terça-feira, outubro 31, 2023

Traços da vida de um pianista quase vulgar...


Ele tocava piano enquanto nós conversávamos, naquele bar frequentado por pessoas que gostavam de baladas e de bandas sonoras de filmes.

Nos intervalos vinha até à nossa mesa, com um whisky numa das mãos, mais para ouvir que para falar ou perguntar se lá fora estava a chover. Pouco tempo antes tinha estado a tocar num dos poucos restaurantes que ainda tinham música ao vivo. Por lá só tocava música clássica. Gostava destas variações, mantinham-lhe os dedos preparados para quase tudo. 

Sabia que aquela vida de bar em bar, de restaurante em restaurante, não estava dentro dos seus melhores sonhos. Nada que o preocupasse demasiado. Também sabia que não fez tudo o que era preciso para as coisas acontecessem, quando teve vinte anos. Faltava-lhe a ambição de quem era capaz de vender a alma ao diabo, se tal fosse necessário, para chegar ao topo da escadaria.

Foi-se habituando aquela vidinha, com horários entre o começo e o fim da noite, que lhe rendiam muito mais que qualquer emprego vulgar das "nove às cinco".

Andava há quase quarenta anos naquilo, sem saber ao certo quando era tempo de se reformar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 29, 2023

A esperança, que nos ajuda tanto a viver e a resistir aos "piores pesadelos"...


Ao ligar a televisão, vi que num dos canais de filmes estava a ser oferecido o "Papillon", a versão do começo dos anos 70, com Steve McQueen e Dustin Hoffman (que continua a ser a melhor, para mim claro...).

Recordei que o filme me marcou bastante na adolescência, quando o vi pela primeira vez, numa das salas de cinema das Caldas.

Hoje, ao ver aquele cenário desolador das ilhas da Guiana Francesa, lembrei-me de Cabo Verde e do presídio do Tarrafal, que ficou conhecido como o "Campo da Morte Lenta", por ser isso mesmo (além das dezenas de prisioneiros que morreram no Campo, houve outros tantos que depois de serem libertados, duraram muito pouco tempo, como foi o caso de Alberto Araújo, professor almadense).

"Papillon" tinha a liberdade sempre presente, nos seus pensamentos, mesmo nos lugares onde a fuga era tida como "impossível". Foi nesta parte do filme que recordei algumas das conversas que tive com Edmundo Pedro, que apesar de ter passado parte da sua adolescência no Tarrafal, junto de Pai e de tantos outros camaradas (como Bento Gonçalves, que tanto o influenciou pela vida fora...), quase que chegou aos cem anos de vida...

Recordei-o porque ele contou-me uma vez (devo-lhe ter perguntado, claro...) as peripécias da tentativa de fuga protagonizada por ele, pelo pai, Gabriel Pedro e por outro companheiro que não recordo o nome (e não vou agora à sua procura...). 

Ele continuava a pensar que a fuga do Tarrafal tinha sido possível, o problema foi que correu tudo mal, desde início, os astros estavam completamente desalinhados com esta sua "fuga para a liberdade"... 

Podia ser ilusão, mas ainda bem que ele continuava a pensar que o "impossível" era "possível".

E claro, a motivação foi a mesma do "Papillon", a esperança que nos ajuda tanto a viver e a resistir aos "piores pesadelos", quando se tornam realidade...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, outubro 28, 2023

Ideias que saltitam no começo das manhãs de sábado (agora menos)...


Gostei de acordar e descobrir que andavam à minha volta, duas ou três ideias, à solta. Foi como se estivesse a viver um daqueles sábado à antiga, em que em vez de dormir até um pouco mais tarde, era acordado por uma ou outra história, que só descansavam quando ficavam registadas no pequeno bloco de mesa de cabeceira.

Como deixei de ter um bloco por perto, fico apenas com as ideias a cirandar na cabeça... 

