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sábado, setembro 12, 2026

Viver com as coisas "fixas", que nunca mudam...


Não vale a pena pensar no que é melhor ou pior. Somos o que somos. E não deixa de ser boa ideia, aceitarmos que temos de viver com essas coisas "fixas", que nunca mudam...

E não é por a escritora Rosa Montero ter metido esta frase dentro de uma das suas personagens, que banalizava as coisas: «Ela não sabia fazê-lo. Não sabia jogar esse jogo de intrigas nem conquistar pessoas com quem antipatizava.»

Eu também não sabia (nem queria...) gostar de quem não gostava de mim. Nunca consegui ser agradável para quem me é desagradável (e houve alturas que me esforcei...).

Sim, pudemos gostar de Jesus de Nazaré e achar o gesto magnânimo, de dar a outra face, uma estupidez...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 31, 2026

Tantas vezes que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa...


Tive de partir a conversa sobre a genialidade de alguns escritores como o nosso Lobo Antunes, em dois.

Acontece demasiadas vezes estarmos à conversa e misturarmos assuntos, ao ponto de fingirmos que não percebemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa. 

Pois... à mesa, nem sempre temos agilidade suficiente para "separar as águas". Felizmente, as palavras escritas são muito menos complicadas que as palavras faladas...

Ou seja, além de se falar do escritor, também se falou dos seus leitores, dando realce aos "compradores de livros com autógrafo", mais coleccionadores que leitores, tanto do António como do Saramago e companhia...

Foi a Carla que melhor caricaturou o tal sujeito (não deixa de ser curioso, que fizesse um boneco engraçado masculino...), oferecendo-lhe um lenço ao pescoço e colocando-o na primeira fila dos lançamentos dos chamados consagrados (os "eusébios" dos livros...), de perna cruzada, com mão no queixo e ar interessado pela tramóia bem resumida pelas palavras do apresentador. Sem se esquecer de dizer que ele é sempre um dos primeiros a ir para a fila para sacar o respectivo autógrafo do livro que tem o destino habitual: embelezar a estante cheia de livros assinados, que nunca leu, nem vai ler...

Todos sorrimos, por gostarmos de ter amigos que têm a capacidade de fingir que o mundo é muito melhor do que é, dizendo coisas que fazem sorrir as mesmas pedras da calçada, que soltam lágrimas com os fados da desgraçadinha...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 23, 2026

As velocidades diferentes que se encontram dentro dos livros...


Os leitores, mesmo os mais apressados, sabem que todos livros têm uma velocidade própria de leitura. 

Se há livros que querem ser lidos da primeira à última página - tal é a sucessão de acontecimentos que nos vai surgindo, capítulo a capítulo, ao ponto de só descansarmos quando chegamos ao fim -, há outros que pedem reflexão, quase que nos pedem para parar para pensar...

Normalmente estas obras são escritas com alma, quase sempre sobre temáticas sensíveis, onde o escritor quase que se despe por inteiro... conseguindo expressar o que sente através das palavras que nos oferece.

No meu caso pessoal, é raro sentir esta vontade de parar a leitura e ficar agarrado a uma frase ou um verso, capaz de transmitir tanto apenas com meia dúzia de palavras. Senti isso com a "Fortaleza" de António Borges Coelho.

É um pequeno livro de poemas, com uma introdução em prosa, onde o autor nos oferece uma multiplicidade de sentimentos, sem nunca perder a autenticidade. Livro que pode muito bem ser entendido como um "diário poético", do seu tempo de prisioneiro no Forte de Peniche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, agosto 11, 2026

O bom do Dinis e a sua "escola" literária povoada de policiais e banda desenhada...


Quando escrevi ontem sobre o António, acabei por me lembrar do bom do Dinis Machado, que no começo dos anos 90 do século passado, visitava quase todas as semanas no primeiro andar da Rua Anchieta, paredes meias com a Bertrand.

