quarta-feira, fevereiro 25, 2026

A sensação de ter perdido algumas palavras pelo caminho...


Quando escrevo tenho a sensação de que o meu vocabulário está a ficar mais incompleto, que há uma ou outra palavra que ficou perdida no caminho...

Recorro mais ao dicionário (devia dizer aos...) e ao "senhor google", que por muito que disfarcemos, é um grande "inteligente artificial".

Talvez exista um limite de idade para escrever...

É quando me aparece o exemplo do nosso Nobel, que publicou o "Memorial do Convento" aos sessenta anos e foi galardoado com o prémio sueco com setenta e seis anos de idade...

Depois do "Memorial" foi escrevendo obras como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1987) ou o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991), que tanta polémica deu, ao ponto de ele se exilar de forma voluntária em Lanzarote...

O mais provável, é esquecermos umas palavras e encantarmo-nos com outras...

Também sei que o ritmo da escrita diminui, com a mesma naturalidade que nos aparecem os primeiros cabelos cinzentos ou as dores que se vão tornando crónicas...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


terça-feira, fevereiro 24, 2026

A nossa convidada disse coisas que normalmente não diz e nós também dizemos coisas que normalmente ficam fora das nossas conversas...


Vinha para casa e comecei a pensar que talvez nos achemos demasiado importantes para estar a falar da telenovela da noite, à mesa da esplanada do café (olá camarada Sol)... 

Ou não. Muitos de nós estão de tal forma viciados em documentários e notícias, que evitam mesmo o seriado duplo ou triplo das televisões "rainhas" das audiências. Outros preferem a distracção e o humor dos "podcasts". Há ainda outros que preferem ir ao cinema dentro de casa, ou então ver "cinquenta episódios" seguidos da série da moda.

Telenovelas é que não vêem, é coisa para velhos ou donas de casa...

Chegou aquela mulher disse boa tarde e abancou, quase sem pedir licença (só depois é que percebemos que era a "nova amiga" do Rui).

Uma das primeiras coisas que disse foi que ia estrear uma novela que devia ser boa, cheia de "Páginas da Vida". Olhámos uns para os outros, sem saber o que dizer, como se de repente ficássemos fora de pé e todos nadássemos pessimamente.

Foi coisa de segundos. De um momento para o outro, já estávamos a falar de namoros de revistas, de pessoas de plástico e de outras cheias de plásticas. A coisa até se tornou divertida, embora fugisse ao tom habitual.

Mas a melhor frase da convidada ainda estava para vir, quando ela salientou uma das nossas diferenças: os homens somam mulheres ao seu currículo e as mulheres subtraem homens da sua conta pessoal.

Acabámos todos a sorrir. 

Ela foi a última a chegar e a primeira a partir. E não deixou de ser uma agradável surpresa, por nos conseguir levar para outras conversas. 

O mais curioso foi o Rui começar a desculpá-la, tentando dizer-nos que ela normalmante não é assim, não diz aquelas coisas, etc. Como se isso tivesse alguma importância... Nós, normalmente também falamos de outras coisas. E nem soube mal de todo "mudarmos de rua" e fazermos quase uma vénia à Dona Lili...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, fevereiro 23, 2026

"Bilhete-postal" para um amigo...


Sei que devia conversar, olhar-te nos olhos, em vez de estar a escrever este "bilhete-postal".

Até porque não acredito que tenhas mudado assim tanto, ao ponto de teres viajado para o planeta do Trump e do Ventura, sem levares bilhete de regresso. Faz-me confusão que acredites que o mundo agora é uma mentira e que vale tudo para "lixar o próximo".

Por muito desiludido que possas estar com os nossos políticos incompetentes e corruptos (eu sei que são mais de meia dúzia...), não podes pensar em os substituir por uma coisa pior: populistas especialistas em "cantos da sereia" e "cantigas do bandido", que dizem sempre o que queres ouvir, em especial quando estás farto de tudo e de todos. Cansado de ser enganado e de ver gente que está interessada em tudo, menos em resolver os teus problemas.

