sexta-feira, agosto 07, 2020

Das Primeiras Memórias...


Continuo a pensar que é uma das minhas primeiras memórias, mas pode haver alguma ficção misturada...

Do que não há qualquer dúvida, é que foi a primeira vez que atravessei o Tejo de Cacilheiro e visitei a Margem Sul. Devia ter quatro, cinco anos... 

O mais curioso, é que não me lembro de praticamente nada de Lisboa, apesar do programa ter sido atractivo. Sei que fomos ao Jardim Zoológico e à Feira Popular, mas destes lugares não retive qualquer memória.

Da única coisa que me lembro desta viagem das Caldas até à Capital e arredores, é de ir ao colo do meu pai, à janela do cacilheiro, e de ter ficado deslumbrado com a viagem e as águas do Rio. Também me lembro que os bancos eram de madeira, envernizados e pouco mais...

Depois fomos visitar o Cristo Rei. Também tenho uma vaga memória de ver tudo pequenino cá em baixo, desde as pessoas que visitavam o santuário, até às barcas que navegavam no Tejo...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quinta-feira, agosto 06, 2020

Dizer Bom Dia aos "Livros Pacientes"


Embora possa não ser totalmente verdadeiro, tenho a sensação de que este ano tem sido o ano da leitura dos "livros pacientes". Desses mesmo, que me diziam bom dia ou boa tarde (alguns há já mais de duas décadas...) sem que eu lhes desse qualquer resposta...

Depois de me deixar seduzir pelo "Equador", de viajar com o "Lourenço Marques" e de ficar sensibilizado com "Nasci com Passaporte de Turista", agora estou à volta das "Páginas (III)" de Ruben A (e estou a gostar...).

Já tinha lido que o Ruben A era um tipo "louco" e mais coisas do género. Para um país salazarista, só podia ser algo parecido... Tem uma escrita leve, moderna e provocadora. Sente-se que não se intimida com as palavras e isso é quase sempre positivo.

Já tinha pensado ler a "Torre de Barbela", romance que foi "Prémio Ricardo Malheiros" em 1964. Agora vou mesmo lê-lo, um dia destes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, agosto 05, 2020

O Futebol é uma "Mentira"...


Há muito tempo que sei que o futebol é uma "mentira", que quase todos os clubes vivem acima das sua possibilidades e que são dirigidos por gente que em vez de os servir, serve-se, sobretudo do que eles representam junto das pessoas. Esta a explicação mais simples para que se vejam muitos dirigentes a sairem ricos dos clubes, enquanto estes vão caminhando, ano após ano, para a falência...

Embora me custe ver o Vitória de Setúbal a caminho do futebol "amador", não se pode continuar a fingir que está tudo bem (se as leis fossem cumpridas isso já teria acontecido antes, mas se calhar só este ano é que existem apenas duas equipas que não cumprem as exigências da Liga, sendo por isso mais fácil empurrá-los para a III Divisão, que agora tem o bonito nome de Campeonato de Portugal).

Neste caso particular o clube sadino tem contado ao longo dos anos com a conivência do Município, que tem feito parte da SAD do clube (talvez sem este apoio o Vitória já não existisse...), e que tem fechado os olhos a muita coisa, por saber o peso que o futebol tem junto das populações. Pois qualquer medida impopular poderá colocar sempre em causa qualquer eleição ou reeleição...

O Vitória de Setúbal é um histórico, basta dizer que é um dos cinco clubes com mais presenças na primeira divisão. 

Durante largos anos foi uma "fábrica de talentos". Jaime Graça, Vitor Baptista, Octávio Machado, Jacinto João, José Mendes, Rebelo, Tomé, Mourinho, Conceição, Torres, Quinito, Hernâni ou Hélio, são apenas alguns dos melhores exemplos, de jogadores de grande classe que vestiram as camisolas das riscas verdes e brancas.

E as equipas treinadas por Fernando Vaz e José Maria Pedroto do final dos anos 1960 e princípios de 1970, são inesquecíveis, Não só começaram a "morder os calcanhares" aos três grandes como praticavam o futebol mais vistoso do campeonato.

Se se concretizar a "descida", só posso desejar que volte rapidamente aquele que é o seu lugar, mas mais saudável financeiramente...

(Fotografia de Luís Eme - Setúbal)

terça-feira, agosto 04, 2020

O Vício da Arte (ou antes, a velha história de que "dinheiro chama dinheiro")...


Eu escutava-o curioso, enquanto ele ia passando de mão em mão, as fotografias dos quadros que tinha. Eram mais de duas centenas. Só uma dúzia é que estava exposta nas paredes de casa, o restante estava armazenado na sua quase "garagem-forte".

Alguns eram bastante valiosos... e isso é que contava. 

