quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Pode ser bom passar a vida a "mudar de vida"...


Nunca devia ser tempo de tomarmos conclusões, antes de sabermos (ou percebermos...) melhor o porquê das coisas. Mas isso era estar à espera que o melhor de nós, andasse mais vezes por aí à tona de água...

Eu estava ausente e assim continuei, embora ouvisse a conversa e me sentisse a espaços um privilegiado, por não ter ninguém da família que fosse actor de telenovelas ou vedeta dos "reality shows".

O "pseudo-drama" era um primo que não passava cartão à família, desde os pais aos avós, passando pelos primos e tios, mesmo não passando de um actor de terceira categoria, daqueles que fazem sempre o mesmo papel, a única coisa que muda é o nome da personagem. Parece que há dois ou três anos que não visita os pais, sem que existisse qualquer zanga...

Continuei em silêncio, mas senti que uma boa parte dos actores deviam ter uma existência estranha, não era por acaso que a sua profissão era ser "outras pessoas", passar o tempo a "mudar de vida", mesmo que isso acontecesse só na sua vidinha de ficção. Sabia que muitos, faziam quase tudo, para não ter de voltar a ser o "antoninho" da vida real...

Eu não era exemplo para ninguém, por gostar de ser "invísivel", mas estava farto de saber que o que há mais por aí, é gente que detesta a pessoa que encontram logo pela manhã, no lado de lá do espelho...

Ainda bem que não disse nada. O mais provável era dizerem que estava a "defender" o tal artista dos papeis menores, que tenta andar entretido nos teatros e nas televisões, para não ter de ser, o que não gosta de ser...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, fevereiro 03, 2026

«Ó pai vai chover o ano inteiro?»


Vinha a subir a Emília Pomar e cruzei-me com um pai e uma filha que vinham da Escola dos Cata Ventos e entretanto começaram a cair uns pingos a convidarem-me a acelerar a marcha até casa.

Ainda tive tempo de ouvir a miúda de cinco ou seis anos perguntar ao pai: «Ó pai vai chover o ano inteiro?»

Ele não disse nada. Estava entretido a abrir o chapéu e farto de chuva, como todos nós...

Pensei que a minha filha era mais de fazer perguntas que o meu filho. E sempre foi assim pela vida fora. Talvez seja essa a norma, as mulheres são mais curiosas e gostam mais de perguntar...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Estava ali no cais à espera e reparei que...


Estava parado no cais de embarque dos cacilheiros, à espera que chegasse uma barca, que atravessasse o Tejo e me levasse até Cacilhas, quando reparei num "pequeno-grande" pormenor...

Um dos barcos atracados preparava-se para partir e tinha o nome de "Jorge de Sena".

Isso fez com que começasse a pensar, em qual seria a reacção do escritor, ao saber que agora era "nome de barco", que andava a atravessar o Tejo, entre Lisboa e o Seixal...

E logo ele, que sempre fora um grande crítico do nosso país, que sempre se sentiu mal amado, e até injustiçado... 

Em parte tinha razão, havia uma certa mediocridade intelectual, que não o podia ver à frente, mesmo que tentassem disfarçar... 

Mas o mais curioso, foi achar que o Jorge de Sena era capaz de gostar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, fevereiro 01, 2026

O "jornalixo" e uma comunicação social que não mostra tudo...


Não vou escrever sobre a tragédia na região Centro, mas sim sobre um acontecimento que não vi ser notícia em lado nenhum, ligado à tentativa de colher dividendos eleitorais com a desgraça dos outros, com o artista da "tv e da cassete pirata" de sempre... 

Uma das pessoas que conheço natural de Leiria é a Isabel, que além do retrato indescritível que encontrou no terreno (até me falou do Japão dos terramotos, como termo de comparação...), também me falou do "aparecimento e desaparecimento" de Ventura, numa das zonas mais atingidas pela "Kristin". O jeitoso assim que foi visto pela população, rodeado pelos seus "muchachos", foi de tal forma insultado e vaiado, que desapareceu em segundos, sem que ninguém lhe pusesse mais a vista em cima. Estava acompanhado de pelo menos duas câmaras de televisão...

