Um dos lugares atingidos foi a estrada que liga a Boca do Vento ao Olho de Boi e ao Ginjal.
(Fotografias de Luís Eme - Olho de Boi)
"Antigamente o Largo era o centro do Mundo." (Manuel da Fonseca)
Um dos lugares atingidos foi a estrada que liga a Boca do Vento ao Olho de Boi e ao Ginjal.
(Fotografias de Luís Eme - Olho de Boi)
Somos parecidos em muitas coisas, porque a vida não nos ensinou coisas muito diferentes. As duas coisas que nos distinguem de uma forma mais fácil, é o sexo e a cor de pele.
Sim, eu sou homem, tu és mulher. Eu sou quase cor de rosa, tu és quase castanha.
É por isso que quando nos sentamos na esplanada, procuras o Sol, eu procuro a sombra.
O mais curioso, foi teres-me contado, que há medida que os anos passam, sentes que as pessoas olham para ti, como se não pertencesses aqui. Mesmo que tenhas nascido neste país há mais de quarente e sete anos e só tenhas saído de cá em férias...
Foi por isso que adorei ouvir a história que me contaste, que podia ser sobre a "terra de todos e de ninguém".
Mesmo que nunca tenha sentido o que sentes, gostei muito da ideia sobre a existência de um país de ninguém, com as portas abertas para todos aqueles que sentem não pertencer a sítio nenhum, e por isso mesmo, preferem viver na "terra de ninguém", onde não há o hábito de se olhar de lado para quem passa, ou pior, mira-se de alto a baixo, como se nos estivessem a tirar as provas de um fato ou de um vestido...
E depois voltámos para as mesas iguais, onde escrevemos coisas diferentes...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Sei que é um trunfo usado por todos aqueles que querem chegar ou permanecer "eternamente" no poder. E está longe de ser uma novidade.
Salazar sempre o fez, embora mentisse com o ar mais cândido do mundo e não se servisse do poder para enriquecer (só quem o rodeava é que "enriquecia", dizem...), mas apenas para se perpetuar como "dono do país".
Acontece que hoje, quando vemos e ouvimos Trump ou Ventura a mentirem com os dentes todos (se for preciso ainda pedem alguns emprestados...) e sem qualquer tipo de pudor, ficamos com a quase certeza de que a mentira deixou de ter a perna curta.
No meio disto tudo, há um coisa que ainda não percebi bem, foi se estamos mais estúpidos, ou se apenas fingimos ter as "orelhas maiores"...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Recorro mais ao dicionário (devia dizer aos...) e ao "senhor google", que por muito que disfarcemos, é um grande "inteligente artificial".
Talvez exista um limite de idade para escrever...
É quando me aparece o exemplo do nosso Nobel, que publicou o "Memorial do Convento" aos sessenta anos e foi galardoado com o prémio sueco com setenta e seis anos de idade...
Depois do "Memorial" foi escrevendo obras como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1987) ou o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991), que tanta polémica deu, ao ponto de ele se exilar de forma voluntária em Lanzarote...
O mais provável, é esquecermos umas palavras e encantarmo-nos com outras...
Também sei que o ritmo da escrita diminui, com a mesma naturalidade que nos aparecem os primeiros cabelos cinzentos ou as dores que se vão tornando crónicas...
(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)
Ou não. Muitos de nós estão de tal forma viciados em documentários e notícias, que evitam mesmo o seriado duplo ou triplo das televisões "rainhas" das audiências. Outros preferem a distracção e o humor dos "podcasts". Há ainda outros que preferem ir ao cinema dentro de casa, ou então ver "cinquenta episódios" seguidos da série da moda.
Telenovelas é que não vêem, é coisa para velhos ou donas de casa...
Chegou aquela mulher disse boa tarde e abancou, quase sem pedir licença (só depois é que percebemos que era a "nova amiga" do Rui).
Uma das primeiras coisas que disse foi que ia estrear uma novela que devia ser boa, cheia de "Páginas da Vida". Olhámos uns para os outros, sem saber o que dizer, como se de repente ficássemos fora de pé e todos nadássemos pessimamente.
