terça-feira, setembro 15, 2026

A honra suprema de uma má actriz de telenovelas que faz o papel de jornalista com grande êxito


Sei que tanto uma como a outra, não frequentam blogues. São adeptas de lugares mais populares, onde se pode representar, cantar, dançar, pescar, caçar, e claro, "pintar a manta", com mais descontração (e imaginação...).

Mas mesmo assim achei que não podia perder esta "caricatura" de bairro, desenhada com tanta perfeição.

Falava-se de qualquer coisa na mercearia, e uma das senhoras dizia, "fale com a Tânia, que ela sabe", repetiu isto umas três vezes até que uma senhora, que tal como eu, pertencia ao  clube dos "incautos" e "ignorantes" do lugar, curiosa, perguntou quem era essa tal de Tânia. A mulher que falava pelos cotovelos sorriu e esclareceu o assunto numa penada:

«E esta? Claro que sabe quem é a Tânia. Não conhece você outra coisa!» Sem que deixasse que alguém a interrompesse, virou-se para mim e disse: «É a loira que mora na rua deste senhor.» E depois concluiu, «Ela é a mulher mais bem informada do bairro. Como tem o cabelo amarelo e é avantajada de carnes, houve alguém com olho que a batizou, e muito bem, de Tânia Laranjo.»

Gargalhada geral. Até eu que não apreciava o estilo, conhecia esta "peça principal" do jornalismo de faz de conta do "Correio da Manhã"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, setembro 14, 2026

As perguntas que não sabemos responder...


Ele perguntou-me se existia algum ponto inteligível que conseguisse definir o que é arte e o que é um artista. Alguma coisa que fosse perceptível ao olhar, algo que mexesse com as emoções do espectador comum.

Lembro-me que no jornalismo com bola usava-se muito a expressão "perguntas de mil paus", quando alguém se silenciava e fechava a caixa de respostas a sete chaves.

Ali o caso ainda era mais complicado. O artista em causa, com a "estrela de famoso", por vezes, parecia brincar com a inteligência dos outros, ao fazer obras de arte que se confundiam, aqui e ali, com obras públicas manhosas.

Tal como ele, eu também não sabia quem é que tinha inventado as "instalações". Nem estava muito interessado em saber, diga-se de passagem.

Entre outras coisas falou-me do monte de tijolos que encontrou uma vez expostos em Tavira. Mas quis ir ainda mais longe e recordou-me o episódio polémico com as vigas de ferro que colocou numa rotunda de Leça de Palmeira. "Escultura" que acabou por ser vandalizada, porque alguns munícipes, além de se sentirem "gozados" pelo artista, acharam que havia coisas mais importantes no Concelho para se gastar dinheiro e manifestaram-se da pior maneira possível.

Quem percebe um pouco de arte, sabe que escrevo sobre Pedro Cabrita Reis.

O mais provável é que sejamos demasiados "incultos" para querer colocar limites na arte, que vive mais do nosso olhar, que das imposições exteriores..

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas - não sei se o "artista" que virou um dos contentores do lixo de pernas para o ar, teve a noção de que podia estar a criar uma "instalação artística"...)


domingo, setembro 13, 2026

Quando os artistas mudam as "suas dores" e deixam de falar das artes...


Estava a ouvi-la e a ficar cada vez mais enfastiado. Tentava disfarçar. É possível que o tenha conseguido, porque ela "só se ouvia a ela própria". Eu estava ali, quase a fazer apenas de "ponto"...

Só me conseguia lembrar de um outro nosso amigo comum, que a partir de certa altura (é verdade que começou a visitar mais vezes hospitais que galerias de arte...), não conseguia começar uma conversa sem se queixar disto ou daquilo. Ela disse-me mais que uma vez, que era cada vez mais difícil falar com ele, que se tornara um chato, que só falava de doenças...

Depois de a deixar, fiquei a pensar que aquilo podia ser quase "epidémico". Ela estava como ele. Talvez o problema seja da vidinha. Sim, quando o mundo ameaça cair-nos em cima, aquilo que nos realizava até aí, pode deixar de ser importante...

De uma forma optimista, pensei que talvez conseguisse escapar a este epidemia, por ser um tipo estranho. 

Sim,  já que raramente falo com os outros dos meus "achaques" e até há muito "boa gente" que acha que isso não é muito normal...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa - detesto quando destroem a arte alheia como aconteceu neste caso...)


sábado, setembro 12, 2026

Viver com as coisas "fixas", que nunca mudam...


Não vale a pena pensar no que é melhor ou pior. Somos o que somos. E não deixa de ser boa ideia, aceitarmos que temos de viver com essas coisas "fixas", que nunca mudam...

