quinta-feira, março 19, 2026

Um mundo que teima em ser mais masculino que feminino...


Podia dar dezenas (ou centenas...) de exemplos de um mundo que finge ser igual para os homens e as mulheres, mas que sempre que pode, trata-as de maneira diferente.

Podia começar pela parte material, em que para a mesma tarefa é normal existirem ordenados diferentes. Há patrões que até se dão ao desplante de fazer referência à função de "chefe de família", colocando em segundo plano as tarefas que ambos realizam...

Mas o que vou falar é do desporto. Soube de três casos de clubes (um deles conhecido a nível nacional, a Académica de Coimbra...) em que por dificuldades financeiras, as primeiras modalidades a fecharem foram as secções femininas. Em qualquer um destes casos, nem sequer se deram ao trabalho de ouvir as atletas ou os seus familiares, para estudaram com ambos qualquer possibilidade de viabilidade...

O curioso disto tudo é ver à parte mais direita de quem nos representa no Parlamento, querer mudar tanto a Constituição, quando, apesar de ser a principal lei do país, se percebe que continua a contar pouco no nosso dia a dia, numa coisa tão concreta como a igualdade de oportunidades para todos, homens e mulheres. Não é por acaso, que ela começa logo por não ser respeitada e cumprida no Conselho Ministros...

Nota: Por ser dia do Pai, é uma boa oportunidade para falar dos direitos da minha filha, que são mais pequenos, curtos e estreitos que os do meu filho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 18, 2026

Quando não se tinha tempo para esperar pela inspiração...


Talvez os velhos escritores de livros policiais, escrevessem sempre a mesma história, mudando apenas os nomes das personagens, a arma do crime e a localização. Talvez...

Isso era pouco importante para o leitor dos "livros pretos", que já gostava de telenovelas mesmo antes delas existirem.

As pequenas variações feitas através das personagens obedeciam sempre a um plano, que alterava sobretudo os hábitos dos criminosos, na escolha da vitima e na forma de lhe roubar a vida. Fazia também sentido fingir-se que se mudava de cidade.

O resto eram coisas banais, como as cores, dos olhos, do cabelo, do baton, da gabardine ou ainda, a oferta de mais uns centímetros de altura ao protagonista. Também se podia e devia alterar a marca e o modelo do carro.

O resto era igual. Continuava a fumar-se muito e a beber-se mais ainda, quase sempre bourbon, na companhia de mulheres fatais com preço.

O velho Dinis uma vez disse-me que eram tempos complicados, nunca se tinha tempo para ficar à espera da inspiração em qualquer esquina.

Sei que os leitores antigos divertiam-se bastante com estas histórias e tinham quase sempre uma lista longa de escritores preferidos. 

Ainda bem que eram menos esquisitos que os do nosso tempo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, março 17, 2026

Os maus hábitos nunca se combateram com outros maus hábitos...


Apetece-me escrever, mas nem sei bem como relatar a situação, pouco normal...

(Por serem coisas que não fazem parte da tua maneira de ser, por sempre dares valor a pelo menos meia dúzia de exemplos na educação dos teus filhos, olhaste para tudo aquilo como algo no mínimo absurdo...)

A minha filha também achou tudo aquilo estranho. Embora nunca trocássemos palavras sobre o assunto durante a refeição, trocámos demasiados olhares cúmplices.

Estávamos sentados à mesa com pessoas amigas e uma delas, ainda antes de começarmos a comer, recebeu uma chamada telefónica. Poderia ter despachado a conversa ou simplesmente ter dito que estava a começar a jantar. Mas não, a conversa com a amiga (escutada por todos nós) era mais importante...

Conversa que continuou durante toda a refeição, sobremesa e café incluídos...

O mais curioso naquilo tudo, foi sermos todos pessoas demasiado educadas, que nem sequer lhe chamámos a atenção para acabar com aquele "diálogo mole" e começar outro connosco, com bons modos claro...

Isto explica quase tudo sobre nós. Coisas que achamos importantes, para outras pessoas não têm importância nenhuma.

Mas depois deste retrato, acho que continua a ser muito bom tomarmos as refeições sem a presença dos telemóveis ao lado dos talheres...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 16, 2026

A memória boa que aparece misturada com o bacalhau com grão...


Reparo que nós - os que temos uma capacidade especial de dar voltas para trás como o caranguejo e conseguir tirar sempre algo de positivo, mesmo das partes menos boas das nossas vidas - acabamos por relativizar as coisas, quase todas.

Pensei nisto depois de ter almoçado com os meus queridos amigos, Carlos e Chico, que ajudam a perpetuar no tempo a nossa "tertúlia do bacalhau com grão" e a recordar com saudade os nossos companheiros de aventura, que foram partindo, mas que mesmo assim, gostam de aparecer no meio de qualquer conversa sobre o quotidiano.

