quarta-feira, abril 15, 2026

Isto de gostar de olhar para aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga...


A minha filha assim que entrou em casa avisou-me logo para ter cuidado, porque houve um "passeador de cães" que deixou o seu "mais que tudo" a "libertar o prisioneiro" mesmo à nossa porta (ainda apanhou a grade-tapete da entrada...).

Como a minha Sofia sabe que olho para todo o lado menos para o chão, e que sou um tipo "cheio de sorte" (houve alguém que inventou esta patranha, de que pisar "merda" dá sorte...), fez com que pensasse logo que: "isto de gostar de olhar para  aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga..."

O mais curioso, é que nem me apetece catalogar a personagem que "educa" o seu "bebé" a preferir a pedra da calçada do passeio ao espaço verde meio abandonado que fica a menos vinte metros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 14, 2026

«Sou um escritor de livros invisíveis»


Quando ouvi um amigo que escrevia livros, dizer, «sou um escritor de livros invisíveis», não o levei a sério.

Talvez por nesse tempo ainda existirem bastantes leitores de livros...

Apesar dos todo o optimismo de alguns editores, de que hoje há mais leitores e que se vendem mais livros, sei que são apenas mais duas mentiras, para juntar a tantas outras, deste nosso tempo. Tempo que perdeu a capacidade de olhar para dentro e para fora de si, e de se interrogar sobre o seu verdadeiro papel nesta bola cada vez mais achatada...

Hoje percebo melhor este meu amigo, por também eu ser "escritor de livros invisíveis"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, abril 13, 2026

As guerras das mulheres são diferentes das guerras dos homens...


Continuo à espera de um  mundo onde as mulheres consigam alcançar o poder, de uma forma natural, propensas a cometer erros, mas erros diferentes dos que são cometidos pelos homens...

Estou farto das mulheres que quando chegam a cargos de poder se transformam em "homens", sem precisarem de fazer qualquer mudança de sexo. Simplesmente se limitam a continuar a seguir a cartilha masculina de sempre, a exercer o poder como se tivessem uma pila entre as pernas.

Sei que em muitos aspectos, o maior adversário das mulheres nas últimas décadas, têm sido as próprias mulheres, por não conseguirem (ou não quererem...) sair deste registo masculino.

Embora agora até tenhamos mulheres especialistas em guerra, que falam com a mesma desenvoltura dos homens sobre armas e tácticas, nas notícias que abordam a realidade como se ela fosse quase uma ficção, continuo a acreditar que as suas "guerras" são muito diferentes das dos homens...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 12, 2026

A política caseira e as viagens até à Lua...


Pensava que era possível falar de política (sei que com o futebol ainda é pior...), de uma forma descontraída, sem termos necessidade de nos afastarmos uns dos outros, num jantar mais alargado de família.

Estava enganado. Continuam a existir temas demasiado "quentes", tanto à esquerda como à direita...

A primeira discussão começou em relação ao Livre, que a minha filha chamou de um "partido capitalista", apenas por não ser contra a iniciativa privada. Claro que ninguém concordou. Confunde-se muito democracia com outras coisas...

Mas o pior estava para vir depois. Um tio disse que o Chega não era um partido de extrema-direita. Toda a gente o contrariou. Apenas eu o "defendi", dizendo que não sabia se este partido tinha ideologia, para além do populismo, de ser capaz de dizer uma coisa agora e cinco minutos o seu contrário.

Claro que houve alguém de cabelos cinzentos e sorriso fácil, que teve a habilidade de mudar de conversa, falando da "Lua". Até foi capaz de dizer que depois do homem ter chegado ao nosso satélite lunar, pensava que por esta altura já seria normal viajarmos até lá, de forma regular...

Felizmente não havia nenhum "negacionista" à mesa e a refeição continuou animada.

(Fotografia de Luís Eme - Céu)


sábado, abril 11, 2026

Achei delicioso alguém me contar que "lia para acordar"...


A expressão mais comum que se ouve, na relação que existe entre os livros, as pessoas e as camas, é "ler para adormecer".

Estava farto de saber que quem vive sozinho pode fazer coisas diferentes de que quem partilha casa com outras pessoas. 

Mas mesmo quando vivemos com os outros, podemos ter um quarto, que é quase como um de hotel, com a porta fechada para o exterior. Acho que hoje isso acaba por ser levado ao extremo pelos nossos filhos, que passam demasiado tempo fechados na sua "divisão de hotel"...

Mas não é sobre isso que quero falar. Até porque, como já perceberam pelo título, é de livros que se trata a conversa.

Livros e leitores. Às vezes lembro-me de ter passado a noite toda a ler (deve-me ter acontecido apenas duas ou três vezes...), quando vivia sozinho e quando um livro (desses que são cada vez mais raros...) me pedia para ser lido da primeira à última página.

Mas a história que vos vou contar é outra. A Zé costuma acordar demasiado cedo, a horas quase indecentes, como seis e meia da manhã. É então que resolve "ler para acordar"...

