicas, apenas lhe respondeu com o óbvio, quando disse: «Há uma diferença muito grande entre o que é cinema e o que é um livro. A transposição de um livro para o cinema é uma coisa extraordinariamente difícil e nunca há correspondência.»

Curiosamente, mesmo sem ter visto ainda "Um Filme em Forma de Assim" de João Botelho, sobre Alexandre O'Neill, penso que ele iria gostar. Digo isto porque o O' Neill era uma personagem e a fita do João tem muita poesia do Alexandre lá dentro...

Por cá tenho gostado de algumas adaptações, outras nem tanto. Mas não posso deixar de referir "O Delfim" do Fernando Lopes (grande livro e grande filme...), que devia deixar orgulhoso o seu amigo, Cardoso Pires.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, maio 15, 2022

«Quanto mais pobres somos, mais necessidade temos de ficar ricos»


É comum dizer-se que somos dos países que gastamos mais dinheiro em jogos de sorte e azar. Pois é, a desigualdade social, "fabrica" destas coisas...

As filas nas tabacarias - que quase já não vendem jornais e mesmo os cigarros já viveram dias mais felizes - são o melhor indicador estatístico desta realidade portuguesa. 

Mesmo sem ter qualquer dado seguro, arrisco dizer que as mulheres (a caminhar para a meia-idade...) devem ser  as grandes consumidoras das raspadinhas (grande "invenção"...), que têm o pior de qualquer jogo: distribuem uns tostões aqui e ali, dando a entender que a sorte já esteve mais longe.

A passar pela tabacaria mais central de Almada lembrei-me da frase, que tem tanto de óbvia como de verdadeira, que o Carlos me ofereceu um dia destes: «Quanto mais pobres somos, mais necessidade temos de ficar ricos.»

E embora a "sorte" apareça muito raramente nos lares mais modestos, ajuda a que os pobres continuem a viver e  a sonhar (e a jogar, claro)...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, maio 14, 2022

A Poesia Escreve-se com a Memória e com os Sentidos


Por já ser quase velho, sei que a poesia se escreve quase de mil e uma maneiras. Há até quem diga que é uma mão invisível que o guia até ao mundo das palavras, que têm tanto de bonito como de estranho.

O poeta Pina dizia que a poesia escreve-se com a memória. E dizia muito bem, mas também se podia referir ao romance e ao conto, que seria deles sem a memória...

É por isso que acrescento à memória os sentidos. 

Acho a poesia muito ligada a todos os sentidos, inclusive ao sexto.

É por isso que só escrevo poesia de vez em quando. A memória não é suficiente para me levar a escrever... preciso dos sentidos (todos, até mesmo do sexto)...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha) 


sexta-feira, maio 13, 2022

Gente a "Cores" e Gente a "Preto e Branco"...


Embora goste dos filmes e das fotografias a preto e branco, sei que o mundo é muito mais que isso, pois todo ele foi contruído com uma multiplicidade de cores, e claro,  de pequenas e grandes singularidades.

E onde é possível encontrar mais diferenças, é dentro e fora de nós, humanos.

Foi por isso que ao nos cruzarmos com um antigo vereador, acabámos a falar dele, até por ser tudo, menos a "preto e branco". É também por isso que se percebe à légua as saudades que ele tem do "poder". Apesar de estar afastado há mais de meia-dúzia de anos de funções governativas, continua a aparecer, sempre que pode, a gostar do contacto com o "povo", a adorar "bajular" e ser "bajulado". E como ele gosta de "discursar", mesmo que diga sempre as mesmas coisas, que espremidas são pouco mais que nada (sim, é menino para estar uma hora a falar sobre uma "pedra da calçada")...

É exactamente o contrário de dois presidentes que o acompanharam, que devem adorar ter uma vida normal e viver longe dos "holofotes". É por isso que raramente são vistos em acontecimentos públicos...

Ainda bem que existe o "Sol" e a "Sombra", o "Palco" e a "Plateia"... e a possibilidade de escolhermos o nosso caminho...

(Fotografia de Luís Eme - Idanha-a-Velha)


quarta-feira, maio 11, 2022

Os Espelhos que Espreitam para Dentro de Nós...


Olhamos o espelho à procura de quase tudo, o que se vê e o que não se vê...

O reflexo do nosso olhar não nos revela apenas os sintomas diários, quase banais, de uma noite mal dormida ou de um dia cinzento que nos espera lá fora. O espelho gosta de ir mais longe, de se meter com quem gosta de perder mais de cinco minutos, a lutar contra o que vê, sendo mesmo capaz de abrir alguns caminhos obscuros, por onde se estende a diversidade e a complexidade humana. 

