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terça-feira, janeiro 28, 2025

Há uma parte rural que não sai dentro de mim...


Estava a ler uma entrevista, que fez com que pensasse, logo naquele momento, nas minhas memórias. Embora fossem muito diferentes das do entrevistado, era sobretudo disso que tratava aquela conversa...

Fiquei a pensar, que, mesmo vivendo sempre na cidade, tinha muito presente dentro de mim, todo o espaço rural. A aldeia, as fazendas e toda aquela outra forma de vida, diferente, artesanal em quase tudo, continuavam vivas, sem que eu conseguisse encontrar uma explicação para isso, até por na época, não gostar nada daquilo (desde o trabalho duro à própria gastronomia, que o meu irmão adorava. Ainda hoje diz que gostava mais da comida da avó que da mãe, ao contrário de mim...). 

Claro que sei que tudo isso se deve à minha vivência, desde a infância, na casa dos avós maternos. Uma boa parte das férias grandes eram passadas lá... Mas também percebo que há coisas que fazem parte de nós (desde sempre, mesmo que não se dê por isso...), que tanto podem já ter nascido connosco, como terem sido adquiridas, sem nos apercebermos. Até porque existem vários estudos no campo da psicologia e da psiquiatria, que explicam que o que se viveu na infância, é essencial para o resto das nossas vidas...

O que sei, é que mesmo sendo, naturalmente, urbano, há uma parte rural muito importante dentro de mim. É ela que determina que goste tanto do contacto com a natureza, que pudesse viver com facilidade sem o conforto das cidades. E claro, tenha tantas memórias dos campos...

Parece contraditório, mas não é. Nós somos sempre mais que uma coisa.

Mesmo que saiba que não é verdade, fico por vezes com a sensação de que aprendi mais coisas, durante estes curtos períodos de férias, que na escola...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


sábado, setembro 28, 2024

«As estradas foram feitas ao contrário das pessoas e ainda bem»


Às vezes escutamos coisas, ditas por gente simples, que nem sempre entendemos, pelo menos às primeiras.

Foi o que sucedeu quando um dos amigos do tio, a propósito de uma "birra" de um terceiro amigo, disse: «As estradas foram feitas ao contrário das pessoas, e ainda bem.» 

Ao perceber que não tínhamos entendido a mensagem, o Armando traduziu-a quase por miúdos: «As estradas têm sempre mais quilómetros em rectas que em curvas. As pessoas, dentro delas é ao contrário, só têm curvas e contracurvas...»

Escutei estas palavras, simples e sábias, há uma boa dúzia de anos. Recordei-as, poucos minutos depois de dizer uma coisa com um sentido e ela ter sido entendida com outro...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


segunda-feira, abril 08, 2024

«Sei que se tivesse estudado, estudado a sério, fazia filmes...»


Quase do nada, o velho que estava ancorado no banco ao pé da minha casa, disse: «Sei que se tivesse estudado, estudado a sério, fazia filmes...»

Ele não me disse aquilo como se estivesse no "muro das lamentações", mesmo que não escondesse que gostava de ter tido as possibilidades que outros tiveram... E antes que lhe fizesse alguma pergunta acrescentou: «Gostava de ter nascido em Lisboa, a Terra das salas de cinema.»

E depois assisti, em poucos minutos, à "história da sua vida"...

Foi a tropa que o trouxe do distrito da Guarda para a Capital. Assim que se apanhou em Lisboa, soube que nunca mais ia regressar para a aldeia onde nasceu. A família? Se tivessem saudades que viessem vê-lo a Lisboa... Foi deixando o tempo passar e esteve quase quatro anos sem pôr os pés na Terra onde nasceu. Casou e só quando foi pai pela primeira vez, é que decidiu que já era tempo de voltar, para mostrar a filha aos pais. A partir daí voltou mais vezes, mas fingia que vivia na América e só aparecia de dois em dois anos, e eram visitas quase mais curtas que as de médico.

