domingo, março 29, 2026

A solidariedade humana não tem segredos


Houve uma reportagem da CNN no sábado, que me chamou mais a atenção, pela forma como o jornalista em causa (António Gonçalves), faz aqueles perguntas, que no meu entender, fazem parte de uma nova forma de dar notícias, mais primária e infantil (segue-se cada vez mais a cartilha básica e telenovelesca do CMTV...).

Estávamos na região de Leiria, na Marinha Grande, onde a televisão transmitiu um grande exemplo do apoio e de solidariedade, tanto do povo anónimo como de muitas empresas, através da reconstrução de uma casa. As pessoas fizeram o contrário do Governo, apareceram logo, para ajudar quem precisava de ajuda. E respondeu sem palavras à pergunta do jornalista (que estava longe de ser um jovem...). Não, não existem segredos, na solidariedade humana.

Aliás, será muito mau quando passarem a existir segredos na solidariedade. Existe sim, muito companheirismo, muita vontade de ajudar o próximo, que continuam a aparecer nos momentos de maior dificuldade ou de destruição no seio da sociedade.

Apesar dos esforços que existem nestes tempos em nos moldar com um "barro diferente", sinto que o humanismo que reside dentro de nós, é muito difícil de destruir e "emerge" nos momentos mais importantes e difíceis das nossas vidas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, março 28, 2026

Um dia diferente em Salir de Matos...


Hoje à tarde vou apresentar o meu livro, "Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade", na aldeia onde nasci - tal como o meu primo Zé, o protagonista do livro -, Salir de Matos, com a colaboração da Teresa.

Aldeia que hoje é Vila... mesmo que para mim, seja sempre "a minha aldeia", onde passei durante anos parte das "férias grandes"...

Há algumas curiosidades, a maior delas deverá ser a presença de muitos familiares, por todas as razões, e mais algumas, na apresentação. E alguns deles ainda não sabem que este livro também acaba por ser um livro da nossa família, dos Alves, pois aparecem, a espaços, a avó, os tios e os primos, dentro das minhas memórias e da própria história...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 27, 2026

O teatro é feito com e sobre pessoas...


Hoje é Dia Mundial de Teatro.

Quando penso em teatro, penso em pessoas.

De certa forma fui um felizardo, porque como jornalista pude conhecer e conversar com algumas das nossas grandes figuras dos palcos.

O mais curioso, é que a primeira entrevista que fiz para o meu "Contraponto" nas páginas do Record de domingo, foi com o grande Rui de Carvalho, que acabou de completar a bonita idade de 99 anos. Ainda me recordo da forma cordial como ele me recebeu,  no seu camarim, do Teatro D. Maria II, todo suado, depois de representar o velho "Minetti" de Thomas Bernhard...

Outra excelente memória que tenho é de Mário Viegas, que era mesmo uma personagem, um gigante nos palcos. Houve também tempo para conversar com Luís Miguel Cintra, Raul Solnado, Diogo Infante, João Perry, Filipe Lá Féria, Eugénio Salvador, João Lourenço, José Viana, Nicolau Breyner, João Mota, Joaquim Benite, António Anjos... E claro, com as excelentes Maria do Céu Guerra, Irene Cruz, Beatriz Costa, Rita Ribeiro, Alexandre Lencastre, Eunice Muñoz e Marina Mota.

Nessa altura o mundo e as pessoas eram mais simples...

E, VIVA O TEATRO!

(Fotografia de Luis Eme - a minha homenagem ao Cénico da Incrível Almadense, o único grupo que encenou e representou uma peça da minha autoria...)



quinta-feira, março 26, 2026

Escritores, livros e releituras...


Voltei a ler "O Estrangeiro" de Albert Camus, trinta e quatro anos depois...

O mais curioso, foi durante a sua leitura nunca ter sentido a sensação de que "já li isto". Sensação essa que por vezes surge logo no início ou no meio da história.