Claro que me vou ficar pelo "mundo real", pelas pessoas bonitas que se acham feias e pelas pessoas feias que encontram coisas bonitas no "jogo" do reflexo dos espelhos... Sim, quando ouves uma pessoa com "tudo no sítio" a dizer que gostava de ter «o nariz mais comprido» ou «a boca mais pequena», isso só pode significar uma "insatisfação permanente" e  mais trabalho para os cirurgiões plásticos. E depois descobres uma pessoa quase "invisível" a dizer que gosta da cor e da expressão dos seus olhos, na maior parte das vezes que enfrenta o espelho. 

Mais uma vez podemos ir à sabedoria popular encontrar explicações para esta coisa terrivelmente humana, de que só querermos o que não temos e só estarmos bem onde não estamos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, maio 10, 2022

Quando nos Tentam Roubar a "Identidade" (publicamente)...


Sempre que passo naquela rua da Sobreda, penso na mesma coisa: quem está ali é um António qualquer Lisboa, mas nunca o poeta António Maria Lisboa, que fez parte do movimento surrealista e morreu novo.

Sei que não é uma situação virgem, esta tentativa de abreviar o que é impossível de abreviar: "o nome de combate" do poeta.

Mas eu continuo na minha: apesar de algumas coincidências, este António Lisboa, não é o António Maria Lisboa. E é um "mal" que pode ser facilmente remediado com a substituição da placa...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda da Caparica)


segunda-feira, maio 09, 2022

Coxos, Pescadores, Caçadores, e claro: Mentirosos


Todos mentimos, uns mais outros menos. Mentimos por razões várias. Uma boa parte das vezes para evitar chatices (tanto em casa como no trabalho), outras para nos "armarmos ao pingarelho", esticando a corda, inventando coisas que gostávamos de ter como um carro um uma vivenda, para "subirmos" um patamar, ainda que ligeiro, na vida e na conversa. Sim, um simples carro em segunda mão, pode ser transformado num BMW. E um apartamento nos subúrbios, com alguma imaginação, pode passar por uma vivenda com piscina e tudo...

Mas, como nos diz a sabedoria popular, alguns mentirosos começam a "coxear" antes dos coxos...

E como há pessoas que nos contam a sua vidinha toda (quase sempre com alguns acrescentos, para dar alguma magia à coisa), sem lhes perguntarmos nada ou sermos íntimos. Acho que isso ajuda a explicar o  sucesso do "facebook". Ou seja, o que não falta por aí, é gente desejosa de viver outras vidas e "contá-las". Mas como nem todos podem ser actores a sério...

Mas vamos lá à tal história de sábado à tarde... A mulher começou a contar-nos as maravilhas da sua "nova vida", quando resolveu mudar de casa (troca de vivenda por vivenda, mas com larga vantagem, pois foi para o "paraíso"...). E nesse dia quente, tinha a piscina da casa, cheia, com os filhos e netos.

À medida que ia contando pormenores, ia sendo atraiçoada pela geografia (uma boa mentira é como a ficção, precisa de um espaço real, para que a estória ganhe sentido...), ao ponto de percebermos que afinal a sua vivenda estava "equipada" para quatro famílias, dois no rés de chão e outros dois no primeiro andar e que a tal piscina, afinal era colectiva...

Pois, quem nos mandou a nós conhecer aquele lugar "paradisíaco", onde mora o Paulo e a Marta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, maio 08, 2022

«Já reparaste na quantidade de bairros sociais que existem no nosso concelho?»


«Já reparaste na quantidade de bairros sociais que existem no nosso concelho?»

A pergunta surgiu quase do nada. E sim, já tinha reparado. 

O difícil era não olhar para a quantidade de bairros, que se chamam "sociais", vá-se lá saber porquê... por existirem em quase todas as freguesias de Almada.

Normalmente são "caixotes de cimento", construídos para alojar pessoas que escolhem (ou são escolhidas...) lugares estranhos para "sobreviverem", onde normalmente falta um pouco de tudo e que depois acabam por ser realojadas nestes espaços (às vezes com anos de espera, dentro de listas).

Quando me perguntaste que tipo de gente vivia nestes lugares, disse que eram pessoas normais. E depois acrescentei: "No meio de um ou outro vagabundo, que finge viver do ar, moram famílias que normalmente trabalham mais e ganham menos dinheiro que nós."

(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)


sexta-feira, maio 06, 2022

Aproveitar a Oportunidade para Ficar na História...


Sei que Zelensky tem pouco de santo, mas graças a Putin corre o risco de entrar para a galeria dos heróis e por lá ficar por longos anos, pelo menos para os ucranianos com memória.