E hoje gostei, particularmente, de pensar um projecto antigo de uma forma diferente  (sobre o clube e as pessoas do bairro da minha infância...). Foi como se alguém me dissesse ao ouvido, para fugir do rigor dos números e pensar mais nas pessoas, desde o seccionista, passando pelo treinador e acabando nos muitos companheiros de aventura...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, outubro 27, 2023

Descobrir palavras, quase esquecidas no "beco das memórias", com passado, presente e futuro...


Continuo a gostar de fazer o papel de "arquivista" (se pensar bem, foi esta a minha última actividade profissional, antes de me armar em jornalista...), mesmo que perca demasiado tempo, quase "embrulhado" nos papéis amarelecidos pelo tempo que fui guardando e enchem pastas quase perdidas na garagem. Papéis que tenho sempre pouca vontade de deitar fora...

A vantagem é descobrir coisas que já não fazia ideia que tinham acontecido. Também apanho muita gente com "a boca na botija", que disseram coisas impensáveis. De certeza que se pudessem, davam mais que cinco tostões para "apagar" essas palavras, quase esquecidas no "beco das memórias"...

Mas normalmente não recupero essas coisas estranhas, que até podem sujar as mãos. Prefiro fazer o que fiz ontem, recordar palavras que vale a pena darem mais uma volta por cá, porque sinto que têm, passado, presente e futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, outubro 26, 2023

Coisas de "Um Eremita em Paris" (e não só)...


De vez enquanto pego em cadernos quase antigos, onde costumo deixar apontamentos sobre tudo e sobre nada. Este era de 2014...

Há sempre uma ou outra frase sobre livros ou filmes. Desta vez descobri mais que uma frase sobre um dos livros de Italo Calvino, "Um Eremita em Paris" e escrevi que a espaços, me estava a olhar ao espelho, graças às suas palavras. 

«É o anonimato que me atrai: aquela multidão em que posso observar todos, um a um, e ao mesmo tempo desaparecer completamente.» (pois é, como eu gosto de me perder na multidão...)

«Quando me encontro num ambiente em que posso ter a ilusão de ser invisível, sinto-me muito bem.» (eu também...) 

«Dantes os escritores realmente populares, ninguém sabia quem eram, pessoalmente. Eram só um nome na capa e isso dava-lhes um fascínio extraordinário.» (esta frase fez-me pensar como tudo mudou. E também me lembrei que isso também acontecia na rádio, onde as pessoas eram mais "vozes que rostos"...)

Por ser o livro sobre "Um Eremita em Paris", não podia deixar de deixar por aqui, uma frase de Calvino sobre esta cidade singular: «Em Paris podemos sempre ter esperanças de encontrar o que julgávamos perdido, o passado nosso ou de outrem. A cidade pode ser um gigantesco serviço de perdidos e achados.»

Não há nada como os livros e os filmes para nos transportarem para "outras ruas" e fazer pensar que o mundo pode ser uma coisa diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, outubro 25, 2023

O jornalismo livre é outra coisa...


É cada vez mais fácil manipular as notícias, misturar factos com mentiras, ou seja, enganar as pessoas comuns.

Pessoas comuns que começam a fugir dos telejornais e dos programas de informação, por terem a sensação de que andam por ali em volta todos os interesses, menos os seus. Até por existir cada vez mais opinião e menos notícias. E normalmente a opinião que nos é oferecida não é inocente, serve na maior parte das vezes os interesses partidários ou corporativistas, cada vez mais enraizados na nossa sociedade...

É também por isso que não deixa de ser curioso que o pequeno responsável governamental que durante o cavaquismo mais tentou pressionar e direccionar a comunicação social (especialmente a RTP...), seja hoje "vendido" como o "supra-sumo" dos comentadores políticos televisivos...

A desculpa da existência das "redes sociais", não cobre todo este manto cada vez mais negro...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 24, 2023

A ONU cada vez mais "banalizada" pelos interesses das grandes potências...


Nem Putin tinha ido tão longe como foi agora o representante do Israel na ONU, que entende que defender a paz e as vidas humanas dos palestinianos que moram em Gaza, é estar ao lado dos terroristas do Hamas. 

