terça-feira, outubro 27, 2026

A pergunta que me apetece fazer: "Não somos todos poetas menores?"


Foi esta a pergunta que sobrou, depois de ler o livrinho de poemas, "O Menino que via passar os comboios - e outros poemas menores", de Manuel Alberto Valente.

Comprei o livro porque achei o título delicioso. Depois de o ler, em parte, sinto-me enganado. Pensava que ia ver mais comboios a passar pela vida do Manuel dentro das suas palavras...

Mas enganado não é arrependido. Este pequeno livrinho (o tamanho é estranho...) tem poemas muito bonitos, especialmente os de e com amor (não os contei, mas são muitos).

O título deste pequeno texto é provocatório, porque se há alguém que sabe como se constroem "escritores e poetas imortais", é um editor com provas dadas, como é o Manuel Valente. Aposto que ajudou muitos escrevinhadores a tornarem-se grandes, apenas com o uso de sapatos com tacões de meio metro...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


segunda-feira, outubro 26, 2026

O país das falsas questões e das não decisões...


No futebol há uma expressão que diz muito sobre sermos melhores a destruir que a construir, que é o vulgar "chutar para canto".

Também é muito normal discutirmos o acessório e deixarmos o importante quase sempre para trás, como se vê com os problemas da habitação, que acabam por ter interferência em quase tudo das nossas vidas. Em vez de se falar da nova lei do arrendamento (que espero que seja metida na gaveta pelo governo...) e da falta de casas, fala-se do direito à manifestação, da violência policial ou da pernoita em tendas...

Pior é sermos o país em que os governos (quase todos são bons a não tomar decisões e a culpar os outros pelos seus próprios erros...) adiam a resolução dos problemas mais prementes, até estes se tornaram verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento do país ou mesmo dramas sociais...

A construção de um aeroporto arrasta-se há pelo menos quatro décadas. O mesmo se passa com o comboio de alta velocidade. E nem vale a pena falar dos hospitais públicos necessários que não se construíram próximo dos principais centros urbanos... e que em alguns casos já foram substituídos por unidades de saúde privadas.

O nosso normal dos políticos é prometer e não fazer.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, outubro 25, 2026

Coisas que não são normais (por muito que as tentem normalizar...)


Não é normal é que uma boa parte dos nossos políticos com funções executivas, continuem a pensar que a sua função é sobretudo teatral, é mais de falar a fingir, que de resolver os problemas das suas terras e das gentes. Ser presidente de Câmara ou Ministro é muito diferente de ser deputado, para quem basta (muitas vezes) esconder-se atrás da oratória.

Não é normal que as polícias não percebam qual é o seu principal dever, mesmo que a "segurança" esteja na sua sigla. Sim, o primeiro dever de um agente da autoridade é proteger e garantir a segurança das pessoas e não intimidá-las ou agredi-las, como parece ser a vocação e vontade de muitos polícias na actualidade.

É urgente que, tanto os políticos como os polícias, percebam de uma vez por todas as razões da sua existência, qual é a sua verdadeira função social e política.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)  


sábado, outubro 24, 2026

A forma como olhamos para os problemas sociais é sempre ideológica


A forma como olhamos para os problemas sociais é sempre ideológica. 

Por mais voltas que dêem, existe um olhar da esquerda e um olhar da direita, perante tudo aquilo que nos rodeia e faz parte das nossas vidas. E é um olhar que continua a divergir nos pontos essenciais das nossas vidas.

Sei que é normal que quem tem um bom emprego, uma boa casa, um bom carro, esteja pouco preocupado com os problemas diários de quem - mesmo que tenha andado na universidade -, tenha um ordenado quase nivelado pelo salário mínimo e não consiga encontrar, por exemplo, uma casa com uma renda que seja possível pagar todos os meses...

Tentar passar ao lado destas questões é possível para o cidadão que vive no seu condomínio fechado, mas nunca para um político, seja ele de direita ou de esquerda. Até porque é completamente insustentável fingir que não existem problemas, quando eles estão mesmo à frente dos nossos olhos. Chamar "arruaceiros" ou "egoístas" a quem se manifesta, com vontade de não resolver coisa nenhuma, ainda expõe mais ao ridículo quem as profere...

Mas quem tenha um sentido humanista, e pense que o mundo é de todos, e para todos, mesmo que viva com conforto (a esquerda não tem de ser de e para "pobrezinhos" ou "maluquinhos"...), não se esquece de olhar para o lado e de defender a existência de um estado social.

Eu sei que também existe o centro, mas este é um espaço especial, que continua a estar guardado para aqueles que "não têm nada que ver com os assuntos" e que preferem ficar à espera que sejam os outros a lutar e a tentar resolver os seus problemas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 23, 2026

O lucro fácil e rápido (como de costume) é o "pai e a mãe" da crise da habitação


Não deixa de ser curioso, tenho lido e ouvido tanta gente a falar sobre a "crise da habitação", sem que falem dos verdadeiros responsáveis (que entretanto se transformaram nos famosos "fundos", mesmo que estes sejam dirigidos pelas mesmas pessoas de sempre...).