Se "não se estragar", até poderá ter uma estátua aqui, um busto ali, além do nome em muitas das ruas e praças da Ucrânia, como referiu o Jorge.

O mais curioso, foi o líder dos ucranianos ter entrado na conversa de café, apresentando-se com várias farpelas. Andou entre o "traste" e o "herói", mesmo que acidental (são quase todos...). E mesmo quem não morria de amores por ele, acabou por se render à sua coragem, porque Zelensky não fugiu, ficou. E já se percebeu que vai ficar até ao fim, seja qual for o desfecho desta guerra estúpida (como são todas)...

Todos sabíamos que este seu gesto tinha sido suficiente para inspirar e fortalecer todo o seu povo. Viram nele o exemplo a seguir, o homem que não vira a cara à luta e que "promete" não abandonar nem desistir do país (não esquecemos as várias "boleias" que lhe ofereceram, que seriam aceites pela maioria dos políticos...) que governa.

Em suma, Zelenky é o "herói" com que Putin não contava e que pode mesmo fazer dele um derrotado. 

Fizemos todos figas para que isso acontecesse, mesmo aqueles que o olham com ar mais de oportunista que de herói.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 05, 2022

Um Mundo Cada Vez Mais Alérgico a Homens Livres


Nunca como hoje se colocou tanto em causa o pensamento alheio. Basta que alguém escreva ou diga algo que seja contrário ao que é comum chamar-se "politicamente correcto".

Claro que não falo das pessoas que têm como primeiro objectivo, "chocar" ou "serem diferentes" (levam isto ao extremo, ao ponto de escreverem ou dizerem coisas, que até são capazes de contrariar o que realmente pensam, quando pensam...). Vasco Pulido Valente deverá ter sido o maior exemplo destes cronistas, muitas vezes incoerentes, e até ofensivos. Hoje tem vários seguidores, mas a léguas do seu talento.

Falo mesmo de "homens livres" (este "homem" não tem sexo definido...). De pessoas que até são capazes de se manifestar contra as instituições a que estão ligadas (partidos, clubes, associações, etc) ou até contrariar amigos próximos, quando sentem que colocam em causa a sua própria liberdade, de expressão, acção ou pensamento.

É cada vez mais difícil encontrar pessoas livres como o foram Gonçalo Ribeiro Teles, Maria de Lurdes Pintasilgo, Manoel de Oliveira, José Saramago ou Mário Viegas, que não se deixavam condicionar pelas "verdades colectivas". 

Adoravam andar fora de "rebanhos"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, maio 04, 2022

É Normal que se Leiam Cada vez menos Livros...


Ontem o Canal um (uma coisa que não "existe", mas que continua a ser tratada desta forma, por quase todos nós. É um pouco como as ruas e os largos que se "rebelam" contra os novos donos e permanecem "eternamente" com as velhas toponímias...), resolveu falar de livros e de leituras, convocando alguns escritores e professores ligados a este mundo.

Claro que não se chegaram a grandes conclusões. Nunca se chega, estes programas são sempre demasiado curtos... Falou-se dos problemas de sempre, da educação, do preço dos livros, da concorrência do nosso mundo digital e também das muitas solicitações para os jovens.

Bateu-se muito na "educação", porque continua a ser fácil "dar porrada" na escola, quando estamos sempre à espera que seja ela a fazer o "nosso trabalho de casa"...

Eu já não "bato" em ninguém. Sei que o problema da falta de leitores é, essencialmente, um problema cultural. Penso que as pessoas que não leem livros, são as mesmas que não vão aos museus ou ao teatro. 

O que eu noto é uma grande lacuna na procura de "novos leitores" (ou de "novos públicos" nos museus e teatros...). Tudo o que se faz no nosso país tem como alvo quem já gosta de ler (desde os "clubes de leitura" aos "festivais literários"...). É preciso ir à procura dos "não leitores" e explicar-lhes o "sabor especial" que um bom livro pode ter. E ir ainda mais longe, pois os livros são de tal forma multifacetados, que até são capazes de nos levar a dar uma "volta ao mundo", sem sairmos do mesmo sítio...

Mas o problema maior talvez seja todo este excesso de informação que nos rodeia (umas vezes "palha" outras "invenções"). Gera demasiada confusão, ao ponto de ser capaz de nos afastar de pequenos prazeres, como é o da leitura. 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, maio 03, 2022

Crescer num Mundo com "Escolas" para Raparigas e "Escolas" para Rapazes...


Embora nunca me tenha sentido completamente confortável no mundo "onde os homens não choravam", foi assim que cresci e fui aprendendo a ser homem (por vezes erradamente, mas a vida era isso...).