Deixou a família e a aldeia para trás, porque o que queria era voltar ao cinema...

Não sabe quantos filmes viu. Sabe apenas que foram muitos, muitos... Ainda hoje, a única coisa que o prende à televisão, são os filmes, até mesmo aqueles que se adivinha o fim logo no princípio...

Quando lhe perguntei se alguma vez teve uma câmara de filmar, disse-me que não. Sorriu e disse, que não foi esse pequeno pormenor que o impediu de fazer "filmes", dentro da sua cabeça, de olhar para as coisas e deliciar-se com o movimento, com a possibilidade de inventar um mundo diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 03, 2024

Um Outro País, a 3 de Abril de 1974...


Nem sei por onde começar.

O País que existia a 3 de Abril de 1974, não tem nada a ver com este, em que vivemos, em 2024.

Onde se notavam mais diferenças era nas Aldeias, especialmente as das regiões do interior. Era um mundo vivido "à luz do candeeiro e à água do chafariz". Do saneamento básico nem vale a pena falar, porque só chegou a algumas aldeias, e já no século XXI...

Mesmo na aldeia dos meus avós maternos, que ficava a apenas a cinco quilómetros das Caldas da Rainha, já existia electricidade antes da Revolução, mas não em todos os lares. Como o meu tio Zé, estudava electricidade, na escola técnica, assim que esta apareceu em Salir de Matos, ele fez logo a instalação e passámos a ter "luz" (deve ter sido alguns anos antes do 25 de Abril, porque eu não me lembro da casa dos avós sem lâmpadas...), Mas recordo-me de visitar algumas casas de outros familiares (afastadas do centro da Aldeia) e de não existir luz eléctrica. Adorava o espectáculo proporcionado pelos candeiros a petróleo, com verdadeiros jogos de sombras  refletidos nas paredes, graças aos nossos movimentos. Sei que andava sempre de um lado para o outro com o meu irmão a ver a nossa sombra a crescer e a diminuir nas paredes (quando somos crianças brincamos com tudo...).

A água canalizada só deverá ter chegado a todas as casas, já nos anos noventa do século passado. Isso até se percebe, por o Oeste ser uma zona muito rica em água e quase toda a gente ter um poço. 

É curioso, que o chafariz onde se ia buscar a água para beber, da bica, com cântaros, hoje tenha um aviso, de que aquela água não e tratada e recomenda-se que não seja bebida,,,

Em relação ao saneamento, também deverá ter chegado nos anos noventa à aldeia, mas uma boa parte das casas, ainda mantêm o velho sistema da "fossa" (uma espécie de poço...).

Mas se falar da aldeia dos meus avós paternos, na Beira Baixa (Zebras), as coisas mudam de figura, para pior. Lembro-me, já depois do 25 de Abril, de a electricidade ainda não ter chegado. Havia uma única televisão na aldeia,  no também único café existente, que tinha um gerador para lhe fornecer energia... 

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos)


terça-feira, novembro 21, 2023

Memória das palavras da Augusta "Maluca" (cheias de sabedoria...)


Chamavam-lhe Augusta "Maluca" e foi das poucas pessoas da aldeia a ultrapassar os cem anos, ainda que por pouco tempo.

Já muito curvadinha, aquilo que menos gostava era de depender dos outros, foi por isso que nunca deixou de viver na sua casa, que ficava ao lado da de um dos seus filhos. O mais curioso, é que apesar de se dizer raios e coriscos dela, sempre se deu lindamente com a nora, que a recorda com um misto de saudade e emoção, por ser uma daquelas mulheres que nunca deixou de dizer o que pensava, mesmo quando tal era quase proibido.

