largo da memória
"Antigamente o Largo era o centro do Mundo." (Manuel da Fonseca)
quinta-feira, agosto 20, 2026
"A mulher que me chama branco"
quarta-feira, agosto 19, 2026
«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»
A pandemia quase que nos forçou a abandonar a leitura física e a rendermo-nos ao digital. E já não conseguimos voltar para trás... por muito que gostássemos de folhear e ler as notícias, do princípio para o fim ou do princípio para o fim...
Tudo isto, porque a Manuela escreveu mais uma crónica feliz na sua revista, sobre os emigrantes. E nós acabámos por falar da forma como usávamos (ou não) a memória.
É de facto muito estranho, que um país de emigrantes receba mal quem chega de fora. Gente que acaba por enfrentar os mesmos problemas vividos por muitos portugueses, há sessenta e até mais anos... A maior parte das pessoas que partiam, iam "a salto" (pelo menos para França, talvez por ficar logo a seguir a Espanha e já existir a "gente" que vivia destas viagens com percursos previamente estabelecidos, mais rurais que citadinos...) sem documentos e sem saberem muito bem o que os esperava. E é bom que se diga, que fugiam mais da vida de miséria que da guerra colonial...
Voltámos à Manela, porque a Rita quis ler uma das suas frases, que mesmo sem ser a mais importante, era a que tinha ficado presa nos seus pensamentos e queria ser tema de conversa:
«Muitos dos que
regressam carregam uma sensação persistente: já não pertencem inteiramente a
França, mas também já não pertencem inteiramente a Portugal. Lá são “os
portugueses”; cá são “os franceses”. Vivem entre duas línguas, duas memórias,
duas formas de estar. E esta condição não desaparece necessariamente com o
tempo. Passa para os filhos e, em certos casos, para os netos.»
Ficámos quase sem palavras. Fomos salvos pelo Carlos, que interrogou, muito bem, a gente que passava por nós, sem nos ver, cuja cor e roupagem nos diziam que tinham chegado de fora.
«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»
Não sei se foi por ser Agosto, mas desta vez não divergimos, nem mesmo nas vírgulas. Concluímos que que somos dos sítios onde nos recebem bem e onde nos sentimos "em casa", mesmo que estejamos a milhares de quilómetros do lugar onde nascemos e crescemos...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)
terça-feira, agosto 18, 2026
Há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...
Não somos muitos, mas a nós o "conde do rabal" não nos consegue convencer, muito menos os seus serviçais, que se tornaram autênticas "máquinas de propaganda" e passam a vida a tentar "vender" um país irreal, que nem na cabeça deles existe.
Andamos por aí, quase perdidos nas ruas, utilizamos transportes públicos, vamos aos centros de saúde, os nossos filhos andam nas secundárias públicas perto das nossas casas, fazemos compras nas mercearias e mercados... Ou seja, sabemos que há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
segunda-feira, agosto 17, 2026
Tempo de organizar papéis e ideias...
Sei que chegou o momento de comprar três ou quatro cadernos de capa preta, para "apagar a vela" e "acender a luz" aos vários projectos que me perseguem a horas e dias cada vez menos incertos.
Tenho de me despedir da "preguiça" e das ideias pré-concebidas, de que o tempo dos livros já era...
(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)
domingo, agosto 16, 2026
O dia a seguir a ontem...
Nunca se sabe o que poderia acontecer, se eu pensasse que tinha algum "jeito para a coisa"... Na volta, até poderia fazer como milhares de homens e mulheres, de todas as idades, que "gravaram" nas suas cabecinhas, que podiam ser "cantores à força".
Estou a escrever no "canal da crítica" e eles até são capazes de fazerem falta... Talvez o Agosto festeiro das nossas aldeias não fosse o mesmo sem eles...
Assim como os programas de entretenimento dos fins de semana, que se alimentam com os seus "playbacks" (gratuitos) e as suas bailarinas com mais pele que roupa...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
sábado, agosto 15, 2026
Ser um "artista pop" não é para quem quer. É só mesmo para quem pode...