A presença de um casal amigo (uma agradável surpresa...) na nossa "tertúlia" das segundas, ajudou-nos a viajar no tempo e no espaço, trazendo para a mesa muitas das nossas tradições e também a nossa gastronomia, num mundo tão diferente do dos nossos dias...

De repente, voltei à infância. Lembrei-me de coisas, como a "matança do porco", onde com apenas cinco, seis anos, comecei a assistir a todo aquele "espectáculo", inclusive à gritaria do animal que adivinhava o seu destino (aprendia a esconder o arrepio que me invadia o corpo, provocado por aqueles guinchos). De ano para ano, custava menos, com menos de dez anos devo ter tido a "permissão" para segurar uma das patas... quase num ritual de masculinidade.

Também me lembrei das touradas, que hoje olho como um espectáculo bárbaro (não faço manifestações, acredito que elas morrerão de "morte natural"). Visitei várias vezes a praça de touros das Caldas de mão dada com o avô (um verdadeiro aficionado...), desde os sete, oito anos. Na altura não tinha idade para perceber o porquê de tudo aquilo, muito menos para o questionar. Mas estava longe de ser um espectáculo agradável... Deve ter sido por isso que desde a adolescência, nunca mais visitei qualquer praça...

Quando falámos da gastronomia, falámos desse mundo antigo, tão compartimentado, em que um homem que gostasse de cozinhar, corria o risco de ser olhado de lado, porque "a cozinha era das mulheres"... E de como tudo é diferente, de como hoje podemos ser quase tudo, sem merecermos qualquer reparo.

Claro que a educação conta muito nestas coisas das igualdades... Por sermos dois rapazes, a mãe sempre nos habituou a fazer pequenas tarefas (lavávamos louça, estendíamos roupa... "tarefa proibida", por exemplo, para os homens no mundo da minha sogra, que uma vez fez quase um escândalo, quando a quis ajudar a estender roupa no quintal.

Ainda bem que o "mundo" em que os meninos se vestiam de azul e as meninas cor de rosa, quase que já não existe...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


segunda-feira, maio 02, 2022

Memórias de Abril e Maio de 1981...


O único ano em que participei nos desfiles e nas festas das comemorações do 25 de Abril e do Primeiro de Maio, em Lisboa, foi em 1981.

Era o meu primeiro ano em Lisboa... e com alguma naturalidade, foi um ano de descobertas.

Vinha da província, de uma Cidade quase sem Abril, pouco dada a fervores revolucionários.

Embora fosse um simples observador, era um observador feliz ao assistir a todas aquelas encenações humanas, ainda com espaço para sonhos.

Lembrei-me de tudo isto, porque hoje senti a alegria de um casal, que nunca perdeu um desfile na Avenida da Liberdade de Abril ou na Almirante Reis em Maio (os tempos da pandemia não contam...), que me explicou, entre outras coisas, que é um local de encontro anual. Há amigos que só se encontram nestes momentos festivos em que ainda se festeja a Liberdade...

E o que ficou, foi a expressão da contentamento da Teresa, de que continua a ser muito bom festejar a Liberdade, ainda que seja uma festa cada vez mais curta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, maio 01, 2022

Uma Coincidência Feliz


Este Primeiro de Maio, também é o Dia das Mães.

É sem qualquer dúvida, uma coincidência feliz.

Se há alguém que trabalha, trabalha e trabalha, são as Mães, de todos os países (as que têm outras Mães para lhes fazerem as actividades domésticas não contam...).

Além do trabalho diário nas suas profissões, são elas as primeiras a preocuparem-se com os filhos, com a lida da casa, com a alimentação de toda a prole... entre tantas outras coisas.

Felizmente muita coisa mudou, uma boa parte delas, já não está para se sujeitar a uma vida de "quase escravatura", embora ainda não se tenha encontrado um equilíbrio nestas funções, que a própria sociedade ainda divide, como masculinas ou femininas...

Apesar de continuarmos a ser uma sociedade desigual (a divisão entre ricos e pobres é muito mais difícil de esbater...), é bom que vejamos cada vez mais, nas nossa companheiras e Mães dos nossos filhos, alguém como nós, que caminha a nosso lado e não à frente ou atrás...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa) 


sábado, abril 30, 2022

A Metáfora dos Cravos de Abril...


Este deve ter sido o único ano em que não tive um único cravo vermelho em casa (verdadeiro) em Abril.

Isso aconteceu por várias razões, a principal por ter comemorado esta data festiva longe dos palcos de música e de discursos, onde também se costumam oferecer cravos (costumam ser lançados à população...).