Há sempre um ou outro pormenor, que convoca um ou outro amigo... 

O Orlando continua a ser o mais requisitado, porque tinha a capacidade de "encher a mesa", com coisas sérias e coisas a brincar. Mas aparece logo de seguida o Carlos Guilherme, com a sua brutalidade meiga ou o Jaiminho, com as palavras certas (lembrava-nos muitas vezes que quem fala muito pouco acerta....). Mas depois surjem também o Viriato, o Carlos Alberto ou o António, nem que seja apenas com um sorriso ou uma provocação...

Pois era, falávamos muito... e sorriamos ainda mais... 

Sei que também bebíamos bastante vinho tinto "da casa". Mas estou convencido, que mesmo que só bebêssemos água, a conversa continuaria animada pela tarde fora dessas nossas memoráveis segundas-feiras...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 15, 2026

«O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»


Falávamos dos temas nacionais do momento (continuamos a não gostar de falar de guerras...) e lá apareceu o partido do "vale tudo menos tirar olhos" na conversa - que consegue ser ainda mais fiel ao "faz o que eu digo, não faças o que eu faço",  que os partidos, que tanto critica -, com os escândalos do vereador de Lisboa e da sua namorada.

Como temos a mania de que somos todos "gente das culturas", acabámos por falar ainda mais da senhora do mesmo partido, também de Lisboa (Assembleia Municipal), que quer alimentar uma coisa que não existe: uma política cultural de direita.

Mas como sabe que existe a versão oposta (pelo menos no seu olhar...), atacou com as mãos, os braços e as pernas, o Teatro do Bairro Alto, mais por ignorância que por outra coisa. Se estivesse bem informada, sabia que aquele espaço (depois do fim da Cornucópia...) foi criado para se ensaiarem e experimentarem outros lados da cultura e do teatro, mas sem pensar apenas nas minorias. 

Claro que este foi o primeiro ensaio de um partido que quer "matar o teatro" e outras expressões artísticas "esquerdistas", que só conseguem sobreviver através dos subsídios que eles querem cortar (curiosamente, ou não, já contou com a complacência do Moedas, que substituiu, Francisco Frazão, o responsável pelo TBA).

Claro que a culpa acaba de ser de todos nós, de se olhar para  o teatro e para as culturas com estranheza. Se esquecermos os primeiros anos após a Revolução de Abril (anos setenta e oitenta...), nunca se fez um esforço muito grande para criar públicos, para ensinar a olhar o teatro com olhos de ver, tal como outras artes. Teatro esse, que funciona muitas vezes como o nosso espelho, mas sem brilhos...

Foi engraçado a forma como a regressada Rita nos surpreendeu, quando disse: «O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»

Pois é. Parece que não tem nada a ver. Mas tem tudo a ver...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, março 14, 2026

As excelentes apresentadoras...


Não podia ter escolhido melhores apresentadoras, que a Xaneca (Conceição Lobo Antunes) e a Ana R. Gomes, que não se limitaram a "dizer bem" do livro e do autor, prestaram uma bela homenagem ao Padre Felicidade.

A Xaneca, uma das melhores amigas e cúmplices do Padre Felicidade, recordou alguns episódios reveladores do carácter e da qualidade humana desta figura histórica (muito esquecida e ignorada, inclusive por quem faz história...), reforçados com um ou outro apontamento do livro.

A Ana como não teve o privilégio de conhecer o Padre Felicidade, ficou-se pela análise ao livro. Uma análise muito completa, focando os seus pontos essenciais, realçando a sua importância para quem queira conhecer com mais pormenor a vida do protagonista do "Caso de Belém", no final da década de sessenta do século passado.

Foram ambas bastante elogiosas para o autor. Entre a surpresa da Xaneca e a camaradagem da Ana, como alguém do mundo das letras, conseguiram com que as pessoas que apareceram no Centro Nacional de Cultura, ficassem a conhecer mais coisas sobre o Padre Felicidade e sobre um tempo cinzento que é bom que não volte...

(Fotografia de Ana Sofia Milheiro - Lisboa)


sexta-feira, março 13, 2026

"Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade (cem anos-cem crónicas)"


O livro, "Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade (cem anos-cem crónicas)", da minha autoria, é apresentado amanhã à tarde no Centro Nacional de Cultura por Ana R. Gomes e Conceição Lobo Antunes.

Informamos todos os que queiram estar presentes, que a apresentação se realiza na Sala Fernando Pessoa e a entrada faz-se pelo Largo do Picadeiro.


quinta-feira, março 12, 2026

Um livro especial, cheio de pessoas especiais...


