terça-feira, março 24, 2026

A "Geração de Sessenta" da Diana


Leio poucos ensaios, mas os que leio são geralmente bons.

Isso acontece por dois motivos: umas vezes são recomendados por amigos, outras objectos de investigação para um possível livro.

Com a "Geração de Sessenta" de Diana Andringa aconteceu um pouco das duas coisas.

É um livro que reúne as entrevistas que a Diana fez para o seu documentário televisivo, "Geração de Sessenta", exibido na RTP, nos já longínquo ano de 1990. Mas não se trata de uma simples passagem de documentário para livro. A autora resolveu criar uma ordem antológica e também cronológica, onde dá um destaque especial às grandes lutas estudantis e à guerra colonial - tanto da parte do colonizador como do colonizado -, com um olhar claro sobre a guerra dos dois dois lados, abordando tanto a questão das deserções e exílios forçados, como as lutas pelas independências do então "Portugal ultramarino".

É um livro intenso, porque é feito de testemunhos, que, além de retratarem muito bem esta época tenebrosa para a nossa juventude, oferece olhares diferentes sobre a mesma temática. E como acontece com os bons livros, ajudam-nos a perceber de forma pormenorizada o que se passou em todas estas batalhas, assim como a forma como elas também foram combatidas por parte do poder, em especial pela sua polícia política, a PIDE.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, março 23, 2026

Saudosismos & relatoriozinhos...


Apetecia-me falar da Eva Cruzeiro a quem os deputados do Chega mandaram ir para "a terra dela", que penso que seja o nosso país (talvez por isso não seja entendido como uma frase racista...), e do deputado do PSD Hugo Carneiro,  que assinou um relatório, a repreender a deputada socialista, porque parece que no nosso Parlamento não "existem racistas"...

O que sei é que o "programa" começa a quer ir longe demais, na aproximação desejada ao dia 24 de Abril de 1974 (e se possível, ainda mais para trás...). Nessa altura parece que só havia "comunistas" e "fascistas", hoje mantém-se a dicotomia, "esquerda", "direita", ao ponto dos extremistas do lado direito já começarem a reivindicar uma "cultura de direita" e a tentar correr com os "perigosos esquerdistas", que ocupam lugares de destaque (a Rita e o Francisco são o começo de qualquer coisa...).

Talvez queiram voltar à "cultura de salão", com um ou dois músicos do regime, dois escritores, dois pintores... e por aí diante, deixando bem claro, que se vai acabar o regabofe da "cultura para todos".

Quem aplaude sem mexer as mãos são os "moedinhas", os "leitõezinhos" e os "carneirinhos", que gostam de se fingir democratas, nem que seja para a fotografia...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, março 22, 2026

As conversas, as cerejas e os saberes...


Já escrevi sobre a conversa "Ginjal: memória e futuro", que aconteceu depois da inauguração da minha exposição de fotografia, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos", no "Casario do Ginjal". Gostei de conversar e de pensar sobre o que se foi dizendo, mas prefiro falar de outras coisas aqui no "Largo"...

Embora perceba que muitas vezes tem de se "cortar o mal pela raiz" (deve ter sido isso que se pensou e fez no Ginjal, com toda a terraplanagem que tornou o edificado que ainda restava das indústrias e das habitações numa montanha de pedras...), há o lado humano, que por vezes esquecemos (no meu caso por preconceito e por um ou dois mal-entendidos, protagonizados com os então novos habitantes deste espaço rente ao Tejo).

Cheguei a escrever no "Casario" sobre o absurdo destes moradores clandestinos terem chegado ao ponto de inventar portas para o "Corredor do Luís dos Galos" (que conheci sempre aberto), tornando-o aparentemente propriedade  "privada", com um bar e tudo no seu interior...

Foi este e mais um ou outro absurdo, que me fez pensar que aquela gente não era do Ginjal... Por entender que quando se ama a liberdade, não se tenta limitar a liberdade dos outros.