Falávamos sobre a vidinha, sem deixarmos fugir o cinema, os livros e a banda desenhada... Não é por acaso que o seu brilhante "O que Diz Molero" tem lá estas três coisas... embrulhadas numa Lisboa que ainda tinha bairros com gente, capaz de inventar aventuras do arco da nova e da velha...

Nem sequer se pode dizer que "trocávamos" heróis, porque eu conhecia tão pouco mundo na estrada das aventuras literárias. Era por isso que tentava fixar os escritores de policiais e as suas obras mais emblemáticas, que o Dinis me oferecia, como se de cromos se tratassem, entre uma cigarrilha e um sorriso de miúdo (algo que ele nunca perdeu...).

Mas o mais curioso foi descobrir com ele o tempo em que se "alugavam" livros na "Barateira" e em outros alfarrábios.  que passavam de mão em mão pela malta do Bairro Alto que tivera algum tempo para ir à escola e era mais dada às leituras... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, julho 29, 2026

Não faz mal, não é importante...


Fomos a uma livraria a Vila Real de Santo António e fizemos o que é costume fazer-se nestes lugares, comprar livros.

Houve dois que se colaram logo às minhas mãos, "As Cartas de Berlim" e a "Aguarela de Paris", de Katherine Reay e João Pinto Coelho. Disse-lhes que sim...

Estava já em casa, de regresso às leituras, quando pensei na "perigosidade" de se lerem livros. Acabei por escrever estas palavras no "caderno de desabafos":

«Ler muitos livros é mais perigoso do que parece. Sem te aperceberes vais-te apropriando das palavras dos outros e começas a misturá-las com as tuas... e uns dias depois, olhas-te ao espelho e chamas-te escritor...»

Sei que há tanto de exagero como de realidade nesta frase... 

Não faz mal, não é importante...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


terça-feira, julho 28, 2026

Leitores e gostos diferentes para livros iguais...


Trago sempre pelo menos meia-dúzia de livros para ler nas férias. 

Voltei a perceber, mais uma vez que nem sempre são as melhores escolhas porque desta vez a minha companheira não trouxe nenhum livro e teve de ficar com as "minhas escolhas" e já torceu o nariz duas vezes...

Começou por ler "A Sala Magenta" de Mário de Carvalho, que leu até ao fim mas não gostou (eu também já acabei de ler e gostei, mesmo que não se trate de uma grande história, fala dos "desencontros" das pessoas nos meios das culturas, através do insucesso de um cineasta...). Mas com a segunda leitura é que se "estragou" tudo, graças aos contos de Charles Bukowski, do livro, "A Mulher mais bonita da cidade". E abandonou-o logo às primeiras páginas...

Além de estar cheio de sexo (ao vivo e a cores...), a linguagem sem travões do Charles não deixa de chocar alguns leitores. Quando um dos seus contos tem como título, "A Máquina de Foder", está tudo dito...

Comecei a ler o Charles com conhecimento de que ele escrevia sem qualquer cerimónia, sobre o mundo e sobre as pessoas (li um dos seus livros mais populares, embora não me lembre do título...). Não era do seu estilo substituir as palavras que acha certas para ilustrarem as suas histórias. Claro que há sexo e álcool a mais neste livro. É provável que tenham escolhido os seus contos mais vadios e marginais para esta antologia...

Imagino que não haja espaço para Bukowski, nesta nova América tão purista e adepta das "aparências". O mais certo é ele ter sido banido das bibliotecas públicas e até de algumas livrarias de "lacinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, julho 27, 2026

Quando um simples marcador de livros, se torna quase inseparável...


Uma das poucas colecções que tenho, é de marcadores de livros. Mesmo sem nunca os ter contado, devo ter mais de um milhar, guardados em várias caixas que já foram de sapatos.

Há um deles que me acompanha há meses, já marcou mais de duas dezenas de livros. Começou por ser o "marcador de mesa de cabeceira". Revelou-se de tal forma inseparável, que até veio de férias comigo e com os meus livros.

