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terça-feira, julho 07, 2026

O hábito (quase institucionalizado) do "passa culpa" dos políticos


O PSD por ser o partido em que os seus dirigentes continuam a gostar de "encher a boca" com o nome de Francisco Sá Carneiro, devia lembrar-se da sua prática governativa e de um aviso que ele fazia aos seus ministros e secretários de estado, de que só tinham seis meses para denunciar ou desculparem-se com os erros dos seus antecessores.

Muita coisa mudou na política e nos partidos do poder dos primeiros anos da democracia até aos nossos dias. 

É a explicação óbvia que encontro para a forma como a ministra da Saúde, a ministra do Trabalho e agora o ministro da Educação,  dois anos e alguns meses depois de serem poder, continuarem a apontar o dedo e a culpar o PS do muito que funciona mal nos seus ministérios...

Curiosamente, quando inauguram algo feito pelos antecessores, esquecem-se de falar deles...

Estes exemplos dizem quase tudo sobre os políticos do século XXI, que nunca se serviram tanto das meias verdades e das meias mentiras, para justificar os seus actos.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, junho 24, 2026

Nunca tinha pensado nisso, mas basta olharmos para o mundo, com olhos de ver...


Estava quase a chegar a casa, quando me cruzei com uma vizinha (daqueles com quem nunca trocámos qualquer palavras, nem mesmo um simples bom dia ou boa tarde...).

Ela falava com o seu pequeno cão (quase de bolso), como se fosse uma pessoa. Depois de lhe dar uma reprimenda quase a brincar, fez-lhe uma festa.

Estou farto de ouvir falar da "transferência familiar", dos animais que são tratados como filhos pelos seus donos, quase sempre com mil cuidados. Além das conversas diárias, como a que assisti, vivem no interior das casas, são regulares visitas ao veterinário, e os seus "pais" até os costumam "vestir", especialmente no tempo frio.

Mas desta vez pensei na "transferência de afectos"... Nunca vi esta senhora com um homem ou com uma criança. A sua solidão é igual à de milhares de pessoas, especialmente mulheres, que marcadas por más experiência de amor (nós homens somos bons como "bestas humanas"...), dentro e fora da família  nunca mais nos dão qualquer possibilidade de aproximação, pelo menos intima e afectiva.

Nem se trata de uma "solidão invisível", como por vezes se gosta de dizer. Ela é bem visível, está bem presente aos olhos de todos...

Basta olharmos para o mundo que existe à nossa volta.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, junho 22, 2026

Quase "certificados (ou atestados) de sexualidade"...


Uns familiares afastados, quase que nos obrigaram a entrar na sua casa, com o argumento de tomarmos o café, que íamos beber à Associação Cultural local, quando passámos pela sua rua. Acabou por ser uma visita de médico agradável.

Um dos aspectos curiosos que mereceu a atenção dos meus filhos, foram duas fotografias, de nus, de bebés, dos dois filhos do casal, que são da minha geração, expostas em cima de um dos móveis da sala.

Começaram por "gozar" o prato, afirmando que eu e o meu irmão também devíamos ter fotos daquelas na casa da avó. Acabámos os quatro a sorrir. Argumentei que foi um pormenor que escapou à nossa família, e ainda bem. Isso fez com que nós também não explorássemos a sua nudez em bebés...

Quase em coro, os meus filhos disseram, "que pena". E nova gargalhada geral.

O mais curioso, é que a maior parte destes retratos eram tirados no atelier de fotografia. Sem encontramos uma justificação, achámos devia ser uma moda geracional, que ajudava as lojas de fotografia a sobreviverem.

A conversa ainda avançou mais, ao ponto de se falar em "certificados (e atestados) de sexualidade", a prova de que éramos meninos ou meninas... 

Algo que hoje não prova grande coisa (a não ser para o "toureiro"do CDS...), pois há quem tenha pilinha e se ache mulher e quem tenha pipi e se sinta homem...