Por ter jeito para a costura, era muito procurada na aldeia para fazer vestidos e até fatos de homem, mesmo para gente que vivia fora. O seu humor, que se confundia com a "má língua", era conhecido por todos, mesmo que nunca falasse da vida de ninguém. Falava sim, da vida de todos, em geral. Mesmo sem ter qualquer noção política, sabia, e dizia, para quem a queria ouvir, que o mundo estava muito errado, nunca iria perceber porque é que uns tinham tudo e outros tinham nada. 

Mas a sua coragem também era física. Não podia ouvir falar de padres e de religiões, porque na adolescência o padre da aldeia tentou colocar a mão onde não devia. Reagiu de imediato, dando-lhe um empurrão, deixando o padre caído no chão da igreja. No dia seguinte ele andava com o braço ao peito e cabeça baixa. Foi apenas mais uma das histórias da Augusta que correu mundo, e que foi exemplar para todas as jovens mulheres das redondezas.

Onde eu já vou e só queria falar de uma frase que lhe é atribuída, quando nas férias grandes, um dos netos estava triste, porque os pais de um miúdo da cidade tinham-no proibido de brincar com ele. Augusta não foi de modas e disse-lhe: «Não te preocupes filho, eles são ricos mas têm todos cara de parvos e pele cor de rosa como os porcos.»

Não sei se a frase correu mundo, sei apenas que chegou à minha cidade e nos deixou a todos com um sorriso no rosto.

Sempre existiram pessoas assim. Agora é costume dizer que "são fora da caixa", mas noutros tempos, eram apelidados de "malucos", por dizerem sempre o que pensavam, por muito que chocasse quem os rodeava.

Não é por acaso que, ainda hoje, quando se referem a esta Senhora, a tratam como a Augusta "Maluca"...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


domingo, março 24, 2019

Beber Café na Trafaria...


O Sol do começo da tarde convidava a sair de Almada.

Pensámos que não devia ser muito boa ideia ir até à Costa de Caparica, por já haver muita gente à procura de praia. Sabíamos que iríamos ter dificuldade em estacionar o carro.

Foi por isso que acabámos por passar pela Trafaria, que até estava em festa, no fim de semana.

Bebemos café e ficámos por ali, a ver as vistas. Comentámos que a Vila era  cada vez mais uma "aldeia"...

Ideia que foi reforçada quando subimos a uma espécie de miradouro e olhámos as vistas da Trafaria, de cima para baixo, já com a companhia das nuvens.

O seu perímetro urbano é o mesmo de há cinquenta anos (mas muito mais envelhecido...). Se há lugar por onde não passou a Revolução de Abril, foi nesta bonita "varanda" para o Tejo...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Margens do Sul...


Há sítios que consideramos especiais, mesmo sem nunca lá termos vivido. O lugar mais perto de Almada no qual experimento essa sensação, é o Seixal.

Podia começar por falar do esplendor de toda aquela baía, que felizmente nunca foi "estragada" pelos políticos e empresários, que gostam muito de "roubar" aquilo que devia ser de todos e para todos. Mas acho que não é apenas isso.

Sinto nas suas ruelas que há ali algo de "aldeia", de "povo", que não encontro, por exemplo, em Almada (talvez o "Pragal velho", já a querer desaparecer, seja o espaço menos urbano da cidade...).

Claro que este aspecto que me agrada, desagradará a pessoas mais cosmopolitas.

É sempre assim, cada um de nós olha para as coisas com os seus olhos e com a sua "alma"...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, agosto 30, 2018

A Aldeia Mais Florida de Portugal...


Entre o acaso e a curiosidade visitámos a "Aldeia mais Florida de Portugal", Pereiro, no Concelho de Mação...

E de facto, toda a aldeia estava com as ruas cobertas de flores (trabalho artesanal admirável feito com sacos de plástico). E foi assim entre 23 e 26 de Agosto.


Esta rua deve ser de simpatizantes do Benfica, que ontem honrou no nosso país na Europa do futebol.


E esta foi uma das ruas que achámos mais curiosas, pela cor e pelo bom gosto. 

