Não deixa de ser curioso, tenho lido e ouvido tanta gente a falar sobre a "crise da habitação", sem que falem dos verdadeiros responsáveis (que entretanto se transformaram nos famosos "fundos", mesmo que estes sejam dirigidos pelas mesmas pessoas de sempre...).
Há quem viva e trabalhe sempre com a cabeça fixa no dinheiro, ou seja no lucro fácil e rápido. Esta gente quando percebeu que estava a nascer um novo mercado, virado para o exterior, graças ao aumento do turismo, conseguiu direccionar a construção de novas habitações para este novo nicho de mercado, aumentando de uma forma substancial o seu valor.
Ou seja, nos últimos dez anos, praticamente só se construíram "casas de luxo", apenas ao alcance da classe média alta e de estrangeiros com dinheiro (bem ditos vistos dourados...), num acordo tácito entre as agências imobiliárias, empresas de construção e a banca (muitas vezes pertencem aos mesmos accionistas).
A classe média baixa e os pobres ficaram fora do mercado, ao mesmo tempo que viam subir as rendas das suas casas, nos bairros lisboetas (com a ajuda da "lei cristas").
Quem conseguiu arranjar casa em zonas mais afastadas, com rendas acessíveis, mudou-se. Quem não tinha ordenado suficiente, foi ajudar ao ressurgimento dos bairros de lata (que se pensava ter sido extinguido começo da década de 90 do século passado), nos concelhos próximos de Lisboa (com particular incidência em Almada, Amadora e Loures...).
Embora os governantes locais e nacionais sejam bons no habitual jogo do "passa culpas", têm grandes responsabilidades no que se tem passado, O PSD, o PS e o CDS (que ainda tem o desplante de chamar arruaceiros aos jovens que "abriram os olhos" a muita gente, que fingia que não se passava nada...) estão directamente ligados ao problema. Até porque muitos deles lucraram com tudo isto nas autarquias, sem gastarem um tostão, graças às licenças de construção e ao IMI...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)