Como ela não viu nenhuma reportagem a mostrar estes enxovalhos (aconteceram pelo menos dois, que foram do seu conhecimento e quem o insultava não eram "ciganos"...), concluiu que há mesmo cumplicidade entre o Chega e as televisões.

Como eu esta semana tinha lido o artigo de opinião de Filipe Luís na "Visão" que também diz muito sobre a relação do senhor com a comunicação social, transcrevo-o com a devida vénia: «Se há alguém que não tem nenhuma razão de queixa dos jornalistas é o candidato apoiado pelo Chega. Pelo contrário: com sete dezenas de entrevistas, nos últimos cinco anos, em horário nobre, em todas as televisões, ele teve mais do dobro de tempo de antena de dois líderes, juntos, do PSD, um dos quais primeiro-ministro, e é o campeão político da nossa democracia em exposição mediática favorável, isto é, com presença constante, não apenas em entrevistas, mas também em declarações avulsas – nomeadamente, nos Passos Perdidos, no Parlamento – quase sempre em regime de “pé de microfone” (sem contraditório) com questionamentos “fofinhos” de entrevistadores que, muitas vezes, e sem cerimónia, em certos canais, trata publicamente por tu. Seguro ganhou a primeira volta, mas, três dias depois, era Ventura quem já tinha sido entrevistado três vezes, nas televisões. Duas conclusões: primeira, o “jornalixo” existe mesmo. Segunda, se Ventura é o que é, aos jornalistas o deve.»

Falar de cumplicidade, talvez seja ir longe demais, mas que há muito boa gente que escreve nos jornais e faz reportagens televisivas que está na profissão errada, está. Ou então não, sente-se bem, atolada no "jornalixo"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, janeiro 31, 2026

Quando a realidade supera a ficção...


Apesar dos muitos esforços dos repórteres no terreno, desta vez a televisão não conseguiu suplantar toda a tragédia que assolou a Região Centro, mesmo com transmissões de quase 24 horas diárias. Foi das poucas vezes que a realidade conseguiu superar a ficção.

Infelizmente, o que se passa no terreno, é muito pior do que o que poderemos imaginar...

Não deixa de ser curioso, percebermos que há mais apoio de voluntários que do Estado (que como é costume reage tarde e sempre de forma insuficiente...), até mesmo nas coisas mais básicas, como é a alimentação, com as pessoas comuns a oferecerem e a distribuírem alimentos essenciais a quem mais precisa.

Outro pormenor que nunca falha, é a presença dos "palhaços" do costume, mesmo sem circo. Além dos números habituais do senhor Ventura, há sempre alguém do Governo, que também dá um ar da sua graça. Desta vez foi o senhor Amaro...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, janeiro 30, 2026

O quase mestre da "escola de mulheres"...


Só estive uma vez com João Canijo, e foi por um mero acaso, estava com um amigo comum ligado ao mundo dos filmes e acabámos por conversar durante alguns minutos.

Isto já foi há uns anitos, foi pouco tempo depois dele acabar as filmagens de "Fátima". Ainda devíamos estar em 2016.

Acabámos por falar da "legião de mulheres" que o seguia, algumas das quais chegaram a ser suas companheiras. O Nuno disse que devia ser do "mel" que ele tinha lá em casa, como se o João não estivesse ali. Acabámos os três a sorrir, sem que o realizador abrisse muito o jogo. 

Pensei nisso ontem, quando li a notícia, de que tinha sido encontrado na sua casa, em Vila Viçosa, sem vida, pela empregada doméstica.

Sim, as mulheres são muitas vezes um enigma para nós, homens, porque fazem questão de fazer as coisas ao contrário do que estamos à espera. Digo isto sem qualquer onda de machismo ou feminismo. Somos diferentes, ponto final.

Elas têm muitas coisas em doses superiores a nós, como seja a força (de viver, não é a física...), a sensibilidade, a visão e a manha...