E agora cheguei a um conclusão. Uma das minha próximas aquisições literárias será "As Cartas de Berlim" da desconhecida (para mim, claro), Katherine Reay...

E apenas porque sim.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quarta-feira, julho 15, 2026

A simplicidade e os bons truques dos policiais


Graças à quase secular "colecção Vampiro", tenho lido Georges Simenon e as suas curiosas aventuras do comissário Maigret.

Já não me lembrava da simplicidade desta escrita, nem dos "truques" usados pelos escritores de policiais, que nos vão lançando pistas  e bandidos pelo caminho, para que continuemos presos às suas páginas, até chegarmos ao fim. 

Está a fazer-me bem, ajuda-me a escrever outras coisas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, julho 04, 2026

Com o mundo na ponta dos dedos...


Comecei a ler a biografia, "Com o Mundo nos Punhos - elementos para uma biografia de José Santa Camarão", de Luís Filipe Maçarico, mais por curiosidade que por outra coisa.

Publicada pelo Município de Lisboa num curto espaço de tempo, devido à comemoração do centenário do boxeur de Ovar (1902-2002), teve logo à partida um problema, que só quem escreve sente: não existir tempo para deixar o "livro respirar". Muitas vezes esta "pausa", faz com que exista a possibilidade de perguntar à personagem principal, duas ou três coisas que consideramos essenciais, que nos foram deixando com "a pulga atrás da orelha".

Estas questões e estas dificuldades (que o autor não teve qualquer problema em assinalar nas suas "considerações finais"), por que passam todos os investigadores, fizeram com que percebesse muito bem o trabalho hercúleo que foi realizado em apenas quatro meses, o que ainda faz com que esta biografia - de um dos nossos primeiros grandes atletas do nosso país com projecção internacional - seja mais relevante. 

O confronto com testemunhos contraditórios, está longe de ser uma novidade para quem escreve (tanto no jornalismo como na literatura...), e por isso mesmo, é bom que o leitor tenha noção das dificuldades por que passam os biógrafos...

E é aqui que vem ao de cima o bom senso, matéria essencial para qualquer autor, conseguir chegar a um resultado satisfatório, como aconteceu nesta obra de Luís Maçarico.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, junho 29, 2026

O esboço de um novo ser humano, mais "panfleto" que "panfletário" (ou as duas coisas)...


Como hoje tudo é comerciável, não devia achar estranha, a abordagem feita por um potencial autor, que mesmo sem "saber escrever", disse-me que uma editora o andava a chatear, para que contasse a história da sua vida, ser o "autor" da sua "autobiografia".

No início fiquei sem perceber muito bem o que estava a ouvir. Ate cheguei a pensar que se tratava apenas de mais uma forma que alguém arranjara para enganar incautos e ganhar uns trocos. 

Quando senti que o meu interlocutor não conseguia esconder o seu orgulho, em poder passar para o lado de cá dos escritores, mesmo que se até então se revelasse incapaz de escrever uma história, por mais simples que fosse, fiquei com a sensação de que era mesmo possível que estivesse prestes a ser enganado.

Quando me vim embora, pensei que esta nova aventura literária devia ter o dedo, da cada vez mais popular, inteligência artificial. Só ela é que seria capaz de fazer a magia de transformar um cidadão sem qualquer talento literário num escritor...

É apenas mais um exemplo do esboço de um novo ser humano, mais "panfleto" que "panfletário", que também se prepara para ser um criativo a fingir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 23, 2026

O Portugal do Correio da Manhã (e das imitações que se fingem mais "finas"...)


Portugal acabou de ganhar, cinco a zero, a um pedaço da velha Rússia e União Soviética, chamado Uzbequistão.

Como era de prever, Cristiano Ronaldo marcou dois golos e passou de besta a bestial. Alguns dos comentadores que o crucificaram nos últimos dias, devem estar a montar um altar nas suas televisões...