(Fotografia de Luís Eme - A Foto Franco é uma boa resistente, que continua com a sua loja história aberta, na Rua das Montras das Caldas. E tem exposta, com orgulho, uma fotografia do  actual Presidente da República).


quinta-feira, junho 18, 2026

Eles não sabem, mas o Humanismo não cabe nos caixotes do lixo...


O que mais me tem chocado na governação falsamente democrática de Montenegro, é a quase ausência de humanismo, na maior parte das suas medidas de cariz social.

Eu sei que esta maltinha da direita sempre gostou mais de dar esmolas, que de criar condições para que as pessoas pudessem viver com mais dignidade... e não se limitarem a olhar para o chão.

Até iam à missa (muitos ainda devem ir e até comungam e tudo...) e fingiam-se cristãos, mesmo que não soubessem muito bem o que era isso. O que eram mesmo, era católicos...

Mas vamos lá ao assunto que interessa. Não satisfeita com a tentativa de aprovação da PSU, a AD resolveu alterar também as regras do SMC (Subsídio de Mérito Cultural). Pelo que li na reportagem da Joana (Amaral Cardoso) nas páginas do "Público", fizeram-no de uma forma cobarde e silenciosa. Ou seja, simplesmente decidiram reduzir e cortar os subsídios, que eram atribuídos a antigos homens e mulheres das artes e letras, que viviam com dificuldades, sem qualquer aviso ou informação.

Perante este drama, houve mesmo uma tentativa de suicídio de um velho fotógrafo, que viu o seu subsídio ser reduzido de 470 para 128 euros. Já vivia mal e esta alteração fez com que se sentisse quase "condenado à morte".

Faz-me ainda mais confusão que sejam ministras a estarem ligadas a todas estas polémicas de tostões (e o dinheiro nem é delas, é de todos nós...), quando sempre se reconheceu uma maior sensibilidade social às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 13, 2026

Pensava que uma das maiores qualidades que um ministro deve ter é o bom senso...


Luís Montenegro é um primeiro-ministro sui-generis. Mais esperto que inteligente, escolheu duas ministras como os seus principais "para-raios". Ou seja, escuda-se nas "tropelias" e polémicas criadas pelas suas ministras da Saúde e do Trabalho, que são transformadas quase em telenovelas e se arrastam  durante meses, sem que se consiga resolver o que quer que seja, ao mesmo tempo que não se discutem nem resolvem os verdadeiros problemas do país...

Apesar das doses abundantes de propaganda em volta destas duas áreas, não há uma única coisa que se consiga dizer que esteja melhor na saúde ou no trabalho, nos últimos dois anos. 

Na saúde, a ministra além de não corrigir os problemas com maior gravidade, que encontrou no seu ministério, ainda conseguiu criar mais uns quantos, não menos graves...

Em relação à ministra do Trabalho, as coisas ainda são piores. Teve logo uma "entrada a pés juntos", em relação a Ana Jorge, que tutelava da Santa Casa da Misericórdia, assim que tomou posse. E nunca mais deixou de se envolver em polémicas, que culminaram com a Reforma Laboral e a PSU. Consegue ser quase sempre insultuosa, especialmente para com os mais fracos e desprotegidos do nosso país.

Ou seja, Montenegro consegue demonstrar (para seu interesse próprio...), que o bom senso, está longe de ser uma das maiores qualidade que um ministro deve ter. Pelo menos no seu governo...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, maio 16, 2026

«Acho que não ias perceber, com exemplos, mas o teu país é muito mais livre que o meu»


Lembrei-me da última conversa que tive com uma mulher de pele e cabelo claro, que vivia na Beira Baixa e nunca deixou de escrever para os jornais do seu país. Conheci-a por um mero acaso.

Alguém lhe dissera que eu também escrevia. Ela estava a investigar a história de uma família importante (já quase não se fala dela...) e a forma como beneficiou dos fundos europeus. Queria que eu lhe explicasse algumas coisas, por ainda não perceber as muitas virtudes da língua portuguesa. Ou seja, a nossa conversa foi mais sobre o português que sobre a dita família.

