Há uns anos foi pública a morte de um antigo actor, abandonado e esquecido num pequena tenda, que foi a sua "última casa".
Na semana passada cruzei-me nas ruas de Almada, com um actor que aparecia na televisão dentro das telenovelas, com a barba por fazer e a roupa amarrotada. Fiquei a pensar que, talvez estivesse a ser obrigado a fazer o papel mais ingrato da sua vida...
Quando contei este episódio a um amigo, que tem uma outra vida dentro das redes sociais, contou-me a história deste homem dos teatros, que devia ter mais ou menos a nossa idade. A parte das mulheres, dos filhos e dos enteados, ou das dependências, seria notícia em algumas revistas, mas eu prefiro ir ao mais importante...
Numa altura em que se discute, mais uma vez, a lei dos arrendamentos no Parlamento, com os governantes a focarem a sua atenção nos problemas dos senhorios e quase a dizerem, "quem for inquilino que se lixe", o seu exemplo acaba por ser uma banalidade. Sim, o normal dos últimos dez anos, é as pessoas com ordenados baixos serem obrigadas a refazer as suas vidas e deixar Lisboa, mudando-se para o Feijó, a Arrentela, o Cacém ou a Reboleira...
O mais curioso desta história, foi o meu companheiro de mesa achar, que no meio disto tudo ele até era um sortudo. Porque, graças ao irmão, que sempre foi campista, em vez de se ter de mudar para uma tenda ou vão de escada, passou a viver na roulote deste, que faz parte do material fixo de um dos parques da Costa de Caparica, há vários anos.
Quando toda a gente está preocupada com um sujeito que usa sapatos e ténis de marca, para esconder os seus "pés de barro", viaja de jacto particular e tem mansões espalhadas por todo o lado, eu tinha logo de vir para aqui com um exemplo banal e manhoso, de quando a vida se torna um processo lento e agonizante de "desintegração social"...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)