Acabámos por ficar rendidos a este Pereiro florido, entre o Ribatejo e a Beira Baixa, pela beleza ocasional da povoação e pelo labor dos seus habitantes...

(Fotografias de Luís Eme)

quinta-feira, agosto 16, 2018

A Descoberta de uma Nossa Senhora Singular


No dia 15 de Agosto assisti a uma procissão cuja padroeira é a Nossa Senhora da Cabeça.

Segundo algumas vozes que fui escutando, a Senhora protege os crentes das doenças da cabeça... 

Achei a imagem desta Nossa Senhora bonita, apesar da particularidade de trazer numa das mãos uma bandeja com uma cabeça...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, maio 29, 2018

Aquela Gente, Parada no Tempo...


O mundo continua a ter mais que uma velocidade, tal como o nosso país... ainda tão desigual, apesar de todas as modernices. Achei curioso, que num tempo em que quase toda a gente se delicia com o facebook, mesmo em lugares quase remotos, haja algumas coisas que não mudam, provavelmente por conveniência de ambas as partes...

Senti aquela pequena cidade de província como quase uma aldeia. Claro que aqueles velhos hábitos podiam ser vividos só naquela rua, naquele bairro. Mas mesmo assim senti-me mais surpreendido que deslocado, ao perceber que naquele café, praticamente só com homens, que usavam todas as palavras,  com mais ou menos sujidade, animadamente, enquanto acalmavam o estômago com tremoços, amendoins  e minis. Só o tema de conversa era demasiado previsível, o Sporting, que era vivido com demasiada paixão por aqueles lados.

O meu "guia" ao perceber a minha surpresa por viajar no tempo, de regresso ao século XX, perguntou-me se queria visitar o salão de chá, onde estava a outra "metade" do bairro, Teve o cuidado de me informar que por lá a conversa era outra, não menos interessante. Sim, as mulheres falavam  dos episódios das telenovelas, e sobretudo, da vidinha interessante das "ausentes"...

Disse-lhe que não, enquanto também refrescava a garganta com uma imperial e ouvia os palpites sofridos daqueles homens, aparentemente com "corações de leão".

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, novembro 18, 2017

«Qual casa, quais livros, quais quadros?»

As pessoas mais próximas ainda não perceberam até que ponto o António ficou afectado com a fogueira grande que deixou a casa de campo apenas com as paredes.

A Ana anda preocupada e diz a todos os amigos que o companheiro não anda bem. Tudo porque quando alguém lhe "quer medir o pulso", para saber coisas que ele desistiu de quer saber e lhe faz perguntas sobre tudo o que aconteceu, ele com um sorriso nos lábios diz: «Qual casa, quais livros, quais quadros?»

Com os amigos mais próximos vai mais longe nas explicações: «Há muito que a casa precisava de uma remodelação. Nos últimos anos foi tratada como "depósito de lixo", levávamos para lá o que não nos fazia falta. Os móveis que não queríamos, as roupas que não usávamos, os livros que não líamos e os quadros que não cabiam nas paredes. Agora voltou tudo ao início. Vai voltar a ser a casa dos primeiros tempos, quando acabarem as obras.»

E vai ainda mais longe no seu sorriso: «Talvez volte a ter tempo de pegar na viola no quintal e tocar para os pássaros.»

Mesmo assim desconfiam da sinceridade das suas palavras. Não compreendem que ele seja capaz de dizer, «Voltar atrás para quê?», um lugar comum que é título de livros e de filmes, mas que é a melhor solução para se conseguir continuar a andar em frente, sem andar com os bolsos cheios de "fatalidades". 

Não sei se é o facto de ser homem (com um bom poder de abstracção - que há quem chame capacidade de "fugir dos problemas"...), que me leva a compreender o António. Sei que o que ele quer dizer é que há coisas mais importantes que os objectos que vamos guardando pela vida fora, por muito que façam parte das nossas memórias...

