quarta-feira, junho 03, 2020

Este País Quase "Bipolar"...


Embora não me apeteça recordar a ditadura de 48 anos, ela talvez explique esta nossa maneira de ser, de conseguirmos conviver com alguma normalidade, quando somos confrontados com decisões estranhas, e até contraditórias.

Não sei o que se passa nos outros países, quando estamos todos a tentar voltar a ter uma vida quase normal. É provável que em nome da "economia" se façam algumas coisas estranhas...

No nosso caso, nem sequer posso falar de um problema de "economia". Talvez até possa ser um problema de compreensão...

Embora não frequente os estádios e as arenas, não consigo perceber porque razão é que se abrem os centros comerciais à população e se autorizam espectáculos musicais com público, em recintos fechados, ao mesmo tempo que se proíbe a presença de adeptos de futebol nos estádios e não se autoriza o começo da temporada tauromáquica, em espaços abertos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 02, 2020

O que Gostamos de Fazer e o que Fazemos Melhor...


Sempre foi mais fácil descobrir aquilo que gostamos mais de fazer, que aquilo que fazemos melhor.

Deve haver exemplos destes para todos os gostos, nas nossas rodas de amigos.

Lembrei-me deste quase trocadilho ao ver uma cena de um filme, em que havia alguém que cantava, sem muito jeito, mas com muito gosto.

Como acontece tantas vezes, o que vi no filme fez-me "ver outra coisa" e recordar alguém que cantava bem melhor que a actriz... Por ela ser uma daquelas pessoas que gostam de fazer coisas, apenas por gosto, nunca como profissão...

É, tenho uma amiga que canta lindamente, mas nunca quis fazer disso profissão. Escolheu viver a vida longe dos palcos e nunca se arrependeu. De longe a longe encanta-nos com a sua voz magnífica, que não se estragou com os cigarros fumados, nem tão pouco com as bebidas fortes e ardentes, que apesar de serem desaconselhadas a quem usa a voz como instrumento musical, quase todos os cantores bebem...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, junho 01, 2020

O Hábito de se Escrever "Contra Alguém"...


Sei que o mundo dos livros e dos escritores nunca foi das coisas mais recomendáveis.  Noto que a "inveja" e a "maledicência" andaram quase sempre misturadas com as palavras. Não sei se isso acontecia por o mercado ser pequeno, ou se por a "palavra" ter força suficiente, para ser utilizada como arma de arremesso contra os pretensos "inimigos".

É nas crónicas de jornal que reparo com mais frequência na capacidade de alguns autores, que mesmo quando escrevem para dizer bem de alguém, aproveitam, nem que seja numa só linha, para ajustar contas com alguém. Normalmente não são muito directos, enviam recados para a "capelita", que deixam o leitor comum com a "pulguita atrás da orelha", mas sem perceber muito bem a quem se destina a "mensagem"...

Mas os livros de correspondências, também são um bom indicador do tal ambiente estranho que se vivia, quando ser escritor ou poeta, era uma coisa que parecia ter algum prestígio social...

Hoje estas "batalhas de papel" travam-se mais entre jornalistas e cronistas (talvez por haver menos escritores a escrever nos jornais...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, maio 31, 2020

Olhar sem Ver (com o O' Neill e o Nozolino)...


Poucas horas depois da publicação do texto de ontem aqui no Largo, "bati de frente" numa frase do fotógrafo Paulo Nozolino. Além de meter também o Alexandre O' Neill ao barulho, o Nozolino vai um pouco ao encontro do que escrevi por aqui...

Ele disse numa entrevista ao "Público" (Outubro de 2015) o seguinte: «É uma ideia do [Alexandre] O' Neill. Tem um poema muito bonito onde dizia: "E as ruas as ruas onde vi/ O que ainda não sei ver." Este bocado de poema ficou-me sempre na cabeça. Vemos e fotografamos coisas hoje que não nos dizem nada, mas daqui a 20 anos percebemos que está ali tudo. A passagem do tempo é necessária para compreender.»

Claro que é. Eu falei muito das dúvidas que vão crescendo, que também acompanham a tal passagem do tempo e são essenciais para compreendermos, um pouco melhor, o que se passa à nossa volta...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sábado, maio 30, 2020

Descobrir Pequenas Coisas Dia Sim Dia Sim...


Os anos que passam por nós dão-nos muitas coisas, para além daquelas mais físicas, sejam elas exteriores (como os cabelos brancos, as barrigas mais proeminentes...) ou interiores (como as dores musculares ou os castigos do fígado... isto de comer e beber tudo o que nos apetece, não dura para sempre...).

Uma das coisas de que gosto mais neste processo de maturação, é "ter dúvidas".

Se aos trinta achamos que já aprendemos tudo, que somos donos de um saber enciclopédico, sobre isto e aquilo, com o aproximar dos cinquenta, é vida quer ser outra coisa, até é capaz de começar a fazer o "pino". 