Claro que andei na rua no dia 25, até me encontrei com um amigo, para falarmos de um projecto, que tem vindo a ser adiado, ano após ano, por múltiplas razões (até pela incerteza em relação à sua recepção...), que não interessa trazer para aqui.

Algumas das pessoas que passavam por nós, na esplanada, traziam cravos, na mão ou no peito, embora a maior parte viesse sem este símbolo de Abril, vermelho ou encarnado (tal como nós...).

O meu companheiro e amigo achou piada ao contraste entre uma mulher que passou com quase uma dúzia de cravos na mão e outra com apenas um. E disse-me: «Este é o retrato actual de Abril, um pais cada vez mais desigual, onde uns tentam agarrar tudo o que podem, sem sequer lhe passar pela cabeça dividir o que têm, pelos que não têm quase nada.»

Limitei-me a sorrir. Mesmo sabendo que era verdade. 

Estive sempre na dúvida se devia escrever sobre isto aqui no Largo, mas acho que esta é uma é uma das várias "metáforas" que se podem encontrar em Abril, mesmo que a Revolução libertadora, não tenha nada a ver com isso...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, abril 29, 2022

Um País com um Tempo Próprio... que se chama Depois...


Apesar da rapidez com o mundo se aproximou de nós, através da visualização dos múltiplos écrans que se ocupam de nós, diariamente, há coisas que não mudam, como o nosso tempo, que continua a ser muito próprio.

É por isso que só agora é que está a surgir com mais alarido o "metoo#" entre nós. E não surge por acaso,  no interior das universidades, onde milhares de jovens vivem pela primeira vez, longe dos pais, entregues a si próprios.

Além de tempos de descobertas, são também tempos de fragilidades, dos primeiros enganos, das primeiras grandes ilusões (e desilusões) amorosas... onde quase tudo parece ser possível, como nos filmes.

As meninas inocentes e giras sempre foram os principais alvos de alunos batidos e também de professores com alma de "dom juan". Muitas viviam primeiros amores com sexo à mistura e fingiam não perceber que uma boa parte das promessas de amor não passavam disso mesmo, de promessas (claro que também há sempre um grupo de alunas, tudo menos inocentes, que sabem que também é possível subir notas, em "sessões de estudo" mais viradas para anatomia, mas pertencem a outro "filme"...).

Isto vai ao encontro de uma realidade que sempre me fez confusão, mas que faz da natureza humana: a atracção que as mulheres têm por patifes. Mas não era disso que eu queria falar, era apenas de sermos um país com um tempo próprio, que se chama depois...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, abril 28, 2022

Há poucos empates na vida, ou se ganha ou se perde.»


Foi sempre mais fácil "ganhar" que "perder", em tudo na vida.

Talvez onde se note mais o azedume das derrotas seja no desporto, porque não existem grandes subterfúgios, ou dúvidas.  Ou se ganha ou se perde, o empate não conta quase para nada. Na vida as coisas são diferentes, poderemos estar "perder", quase sem nos apercebermos. E isso não acontece apenas nos nossos ordenados, cada vez mais curtos ou nos nossos "consumos obrigatórios", cada vez mais caros... Há pequenas coisas, que só começamos a "contar", depois de muitas "perdas", quase invisíveis.

Ou seja, ao longo dos anos das nossas vidas, fazemos sobretudo, a "gestão das derrotas", mesmo que uma boa parte delas sejam involuntárias...

Viver é isto, e ponto final. Umas vezes perde-se, outras ganha-se. Embora à medida que os anos passam, eu fique com a sensação que se perde sempre mais do que o que se ganha...

Claro que este ponto de vista depende bastante da nossa perspectiva pessoal, do lado optimista ou pessimista que mora em cada um de nós.

Toda esta prosápia, porque depois de uma reunião de trabalho, quase assustadora, um dos meus companheiros desabafou: «Há poucos empates na vida. Ou se ganha ou se perde.» 

E naquele caso em particular, íamos todos perder...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 27, 2022

Os Ucranianos e os Nossos Brandos Costumes...


Ontem, durante a viagem de Almada para Lisboa, passei uma boa parte do tempo a falar de nós, portugueses, por sermos tão diferentes dos ucranianos.

Ao contrário do meu companheiro de viagem, disse que se fossemos nós a ser invadidos, o conflito armado duraria uma semana, no máximo. Rapidamente baixaríamos as armas e deixaríamos de ripostar (era o que Putin queria e pensava que iria acontecer na Ucrânia...), deixando o ditador russo gritar vitória e ditar regras.