Quando ela se instalou no interior, no começo do século, ainda não estavam na moda os famosos "nómadas digitais", que vivem espalhados por todo o lado. Nem a vida era tão fácil para quem vem de fora, como é hoje...

Encontrei-a uns vinte anos depois, numa superfície comercial, acompanhada da filha adolescente. Acabámos por beber um café e gostei de ver que ela falava a nossa língua correctamente, apenas se notava um ligeiro sotaque.

A vida já estava pior para todos, inclusive para quem era de fora e vivia como nós. Mas ela nunca pensou em regressar para a Holanda com o companheiro e os dois filhos.

Embora eu não tivesse sido curioso ao ponto de perguntar o porquê, ela disse-me uma coisa, daquelas que nunca se esquecem: «Acho que não ias perceber, com exemplos. Mas o teu país é muito mais livre que o meu.»

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


sexta-feira, maio 15, 2026

E esta? Portugal está pior e os portugueses vivem cada vez pior (não digam nada ao Montenegro, ao Soares ou ao Amaro)...


Apesar de nunca ter existido um governo em mais de 50 anos de democracia, que tenha usado e abusado, tanto, da propaganda e da "fumaça", a realidade já não dá muito mais espaço para encenações. 

A aposta em discutir "não problemas", como são os casos das alterações da Lei Laboral ou da Constituição, mesmo que sejam desejadas pelos patrões e pela direita, não resolvem qualquer problema dos portugueses.

A continuada tentação em culpar o PS dos "males" do país, também já não dá grandes hipóteses de se "sacudir o capote", quando tudo está pior que há dois anos. 

Sei que irão "cavalgar" na crise provocada por Trump, mas os problemas na saúde, na educação, na alimentação e na habitação, começaram a agravar-se antes da criação da "portagem do estreito de Ormuz"...

Luís Montenegro, por muito que finja viver num "país imaginário" e tenha conseguido transformar a comunicação social num feudo da direita (cada vez existem menos comentadores de esquerda nos canais televisivos...), já não pode dizer, com a "lata" que o caracteriza: que o país está melhor, mesmo que os portugueses vivam pior.

A realidade salta-nos aos olhos diariamente,, seja nos hospitais, nos mercados, nas escolas, nas bombas de gasolina, nos restaurantes ou nas imobiliárias...

Está tudo pior, se esquecermos a meia-dúzia de pessoas do costume (são tão egoístas, que querem tudo, até a tal lei laboral que põe fim ao pagamento das horas extraordinárias...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, abril 13, 2026

As guerras das mulheres são diferentes das guerras dos homens...


Continuo à espera de um  mundo onde as mulheres consigam alcançar o poder, de uma forma natural, propensas a cometer erros, mas erros diferentes dos que são cometidos pelos homens...

Estou farto das mulheres que quando chegam a cargos de poder se transformam em "homens", sem precisarem de fazer qualquer mudança de sexo. Simplesmente se limitam a continuar a seguir a cartilha masculina de sempre, a exercer o poder como se tivessem uma pila entre as pernas.

Sei que em muitos aspectos, o maior adversário das mulheres nas últimas décadas, têm sido as próprias mulheres, por não conseguirem (ou não quererem...) sair deste registo masculino.

Embora agora até tenhamos mulheres especialistas em guerra, que falam com a mesma desenvoltura dos homens sobre armas e tácticas, nas notícias que abordam a realidade como se ela fosse quase uma ficção, continuo a acreditar que as suas "guerras" são muito diferentes das dos homens...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 10, 2026

As pessoas com quem me cruzo nas ruas de Almada...


A cidade não está deserta, muito menos despovoada. Está apenas diferente, porque tem habitantes diferentes.

Pessoas que chegaram de fora, que trazem normalmente os seus hábitos e as suas culturas coladas à pele. Muitos deles, se não forem pessoas curiosas, ficarão a saber poucas coisas da nossa história e cultura. Nem tão pouco  irão alterar muitos dos seus hábitos, por viverem fechados nas suas comunidades. 

Acredito que as mudanças só acontecerão com os seus filhos e netos, que ficarem... e que se sintam ligeiramente portugueses. 

