quinta-feira, julho 02, 2026

Sempre que te encontro...


Sabes, 
agora, 
sempre que te encontro, 
sinto que o tempo está contra nós.
Olhas vezes demais para o relógio, que não usas.
Fico sempre com a sensação que digo demasiadas coisas, 
sem te dar tempo para contrapores,
para me falares de ti.

Esqueço-me que sou um tolo,
que te visita no horário de trabalho. 
Esqueço-me de que és uma excelente profissional.
E não menos importante,
esqueço-me de que não és minha...

E sim, o cabelo mais curto, 
fica-te bem e oferece-te outra leveza
para suportares este calor das arábias...


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, julho 01, 2026

Bom é continuar a seguir a estrada que finge que nos afastar dos problemas...


Pois é... nestas coisa do ambiente, por muito que se tente inventar, não há melhores previsões.

Todos estamos a sentir que o desiquilíbrio é maior do que o que se esperava, ao ponto de começar a silenciar os negacionistas, que usavam mentiras de "perna curta", para se enganarem a eles próprios. 

E o sobe e desce não vai parar. O trágico que acontecia quando "o rei fazia anos", quer passar a ser "o nosso normal".

Não vai ser preciso fazer mais leis, para que não se façam "casas de papel" ou "palácios rente à praia", a natureza resolverá o problema de uma penada.

O curioso, é que para muto boa gente, a solução não está em "acordarmos de vez" para o problema, em mudarmos de atitude, em perdermos o hábito de assobiar para o ar e afagar o nosso umbigo.

Bom bom, era alguém inventar um chapéu com "ar condicionado" para cada um de nós, nestes dias em que os termómetros se querem chamar "cristianos ronaldos" e bater recordes...

E, claro, continuarmos a seguir a estrada com setas e placas, que finge que nos afasta dos problemas (no nosso país temos várias, com mais ou menos buracos...).

(Fotografia de Luís Eme - São Martinho do Porto)


terça-feira, junho 30, 2026

Uma boa e memorável espera...


Só teve de esperar 50 minutos, para embarcar num cacilheiro autêntico, ainda cor de laranja e com motor diesel.

Não tem nada contra as energias mais limpas, é apenas um problema de cor, de daltonismo. 

Como acha que os eléctricos de Lisboa devem ser sempre amarelos, também pensa que os cacilheiros deviam ficar sempre com os bonitos tons da laranja, com que têm ficado imortalizados por tantos pintores e fotógrafos, com bom gosto...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, junho 29, 2026

O esboço de um novo ser humano, mais "panfleto" que "panfletário" (ou as duas coisas)...


Como hoje tudo é comerciável, não devia achar estranha, a abordagem feita por um potencial autor, que mesmo sem "saber escrever", disse-me que uma editora o andava a chatear, para que contasse a história da sua vida, ser o "autor" da sua "autobiografia".

No início fiquei sem perceber muito bem o que estava a ouvir. Ate cheguei a pensar que se tratava apenas de mais uma forma que alguém arranjara para enganar incautos e ganhar uns trocos. 

Quando senti que o meu interlocutor não conseguia esconder o seu orgulho, em poder passar para o lado de cá dos escritores, mesmo que se até então se revelasse incapaz de escrever uma história, por mais simples que fosse, fiquei com a sensação de que era mesmo possível que estivesse prestes a ser enganado.

Quando me vim embora, pensei que esta nova aventura literária devia ter o dedo, da cada vez mais popular, inteligência artificial. Só ela é que seria capaz de fazer a magia de transformar um cidadão sem qualquer talento literário num escritor...

É apenas mais um exemplo do esboço de um novo ser humano, mais "panfleto" que "panfletário", que também se prepara para ser um criativo a fingir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, junho 28, 2026

Ser seleccionador nacional devia ser outra coisa, além de se falar português, cantar o hino e ser amigo do Ronaldo...


Há qualquer coisa que nos prende à selecção, que não tem necessariamente que estar ligada aos patriotismos bacocos das camisolas, das bandeiras e das caricaturas humanas presentes nas bancadas dos estádios, vestidas de Portugal.