Provavelmente ele escolheria uma qualquer "marionete" para governar o nosso país ao seu jeito (mesmo que provisoriamente). Claro que lhe iríamos fazer a vida negra, a nossa "rendição" seria sempre apenas um "número", uma forma inteligente de não enfrentar directamente este "Golias". Sabíamos, que mais ano menos ano, ele desistiria de nós.

Dos romanos aos espanhóis, os nossos invasores nunca tiveram vida fácil. Os nossos "brandos costumes" são isso mesmo, é quase como se tivéssemos horror a sangue e ao barulho das armas pesadas, usando coisas mais simples, para "moer" a paciência aos nossos inimigos...

Claro que a realidade é sempre ligeiramente diferente do que pensamos e escrevemos. Mas estamos muito longe de ter o sangue frio dos povos de leste (até por termos a sorte de ter Sol durante quase todo o ano e raramente termos temperatura abaixo de zero graus...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, abril 26, 2022

A Mensagem podia muito bem ser esta: "Não compliquem o que é simples."


A equipa de juniores do Benfica, que venceu a "Liga dos Campeões Europeia" deste escalão, deu uma lição de bem jogar e de objectividade, na tarde de ontem. Lição que devia ir "direitinha" para a equipa de seniores, que joga um futebol complicado, pobre e feio,  e que está a "anos luz" do que é praticado por estes jovens, cujas idades vão dos 17 aos 20 anos. 

O bom exemplo prático que estes jovens deram na Suiça, podia muito bem resumir-se a uma curta mensagem: "não compliquem o que é simples".

O "castigo" que eu dava aos jogadores e técnicos da equipa principal do Benfica, era verem este jogo de terça a sexta, antes de cada treino. Talvez, que, com a insistência, acabasse por ficar alguma coisa na cabeça de todas aquelas "vedetas", que são muito bem capazes de achar que "já sabem tudo..." 

Um tudo que, diga-se de passagem, é muito poucachinho...

(Fotografia de autor desconhecido - de homenagem ao "King") 


segunda-feira, abril 25, 2022

As Melhores Palavras de Abril, para Festejar Abril...


As palavras da Sophia e do Capitão Maia, são do que existe de melhor, para festejar Abril...


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 24, 2022

O Tempo não Muda Apenas os Lugares, também vai Mudando as Pessoas...


Não se trata de nenhum "empate" (a democracia vence sempre qualquer ditadura...), mas apenas de uma constatação. De 1974 a 2022, distam os mesmos 48 anos, de triste memória, vividos entre 1926 e 1974.

Se em 1974 e 1975, até a democracia social do CDS, caminhava, mesmo que lentamente, em direcção ao socialismo... hoje quem continua a assumir-se como socialista, corre o risco de ser apelidado de elemento da "extrema-esquerda". O PS não conta para este "campeonato", porque o seu nome é ilusório, a matriz do partido sempre foi social-democrata.

Ou seja, se no "Verão Quente", os interesses já se sobrepunham às ideologias (todos queriam ser revolucionários, ter um passado antifascista, até aqueles que tinham sido informadores da PIDE sentiam necessidade de  inventar um tio "preso político", porque os anos de prisão eram "medalhas"), nem sei o que dizer dos anos seguintes...

É caso para dizer, que "o poder tudo transforma". Não vou fazer nenhuma lista com as pessoas que foram "evoluindo" da esquerda para a direita, cujo "bilhete de ida" teve quase sempre como destino, os dois partidos do "arco da governação", mas são dezenas e dezenas de políticos. Alguns chegarem mesmo a ministros, um deles até foi primeiro-ministro e presidente da comissão europeia...

Claro que o olhar sobre as mudanças varia conforme os interesses (como  quase tudo na vida...). Os que gostam de passar o tempo a saltar de, um lado para o outro, defendem-se com a expressão popular, de que só "os burros é que não mudam". 

Já quem se mantém fiel à sua ideologia, fala sempre da importância da "coerência"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, abril 23, 2022

O Outro Dia Vinte e Três...


No dia 23 de Abril de 1974, mais de noventa por cento da população portuguesa estava longe de sonhar com qualquer Revolução, muito menos com uma daquelas que tivesse a força  para virar o país de pernas para o ar, dando mais que um safanão em todos aqueles que se sentiam "senhores", dentro do sistema quase feudal, bolorento, incapaz de manter por muito mais tempo o "obscurantismo" (apesar de contar a cumplicidade da Igreja Católica...), que até aí fomentara a ignorância e a pobreza, de Norte a Sul...

Podia falar da educação, da saúde... mas fico-me pela "habitação"...