Lembrei-me das palavras de António Lobo Antunes, que fingia não se levar a sério como cronista. Não eram sobre futebol, eram sobre nós, sobre a televisão e sobre os políticos que andam vestidos com a camisola da selecção nas redes sociais:

«É extraordinário como gostamos de comer merda desde que seja açucarada, é extraordinário percorrer a lista dos best sellers nas livrarias. Isto, claro, não é um fenómeno português, é um fenómeno universal, e nem sequer é recente. Dura desde o século XIX pelo menos, e é fácil de explicar, como é fácil de explicar o sucesso do jornal Correio da Manhã, de certos programas de televisão, de certos políticos, dos espaços sobre futebol que encharcam os ecrãs, das telenovelas miseráveis.»

Estas palavras foram publicadas na "Visão" a 23 de Fevereiro de 2017, há mais de nove anos. Provavelmente, daqui a vinte anos continuarão actualizadas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 06, 2026

Livros, poesia e comércio...


O nosso poeta mais alto sabia mesmo das coisas do comércio, a frase "primeiro estranha-se, depois entranha-se", diz quase tudo sobre a forma como reagimos às novas formas de mercado.

Ou seja, este ano a Feira do Livro, pareceu-me mais "normal", talvez pelas cores e por não a ter visitado em "hora de ponta", mesmo que tenha tudo de grande centro comercial a céu aberto.

Isso também deve ter acontecido por ter levado um lista com meia dúzia de títulos (para depois trazer uma dúzia...) e os ter encontrado praticamente todos.

Pelo que tenho lido, esta novo modelo é um êxito, para os escritores, para os leitores, e sobretudo para os editores. Também gostei de ver por lá o "Lobo de olhos azuis".



Tenho a sensação de que ter uma "biblioteca" na sala voltou a estar na moda. E se por lá estiverem livros autografados, tanto melhor. Sempre fomos melhor a mostrar que a fazer.  E como agora os livros são mais bonitinhos (grandes criativos gráficos)...

E além disso sabemos que a sabedoria popular poucas vezes se engana, pelo menos no nosso país: "um burro carregado de livros continua a ser um doutor..."

(Fotografias de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, maio 25, 2026

Dois livros, dois sentimentos distantes...


Desde o primeiro livro que li da Patti Smith, que me identifico com a sua escrita, com aquilo que ela nos transmite de autêntico da vida, sem usar qualquer tipo de cerimónia para falar de si, dos seus e do mundo. Até porque só conta o que tem de contar...

Foi por isso que adorei o seu "Pão de Anjos".

Sei que nem toda a gente consegue escrever de uma forma simples. O que não faltam por aí são escritores que adoram dar voltas às palavras e rodear os assuntos... Foi isso que senti com o livro que acabei de ler de Fernando Namora, "Jornal sem Data" (o que gostei mais da obra literária foi do título...).

Não é um diário, não é uma autobiografia, é outra coisa qualquer que fica no meio de coisa alguma. Talvez a melhor definição seja a de pequenos rabiscos do quotidiano que foi coleccionando e colando, para engrossar a "lista de títulos". Talvez...

Muitas vezes quer "atirar pedras" aos confrades, mas nem para isso tem coragem, prefere antes "filosofar" à sua volta.

Isso mostra também quem são as pessoas que escrevem, com quem nos apetece entrar no café e pedir licença para beber um chá e trocar algumas palavras, não é Patti?

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, maio 20, 2026

Escrever sempre foi diferente de falar...


Escrever sempre foi diferente de falar. 

(grande novidade, não é?)

As palavras não nos escapam com tanta facilidade, não nos enganamos tanto com o uso que damos ao português, pela falta de ponderação ou simplesmente de vocabulário...

Falei do livro que estou a ler, um quase diário, que não o chega a ser. Sim, é mais um livro de observações. É curioso, mas o autor só fala de nomes de gente quando escreve de uma forma positiva sobre essas ditas pessoas. Quando faz um comentário mais agreste, esconde-os atrás das palavras...

E não somos todos assim? Questionou muito bem a Carla.

Somos e não somos. Depende do que se diz e também a quem se diz. 