Claro que é apenas mais um absurdo - este meu -, porque o Ginjal quer-se que seja de toda a gente, no presente e no futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, março 21, 2026

"Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos" (e de conversas)


Inauguro hoje em Almada na sede/ galeria da SCALA, uma exposição de fotografia sobre o Ginjal. Escolhi como título, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos". Por a palavra memória ser um pouco "perigosa", normalmente anda em busca de coisas antigas, saliento o facto de todas as minhas fotografias expostas serem do século XXI.

Mas a palavra memória continua a fazer sentido, pelo menos para mim, porque as trinta imagens (são quase cinquenta, algumas foram transformadas em "mosaicos"...) que apresento foram tiradas ao longo de todo o século XXI e mostram um Ginjal, ainda com paredes e muita cor, o que já não existe, desde 2025, quando se resolveu terraplanar todo aquele espaço, cada vez mais povoado por habitantes clandestinos, que viviam em situações completamente indignas...

Há um movimento de antigos habitantes e gente que gosta do Ginjal, que tenta defender este espaço, para que ele não seja retirado a pessoas como eu, que tanto prazer têm em passear por ali, de mão dada com o Tejo. É por isso que depois da inauguração da exposição, decorrerá uma conversa, dinamizada por elementos deste movimento, intitulada: "Ginjal: memória e futuro".

Poderá parecer a muito boa gente que  estas conversas não fazem grande  sentido, por vivermos num tempo pouco receptivo à defesa de interesses colectivos. Como eu penso exactamente o contrário, acho que esta exposição é mais uma boa oportunidade para dizermos o que não queremos que transformem o Ginjal.

Penso que todos estão de acordo, em não querer que o Ginjal se torne numa espécie de Tróia (onde até as viagens de barco se tornaram quase um luxo...), com a invenção de vários condicionalismos que tentem limitar a passagem a todos aqueles que gostam de passear  pelo Cais rente ao rio e conversar com o Tejo.

Como os nossos políticos se distraem com facilidade, é preciso dizer isto aos governantes da nossa Cidade, de uma forma clara. 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, março 20, 2026

Cargos de responsabilidade que querem transformar em tachos e tachinhos...


Sem fugir muito ao que escrevi ontem sobre a nossa lei maior, a Constituição, percebe-se que aqueles que deviam ser os primeiros a respeitá-la, desvalorizam-na, sempre que podem.

Isso explica a dificuldade que os principais partidos do Parlamento têm, em chegar a acordo para a nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional.

Quando se mete a política e a ideologia à frente da independência e do dever, acontecem coisas destas...

Os últimos governos tanto de Costa como de Montenegro tiveram de alterar vários diplomas porque eram inconstitucionais. Algo que os fazia "trepar paredes", como tem sido o caso do primeiro ministro actual, que nem sequer esconde o incómodo.

Ou seja, aquela que deve ser a principal qualidade na escolha de juízes para o Tribunal Constitucional - a sua independência em relação ao poder político - é a que menos conta nesta "batalha" pela escolha de três juízes. 

O partido do costume, nem tem qualquer problema em dizer que esta é a altura de virar o país para o lado direito (mesmo nos órgãos que devem ser independentes...), como se o PSD já não fosse um partido democrático...

Pois, o problema está aí. Se calhar o PSD já não é o partido que ajudou a construir esta Constituição, mesmo que os seus dirigentes gostem de encher a boca com o nome de Sá Carneiro...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)


quinta-feira, março 19, 2026

Um mundo que teima em ser mais masculino que feminino...


Podia dar dezenas (ou centenas...) de exemplos de um mundo que finge ser igual para os homens e as mulheres, mas que sempre que pode, trata-as de maneira diferente.

Podia começar pela parte material, em que para a mesma tarefa é normal existirem ordenados diferentes. Há patrões que até se dão ao desplante de fazer referência à função de "chefe de família", colocando em segundo plano as tarefas que ambos realizam...

Mas o que vou falar é do desporto. Soube de três casos de clubes (um deles conhecido a nível nacional, a Académica de Coimbra...) em que por dificuldades financeiras, as primeiras modalidades a fecharem foram as secções femininas. Em qualquer um destes casos, nem sequer se deram ao trabalho de ouvir as atletas ou os seus familiares, para estudaram com ambos qualquer possibilidade de viabilidade...