Mas foi sempre vendendo e comprando. Quando tinha um quadro que se valorizava mais, por isto ou por aquilo, vendia-o.

Foi futebolista durante mais de quinze anos. Mesmo sem ter sido uma "prima dona", jogou durante largos anos na primeira divisão e ganhou uns "cobres". Graças a um tio, antiquário, começou a investir em arte desde cedo (afinal não foi apenas o Artur Jorge ou o Oliveira que se habituaram a coleccionar quadros...).

Durante a conversa, nunca notei que houvesse por ali, algum orgulho, por ter uma obra deste ou daquele pintor. O seu entusiasmo fixava-se apenas no dinheiro. O importante era ter um quadro que tinha comprado por quinhentos contos (muito gosta ele de falar em contos...) e agora valia quarente vezes mais. Sem qualquer dúvida que eram animadoras, todas estas contas de multiplicação, mas...

Não era preciso ser muito inteligente, para perceber que ele nunca coleccionara obras de arte. Coleccionava sim, dinheiro. 

Ao contrário de tantos outros futebolistas, que nunca "amaram" o dinheiro e abandonaram os estádios com os bolsos quase tão vazios, como quando iniciaram a carreira... ele nunca esqueceu o que o avô lhe costumava dizer, que o dinheiro chamava dinheiro... desde que fosse usado com "cabeça".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, agosto 03, 2020

Memórias Festivas de Agosto


Ontem, quando estava a escrever sobre Agosto, vieram-me algumas memórias de infância.

Sei que a maior parte das férias grandes eram passadas em Salir de Matos, na casa dos meus avós maternos. Fazíamos alguma praia (ainda me lembro de apanhar o "comboio-correio", que ia sempre cheio e sairmos em Salir do Porto e depois irmos a pé até à praia com mais rio que mar...), mas era sobretudo campo, muito campo.

No começo de Agosto realizava-se a festa da aldeia, com os bailaricos, que tanto animavam as pessoas... E antes do meio do mês os meus pais deviam vir buscar-nos, porque realizava-se a Feira do 15 de Agosto (que ainda se realiza hoje, mas sem o brilho de outrora e noutro lugar...). 

Na minha infância a feira ocupava as ruas principais da Mata Rainha D. Leonor e recebia milhares de pessoas. Recordo que o circo e os outros divertimentos, eram montados no campo de futebol do Caldas. Muitas vezes tínhamos visitas de tios (irmãos do meu pai, que viviam nos arredores da Capital ou na Beira Baixa...), que também aproveitavam para vir à feira...

Íamos quase sempre ao circo, e era uma animação... Especialmente os palhaços e os animais da selva (hoje está na moda ser contra os animais em cativeiro, mas tanta gente que viu pela primeira vez um leão, um tigre ou um elefante, graças aos circos...). 

Lembro-me também do fascínio que exercia sobre mim  e o meu irmão o famoso "Poço da Morte", que nos estava vedado (não era para crianças...). Limitávamos-nos a ouvir o ruído ensurdecedor das "motas voadoras" e a imaginar as acrobacias dos "ases do volante"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)

domingo, agosto 02, 2020

A Liberdade neste Outro Agosto...


Este Agosto é diferente, tal como foram o Março, o Abril, o Maio, o Junho e o Julho.

Não quero, de todo, ser pessimista e dizer que a vida nunca mais será igual.  Até por pensar que essa é a vontade de uma mão cheia de governantes por esse mundo fora, que nos preferem ver quase "aprisionados", ou pelo menos, sem a liberdade de antes... 

É também por isso que temos de contrariar este ciclo exasperante, tão ao gosto desses governantes de um tempo, que podemos considerar quase maluco.

É possível viver com cuidado, sem descurar essa coisa única, que é a Liberdade...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, julho 31, 2020

Alves Redol e o "Comboio das Seis"...


Tenho tantos livros em casa que ainda não li, que as minhas escolhas para ler, são muito aleatórias. Quando "tropeço" num livro que me chama a atenção, pego nele e deixo-o na mesa de cabeceira.

Foi o que aconteceu com "Nasci com Passaporte de Turista e Outros Contos", de Alves Redol.

Devo confessar que, no começo não foi uma leitura muito entusiasmante (também é preciso preparar-nos para a leitura...). Mas quando as pessoas das vidas difíceis começaram a aparecer com as marcas do seu dia-a-dia sofrido, com a autenticidade e o humanismo que marcam todo o percurso literário de Redol, tudo se tornou mais intenso.

Gostei particularmente do "Comboio das Seis", por toda a magia que ele transporta (mesmo que o escritor ribatejano seja tudo menos um "mágico", no campo da literatura)...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

quinta-feira, julho 30, 2020

«Tentamos olhar sempre para o melhor lado do pano...»