E não é por a escritora Rosa Montero ter metido esta frase dentro de uma das suas personagens, que banalizava as coisas: «Ela não sabia fazê-lo. Não sabia jogar esse jogo de intrigas nem conquistar pessoas com quem antipatizava.»

Eu também não sabia (nem queria...) gostar de quem não gostava de mim. Nunca consegui ser agradável para quem me é desagradável (e houve alturas que me esforcei...).

Sim, pudemos gostar de Jesus de Nazaré e achar o gesto magnânimo, de dar a outra face, uma estupidez...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, setembro 11, 2026

"Cinco anos depois" (que agora são vinte cinco...)


Cinco anos depois
 
Cinco anos pode ser uma eternidade,
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Nova Iorque não voltou a ser igual,
As pessoas perderam tantas coisas...
Até a liberdade de serem quem eram.
O simples gesto, de um aceno ou sorriso,
Foi suprimido pela ditadura da segurança,
Assim como qualquer palavra circunstancial
Trocada na rua, com estranhos.
 
Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Podemos banalizar o que aconteceu
Fingir que as Torres Gémeas desapareceram,
Num truque qualquer de magia,
Podemos dizer que a vida continua,
Que o que já lá vai, lá vai...
 
Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Mas os rostos daqueles que partiram,
Sem marcar qualquer viagem,
Permanecem vivos no coração de Nova Iorque.
Sim, coração, de Nova Iorque!
O coração de qualquer cidade
São sempre os seus habitantes.
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema em 2006, quando passaram cinco anos desta tragédia, ou seja há vinte anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
 

quinta-feira, setembro 10, 2026

A liberdade tem sempre custos...


Não é só na rua que gosto de parar e ficar a olhar para trás, para ver as coisas de um ângulo diferente, para ver o mundo que caminha em direcção contrária...

Sempre gostei de pensar, de olhar o mundo, de querer saber e descobrir coisas, consultando apenas a minha cabecinha.

Foi por isso que tive os meus primeiros dissabores logo na infância, porque para algumas pessoas não passava de um "refilão" e um "chato", que nunca estava bem com nada...

Não percebi logo que as pessoas não gostam que sejas diferente delas, que queiras ter uma cabeça só tua, os teus pensamentos, as tuas ideias, os teus sonhos...

Muitos anos depois, sinto que só não incomodava verdadeiramente os meus pais.

Nunca tinha pensado, a sério, que para algumas pessoas (são capazes de ser muitas...), gostares de pensar pela tua própria cabeça, está longe de ser a "melhor coisa do mundo". 

Sempre soube que podia ser um incómodo para políticos, patrões e outra gente que vive embrulhada em "papel de poder". Nada que me incomodasse por aí além. Para lhes escapar, nunca pertenci a partidos e trabalhei a maior parte das vezes sem ter patrões com rosto.

Claro que viver desta forma tem custos. Sabes desde cedo que nunca vais ser rico. O que, diga-se de passagem, também está longe de ser a coisa mais importante do mundo, porque sabes que continuas a gostar mais de liberdade que de dinheiro...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, setembro 09, 2026

«Continua a falar-se pouco do país que queria ser uma "máquina de fotocópias humanas"»


Percebi de uma forma curiosa, que a liberdade estava longe de ter o mesmo valor para a quase dúzia de pessoas sentadas à mesa do jantar.

Sempre falámos de política de uma forma aberta, usando as divergências que surgiam aqui e ali, com algum humor.

Por ser o mais velho daquele convívio, fui sentindo com o decorrer da conversa que o meu mundo era diferente do deles. Mas não era só isso. Eu sempre fui pouco maleável a novas ideias e a novas tecnologias (era o único que não usava smartphone e isso podia explicar muita coisa...).

O mais estranho, era aquela gente achar-se mais bem informada que eu, por estarem a ler títulos de notícias quase minuto sim minuto não, ignorando que eu era assinante e leitor de jornais a sério...

Houve mesmo alguém que foi capaz de dizer que o país do Salazar não era assim tão mau como o pintavam. Foi quando eu disse que era muito pior.

A duas ou três coisas que foram ditas de forma leve, eu respondi com meia-dúzia de factos, que por si só, conseguiram silenciar aquela mesa, por alguns segundos.

Antes do ignorante atrevido meter a viola no saco, por perceber que estava sozinho, ainda lhes disse: «Percebo que não conheçam a realidade do país salazarento. Continua a falar-se pouco do país que queria ser "uma máquina de fotocópias humanas".»

Os sorrisos voltaram à mesa e começou-se a falar de futebol, pois tanto o Sporting como o Benfica tinham acabado de ganhar os seus jogos de "pontapé na bola"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 08, 2026

Talvez seja a melancolia de Setembro a aparecer mais cedo...


