domingo, maio 17, 2026

O chavão de que "o que vem de fora é que é bom"...


Por vezes escrevemos um texto diferente, sem sairmos da sua "alma".

Isso acontece quase sempre, por terem ficado demasiadas pontas soltas no ar.

Continua a ser uma evidência, que o nosso país é uma maravilha para quem chega de fora, então se tiver a pele e o cabelo claro...

Podia aplicar aqui o bom e bonito, "vive e deixa viver", mas não é uma coisa assim tão simples e agradável.

Não se pode apagar todo um histórico, que se deve ao facto de termos sido sempre, um país pobre e pouco desenvolvido, que fixou a frase, de que "o que vinha de fora é que era bom" (com alguma lógica...) e que acabou por ficar gravada na cabeça dos portugueses.

Agora que se fala tanto em "reforma laboral", é importante falar dos ingleses que desenvolveram algumas das nossas indústrias no século XIX e sempre trataram os trabalhadores com mais dignidade e respeito que os patrões portugueses.

Todas estas coisas fizeram com que nos tornássemos hipócritas e subservientes (os políticos continuam a dar o exemplo nas relações com o EUA ou a Europa, ao quererem ser "bons alunos").

Embora seja um tema pertinente, e com opiniões diversas, acho que nunca nos conseguimos livrar do tal chavão, de que, "o que vem de fora é que é bom" (com a excepção das peles mais escuras, claro...).

Não é por acaso que em muitos lugares, se dá mais importância ao que dizem as pessoas de fora, que os da casa. Mas isso dá para mais um ou dois textos, escritos em jeito de crónica...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, maio 16, 2026

«Acho que não ias perceber, com exemplos, mas o teu país é muito mais livre que o meu»


Lembrei-me da última conversa que tive com uma mulher de pele e cabelo claro, que vivia na Beira Baixa e nunca deixou de escrever para os jornais do seu país. Conheci-a por um mero acaso.

Alguém lhe dissera que eu também escrevia. Ela estava a investigar a história de uma família importante (já quase não se fala dela...) e a forma como beneficiou dos fundos europeus. Queria que eu lhe explicasse algumas coisas, por ainda não perceber as muitas virtudes da língua portuguesa. Ou seja, a nossa conversa foi mais sobre o português que sobre a dita família.

Quando ela se instalou no interior, no começo do século, ainda não estavam na moda os famosos "nómadas digitais", que vivem espalhados por todo o lado. Nem a vida era tão fácil para quem vem de fora, como é hoje...

Encontrei-a uns vinte anos depois, numa superfície comercial, acompanhada da filha adolescente. Acabámos por beber um café e gostei de ver que ela falava a nossa língua correctamente, apenas se notava um ligeiro sotaque.

A vida já estava pior para todos, inclusive para quem era de fora e vivia como nós. Mas ela nunca pensou em regressar para a Holanda com o companheiro e os dois filhos.

Embora eu não tivesse sido curioso ao ponto de perguntar o porquê, ela disse-me uma coisa, daquelas que nunca se esquecem: «Acho que não ias perceber, com exemplos. Mas o teu país é muito mais livre que o meu.»

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


sexta-feira, maio 15, 2026

E esta? Portugal está pior e os portugueses vivem cada vez pior (não digam nada ao Montenegro, ao Soares ou ao Amaro)...


Apesar de nunca ter existido um governo em mais de 50 anos de democracia, que tenha usado e abusado, tanto, da propaganda e da "fumaça", a realidade já não dá muito mais espaço para encenações. 

A aposta em discutir "não problemas", como são os casos das alterações da Lei Laboral ou da Constituição, mesmo que sejam desejadas pelos patrões e pela direita, não resolvem qualquer problema dos portugueses.

A continuada tentação em culpar o PS dos "males" do país, também já não dá grandes hipóteses de se "sacudir o capote", quando tudo está pior que há dois anos. 

Sei que irão "cavalgar" na crise provocada por Trump, mas os problemas na saúde, na educação, na alimentação e na habitação, começaram a agravar-se antes da criação da "portagem do estreito de Ormuz"...

Luís Montenegro, por muito que finja viver num "país imaginário" e tenha conseguido transformar a comunicação social num feudo da direita (cada vez existem menos comentadores de esquerda nos canais televisivos...), já não pode dizer, com a "lata" que o caracteriza: que o país está melhor, mesmo que os portugueses vivam pior.

A realidade salta-nos aos olhos diariamente,, seja nos hospitais, nos mercados, nas escolas, nas bombas de gasolina, nos restaurantes ou nas imobiliárias...

Está tudo pior, se esquecermos a meia-dúzia de pessoas do costume (são tão egoístas, que querem tudo, até a tal lei laboral que põe fim ao pagamento das horas extraordinárias...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 14, 2026

A justiça, os justiceiros e os bandidos...


Há muito tempo que não falava sobre Sócrates e sobre a justiça. Talvez fosse por isso que desse mais importância à conversa que tive com um amigo, que não encontrava "há séculos", e que me foi capaz de me fazer ver o caso, numa outra perspectiva.