António Guterres não tem poder mas não se deixa silenciar, e ainda bem. Mas é triste assistir a todo este vazio, que se foi instalando em volta da Organização das Nações Unidas, que tem cada vez menos peso efectivo no Mundo, em questões tão importantes como a paz entre as nações, os direitos humanos ou o respeito pela defesa do ambiente.

Isto só acontece porque as grandes potências mundiais (EUA, Rússia e China) sempre se preocuparam mais com os seus interesses particulares que com os interesses de todos nós. Conseguiram banalizar a ONU, que há muito deixou de cumprir o papel para a qual foi criada, após a Segunda Guerra Mundial.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 23, 2023

A ciência de se saber sair e de se saber entrar...


O Metro já circula em Almada há demasiados anos, tempo mais que suficiente para que as pessoas percebessem que, só depois de toda a gente sair das carruagens, é que se deve entrar.

Mas continua a ser sempre a mesma "cegada", com choques perfeitamente evitáveis e algumas "bocas" desnecessárias de parte a parte.

Talvez estes utentes precisassem de ser "educados" como as pessoas que em Lisboa apanham o Metro, diariamente, e que nunca se colocam em frente da porta, ocupam sim, os espaços laterais. 

Provavelmente sabem o que é ser-se levado numa "enxurrada de pessoas", que é o que acontece nas saídas das carruagens nas estações mais movimentadas, em hora de ponta (sim, em hora de ponta é impossível alguém entrar antes das pessoas sairem...).

Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, outubro 22, 2023

Parece que é desta...


Parece que é desta, que os calções vão ficar, finalmente, dobrados na gaveta do roupeiro.

Estamos quase no fim de Outubro. Cada vez o frio chega mais tarde, assim como a chuva, que ataca forte, embora só apareça de longe a longe...

Fingimos que não percebemos o que anda por aí, muito menos mudamos de hábitos...

(Fotografia de Luís Eme -Almada)


sábado, outubro 21, 2023

Quem não quer uma "Vida (mais) Justa"?


Mesmo que o tempo não fosse o mais convidativo, a verdade é que hoje era dia para sairmos quase todos para a rua.

É mais que legitimo queremos uma vida justa, querermos que as coisas, todas, sejam mais bem distribuídas, como o foram na parte final do século XX.

Eram tempos em que o capitalismo fingia ser menos selvagem...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, outubro 20, 2023

Sem medo do mau tempo que se fazia sentir para cá e para lá do canal...


Ontem não era o dia mais recomendável para um daqueles encontros de amigos, que se encontram de longe a longe, para almoçar e confraternizar. Provavelmente foi por isso que aparecemos quase três dezenas, pouco temerosos com a Aline, mesmo sabendo que ela foi deixando marcas da sua passagem, de Norte a Sul.

O mais curioso destes convívios é nunca haver espaço para conversas tóxicas. Por alguns momentos esquecemos o pior da realidade e falamos apenas de nós, do que são e do que foram as nossas vidas, dando um relevo especial aos bons momentos que passámos juntos. 

São sempre agradáveis estas viagens no tempo, porque um lembra-se de um episódio, outro de outro, e daí a nada estamos todos a sorrir...

Sabemos que o passado não volta, mas mesmo assim, sabe-nos bem recordar os bons momentos que passámos juntos, e sentir que continua viva essa coisa boa a que normalmente chamamos, amizade.

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


quinta-feira, outubro 19, 2023

«Não. Não há qualquer ambiguidade.»


Perguntaram-me porque não digo o que realmente penso sobre esta ultima batalha entre o Hamas e o Israel. Chegaram a falar de ambiguidade.

Não. Não há qualquer ambiguidade.

Nunca houve.

Há sim, mais silêncio. Mais tristeza. E mais descobertas de culpas dos dois lados. Mas sem nunca esquecer que o único invasor é o Israel.

E por isso mesmo, sou contra os bandidos do Hamas e do Israel.

