domingo, novembro 01, 2026

A nova e a velha pobreza nas ruas de Almada...


A manhã de hoje foi um pouco atípica.

Apetecia-me beber um café e conversar um pouco, mas o único sobrevivente da "tertúlia do repuxo" já estava de partida. Fui atrás dele só para o cumprimentar e pedir-lhe desculpa por me ter atrasado (mesmo que não tivéssemos nada combinado...).

Poucos minutos depois, cruzei-me com um senhor que me dá sempre os bons dias quando nos cruzamos. Tem com toda a certeza mais de oitenta anos, anda de bengala e com uma mochila às costas.

Por não andar muito "desarranjado" e sujo, fico na dúvida se será mais um idoso a engrossar a equipa cada vez maior dos "sem abrigo" de Almada.

Curiosamente, hoje foi a primeira vez que me pediu uma "ajudinha para comer qualquer coisa". A moeda maior  que tinha no bolso era de cinquenta cêntimos e foi a que lhe dei.

A questão que ficou a pairar na minha cabeça, foi porquê hoje, porque só agora é que me pediu ajuda, quando nos temos cruzado dezenas de vezes pelas principais avenidas de Almada...

Eu sei que cada vez há mais "pobreza envergonhada". Cada vez há mais gente a esconder as dificuldades em que vivem, mas...

O "exército de coitadinhos" não conta, porque esses escolheram, desde sempre, a profissão de "pobrezinho". Querem lá saber de trabalho, querem é "tetas para mamar". Basta saberem onde é que existe uma "vaca a dar leite" de borla, e aí estão eles, caidinhos, vestidos com a roupita que tem mais buracos e que nunca é lavada...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, outubro 31, 2026

As acampadas do Porto e de Lisboa, entre a festa da democracia e a tragédia grega...


As acampadas são sobretudo jornadas de protesto, festivas, quando decorrem a horas normais. A presença da polícia é pouco mais que um adereço, pelo menos até às primeiras horas da madrugada.

Quando estão milhares de pessoas nas praças D. João I e D. Pedro IV, a polícia limita-se a manter a segurança num largo perímetro. Embora digam que as pessoas têm de desmontar as tendas e ficar em silêncio a partir das  zero horas e trinta minutos. Só depois das três da manhã, quando em vez de milhares de pessoas, já são apenas centenas, ou até de dezenas, os manifestantes presentes, é que a polícia resolve avançar e reprimir (e agredir., claro..).

É aqui que começa a "tragédia grega", com a cobardia normal das forças, de tudo menos de segurança, que se sentem mais confortáveis quando têm como desafio enfrentar menos gente, porque os milhares de pessoas presentes entre as 19 e as zero horas, já estão em casa a dormir no começo da madrugada, ao contrário dos jovens resistentes, que as forças de direita gostam de chamar de "arruaceiros".

Não deixa de ser curioso que os jovens se preparem para o confronto. Não com armas, mas com capacetes, cotoveleiras, caneleiras e outras protecções corporais. Sim, fazem o papel de "mártires", mas sem abusos.

Outra curiosidade em todas estas manifestações pacíficas, é que até aqui os derrotados têm sido os governantes (as sondagens falam por si...), que dão ordens e se escudam atrás da PSP, ao mesmo tempo que tentam que estes movimentos sejam o que não são: acções violentas de extremistas e arruaceiros...

Pois é, tudo indica que a habitual cobardia e o cinismo "montenegrino" estão a perder mais uma guerra, batalha após batalha, porque hoje os manifestantes contra a politica de habitação são pessoas de todas as idades, dos oito aos oitenta anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 30, 2026

Será que as pessoas estão mesmo fartas de viver em liberdade?


Pensava que nunca iria chegar esse dia, mas com o aconteceu esta semana com um jogador da bola francês (e dos multimilionários...), que ao dizer uma piadola sobre o "camarada Mau", causou uma onda de indignação nunca vista entre os países que olham de lado para a democracia. O menos estranho em tudo isto, foi o presidente da liga de futebol espanhola "pôr-se de cócoras" e fazer pedidos aos anjinhos chineses (a pensar nos cifrões chineses que se podiam perder...). Como se sabe, no "jogo do pontapé na bola" quase tudo é permitido...

Quando se começaram a erguer os alicerces do "museu do estado novo", em Santa Comba Dão, o nosso "velho do restelo mor", disse-nos que estávamos cada vez mais perto do senhor ventura se tornar primeiro-ministro. Sorrimos, mesmo sem grande vontade.