O Rui trouxe outra curiosidade para a mesa, o facto de nunca termos cultivado muito este género literário, As excepções que confirmavam a regra eram Vergílio Ferreira e Miguel Torga, e de uma forma mais disfarçada, Fernando Namora (o livro de que falo é dele, com um belo título, "Jornal sem Data"...) e mais um ou outro autor.

O Carlos acrescentou que lhes devia faltar "vidinha". Como nunca foram escritores de café nem de tertúlias, montavam as mesas e as cadeiras em casa e chamavam uma ou outra personagem, apenas para lhes fazerem companhia e "vingavam-se do mundo dos outros"...

Provavelmente estava certo. Era possível que lhes faltasse mais mundo, mais rua, mais conversa fiada...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, abril 30, 2026

Perder a mão para a escrita e a cabeça para as ideias...


Sei que acontece a quase todos os que escrevem, até mesmo aos chamados "melhores" (talvez até mais a estes, devido ao grau de exigência que os cerca...).

Começa-se por se sentir a falta de ideias, depois vem a falta de imaginação, e até a falta de palavras, para conseguirmos descrever o nosso mundo e o mundo dos outros.

Também sei que na literatura este "sentir" acontece mais aos poetas, que gostam de escrever coisas bonitas e não encontram as palavras certas... descobrindo o que é o vazio, que encolhe ou faz desaparecer os poemas. 

Eles bem olham para o céu, para o rio, para as pessoas, mas...

Tenho um amigo que quase foi obrigado a desistir de olhar o mundo com poesia. Começou a escrever prosa, coisas curtas, mas não é a mesma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 14, 2026

«Sou um escritor de livros invisíveis»


Quando ouvi um amigo que escrevia livros, dizer, «sou um escritor de livros invisíveis», não o levei a sério.

Talvez por nesse tempo ainda existirem bastantes leitores de livros...

Apesar dos todo o optimismo de alguns editores, de que hoje há mais leitores e que se vendem mais livros, sei que são apenas mais duas mentiras, para juntar a tantas outras, deste nosso tempo. Tempo que perdeu a capacidade de olhar para dentro e para fora de si, e de se interrogar sobre o seu verdadeiro papel nesta bola cada vez mais achatada...

Hoje percebo melhor este meu amigo, por também eu ser "escritor de livros invisíveis"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 07, 2026

Continuar a andar por aí com livros na mão...


Normalmente não ando com livros na mão, quando os levo comigo para me fazerem companhia de viagem (às vezes mesmo as curtas de cacilheiro...) vão na mochila. Não vou tão longe como o Henrique, que achava que as pessoas que usam o livro quase como adereço, eram mais "passeadores" que "leitores" de livros.

Mas achei que devia escolher este título, por me apetecer continuar a falar de autores antigos, nem sempre bem considerados. O primeiro nome que me veio à memória foi Alves Redol, que o mestre Lagoa Henriques despiu na sua estátua de Vila Franca de Xira (a pensar na sua escrita e na forma como sempre tentou viver, livre de preconceitos e das "roupas" que queriam que vestisse, mesmo que estas não lhe servissem...).

Junto à conversa uma das localidades que mais gosto (mesmo sem nunca lá ter vivido, foi apenas lugar de trabalho transitório...), a Vila Franca de Redol e de tantos outros homens da cultura e da resistência antifascista. Não esqueço que foi graças às viagens de comboio entre Santa Apolónia e esta local ribeirinha, que voltei a ler com paixão e a sentir vontade de escrever com se fosse "escritor"...

Recordo-me de ler algumas opiniões pouco abonatórias sobre a forma como escrevia, vindas da gente do mundo  dos livros. Nunca concordei. E estou à vontade para o escrever, porque nunca estive muito afastado dele, fui lendo os livros da sua autoria que me iam chegando às mãos. Iniciei-me com o "Constantino, guardador de rebanhos e de sonhos", ainda nos primeiros anos de liberdade, por ser leitura obrigatória no ciclo. Só o voltei a ler no tal regresso às leituras apadrinhado pela terra que sempre foi mais que de "touros ou toureiros" - como era identificada com alguma brejeirice -, com os "Gaibéus". Uma década depois li o seu grande livro, "Barranco de Cegos", um dos melhores do século XX (na minha opinião, claro). Alguns livros depois da sua autoria e já em 2021, li a "Fanga", que também não foge (e muito bem...) do Ribatejo e da vida difícil  das pessoas.