Essa qualquer coisa chama-se ser-se português (desde sempre, sem interesses ou tropeções na nacionalidade...).

Deve ser por estarmos distantes deste "bacoquismo", que temos cada vez mais dificuldade em encontrar algo de positivo no futebol praticado pela selecção. É muito poucachinho para um seleccionador estrangeiro falar português, cantar o hino nacional e ser um "grande amigo" de Cristiano Ronaldo.

Qualquer pessoa habituada a ver futebol, mesmo sem ser "catedrático do comentário desportivo", sabe que estas três virtudes não têm nada a ver com o futebol que se joga no relvado.

Há quatro anos que aturamos um treinador medíocre, que além de não ser capaz de escolher os onze melhores jogadores, ainda os coloca fora das posições onde habitualmente jogam nos seus clubes. E das substituições, nem é bom falar. Ontem até fiquei com a sensação de que a permanência em campo de um Cristiano Ronaldo ou de Bruno Fernandes,  durante 90 minutos arrastados, são mais um castigo que outra coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, junho 27, 2026

Eu tenho uma ideia, mas...


As coisas funcionam tão mal no nosso país, que quase todos nós, "temos uma ideia", de como era possível melhorar as coisas...

Isso tanto pode ser na repartição pública onde uma coisa que podiam fazer em menos de cinco minutos, obriga a um "circuito burocrático", que só nos permite receber a "tal coisa", na melhor das hipóteses, daí a quinze dias... Como no SNS, onde além das dores que as pessoas têm e as levam às urgências, ficam a perceber que a vida e a morte nunca é uma urgência no nosso país...

Podia continuar a desenrolar o rolo de papel higiénico, onde estão descritos problemas similares, na justiça, na educação, no emprego, no clube da nossa terra que nunca sobe de divisão ou até na tal selecção, que tem os "melhores jogadores do mundo", que ninguém consegue encontrar nos relvados americanos...

Sei que as coisas melhoravam, muito, se em vez de termos tantos "comentadores", tivéssemos mais "fazedores"...

Mas onde é que eles estão? Onde é que eles andam?

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


sexta-feira, junho 26, 2026

«Há pessoas que só dizem o que pensam, com uma máscara, como se fossem outras pessoas...»


Olhava para o Tejo, em mais uma travessia, na companhia da gente de fora, que não perdia uma viagem até Cacilhas, como se no outro lado existisse um ponto turístico, para lhes carimbarem o seu "encontro com o rio", dentro e fora do Cacilheiro.

Desta vez estava longe, não me conseguia desligar do desabafo de um amigo, que acabara de se separar. Disse-me muitas coisas, mas a que me fez mais confusão, foi a confidência de que nunca conseguiu conhecer bem a mulher, nunca conseguiu ter com ela uma daquelas conversas, em que sentimos que entramos dentro do outro... 

O que mais estranhava era ser extremamente activa nas redes sociais, onde usava um outro nome. Era como se fosse outra pessoa...

Confrontou-a mais que uma vez com isso, mas nunca conseguiu chegar a sítio nenhum. Nem mesmo quando foi colocado em uma ou outra situação embaraçosa, na família e no grupo de amigos, sem ser "ouvido e achado"...

Disse-me outra coisa, a que não liguei tanto, por ser mais comum do que o que parece: «Hoje sinto um grande alívio, por não termos tido filhos.»

Mas o que não me saía da cabeça era a frase: «Há pessoas que só dizem o que pensam, com uma máscara, como se fossem outras pessoas...»

Eu estava farto de saber que a maneira mais fácil de olharmos para o mundo, é com os nossos olhos, sem pensarmos que os outros olham para o mesmo lugar e vêm outras coisas... 

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, junho 25, 2026

Um "sapinho" que se tornou (mais) feio...


Está quase a terminar o tempo de  "vida" dos blogues do Sapo.

Todos (até os bons, que sigo diariamente...), têm de escolher outro endereço, a partir do próximo mês. A não ser que aproveitem esta oportunidade para dizerem adeus à blogosfera...

Lembrei-me que, quando somos conservadores, há sempre coisas boas e más à nossa espera... por termos ficado parados ou por termos dado um passo em frente.  