Se forem bem integrados (o que nem sempre acontece, porque as crianças estão longe de ser "a melhor coisa do mundo" e nem sempre tratam bem outras crianças... E se seguirem os maus exemplos dos adultos lá de casa, tudo piora...), poderão ser parte do nosso futuro...

Apesar de termos sido "colonizadores" diferentes dos ingleses, franceses ou holandeses, não foi por isso que fomos menos racistas que eles.

Nem sei se algum dia deixaremos de ser "racistas" ou outras coisas com esta terminologia... porque mesmo entre nós - a gente de pele cor de rosa -, nunca irão acabar as pessoas que pensam que "têm mais direitos e mais importância", que o vizinho do lado. Não lhes basta ter um carro ou uma casa melhor, querem sempre mais e mais...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, abril 09, 2026

A perda do sentido de comunidade e a precariedade reinante...


A sociedade está organizada de uma forma que valoriza cada vez menos o sentido comunitário, a importância do outro, seja na escola, no bairro ou no trabalho.

Penso que isso tem muito a ver com o sistema político e económico que "comanda", cada vez mais, as nossas vidas. 

O capitalismo tem conseguido "capturar", de uma forma inteligente, muitos dos valores que lhes podiam fazer frente, sobretudo os colectivos. É também por isso que tem conseguido "secar" instituições como os sindicatos, que normalmente funcionam como um obstáculo aos seus objectivos, já que a sua função primordial deve ser a defesa os interesses dos trabalhadores.

Isto deve-se muito à precariedade do trabalho. Estares a prazo em qualquer lugar faz com que a tua adesão a qualquer tipo de protesto, por muito justo que seja, possa conduzir ao teu despedimento. 

É esta mesma precariedade que faz com que as pessoas sejam educadas e vivam neste sistema que alimenta o "cada um por si", fazendo com que se acredite cada vez menos na importância dos valores colectivos. Quem entra no mercado de trabalho, rapidamente percebe que a maior parte das pessoas que estão à sua volta, estão mais preocupados com o seu umbigo e a sua vidinha, que em ser solidário ou combater o sistema injusto que está instituído...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 30, 2026

A deturpação diária da realidade...


A deturpação da realidade é uma constante diária da sociedade actual.

As pessoas que vivem alheadas da realidade e que gostam de criar narrativas paralelas, nunca tiveram um tempo tão propício às suas "invenções", como este em que vivemos.

Não podemos culpar apenas o partido populista, que gosta de normalizar a mentira, a indecência e a falta de respeito pelo próximo. Até porque existe pelo menos um canal de televisão que se alimenta das ficções noticiosas que cria.

O que aconteceu nos balneários do FC Porto, antes da realização do jogo de andebol entre a equipa da casa e o Sporting, diz quase tudo sobre este tempo em que vivemos. 

O cheiro tóxico existente nas instalações portistas quer fizeram com que a equipa leonina se equipasse nos corredores, conseguiu que os dirigentes portistas colocassem a possibilidade de terem sido os sportinguistas a levarem substâncias abrasivas para o balneário, em vez de fazerem um pedido de desculpas público, mais que justificável, aos adversários...

Mesmo que o desporto goste de se afirmar como "um mundo à parte" da sociedade, é uma vergonha o que se passou no Porto. 

Pior que o episódio que fez com que o treinador e um atletas recebessem assistência médica, foi a tentativa do FC Porto de branquear a situação, com as tais narrativas paralelas, que se estão a normalizar, dia após dia.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 24, 2025

A vida, entre a realidade e as percepções...


Continuo a acreditar mais em percepções que num aumento de violência nas ruas (pelo menos de uma forma significativa), mesmo sabendo que há pessoas e pessoas, e há ruas e ruas...

Sempre existiram vários "guetos", onde quem era de fora, não era bem recebido. Havia "covas da moura" nos vários concelhos que rodeiam Lisboa, mesmo que não fossem tão fechados, labirínticos e perigosos. A Margem Sul tinha (e tem...) pelo menos meia dúzia deles...