É provável que exista neste gostar, algum parcialismo, por saber que foi um grande ser humano e também por conhecer o seu filho António, que não lhe fica atrás...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)


segunda-feira, abril 06, 2026

Faz-nos muita falta ler coisas que nos façam pensar...


Há muitos anos que não lia um livro de Jorge Amado (provavelmente, há mais de trinta...). No início estranhei aquela forma "crescente" de agarrar o leitor à história, de quem não está preocupado em prender o leitor logo no primeiro capítulo, mas depois vamos ganhando confiança com as personagens e por ali ficamos até à última página. Foi assim com este "Terras do Sem Fim".

Mas não é sobre isso que quero falar, aliás escrever. Ao ler estes romances que falam sem rodriguinhos da vida das pessoas num tempo que parece estar a voltar, em que se volta a desvalorizar a vida humana e se cresce socialmente pisando e matando os outros, fico a perceber o quanto são importantes os livros que falam com crueza sobre a vida e sobre as pessoas. São eles que nos ajudam a abrir os horizontes em relação a este "novo-velho" mundo que nos cerca...

Podem ser histórias do século XIX, princípios do século XX, mas percebe-se que podem ser facilmente transpostas para o período actual que estamos a viver no século XXI. Sim, tanto Trump como Putin ou Netanyahu, podem muito bem ser comparados com os "coroneis" dos romances de Amado, pela forma como não respeitam as leis (o "Direito Internacional" tornou-se uma anedota...) e se tentam livrar dos inimigos políticos.

Faz-nos falta voltar a ler livros (ou até reportagens de revistas e jornais...), que nos façam pensar e sentir que pode existir um outro mundo, melhor para todos nós. Um mundo distante destas "matanças diárias", que só estão a acontecer pela ambição humana doentia e desmedida provocada pelo poder.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 04, 2026

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»


Embora ainda estivesse a alguma distância dos oitentas, sabia que era uma idade complicada. Além das doenças que apareciam, quase do nada, havia também algumas coisas que começavam a funcionar mal, outras deixavam mesmo de funcionar...

Tinha à minha volta pessoas que me lembravam desta perda de faculdades, desde a minha mãe ao Chico. Mas as queixas deles eram mais físicas que intelectuais (e ainda bem...).

Sento-me menos vezes na esplanada do café da minha praça, porque raramente encontro alguém conhecido, com quem possa trocar algumas palavras. Desta vez apeteceu-me ficar um pouco por ali, à sombra, a beber café a ver quem passa.

Foi quando um senhor com quem não falava há uns dois, três anos (ou mais que agora o tempo também começa a passar a correr por mim...), me perguntou se se podia sentar. Claro que podia, e devia.

Com o tempo fui percebendo que tinha muitas falas guardadas, por não ter pessoas que gostassem de livros por perto. Foi por isso que foi falando mais do que eu. Até me contou que às vezes tinha saudades de escrever um poema, mas as palavras já não lhe saiam da cabeça, há muito tempo. Mas disse isto sem qualquer mágoa.

Depois disse-me que tinha uma coisa boa para me contar, acrescentando: «Boa para mim, claro.»

E depois contou-me que a leitura deixara de lhe dar o prazer de outros tempos. E estava reticente em voltar aos "autores da sua vida" por um "medo" que nem é assim tão estranho no seio dos leitores.

Mas encheu-se coragem e lá voltou a ler um dos vários livros de Camilo Castelo Branco que nunca lera. Sentiu-se muito reconfortado, por encontrar o Camilo de sempre. Sorriu quando me disse:

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)