Talvez ele esteja mais certo do que nós... e um dia destes, as estátuas de Salazar (o museu já está...), Franco, Hitler e Staline, que conseguiram escaparam à ira popular e devem estar escondidas nas arrecadações dos museus, voltem ao espaço público (pelos vistos as de Mao Tsé Tung continuam nas praças e museus da China...). 

O problema é que os ecos do trump, da meloni, dos bolsonaros, da le pen, do ventura, do milei, do abascal, do orbán, de que a democracia é o pior dos regimes (ate já devem ter apagado o resto da frase de Winston Churchill...), parecem querer transformar-se, cada vez mais, em realidade.

E eu faço a pergunta de muitos números: será que as pessoas estão mesmo a ficar fartas de viver em liberdade?

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, outubro 29, 2026

O "velho, o rapaz e o burro" nunca nos largam (e ainda bem)...


Não vale a pena continuar a falar da crítica e dos críticos, porque ela depende mais de gostos que de democracias.

Ontem "ganhei a aposta" porque os meus três amigos de discussão, achavam que eu não era capaz de escrever nada sobre a conversa, aqui no "Largo". Embora não tenha ido tão longe como no café (até porque os blogues não são o "facebook"...), não falei do "lambebotismo" militante, nem da "voz do dono", embora ambas as coisas estivessem implícidas no texto.

O que nos vale, é refugiarmo-nos sempre na "sorte". Conhecemos um ou outro "craque" que joga na terceira divisão, com valor mais que suficiente para ombrear com os nossos melhores, mas a "puta da sorte" nunca quis nada com ele... Com o teatro e com a música passa-se a mesma coisa. Embora aqui a coisa seja ainda mais "pornográfica" que no futebol...

A única coisa em que todos estivemos de acordo, foi que o aproveitamento do talento e a meritocracia são coisas que  nunca abundaram na sociedade portuguesa. Isso explica, em parte, o presidente da república e o primeiro-ministro que temos.

E claro que gostamos, que o "velho, o rapaz e o burro" não nos desamparem a loja...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, outubro 28, 2026

Cerejas, palavras, poetas e críticos menores...


Estou a ficar menos contido. Estou a deixar-me levar mais pelos meus amigos que adoram ser "velhos do restelo" e defendem que o papel do crítico é "descascar laranjas", sem estar com rodriguinhos. É por isso que lhes agrada tanto a forma de escrever do João Miguel Tavares, que tantas vezes me leva a apelidá-lo de "fascista", tal é o jeitinho com que se vai encostando ao Chega e ao senhor Coelho.

Foi por isso que soltaram os cães todos e tentaram morder nas canelas dos "críticos com coração de manteiga" (Luís Osório foi o primeiro a levar para "assar" assim como o melhor "amigo dos amigos", que enche as sua crónicas sempre com dois ou três comparsas "excepcionais", do qual Oliveira Martins é o seu melhor protótipo...).

Pouco satisfeitos deram vivas ao fim do "Jornal de Letras", com anos de atraso, porque este dava abrigo à "capelinha" da meia dúzia de poetas e ensaístas com obra publicada, que criticavam (com palavras "bonitas"), à vez, os livros uns dos outros. 

Também disseram mal do "Ípsilon" e da "E". E se mais suplementos existissem de cultura, maior teria sido a lata de tinta aberta e vertida sobre a manta da crítica das culturas...

(E eu ganhei a aposta...)

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 27, 2026

A pergunta que me apetece fazer: "Não somos todos poetas menores?"


Foi esta a pergunta que sobrou, depois de ler o livrinho de poemas, "O Menino que via passar os comboios - e outros poemas menores", de Manuel Alberto Valente.

Comprei o livro porque achei o título delicioso. Depois de o ler, em parte, sinto-me enganado. Pensava que ia ver mais comboios a passar pela vida do Manuel dentro das suas palavras...

Mas enganado não é arrependido. Este pequeno livrinho (o tamanho é estranho...) tem poemas muito bonitos, especialmente os de e com amor (não os contei, mas são muitos).

O título deste pequeno texto é provocatório, porque se há alguém que sabe como se constroem "escritores e poetas imortais", é um editor com provas dadas, como é o Manuel Valente. Aposto que ajudou muitos escrevinhadores a tornarem-se grandes, apenas com o uso de sapatos com tacões de meio metro...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


segunda-feira, outubro 26, 2026

O país das falsas questões e das não decisões...


