sou um homem e
pinto
acontece-me
frequentemente sair de casa
para escolher uma
mulher na rua,
uma desconhecida,
alguém cujo rosto seja um poema,
ou simplesmente um
rosto.
visto umas calças
e uma camisa velha
e saio na hora de
ponta,
envolvo-me na
multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta
mulher.
já trouxe para
casa mulheres cegas,
são fáceis de
pintar,
tiram a roupa tão
depressa como tiram os óculos
e despem-me em
igualdade de circunstâncias.
não me fazem
perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de
arrefecimento gradual
que vão
experimentando com a idade,
e quase sempre me
oferecem o corpo.
já trouxe mulheres
solteiras, muito jovens,
ainda virgens,
comportam-se timidamente,
não mexem em nada,
fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre
a sua própria magreza,
enrolam fios de
cabelo nos dedos, à espera das palavras.
já tenho recebido
mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os
filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa
da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas
pudessem aliviá-las.
há uma que vem
todas as sextas-feiras, descalça,
com os olhos
cheios de perguntas,
as mãos tão
brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um
enigma para o meu complexo ofício de pintor.
hoje, quando
chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas
flores no meu retrato,
e foi sentar-se na
cadeira.
depois, quando viu
o retrato disse,
ficam já estas
para as que me faltarem na campa, e saiu.
alice macedo
campos
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
largo da memória
"Antigamente o Largo era o centro do Mundo." (Manuel da Fonseca)
domingo, março 08, 2026
Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...
sábado, março 07, 2026
A quase "arte" de mostrar e esconder as nossas fragilidades...
Depois entrei no metro, cheio de gente (devem andar a espaçar os horários, para que as pessoas fiquem mais "unidas"...) e fiquei por ali a pensar, até porque entretanto passou um ceguinho com garrafa de plástico numa das mãos, cortada ao meio, a pedir moedas ou notas.
Para conseguir sobreviver neste mundo, tinha de andar nos transportes e nas ruas a expor a sua fragilidade maior, em busca de almas sensíveis, que lhe enchessem a bolsa que trazia a tiracolo de moedas...
A ideia que se colou a mim, foi a aparente dualidade que surge em quase tudo, quando queremos simplificar demasiado as coisas: branco, preto, verdade, mentira, gordo, magro, alto, baixo, triste, alegre, e poderia continuar, quase numa lengalenga, sem aprofundar qualquer questão.
Muitas vezes escondemos as nossas fragilidades, porque queremos mostrar que somos pessoas iguais às outras, preparadas para andar por aí, nas "batalhas urbanas". Ou seja, somos o contrário dos "coitadinhos", que se alimentam das suas aparentes dificuldades (muitas vezes postiças, a televisão hoje vive muito disso...).
Claro que não estou a meter neste plano o ceguinho, que para comer uma sopa, tem de andar de mão esticada, porque sei que as coisas nunca são assim tão simples, com apenas dois lados, como as moedas...
(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)
sexta-feira, março 06, 2026
A "máquina de destruir países"...
Mas se há coisa que não consigo compreender (não é só destes tempos do Trump...) é a tolerância que toda a gente tem para com os Estados Unidos da América (inclusive a Rússia e a China...), que embora se autoproclame "polícia do mundo", em vez de ajudar a construir democracias, passa o tempo a destruir países, tanto no Oriente como na América Latina...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
quinta-feira, março 05, 2026
Um escritor, a televisão, os romances e as crónicas...
É curiosa a relação que tenho com a televisão.
Umas vezes passo a manhã toda a trabalhar em silêncio, outras, como a de hoje, a primeira coisa que faço, mal chego à sala, ainda antes de tomar o pequeno almoço, é ligar a televisão.
Estava sintonizada na RTP1 e a primeira notícia que li foi a nota de rodapé que nos informava do desaparecimento de António Lobo Antunes.
Fiquei na dúvida se devia escrever sobre ele no blogue, por não o olhar como o grande escritor que ele achava que era. E sei do que falo, porque li mais de meia dúzia de livros da sua autoria...
Lembrei-me da entrevista que lhe fiz, talvez em 1991. Encontrámo-nos numa das salas do já desaparecido Hospital Miguel Bombarda, onde ainda trabalhava. Esteve longe de ser um encontro memorável, achei-o sempre demasiado distante...