O facto de ele ter sido vítima da nossa justiça, morosa e tendenciosa, devido a um divórcio litigioso, povoado de mentiras pela parte da ex-mulher e família - só agora, com os filhos na idade adulta é que passou a ter uma relação normal com ambos -, faz com que olhe para tudo de forma diferente.

O mais curioso, foi ele dizer-me que José Sócrates continua preso, desde que o prenderam no aeroporto, como se fosse um "perigoso assassino". Acrescentou que a perseguição de que é alvo por parte dos tribunais, dos jornalistas e das polícias nunca mais lhe permitiu ter uma vida "normal" e em "liberdade".

É por isso que está convencido de que o Estado - ou seja, todos nós -, vai ter de o indemnizar, e que se ele for condenado, será por coisas ridículas, que apenas darão para uma pena suspensa. O que é muito pouco para quem está "preso há tanto tempo"...

Pelo meio ainda me falou das "famílias do actual regime" (PSD), ligadas à banca (sobretudo o BPN), que durante todos estes anos nunca deixaram de viver "à grande e à francesa". A única excepção tem sido o Salgado, cuja tentação de se fazer "passar por maluquinho", lhe deve ter mesmo afectado a cabecinha...

Claro que nada disto alterou o meu pensamento sobre o caso. Os bandidos, os justiceiros e os advogados de defesa, já estão há muito tempo identificados...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quarta-feira, maio 13, 2026

Esta coisa curiosa de se ser líder...


Quando ouço falar de liderança, fico sempre com alguma vontade de rir.

Digo isto porque fiz parte de uma instituição, que costumava inscrever os seus quadros médios em cursos deste género (muito uteis, diga-se de passagem, também por lá andei e aprendi alguma coisa, quando mais não fosse, pelas partes lúdicas da coisa, que além de nos divertirem, também nos faziam pensar...).

Ou seja, quem realmente precisava destes cursos na "fábrica" - as chefias - não os frequentava (já sabiam tudo, os "sabões"...). Nunca percebi bem porquê.

Claro que muitas vezes o tiro saia-lhes pela culatra, porque um ou outro colaborador mais sabido, era capaz de lhes dizer, quando usavam e abusavam do poder que tinham, que as "moscas não se apanhavam com vinagre". Ou então, que não tinha sido isso que tinham aprendido no tal "curso" (que eles não frequentavam)...

Toda esta conversa a propósito da aparente falta de liderança do presidente do Benfica, quando comparado com os seus adversários do FC Porto e do Sporting.

Eu não conheço o Rui Costa, pelo que não posso dizer se é o "banana" que algumas pessoas nos querem fazer querer. Acredito que não seja. Mas ele já devia ter percebido, que a liderança não se faz apenas para dentro, também se faz para fora.

E os silêncios dele, são realmente ensurdecedores...

Nota: Reparei agora que me enganei no "éfe", era dia de falar de fátima e falo de futebol...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, maio 12, 2026

Uma boa maneira de se "gostar"...


Depois de deixar os meus amigos na mesa do café, fiquei a pensar em como somos condescendentes com as pessoas que gostamos...

E ainda bem que é assim. É apenas mais uma boa maneira de se "gostar", das muitas que existem, sem qualquer espécie de loucura.

São esses amigos que me fazem responder com sorrisos às suas provocações, e claro, com uma ou outra boca, mas sem nunca se perder o humor, que como se percebe, é tão importantes neste dias, em que se faz gala de se ser estúpido, agressivo e mal educado, mais vezes do que se devia, para quem não se conhece, apenas por que o dia nos está a correr mal...

Quando somos mesmo amigos, temos uma capacidade enorme de desculpar.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, maio 11, 2026

«O normal é sermos maus pais»


Às vezes há alguém que passa pelo "Largo" e aproveita para falar sobre isto e aquilo. Foi o que fez o Carlos, que resolveu iniciar as hostilidades à sua maneira com a frase: «O normal é sermos maus pais.»

Éramos quatro na mesa e deixámos o Carlos sozinho, por não querermos enfiar a carapuça de "maus pais". Se bem que eu me limitasse a sorrir e a dizer-lhe que ele não precisava de ser tão definitivo. Claro que eu estava farto de saber que o que ele era, era um "provocador". E que era graças às suas provocações que muitas vezes chegávamos a lugares interessantes dentro das conversas...

Naquele momento, lembrei-me do meu professor de rádio do curso de jornalismo, o Carlos Martins e de uma chamada de atenção que ele me fez, por eu com vinte e poucos anos, andar demasiado agarrado à palavra "objectividade", num mundo tão subjectivo... Ele em vez de me dizer que estava errado, sorriu e mostrou-me, com exemplos práticos, que o melhor que tinha a fazer era guardar a tal palavra, tão definitiva, no saco...

Pois é, nós aos vinte pensamos que sabemos tudo da vida e aos sessenta, ficamos algumas vezes com a sensação de que aprendemos menos do que devíamos com a vida.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, maio 10, 2026

O Miguel e a "pirâmide invertida" da Segurança Social...