Há quem viva e trabalhe sempre com a cabeça fixa no dinheiro, ou seja no lucro fácil e rápido. Esta gente quando percebeu que estava a nascer um novo mercado, virado para o exterior, graças ao aumento do turismo, conseguiu direccionar a construção de novas habitações para este novo nicho de mercado, aumentando de uma forma substancial o seu valor.

Ou seja, nos últimos dez anos, praticamente só se construíram "casas de luxo", apenas ao alcance da classe média alta e de estrangeiros com dinheiro (bem ditos vistos dourados...), num acordo tácito entre as agências imobiliárias, empresas de construção e a banca (muitas vezes pertencem aos mesmos accionistas).

A classe média baixa e os pobres ficaram fora do mercado, ao mesmo tempo que viam subir as rendas das suas casas, nos bairros lisboetas (com a ajuda da "lei cristas"). 

Quem conseguiu arranjar casa em zonas mais afastadas, com rendas acessíveis, mudou-se. Quem não tinha ordenado suficiente, foi ajudar ao ressurgimento dos bairros de lata (que se pensava ter sido extinguido começo da década de 90 do século passado), nos concelhos próximos de Lisboa (com particular incidência em Almada, Amadora e Loures...).

Embora os governantes locais e nacionais sejam bons no habitual jogo do "passa culpas", têm grandes responsabilidades no que se tem passado, O PSD, o PS e o CDS (que ainda tem o desplante de chamar arruaceiros aos jovens que "abriram os olhos" a muita gente, que fingia que não se passava nada...) estão directamente ligados ao problema. Até porque muitos deles lucraram com tudo isto nas autarquias, sem gastarem um tostão, graças às licenças de construção e ao IMI...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, outubro 22, 2026

Misturar as coisas e confundir tudo é a solução do costume para que não se resolva coisa nenhuma...


Além do "passa culpa" do costume, faz-me muita confusão que se tente misturar e confundir tudo, ao ponto dos partidos da direita (Chega e CDS) até se aproveitarem de quem fala português do Brasil nas manifestações, para meterem os estrangeiros como protagonistas de todo este ruído...

Basta andar pelos bairros antigos de Lisboa, para perceber o que mudou nos últimos anos na sua caracterização habitacional. Na sexta feira passei pela Lapa e depois desci pela Madragoa. Quando passei por algumas ruas, porta sim porta não, descobria residências de alojamento local. Em Alfama e Castelo, passa-se a mesma coisa.

Mesmo bairros com a Graça ou Campo de Ourique, embora não tenham enfrentado esta "pandemia" do negócio residencial, cresce cada vez o número de habitantes naturais de outros países, porque são os únicos que conseguem alugar ou comprar casas...

Como nos concelhos limítrofes da Capital, que têm acolhido a maior parte das pessoas que trabalham, mas não conseguem viver em Lisboa, não se tem construído as casas necessárias,  para fazer face a este aumento de população, o problema foi-se agravando ano após ano.

Espero que desta vez os autarcas de Almada, Amadora, Odivelas ou Loures, sigam o exemplo do Isaltino (mesmo que ele exagere no autoelogio...), invistam nos seus concelhos e construam casas de rendas acessíveis, em vez de assobiarem para o ar - ou ficarem à espera que o governo central lhes resolva os problemas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, outubro 21, 2026

O rasto deixado pelo "rabo de palha" e o "fantasma que aparece ao espelho"...


Cada vez que vejo na televisão o ministro da Administração Interna a valorizar o papel das autoridades e a dizer que toda a gente tem de cumprir a lei, penso logo no seu passado recente. Não consigo deixar de o ver a virar as costas aos jornalistas e deixar atrás de si o rasto dos seus "rabos de palha"... mesmo com os olhos fechados.

Foi por isso que ao ler o que o João Pedro Henriques escreveu hoje no "Expresso", identifiquei-me completamente com as suas palavras.

«Faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Nem é preciso dizer mais nada. Ontem, se dúvidas houvesse, ficou esplendorosamente à vista do país inteiro o que representa neste momento ter alguém como Luís Neves à frente do ministério da Administração Interna. Sendo certo que a polícia lhe cumpre ainda as ordens, é ainda mais certo, perante o país inteiro, que Luís já só é um fantasma ao espelho: como não se consegue ver, imagina-se.»

Eu sei que para Montenegro a função de governante, é muito pouco exigente (é quase para qualquer um...), mas é penoso ver ministros a fazerem o papel de "moralistas de pacotilha"...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


terça-feira, outubro 20, 2026

«Cuidar de pessoas é muito diferente de tratar de flores»


Num tempo normal, não haveria coragem para se dizer, usando outras palavras, que o filho do jardineiro nunca poderia ser médico. Quanto muito, podia-se pensar...

Todos sabiam que «cuidar de pessoas é muito diferente de tratar de flores», mas daí até fechar a faculdade de medicina aos filhos dos pobres, quase que se tinha de voltar à Idade Média...