O espelho obriga-nos a sorrir ou a fechar o rosto (não reagimos todos da mesma maneira...) e a deitar fora todas as "certezas" que tínhamos. Percebemos que sabe bem aprender coisas novas, ao ponto de darmos importância à descoberta de pequenos pormenores, que permaneceram "invisíveis" anos e anos, mesmo nas ruas que percorríamos quase diariamente. 

Pois é, tanta coisa que a "voracidade dos dias" não nos deixava ver...

Sei que a memória também nos começa a pregar partidas, mas hoje só me apetece pensar na forma como olhamos as "coisas do mundo", que também se vai tornando diferente, para melhor...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, maio 29, 2020

Não Há Milagres...


Todos sabíamos que o regresso das pessoas à vida activa, mesmo com mil e um cuidados, iria provocar o aumento de pessoas infectadas com  o "covid 19". 

A grande dúvida era, se o aumento seria uma coisa controlável, quase residual, sem provocar a existência de qualquer caos, especialmente nos hospitais.

Até ao momento isso tem acontecido. 

Mas claro que era importante que as pessoas respeitassem mais o distanciamento. Fala-se muito dos transportes, onde em muitos casos é impossível respeitar a distância e o contacto entre pessoas (especialmente nas horas de ponta... pois a maior parte dos trabalhadores continuam com os mesmos horários de trabalho), mas devia falar-se também na falta de cuidado  das pessoas nos passeios e nas esplanadas, onde se fica com a ideia de que uma imperial e um pires de caracóis torna os clientes "imunes" a qualquer vírus...

E com o regresso do futebol (muitas pessoas não sabem ver futebol sozinhas...) as coisas terão tendência a piorar...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

quinta-feira, maio 28, 2020

O Jornalista não é Juiz nem Polícia


Quem já fez jornalismo sabe que a tentação de nos metermos dentro da notícia, acaba sempre por aparecer, mais tarde ou mais cedo. É por isso que é muito importante algo que agora está muito em voga, o "distanciamento".

Tal como para os críticos é bom não conhecer os escritores, os pintores ou encenadores, para o jornalista, também é importante ser um mero observador, para relatar essa coisa simples de: o quê, quando e onde (a explicação do porquê e do como, não é menos importante, mas acaba sempre por ser um "pau de dois bicos"...).

Embora seja exigida ao jornalista a mesma veracidade e imparcialidade que se exige ao juiz e ao polícia, este à partida é mais livre e menos pressionável, porque quando faz uma notícia deve-se focar essencialmente nos factos, no que aconteceu, sem ter como objectivo "acusar" ou "prender" alguém. Deve ouvir sempre as "duas partes" de qualquer questão, sem emitir qualquer juízo de valor. Ou seja, pode, e deve, dar voz ao "bandido", que nem sempre é o "culpado" de todos os males do mundo...

Para mim esta é que é a função do jornalista. É por isso que não suporto o "jornalismo justiceiro" e o "jornalismo pistoleiro".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, maio 27, 2020

Jornalismo & Espectáculo


O jornalismo quando se transforma em espectáculo fica sempre a perder, porque as opções editoriais têm tendência a desvalorizar a importância da informação, optando pelo lado mais especulativo da notícia, entrando facilmente em algo que deixa de ser jornalismo e começa a ser outra coisa, mais teatral e polémica. Quase que se pode dizer que o jornalista passa a ser "actor" e a notícia uma "encenação".

Há um jornal e canal por cabo - da mesma família -, que são "useiros e vezeiros" em tornar tóxica qualquer notícia, explorando o seu lado mais sensacionalista, através do uso habitual de "meias-verdades" e "meias-mentiras", com a ajuda dos "comentadores-tudólogos", que percebem tanto de futebol como de justiça, educação ou de saúde...

Infelizmente a RTP e a TVI também têm tido os seus "teatrinhos noticiosos", com as "actrizes" Sandra Felgueiras e Ana Leal. Se a primeira conseguiu "correr" com a directora de informação (Maria Flor Pedroso), não acredito que a segunda consiga fazer o mesmo com o director de informação da TVI (Sérgio Figueiredo). Embora ainda seja cedo para se saber o que acontecerá no final desta "telenovela"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, maio 26, 2020

As Máscaras é que Estragam o "Filme"...


Não é preciso ninguém contar, sente-se...

Quase todas as pessoas precisavam de rua, precisavam de olhar os outros nos olhos, de se sentirem vivas.

Claro que ainda há muito medo... 

Há quem ande sempre de máscara, mal sai de casa. Há quem encha as mãos de desinfectante, de cinco em cinco minutos.

E também há mentirosos.  Sim, gente que diz com orgulho, que nunca usou máscara.  Se isso acontece, é por que neste século XXI ainda há tenha uma "criada" lá em casa, que faz as compras todas...

Claro que as máscaras são uma chatice. Com este calor de praia, só mesmo as máscaras é que estragam o "filme"...  