Se imaginarmos que uma parte significativa do país (a maioria das aldeias...), ainda não tinha luz eléctrica, água canalizada ou esgotos, nas suas "casas"... isso poderá ajudar a retratar esse país, que estava longe... tão longe... de sonhar, sequer, que daí a dois dias, nada mais voltaria a ser igual...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, abril 22, 2022

O Sonho das Minorias é Crescer, Crescer, Mas...


É perfeitamente legítimo que as minorias, quase sempre vítimas de qualquer coisa (em alguns países até da própria legislação...), onde o preconceito é a parte mais visível, queiram crescer, passar para a chamada "parte normal" da sociedade.

O mais importante para estas minorias é terem voz, poderem oferecer exemplos de como continuam a ser discriminadas, no meio do silêncio ensurdecedor da sociedade onde estão inseridas.

O que eu já não compreendo, é que quando a sua situação começa a "normalizar", cometam os mesmos erros de que eram vítimas. 

Ou seja, quando já se sentem em "terrenos confortáveis", com liberdade de acção, fazem com que os outros - diferentes -, se sintam a mais nos seus "mundos" (as feministas e os homossexuais são useiros e vezeiros nesta prática...). 

Mas nós humanos somos mesmo assim, rapidamente esquecemos que a igualdade é outra coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


quinta-feira, abril 21, 2022

Não Mudámos Assim Tanto (a instrução, o banho diário ou a forma de vestir são meras ilusões...)


Os meus filhos acham piada a que eu goste de ver westerns. Por estarem habituados a olhar no cinema outro tipo de violência, mais mecânica e menos humana, não conseguem "ver o que eu vejo" nestes filmes. Devem achar tudo aquilo retrogrado e ultrapassado...

Mas, além de ser fitas bem feitas (falo dos clássicos, claro, da linha de John Ford...), falam da natureza humana sem rodriguinhos. Retratam a sua ambição desmedida (a "corrida ao ouro" e às terras férteis diz quase tudo...), assim como a facilidade com que se mata o semelhante, muitas vezes apenas por sobranceria ou por ciúme (e não precisam de usar a psicologia ou a sociologia para explicar o que quer que seja).

Explicam de uma forma crua, que não mudámos assim tanto, apesar de nos acharmos muito cultos e civilizados...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 20, 2022

Uma Guerra que Serve para Tudo (por cá alimenta a "feira de vaidades" e o "enriquecimento curricular")...


Sei que este título ficou ligeiramente comprido, mas teve se ser mesmo assim... Até porque a Guerra na Ucrânia tem alimentado uma série de coisas curiosas, no jornalismo televisivo do nosso burgo.

Não me lembro de ter visto tantos "especialistas" sobre o que quer que seja, a desfilarem pelos vários canais noticiosos, quase minuto a minuto. São centenas de pessoas, homens e mulheres, com mais e menos idade. Não fazia ideia que existiam tantas mulheres com conhecimentos bélicos (sei que o mundo mudou, mas...). E também pensava que já não havia tantos generais nas nossas forças armadas (parecem ser mais que os soldados, actualmente existentes nos quarteis...). Mas nota-se que estão bem sintonizados com o mundo actual, são capazes de dizer uma coisa hoje e amanhã o contrário...

Outro aspecto que não me tem passado ao lado, é o desfile diário de "repórteres-de-guerra", em todos os canais com notícias. Quase todos os jornalistas e apresentadores de telejornais, se devem ter voluntariado para viajarem para a Ucrânia ou Polónia, pois querem muito "colar" ao seu currículo a passagem por este "cenário de guerra". Não os somei todos, mas no conjunto, entre RTP, SIC, TVI e CMTV, os enviados especiais já se devem aproximar da centena (ou até ultrapassar)...

Infelizmente, as guerras servem para tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


terça-feira, abril 19, 2022

"A Árvore do Poeta"...


Talvez as lendas existam para fintar a realidade. Nunca sabemos muito bem onde começa a verdade e acaba a imaginação e vice-versa.

Claro que o mundo mudou muito, onde antes existiam quintas agrícolas, hoje existem aglomerados populacionais. A árvore podia mesmo ter existido na colina, onde hoje existem vários prédios. A vista continua a ser soberba. É possível ver o mar (e até ouvir as ondas, quando este está mais batido...), apesar de a costa ficar a mais de um quilómetro.

Quando me contaram que naquele lugar havia ali uma árvore, que era "A Árvore do Poeta", a primeira coisa que quis saber foi o seu nome. Disseram-me que só sabiam que ele era poeta, ou seja, com a "lenda" o "mágico das palavras" perdeu o nome verdadeiro, para ir ganhando força e se transformar quase uma personagem universal.