Da mesma forma que sou a favor das pessoas comuns, sejam elas Palestinianas ou Israelitas...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, outubro 17, 2023

«Obrigado pelo civismo»


Não gosto nada da ideia de viver num país do respeito, aliás respeitinho, como aconteceu com o salazarismo e marcelismo. Mas também não tenho qualquer vontade de ser, mais um, num país que parece fazer gosto em manter bem viva a "ignorância atrevida", dando cada vez menos hipóteses ao ensino do civismo, tanto nas escolas como nos organismos públicos (sim o civismo ensina-se, através de palavras e de exemplos...).

O último exemplo estranho que tive aconteceu na segunda-feira, em frente do edifício da Segurança Social de Cacilhas, que fica numa avenida larga (e com um passeio também largo...). As pessoas em vez de formarem uma fila lateral, ocupavam todo o passeio, obrigando a quem circulava por aquele espaço a pedir licença para passar ou a ter de se deslocar para a estrada...

Quando passei pedi licença ao mesmo tempo que disse que deviam deixar um espaço para as pessoas passarem. Disse isto com a maior calma do mundo e sem qualquer sinal de irritação.

Assim que dei um passo em frente, houve alguém que soltou um "ooohhhhhh", que rapidamente se transformou em coro. Um homem mais atrevido virou-se para os outros e disse que eu devia pensar que "era o Presidente da República".

Com a mesma calma com que pedira para passar, agradeci aquele momento com um simples: «Obrigado pelo civismo.» 

O homem que me achou com cara de "Presidente da República", talvez com alguma surdez, quase que gritou «o quê?» E eu repeti, agora um pouco mais alto, parado no passeio, «obrigado pelo civismo.»

De um momento para o outro, baixaram todos os olhos e fizeram de conta que nada daquilo se passara e que eu não estava ali parado no passeio. 

Continuei a minha marcha, sem saber o que pensar daquela reacção colectiva, a um simples pedido, que achei fazer todo o sentido, dito sem qualquer arrogância.

Sei que isto é uma coisa muito pequenina, num mundo em que as pessoas se matam umas às outras, muitas vezes sem saberem muito bem porquê... Mas até as guerras, normalmente, começam por coisas pequeninas e sem qualquer sentido...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, outubro 16, 2023

A nossa Selecção de futebol, "à partida" e "à chegada"...


"À partida" quase que parece estúpido, sermos considerado o país com os melhores jogadores e treinadores do Mundo, e a nossa selecção ser treinada por um técnico espanhol.

"À chegada", a escolha parece ter sido a decisão certa, se olharmos para os resultados obtidos até agora (oito vitórias e zero derrotas e um apuramento directo para o Europeu) . 

Além disso havia o "problema Cristiano Ronaldo", que não teve o melhor dos comportamentos com a Selecção e com o ex-seleccionador, Fernando Santos, no Mundial (que ditaria o seu afastamento...). 

O seu futuro na "equipa de todos nós" era uma incógnita. Para muitos era "finito", para outros continuava a ser o mesmo Cristiano de sempre. A realidade diz-nos que nem é uma coisa nem outra... Não estava acabado, mas também já não era o mesmo jogador, por razões óbvias (o tempo não perdoa, mesmo aos melhores do Mundo..).

Ou seja, seria sempre problemático para um português resolver este último problema, ainda por cima, de uma forma tão conciliadora como Roberto Martinez o tem feito, até agora, sem beliscar o estatuto de Cristiano como "melhor jogador do mundo".

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


domingo, outubro 15, 2023

A "Dor e Gloria" de Almodovar


Embora seja difícil encontrar filmes de qualidade na televisão (repetem-se e repetem-se títulos, em todos os canais só de cinema...), reparei na terça ou quarta, que na noite de domingo para segunda a RTP1, tinha exibido o filme autobiográfico, "Dor e Glória", de Pedro Almodovar.

Acabei por ficar a ver e gostei bastante, por ser um filme diferente, com uma excelente interpretação de António Banderas, que faz o papel de Salvador Mallo, um realizador inactivo devido aos seus problemas físicos e psicológicos. 

A forma como são retratados - aliás, filmados - os seus dias, sem esconder ou "dourar" os dramas, valoriza bastante esta fita.