Não registei a data, mas deve ter sido há mais de quinze anos (o tempo tem asas, cada vez mais velozes...), que me convidaram para me mudar para o "clube dos sapos". Deram-me um nome feminino e um número de telemóvel de contacto, para o qual nunca liguei.

Segundo o convite, eles estavam apostados em ter os melhores blogues nacionais e o meu "Largo" fazia parte da lista... As pessoas  gostam sempre de exagerar, vá lá saber-se porquê.

Não perdi muito tempo a pensar no assunto. Não tinha nada a apontar ao "blogspot". Sentia-me bem e livre (só uma vez é que entraram em contacto comigo por causa dos direitos de autor de uma imagem, mas até isso foi positivo, porque fez com que passasse a utilizar apenas as minhas imagens em mais de 99% dos textos...).

O mais curioso nisto tudo, é que, vinte anos depois (sim o "Casario" já fez vinte anos...) os blogues continuam, velhos e antiquados, mas vivinhos da silva. Apenas o "sapo" é que está a morrer...

Há outro dado curioso. Se o número de visitantes e de visualizações está certo, 2026 tem sido o ano de todos recordes, tanto no "Largo" como no "Casario".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, junho 24, 2026

Nunca tinha pensado nisso, mas basta olharmos para o mundo, com olhos de ver...


Estava quase a chegar a casa, quando me cruzei com uma vizinha (daqueles com quem nunca trocámos qualquer palavras, nem mesmo um simples bom dia ou boa tarde...).

Ela falava com o seu pequeno cão (quase de bolso), como se fosse uma pessoa. Depois de lhe dar uma reprimenda quase a brincar, fez-lhe uma festa.

Estou farto de ouvir falar da "transferência familiar", dos animais que são tratados como filhos pelos seus donos, quase sempre com mil cuidados. Além das conversas diárias, como a que assisti, vivem no interior das casas, são regulares visitas ao veterinário, e os seus "pais" até os costumam "vestir", especialmente no tempo frio.

Mas desta vez pensei na "transferência de afectos"... Nunca vi esta senhora com um homem ou com uma criança. A sua solidão é igual à de milhares de pessoas, especialmente mulheres, que marcadas por más experiência de amor (nós homens somos bons como "bestas humanas"...), dentro e fora da família  nunca mais nos dão qualquer possibilidade de aproximação, pelo menos intima e afectiva.

Nem se trata de uma "solidão invisível", como por vezes se gosta de dizer. Ela é bem visível, está bem presente aos olhos de todos...

Basta olharmos para o mundo que existe à nossa volta.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, junho 23, 2026

O Portugal do Correio da Manhã (e das imitações que se fingem mais "finas"...)


Portugal acabou de ganhar, cinco a zero, a um pedaço da velha Rússia e União Soviética, chamado Uzbequistão.

Como era de prever, Cristiano Ronaldo marcou dois golos e passou de besta a bestial. Alguns dos comentadores que o crucificaram nos últimos dias, devem estar a montar um altar nas suas televisões...

Lembrei-me das palavras de António Lobo Antunes, que fingia não se levar a sério como cronista. Não eram sobre futebol, eram sobre nós, sobre a televisão e sobre os políticos que andam vestidos com a camisola da selecção nas redes sociais:

«É extraordinário como gostamos de comer merda desde que seja açucarada, é extraordinário percorrer a lista dos best sellers nas livrarias. Isto, claro, não é um fenómeno português, é um fenómeno universal, e nem sequer é recente. Dura desde o século XIX pelo menos, e é fácil de explicar, como é fácil de explicar o sucesso do jornal Correio da Manhã, de certos programas de televisão, de certos políticos, dos espaços sobre futebol que encharcam os ecrãs, das telenovelas miseráveis.»

Estas palavras foram publicadas na "Visão" a 23 de Fevereiro de 2017, há mais de nove anos. Provavelmente, daqui a vinte anos continuarão actualizadas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, junho 22, 2026

Quase "certificados (ou atestados) de sexualidade"...