Foi coisa de segundos. De um momento para o outro, já estávamos a falar de namoros de revistas, de pessoas de plástico e de outras cheias de plásticas. A coisa até se tornou divertida, embora fugisse ao tom habitual.
Mas a melhor frase da convidada ainda estava para vir, quando ela salientou uma das nossas diferenças: os homens somam mulheres ao seu currículo e as mulheres subtraem homens da sua conta pessoal.
Acabámos todos a sorrir.
Ela foi a última a chegar e a primeira a partir. E não deixou de ser uma agradável surpresa, por nos conseguir levar para outras conversas.
O mais curioso foi o Rui começar a desculpá-la, tentando dizer-nos que ela normalmante não é assim, não diz aquelas coisas, etc. Como se isso tivesse alguma importância... Nós, normalmente também falamos de outras coisas. E nem soube mal de todo "mudarmos de rua" e fazermos quase uma vénia à Dona Lili...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
Até porque não acredito que tenhas mudado assim tanto, ao ponto de teres viajado para o planeta do Trump e do Ventura, sem levares bilhete de regresso. Faz-me confusão que acredites que o mundo agora é uma mentira e que vale tudo para "lixar o próximo".
Por muito desiludido que possas estar com os nossos políticos incompetentes e corruptos (eu sei que são mais de meia dúzia...), não podes pensar em os substituir por uma coisa pior: populistas especialistas em "cantos da sereia" e "cantigas do bandido", que dizem sempre o que queres ouvir, em especial quando estás farto de tudo e de todos. Cansado de ser enganado e de ver gente que está interessada em tudo, menos em resolver os teus problemas.
Podia dizer-te para olhares para os Estados Unidos.
Mas já não é preciso atravessares o Atlântico, começas a ter muitos exemplos de que esse partido onde votas não passa de um "antro de bandidos". E nem é preciso colocar o foco nos ladrões de malas ou nos pedófilos. Agora que se chegaram ao poder, já começaram a oferecer "tachos" (e panelas), às namoradas, irmãs, tias e primas, porque seguem à letra a frase mestra dos políticos de sarjeta: "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço".
E depois há a parte que eles tentam esconder (mesmo que o seu "rabo gigante" fique sempre de fora...), a ideologia. De vez enquanto lá aparecem os "três salazares", assim como a tentativa de tapar "Abril" com "novembro", que é sempre demasiado pequeno e curto, para apagar esse dia inesquecível que nos devolveu a liberdade e a democracia.
Nota: texto publicado inicialmente nas "Viagens pelo Oeste", dirigido a um amigo caldense...
(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)
É por isso que hoje temos de ter mais cuidado com o que dizemos e com o que escrevemos (as redes sociais e os anonimatos não contam, claro...).
Está sempre alguém escondido na esquina, preparado para retirar as nossas frases do contexto e fazer acerca delas "um filme" diferente, daquele que era nosso.
E se pensar de forma oposta, é mesmo capaz de ver coisas, que nós, autores dos textos ou palestrantes, nunca escrevemos ou dizemos.
Isto até se percebe, porque sempre foi mais fácil de levar pelos campos um "rebanho de carneiros", que um conjunto de "ovelhas tresmalhadas". Mas não explica que países que se dizem democráticos (EUA é o maior exemplo) governem cada vez mais como ditaduras...
(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)
Ter dezoito ou dezanove anos é bom, entre outras coisas, por nos dar uma capacidade de sonhar, quase até ao infinito.
E continua a ser boa ideia continuarmos a acreditar no poeta, que nos diz que "sonhar é uma constante da vida". Basta olhar para trás para perceber que muitas coisas boas que nos aconteceram, nasceram de sonhos...
Ao contrário do que os espertalhaços deste tempo pensam, ser inocente, nunca foi sinónimo de parvo.
E claro que sim, há sempre alguma coisa que se pode fazer, para tornar esta quase bola onde habitamos, numa coisa melhor, mesmo quando já se tem oitenta anos...