Felizmente podem-se fabricar "coincidências", tanto nos filmes como livros, que raramente a vida permite. Talvez a mais curiosa seja o desenho com dedicatória que fez várias viagens (sabe-se lá por onde), até que, passados cinquenta anos, volta, finalmente, às mãos de Salvador. Há também a peça de teatro descoberta por Federico (fala do amor conturbado entre ele e Salvador...), e um reencontro que acontece também vários anos depois, por um dos tais acasos, que às vezes (poucas) acontecem, nas nossas vidas...

Não deixa de ser um acto de coragem, o realizador espanhol, filmar-se a ele próprio, mesmo que use o António Banderas como o seu "alter-ego". 

Às vezes faz-nos falta ver filmes que retratam a vida tal como ela é, sem se utilizarem grandes artifícios ou truques cinematográficos.


sábado, outubro 14, 2023

A mesma profissão, universos diferentes...


Poucos minutos depois de sair de casa vi o homem com o táxi mal estacionado, a responder com buzinadelas monumentais aos que passavam por ele e também buzinavam (com toda a razão), por ele estar ali a interromper o trânsito, ocupando a faixa de rodagem.

Mas ele não se limitava a buzinar, insultava todos aqueles que lhe chamavam a atenção para o facto de estar ali a interromper a passagem. 

É apenas mais um exemplo da existência de demasiadas pessoas no espaço público, que fingem estar sempre certas, por mais disparates que façam.  Este homem tinha a agravante de exercer uma actividade que tem contacto directo com outras pessoas...

Felizmente depois de atravessar o rio, vejo um taxista calmamente entretido a dar comer aos pombos, enquanto não chegava a sua vez de transportar clientes.

Percebia-se à légua que embora tivessem a mesma profissão, viviam em "universos diferentes"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 13, 2023

Bairros com pessoas "embrulhados em jornais"...


Raramente compro um jornal coisa que fazia mais que uma vez por semana, antes da pandemia.

O "ter de ficar fechado em casa" habituou-me ao digital e... Quando o mundo tentou voltar ao normal, ainda comprei um ou outro jornal, mas não era a mesma coisa. Até porque eles tinham diminuído de tamanho (alguns pareciam ter metade das páginas...).

Mas não é sobre jornais que quero falar, embora tenha comprado hoje o "Público" (aliás eu comprei o "Ípsilon", o jornal veio atrás...). Comprei este diário porque a capa do suplemento tinha como título, "Sara Correia, o fado dela é o povo, é do bairro".

Ao começar a ler a reportagem sobre a fadista, senti que ela estava ali a falar do seu novo disco e também a lutar contra o estigma social que está colado a Chelas, o bairro das suas raízes lisboetas.

Cresci num bairro e nunca senti qualquer estigma, mesmo que não fosse uma "zona chique" das Caldas. Aliás, as ruas eram conhecidas por números (eu morava na "Rua 26"...). Provavelmente por ser um bairro de uma cidade de província ou por ser o lugar onde tive os meus primeiros amigos e onde se vivia normalmente.

Mas os bairros não são todos iguais, muito menos as cidades...

Aliás, nas cidades grandes há o hábito de despejar as pessoas "menos interessantes" (para cantos onde também parece não haver "nada de interessante"... que são normalmente feios. Deve ter sido um engano do caraças a construção do Bairro do Picapau Amarelo na Margem Sul, com aquela vista para o Tejo, que até causou "inveja" à presidente do Município...).

É por isso que compreendo a Sara. 

Eu que durante muitos anos só conhecia a expressão "pareces o comboio de Chelas" (para designar algo feio e estranho, sim havia raparigas que, segundo os entendidos, as suas caras pareciam o "comboio de chelas", vá-se lá saber porquê...), sem saber sequer onde ficava este bairro lisboeta...

(Fotografia de Luís Eme - Monte da Caparica)


quinta-feira, outubro 12, 2023

«Já reparaste que à medida que as pessoas se vão afastando da Capital, a sua pele começa a escurecer?»


Normalmente não atravesso a Ponte de comboio. Prefiro as viagens de Cacilheiro. Calhou. Aceitei a "boleia" do Rui que mora no Seixal.