E depois mostraram-me uma frase, que disseram ser da sua autoria:

«Só aqui é possível passar uma tarde, debaixo desta bela sombra, apenas com um bocado de pão, uma dúzia de azeitonas, uma garrafa de vinho, um lápis e um caderno em branco, sedento de palavras...»

Não fiquei nada preocupado com a existência, ou não, de uma árvore, naquele lugar, que continuava a ser tão poético. 

E sim, continuava a ser possível ficar por ali à espera das palavras, empurradas pela maresia ou pelo vento que soprava nos campos...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, abril 18, 2022

Não Tínhamos de Ficar (quase) todos a Perder...


Há 25 anos já Maria João Seixas se queixava dos "malefícios" do aparecimento das televisões privadas: 

«Este fenómeno da banalização e vulgarização aconteceu em quase todos os países europeus onde surgiram canais privados. Foi uma interpretação do sentido de competição onde perdemos todos. Talvez tenham ganho alguns investidores... Eu recuso-me a imaginar que o gosto das pessoas é necessariamente  rafeiro.»

Só que o nível da programação não parou de descer, de 1997 até 2022. É quase como se o universo televisivo funcionasse no interior de um "poço sem fundo"... 

O que também não mudou foi a "converseta" dos programadores, que continuam a fingir que acreditam que apenas vão ao encontro do gosto das pessoas. 

E não tinha nada que ser assim... Não tínhamos de ficar (quase) todos a perder...

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


domingo, abril 17, 2022

Sempre as Mesmas Vozes


Hoje por ser domingo de Páscoa, a programação da televisão foi ligeiramente diferente. Os meus filhos até usaram alguma ironia, por a SIC voltar a ter uma tarde com cinema, fazendo um intervalo na habitual oferta de "música pimba".

Enquanto almoçávamos a televisão oferecia-nos um filme de animação. Eu levantei a questão de serem quase sempre as mesmas vozes a fazerem a dobragem destas fitas. A mesma voz é hoje um ganso, amanhã um leão, depois um cão e se tiver sorte, até pode ser um humano, de longe a longe.

A televisão deve ser o lugar onde se pratica mais o compadrio, onde rodam "sempre os mesmos". Por isso, é normal que o mesmo se passe nos filmes de animação. Mas era bom que algumas vozes tivessem algum descanso. Até porque, não temos falta de gente com vontade de participar neste mundo animado...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 16, 2022

Um Homem de Bem (e um café especial)...


Começava a escurecer quando passei pelo café que frequentava nos meus primeiros tempos de Almada. Foi lá que conheci os primeiros amigos da cidade e também a minha companheira.

O dono estava cá fora e cumprimentámo-nos com a afabilidade do costume. 

É curioso, mesmo tendo deixado de ser cliente da casa, ele continua a tratar-me da mesma forma agradável de sempre.

Talvez ele saiba que se trata apenas de uma questão de geografia, de termos cafés mais perto de casa... Mas, mesmo assim, bem merecia que de vez enquanto aparecêssemos, para matar saudades e ajudar o negócio.

Até porque, reparo, que ele continua a ter o mesmo BMW que tinha há vinte anos. Talvez seja demasiado sério e boa pessoa para enriquecer de forma fácil, como acontece, por exemplo, com um dos vizinhos da minha rua detrás, também do ramo, que mesmo em plena pandemia, comprou um Jaguar vermelho, eléctrico, a estrear...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, abril 15, 2022

Os Felinos Continuam a Reinar em Almada


Apesar do aumento notório da raça canina (a pandemia tem destas coisas, quase estranhas, os "humanos" depois de quase esgotarem o papel higiénico, também se muniram de um cão, para puderem sair de casa, de forma "legal"...), Almada continua a ser o reino dos gatos.

Por exemplo, a Escola Cacilhas-Tejo é quase um santuário para os felinos, com vários retiros no seu interior e também com tratadores fiéis.

Mas também existem muitos espaços abandonados, que são ocupados por estes animais (como esta casa em ruínas, quase na fronteira entre Cacilhas e Almada, que alguém "identificou" com bonecos...) e que também têm os seus benfeitores (quase sempre benfeitoras...), que tentam que não lhes falte nada.

Uma das coisas que chamou mais a atenção, quando vim morar para Almada, foi a quase ausência de cães vadios (são mais perigosos para as pessoas...). Já os felinos, era vê-los em quase todas as ruas. E acabam por trazer vantagens para a população, pois além de menos perigosos, são pouco barulhentos, mais higiénicos e fogem mais ao contacto com a nossa espécie, cada vez mais "desumana"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)