Embora o Miguel Sousa Tavares seja "excessivo", gosto de o ler, de o ouvir e ver, porque mesmo quando diz disparates, faz-me ficar a pensar em muitos dos temas que trás para a discussão pública.

Nem sempre me lembro que ele uma vez por semana (às quintas) comenta os casos mais pertinentes da semana, no Jornal Nacional da TVI. Esta sexta-feira, ao fim do dia, cansado das mesmas notícias e dos mesmos comentadores diários, lembrei-me e andei para trás no tempo e fui ouvir os seus comentários.

Acabei por ficar surpreendido com as suas palavras sobre as reformas e sobre as pessoas que não têm filhos. O que é mais curioso, é que eu nunca tinha pensado nesta questão como ela foi colocada pelo Miguel, ao dizer que quem não faz filhos e não deixa descendentes - para alimentar a "pirâmide" da Segurança Social (cada vez mais invertida), devia ser penalizado.

Mesmo sabendo que não há forma nenhuma de penalizar as pessoas que decidem, por isto ou aquilo, não ter filhos, ele não deixa de ter razão. Estas pessoas estão a contribuir para que a "pirâmide" fique cada vez mais invertida e embora tenham descontado, as suas reformas acabam por ser pagas com os descontos dos filhos dos outros...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, maio 09, 2026

«Nem mas, nem meio mas. Sempre aceitámos estas regras»


Eu sabia que era assim. Mas também sabia que estamos sempre a tempo de mudar, mesmo que este tempo nos dê menos tempo para mudar o que quer que seja.

Foi por isso que ele insistiu na "mesma tecla": «Nem mas, nem meio mas. Sempre aceitámos estas regras.»

Embora existisse alguma crueldade e frieza nas suas palavras, elas eram verdadeiras. A meritocracia sempre foi uma treta. E não houve revolução que conseguisse mudar isso...

A nossa vida foi vermos pessoas a passarem-nos pela esquerda e pela direita, não pela sua competência, mas sim por outros predicados. Os "olhos bonitos" também fizeram algumas misérias, mas houve sempre um outro lado, quase oculto, que tanto podia vir da parte da mãe, do pai, do avô ou do tio, que arrumava quase todas questões.

E isso acontecia quando ainda podíamos mandar um chefe de merda para qualquer sítio desagradável, seguros pelos "trabalhos para toda a vida"...

Fiquei a pensar, que apesar dos nossos cabelos cinzentos e das rugas que se instalaram à volta dos olhos, parece que estamos a ver melhor agora. 

Parece... Os nossos filhos vivem os mesmos tempos que vivemos (ainda que sejam ligeiramente piores...), em que tínhamos a mania de que éramos felizes...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, maio 08, 2026

Uma semana com exposições...


Esta semana visitei três exposições (uma delas era três...), diferentes. Uma de fotografia, uma de pintura e outra documental, na Capital.

Apetece-me falar das fotografias de Gérard Castello Lopes ("Fotografias 1956-2005"), Georges Dussaud ("De Lisboa para Ti") e Rita Barros ("Hyperosmia"), cada uma com o seu espaço e a sua narrativa, que estão nas paredes do Arquivo Municipal à espera de visitantes.

Claro que me identifico mais com o Gérard e com o Georges que com a Rita, o objecto da sua arte. Faz-me confusão nós sermos o centro da nossa forma de nos expressarmos artísticamente, como acontece com a Rita, que se especializou nos "auto-retratos", tal como Jorge Molder e antes Helena Almeida. Poderá ser falta de sensibilidade minha para a coisa...

Quando sai do Arquivo (Rua da Palma) vinha agradado com o que vira. Ainda antes de chegar ao Martim Moniz pensei que se havia duas pessoas ligadas a fotografia, que gostaria de ter conhecido, eram Gérard Castello Lopes e Augusto Cabrita, por razões diferentes. 

Sei que aprendia algumas coisas com eles (já aprendo bastante só quando olho as suas fotografias...), porque me identifico com o seu trabalho e também por gostar de comparar tempos...

Fala-se muito de censura, da escrita durante as ditaduras salazarista e marcelista, mas fala-se pouco da imagem, de como ela era recebida, tanto pelas pessoas (especialmente nas ruas), como pelos poderes, nesses tempos com poucas cores...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 07, 2026

Em nome do cinema e da família...


Só hoje é que pensei no filme de ontem.

Não me disse nada de novo, talvez por eu já ir para velho. 

Mas nem sempre fixamos o nosso olhar nas coisas pequeninas, e rasteiras, que as pessoas são capazes de fazer na defesa da família.

A desculpa que usam quase sempre no "caderno das justificações": é o amor.

Como se ele servissem para desculpar tudo, até mesmo as acções crueis e desprezíveis.

