segunda-feira, setembro 26, 2022

Viver "Várias Vidas" numa Só Vida...


Às vezes fico com a sensação de já ter vivido "várias vidas". O mais curioso, é estar longe de ser uma coisa má. 

Acredito que isto aconteça com mais frequência quando a vida nos vai proporcionando experiências diferentes, em lugares diferentes, com pessoas diferentes. 

Se há pessoas que não voltamos a ver, há outras que reencontramos de longe a longe, e são sempre agradáveis estes encontros, é como se precisássemos de voltar "a entrar no passado", por breves momentos... E depois descobrimos que já não somos aquele rapaz, reparamos que ele resolveu ficar numa outra rua...

Pois é, sinto que já vivi, pelo menos, umas "três vidas"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, setembro 25, 2022

Os Jovens a Política e os Políticos


A reportagem do "Linha da Frente" (RTP1) desta semana foi sobre os jovens, dando um foco especial às suas posições políticas e às suas formas de luta.

Concordei com algumas coisas, com outras nem por isso. O que acaba por ser normal.

Penso que eles estão certos, quando dizem que é através das "manifestações de rua" que se pode mudar alguma coisa na sociedade.

Eles sentem que têm de ser eles próprios a lutar e a agarrar o seu espaço, até porque o sindicalismo que se pratica, anda pelas "ruas da amargura", já não convence quase ninguém.

Claro que não consigo concordar com o jovem que disse que o voto era o nível mais básico da política. Embora metade dos portugueses já tenha desistido de votar (e mesmo assim ganham eleições, mas sem qualquer proveito...), acho que é uma das raras ocasiões em que a nossa democracia funciona mesmo a sério. É uma das poucas possibilidades que temos de mudar alguma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa) 


sábado, setembro 24, 2022

«Esta gente nova passa a vida a confundir informação com conhecimento»


Não tenho qualquer dúvida que não existiu uma época em que se descartasse tanto o conhecimento, como esta que estamos a viver.

Quem sente mais esta "mudança" crescente, são as pessoas com  mais experiência de vida, cujos cabelos cinzentos são quase sempre associados ao passado, ao tempo que já passou e não volta, como se tudo o que aprenderam e viveram pela vida fora não tivesse qualquer importância no presente e no futuro.

Não foi por isso de estranhar que o velho Castro, desabafasse para quem o quis ouvir: «esta gente nova passa a vida a confundir informação com conhecimento.»

"Esta gente" eram os seus netos (e os netos dos outros...), que preferiam conhecer "tudo" pela "boca" dos motores de busca que moram dentro dos telemóveis e dos computadores, que pelas vozes que viveram e conheceram muitas das voltas que o mundo deu. 

Mas foi ainda mais longe: «Eles têm a mania que sabem tudo e não sabem nada.»

Pouco esperançado, ainda exclamou: «Talvez um dia consigam perceber que conhecer é muito diferente de se ser informado...» 

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


sexta-feira, setembro 23, 2022

Os "Pés Descalços" que têm Tiques de "Donos do Mundo"....


Ontem vivi uma cena quase surreal, no Ginjal.

Ao ver uma das portas de um dos barracões abandonados, aberto, entrei, com o objectivo de sempre: tirar fotografias.

Um fulano cheio de tatuagens que estava a limpar o espaço, deu-me um grito, de uma das pontas do velho armazém. Disse que só estava a tirar fotografias. Ele aproximou-se de mim e convidou-me da pior maneira possível a abandonar o espaço. Com alguma ironia, perguntei-lhe se era o dono do espaço. Irritado, apenas me disse que só podia tirar fotografias quando aquilo estivesse limpo.

A minha calma contrastou sempre com a sua agressividade, própria de quem não estava habituado a usar as palavras. Acabei por lhe virar as costas, sem conseguir que ele mudasse o tom de voz, quase sempre ameaçador.

Já no paredão, a caminho de casa, tentei perceber o porquê desta aparente agressividade de um "ocupa", que se comportou como "dono" do barracão. Mas depois lembrei-me do que acontece em algumas ruas de Lisboa, com disputas violentas de "sem-abrigos", na disputa de um simples vão de escada para passarem a noite. Ou seja, onde devia haver solidariedade, pelas dificuldades com que ambos se debatem diariamente, para sobreviverem, surge o ódio e a violência...

Estes exemplos só nos dizem que quando qualquer "pé descalço" se sente com algum poder, com alguma coisa que finge ser sua (quase nunca é...), tem o mesmo comportamento de qualquer falso "dono do mundo".

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, setembro 21, 2022

As Nossas Histórias e as Histórias dos Outros (com e sem livros)...