Sorri quando ouvi a expressão. Sei que todos os leitores que têm livros na cabeceira, já o fizeram, uma ou outra vez. Mas achei delicioso alguém me contar que "lia para acordar"...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


sexta-feira, abril 10, 2026

As pessoas com quem me cruzo nas ruas de Almada...


A cidade não está deserta, muito menos despovoada. Está apenas diferente, porque tem habitantes diferentes.

Pessoas que chegaram de fora, que trazem normalmente os seus hábitos e as suas culturas coladas à pele. Muitos deles, se não forem pessoas curiosas, ficarão a saber poucas coisas da nossa história e cultura. Nem tão pouco  irão alterar muitos dos seus hábitos, por viverem fechados nas suas comunidades. 

Acredito que as mudanças só acontecerão com os seus filhos e netos, que ficarem... e que se sintam ligeiramente portugueses. 

Se forem bem integrados (o que nem sempre acontece, porque as crianças estão longe de ser "a melhor coisa do mundo" e nem sempre tratam bem outras crianças... E se seguirem os maus exemplos dos adultos lá de casa, tudo piora...), poderão ser parte do nosso futuro...

Apesar de termos sido "colonizadores" diferentes dos ingleses, franceses ou holandeses, não foi por isso que fomos menos racistas que eles.

Nem sei se algum dia deixaremos de ser "racistas" ou outras coisas com esta terminologia... porque mesmo entre nós - a gente de pele cor de rosa -, nunca irão acabar as pessoas que pensam que "têm mais direitos e mais importância", que o vizinho do lado. Não lhes basta ter um carro ou uma casa melhor, querem sempre mais e mais...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, abril 09, 2026

A perda do sentido de comunidade e a precariedade reinante...


A sociedade está organizada de uma forma que valoriza cada vez menos o sentido comunitário, a importância do outro, seja na escola, no bairro ou no trabalho.

Penso que isso tem muito a ver com o sistema político e económico que "comanda", cada vez mais, as nossas vidas. 

O capitalismo tem conseguido "capturar", de uma forma inteligente, muitos dos valores que lhes podiam fazer frente, sobretudo os colectivos. É também por isso que tem conseguido "secar" instituições como os sindicatos, que normalmente funcionam como um obstáculo aos seus objectivos, já que a sua função primordial deve ser a defesa os interesses dos trabalhadores.

Isto deve-se muito à precariedade do trabalho. Estares a prazo em qualquer lugar faz com que a tua adesão a qualquer tipo de protesto, por muito justo que seja, possa conduzir ao teu despedimento. 

É esta mesma precariedade que faz com que as pessoas sejam educadas e vivam neste sistema que alimenta o "cada um por si", fazendo com que se acredite cada vez menos na importância dos valores colectivos. Quem entra no mercado de trabalho, rapidamente percebe que a maior parte das pessoas que estão à sua volta, estão mais preocupados com o seu umbigo e a sua vidinha, que em ser solidário ou combater o sistema injusto que está instituído...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 08, 2026

Marcas de um tempo que não nos deixou saudades...


Prestei hoje homenagem a um grande associativista almadense no meu "Casario" e acabei por ficar a pensar num dos vários malefícios da pandemia: o roubo das ruas a uma grande parte de pessoas que já tinham ultrapassado os oitenta anos.

Sim, houve muitas pessoas que não voltei a encontrar nos cafés e esplanadas de Almada, porque aqueles dois anos que os obrigaram a estar fechados em casa, alteraram-lhe completamente as rotinas, além de também lhe diminuirem a capacidade física, já de si frágil...

O pior, é que muitas vezes só sabemos que já não estão entre nós, algum tempo depois de nos deixarem...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, abril 07, 2026

Continuar a andar por aí com livros na mão...


Normalmente não ando com livros na mão, quando os levo comigo para me fazerem companhia de viagem (às vezes mesmo as curtas de cacilheiro...) vão na mochila. Não vou tão longe como o Henrique, que achava que as pessoas que usam o livro quase como adereço, eram mais "passeadores" que "leitores" de livros.

Mas achei que devia escolher este título, por me apetecer continuar a falar de autores antigos, nem sempre bem considerados. O primeiro nome que me veio à memória foi Alves Redol, que o mestre Lagoa Henriques despiu na sua estátua de Vila Franca de Xira (a pensar na sua escrita e na forma como sempre tentou viver, livre de preconceitos e das "roupas" que queriam que vestisse, mesmo que estas não lhe servissem...).

Junto à conversa uma das localidades que mais gosto (mesmo sem nunca lá ter vivido, foi apenas lugar de trabalho transitório...), a Vila Franca de Redol e de tantos outros homens da cultura e da resistência antifascista. Não esqueço que foi graças às viagens de comboio entre Santa Apolónia e esta local ribeirinha, que voltei a ler com paixão e a sentir vontade de escrever com se fosse "escritor"...