O curioso disto tudo é ver à parte mais direita de quem nos representa no Parlamento, querer mudar tanto a Constituição, quando, apesar de ser a principal lei do país, se percebe que continua a contar pouco no nosso dia a dia, numa coisa tão concreta como a igualdade de oportunidades para todos, homens e mulheres. 

Nota: Por ser dia do Pai, é uma boa oportunidade para falar dos direitos da minha filha, que são mais pequenos, curtos e estreitos que os do meu filho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 18, 2026

Quando não se tinha tempo para esperar pela inspiração...


Talvez os velhos escritores de livros policiais, escrevessem sempre a mesma história, mudando apenas os nomes das personagens, a arma do crime e a localização. Talvez...

Isso era pouco importante para o leitor dos "livros pretos", que já gostava de telenovelas mesmo antes delas existirem.

As pequenas variações feitas através das personagens obedeciam sempre a um plano, que alterava sobretudo os hábitos dos criminosos, na escolha da vitima e na forma de lhe roubar a vida. Fazia também sentido fingir-se que se mudava de cidade.

O resto eram coisas banais, como as cores, dos olhos, do cabelo, do baton, da gabardine ou ainda, a oferta de mais uns centímetros de altura ao protagonista. Também se podia e devia alterar a marca e o modelo do carro.

O resto era igual. Continuava a fumar-se muito e a beber-se mais ainda, quase sempre bourbon, na companhia de mulheres fatais com preço.

O velho Dinis uma vez disse-me que eram tempos complicados, nunca se tinha tempo para ficar à espera da inspiração em qualquer esquina.

Sei que os leitores antigos divertiam-se bastante com estas histórias e tinham quase sempre uma lista longa de escritores preferidos. 

Ainda bem que eram menos esquisitos que os do nosso tempo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, março 17, 2026

Os maus hábitos nunca se combateram com outros maus hábitos...


Apetece-me escrever, mas nem sei bem como relatar a situação, pouco normal...

(Por serem coisas que não fazem parte da tua maneira de ser, por sempre dares valor a pelo menos meia dúzia de exemplos na educação dos teus filhos, olhaste para tudo aquilo como algo no mínimo absurdo...)

A minha filha também achou tudo aquilo estranho. Embora nunca trocássemos palavras sobre o assunto durante a refeição, trocámos demasiados olhares cúmplices.

Estávamos sentados à mesa com pessoas amigas e uma delas, ainda antes de começarmos a comer, recebeu uma chamada telefónica. Poderia ter despachado a conversa ou simplesmente ter dito que estava a começar a jantar. Mas não, a conversa com a amiga (escutada por todos nós) era mais importante...

Conversa que continuou durante toda a refeição, sobremesa e café incluídos...

O mais curioso naquilo tudo, foi sermos todos pessoas demasiado educadas, que nem sequer lhe chamámos a atenção para acabar com aquele "diálogo mole" e começar outro connosco, com bons modos claro...

Isto explica quase tudo sobre nós. Coisas que achamos importantes, para outras pessoas não têm importância nenhuma.

Mas depois deste retrato, acho que continua a ser muito bom tomarmos as refeições sem a presença dos telemóveis ao lado dos talheres...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 16, 2026

A memória boa que aparece misturada com o bacalhau com grão...


Reparo que nós - os que temos uma capacidade especial de dar voltas para trás como o caranguejo e conseguir tirar sempre algo de positivo, mesmo das partes menos boas das nossas vidas - acabamos por relativizar as coisas, quase todas.

Pensei nisto depois de ter almoçado com os meus queridos amigos, Carlos e Chico, que ajudam a perpetuar no tempo a nossa "tertúlia do bacalhau com grão" e a recordar com saudade os nossos companheiros de aventura, que foram partindo, mas que mesmo assim, gostam de aparecer no meio de qualquer conversa sobre o quotidiano.

Há sempre um ou outro pormenor, que convoca um ou outro amigo... 

O Orlando continua a ser o mais requisitado, porque tinha a capacidade de "encher a mesa", com coisas sérias e coisas a brincar. Mas aparece logo de seguida o Carlos Guilherme, com a sua brutalidade meiga ou o Jaiminho, com as palavras certas (lembrava-nos muitas vezes que quem fala muito pouco acerta....). Mas depois surjem também o Viriato, o Carlos Alberto ou o António, nem que seja apenas com um sorriso ou uma provocação...