Sei que não foi por um mero acaso que voltei a reler este livro, muito bem escrito. O filme que está em exibição deve ter tido alguma influência, assim como o facto do livro me ter vindo parar às mãos, quando andava a mudar algumas coisas de sítio, por causa dos efeitos da humidade deste Inverno farto em água em alguns recantos da minha casa.

Agora comecei a ler Jorge Amado, outro autor que não devo ler há uns bons trinta anos. Se nos anos oitenta e noventa do século passado, foi um encanto descobrir este escritor e ler mais de meia dúzia de livros da sua autoria, devo dizer que as suas primeiras cinquenta páginas estão longe de me encantar.

Isto pode muito bem acontecer, porque eu sou outro tipo de leitor. Provavelmente mais exigente e mais crítico. Mas não quero desistir das "Terras do sem Fim", que ao olhar para o título, fiquei com a sensação que nunca o li...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 25, 2026

Tanta coisa que não sei...


Não sei a certo se as aulas de Cidadania, alteravam o nosso comportamento, muito menos se a escola é o lugar certo para nos tornarmos melhores pessoas (claro que sei que tudo começa e acaba em casa, mas a escola podia dar uma ajuda...).

Pensei nestas coisas depois de passar por um homem de uns quarenta anos, que acabara de estacionar o carro e quando saiu, gritou alguns dos nomes feios que conhecia para outro condutor, que entretanto já dera a curva e caminhava para outro planeta e lhe apitara segundos antes.

Provavelmente apitara com razão, o que não faltam nas estradas é gente que não faz uso dos sinais luminosos do carro quando muda de direcção ou estaciona.

O meu lado mais moralista teve vontade de perguntar ao homem, se ficara mais feliz depois de encher a rua de nomes feios. Sabia que se o fizesse, acabaria por sobrar para mim, qualquer coisa ainda mais feia que um "mete-te na tua vida"...

Também pensei que talvez hoje estejamos mais malucos que ontem, e a tendência seja continuarmos a piorar, dia após dia, ignorando algumas palavras calmas, da família do civismo...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


terça-feira, março 24, 2026

A "Geração de Sessenta" da Diana


Leio poucos ensaios, mas os que leio são geralmente bons.

Isso acontece por dois motivos: umas vezes são recomendados por amigos, outras objectos de investigação para um possível livro.

Com a "Geração de Sessenta" de Diana Andringa aconteceu um pouco das duas coisas.

É um livro que reúne as entrevistas que a Diana fez para o seu documentário televisivo, "Geração de Sessenta", exibido na RTP, nos já longínquo ano de 1990. Mas não se trata de uma simples passagem de documentário para livro. A autora resolveu criar uma ordem antológica e também cronológica, onde dá um destaque especial às grandes lutas estudantis e à guerra colonial - tanto da parte do colonizador como do colonizado -, com um olhar claro sobre a guerra dos dois dois lados, abordando tanto a questão das deserções e exílios forçados, como as lutas pelas independências do então "Portugal ultramarino".

É um livro intenso, porque é feito de testemunhos, que, além de retratarem muito bem esta época tenebrosa para a nossa juventude, oferece olhares diferentes sobre a mesma temática. E como acontece com os bons livros, ajudam-nos a perceber de forma pormenorizada o que se passou em todas estas batalhas, assim como a forma como elas também foram combatidas por parte do poder, em especial pela sua polícia política, a PIDE.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, março 23, 2026

Saudosismos & relatoriozinhos...


Apetecia-me falar da Eva Cruzeiro a quem os deputados do Chega mandaram ir para "a terra dela", que penso que seja o nosso país (talvez por isso não seja entendido como uma frase racista...), e do deputado do PSD Hugo Carneiro,  que assinou um relatório, a repreender a deputada socialista, porque parece que no nosso Parlamento não "existem racistas"...

O que sei é que o "programa" começa a quer ir longe demais, na aproximação desejada ao dia 24 de Abril de 1974 (e se possível, ainda mais para trás...). Nessa altura parece que só havia "comunistas" e "fascistas", hoje mantém-se a dicotomia, "esquerda", "direita", ao ponto dos extremistas do lado direito já começarem a reivindicar uma "cultura de direita" e a tentar correr com os "perigosos esquerdistas", que ocupam lugares de destaque (a Rita e o Francisco são o começo de qualquer coisa...).