Começámos a falar de livros, quase como se estivéssemos num clube de leitura. Ficámos a saber que dos seis reunidos à mesa de trabalho, apenas dois liam livros naquele momento. Claro que estávamos longe de  pertencer às médias que de vez em quando surgem na comunicação social, em que se "descobre" que mais de metade dos portugueses nunca leu um romance, do princípio ao fim. Ou que só vinte por cento da nossa população é que leram mais de meia dúzia de livros no ano do estudo. Quatro  de nós tinham hábitos de leitura, só dois é que era mais cinema, música e televisão.

O Rui acrescentou que as pessoas estavam cada vez mais focadas nelas próprias. Quase ninguém percebeu a relevância da frase. A Rita foi a única que respondeu, dizendo que isso devia ser bom para a leitura, por esta ser um prazer individual e não colectivo.

Mas não era isso que o Rui queria dizer. Ele queria falar do egoísmo crescente (mesmo durante crises...), da mudança do foco das pessoas, que pensam sempre que têm mais importância do que a que realmente têm, por hoje terem a oportunidade de contar a sua própria história, diariamente, nas redes sociais. 

Depois de percebermos este ponto de vista, concordámos que este individualismo "mata" o sentido colectivo. Mas continuávamos sem perceber o que é que isso tinha a ver com a leitura.

Talvez estivéssemos mais "burros" do que o costume... 

Lá teve o Rui novamente que explicar que quando as pessoas estão mais viradas para as suas histórias pessoais, perdem o interesse pelas histórias dos outros. E os livros representam isso mesmo: são as histórias contadas pelos outros, para aqueles que as quiserem ler...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 20, 2022

Os Poetas e a Poesia Metem-nos nos Olhos Coisas que nem Sempre Queremos Ver...


Sempre percebi que António Costa era um sabidão. É mesmo um caso único. Foi ministro da Justiça e da Administração Interna (com Guterres e Sócrates), e mesmo assim, conseguiu sair do "pântano" e do "marquês", sem qualquer mossa, chegando a primeiro-ministro, com uma esperteza quase saloia, criando a "geringonça" para poder "passar a perna" ao PSD, que tinha ganho as eleições. 

Mesmo sabendo que teve de governar com a "geringonça" e de enfrentar a pandemia e a guerra na Ucrânia, tem passado uma boa parte da sua governação a fingir que resolve problemas e que apoia, sem de facto apoiar. O mais relevante da sua governação é a capacidade de "chutar para canto" e de  criar e alimentar "bolas de neve", cada vez mais gigantescas. A Saúde e Educação são dois bons exemplos, para mal dos nossos pecados...

Como escrevi no título, os Poetas e a Poesia metem-nos nos olhos coisas que nem sempre queremos ver. Estou a ler a nossa Sophia, para mim a Rainha dos Poetas. E é pelo Costa e companhia (existem em praticamente todos os partidos...), que transcrevo o começo do poema "Nesta Hora" (escrito logo a 20 de Maio de 1974, quando os oportunistas surgiam em todas as esquinas e em todos os grupos partidários), do livro "O Nome das Coisas":


Nesta Hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor
Partir de olhar da mão e da razão
partir da limpidez do elementar
[...]


Sophia de Mello Breyner Andresen



(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, setembro 19, 2022

Aquilo que nos Parece Óbvio, nem Sempre o é para os Outros...


O Rafael e o Zé ao terem sido "imortalizados" com a bonita estátua da fotografia, ficaram ainda mais ligados às Caldas da Rainha. Quase que me apetece escrever que são uma atracção próxima da de Pessoa na Capital, sem me esquecer das devidas distâncias que existem entre o número de pessoas que circula nas Rua das Montras das Caldas e no Chiado de Lisboa...). 

Mas o curioso da questão, é que a minha filha não fazia ideia que o Zé Povinho era "filho" de Rafael Bordalo Pinheiro. Conhecia toda a sua história ligada à cerâmica, mas desconhecia o excelente caricaturista (e provavelmente o nosso primeiro criador de banda desenhada...) que ele foi. Nem nunca tinha pensado que o Zé já conhecia muito mundo, pois já tinha ultrapassado o centenário há uns anitos...

Conclusão? Aquilo que nos parece óbvio, nem sempre o é, para os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, setembro 18, 2022

Dizer Adeus ao Sol no Oeste...


Ontem passei o dia no Oeste.

Foi muito bom rever algumas pessoas e alguns lugares especiais.

E quase ao fim do dia, aconteceu um feliz acaso, que nos proporcionou o prazer de ver o pôr do Sol na agradável Baía de São Martinho...

(Fotografia de Luís Eme - S. Martinho do Porto)


sexta-feira, setembro 16, 2022

A Violência e a Incerteza que nos Rodeia (cada vez mais)...


Embora exista hoje uma maior exploração de todo o género de criminalidade (até há um canal televisivo que trata todos estes casos como se fossem novelas...), também se sente, aqui e ali, que a nossa sociedade está mais violenta.