Durante a viagem quase curta, conversámos sobre muitas coisas. E claro, olhámos as pessoas que nos rodeavam. Foi através destes olhares que ele disse: «Já reparaste que à medida que as pessoas se vão afastando da Capital, a sua pele começa a escurecer?»

Pode parecer uma frase crua, mas não foi dita com esse sentido. E, infelizmente, a cor da pele também se cola à pobreza, por muito que dela se tente escapar...

Claro que não é um problema português. Passa-se o mesmo nas grandes cidades europeias. Em Paris, Londres ou Madrid, também é assim...

(Fotografia de Luís Eme - Margem Sul)


quarta-feira, outubro 11, 2023

Já começam a cansar as "vitórias morais"...


Até acho bem que de vez em quanto a comunicação social descubra que existem mais modalidades desportivas no nosso país, além do futebol.

Mas isso não quer dizer que alimente ou concorde com todo este "foguetório" em volta da Selecção de râguebi ter vencido pela primeira vez um jogo num Mundial. Mais um bocadinho ainda é campeã de qualquer coisa, nem que para isso se vire a classificação de pernas para o ar.

Por já termos somado demasiados êxitos desportivos em várias modalidades, pensava que já tínhamos passado esta fase, mas parece que não. 

Pois é, percebe-se que ainda há por aí muita gente a delirar com as "vitórias morais"... A começar pelo Presidente da República.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, outubro 10, 2023

Guerra é Guerra (sempre com a estupidez humana em evidência)...


Quando os interesses convergem, esquece-se tudo, até a própria história e aquela que parece ser a verdadeira raiz dos problemas entre os povos.

Só desta forma é possível vermos um País invasor ao lado de um Povo invadido, e um País invadido ao lado de um Povo invasor...

Sei que se trata de uma linguagem demasiado simplista, mas é disto mesmo que se trata. Segundo as informações que vão chegando, Putin está ao lado do Hamas, da mesma forma que Zelenky está ao lado do Israel...

Pois é, não se trata de nenhuma novidade. Na guerra vale tudo. E quem morre em maior número são sempre os inocentes, quem não contribuiu, em nada, para a existência de conflitos armados entre países...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, outubro 09, 2023

Uma boa série e um livro com "falta de sal"...


Estou a ver o segundo episódio da série "Codex 632".

Provavelmente por ter algum preconceito com o "escritor-apresentador de telejornais", fico com a sensação de que a série é mais interessante que o livro. 

Isso também de deve à interpretação de Paulo Pires e ao facto de as coisas no cinema e nas séries serem sempre mais resumidas que nos livros. E também me parece uma série bem realizada, por Sérgio Graciano.

O mais curioso é que o "Codex 632" foi o único livro que li do José Rodrigues dos Santos. 

Foi suficiente para perceber o tipo de escritor que ele é, distante da "minha praia", onde o mar além de ser bastante vivo, tem voz e alma...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


sábado, outubro 07, 2023

Quando se consegue ver mais longe...


Há pessoas que têm mais facilidade em decifrar enigmas, por várias razões. Talvez a maior, seja a sua capacidade de "ver mais longe", não se limitar a olhar para o casario que fica em frente, penetrar pelos montes e vales que se prolongam até à linha do horizonte, que se perde com a ajuda de alguma nebulosidade, transformada em "grãos" nas fotografias.

É por isso que cito Bernardo Pires de Lima, que escreveu no já longínquo ano de 2014 (na revista "Ler" de Setembro), aquela que acho ser a melhor "explicação dos pássaros" sobre a Rússia e Putin:

«A Rússia não é, como eternizou Churchill, "uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma". É a mais previsível das grandes potências contemporâneas, aquela que antes de ser já era, que põe em prática o que escreve, que não avisa avisando, que revê a História porque dela se apropriou. A Rússia não é mais do que uma voluptuosa aristocrata com mão de ferro rodeada por uma imensidão de servos e aduladores. A terra é esmagadoramente asiática, mas a cabeça mergulha na continentalidade europeia. Acha-se humilhada, maltratada, espoliada, desprezada por quem já foi seu par nestas desventuras da geopolítica. Não assume as derrotas e procura uma glória passada sem pedir autorização. O excepcionalismo russo é paradoxalmente conservador e revisionista, angelical e brutal, metódico e impulsivo, manipulador e frágil. Vladimir Putin não é mais do que a sua maior síntese.»