Provavelmente o João Canijo "viu mais longe" (como elas...),  que a maioria de nós, as pequenas e grandes coisas sobre a natureza feminina. Isso poderá explicar a relação que tinha com a Rita Blanco, a Anabela Moreira, a Beatriz Batarda ou a Cleia Almeida e os excelentes filmes que realizou com elas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, janeiro 29, 2026

Depois da Ingrid chegou a Kristin...


Não sei se os ventos chegaram aos 140 quilómetros (em alguns lugares parece ter ultrapassado...) da mensagem divulgada pela Protecção Civil nos nossos telemóveis, com a chegada da "Kristin".

Mas pelos estragos divulgados pela televisão (em quase todo o país...), a depressão acabou por fazer mais estragos do que aqueles a que estamos habituados a assistir, ao qual se somam a perda de vidas humanas na zona Centro e no Sul.

Este começo de Inverno é um aviso para todos nós, com frio, chuva, o regresso das cheias, depois de anos a queixarmo-nos da falta de água e de barragens vazias. Só faltavam mesmo as tempestades com vendavais com esta expressão...

Claro que a tendência vai ser para os desiquilíbrios serem cada vez maiores.

Com o que estão a fazer as grandes potências mundiais em relação às alterações climáticas, usando mais carvão que inteligência, o nosso normal será começarmos a ter queda de neve de Norte a Sul e no Verão temperaturas normais a rondarem os 45 graus, também do Minho ao Algarve...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, janeiro 27, 2026

A violência e a intimidação na América de Trump...


Mesmo que Donald Trump nos dê mostras diárias de não passar de uma "besta humana", desta vez teve de se render aos abusos da sua querida policia de imigração (ICE) e demitir o chefe (com um ar e um discurso a fazer recordar as tenebrosas "SS"...).

A televisão mostrou ao Mundo as agressões que roubaram a vida a um enfermeiro, Alex Pretti, que tinha como única arma na mão, um telemóvel, desmentindo as primeiras informações de que se tratava de um "terrorista perigoso" ou de um "bandido ilegal"...

Nem mesmo a neve que tem caído no Estado de Minnesota, inibiu os habitantes de Mineápolis de sairem para a rua para protestar contra o que chamam de uma "ocupação da cidade por forças hostis", tal é o uso e abuso da ICE...

Quem tem dado nas vistas como opositor de Trump, é o governador Tim Waltz. Será que finalmente os democratas têm um líder para enfrentar os republicanos?

Uma das coisas mais estranhas a que temos assistido - quando sabemos que os EUA são um país partido ao meio (tal como o Brasil...) -, é o quase silêncio dos democratas, inclusive figuras públicas ligadas à cultura. As únicas notícias que se ouvem, é da chegada à Europa de actores e realizadores, em sentido inverso ao que aconteceu quando Hitler começou a ocupar a Europa e a perseguir os judeus...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


segunda-feira, janeiro 26, 2026

Viajar dentro do outro país antigo, que felizmente já não existe...


Estávamos a acabar de almoçar e no já habitual entrelaçar das conversas, começámos a falar do tempo antigo. Acho que foi a água que desperdiçamos nos banhos diários, que nos levou lá, acompanhada pelos "pareceres científicos" de que este hábito nos rouba defesas ao corpo...

O Tomás é um rapazola demasiado inteligente para se ficar e lembrou-nos da esperança média de vida desses tempos, em que ultrapassar os setenta anos era quase como hoje vencer-se a barreira dos noventa. Respondi-lhe que havia muitos outros factores para que isso acontecesse, como a alimentação muito mais pobre e uma assistência médica quase inexistente, em especial nos lugares onde hoje se continua a sentir mais o abandono... 

Mas depois fomos ainda mais longe, falámos da ausência do saneamento básico em quase todo o país, antes de Abril. Dos muitos prédios, mesmo nas cidades, sem a existência de casas de banho. A única coisa que existia era uma pia colectiva, onde se despejavam os penicos, que iam directamente para uma "fossa" (um buraco subterrâneo apenas com paredes laterais, para que as porcarias fossem transformadas em "substrato" e absorvidas pela terra...).