Estava ali e não estava.

Ouvia mas pensava em outras coisas. Claro que sabia que ritual não era sinónimo de hábito, mas nem sequer me dei ao trabalho de "jogar às diferenças".

A cor dos dias estava diferente, as sombras apareciam a horas desiguais porque os dias começavam a encurtar de uma forma visível. Ver o pôr do sol às nove do começo da noite agora só no começo do Verão de 2027...

Foi quando pensei que as minhas ausências, discretas, não perturbavam ninguém. Deviam estar ligadas à melancolia que costumo colar ao mês de Setembro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, setembro 07, 2026

Dores de crescimento e dores de envelhecimento...


Eu sei que são dores diferentes.

Provavelmente as de crescimento parecem ser mais dolorosas. Parecem...

Noto isso com a minha filha, que se prepara para entrar no mundo do trabalho, onde vai descobrir uma outra "selva humana", mais animalesca que nos meus primeiros tempos de operário, por vivermos uma época diferente, em que por vezes até se fica com a sensação de que já vale "tirar olhos" e tudo...

Sei que vai ter de "enrijar" os ossos... e o coração...

As dores de envelhecimento, ainda não me chegaram, pelo menos de uma forma que merecem qualquer desabafo mais sério. Percebo-as no contacto e nas conversas que tenho com a minha Mãe e com o meu amigo Chico. Sei que são dores diferentes, porque são de todas as horas, doer isto ou aquilo, é quase como respirar...

Aqui não há "analgésico" possível, ou "morfina" que resulte, para lá das viagens que poderá proporcionar, dependendo apenas da respectiva dose...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, setembro 06, 2026

«Foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados»


Sabia que aquela frase podia ser o começo de um guião para qualquer telenovela portuguesa.

Mas não, referia-se mesmo a uma mulher, que tinha escolhido há semanas um de nós para "cortejar".

Começámos a reparar nisso quando os vestidos da senhora começaram a encurtar e o rosto ganhou alguma cor, nos olhos e nos lábios. E claro, quando começou a dar atenção a mais a um de nós e a desafazer-se em sorrisos.

Não foi preciso o Carlos insistir, quase poeticamente, «foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados.»

Foi quando ele fingiu que ia comprar tabaco (por sorte, não se vendia naquele café...) ao outro lado da rua, mesmo sem fumar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 05, 2026

Também não sei para onde foi a "normalidade"...


Deve ser das coisas mais difíceis de definir nesta actualidade estranha, a tal "normalidade", tanto ao alto como ao baixo nível. Todos sabemos que o que é normal para países como a Rússia ou o Israel, é diferente para  a Ucrânia, ou o Irão...

Depois podíamos descer um patamar e chegar aos chamados conservadores e aos ditos progressistas, onde uma simples saia acima do joelho ou um véu que cobre o cabelo, conseguem encher um livro de reclamações.

Pior que as saias curtas são os livros cheios de obscenidades e ideias malucas, que tanto medo provocam a quem gosta de um mundo demasiado certinho e cheio de regras, pelo menos fora de casa...

Mas o pior deve ser a valoração da mentira, que começa a ficar quase ao mesmo nível da verdade, como era entendida antes de aparecerem as redes sociais e todos aqueles que as "cavalgam", como se o seu hoje fosse o amanhã...

O mais curioso é que escrevi uma data de coisas, que passam ao lado da conversa de sábado de manhã, que questionava a "normalidade" e tinha como protagonistas um político aldrabão, que quer ter no currículo  a demissão de um ministro (e vai conseguir, mas mais tarde do que aquilo que estava a pensar...), e um antigo polícia "chico esperto", com a escola das américas dos xerifes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, setembro 04, 2026

Encontrar medidas para uma coisa que é mais de sentir que de medir...


Fazia-me confusão ver pessoas da minha geração a quererem medir a amizade, fingirem que não percebiam que havia mais de uma dúzia de formas de se ser amigo, de se expressar a amizade...

Foi quando me lembrei que aquele era um dos momentos em que me apetecia fumar cigarros, para ter uma desculpa fácil para ir até ao átrio e ficar por ali a ver passar os carros e as pessoas, a várias velocidades...

E a amizade até era uma coisa mais fácil de lidar do que com o amor, por exemplo, em que se fazem coisas muito mais incompreensíveis e pouco razoáveis.

Mesmo assim fui à casa de banho. Olhei-me ao espelho. Lavei os olhos. Mijei. Lavei as mãos. Voltei.

Eles continuavam com a fita métrica à querer tirar medidas a uma coisa que é mais de sentir, que de medir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)