Não é que ande à procura de definições sobre ditaduras e ditadores, mas quase que embati de frente neste texto e apetece-me partilhá-lo. Tem a virtude de ter sido escrito em 2014, quando tínhamos pouquinhos especialistas em guerra (sei que é quase uma piada sexista, mas não imaginava que havia tantas mulheres jovens interessadas em teorias e práticas belicistas...).

(Fotografia de Luís Eme - Beira Alta)


sexta-feira, outubro 06, 2023

De vez enquanto, acontece (e ainda bem)...


De vez enquanto acontece, sentimos que o "Prémio Nobel" faz sentido e premeia os nossos melhores, sem andar à procura de "desconhecidos", para baralharem os eternos candidatos.

Aconteceu na Literatura, Jon Fosse, um dos grandes criadores do norte da Europa, foi o escolhido, e sem surpresas. Não fosse ele um dos grandes dramaturgos e romancistas da actualidade.

Na Medicina também foram premiados dois dos grandes investigadores da área da saúde, a húngara Katalin Karikó e o americano Drew Wiessman, que em dez meses conseguiram desenvolver e conceber a vacina que nos ajudou a combater o covid 19.

E a Paz também não poderia ter uma melhor premiada, que a jornalista iraniana, Narges Mohammadi, neste momento detida no seu País, onde está a cumprir uma pena de dez anos. Grande activista dos direitos humanos e dos direitos femininos, já foi detida 13 vezes, condenada a 31 anos de prisão e a 154 chicotadas. É um prémio que lhe dará ainda mais força para continuar a acreditar que a sua luta vale a pena. E vale mesmo.

Ainda bem que as coisas, de vez enquanto, acontecem...

(Fotografia de Luís Eme - São Martinho do Porto)


quinta-feira, outubro 05, 2023

A Ética a Estética chocam mais vezes do que deviam (isso acontece mesmo nas pequenas coisas...)


Uma das coisas boas, que está quase sempre presente nas pessoas com menos instrução, é o seu raciocínio fácil (quase sempre próximo da "lógica", daquilo que na cabeça deles faz mais sentido). Em vez de construírem "castelos de areia", semeiam bens essenciais...

As questões do ambiente que enfrentamos não carecem de qualquer dúvida, nas suas cabeças, mesmo com os seus argumentos "terra a terra", banalizam as conversas de qualquer engraçadinho armado em negacionista. E isto, sem ser é preciso ir tão longe como a geração do meu avô, que achava que a ida à Lua, só nos iria trazer problemas no futuro...

Mas o que é queria falar era de uma coisa ainda mais simples, no aproveitamento da água que se pode fazer nas nossas casas. Nós, por termos uma pequena hortinha, há muito tempo que aproveitamos a primeira água do duche, que sai fria. O único cá de casa que não se dá a esse trabalho é o meu filho, que nem sequer gosta de ver um garrafão com água no interior da casa de banho...

Pois é, até nestes casos pequenos a ética choca com a estética... A ética diz-nos que devemos desperdiçar o mínimo possível de água, que é cada vez mais um bem indispensável e finito em todo o Planeta, a estética diz que um garrafão de plástico não combina bem com o mobiliário da casa de banho...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, outubro 04, 2023

A rua também é dos jovens...


Pode ser a minha "costela" anarquista" a fazer das suas, ou até alguma nostalgia da rebeldia da juventude, mas prefiro ver os jovens a fazer disparates nas ruas (e até a atirarem tinta a ministros, mesmo que esta seja mal empregue, bosta de vaca fresquinha tem mais a ver com eles...), que vê-los ausentes, fechados nos quartos a jogarem no computador aos gritos ou demasiado silenciosos, a darem "voltas ao mundo" com o telemóvel.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, outubro 03, 2023

«Claro que é mania. Mas é uma mania que não faz mal a ninguém.»