O Tomás, com os seus quinze anos, olhou-nos com alguma incredulidade, até perceber que estávamos mesmo a falar a sério.

Nem me lembrei de lhe falar dos "bairros de lata" que vão crescendo à volta dos grandes centros urbanos, como aconteceu nos anos sessenta e setenta do século passado, onde se vive com os mesmos problemas. Falei-lhe sim da Palestina, da ausência de condições mínimas para aquela gente viver, a todos os níveis...

Depois houve alguém que mudou de assunto e ainda bem. Até porque aquela conversa não era para se ter à mesa, mesmo que já estivéssemos à espera dos cafés...

(Fotografoa de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, janeiro 25, 2026

A vida não está grande coisa para sonhos...


Quando estou a acabar um livro, deixo de ter tempo para quase tudo, até para a blogosfera, que deixa de ser o habitual espaço de recreação e também de reflexão.

Depois a "Ingrid" não me tem dado grande espaço nas ruas, muito menos nas esplanadas, para ouvir coisas que não têm nada a ver, mesmo que tenham tudo a ver...

Ou seja, quem anda nas ruas, esconde-se dentro de kispos e debaixo de chapéus de chuva, sem vontade para dizer bom dia ou boa tarde.

Quando passei por Cacilhas, no meu passeio higiénico, sem encontrar uma explicação palpável, fiquei a pensar no último encontro que tive com uma pessoa especial, rente ao rio.

Quase do nada ela perguntou-me: «Sonhas muito?»

Olhei-a meio surpreendido, antes de responder: «Jà sonhei mais. Muito mais!»

Pois é, a vida não está grande coisa para sonhos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, janeiro 23, 2026

A "Alma do Povo", a pequena e a (quase) grande burguesia...


Nos meios pequenos a cultura parece funcionar, quase em circuito fechado, por uma pequena elite que normalmente faz o dois em um, é produtora e espectadora. 

É assim na cidade onde nasci (Caldas da Rainha), como será em tantos outros lugares em que são quase sempre os mesmos a aparecer, a escrever, a pintar ou a tocar...

Fui espectador em duas ou três inaugurações de exposições artísticas e também em um ou dois lançamentos de livros. E lá estavam os mesmos "doutores", cheios de sorrisos e salamaleques, com um sentido crítico enviesado, logo à partida, porque a amizade é o que é... (continuo a pensar da mesma forma que o Miguel Esteves Cardoso, só conseguimos escrever uma crítica honesta, quando não conhecemos o escritor ou o artista cuja obra avaliamos...). 

Sabia que aquele não era o meu mundo...

O mais curioso, é que não era sobre isso que queria escrever. Aconteceu-me mais uma vez, entrar no "comboio" errado e ser obrigado a sair na próxima paragem...

Estou a  acabar de ler um livro datado de 1949, "Alma do Povo", da autoria de Leonel Cardoso (só pode ser o dono da rua onde mora a minha mãe, nas Caldas...), de "glosas de cantigas". Embora os poemas sigam todos o mesmo caminho, prontos a entrar em qualquer casa de fados onde ainda se valorize a "desgraçadinha", têm muita musicalidade. A espaços fui capaz de ouvir tanto o Marceneiro como a Aldina, a cantar aquelas coisas onde António pode rimar com demónio ou ciúme com lume.

Não tenho dúvidas que Leonel Cardoso fazia parte da tal elite de que falo, nesses anos quarenta e cinquenta, ainda mais reduzida...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, janeiro 22, 2026

Escrever, sem escrever...


Podia escrever sobre muitas coisas, mas não me apetece.

Podia dizer que a culpa é da chuva, que não anda para grandes pausas.

E depois parece que a Ingrid está quase a chegar. Sempre gostei deste nome, por causa de uma senhora sueca. 

É por isso que não acho que seja nome que se dê a uma tempestade...

Mas não foi por causa da chuva que me esqueci que hoje era dia de cozido...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)