O primeiro artista que senti que era diferente de todos os outros, foi o António Variações, que não teve medo de ir atrás do que não existia, sem mostrar receio de ser antigo ou moderno, muito menos de ser único. Isso acontecia na forma como cantava, dançava e também como se apresentava em palco.
Depois apareceu o Rui Reininho. Mais tarde o David Fonseca. E depois o Samuel Úria (podia falar também da Manuela e dos Clã, da Sónia e dos The Gift ou do Tomás e dos Capitão Fausto... e pouco mais...).
Apesar de serem diferentes do António, vivem o palco como se estivessem nas suas salas de estar, sem se esconderem atrás de ninguém e sem terem qualquer problema em vestir umas calças às riscas amarelas e vermelhas.
Cada um deles tinha (e tem) uma identidade própria, coisa rara na música portuguesa.
Pensei nisto a0 olhar para este cartaz que anuncia os concertos do David em Lisboa e no Porto.
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
sexta-feira, agosto 14, 2026
A cantiga é sempre a mesma: "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"...
Sei que quem têm mais de cinquenta anos, viaja mais pela memória... e até é capaz de se habituar a dizer que, "no meu tempo é que era bom", porque só gosta de se lembrar das coisas boas que lhe foram acontecendo ao longo da vidinha (pois é, é muito melhor)...
É nestes momentos que reparo que não sou muito saudosista. Acho mesmo que nunca disse algo do género, por saber que o passado só existe dentro das nossas cabeças.
Foi quando me lembrei do Fausto, um trovador com muito mais de dois metros de talento, que nos disse a cantar esta grande evidência, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."
(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)
quinta-feira, agosto 13, 2026
Ter vontade de esquecer a palavra "original"...
Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...
Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.
Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...
O que eu fui dizer ao António...
Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:
«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»
E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.
Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
quarta-feira, agosto 12, 2026
«Enquanto o mundo se desgranha falas de livros...»
Foi o que aconteceu com a palavra "desgranha", que cheira a desgraça e a desarrumação e caracteriza muito bem este mundo que nos rodeia...
Não menos curioso, foi esta palavra ter sido dita por uma mulher.
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
terça-feira, agosto 11, 2026
O bom do Dinis e a sua "escola" literária povoada de policiais e banda desenhada...
Falávamos sobre a vidinha, sem deixarmos fugir o cinema, os livros e a banda desenhada... Não é por acaso que o seu brilhante "O que Diz Molero" tem lá estas três coisas... embrulhadas numa Lisboa que ainda tinha bairros com gente, capaz de inventar aventuras do arco da nova e da velha...
Nem sequer se pode dizer que "trocávamos" heróis, porque eu conhecia tão pouco mundo na estrada das aventuras literárias. Era por isso que tentava fixar os escritores de policiais e as suas obras mais emblemáticas, que o Dinis me oferecia, como se de cromos se tratassem, entre uma cigarrilha e um sorriso de miúdo (algo que ele nunca perdeu...).
Mas o mais curioso foi descobrir com ele o tempo em que se "alugavam" livros na "Barateira" e em outros alfarrábios. que passavam de mão em mão pela malta do Bairro Alto que tivera algum tempo para ir à escola e era mais dada às leituras...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
segunda-feira, agosto 10, 2026
As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...
Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.
Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).
Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.
Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...
Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
domingo, agosto 09, 2026
«O que é que te incomoda mais nos domingos?»
Depois de deixar a esplanada que tem sombra durante as manhãs, fiquei a pensar na frase, «O que é que te incomoda mais nos domingos?»
Havia muitas coisas que tinham mudado, mas quem queria, e gostava, podia continuar a ir à missa de manhã e ao futebol de tarde, por exemplo.
Foi quando me lembrei de um pequeno pormenor, dos "condutores de fim de semana", que gostam de ensaiar passeios lentos pelas ruas da cidade, para não cansarem muito os motores das suas bombas de garagem ou de capa...
Mas nem eles eram um "incómodo", porque só andava de carro aos domingos, se fosse mesmo necessário...
Mudei logo de pensamento e sorri ao olhar para a leveza das minhas roupas, ao mesmo tempo que fingia não ter no roupeiro um simples "fato de domingo"...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)