O mais curioso é percebermos que estes pensamentos nunca saíram da cabeça de quem abomina a democracia e gosta da desigualdade e da compartimentação social, até a loucura chegar à América. Havia o cuidado de os "fechar a sete chaves", porque ninguém gosta de ser apelidado de "fascista", nem mesmo os nazis ou salazaristas...

Agora com a existência de um partido da extrema-direita, que é tudo e nada ao mesmo tempo, já se sentem mais confortáveis a "pôr a boca no trombone"...

No dia seguinte ainda houve a tentativa de desvalorizar as palavras do doutor, com o argumento de que estava bêbado.

Não foi suficiente. O jardineiro não voltou a cuidar daquele jardim...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, outubro 19, 2026

Só o Montenegro é que ainda não percebeu que o pais onde vive, não é o mesmo onde vivem a maior parte dos portugueses...


O país de Montenegro, continua a ser o país do "faz de conta", onde todos devemos fingir que tudo nos corre às mil maravilhas. 

E não nos podemos meter em aventuras, muito menos cantar uma das canções mais populares do Sérgio Godinho, "só há liberdade a sério, quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação". Porque as nossas escolas, hospitais, casas e a alimentação, recomendam-se.

E por isso mesmo, os jovens portugueses, que não pensem, sequer, em imitar os "bandidos" da França, de Espanha, e imaginem só, da Albânia...

E que não se esqueçam, que temos uma polícia que gosta de bater quando está em vantagem, seja nas ruas ou nas esquadras...

Pois é, o feitiço de vez em quando vira-se contra o feiticeiro, por mais óleo que coloquem na "máquina da propaganda"...

O problema é Montenegro não querer perceber, que o país onde vive, não é o mesmo onde vive a maior parte dos portugueses...

E se é isso, o melhor que tem a fazer é arrumar a trouxa e "zarpar"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 18, 2026

A frieza das palavras está quase sempre mais perto da realidade que o calor (ou a vida como ela é)...


Sim, é verdade. A frieza das palavras está quase sempre mais perto da realidade que o calor, por muito que nos possa perturbar e irritar.

Voltaram a falar-me do "Largo", para me dizerem que o título do meu último texto aqui publicado era um exagero.

Preferia que comentassem o texto e eu dava a resposta no local certo. Mas há gente que continua a ser avessa a dizer o que pensa na "caixa" (alguns ficaram traumatizados com o "facebook" e outros preferem a "conversa directa"...).

Foi por isso que voltei a dar uma olhadela ao texto e ao título. Num primeiro olhar, pareceu-me rude e insensível. Num segundo, senti que as coisas são mesmo assim. Quando se esquecemos de usar "paninhos quentes" no meio das palavras, tudo soa mais a desumano, mas é apenas a vida como ela é...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, outubro 17, 2026

«Não há uma medida para dar e levar porrada no calor das manifestações»


Era difícil passar ao lado da luta de rua, que tem tido o Porto como epicentro, para o bom e para o mau.

O protesto de Lisboa de hoje tinha uma boa frase, para começo de festa: "Não consegues pagar a tua renda? Então monta a tua tenda".

O ponto alto da conversa foi a nossa qualidade de "importadores" (parece que não temos idiotas suficientes, tanto para fazer programas de televisão originais, como para nos manifestarmos...). Claro que os protestos em Espanha e a França, transmitidos de forma tóxica (como quase tudo o que hoje é televisionado...), fizeram com que alguns jovens andassem a pedir tendas emprestadas e a descobrir as que os país guardavam na garagem, para participarem na festa...

O Rui falou das primeiras tendas que apareceram por Lisboa, que começaram por falar inglês, montadas por estrangeiros que ficavam sem dinheiro e começaram a acampar em qualquer lugar (com a passividade das autoridades...). Mas já deve ter sido há mais de cinco anos. Acabaram por proliferar, transformando os "sem-abrigo" em campistas urbanos... Também deve ter sido uma "importação" de cidades como Paris, Barcelona ou Londres...

E depois vieram as bastonadas. Não houve ninguém que criticasse a violência policial, de uma forma veemente.

O Carlos disse quase tudo numa frase, um pouco mais longa que o costume: «Não há uma medida para dar e levar porrada no calor das manifestações.» concluindo: «Quem não quer levar nenhum encontrão, fica em casa...»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 16, 2026

«Chegar atrasada não é faltar!»


A subida da rua Emília Pomar invertera-se e agora era descida, para quem deixava o bairro em direcção ao centro da cidade.

Uma mulher que ia mais apressada, ganhava vantagem em relação à meia-dúzia de pessoas que seguiam na mesma direcção. Foi quando uma das vizinhas, que seguia a passo quase lento, com todo o tempo do mundo para beber o primeiro café da manhã na esplanada, povoada de gente, que ainda gostava de conversar e de ler o jornal em papel,  lhe lançou quase um grito, afirmativo, para a acalmar:

«Chegar atrasada não é faltar!»

Como coleccionador de frases do quotidiano, gravei de imediato aquelas palavras, com a certeza de que nunca as escutara, mesmo que não tivessem nada de especial. 

Sim, eram uma daquelas evidências, que até deviam constar na lista do senhor das palissadas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)