Pois é, o cinema faz-nos pensar de uma forma mais profunda e séria sobre a vida, porque só tem um episódio, ao contrário das séries e telenovelas televisivas... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, maio 06, 2026

Era apenas eu que queria que o cinema fosse mais parecido com as nossas vidas...


Atravessava o rio e queria, quase à força, que o cinema fosse mais parecido que as nossas vidas que as telenovelas. Pelo menos com as vidas que queríamos ter, ou tivemos, quando pensávamos que éramos felizes...

Neste caso, não importava nada que a felicidade seja fosse só uma ideia.

Talvez tivesse tudo a ver com a possibilidade de se contar uma duas ou três histórias em apenas hora e meia, mais minuto menos minuto. Não se ter de ir buscar "palha" ao palheiro para andar a encher tempo de tempo, transformando uma simples história de cordel em algo enfadonho e repetitivo, apenas porque tem de durar meses e meses...

O mais curioso foi pensar nestas questões quase técnicas e não nas coisas que dissemos, antes e depois do filme.

Também não pensei no filme, porque era daqueles para falar apenas no dia ou na semana seguinte.

Talvez estivesse a valorizar o cinema, por ter visitado uma sala especial e por já não ver um filme às escuras e em silêncio (ali não se vendem pipocas...), há mais de meia dúzia de anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, maio 05, 2026

A cor do sangue e das maneiras...


Sempre me fez confusão que quem nos trata mal esteja à espera de ser bem tratado, seja na rua, numa loja ou mesmo em casa.

Mas acontece...

Talvez seja isso que nos faça perceber que a cor do sangue não deve ser igual para todos, pelo menos em algumas cabecinhas.

É possível que algumas pessoas pensem mesmo que têm sangue azul...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, maio 04, 2026

Que famílias são estas? Quem são estes pais?


Quando algumas crianças, entre os cinco e os sete anos, resolvem agredir outra criança, cega, mais desprotegida que elas, não nos deve apenas fazer pensar. 

Diz que é urgente agir, especialmente dentro das famílias. 

A primeira pergunta que faço é esta: "quem são os pais destas crianças agressoras?"

Sim, são eles os primeiros, e principais culpados, desta agressão cobarde e preconceituosa.

Não venham culpar as escolas e a falta de auxiliares, muito menos as guerras que assolam o Planeta. 

O problema começa e acaba nas nossas casas. Ponto final.

No meio desta atitude vergonhosa, só espero que não exista nenhum pai ou mãe, que ainda tenha ficado orgulhoso, do rebento que tem por casa, por ser bom a "bater no ceguinho".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, maio 03, 2026

Festejar a Mãe com o cinema e com os museus...


Embora a minha mãe tenha nascido e crescido numa aldeia, onde nem mesmo a menina mais afortunada, aprendia a tocar piano e francês, nunca lhe passou ao lado a importância das coisas bonitas e curiosas no nosso crescimento.

Hoje ao almoço, nas Caldas, perguntei-lhe por que razão, na minha meninice e na do meu irmão, nos levava às matines do cinema e uma ou outra vez, ao Museu José Malhoa.

Disse-me que isso acontecia por passar muitos domingos sozinha connosco (o pai era caçador e preferia passar os domingos aos tiros que a passear com a família...) e que de vez enquanto, sentia necessidade de arranjar programas diferentes para nós...

Disse-lhe que foi graças a Ela, que gosto tanto de cinema e que me sinto tão bem dentro de museus...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, maio 02, 2026

O 25 de Abril não tem donos, mas tem pais e guardiões orgulhosos...


Felizmente o 25 de Abril não nasceu de um parto difícil, muito menos teve "pais incógnitos".

A sua história continua a ser demasiado bonita e real, ao ponto de alguns a continuarem a achar mais próxima dos filmes e dos sonhos, que da realidade.

O único sangue derramado foi pela polícia política, que não gostou de ver o povo a encher as ruas, muito menos a dar vivas à liberdade.

Foi o seu último gesto, cobarde e assassino, que felizmente não conseguiu retirar a beleza ao vermelho dos cravos.

Embora a direita goste de encher a boca e dizer que o "25 de Abril não tem donos", por questões dúbias, têm razão.

Abril não tem donos. Tem sim "pais" e "guardiões". Gente de todas as idades que vai gritar sempre, com orgulho: «25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais!»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, maio 01, 2026

O Tejo com um Maio que promete amadurecer...


O Tejo está sempre em mim.

Basta aproximar-me da janela ou da varanda viradas para este, da minha casa.

Apesar desta nossa ligação diária, não dispenso descer até às suas margens e conversar, tu cá tu lá, seja no Ginjal ou na zona ribeirinha de Lisboa.

E neste primeiro dia de Maio, houve mais gente que também quis conversar e festejar este "Dia do Trabalhador", no Ginjal, sem o bulício citadino da gente de todas as idades, que quis deixar bem audível, que a lei que este governo quer aprovar só serve o patronato, cujos olhos cheios de cifrões continuam apenas virados para eles próprios... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, abril 30, 2026

Perder a mão para a escrita e a cabeça para as ideias...