(Fotografia de Tarlé Dominique)

segunda-feira, outubro 16, 2017

Um Domingo para Esquecer (ou para Lembrar...)

Dizem que a partir de hoje as temperaturas vão baixar, de uma forma significativa. Espero que sim.

Ontem assistimos à pior despedida possível deste "Verão", que conseguiu chegar até meio de Outubro, com o domingo a ser classificado como o pior dia do ano em matéria de incêndios.

Já todos descobrimos que o tamanho do nosso país não é proporcional à maldade, à inveja e à estupidez dos imensos portugueses que se "maravilham" a pegar fogo ao país...

A minha filha, do alto da sua sapiência de 13 anos, perguntava-nos ontem, como era possível existirem num só dia mais de 440 fogos (que provocaram dez mortos e mais de três dezenas de feridos), num país tão pequeno como o nosso. Portugal devia estar todo a arder, concluiu ela.

Expliquei-lhe que muitas vezes existiam dois e três incêndios na mesma mata, que se iniciavam em lugares diferentes, provocados por bandidos, que adoravam tornar a vida dos bombeiros e das pessoas, ainda mais difícil e complicada...

Doa a quem doer, a partir de 2018, tem de haver uma solução para a nossa floresta, e também para esta gente difícil de classificar, que no mínimo são demasiados "pobres e tristes"...

(Fotografia de Arménio Belo - Lusa)

sexta-feira, junho 30, 2017

Tentativa Fugaz de Regresso às Férias Grandes e a um País Rural Povoado de Cheiros e Cores...


Tínhamos prometido não falar dos incêndios nem de políticos suicidários. E não falámos.

Só que fomos traídos por uma terceira pessoa alheia às "nossas combinações"...

Olhámos um para o outro e assim que pudemos fomos mudando de assunto.

Foi a Rita que me transportou para uma parte considerável das férias grandes passadas na aldeia dos avós maternos (só escapavam os 15 dias de praia habituais, nos primeiros anos em Salir do Porto e Baleal e depois na minha Foz do Arelho...).

Aldeias sem água canalizada, com a luz eléctrica a não chegar a todas as casas e sem saneamento e até casas de banho...

Embora sempre me lembrasse da casa da avó com luz eléctrica (foi das primeiras pessoas da aldeia a ter esta modernidade, graças ao tio Zé, electricista...), adorava visitar de noite a casa dos Antunes, ainda iluminada pelos candeeiros de petróleo, por todo aquele jogo de sombras digno de qualquer palco, desde os corpos que se agigantavam nas paredes aos rostos que quase se tornavam fantasmagóricos, por serem iluminados por pontas.

O mais curioso é que todos tínhamos boas memórias do campo, que cheirava muito mais a liberdade que as praias (cheias de histórias de "fundões" e "correntes assassinas"...).

Claro que a terceira pessoa era insistente e daí a nada lá estava ela a dizer que as fazendas agora era mato e era por isso que o país ardia tanto no Verão.

Eu e a Rita ainda fizemos mais um esforço, inglório, para mudar de conversa, mas apareceram mais duas pessoas e como estavam com uma vontade terrível de colocar uma corda no pescoço no pretenso líder da oposição, fomos fingindo que ouvíamos ao mesmo tempo que trocávamos olhares de cumplicidade...

(Óleo de August Macke)

segunda-feira, março 20, 2017

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.»

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.

Muito menos da gente que as habita  e que gosta de espreitar à janela, do lado de lá dos cortinados, mesmo que depois me ofereça sorrisos, metidos dentro do bom dia ou boa tarde.»

Eu olhei-a com um sorriso e disse:

«É por isso que vives numa grandes metrópole, sem bairros e sem gente que se preocupa um bocadinho mais que a conta com a tua vida.»

«Provavelmente...» Foi a tua resposta.