Uns familiares afastados, quase que nos obrigaram a entrar na sua casa, com o argumento de tomarmos o café, que íamos beber à Associação Cultural local, quando passámos pela sua rua. Acabou por ser uma visita de médico agradável.

Um dos aspectos curiosos que mereceu a atenção dos meus filhos, foram duas fotografias, de nus, de bebés, dos dois filhos do casal, que são da minha geração, expostas em cima de um dos móveis da sala.

Começaram por "gozar" o prato, afirmando que eu e o meu irmão também devíamos ter fotos daquelas na casa da avó. Acabámos os quatro a sorrir. Argumentei que foi um pormenor que escapou à nossa família, e ainda bem. Isso fez com que nós também não explorássemos a sua nudez em bebés...

Quase em coro, os meus filhos disseram, "que pena". E nova gargalhada geral.

O mais curioso, é que a maior parte destes retratos eram tirados no atelier de fotografia. Sem encontramos uma justificação, achámos devia ser uma moda geracional, que ajudava as lojas de fotografia a sobreviverem.

A conversa ainda avançou mais, ao ponto de se falar em "certificados (e atestados) de sexualidade", a prova de que éramos meninos ou meninas... 

Algo que hoje não prova grande coisa (a não ser para o "toureiro"do CDS...), pois há quem tenha pilinha e se ache mulher e quem tenha pipi e se sinta homem...

(Fotografia de Luís Eme - A Foto Franco é uma boa resistente, que continua com a sua loja história aberta, na Rua das Montras das Caldas. E tem exposta, com orgulho, uma fotografia do  actual Presidente da República).


domingo, junho 21, 2026

Já nem é preciso chegar a amanhã para se mentir...


Se eu tivesse dúvidas da paixão que desperta o futebol, em que quase todos querem ter opinião, por mais diversas que sejam, elas dissipavam-se com o que se tem passado com o Mundial.

Nem se pode dizer que a "vox populi" esteja certa, mesmo que faça o mesmo que os comentadores televisivos, num contorcionismo diário, que se normalizou, dando razão a um certo dirigente desportivo que não teve qualquer problema em dizer que no futebol "o que hoje é verdade amanhã é mentira", como se tivesse uma "bola de cristal" para ver o futuro.

É por isso que o nosso "pior do mundo", se marcar um ou dois golos no próximo jogo, corre o risco de voltar a ter de vestir a pele de "salvador da pátria".

Noutros tempos podia-se falar de honestidade ou desonestidade intelectual, mas como estão a querer "matar" e a banir os intelectuais do Planeta, nem vale a pena pensar-se nisso.

A questão mais estranha nisto tudo, foi esta "futebolização televisiva" ter feito "rolar a bola" para todas as áreas, com relevo para a política. Aliás, ainda foi mais longe, nem é preciso chegar a amanhã, para se mentir, como percebemos com os discursos de Montenegro ou Ventura...

(Fotografia de Luís Eme - Feijó)


sábado, junho 20, 2026

Festa operária em Lisboa na sexta-feira...


Tinha de ser alguém de fora, a dizer que exagerávamos, cada vez mais, na nossa forma de sermos "porreiros" para com os políticos. Disse inclusive que depois do que Hugo Soares e André Ventura tinham dito na quinta-feira e depois do que aconteceu na sexta (chumbo da Reforma Laboral), não havia mais espaço para eles na "câmara dos comuns".

Claro que o Peter - que adora que lhe chamemos Pedro  - estava a exagerar, embora o parlamentarismo do seu país nos oferecesse vários exemplos, de que nós éramos de facto demasiado permissivos.

Se estivermos virados para o humor, somos capazes de achar engraçada a reacção de ambos, no dia em que a proposta de Reforma Laboral foi votada e deitada para o lixo em São Bento. Ventura cantou vitória e até foi capaz de se virar para as bancadas onde estavam os representantes da CGTP e erguer o punho fechado como se fosse o grande defensor da classe operária.

Já o líder parlamentar do PSD, depois de levar mais um "bailinho populista" do Ventura, foi capaz de dizer, com um ar sério, que "com o PSD ninguém brinca"... E depois ainda teve coragem (ou cobardia, depende do ponto de vista...) para tentar colar o PS ao Chega e falar de uma "coligação"...