Sei que acontece a quase todos os que escrevem, até mesmo aos chamados "melhores" (talvez até mais a estes, devido ao grau de exigência que os cerca...).

Começa-se por se sentir a falta de ideias, depois vem a falta de imaginação, e até a falta de palavras, para conseguirmos descrever o nosso mundo e o mundo dos outros.

Também sei que na literatura este "sentir" acontece mais aos poetas, que gostam de escrever coisas bonitas e não encontram as palavras certas... descobrindo o que é o vazio, que encolhe ou faz desaparecer os poemas. 

Eles bem olham para o céu, para o rio, para as pessoas, mas...

Tenho um amigo que quase foi obrigado a desistir de olhar o mundo com poesia. Começou a escrever prosa, coisas curtas, mas não é a mesma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 29, 2026

Uma sociedade em que o "estilo" é um modo de vida...


Noutros tempos, ter estilo, só era entendido como uma vantagem para quem se movia nos meios em que o poder político e económico, ditavam quase todas as leis existentes.

Graças à popularidade do cinema e da televisão, o "estilo" tornou-se uma coisa facilmente copiável, mesmo pelos rapazes e raparigas mais modestos.

Pensei nisto enquanto esperava num banco por alguém que não iria chegar (fui enganado por uma secretária demasiado meticulosa, que me poderia ter dito esta coisa simples, "ele não veio hoje", em vez de me pedir para esperar...).

Ao olhar as pessoas que passavam para um lado e para o outro, vestidas para darem nas vistas, pensei para mim próprio que a coisa mais fácil de ser ter, é um estilo.

Tudo aquilo que se copia, acaba por ser mais fácil de se conseguir, porque apenas se tem de ser bom a "imitar", a "copiar".

Sorri ao pensar que quando se quer ser criativo e original, além de exigir bastante trabalho, pode ser uma chatice...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 28, 2026

Um pequeno pormenor que distingue um bom de um mau político...


Não sabemos exactamente como se continua a viver na região de Leiria, mas fazemos uma pequena ideia, graças às notícias televisivas...

Milhares de pessoas, apesar dos apoios, continuam a fazer contas à vida, logo que se levantam. Nem quero imaginar o que passa pela cabeça dos pequenos empresários...

Foi por isso que achei curioso o aviso de Montenegro, quando disse, literalmente, que não havia dinheiro para toda a gente. Quem sabe como a "corrente" de apoios se processa, ficou esclarecido. Ele informou as  gentes de Leiria e arredores para se fazerem à vida, porque só ia apoiar a selecção de pessoas do costume, construída normalmente através de cunhas e simpatias políticas.

Sei que Costa não fez as coisas de forma diferente. Não foi por acaso que, quando foi preciso reconstruir as zonas de incêndios, alguns autarcas tiveram de responder em tribunal pela sua dualidade de critérios e aproveitamento financeiro na distribuição de apoios. 

Mas o que ele nunca disse às pessoas, foi a verdade crua. Nunca as deixou ainda mais abandonadas e solitárias do que já se encontram...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


segunda-feira, abril 27, 2026

O trabalho ainda com Abril no horizonte...


Ainda com Abril no horizonte, é bom não ficar em silêncio com a tentativa de alterar as regras do mundo do trabalho.

Os argumentos dos governantes e dos partidos de direita, não enganam ninguém. Tanto uns como outros,  não fazem mais que defender os interesses do patronato, numas nova Lei Laboral, que apenas têm como objectivo facilitar a tarefa de quem manda e lucra com o trabalho dos outros.

A memória existe para alguma coisa. E ela é a primeira a dizer-nos que os donos de qualquer empresa, nunca tiveram qualquer problema em fugir das suas responsabilidades, quando estão em equação direitos dos trabalhadores ou até pagamentos ao Estado.

Daqui a meia-dúzia de anos, estamos cá para ver, as mudanças que esta lei fez no País... 

Era bom que a produção subisse como prometem, tal como os ordenados dos "colaboradores", mas, infelizmente, o capitalismo é o que é (e o português ainda consegue ser mais miserabílista, em tudo)...

(Fotografia de Luís Eme - Barreiro)


domingo, abril 26, 2026

Que assim seja...



Concordo.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 25, 2026

25 de Abril Sempre!


Liberdade é tanta coisa (felizmente).

O importante é termos sempre coragem de a expressar, de todas as maneiras possíveis.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, abril 24, 2026

quinta-feira, abril 23, 2026

A Liberdade com livros e os livros com Liberdade...


A proximidade do Dia Mundial do Livro com o 25 de Abril é um bom pretexto para afirmar que a literatura é uma das forma artísticas mais livres que existem, por estar muito ligada à imaginação, ao sonho, à história e às pessoas.

E também é uma forma de recordar, de resistir, de denunciar, de agir.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, abril 22, 2026

O que é que é isso, afinal, de se ser livre?


Sei que há alguma dificuldade, em se perceber, o que é isso, afinal, de se ser livre.