Há profissões que são mais marcantes que outras. Além de nos preencherem quase a tempo inteiro, têm uma interaçcão social muito mais forte e mais marcante que outras. 

Por breves momentos até nos levam a pensar que "podemos mudar o mundo", torná-lo ligeiramente melhor... Mas são apenas momentos.

Mesmo assim não devia ter dito que há profissões que "são para sempre", e que jornalista era uma delas. Soou a presunção. Mas não foi nada disso. Foi por isso que fingi concordar, quando o Rui me disse que isso era mania e respondi: «Claro que é mania. Mas é uma mania que não faz mal a ninguém.»

Talvez até exista vaidade quando se diz estas coisas. Lembro-me que fui fuzileiro e que também havia a "mania" de se dizer "fuzileiro uma vez, fuzileiro para sempre". Era algo que nos deixava orgulhosos a espaços e fazia parte do espírito de corpo, que deve estar sempre presente nos grupos especiais.

Dentro do cacilheiro fiquei a pensar que ainda bem que existem profissões que nos fazem sentir estas coisas, mesmo que sejam uma minoria. A maior parte das profissões são "ocupações das nove às cinco", cuja rotina destrói qualquer réstia de orgulho que possa existir naquilo que fazemos.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, outubro 02, 2023

Pois é, o que seria da vida sem a poesia?


Ao contrário dos livros, os filmes conseguem sobreviver, mesmo com uma história fraca. Mas para que isso seja possível têm de ter bons actores, uma boa banda sonora e um excelente director de fotografia.

Um bom actor, só com a sua presença, pode encher o écran (ou o palco...), nem precisa de falar, basta movimentar-se e olhar... mesmo que seja para sítio nenhum.

A música também pode ser decisiva, só precisa de se colar às imagens como se fossem apenas uma coisa... E é aqui que também entra o director de fotografia.

Claro que se trata de uma mera opinião pessoal. Talvez demasiado poética, mas o que seria da vida sem a poesia?

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, outubro 01, 2023

O País das "portas abertas"...


Portugal deve ser um dos países onde se entra com mais facilidade, pelo menos por terra e mar. É provável que nos aeroportos exista um maior controle, de entradas e saídas.

Isso explica o porquê, de cada vez me cruzar mais com estrangeiros, tanto nas ruas de Almada como nas de Lisboa (sem terem ar de turista). A maior parte são oriundos do Brasil e das Índias (sobretudo paquistaneses e nepaleses).

Não sabia é que havia tantos imigrantes a viverem nas ruas. Já tinha visto uma reportagem sobre uma grande quantidade de asiáticos toxicodependentes, que viviam nas ruas da Capital, mas não fazia ideia que este problema social tinha atravessado o rio.

Na noite de sexta-feira passei pela Praça Gil Vicente (na fronteira entre Cacilhas e Almada) e cruzei-me com três grupos de jovens (entre os 20 e os 30 anos, que ocupavam espaços diferentes. Passei próximo de um deles e reparei que além de terem nas mãos várias garrafas de álcool, sentia-se que fumavam "ervas aromáticas". E pelo ar descontraído, e até desmazelado, percebi que deveriam estar a contar passar a noite por ali.

Isto acontece porque normalmente não são incomodados por ninguém. Os moradores, desde que eles não sejam barulhentos nem provoquem danos nas suas casas e viaturas, não irão telefonar para a polícia. Polícia essa que se sente, naturalmente, mais confortável no interior da esquadra que nas ruas...

A caminho de casa, fiquei a pensar que ninguém deve fazer ideia da quantidade de imigrantes que existem no nosso país. Pensarão num número próximo do meio milhão e este será no mínimo o triplo...

Mas talvez eles estejam certos. E o melhor é mesmo não sabermos o verdadeiro número de imigrantes. 

A única coisa que sei é que pelo menos nas ruas de Almada, eles já parecem ser em maior número que os almadenses...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)