Podia dizer-te para olhares para os Estados Unidos.

Mas já não é preciso atravessares o Atlântico, começas a ter muitos exemplos de que esse partido onde votas não passa de um "antro de bandidos". E nem é preciso colocar o foco nos ladrões de malas ou nos pedófilos. Agora que se chegaram ao poder, já começaram a oferecer "tachos" (e panelas), às namoradas, irmãs, tias e primas, porque seguem à letra a frase mestra dos políticos de sarjeta: "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço".

E depois há a parte que eles tentam esconder (mesmo que o seu "rabo gigante" fique sempre de fora...), a ideologia. De vez enquanto lá aparecem os "três salazares", assim como a tentativa de tapar "Abril" com "novembro", que é sempre demasiado pequeno e curto, para apagar esse dia inesquecível que nos devolveu a liberdade e a democracia.

Nota: texto publicado inicialmente nas "Viagens pelo Oeste", dirigido a um amigo caldense...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, fevereiro 22, 2026

O encurtamento da estrada da liberdade...


Nos últimos anos, mesmo os países que se dizem democráticos, têm tido o cuidado de ir colocando limites nos caminhos da liberdade.

É por isso que hoje temos de ter mais cuidado com o que dizemos e com o que escrevemos (as redes sociais e os anonimatos não contam, claro...).

Está sempre alguém escondido na esquina, preparado para retirar as nossas frases do contexto e fazer acerca delas "um filme" diferente, daquele que era nosso.

E se pensar de forma oposta, é mesmo capaz de ver coisas, que nós, autores dos textos ou palestrantes, nunca escrevemos ou dizemos.

Isto até se percebe, porque sempre foi mais fácil de levar pelos campos um "rebanho de carneiros", que um conjunto de "ovelhas tresmalhadas". Mas não explica que países que se dizem democráticos (EUA é o maior exemplo) governem cada vez mais como ditaduras...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


sábado, fevereiro 21, 2026

Claro que há sempre alguma coisa que se pode fazer...


A ideia quase inocente - e poética - de que tornar o mundo melhor só depende de nós, às vezes faz-me sorrir, outras dá-me cócegas.

Nem tudo é mau, até porque além de me fazer sorrir e coçar, também me faz pensar, e até escrever...

Ter dezoito ou dezanove anos é bom, entre outras coisas, por nos dar uma capacidade de sonhar, quase até ao infinito. 

E continua a ser boa ideia continuarmos a acreditar no poeta, que nos diz que "sonhar é uma constante da vida". Basta olhar para trás para perceber que muitas coisas boas que nos aconteceram, nasceram de sonhos...

Ao contrário do que os espertalhaços deste tempo pensam, ser inocente, nunca foi sinónimo de parvo.

E claro que sim, há sempre alguma coisa que se pode fazer, para tornar esta quase bola onde habitamos, numa coisa melhor, mesmo quando já se tem oitenta anos...

Talvez a mais importante seja olharmos para trás com olhos de ver, não termos medo do passado. É ele que nos ajuda a "ver melhor" e a não cometer o mesmo erro, mais que duas vezes... 

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Cartazes quase bonitos...


É fácil dizer que tudo pode começar com simples gestos, como aquele de deixar o lixo bem acondicionado nos caixotes e não do lado de fora. E se for através de papeis e imagens, ainda custa menos...

Penso sempre que todas estas "mensagens" deviam ter um antes, com as pessoas que têm o poder de mudar alguma coisa, a descerem do "andar mais alto" para a rua. Não há nada como olhar de perto para tudo aquilo que nos cerca, a panorâmica muda imediatamente. Ver  "lá de cima" (mesmo as desgraças alheias, é sempre diferente...). 

E há imagens terríveis, que conseguem oferecer poesia ao trágico, mesmo quando não devem...