(Fotografia de Luís Eme - estes telhados do Olho de Boi não têm nada que ver com a terra em questão)

quarta-feira, agosto 31, 2016

A Nossa Senhora do Loreto de Alcafozes

É costume dizer-se que onde existe uma Nossa Senhora existe um milagre. Talvez Alcafozes e a Senhora do Loreto sejam a excepção que confirma a regra.

Há quem diga que a imagem da Santa foi abandonada pelas tropas napoleónicas e que posteriormente foi erguida uma Ermida no local. Sabemos apenas que depois da Senhora do Loreto ter sido declarada pelo papado em 1920 como Padroeira Universal da Aviação, alguém teve a feliz ideia de erguer um Santuário nesta aldeia da Beira Baixa.

E todos os anos, no final da festa em honra da Senhora do Loreto (que se realiza no último fim de semana de Agosto), na segunda-feira de manhã, se realiza uma procissão que conta com a participação e apoio da Força Aérea e de inúmeras companhias e tripulantes da aviação civil.

Nesta fotografia além da Nossa Senhora do Loreto é possível ver uma das aeronaves que deu vida aos famosos "Asas de Portugal" (T 37), que depois de deixar de voar e fazer acrobacias foi oferecida ao Santuário.

(Fotografia de Luís Eme) 

terça-feira, agosto 30, 2016

Um Exemplo de Profissionalismo


Fui passar mais um fim de semana à Beira Baixa, desta vez porque era tempo de "Festa" em Alcafozes, onde sou, e quero ser, pouco mais que um visitante anónimo.

Se excluirmos a procissão de segunda feira de manhã em honra a Nossa Senhora do Loreto, o momento alto dos festejos acabou por ser a noite de sábado com a visita dos GNR.

Talvez tenha sido a "crise" ou a "concorrência", cada vez mais feroz, neste "mundo" cheio de cantores e cantoras, de primeira, segunda, terceira e quarta categoria, que levou o Grupo do Novo Rock a esta pequena aldeia, quase perdida, no Concelho de Idanha-a-Nova.

Por uma ou outra razão, foi óptimo assistir ao concerto deste grupo mais dado a urbanidades, que actuou como se estivesse num dos "coliseus", com uma alegria e um profissionalismo pouco vistos, pelo menos nas "terras de ninguém".

E apesar dos anos passarem, o Reininho, o Toli, o Romão e companhia, continuam em excelente forma e são um dos poucos grupos que sabem mais que três canções diferentes. Ou seja, não passam os concertos a cantarem sempre a mesma canção...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, dezembro 26, 2015

Os Cheiros Diferentes de Inverno das Aldeias e das Cidades


Uma das coisa que gostava na infância era do cheiro da lareira da casa dos meus avós, que de Inverno estava sempre acesa. E mesmo o cheiro da lenha a queimar nas ruas, também tinha um encanto especial.

Pode ser uma deturpação da memória, mas este cheiro não tem, nem nunca teve nada a ver com o cheiro das ruas das cidades que têm casas com lareira.

E não acredito que seja o problema da qualidade da madeira utilizada...

A fotografia é de John Maddon.

sexta-feira, setembro 04, 2015

Regressos...


Há já vinte anos que passo o último fim de semana de Agosto na Beira Baixa (devo ter falhado apenas uns dois ou três). A festa da aldeia sempre foi e é o menos importante. Há por ali demasiadas coisas que não são do meu mundo, como a quase separação dos "homens e das mulheres", que acaba por alimentar outros hábitos masculinos, que começam com o beber álcool para lá do fartar e acabam em conversas que me dizem muito pouco (carros, casas, marcas, mulheres - em ângulos que está longe de ser os meus favoritos...).

O que sobra são os passeios aqui e ali (a fotografia é da bonita vila de Alpedrinha), o descanso diferente e a sensação de que se está mais distante do mundo (a rede do telemóvel e da internet é quase inexistente e o sinal da TDT é uma porcaria que só permite ver um canal televisivo em condições...).

Desta vez visitámos lugares diferentes nas viagens para lá e para cá. 