E também acabam por ser elas, que nos recordam que estamos a "viver outra vida"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

segunda-feira, maio 25, 2020

«Os portugueses não gostam de Cultura»


Como os leitores do blogue já perceberam, ando às voltas com a Cultura, há uma série de dias, aqui no "Largo".

E vou continuar, porque me apetece recuperar uma conversa que teve lugar em 2014, com um amigo que nos deixou hoje, mas que poderia acontecer nos nossos dias.

A páginas tantas, Fernando, desanimado pela fraca aderência das pessoas a algumas actividades culturais desenvolvidas por nós, teve o desabafo: «os portugueses não gostam de cultura». 

Eu lembro-me de tentar desmontar esta frase a dizer que não era apenas uma questão de gosto, mas também de educação. Se os portugueses nunca foram educados a ter um conhecimento profundo do significado da palavra cultura, ou do mundo das artes e letras, seria difícil "saber", "conhecer" e... "gostar" de Cultura. 

Mas havia mais qualquer coisa para além da "educação". Foi por isso que acabámos por virar a conversa para o "não gostar de pensar". E aí estivemos inteiramente de acordo. Percebíamos à légua que "exercitar dos neurónios", estava longe de ser a actividade preferida dos portugueses...  Ele com o seu espírito brincalhão, acrescentou que, se pertencêssemos a um rebanho éramos as suas "ovelhas negras"...

O "covid" roubou-nos pelo menos dois ou três almoços prolongados pela tarde dentro, onde pela certa teríamos falado, entre outras coisas, da actual ministra da Cultura, que tem cometido erros atrás de erros, na forma de distribuir apoios à cultura...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

domingo, maio 24, 2020

Abril Ofereceu-nos a Liberdade de Sermos o que Quiséssemos


Há gente que passa o tempo a "desancar" no 25 de Abril, quase sempre por ignorância e esquecimento.

Antes de Abril havia tanta gente que gostava de escrever, de fazer teatro, de pintar, de cantar e de tocar, mas que o fazia quase apenas em "circulo fechado"...

Claro que havia espaços onde podiam dar largas à sua criatividade, embora fosse tudo "pequenino": quem gostava de escrever podia botar umas prosas no jornal regional; quem gostava de fazer teatro, ou o fazia à frente do espelho ou procurava um grupo amador; quem pintava estava mais limitado e fazia-o quase clandestinamente, pintando e desenhando em papel, papelão e madeira (as telas eram coisa de "ricos"...), quase exclusivamente para decorar as paredes da sua casa ou para oferecer aos amigos; quem cantava tinha mais portas abertas, pois ainda ia tendo uns festivais da canção, promovidos, aqui e ali, que imitavam os festivais televisivos; e quem gostava de música instrumental, inscrevia-se nas bandas filarmónicas, fazendo a sua aprendizagem nas escolas de música.

Acredito que estas pessoas não eram menos ambiciosas que os jovens de hoje... Estavam era de tal modo envolvidas no próprio contexto repressivo do país, que deixavam que este lhes "cortava" as asas e "destruísse" os sonhos...

Abril deu-nos tanta coisa, que fingimos não ver. Até nos ofereceu a liberdade de sermos o que quiséssemos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sábado, maio 23, 2020

Uma Vida Quase Normal...


Antes de aparecer por aqui (e ali...) um "malvado", que nos roubou uma série de prazeres colectivos, como era o beber café à mesa, com tempo para conversar... ou o "luxo" de prolongar o almoço por três horas, não pelo prazer da comida, mas sim da companhia... A vida era quase normal.

Depois de escrever sobre teatro, lembrei-me que tenho falado ao telefone com um dos amigos com quem almoçava semanalmente, que é actor - amador - quase desde que se conhece, e que só não deu o "salto para o outro lado" por que se apaixonou ainda na adolescência pela mulher da sua vida. E um bom casamento e um bom emprego revelaram-se mais importantes que a incerteza da vida nos palcos...

Mas o amor ao teatro continuou sempre lá. Ele gosta tanto de representar, que o seu lado cénico aparece quase sempre no meio das conversas (às vezes em momentos-chave para desanuviar alguns excessos verbais...), com palavras, sorrisos e meneios do corpo... Isso acontece sempre de uma forma natural, como se o "actor" também quisesse almoçar connosco.

Por vezes fico com a sensação de que ele não tem a noção da sua qualidade artística, tal é a sua simplicidade humana. Mesmo que ele seja das raras pessoas que basta subir ao palco (mesmo sem dizer nada...) para conseguir "ofuscar" todos aqueles que já lá estão, debaixo dos holofotes.

Já lhe perguntei se ele não se arrepende de nunca ter aceitado um ou outro convite para "representar a sério" (uma coisa que ele sempre fez...). Ele diz-me que não. Sempre se sentiu feliz em ter uma vida quase normal...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)