No sábado apresento o último livro que escrevi, "Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade (cem anos-cem crónicas)".

É um livro diferente, porque além de contar a história de uma pessoa especial da minha família, deu-me a oportunidade de "viajar no tempo" (o título não engana...) e ficar a saber mais coisas sobre o Padre Felicidade e a nossa família. Além dos vários episódios com importância histórica que desconhecia e que abordei (sem nunca me esquecer duma palavra demasiado importante, "rigor", fundamental para quem escreve sobre os outros, seja na história seja no jornalismo...), foi possível oferecer um olhar mais pessoal e escrever sobre  as pessoas de quem muito raramente se fala (as personagens secundárias da vida do Padre Felicidade para o mundo exterior, como foram os seus pais ou de uma forma ainda mais "sumida", a minha avó e a minha mãe, por exemplo...).

Ainda não me dei ao trabalho de contar as crónicas de que falo de Salir Matos, a aldeia onde nasci. Sei que são mais de uma dúzia... Claro que não falei de Salir de Matos por ser a Terra da minha família materna e onde passei parte das minhas férias (até quase à adolescência...), mas sim por fazer parte desta história.

É por isso que além da apresentação de dia 14 de Março (16 horas), haverá outra, no dia 28 de Março (16 horas), em Salir de Matos, que está longe de ser menos importante que a que se realiza no Centro Nacional de Cultura...

(Fotografia de Luís Eme - é uma imagem especial, porque estou ao lado da Elisete - esposa do Padre Felicidade -, que ninguém diz que já tem 102 anos, e que nos proporciona momentos muito bons, como este  registado na segunda-feira e que também está muito presente neste livro...)


quarta-feira, março 11, 2026

Não há bela sem senão...


A sabedoria popular diz-nos quase tudo...

Como diria o outro, são milhares de anos a "virar frangos", desde o tempo em que nos vestíamos de peles... O que nos dá uma conhecimento do mundo real, ao ponto de sentirmos necessidade de andar sempre a bater à porta da ciência.

Hoje almocei com a minha mãe e o meu irmão e esqueci-me de lhes falar disto. Sim, quando tudo nos está a correr bem, tem de haver sempre qualquer coisa a correr mal... como se tudo estivesse alinhado com este mundo, para nos mostrar que a perfeição também está cheia de "buracos"...

E nós lá temos de nos aguentar, porque não há mesmo uma "bela sem senão"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, março 10, 2026

Coisas curiosas do "melhor transporte do mundo"...


O comboio já não faz "pouca-terra", "pouca-terra". As janelas das carruagens também já não abrem, muito menos deixam os cabelos a esvoaçar ao vento...

Mesmo assim, continua a ser o melhor transporte do mundo.

No seu interior, as pessoas quase que não falam umas com as outras, preferem comunicar com os seus "rectângulos mágicos", que lhes oferecem notícias, mesmo sem pedirem.

Foi por isso que estranhei as duas miúdas que estavam mesmo à minha frente, que falavam pelos cotovelos e sorriam como se estivessem em casa.

Quando se levantaram para sair, pensei que podia ter dito uma daquelas coisas que nunca se devem dizer: «As coisas que fiquei a saber sobre ti, miúda! Até me contaste que não gostas de azeitonas.»

Falando mais a sério, foi por serem tão raras estas animações humanas, que ofereci estas palavras às duas meninas que têm um mundo à sua frente. Provavelmente muito mais complicado que este em que temos vivido...

(Fotografia se Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 09, 2026

Coisas de um país injusto...



Nem é preciso andar muito atento, para tropeçarmos neste país que faz questão de continuar injusto, para quase toda a gente.

Quando o Rui disse que só a morte é que nos salva. Ficámos todos a olhar para ele.

Depois percebemos...

Falou de todas as honrarias que António Lobo Antunes recebeu, assim que nos deixou.

Um ano antes, quase ninguém falava dele. Uma ou outra pessoa dizia que já não dizia coisa com coisa, mas muito às escondidas.

E continuou a falar de outras pessoas que nos deixaram, que nunca mereceram duas ou três linhas de jornal ou um rodapé na televisão. Até irem desta para melhor...

Para acabar a sua prosa da melhor maneira, disse que somos bons a contrariar o ditado, que nos diz para não deixarmos para amanhã o que pudemos fazer hoje. 

É por isso que somos tão bons a esquivarmo-nos de homenagear uma boa parte das pessoas de valor, quando estão vivas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, março 08, 2026

Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...

 


sou um homem e pinto
 
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema, 
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha 
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.
 
já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.
 
já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.
 
já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.
 
há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça, 
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.
 
hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse, 
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.
 
alice macedo campos

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)