Talvez queiram voltar à "cultura de salão", com um ou dois músicos do regime, dois escritores, dois pintores... e por aí diante, deixando bem claro, que se vai acabar o regabofe da "cultura para todos".

Quem aplaude sem mexer as mãos são os "moedinhas", os "leitõezinhos" e os "carneirinhos", que gostam de se fingir democratas, nem que seja para a fotografia...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, março 22, 2026

As conversas, as cerejas e os saberes...


Já escrevi sobre a conversa "Ginjal: memória e futuro", que aconteceu depois da inauguração da minha exposição de fotografia, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos", no "Casario do Ginjal". Gostei de conversar e de pensar sobre o que se foi dizendo, mas prefiro falar de outras coisas aqui no "Largo"...

Embora perceba que muitas vezes tem de se "cortar o mal pela raiz" (deve ter sido isso que se pensou e fez no Ginjal, com toda a terraplanagem que tornou o edificado que ainda restava das indústrias e das habitações numa montanha de pedras...), há o lado humano, que por vezes esquecemos (no meu caso por preconceito e por um ou dois mal-entendidos, protagonizados com os então novos habitantes deste espaço rente ao Tejo).

Cheguei a escrever no "Casario" sobre o absurdo destes moradores clandestinos terem chegado ao ponto de inventar portas para o "Corredor do Luís dos Galos" (que conheci sempre aberto), tornando-o aparentemente propriedade  "privada", com um bar e tudo no seu interior...

Foi este e mais um ou outro absurdo, que me fez pensar que aquela gente não era do Ginjal... Por entender que quando se ama a liberdade, não se tenta limitar a liberdade dos outros.

Claro que é apenas mais um absurdo - este meu -, porque o Ginjal quer-se que seja de toda a gente, no presente e no futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, março 21, 2026

"Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos" (e de conversas)


Inauguro hoje em Almada na sede/ galeria da SCALA, uma exposição de fotografia sobre o Ginjal. Escolhi como título, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos". Por a palavra memória ser um pouco "perigosa", normalmente anda em busca de coisas antigas, saliento o facto de todas as minhas fotografias expostas serem do século XXI.

Mas a palavra memória continua a fazer sentido, pelo menos para mim, porque as trinta imagens (são quase cinquenta, algumas foram transformadas em "mosaicos"...) que apresento foram tiradas ao longo de todo o século XXI e mostram um Ginjal, ainda com paredes e muita cor, o que já não existe, desde 2025, quando se resolveu terraplanar todo aquele espaço, cada vez mais povoado por habitantes clandestinos, que viviam em situações completamente indignas...

Há um movimento de antigos habitantes e gente que gosta do Ginjal, que tenta defender este espaço, para que ele não seja retirado a pessoas como eu, que tanto prazer têm em passear por ali, de mão dada com o Tejo. É por isso que depois da inauguração da exposição, decorrerá uma conversa, dinamizada por elementos deste movimento, intitulada: "Ginjal: memória e futuro".

Poderá parecer a muito boa gente que  estas conversas não fazem grande  sentido, por vivermos num tempo pouco receptivo à defesa de interesses colectivos. Como eu penso exactamente o contrário, acho que esta exposição é mais uma boa oportunidade para dizermos o que não queremos que transformem o Ginjal.

Penso que todos estão de acordo, em não querer que o Ginjal se torne numa espécie de Tróia (onde até as viagens de barco se tornaram quase um luxo...), com a invenção de vários condicionalismos que tentem limitar a passagem a todos aqueles que gostam de passear  pelo Cais rente ao rio e conversar com o Tejo.

Como os nossos políticos se distraem com facilidade, é preciso dizer isto aos governantes da nossa Cidade, de uma forma clara. 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, março 20, 2026

Cargos de responsabilidade que querem transformar em tachos e tachinhos...


