Fiquei sem saber a que porta ir bater, enquanto o meu cabelo continuava a crescer. Durante o almoço o meu amigo Chico disse-me que passara a ir a uns paquistaneses dos famosos "cinco euros" e que estava satisfeito, quase na nossa rua. Pouco convencido, resolvi passar por lá. Um dos rapazes percebeu a minha indecisão e convidou-me a entrar e dizendo que estava quase a acabar...
Sentei-me sem suspeitar da "cena" que iria assistir nos minutos seguintes. Um dos dois clientes começou a queixar-se que o bigode estava torto, partindo pouco depois para o insulto ao jovem barbeiro. Pelo jeito de falar percebi que era de étnia cigana. E nunca mais parou de insultar o rapaz que lhe cortara o cabelo e aparara o bigode, ao mesmo tempo que acusava o outro, que era quem lhe cortava o cabelo normalmente, e como tal "era o culpado de tudo".
Quando se levantou disse, alto e a bom som, que não pagava e saiu pela porta fora. Os dois jovens ficaram parados a olhar um para o outro, desabafando na sua língua.
Antes, no meio daquela discussão, apeteceu-me levantar e sair pela porta fora, sem dizer "água vai, água vem", duas ou três vezes. Mas ainda bem que não o fiz, pois acabei por ficar satisfeito com o corte de cabelo e com a simpatia e simplicidade dos dois rapazes. E também foi o corte mais barato dos últimos trinta anos...
Depois de sair fiquei a pensar na diferença de comportamentos destas duas minorias, tantas vezes metidas no mesmo saco, pelo partido do costume, quando têm comportamentos tão diferentes.
E talvez seja por estas e por outras que a gente do Oriente está a dar, cada vez mais, o salto para o "nosso país vizinho"...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa, homenagem ao António, o "Rei dos Barbeiros" e da "Música Moderna")