Tudo isto é realmente triste e mau de mais para ser verdade. 

É por isso, que a única coisa que interessa mesmo, é que esta Reforma Laboral, feita à medida dos patrões, foi chumbada. Ponto final.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, junho 19, 2026

É tão fácil comparar o que não é comparável...


A coisa mais fácil de dizer e fazer, depois da primeira jornada do Mundial, é colocar Messi no Olimpo e Ronaldo nas catacumbas.

Fingem mais uma vez que se pode comparar o que não é comparável.

Muitos até dizem que Cristiano nunca foi um génio, que o seu talento é apenas fruto de muito trabalho e disciplina.

Se tivessem falado com os seus antigos companheiros das camadas jovens do Sporting, ou com os seus técnicos, percebiam que Ronaldo foi desde sempre, "o melhor de todos". Desde os iniciados até aos juniores.

Claro que foi sempre um jogador diferente de Messi, até na zona do terreno onde jogava. Por ser alto, forte e rápido, jogava nas alas, sem nunca perder de vista a baliza adversária. A velocidade, a força, a técnica e a inteligência, sempre foram as suas grandes armas. Messi, pequenino e franzino, valia-se da magia que tinha nos pés, para esconder a bola e ludibriar os adversários, ao mesmo tempo que era protegido (e bem) pelos árbitros, pela sua aparente fragilidade física.

É por isso natural que se note muito mais, a decadência futebolística de Cristiano. Além de ser mais velho dois anos e alguns meses, perdeu,  naturalmente, as suas principais armas. A velocidade e a força física não são as mesmas aos 41 anos, que eram aos 25, 30 ou 35 anos. É um problema com o qual Messi não se confronta de forma tão directa. A sua magia não se perde no tempo, porque faz parte da sua essência, sem estar dependente apenas da condição física, de mais ou menos velocidade.

É por isso que continuo a achar que não se pode comparar o que não é comparável.

Escrevi isto sem qualquer patriotismo bacoco. Para mim, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, são os melhores de sempre.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quinta-feira, junho 18, 2026

Eles não sabem, mas o Humanismo não cabe nos caixotes do lixo...


O que mais me tem chocado na governação falsamente democrática de Montenegro, é a quase ausência de humanismo, na maior parte das suas medidas de cariz social.

Eu sei que esta maltinha da direita sempre gostou mais de dar esmolas, que de criar condições para que as pessoas pudessem viver com mais dignidade... e não se limitarem a olhar para o chão.

Até iam à missa (muitos ainda devem ir e até comungam e tudo...) e fingiam-se cristãos, mesmo que não soubessem muito bem o que era isso. O que eram mesmo, era católicos...

Mas vamos lá ao assunto que interessa. Não satisfeita com a tentativa de aprovação da PSU, a AD resolveu alterar também as regras do SMC (Subsídio de Mérito Cultural). Pelo que li na reportagem da Joana (Amaral Cardoso) nas páginas do "Público", fizeram-no de uma forma cobarde e silenciosa. Ou seja, simplesmente decidiram reduzir e cortar os subsídios, que eram atribuídos a antigos homens e mulheres das artes e letras, que viviam com dificuldades, sem qualquer aviso ou informação.

Perante este drama, houve mesmo uma tentativa de suicídio de um velho fotógrafo, que viu o seu subsídio ser reduzido de 470 para 128 euros. Já vivia mal e esta alteração fez com que se sentisse quase "condenado à morte".

Faz-me ainda mais confusão que sejam ministras a estarem ligadas a todas estas polémicas de tostões (e o dinheiro nem é delas, é de todos nós...), quando sempre se reconheceu uma maior sensibilidade social às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, junho 17, 2026

Nada disto é surpreeendente (nem a reacção dos portugueses)...


Como não tenho as expectativas muito elevadas em relação à nossa selecção de futebol no Mundial, não fiquei surpreendido com o empate, até por o Congo ser uma das melhores equipas africanas.