No futebol há uma expressão que diz muito sobre sermos melhores a destruir que a construir, que é o vulgar "chutar para canto".

Também é muito normal discutirmos o acessório e deixarmos o importante quase sempre para trás, como se vê com os problemas da habitação, que acabam por ter interferência em quase tudo das nossas vidas. Em vez de se falar da nova lei do arrendamento (que espero que seja metida na gaveta pelo governo...) e da falta de casas, fala-se do direito à manifestação, da violência policial ou da pernoita em tendas...

Pior é sermos o país em que os governos (quase todos são bons a não tomar decisões e a culpar os outros pelos seus próprios erros...) adiam a resolução dos problemas mais prementes, até estes se tornaram verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento do país ou mesmo dramas sociais...

A construção de um aeroporto arrasta-se há pelo menos quatro décadas. O mesmo se passa com o comboio de alta velocidade. E nem vale a pena falar dos hospitais públicos necessários que não se construíram próximo dos principais centros urbanos... e que em alguns casos já foram substituídos por unidades de saúde privadas.

O nosso normal dos políticos é prometer e não fazer.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, outubro 25, 2026

Coisas que não são normais (por muito que as tentem normalizar...)


Não é normal é que uma boa parte dos nossos políticos com funções executivas, continuem a pensar que a sua função é sobretudo teatral, é mais de falar a fingir, que de resolver os problemas das suas terras e das gentes. Ser presidente de Câmara ou Ministro é muito diferente de ser deputado, para quem basta (muitas vezes) esconder-se atrás da oratória.

Não é normal que as polícias não percebam qual é o seu principal dever, mesmo que a "segurança" esteja na sua sigla. Sim, o primeiro dever de um agente da autoridade é proteger e garantir a segurança das pessoas e não intimidá-las ou agredi-las, como parece ser a vocação e vontade de muitos polícias na actualidade.

É urgente que, tanto os políticos como os polícias, percebam de uma vez por todas as razões da sua existência, qual é a sua verdadeira função social e política.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)  


sábado, outubro 24, 2026

A forma como olhamos para os problemas sociais é sempre ideológica


A forma como olhamos para os problemas sociais é sempre ideológica. 

Por mais voltas que dêem, existe um olhar da esquerda e um olhar da direita, perante tudo aquilo que nos rodeia e faz parte das nossas vidas. E é um olhar que continua a divergir nos pontos essenciais das nossas vidas.

Sei que é normal que quem tem um bom emprego, uma boa casa, um bom carro, esteja pouco preocupado com os problemas diários de quem - mesmo que tenha andado na universidade -, tenha um ordenado quase nivelado pelo salário mínimo e não consiga encontrar, por exemplo, uma casa com uma renda que seja possível pagar todos os meses...

Tentar passar ao lado destas questões é possível para o cidadão que vive no seu condomínio fechado, mas nunca para um político, seja ele de direita ou de esquerda. Até porque é completamente insustentável fingir que não existem problemas, quando eles estão mesmo à frente dos nossos olhos. Chamar "arruaceiros" ou "egoístas" a quem se manifesta, com vontade de não resolver coisa nenhuma, ainda expõe mais ao ridículo quem as profere...

Mas quem tenha um sentido humanista, e pense que o mundo é de todos, e para todos, mesmo que viva com conforto (a esquerda não tem de ser de e para "pobrezinhos" ou "maluquinhos"...), não se esquece de olhar para o lado e de defender a existência de um estado social.

Eu sei que também existe o centro, mas este é um espaço especial, que continua a estar guardado para aqueles que "não têm nada que ver com os assuntos" e que preferem ficar à espera que sejam os outros a lutar e a tentar resolver os seus problemas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 23, 2026

O lucro fácil e rápido (como de costume) é o "pai e a mãe" da crise da habitação


Não deixa de ser curioso, tenho lido e ouvido tanta gente a falar sobre a "crise da habitação", sem que falem dos verdadeiros responsáveis (que entretanto se transformaram nos famosos "fundos", mesmo que estes sejam dirigidos pelas mesmas pessoas de sempre...).

