A manhã de hoje foi um pouco atípica.
Apetecia-me beber um café e conversar um pouco, mas o único sobrevivente da "tertúlia do repuxo" já estava de partida. Fui atrás dele só para o cumprimentar e pedir-lhe desculpa por me ter atrasado (mesmo que não tivéssemos nada combinado...).
Poucos minutos depois, cruzei-me com um senhor que me dá sempre os bons dias quando nos cruzamos. Tem com toda a certeza mais de oitenta anos, anda de bengala e com uma mochila às costas.
Por não andar muito "desarranjado" e sujo, fico na dúvida se será mais um idoso a engrossar a equipa cada vez maior dos "sem abrigo" de Almada.
Curiosamente, hoje foi a primeira vez que me pediu uma "ajudinha para comer qualquer coisa". A moeda maior que tinha no bolso era de cinquenta cêntimos e foi a que lhe dei.
A questão que ficou a pairar na minha cabeça, foi porquê hoje, porque só agora é que me pediu ajuda, quando nos temos cruzado dezenas de vezes pelas principais avenidas de Almada...
Eu sei que cada vez há mais "pobreza envergonhada". Cada vez há mais gente a esconder as dificuldades em que vivem, mas...
O "exército de coitadinhos" não conta, porque esses escolheram, desde sempre, a profissão de "pobrezinho". Querem lá saber de trabalho, querem é "tetas para mamar". Basta saberem onde é que existe uma "vaca a dar leite" de borla, e aí estão eles, caidinhos, vestidos com a roupita que tem mais buracos e que nunca é lavada...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)