Pois era, falávamos muito... e sorriamos ainda mais... 

Sei que também bebíamos bastante vinho tinto "da casa". Mas estou convencido, que mesmo que só bebêssemos água, a conversa continuaria animada pela tarde fora dessas nossas memoráveis segundas-feiras...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 15, 2026

«O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»


Falávamos dos temas nacionais do momento (continuamos a não gostar de falar de guerras...) e lá apareceu o partido do "vale tudo menos tirar olhos" na conversa - que consegue ser ainda mais fiel ao "faz o que eu digo, não faças o que eu faço",  que os partidos, que tanto critica -, com os escândalos do vereador de Lisboa e da sua namorada.

Como temos a mania de que somos todos "gente das culturas", acabámos por falar ainda mais da senhora do mesmo partido, também de Lisboa (Assembleia Municipal), que quer alimentar uma coisa que não existe: uma política cultural de direita.

Mas como sabe que existe a versão oposta (pelo menos no seu olhar...), atacou com as mãos, os braços e as pernas, o Teatro do Bairro Alto, mais por ignorância que por outra coisa. Se estivesse bem informada, sabia que aquele espaço (depois do fim da Cornucópia...) foi criado para se ensaiarem e experimentarem outros lados da cultura e do teatro, mas sem pensar apenas nas minorias. 

Claro que este foi o primeiro ensaio de um partido que quer "matar o teatro" e outras expressões artísticas "esquerdistas", que só conseguem sobreviver através dos subsídios que eles querem cortar (curiosamente, ou não, já contou com a complacência do Moedas, que substituiu, Francisco Frazão, o responsável pelo TBA).

Claro que a culpa acaba de ser de todos nós, de se olhar para  o teatro e para as culturas com estranheza. Se esquecermos os primeiros anos após a Revolução de Abril (anos setenta e oitenta...), nunca se fez um esforço muito grande para criar públicos, para ensinar a olhar o teatro com olhos de ver, tal como outras artes. Teatro esse, que funciona muitas vezes como o nosso espelho, mas sem brilhos...

Foi engraçado a forma como a regressada Rita nos surpreendeu, quando disse: «O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»

Pois é. Parece que não tem nada a ver. Mas tem tudo a ver...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, março 14, 2026

As excelentes apresentadoras...


Não podia ter escolhido melhores apresentadoras, que a Xaneca (Conceição Lobo Antunes) e a Ana R. Gomes, que não se limitaram a "dizer bem" do livro e do autor, prestaram uma bela homenagem ao Padre Felicidade.

A Xaneca, uma das melhores amigas e cúmplices do Padre Felicidade, recordou alguns episódios reveladores do carácter e da qualidade humana desta figura histórica (muito esquecida e ignorada, inclusive por quem faz história...), reforçados com um ou outro apontamento do livro.

A Ana como não teve o privilégio de conhecer o Padre Felicidade, ficou-se pela análise ao livro. Uma análise muito completa, focando os seus pontos essenciais, realçando a sua importância para quem queira conhecer com mais pormenor a vida do protagonista do "Caso de Belém", no final da década de sessenta do século passado.

Foram ambas bastante elogiosas para o autor. Entre a surpresa da Xaneca e a camaradagem da Ana, como alguém do mundo das letras, conseguiram com que as pessoas que apareceram no Centro Nacional de Cultura, ficassem a conhecer mais coisas sobre o Padre Felicidade e sobre um tempo cinzento que é bom que não volte...

(Fotografia de Ana Sofia Milheiro - Lisboa)


sexta-feira, março 13, 2026

"Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade (cem anos-cem crónicas)"


O livro, "Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade (cem anos-cem crónicas)", da minha autoria, é apresentado amanhã à tarde no Centro Nacional de Cultura por Ana R. Gomes e Conceição Lobo Antunes.

Informamos todos os que queiram estar presentes, que a apresentação se realiza na Sala Fernando Pessoa e a entrada faz-se pelo Largo do Picadeiro.