Digo isto por pensar que só conseguimos ser verdadeiramente livres, quando conseguimos respeitar (e até fazer uma vénia) a liberdade, de ser, e de viver, dos outros, que teimam em ser diferentes.

Durante muitos anos achei que o meu pai era o "homem mais livre do mundo", por ter a sensação de que fazia sempre o que queria. Hoje penso de outra forma, porque havia algum egoísmo na sua forma de ser livre (aliás, ele só conseguiu viver como um pássaro sem gaiola, porque a minha mãe sempre o deixou voar para onde lhe apetecia...).

Hoje percebo que ser-se livre, é muito mais do que fazermos o que nos apetece.

A nossa liberdade não deixa de estar ligada a outra palavra, não menos importante, a dignidade. Só somos dignos da palavra liberdade quando conseguimos respeitar, da mesma forma, a nossa liberdade e a liberdade dos outros.

Parece fácil mas não é... É por isso que se confunde tantas vezes o verdadeiro significado da palavra liberdade...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 21, 2026

Abril é tudo isto, e muito mais...


Abril. É uma Revolução. Abril. É um Poema. Abril. É um Cravo. Abril. É uma Canção. 
Abril. É Liberdade. Abril. É Sonho. Abril. É Igualdade. Abril. É Fraternidade.
Abril. É uma Flor. Abril. É um Abraço. Abril. É um Sorriso.  Abril. É um Amor.
Abril. É História. Abril. É Gente.  Abril. É Filme. Abril. É Memória.
Abril. É um Marinheiro. Abril. É um Capitão. Abril. É um Soldado.  Abril. É um Companheiro.
Abril. É a Lua. Abril. É a Alegria. Abril. É a Paz. Abril. É a Rua. 


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, abril 20, 2026

Abril existe para todos (mesmo que algumas pessoas não achem muita piada)...


Sei que nem toda a gente gosta de Abril.

Também sei que isso tem pouco a ver com o que a sabedoria popular nos diz, das águas mil, até porque existem guarda-chuvas e a temperaturas é primaveril.

Tem sobretudo a ver com a "vidinha" e com a famosa "saudade", que não é apenas do fado. Continua a existir gente à nossa volta não consegue esquecer os privilégios que tiveram numa "outra vida", tanto na Metrópole como no Ultramar (mesmo que o tempo tenha ficcionado ligeiramente a realidade...).

Mas isso sempre foi o menos importante.

Importante é sentir que Abril existe para todos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, abril 19, 2026

Abril também pode ser um sorriso (daqueles que ficam cravados na memória)...


No meu último livro falo sobre o Abril que descobri aos dezoito anos na Capital, na festa que foi desfilar pela primeira vez na Avenida da Liberdade (não sei quantas cidades do mundo se podem gabar de ter uma Avenida que tem o nome de Liberdade e é tão larga e comprida, ao ponto de dar a sensação que cabem lá todos os amantes de Abril...

Muito ao de leve falo de uma miúda amorosa, que conheci nesse dia 25 de 1981. Digo apenas: «E depois desci a Avenida da Liberdade de mão dada com uma miúda gira, a Esmeralda, que ainda gostava mais de liberdade que eu.»

Se hoje continuo tímido, com dezoito anos, era muito mais...

Lembro-me apenas de termos trocado um sorriso e de nos termos aproximado, de estarmos ao lado um do outro e de nos tocarmos, quase empurrados pela multidão.

E depois desfilámos os dois de mão dada. Sei que dissemos muitas vezes, "Abril Sempre! Fascismo nunca mais!"...

Parece ficção, mas aconteceu mesmo. Aos dezoito anos quase tudo nos é permitido.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 18, 2026

Abril com Arte e Liberdade nas paredes de Almada


Tinha lido que iriam ser colados cartazes feitos por alunos num dos muros exteriores da Casa da Cerca, em Abril, mas só quando me dirigia para a inauguração da exposição de pintura, "Os Amigos" (na sede da SCALA) é que reparei numa quase multidão que enchia a rua, na tarde de hoje.


Depois de ver a exposição passei por lá e percebi que se estava a montar a tal outra exposição de Abril, cheia de cartazes com palavras, rostos, memórias, história, arte e liberdade, a céu aberto.

E sim Abril é tudo aquilo... 

E que nunca tenhamos medo de festejar a Liberdade, a Democracia, a Igualdade, a Fraternidade, em Almada, nas Caldas da Rainha ou em Albufeira...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, abril 17, 2026

«Estão a obrigar-nos a todos a brincar aos pobrezinhos»


A vida está mais difícil para toda a gente. O dinheiro vale cada vez menos, comparado com aquilo que se compra aqui e ali, obrigando a passar das marcas habituais para os produtos brancos... e a levar apenas meio quilo em vez do quilo habitual dos legumes e da fruta...

Só a meia dúzia de famílias do costume é que continuam a não contar neste hábito, que começa a ficar enraizado, de se brincar aos pobres, mesmo na quase desaparecida classe média.