Há quem viva e trabalhe sempre com a cabeça fixa no dinheiro, ou seja no lucro fácil e rápido. Esta gente quando percebeu que estava a nascer um novo mercado, virado para o exterior, graças ao aumento do turismo, conseguiu direccionar a construção de novas habitações para este novo nicho de mercado, aumentando de uma forma substancial o seu valor.

Ou seja, nos últimos dez anos, praticamente só se construíram "casas de luxo", apenas ao alcance da classe média alta e de estrangeiros com dinheiro (bem ditos vistos dourados...), num acordo tácito entre as agências imobiliárias, empresas de construção e a banca (muitas vezes pertencem aos mesmos accionistas).

A classe média baixa e os pobres ficaram fora do mercado, ao mesmo tempo que viam subir as rendas das suas casas, nos bairros lisboetas (com a ajuda da "lei cristas"). 

Quem conseguiu arranjar casa em zonas mais afastadas, com rendas acessíveis, mudou-se. Quem não tinha ordenado suficiente, foi ajudar ao ressurgimento dos bairros de lata (que se pensava ter sido extinguido começo da década de 90 do século passado), nos concelhos próximos de Lisboa (com particular incidência em Almada, Amadora e Loures...).

Embora os governantes locais e nacionais sejam bons no habitual jogo do "passa culpas", têm grandes responsabilidades no que se tem passado, O PSD, o PS e o CDS (que ainda tem o desplante de chamar arruaceiros aos jovens que "abriram os olhos" a muita gente, que fingia que não se passava nada...) estão directamente ligados ao problema. Até porque muitos deles lucraram com tudo isto nas autarquias, sem gastarem um tostão, graças às licenças de construção e ao IMI...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, outubro 22, 2026

Misturar as coisas e confundir tudo é a solução do costume para que não se resolva coisa nenhuma...


Além do "passa culpa" do costume, faz-me muita confusão que se tente misturar e confundir tudo, ao ponto dos partidos da direita (Chega e CDS) até se aproveitarem de quem fala português do Brasil nas manifestações, para meterem os estrangeiros como protagonistas de todo este ruído...

Basta andar pelos bairros antigos de Lisboa, para perceber o que mudou nos últimos anos na sua caracterização habitacional. Na sexta feira passei pela Lapa e depois desci pela Madragoa. Quando passei por algumas ruas, porta sim porta não, descobria residências de alojamento local. Em Alfama e Castelo, passa-se a mesma coisa.

Mesmo bairros com a Graça ou Campo de Ourique, embora não tenham enfrentado esta "pandemia" do negócio residencial, cresce cada vez o número de habitantes naturais de outros países, porque são os únicos que conseguem alugar ou comprar casas...

Como nos concelhos limítrofes da Capital, que têm acolhido a maior parte das pessoas que trabalham, mas não conseguem viver em Lisboa, não se tem construído as casas necessárias,  para fazer face a este aumento de população, o problema foi-se agravando ano após ano.

Espero que desta vez os autarcas de Almada, Amadora, Odivelas ou Loures, sigam o exemplo do Isaltino (mesmo que ele exagere no autoelogio...), invistam nos seus concelhos e construam casas de rendas acessíveis, em vez de assobiarem para o ar - ou ficarem à espera que o governo central lhes resolva os problemas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, outubro 21, 2026

O rasto deixado pelo "rabo de palha" e o "fantasma que aparece ao espelho"...


Cada vez que vejo na televisão o ministro da Administração Interna a valorizar o papel das autoridades e a dizer que toda a gente tem de cumprir a lei, penso logo no seu passado recente. Não consigo deixar de o ver a virar as costas aos jornalistas e deixar atrás de si o rasto dos seus "rabos de palha"... mesmo com os olhos fechados.

Foi por isso que ao ler o que o João Pedro Henriques escreveu hoje no "Expresso", identifiquei-me completamente com as suas palavras.

«Faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Nem é preciso dizer mais nada. Ontem, se dúvidas houvesse, ficou esplendorosamente à vista do país inteiro o que representa neste momento ter alguém como Luís Neves à frente do ministério da Administração Interna. Sendo certo que a polícia lhe cumpre ainda as ordens, é ainda mais certo, perante o país inteiro, que Luís já só é um fantasma ao espelho: como não se consegue ver, imagina-se.»

Eu sei que para Montenegro a função de governante, é muito pouco exigente (é quase para qualquer um...), mas é penoso ver ministros a fazerem o papel de "moralistas de pacotilha"...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)