Talvez este seja o tempo de a maior parte dos políticos, deixarem de o ser, a "fingir", de pensarem que a sua verdadeira função é tentar resolver os problemas dos seus concidadãos, que vai muito para além da afixação de cartazes por toda a cidade, que normalmente não resolvem "porra nenhuma".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, fevereiro 19, 2026

A falta de "tempo" para mudar...


De repente, o mau tempo que veio do Atlântico, ultrapassou tudo e todos (até o IPMA...).

Sem estarmos à espera, destapam-se todas as nossas fragilidades, comuns à maior parte dos países, mesmo aqueles do primeiro mundo.

Sim, o Japão e os EUA, apesar do seu poderio económico não conseguem "fintar" a natureza, muito menos, domesticá-la...

Estão sim, melhor preparados, mais habituados, mais "maquinizados" para agir no minuto seguinte...

Raramente ficam paralisados, sem saber qual o próximo passo a dar, muito menos demoram uma semana a reagir...

O mais curioso, é que não é por isso que eles mudam os seus hábitos. Nem tão pouco abandonam as suas casas destruídas, que continuam a ser feitas quase de "papel". 

Por aqui as coisas são diferentes. O vento não nos levou as segundas e terceiras habitações. E quando se fazem contas, são poucos os que podem e conseguem mudar... 

As nossas fragilidades não são apenas físicas e mentais. Há a parte principal, a falta de um lugar menos exposto e que esteja à nossa espera... 

A falta de "tempo" para mudar.... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Sim, fala-se menos e escreve-se mais (coisas curtas e grossas)...


Falámos sobre falarmos menos uns com os outros, em todo o lado, em casa, no trabalho, nas ruas.

Reparámos que até nós falamos menos uns com os outros. Desculpámo-nos com o Inverno que este ano decidiu ser um Inverno a sério, com todo o tipo de tropelias. Até obrigou a recolher as duas ou três esplanadas que fazem parte dos nossos roteiros... Bebemos café ao balcão porque detestamos o interior dos cafés e pastelarias com temperaturas de Verão e ofertas simpáticas de vírus de gripes de várias cores.

O Carlos continua a ser o nosso "farol". Só ele mesmo para dizer que: «Fala-se menos para escreve-se mais. Daquelas coisas curtas e grossas que cabem dentro dos telemóveis, que tanto nos podem "derreter" como deixar furibundos.»

É verdade. Mas também se fala menos, porque nos fartámos dos "estranhos" que estão sempre a querer contactar connosco. Pobres diabos, vivem disso, do negócio de "impingir" coisas, seja via telefone seja na rua ou à porta de casa. Palavras sábias da Carla.

O Rui deu mais ainda uma achega a esses tocadores de campainhas, «tu não abres a porta da rua, mas há sempre um estúpido, normalmente do segundo esquerdo, que abre o trinco.»

Sorrimos, sem ir à procura da lógica do segundo esquerdo. Felizmente nenhum de nós mora numa fracção com esse número, para chamar o Rui de mentiroso.

Sabe bem falar com  leveza, neste dias pesados...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, fevereiro 17, 2026

Quando a lucidez não tem ideologia...


A lucidez não tem ideologia, tal como uma outra palavra, que por acaso até rima (essa mesmo, a estupidez)...

A 24 de Julho de 2008, uma senhora escrevia no "Diário de Notícias" o seguinte:

«Em Portugal, a classe política foi a primeira a iniciar uma relação assente numa videodependência assustadora. Grande parte dos políticos convenceu-se de que só existe se a sua imagem e a sua palavra forem difundidas pelos média.»

Dezassete anos e alguns meses depois, as coisas pioraram, muito.

As palavras são de Maria José Nogueira Pinto, que não devia achar muito piada a que a sua filha andasse em 2026 com tão más companhias (nada mais, nada menos, que o "rei das videodependências"...).  

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, fevereiro 16, 2026

A forma como olhamos para as segundas-feiras...


É curiosa a forma como olhamos para este primeiro dia da semana.

Tem muito a ver com o que fazemos. Como olhamos para a segunda, que devia chamar-se primeira. 