Normalmente só se fala destes bairros, quando se percebe que cresceram demasiado (em vez de centenas de pessoas, acolhem milhares...) e que se tornaram mais sujos e mais violentos, lançando o alarme em quem vive nas proximidades. 

Infelizmente, estes lugares estão longe de alojar apenas "marginais". Há cada vez mais gente a procurar estas zonas para viver (até foi criado um novo nicho de mercado, pois há quem enriqueça com o aluguer de "barracas"...), porque não conseguem alugar uma casa a preços acessíveis. 

Não se pode esperar, que quem cresce nestes lugares, viva apaziguado. Eles sabem que há "quem tenha tudo" e que "eles não têm quase nada"...

É por isso que me faz confusão, que os políticos fechem os olhos à existência destes bairros, sem o mínimo de condições para alojar seres humanos, ao mesmo tempo que continuam a alimentar a percepção do aumento de violência, um pouco por todo o lado...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


segunda-feira, setembro 08, 2025

Pouco mudou na mentalidade do empresário português


O que se passou no Oeste na semana passada, com a descoberta de imigrantes ilegais acampados, junto às instalações de uma empresa que explora o cultivo e a apanha da pêra rocha, é um bom exemplo do que se passa no chamado trabalho sazonal agrícola, um pouco por todo o lado.

Se for possível fugir ao pagamento de impostos, mantendo apenas uma parte dos trabalhadores em situação legal, será essa a prática do empresário  português (e também de outras nacionalidades, porque as más práticas "copiam-se", cada vez mais...).

Infelizmente, longe vão os tempos em que o empresário estrangeiro instalava-se em Portugal e era um exemplo nas boas práticas e boas condições que ofereciam aos seus trabalhadores.

Se a entrada na Europa trouxe para o meio empresarial gente nova com uma outra mentalidade e cultura económica, acabando com muitas empresas quase de "vão de escada", passados alguns anos, com o avanço do chamado "capitalismo selvagem", as más práticas regressaram em força ao mundo fabril. Uma das piores consequências foi a normalização do trabalho precário, com os trabalhadores a passarem a ser meros colaboradores...

A aposta no "lucro fácil" encurta sempre a visão a médio e longo prazo dos nossos empresários, e explica em grande parte as dificuldades que o país tem em crescer e competir com a Europa e o Mundo.

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


domingo, setembro 07, 2025

Uma palavra curta e simples, que diz tanto de nós...


Ao ler o nome de um senhor, que ainda tive o prazer de conhecer, verifiquei que ele "apagou", desde cedo, a letra que fazia toda a diferença, socialmente. O DE desapareceu dos cartões de visita, dos seus escritos e até da assinatura  (deve ter ficado apenas no BI...), ao contrário dos irmãos. 

Fiquei a pensar que há pessoas que fazem exactamente o contrário, são capazes de "somar" um DE antes do apelido final, apenas por este lhe oferecer a ilusão de que descendem de "gente importante" e não das pessoas humildes que lhe deram o berço, mesmo que este não conste na cédula de nascimento.

E ainda fui mais longe. Fiquei a pensar como é que é possível, que uma palavra tão curta e tão simples, seja capaz de nos distinguir tanto, ideologicamente. Sim, traçar o lado que mais nos guia no dia a dia, o esquerdo ou o direito...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, agosto 07, 2025

Esta coisa de se viver mais tempo levanta uma série de questões...


Esta coisa de de viver mais tempo levanta uma série de questões. 

Ao escrever sobre isso, estou a pensar sobretudo na qualidade de vida que se vai perdendo, à medida que fingimos ultrapassar o próprio tempo.

Penso nas fragilidades humanas, que se tornam cada vez mais visíveis, tanto físicas e mentais. Até nos pode dar a sensação de que se "inventaram" novas doenças, se nos esquecermos que o nosso corpo não está preparado para a "eternidade"...

Quem tem familiares entre os oitenta e os cem anos de idade, sabe do que estou a falar, assiste diariamente à perda de faculdades. É natural e tem de ser aceite de forma pacífica.