Não foi por isso de estranhar que um dos amigos com quem tomo café, quando conseguimos acertar os relógios, me dissesse a meio desta semana, sem ironia (depois do que fizeram à esposa e aos filhos de Sérgio Conceição rente ao Estádio do Dragão...), que o "coronavírus" não nos afectou apenas os aparelhos respiratório e cardiovascular, também nos afectou o "cérebro".

Por perceber que ele não estava a brincar, disse-lhe que a invasão da Rússia à Ucrânia, era capaz de nos estar a afectar mais o cérebro que a pandemia... 

E ainda podemos somar a estes dois acontecimentos trágicos, as alterações climáticas, que nos afectam  mais do que pensamos (e o "cérebro" não passa ao lado de todos estes dramas...).

Até porque, não tenho qualquer dúvida que devemos estar a viver um dos momentos de maior incerteza em relação ao futuro da humanidade.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, setembro 15, 2022

Talvez seja Solidariedade (espero que sim)


Em duas das telenovelas portuguesas da noite fico com a sensação de que a solidariedade anda de mão dada com a banalidade. Não sei se isso acontece propositadamente, mas espero que sim.

Reparo que as telenovelas "Pôr do Sol" (RTP) e "Lua de Mel " (SIC), dão trabalho a mais de uma centena de actores. Embora os textos sejam repetitivos e banais (e se use e abuse do humor directo, para não lhe chamar outra coisa...), gostava que isso acontecesse porque há a vontade de se criarem mais empregos - numa das áreas mais atingidas pela pandemia: a cultura.

Se for isso que está a acontecer, finjo que esqueço a sua má qualidade e deixo aqui o meu aplauso, por se voltar a dar importância às pessoas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, setembro 14, 2022

A Nossa Aparente "Paixão" pela Cultura Anglo-Saxónica...


Sei que nas nossas grandes cidades e no "reino dos algarves" (aqui a mania já é velha, lembro-me que há trinta anos a maior parte das ementas dos restaurantes já estavam escritas em "ingalês"...), o inglês tenta ser, cada vez mais, o idioma dominante. E isso não acontece apenas por culpa dos "súbditos de sua majestade", nós também gostamos muito de lhes responder  "à inglesa". 

O mais curioso, é que mesmo quem não aprendeu algumas "inglesices" na escola, tenta desenrascar-se usando o popular "inglês de praia", para ajudar estes "pobres infelizes" que adoram e invejam o nosso Sol.

Talvez seja por causa desta nossa aparente paixão pela cultura anglo-saxónica, que os canais lusos transmitem diariamente, horas e horas das cerimónias fúnebres da Rainha Isabel II...

Há pelo menos uma pessoa que esfrega as mãos de contentamento, por estas "opções informativas", chama-se António e pertence ao clã dos Costas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 13, 2022

As Vindimas: Memórias sem Retratos...


Com a queda destas primeiras chuvas, neste Setembro que já vai a meio, lembrei-me das vindimas, que fizeram parte integrante da minha meninice, adolescência e começo de idade adulta.

Tudo o que faz parte deste trabalho agrícola colectivo continua a ser uma boa memória para mim, até mesmo as viagens acidentadas na direcção do Vale da Moira e do Arneiro. Sim, as vinhas do avô ficavam em locais cujos acessos eram extremamente complicados, pelo desnível e pelo mau estado daqueles caminhos. 

A vinha cujo trajecto era mais difícil ficava no Vale da Moira. Depois de sairmos da estrada principal, que ligava as Caldas a Santa Catarina, ainda antes das Trabalhias, apanhávamos um caminho plano e calmo. As coias só se complicavam quando chegámos a uma "linha de água" que fazia parte do caminho e  com o cheiro a Inverno se transformava num autêntico pantanal, ao ponto da parelha de bois e o carro ficarem com as patas e as rodas soterradas. O avô fazia o papel de um "picador" das touradas, usando a vara que tinha na ponta um bico afiado no lombo dos dois animais e fazia com que eles não ficassem imobilizados naquele terreno movediço. O pai e os tios ajudavam no que podiam, eu e o meu irmão víamos aquele "filme" de camarote... Aquela luta quase titânica durava três quatro minutos intermináveis. Mas o pior ainda estava para vir, quando o carro descesse até ao Vale, com a tina carregada de uvas...

Felizmente nunca aconteceu nenhum acidente, embora por vezes se perdesse uma ou outra bota no meio daquele lamaçal.

Lá estou eu a alongar-me nas minhas deambulações pela memória, quando apenas queria dizer que não existe nenhum registo fotográfico destas aventuras. Se fosse hoje sei que não perdia a oportunidade de fotografar toda esta viagem, assim como o ambiente festivo das vindimas...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)