Sem fugir muito ao que escrevi ontem sobre a nossa lei maior, a Constituição, percebe-se que aqueles que deviam ser os primeiros a respeitá-la, desvalorizam-na, sempre que podem.

Isso explica a dificuldade que os principais partidos do Parlamento têm, em chegar a acordo para a nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional.

Quando se mete a política e a ideologia à frente da independência e do dever, acontecem coisas destas...

Os últimos governos tanto de Costa como de Montenegro tiveram de alterar vários diplomas porque eram inconstitucionais. Algo que os fazia "trepar paredes", como tem sido o caso do primeiro ministro actual, que nem sequer esconde o incómodo.

Ou seja, aquela que deve ser a principal qualidade na escolha de juízes para o Tribunal Constitucional - a sua independência em relação ao poder político - é a que menos conta nesta "batalha" pela escolha de três juízes. 

O partido do costume, nem tem qualquer problema em dizer que esta é a altura de virar o país para o lado direito (mesmo nos órgãos que devem ser independentes...), como se o PSD já não fosse um partido democrático...

Pois, o problema está aí. Se calhar o PSD já não é o partido que ajudou a construir esta Constituição, mesmo que os seus dirigentes gostem de encher a boca com o nome de Sá Carneiro...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)


quinta-feira, março 19, 2026

Um mundo que teima em ser mais masculino que feminino...


Podia dar dezenas (ou centenas...) de exemplos de um mundo que finge ser igual para os homens e as mulheres, mas que sempre que pode, trata-as de maneira diferente.

Podia começar pela parte material, em que para a mesma tarefa é normal existirem ordenados diferentes. Há patrões que até se dão ao desplante de fazer referência à função de "chefe de família", colocando em segundo plano as tarefas que ambos realizam...

Mas o que vou falar é do desporto. Soube de três casos de clubes (um deles conhecido a nível nacional, a Académica de Coimbra...) em que por dificuldades financeiras, as primeiras modalidades a fecharem foram as secções femininas. Em qualquer um destes casos, nem sequer se deram ao trabalho de ouvir as atletas ou os seus familiares, para estudaram com ambos qualquer possibilidade de viabilidade...

O curioso disto tudo é ver à parte mais direita de quem nos representa no Parlamento, querer mudar tanto a Constituição, quando, apesar de ser a principal lei do país, se percebe que continua a contar pouco no nosso dia a dia, numa coisa tão concreta como a igualdade de oportunidades para todos, homens e mulheres. 

Nota: Por ser dia do Pai, é uma boa oportunidade para falar dos direitos da minha filha, que são mais pequenos, curtos e estreitos que os do meu filho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 18, 2026

Quando não se tinha tempo para esperar pela inspiração...


Talvez os velhos escritores de livros policiais, escrevessem sempre a mesma história, mudando apenas os nomes das personagens, a arma do crime e a localização. Talvez...

Isso era pouco importante para o leitor dos "livros pretos", que já gostava de telenovelas mesmo antes delas existirem.

As pequenas variações feitas através das personagens obedeciam sempre a um plano, que alterava sobretudo os hábitos dos criminosos, na escolha da vitima e na forma de lhe roubar a vida. Fazia também sentido fingir-se que se mudava de cidade.

O resto eram coisas banais, como as cores, dos olhos, do cabelo, do baton, da gabardine ou ainda, a oferta de mais uns centímetros de altura ao protagonista. Também se podia e devia alterar a marca e o modelo do carro.

O resto era igual. Continuava a fumar-se muito e a beber-se mais ainda, quase sempre bourbon, na companhia de mulheres fatais com preço.

O velho Dinis uma vez disse-me que eram tempos complicados, nunca se tinha tempo para ficar à espera da inspiração em qualquer esquina.

Sei que os leitores antigos divertiam-se bastante com estas histórias e tinham quase sempre uma lista longa de escritores preferidos. 

Ainda bem que eram menos esquisitos que os do nosso tempo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)