Sei que quem tem de trabalhar para os outros e há muito que não se sente feliz no emprego, não acha graça nenhuma a este primeiro dia da semana. É quase sempre o começo de mais uma semana de "pesadelo"...

Quem como eu trabalha todos os dias, sem pensar em segundas, domingos, feriados, muitas vezes perde-se no tempo. Claro que no meio das desvantagens, como por exemplo esquecer-me que amanhã é carnaval, há a vantagem de já não me lembrar de quanto pode ser angustiante, uma segunda-feira...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


sábado, fevereiro 14, 2026

Só com uma política de proximidade é que se tem noção dos verdadeiros problemas das pessoas


Quando o ministro Relvas teve a "ideia luminosa" de reduzir o número de freguesias, conseguiu deixar as pessoas ainda mais desprotegidas, especialmente no interior.

Mas o Governo de Passos Coelho, sempre a querer ser "bom aluno" (nunca percebi muito bem o que isso representa, mas parece-me que é defender mais os interesses da Europa que os de Portugal...), e a ir "mais longe que a "troika", começou a fechar tribunais, repartições de finanças, estações dos correios, bancos, etc, Esta medida poderá ter reduzido as despesas, mas deixou as pessoas ainda mais isoladas e centralizou, quando a solução para um país mais equilibrado e justo será sempre a descentralização.

Pode parecer que não tem nada a ver, mas tem tudo a ver...

Eu posso falar da realidade local que conheço, que é urbana, em relação às freguesias. Em Almada existiam 11 freguesias, que foram reduzidas para cinco. Criou-se uma super junta de Almada, que passou a incluir Almada, Cacilhas, Cova da Piedade e Pragal. A partir deste momento, houve um afastamento das populações e uma desresponsabilização generalizada, com a velha desculpa de que "é impossível estar em dois sítios ao mesmo tempo". Se isso aconteceu em localidades coladas umas às outras, imagino o que se passou em concelhos com as Caldas da Rainha, em que se juntaram freguesias urbanas com freguesias rurais...

Abordando os problemas trágicos que têm afectado as pessoas, especialmente na região centro, não temos dúvidas de que continuam a existir pessoas isoladas e sem apoio, pelo desconhecimento da sua existência graças à falta de proximidade que existe, que transforma as pessoas quase em números...

Podem continuar a falar da regionalização, mas esta não vai resolver problema nenhum, a não ser criar uma série de "vice-reis" (alguns já se andam a colocar em bicos de pés), porque não irá acabar com o principal problema que existe, a falta de uma política de proximidade.  A solução terá de ser sempre ao nível do Concelho e não da Região.

Só quando se conseguir combater este problema se reduz a existência de portugueses de primeira e portugueses de segunda (que é o que existe na actualidade).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, fevereiro 13, 2026

O regresso da regionalização...


Com tudo o que está a acontecer no país, aparecem adeptos da regionalização, por todos os cantos. Há de tudo, desde independentes a gente ligada aos partidos, que falam desta divisão política do território, como se ela fosse a salvação de todos os problemas que existem neste portugal de letra pequena, desde a centralização do poder ao ordenamento do território.

É importante ter memória. O medo que existia em relação à regionalização devia-se sobretudo ao mau exemplo dado por muitos autarcas, que deixaram os seus Municípios quase falidos e com graves suspeitas de corrupção. Isso só acabou quando as contas das Autarquias passaram a ser controladas pelo Tribunal de Contas.

Há outra coisa que se deve ter em conta. Se a qualidade dos políticos tem decrescido a nível nacional, a nível local nota-se a presença de gente mais responsável e melhor preparada tecnicamente para as funções que exerce.

E sim, agora talvez faça sentido pensar-se na regionalização, mesmo que continue a ser demasiado apetecida por quem adora o poder, como é o caso dos políticos que abandonaram os Municípios, depois de atingirem o limite mandatos, como é o caso de Rui Moreira...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)