Recordo-me de ler algumas opiniões pouco abonatórias sobre a forma como escrevia, vindas da gente do mundo  dos livros. Nunca concordei. E estou à vontade para o escrever, porque nunca estive muito afastado dele, fui lendo os livros da sua autoria que me iam chegando às mãos. Iniciei-me com o "Constantino, guardador de rebanhos e de sonhos", ainda nos primeiros anos de liberdade, por ser leitura obrigatória no ciclo. Só o voltei a ler no tal regresso às leituras apadrinhado pela terra que sempre foi mais que de "touros ou toureiros" - como era identificada com alguma brejeirice -, com os "Gaibéus". Uma década depois li o seu grande livro, "Barranco de Cegos", um dos melhores do século XX (na minha opinião, claro). Alguns livros depois da sua autoria e já em 2021, li a "Fanga", que também não foge (e muito bem...) do Ribatejo e da vida difícil  das pessoas.

É provável que exista neste gostar, algum parcialismo, por saber que foi um grande ser humano e também por conhecer o seu filho António, que não lhe fica atrás...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)


segunda-feira, abril 06, 2026

Faz-nos muita falta ler coisas que nos façam pensar...


Há muitos anos que não lia um livro de Jorge Amado (provavelmente, há mais de trinta...). No início estranhei aquela forma "crescente" de agarrar o leitor à história, de quem não está preocupado em prender o leitor logo no primeiro capítulo, mas depois vamos ganhando confiança com as personagens e por ali ficamos até à última página. Foi assim com este "Terras do Sem Fim".

Mas não é sobre isso que quero falar, aliás escrever. Ao ler estes romances que falam sem rodriguinhos da vida das pessoas num tempo que parece estar a voltar, em que se volta a desvalorizar a vida humana e se cresce socialmente pisando e matando os outros, fico a perceber o quanto são importantes os livros que falam com crueza sobre a vida e sobre as pessoas. São eles que nos ajudam a abrir os horizontes em relação a este "novo-velho" mundo que nos cerca...

Podem ser histórias do século XIX, princípios do século XX, mas percebe-se que podem ser facilmente transpostas para o período actual que estamos a viver no século XXI. Sim, tanto Trump como Putin ou Netanyahu, podem muito bem ser comparados com os "coroneis" dos romances de Amado, pela forma como não respeitam as leis (o "Direito Internacional" tornou-se uma anedota...) e se tentam livrar dos inimigos políticos.

Faz-nos falta voltar a ler livros (ou até reportagens de revistas e jornais...), que nos façam pensar e sentir que pode existir um outro mundo, melhor para todos nós. Um mundo distante destas "matanças diárias", que só estão a acontecer pela ambição humana doentia e desmedida provocada pelo poder.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 05, 2026

A Páscoa, as tradições e a arte


A Páscoa e o Natal, apesar da "invenção" das amêndoas e do pai natal, continuam a ser marcos fortes do cristianismo.

Nota-se isso através das tradições religiosas que se mantêm, ano após ano, com a realização de inúmeras procissões em várias regiões do país, que recordam os últimos dias de Jesus de Nazaré, na sexta-feira Santa (de forma diversa), assim como as festividades do domingo de Páscoa, em que se aviva e festeja a ressureição de Cristo.

Também na arte, Jesus surge representado de inúmeras maneiras, seja na Última Ceia com os seus apóstolos, seja crucificado (cujas reproduções mais populares fizeram parte da decoração de muitos lares, durante o século vinte...).

Não fazia ideia de que Pablo Picasso também tinha pintado o seu "Cristo Crucificado", ainda no século dezanove (1897), com que ilustramos estas palavras.


sábado, abril 04, 2026

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»


Embora ainda estivesse a alguma distância dos oitentas, sabia que era uma idade complicada. Além das doenças que apareciam, quase do nada, havia também algumas coisas que começavam a funcionar mal, outras deixavam mesmo de funcionar...

Tinha à minha volta pessoas que me lembravam desta perda de faculdades, desde a minha mãe ao Chico. Mas as queixas deles eram mais físicas que intelectuais (e ainda bem...).

Sento-me menos vezes na esplanada do café da minha praça, porque raramente encontro alguém conhecido, com quem possa trocar algumas palavras. Desta vez apeteceu-me ficar um pouco por ali, à sombra, a beber café a ver quem passa.

Foi quando um senhor com quem não falava há uns dois, três anos (ou mais que agora o tempo também começa a passar a correr por mim...), me perguntou se se podia sentar. Claro que podia, e devia.

Com o tempo fui percebendo que tinha muitas falas guardadas, por não ter pessoas que gostassem de livros por perto. Foi por isso que foi falando mais do que eu. Até me contou que às vezes tinha saudades de escrever um poema, mas as palavras já não lhe saiam da cabeça, há muito tempo. Mas disse isto sem qualquer mágoa.

Depois disse-me que tinha uma coisa boa para me contar, acrescentando: «Boa para mim, claro.»

E depois contou-me que a leitura deixara de lhe dar o prazer de outros tempos. E estava reticente em voltar aos "autores da sua vida" por um "medo" que nem é assim tão estranho no seio dos leitores.

Mas encheu-se coragem e lá voltou a ler um dos vários livros de Camilo Castelo Branco que nunca lera. Sentiu-se muito reconfortado, por encontrar o Camilo de sempre. Sorriu quando me disse:

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)