Apesar de ter de andar sempre vestido com uma bata demasiado quente para este Verão (não tem nada a ver com a que usava, branca, quase de médico...), de luvas e de máscara, e de passar o tempo a desinfectar os instrumentos que usa e a cadeira, o meu barbeiro confidenciou-me que há algo que vai manter, quando os tempos mudarem: a marcação de cortes de cabelo.

As marcações permitem-lhe ser dono do seu tempo. Até pode fazer "gazeta", se lhe apetecer...

Um dos empregados do restaurante que frequentava mais em Almada, desabafou que é chato andar de máscara, mas nunca mais foi preciso andar a correr de mesa em mesa, quase a "toque de caixa", ao mesmo tempo que sentia "zunirem" rente aos ouvidos os gritos da clientela, quase em simultâneo, a pedir vinho, pão, sobremesa, um guardanapo ou a conta. O patrão não deve dizer o mesmo, pois não voltou a ver a "casa cheia"...

Pois é, as vontades da classe operária, raramente coincidem com o patronato...

O Manel da mercearia próxima da minha casa, nunca teve tantos clientes como desde a pandemia. E a multiplicação do dinheiro em caixa ajuda a ultrapassar todas as outras chatices...

E eu digo: «Tentamos olhar sempre para o melhor lado do pano, ou seja, o lado com menos "nódoas".»

(Fotografia de Luís Eme - Aveiro)

quarta-feira, julho 29, 2020

«Se soubesses o que custa mandar, preferias obedecer toda a vida»


Manuel António Pina, além de extraordinário poeta, era um dos melhores cronistas do quotidiano (para mim era o melhor...), e não precisava de usar muitas palavras para chegar ao "sítio certo", quase sempre com ironia.

Hoje, por um mero acaso, "encontrei-o", numa "Visão" de Outubro de 2004, onde andava à volta de "Um país de presidentes"...

Começou a crónica assim: «Às vezes, assistindo ao telejornal, pergunto-me sobre quantos presidentes por metro quadrado haverá no País (nos telejornais aparecem habitualmente quatro ou cinco por notícia quadrada...)»

E às tantas  recorda: «Nas paredes de escolas e liceus do antigamente avultava um sensato e presidencial conselho de Salazar: "Se soubesses o que custa mandar, preferias obedecer toda a vida". Surpreende por isso o espírito de sacrifício de tantos portugueses hoje dispostos a carregar o fardo de mandar, Há anos, um ministro dos Negócios Estrangeiros foi ao ponto de aceitar o cargo mesmo sabendo, conforme viria nos jornais, que o que ganhava no Governo mal lhe dava para pagar os charutos; e, apesar disso, ninguém lhe ergueu uma estátua ou lhe escreveu uma ode! E portugueses excepcionais como o major Valentim Loureiro ou o eng.º Mira Amaral, que exercem dúzias de presidências ao mesmo tempo, têm ainda que arrostar com a ingratidão e a incompreensão dos contemporâneos!»

E mais não digo (o bom do Pina disse quase tudo...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, julho 28, 2020

A Tal Linha Quase"Invisível"...


A atitude dos pais que proibiram os dois filhos de frequentarem as aulas de Cidadania, levantam a velha questão, quase sempre polémica, se a liberdade pessoal de cada um de nós se deve sobrepor aos interesses colectivos. 

Normalmente empurra-se a questão para o lado, com um "depende" (dá para tudo)...

O que eu sei é que não podemos, nem devemos, continuar a desvalorizar o ensino e a educação. Queixamos-nos de que os nossos filhos têm cada vezes menos conhecimentos elementares do que é a vida em sociedade, com a desvalorização de algo tão importante, que entendíamos como "cultura geral", que também está em desuso... e depois proibimos-os de frequentar uma disciplina importante, que procura de alguma forma, colmatar esta lacuna do ensino, com a sua ligação (de várias formas) à sociedade onde estamos inseridos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, julho 27, 2020

«Não se preocupe, eles não sabem nada de história»


Um político local num dos seus discursos de circunstância, resolveu "roubar" quase 500 anos a um acontecimento histórico.

Quando um dos seus assessores, com conhecimentos sobre história local lhe chamou a atenção, ele em vez de pensar em corrigir o erro, disse: «Não se preocupe, eles não sabem nada de história.»

Infelizmente, é esta a ideia que muitos políticos têm das pessoas e do mundo que os cerca...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, julho 26, 2020

Somos Racistas e Cobardes


O que aconteceu ontem em Moscavide, não diz apenas que somos racistas. Diz algo que sei há muito tempo: somos uns cobardes.

Cobardia que se torna ainda mais nítida no calor do Verão, através da acção de dezenas e dezenas de incendiários, que destroem diariamente milhares e milhares de hectares das nossas zonas verdes...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)