Gostei dos seus primeiros livros, mas a partir de certa altura começou a escrever para ele próprio, sem pensar muito nos leitores. Foi mais ou menos nessa altura que desisti de o ler (as crónicas não contam, essas sempre foram lidas com interesse, mesmo que ele as desvalorizasse...). Ainda deve ter sido no final do século vinte, com o seu "Manual dos Inquisitores" (o último livro que li até ao fim)...
Sei que ele se tinha em grande conta, achava que devia ter sido "nobelizado" e não Saramago, com que manteve sempre alguma rivalidade e nem sempre foi agradável com o José.
Penso que será um escritor sem futuro, por ser um autor muito difícil (obriga-nos a andar para a frente e para trás porque está a falar de uma coisa e depois começa a falar de outra e nós sentimo-nos quase perdidos...). Mas perdurará na história da literatura como um dos nossos melhores ficcionistas, porque parece - coisa rara entre nós - que era lido no mundo inteiro...
(Fotografia de autor desconhecido)
quarta-feira, março 04, 2026
A caderneta de pontos de Vinicius Júnior contra o racismo...
Já se ouviu e escreveu quase tudo, mesmo sem se saber o que é realmente aconteceu no relvado.
Quem não gosta de José Mourinho e de Rui Costa (e do Benfica, claro...), aproveitou para soltar a "bílis", quando o que ambos fizeram foi defender o clube e um dos seus jogadores, até por não se saber que palavras foram ditas (e há uma forte possibilidade de nunca se saber o que realmente se disse, porque o som de um Estádio não é o mesmo de uma Igreja...). Nem sempre foram felizes com as palavras usadas, algo que tem de ser encarado com alguma normalidade, porque foi a primeira vez que aconteceu algo do género no Benfica.
Mesmo que muitos desvalorizem, o Benfica é o clube do Guilherme Espírito Santo (em 1949 numa unidade hoteleira da Madeira os seus dois jogadores de origem africana, Guilherme Espírito Santo e Alfredo Melão, não foram autorizados a ficar nos quartos normais do Hotel, mas sim no anexo reservado aos empregados. Perante esta atitude racista, toda a equipa resolveu ficar instalada no anexo...) e de Eusébio da Silva Ferreira.
Sem pretender branquear o comportamento de Prestianni e as atitudes racistas que acontecem todos os fins de semana nos estádios (especialmente nas bancadas onde se diz tudo e ainda mais alguma coisa...), é muito fácil acontecerem atitudes irreflectidas no calor do momento e na derrota. É por isso que há jogadores expulsos do terreno de jogo...
Só não compreendo muito bem que um jogador, mal formado e provocador, seja usado como "bandeira" na luta contra o racismo (são tantos os casos em que está envolvido, que até parece que tem uma "caderneta de pontos" como "santo" protector da luta contra o racismo no futebol...).
Até porque há sempre coisas curiosas a acontecerem em seu redor, como a que aconteceu neste fim de semana. O Real Madrid perdeu com o Getafe e Nyom, o avançado camaronês que marcou o único golo da partida, também fez uma "dança à vinicius" nos festejos.
E sabem o que aconteceu de seguida? Vinicius, useiro e vezeiro nestas "danças" (como a da Luz...), foi o primeiro a manifestar-se contra a forma provocadora como o companheiro de profissão festejou o golo...
(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)
terça-feira, março 03, 2026
A decência não tem cor, sexo ou ideologia
Embora possa haver muitas "interpretações" e "percepções", os mais de 65% de portugueses que votaram em Seguro, votaram sobretudo na democracia.
Esta primeira reacção dos portugueses contra o populismo faz com que acredite que o líder do Chega nunca chegará ao poder, pelo menos como primeiro-ministro.
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
segunda-feira, março 02, 2026
A decadência do nosso futebol enquanto modalidade e espectáculo desportivo
Penso que este afastamento se deve a dois pontos. O primeiro é a postura dos presidentes dos três grandes, cujo passado desportivo prometia no mínimo mais respeito pelo futebol, pelos adversários e pela verdade desportiva (o que quer que isso seja...). Nada disso aconteceu. Até se fica com a sensação de que se joga cada vez mais sujo (o que se tem passado nos últimos tempos nas instalações do FC Porto, tem sido uma vergonha...), dentro e e fora das quatro linhas...
O segundo é a sua transformação num "espectáculo" cada vez mais fraquinho. Não é por acaso que a maior parte dos estádios estão quase vazios (os jogos do Benfica, do Sporting e do Porto não contam...)...