Claro que sei que há doenças que também vão aparecendo mais cedo, devido sobretudo ao modelo de vida citadino, muito menos saudável do que devia. O facto de se lidar diariamente com o "stress", de certeza que contribui para casos de demência, que por vezes surgem ainda antes da idade da reforma.

E não vou falar das questões sociais que se levantam, diariamente, em relação aos cuidados de saúde, por se perceber que o nosso país, não está estruturado para ter tanta gente de idade avançada.

O mais curioso, é notar que muitas destas pessoas, apesar das suas debilidades, não pensam "desistir de viver". Habituam-se a conviver diariamente com a dor e com as dezenas de comprimidos que lhes dizem que garante uma "vida mais saudável".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, julho 28, 2025

Uma sociedade cada vez mais "classificada" e classicista


Nem todos damos por isso, mas realidade é o que é, e diz-nos que os nativos de qualquer cidade com manias de grandeza, há já algum tempo que são tratados como cidadãos de segunda.

E se estiverem na "base" deste grupo, correm o risco de serem empurrados para os subúrbios da cidade com cada vez "menos sonhos", para que algum espertalhaço lhes surrupie a casa e ganhe mais uns tostões (antes que a "galinha" decida não colocar mais "ovos"...). 

A tal primeira linha está reservada para o grupo que vem de fora, a que chamamos turistas, não de pé descalço, mas de "sandália e meinha" (desde que tragam dinheiro para gastar em comida, dormida, "recuerdos" e museus, todo o mau gosto é permitido...) e para as gentes como o "conde monteverde", os alcaides de Lisboa e de Grândola, ou ainda a senhora que finge que governa Almada. Todos eles fazem questão de ir "vendendo o país a retalho".

E depois há a terceira linha, que agora está na moda "desancar" e fingir "correr para fora", que são o suporte económico de toda esta "fantasia". Têm muitos mais deveres que direitos, trabalham muito e recebem pouco e chegam ao nosso país quase sempre com uma mão à frente e outra atrás, sem o conforto e a liberdade dos donos dos "vistos de ouro" (que até podem ter a mesma cor e o mesmo cheiro deles, mas usam carteiras diferentes). 

Não era para escrever sobre isto, mas os dedos decidiram ir para aqui, talvez a pensar nos "turcos" que nos servem o café, e que devem estar alojados num qualquer "galinheiro" das traseiras do edifício comercial... ou então, chateado por ver a "idade média" a aproximar-se, mesmo que parecesse uma daquelas coisas inimagináveis.

A conversa interessante que escutei (sem querer, até me apeteceu tapar os ouvidos...) fica para amanhã...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, julho 14, 2025

«Estamos todos a ficar sem "travões". O normal é dizerem-se coisas cada vez mais parvas e ofensivas uns aos outros.»


O Carlos continua a "incendiar" a nossa mesa com frases, que, começam por se estranhar, para depois se entranharem, e serem aceites por todos nós, mesmo que isso aconteça duas ou três voltas depois.

Quando ele disse: «Estamos todos a ficar sem travões. O normal é dizerem-se coisas cada vez mais parvas e ofensivas uns aos outros», ficámos a olhar uns para os outros.

Houve alguém que falou de sermos menos hipócritas. Claro que é mentira. Esta sociedade onde o mérito fica vezes demais a porta, convive bem com a hipocrísia, o fingimento e o "lambe-botismo".

Foi a Carla que disse que era algo mais profundo, que tinha a ver com os valores que recebíamos em casa, onde se aprendia a respeitar e a tolerar o outro, mesmo quando nos apetecia mandá-lo para aquela parte.

Se em casa, na escola, no trabalho ou no café, quem fala mais alto é que acha que está certo, com a conivência de quem lhe devia chamar a atenção, e dizer que conversar é outra coisa, que o monólogo não faz parte da família do diálogo.

 «E nós, vamos começar a falar mais baixinho?», soltou em tom provocador, o Carlos.

A gargalhada geral respondeu pela mesa. Precisamos todos de colocar "pastilhas" nos travões...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, julho 07, 2025

«Já não posso ter a minha opinião?»