Para lá fomos a Campo Maior, com paragens em Arraiolos, Estremoz e Elvas. A "mina das flores" (provavelmente mais uma boa invenção da família Nabeiro) não me seduziu por ali além, mas...

Mas o melhor foi mesmo a viagem de regresso, que marcou outros tantos regressos.


Começou pela passagem "tortuosa" pela Serra do Açor, à procura do Piodão e de mais umas quantas terras plantadas em lugares isolados, que me fizeram questionar, como foi que aquela gente para ali foi parar. Além de outra pergunta ainda mais pertinente, porque ficaram...

Depois de tanto subir e descer, na companhia das curvas e contracurvas do costume dormimos em Arganil.

O dia seguinte seria passado em Coimbra e Figueira da Foz, para reservarmos o derradeiro dia de viagem para Leiria, Nazaré e Batalha, com um relato mais pormenorizado para amanhã...

terça-feira, agosto 25, 2015

O Abandono das Pessoas de Norte a Sul


Podia contar mais de cem episódios que se passaram nos últimos quatro anos com a governação desta gente, sem um pingo de vergonha na cara, que usou a mentira e o engano com a sua "arma" diária (e continua a usar...). 

Mas prefiro falar da forma como trataram as pessoas, especialmente as que vivem no interior.

Começaram por alterar o mapa das freguesias do país, com a história de que se iriam poupar milhões (algo que nunca foi nem será comprovado...), com o fim de centenas de sedes de freguesias, urbanas e rurais.

Se nós nas cidades nos queixamos da falta de limpeza das ruas, do crescimento das ervas nos passeios, jardins e terrenos baldios, do fim de programas de apoio para a terceira idade, da falta de resposta a propostas de parceria para as áreas da cultura, educação e desporto etc, o que dirão as pessoas do interior, das vilas e aldeias mais remotas deste país?

Como se não bastasse a perda de importância do poder autárquico local, ainda lhes foram retirados centros de saúde, repartições de finanças, tribunais, escolas. Que por sua vez provocaram o fecho de lojas de comércio, cafés e outros serviços. Ou seja, há pessoas que em apenas meses viram o tempo recuar mais de quarenta anos, voltaram ao tempo da ditadura, em que viviam entregues a elas próprias.

Numa altura em que praticamente deixou de existir jornalismo de investigação no nosso país, falta fazer um retrato sério do que aconteceu ao nosso país, analisar o que se perdeu em apenas quatro anos de governação desta coligação, que em alguns casos praticou mesmo actos criminosos. Falta saber entre outras coisas, quantas pessoas morreram em casa, por falta de assistência médica, por viverem a mais de cem quilómetros de um hospital, que por sua vez também se viu limitado na sua oferta, com dezenas de serviços fechados por falta de médicos especialistas e enfermeiros...

É por isso que pergunto: o que é que esta gente que vive no Interior tem na cabeça, para voltar a votar em quem lhes fez tão mal?

O óleo é de Robert McGregor.

quinta-feira, maio 07, 2015

Quando os Livros eram Objectos de Luxo...


Quando ouvimos alguém contar as peripécias que passava para ler acesso à leitura de um livro, pensamos que é uma coisa  muito antiga, do principio do século XX e nunca do começo dos anos 1970. 

Mas esta aventura não se resumia aos quilómetros que tinha de percorrer para conseguir chegar ao local onde uma das carrinhas da Gulbenkian parava, para a entrega e recepção de livros. Nem à viagem de regresso. O mais duro estava reservado para quando chegava à aldeia, onde alvo de chacota por todos aqueles que fingiam que ler era uma perda de tempo... 

O mais engraçado é perceber que o homem que conta este episódio, continua a ser capaz de sorrir com a situação, sem esconder o orgulho de ter lido tantos livros à luz da vela e a felicidade de nunca ter dado ouvidos a quem fingia detestar as palavras impressas...

O óleo é de Elizabeth Forbes.