Apesar de sermos um dos melhores países do mundo nas camadas jovens, há equipas da primeira divisão sem qualquer português no onze titular... Isto diz quase tudo sobre o "negócio" e a "mentira" que é o nosso futebol, com a complacência da Liga e da Federação...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
domingo, março 01, 2026
Um bom exemplo do que nos podem fazer as boas influências e as boas companhias...
Normalmente não concordo com as coisas que escreve no "Público", porque faz questão de ver e escrever coisas diferentes das outras pessoas (é mais uma imitação rasca de Vasco Pulido Valente...), fazendo notar bem de quem lado é que está e os ódios de estimação que mantém (não é apenas Sócrates), assim como a complacência que tem com a direita, mesmo a populista.
Na televisão o JMT transfigura-se, torna-se um democrata, até quase que parece um "gajo porreiro" (coisa que não é, de certeza...) no convívio com os três amigos. É aqui que surge o motivo das minhas palavras. Ele é um bom exemplo do que nos podem fazer as boas influências e as boas companhias. No mínimo, fazem-nos parecer melhores pessoas.
Isso também acontece nos nossos grupos de amigos, onde surge sempre um "torcido", que obrigamos a andar na linha, dizendo-lhe, mais que uma vez, que o que ele diz não faz qualquer sentido.
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
sábado, fevereiro 28, 2026
O Olho de Boi ficou mais longe...
Um dos lugares atingidos foi a estrada que liga a Boca do Vento ao Olho de Boi e ao Ginjal.
(Fotografias de Luís Eme - Olho de Boi)
sexta-feira, fevereiro 27, 2026
À procura da "terra de todos e de ninguém"...
Somos parecidos em muitas coisas, porque a vida não nos ensinou coisas muito diferentes. As duas coisas que nos distinguem de uma forma mais fácil, é o sexo e a cor de pele.
Sim, eu sou homem, tu és mulher. Eu sou quase cor de rosa, tu és quase castanha.
É por isso que quando nos sentamos na esplanada, procuras o Sol, eu procuro a sombra.
O mais curioso, foi teres-me contado, que há medida que os anos passam, sentes que as pessoas olham para ti, como se não pertencesses aqui. Mesmo que tenhas nascido neste país há mais de quarente e sete anos e só tenhas saído de cá em férias...
Foi por isso que adorei ouvir a história que me contaste, que podia ser sobre a "terra de todos e de ninguém".
Mesmo que nunca tenha sentido o que sentes, gostei muito da ideia sobre a existência de um país de ninguém, com as portas abertas para todos aqueles que sentem não pertencer a sítio nenhum, e por isso mesmo, preferem viver na "terra de ninguém", onde não há o hábito de se olhar de lado para quem passa, ou pior, mirar-se de alto a baixo, como se nos estivessem a tirar as provas de um fato ou de um vestido...
E depois voltámos para as mesas iguais, onde escrevemos coisas diferentes...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
Parece que a mentira deixou de ter perna curta...
Sei que é um trunfo usado por todos aqueles que querem chegar ou permanecer "eternamente" no poder. E está longe de ser uma novidade.
Salazar sempre o fez, embora mentisse com o ar mais cândido do mundo e não se servisse do poder para enriquecer (só quem o rodeava é que "enriquecia", dizem...), mas apenas para se perpetuar como "dono do país".
Acontece que hoje, quando vemos e ouvimos Trump ou Ventura a mentirem com os dentes todos (se for preciso ainda pedem alguns emprestados...) e sem qualquer tipo de pudor, ficamos com a quase certeza de que a mentira deixou de ter a perna curta.
No meio disto tudo, há um coisa que ainda não percebi bem, foi se estamos mais estúpidos, ou se apenas fingimos ter as "orelhas maiores"...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
A sensação de ter perdido algumas palavras pelo caminho...
Recorro mais ao dicionário (devia dizer aos...) e ao "senhor google", que por muito que disfarcemos, é um grande "inteligente artificial".
Talvez exista um limite de idade para escrever...
É quando me aparece o exemplo do nosso Nobel, que publicou o "Memorial do Convento" aos sessenta anos e foi galardoado com o prémio sueco com setenta e seis anos de idade...
Depois do "Memorial" foi escrevendo obras como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1987) ou o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991), que tanta polémica deu, ao ponto de ele se exilar de forma voluntária em Lanzarote...
O mais provável, é esquecermos umas palavras e encantarmo-nos com outras...
Também sei que o ritmo da escrita diminui, com a mesma naturalidade que nos aparecem os primeiros cabelos cinzentos ou as dores que se vão tornando crónicas...
(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)