Talvez a mais importante seja olharmos para trás com olhos de ver, não termos medo do passado. É ele que nos ajuda a "ver melhor" e a não cometer o mesmo erro, mais que duas vezes...
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)
Penso sempre que todas estas "mensagens" deviam ter um antes, com as pessoas que têm o poder de mudar alguma coisa, a descerem do "andar mais alto" para a rua. Não há nada como olhar de perto para tudo aquilo que nos cerca, a panorâmica muda imediatamente. Ver "lá de cima" (mesmo as desgraças alheias, é sempre diferente...).
E há imagens terríveis, que conseguem oferecer poesia ao trágico, mesmo quando não devem...
Talvez este seja o tempo de a maior parte dos políticos, deixarem de o ser, a "fingir", de pensarem que a sua verdadeira função é tentar resolver os problemas dos seus concidadãos, que vai muito para além da afixação de cartazes por toda a cidade, que normalmente não resolvem "porra nenhuma".
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
Sem estarmos à espera, destapam-se todas as nossas fragilidades, comuns à maior parte dos países, mesmo aqueles do primeiro mundo.
Sim, o Japão e os EUA, apesar do seu poderio económico não conseguem "fintar" a natureza, muito menos, domesticá-la...
Estão sim, melhor preparados, mais habituados, mais "maquinizados" para agir no minuto seguinte...
Raramente ficam paralisados, sem saber qual o próximo passo a dar, muito menos demoram uma semana a reagir...
O mais curioso, é que não é por isso que eles mudam os seus hábitos. Nem tão pouco abandonam as suas casas destruídas, que continuam a ser feitas quase de "papel".
Por aqui as coisas são diferentes. O vento não nos levou as segundas e terceiras habitações. E quando se fazem contas, são poucos os que podem e conseguem mudar...
As nossas fragilidades não são apenas físicas e mentais. Há a parte principal, a falta de um lugar menos exposto e que esteja à nossa espera...
A falta de "tempo" para mudar....
(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)
Reparámos que até nós falamos menos uns com os outros. Desculpámo-nos com o Inverno que este ano decidiu ser um Inverno a sério, com todo o tipo de tropelias. Até obrigou a recolher as duas ou três esplanadas que fazem parte dos nossos roteiros... Bebemos café ao balcão porque detestamos o interior dos cafés e pastelarias com temperaturas de Verão e ofertas simpáticas de vírus de gripes de várias cores.
O Carlos continua a ser o nosso "farol". Só ele mesmo para dizer que: «Fala-se menos para escreve-se mais. Daquelas coisas curtas e grossas que cabem dentro dos telemóveis, que tanto nos podem "derreter" como deixar furibundos.»
É verdade. Mas também se fala menos, porque nos fartámos dos "estranhos" que estão sempre a querer contactar connosco. Pobres diabos, vivem disso, do negócio de "impingir" coisas, seja via telefone seja na rua ou à porta de casa. Palavras sábias da Carla.
O Rui deu mais ainda uma achega a esses tocadores de campainhas, «tu não abres a porta da rua, mas há sempre um estúpido, normalmente do segundo esquerdo, que abre o trinco.»
Sorrimos, sem ir à procura da lógica do segundo esquerdo. Felizmente nenhum de nós mora numa fracção com esse número, para chamar o Rui de mentiroso.
Sabe bem falar com leveza, neste dias pesados...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
A 24 de Julho de 2008, uma senhora escrevia no "Diário de Notícias" o seguinte:
«Em Portugal, a classe política foi a primeira a iniciar uma relação assente numa videodependência assustadora. Grande parte dos políticos convenceu-se de que só existe se a sua imagem e a sua palavra forem difundidas pelos média.»
Dezassete anos e alguns meses depois, as coisas pioraram, muito.
As palavras são de Maria José Nogueira Pinto, que não devia achar muito piada a que a sua filha andasse em 2026 com tão más companhias (nada mais, nada menos, que o "rei das videodependências"...).
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)