Alguém se queixou na nossa mesa do valor da última factura da água, como se esta também tivesse atravessado o Estreito de Ormuz. Porque do gás, da electridade ou do petróleo, estamos conversados...

Quando o Carlos com o seu humor habitual disse que «estão a obrigar-nos a todos a brincar aos pobrezinhos», todos nós achámos que se tratava de tudo menos uma brincadeira.

À boa maneira portuguesa, sabíamos que a melhor solução para combater este dilema social, era não levar estas questões muito a sério.

Só que, como de costume, as coisas nunca são assim tão simples. 

Há muitas pessoas que não têm qualquer vontade de esboçar um sorriso, quando é preciso colocar pão na mesa para os filhos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, abril 16, 2026

O regresso de um mundo a "preto e branco"...


Por se tratar de um processo lento,  nem toda a gente se apercebe de que estamos a voltar atrás no tempo.

Mas basta olhar com olhos de ver, para o se tem feito com o SNS e com a educação pública, com a não contratação dos profissionais necessários para que as coisas funcionem com alguma normalidade... ao mesmo tempo que crescem ao lado hospitais e as escolas privadas...

Mesmo esta lei laboral, que anda de reunião em reunião, até que seja aprovada,  aposta num corte significativo nos direitos dos trabalhadores, que já passaram a colaboradores há algum tempo, e cuja precariedade vai passar a ser entendida como "liberdade de acção e de mudança"...

Mas nem era disto que queria falar. Era sim do sentimento de um amigo antigo, que mesmo sem nunca ter sido comunista, nem antes nem depois de Abril, voltou a ver os outros a quererem colar-lhe este rótulo, apenas por se continuar a sentir humanista e gostar de ser livre.

A coisa mais curiosa que ele me disse ontem, foi que não é por lhe voltarem a chamar "comunista", que vai passar a chamar aos bandidos, tiranos e assassinos, que estão à frente da Rússia, do Israel, do Irão ou dos Estados Unidos, fascistas...

Claro que é no mínimo triste e desolador, voltarmos a ver tanta gente com vontade de roubar as cores ao mundo e querer que ele volte a ser apenas a "preto e branco"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 15, 2026

Isto de gostar de olhar para aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga...


A minha filha assim que entrou em casa avisou-me logo para ter cuidado, porque houve um "passeador de cães" que deixou o seu "mais que tudo" a "libertar o prisioneiro" mesmo à nossa porta (ainda apanhou a grade-tapete da entrada...).

Como a minha Sofia sabe que olho para todo o lado menos para o chão, e que sou um tipo "cheio de sorte" (houve alguém que inventou esta patranha, de que pisar "merda" dá sorte...), fez com que pensasse logo que: "isto de gostar de olhar para  aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga..."

O mais curioso, é que nem me apetece catalogar a personagem que "educa" o seu "bebé" a preferir a pedra da calçada do passeio ao espaço verde meio abandonado que fica a menos vinte metros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 14, 2026

«Sou um escritor de livros invisíveis»


Quando ouvi um amigo que escrevia livros, dizer, «sou um escritor de livros invisíveis», não o levei a sério.

Talvez por nesse tempo ainda existirem bastantes leitores de livros...

Apesar dos todo o optimismo de alguns editores, de que hoje há mais leitores e que se vendem mais livros, sei que são apenas mais duas mentiras, para juntar a tantas outras, deste nosso tempo. Tempo que perdeu a capacidade de olhar para dentro e para fora de si, e de se interrogar sobre o seu verdadeiro papel nesta bola cada vez mais achatada...

Hoje percebo melhor este meu amigo, por também eu ser "escritor de livros invisíveis"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, abril 13, 2026

As guerras das mulheres são diferentes das guerras dos homens...


Continuo à espera de um  mundo onde as mulheres consigam alcançar o poder, de uma forma natural, propensas a cometer erros, mas erros diferentes dos que são cometidos pelos homens...

Estou farto das mulheres que quando chegam a cargos de poder se transformam em "homens", sem precisarem de fazer qualquer mudança de sexo. Simplesmente se limitam a continuar a seguir a cartilha masculina de sempre, a exercer o poder como se tivessem uma pila entre as pernas.

Sei que em muitos aspectos, o maior adversário das mulheres nas últimas décadas, têm sido as próprias mulheres, por não conseguirem (ou não quererem...) sair deste registo masculino.

Embora agora até tenhamos mulheres especialistas em guerra, que falam com a mesma desenvoltura dos homens sobre armas e tácticas, nas notícias que abordam a realidade como se ela fosse quase uma ficção, continuo a acreditar que as suas "guerras" são muito diferentes das dos homens...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 12, 2026

A política caseira e as viagens até à Lua...


Pensava que era possível falar de política (sei que com o futebol ainda é pior...), de uma forma descontraída, sem termos necessidade de nos afastarmos uns dos outros, num jantar mais alargado de família.

Estava enganado. Continuam a existir temas demasiado "quentes", tanto à esquerda como à direita...