O meu corte de cabelo hoje foi um pouco mais agitado que o costume.

Assim que o meu barbeiro começou com o já habitual "discurso anti-emigrantes", comecei a desmontar uma boa parte das suas teses populistas com a realidade, com as aldeias e os campos que quase só albergam gente idosa, pelo que a mão de obra tem de ser obrigatoriamente estrangeira. Acrescentei que esta também era a escolha preferida dos exploradores da agricultura intensiva, porque assim têm sempre a possibilidade de ter metade dos seus trabalhadores em situação ilegal, o que lhes poupa uns cobres no pagamento para a segurança social e para as finanças.

Claro que ele não gostou de ser contrariado. Ninguém gosta. Foi por isso que se escudou na frase: «Já não posso ter a minha opinião?»

Claro que pode. Em democracia pode-se quase tudo, até navegar no erro e mostrar a nossa "costela revolucionária", quase a par com a nossa "costela reaccionária"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, junho 21, 2025

A nossa aparente falta de jeito para ajudar a levantar aqueles que "caem no chão"...


Existem sempre coisas, que nos acontecem, ou que vemos acontecer à nossa volta, que escapam à nossa compreensão de simples mortais. Por serem difíceis de definir, normalmente nem damos grandes palpites, preferimos misturar as "circunstâncias da vida", suficientemente abrangentes para justificar o injustificável e fechar qualquer conversa.

Aconteceu há dias a um amigo, o que me aconteceu há anos. Viu um amigo dos seus tempos de escola, sentado na entrada de um prédio, com os seus parcos haveres, de "filho das nuvens". Olharam-se por breves segundos e baixaram os olhos quase em simultâneo. Depois aproximou-se e perguntou-lhe se ele era o Pedro. Claro que o homem disse que não, que ele estava enganado. Com alguma lata e para desviar o assunto, pediu-lhe uma moedinha. O meu amigo, que tal como eu nunca anda com muito dinheiro na carteira, deu-lhe uma nota de vinte euros, a maior que tinha na carteira. E depois virou costas, sem ficar à espera de agradecimentos e sem voltar a olhar para trás.

Eu depois de o ouvir, contei-lhe o que me acontecera, há uns bons trinta anos, ainda mais dramático. Cruzei-me com um dos muitos companheiros de infância na Rua Augusta. Estava descalço, vestido apenas com uma manta com um buraco que enfiara na cabeça e muito sujinho. Andava depressa e ia dizendo coisas sem nexo. Sei que gritei o seu nome, "Manel", ao mesmo tempo que ele soltou uma gargalhada louca. fiquei atónico por alguns segundos e ele aproveitou para desaparecer no meio da multidão. Ainda andei uns metros na sua direcção, mas nem um sinal dele. Claro que a única coisa que poderia fazer era o mesmo que o meu amigo fez, dar-lhe uma "moeda" maior do que as que ele costumava receber...

Acabámos a falar da "merdola" de  sociedade, em que vivemos, que permite todos estes altos e baixos. 

Não podíamos estar mais de acordo, quando recordámos que quando se entra num "beco sem saída", os familiares, amigos e conhecidos, começam a desaparecer todos à nossa volta. E quando damos por ela, estamos caídos e perdidos na rua...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 17, 2025

O cumprimento diário que não custa nada e sabe bem...


A maior parte das pessoas que cumprimento com um bom dia ou uma boa tarde, são vizinhos e vizinhas, já com alguma idade.

Faço-o com satisfação, por notar que ficam agradados, apenas com este simples cumprimento diário. É algo que não custa nada e que também torna o nosso dia mais solar...

Pensei nisto depois de ler uma notícia sobre o óbvio, que onde se morre mais de solidão, é nas grandes cidades. 

Sim, o barulho dos outros, mesmo nos nossos prédios, não passa de ilusão, é quase igual às buzinas e aos motores dos carros das ruas...

Nas aldeias pode-se viver em silêncio, mas conhece-se toda a gente, sabe-se onde está o outro. E quando se dá pela sua falta, corre-se à sua procura...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)