A primeira discussão começou em relação ao Livre, que a minha filha chamou de um "partido capitalista", apenas por não ser contra a iniciativa privada. Claro que ninguém concordou. Confunde-se muito democracia com outras coisas...

Mas o pior estava para vir depois. Um tio disse que o Chega não era um partido de extrema-direita. Toda a gente o contrariou. Apenas eu o "defendi", dizendo que não sabia se este partido tinha ideologia, para além do populismo, de ser capaz de dizer uma coisa agora e cinco minutos o seu contrário.

Claro que houve alguém de cabelos cinzentos e sorriso fácil, que teve a habilidade de mudar de conversa, falando da "Lua". Até foi capaz de dizer que depois do homem ter chegado ao nosso satélite lunar, pensava que por esta altura já seria normal viajarmos até lá, de forma regular...

Felizmente não havia nenhum "negacionista" à mesa e a refeição continuou animada.

(Fotografia de Luís Eme - Céu)


sábado, abril 11, 2026

Achei delicioso alguém me contar que "lia para acordar"...


A expressão mais comum que se ouve, na relação que existe entre os livros, as pessoas e as camas, é "ler para adormecer".

Estava farto de saber que quem vive sozinho pode fazer coisas diferentes de que quem partilha casa com outras pessoas. 

Mas mesmo quando vivemos com os outros, podemos ter um quarto, que é quase como um de hotel, com a porta fechada para o exterior. Acho que hoje isso acaba por ser levado ao extremo pelos nossos filhos, que passam demasiado tempo fechados na sua "divisão de hotel"...

Mas não é sobre isso que quero falar. Até porque, como já perceberam pelo título, é de livros que se trata a conversa.

Livros e leitores. Às vezes lembro-me de ter passado a noite toda a ler (deve-me ter acontecido apenas duas ou três vezes...), quando vivia sozinho e quando um livro (desses que são cada vez mais raros...) me pedia para ser lido da primeira à última página.

Mas a história que vos vou contar é outra. A Zé costuma acordar demasiado cedo, a horas quase indecentes, como seis e meia da manhã. É então que resolve "ler para acordar"...

Sorri quando ouvi a expressão. Sei que todos os leitores que têm livros na cabeceira, já o fizeram, uma ou outra vez. Mas achei delicioso alguém me contar que "lia para acordar"...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


sexta-feira, abril 10, 2026

As pessoas com quem me cruzo nas ruas de Almada...


A cidade não está deserta, muito menos despovoada. Está apenas diferente, porque tem habitantes diferentes.

Pessoas que chegaram de fora, que trazem normalmente os seus hábitos e as suas culturas coladas à pele. Muitos deles, se não forem pessoas curiosas, ficarão a saber poucas coisas da nossa história e cultura. Nem tão pouco  irão alterar muitos dos seus hábitos, por viverem fechados nas suas comunidades. 

Acredito que as mudanças só acontecerão com os seus filhos e netos, que ficarem... e que se sintam ligeiramente portugueses. 

Se forem bem integrados (o que nem sempre acontece, porque as crianças estão longe de ser "a melhor coisa do mundo" e nem sempre tratam bem outras crianças... E se seguirem os maus exemplos dos adultos lá de casa, tudo piora...), poderão ser parte do nosso futuro...

Apesar de termos sido "colonizadores" diferentes dos ingleses, franceses ou holandeses, não foi por isso que fomos menos racistas que eles.

Nem sei se algum dia deixaremos de ser "racistas" ou outras coisas com esta terminologia... porque mesmo entre nós - a gente de pele cor de rosa -, nunca irão acabar as pessoas que pensam que "têm mais direitos e mais importância", que o vizinho do lado. Não lhes basta ter um carro ou uma casa melhor, querem sempre mais e mais...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, abril 09, 2026

A perda do sentido de comunidade e a precariedade reinante...


A sociedade está organizada de uma forma que valoriza cada vez menos o sentido comunitário, a importância do outro, seja na escola, no bairro ou no trabalho.

Penso que isso tem muito a ver com o sistema político e económico que "comanda", cada vez mais, as nossas vidas. 

O capitalismo tem conseguido "capturar", de uma forma inteligente, muitos dos valores que lhes podiam fazer frente, sobretudo os colectivos. É também por isso que tem conseguido "secar" instituições como os sindicatos, que normalmente funcionam como um obstáculo aos seus objectivos, já que a sua função primordial deve ser a defesa os interesses dos trabalhadores.

Isto deve-se muito à precariedade do trabalho. Estares a prazo em qualquer lugar faz com que a tua adesão a qualquer tipo de protesto, por muito justo que seja, possa conduzir ao teu despedimento. 

É esta mesma precariedade que faz com que as pessoas sejam educadas e vivam neste sistema que alimenta o "cada um por si", fazendo com que se acredite cada vez menos na importância dos valores colectivos. Quem entra no mercado de trabalho, rapidamente percebe que a maior parte das pessoas que estão à sua volta, estão mais preocupados com o seu umbigo e a sua vidinha, que em ser solidário ou combater o sistema injusto que está instituído...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)