A verdadeira questão é a forma de jogar da selecção de Martinez, que  joga sempre "do meio-campo para trás", com aqueles passinhos inconsequentes, quase em género de "rabia". Mas há ainda um problema ainda grave, recorrente: a sensação de que os jogadores do meio-campo jogam em todo e lado e em sítio nenhum. Parece que jogam sempre fora dos lugares onde poderiam realmente render e dar espectáculo. Quando temos um Bernardo Silva (o mais desaproveitado), um Vitinha, um Bruno Fernandes ou um João Neves, na zona crucial do jogo, o mais natural era jogarmos de uma forma avassaladora e proporcionar situações de golo aos nossos avançados.

É por isso que espero que Jorge Jesus seja o próximo seleccionador. Com ele sei que a selecção passa a jogar do "meio-campo para a frente", sem medos, ao mesmo tempo que aproveita todas as potencialidades dos nossos melhores futebolistas.

Em relação aos habituais delírios portugueses, que vão da "besta ao bestial", de "melhores a piores do mundo", são isso mesmo, delírios...

(Fotografia de Luís Eme - Seixal)


terça-feira, junho 16, 2026

"Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."


A frase que escolhi para título deste pequeno texto faz parte de uma das canções do Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam por voltar sempre, de tempos a tempos...

Aparece sempre alguém, capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...

Nem a invenção dos deuses e das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...

Tenho à cabeceira um livro há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a 1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em Auschwitz. 

Não o leio todos os dias, porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.

Há muitas partes do seu testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença, se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial em duas frases:

«Polícias que obedecem a ordens expressas de ir prender uma bebé de dois anos, a casa da ama, para a internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»

E umas linhas mais abaixo: «Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização.»

E não são precisas mais palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, junho 15, 2026

Uma camisola cheia de metáforas...


Caminhava na passagem metálica entre o cais de desembarque e a estação fluvial do Cais de Sodré, quando vi uma coisa curiosa à minha frente,  a fazer de "segunda pele", de um senhor com ar de mais velho que eu.

Como mediano fotógrafo de rua, não perdi a oportunidade de lhe "roubar" uma fotografia, sem que ele desse por isso e mostrasse qualquer incómodo.

Senti logo que estava ali à minha frente, um objecto antigo cheio de metáforas...

Começava no número. Cristiano tinha vestido a camisola número dezassete em 2004 (a sete ainda pertencia ao Figo...). Entretanto, tinham passado vinte e dois anos. O jovem que tinha vinte anos, tem agora quarenta e dois.

Por muitos chás que tome, disfarçados de "elixires da juventude", o tempo não perdoa, especialmente em desportos altamente competitivos, como é o futebol.

O senhor da camisola não deve pensar como eu. Deve estar mais próximo do selecionador nacional, que por razões que a razão finge desconhecer, pensa que a melhor equipa portuguesa continua a ser Cristiano mais dez...

Pode ser que a meio do Mundial, a outra "razão" (a verdadeira) lhe mostre, que há muito mais mundo, para lá do "planeta ronaldo".

Se isso acontecer, pode ser que consigamos ser felizes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, junho 14, 2026

Passar o domingo (de Verão) nas Caldas...


O calor convidava uma visita às praias do Oeste, à minha Foz do Arelho, por exemplo.

Mas o domingo há muitos anos que não é o meu "dia de praia". Se nunca gostei muito de confusões, com o avançar da idade, ainda fujo mais delas...


Foi mais agradável passar pela Praça da Fruta ao final da manhã e visitar o Museu José Malhoa depois do almoço (mais uma vez a ser quase "guia turístico" na cidade...), que mesmo depois da centésima visita, é sempre memorável...

E depois é sempre bom encontrar uma casa cheia de gente à nossa espera e meter a conversa em dia...

(Fotografias de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, junho 13, 2026

Pensava que uma das maiores qualidades que um ministro deve ter é o bom senso...


Luís Montenegro é um primeiro-ministro sui-generis. Mais esperto que inteligente, escolheu duas ministras como os seus principais "para-raios". Ou seja, escuda-se nas "tropelias" e polémicas criadas pelas suas ministras da Saúde e do Trabalho, que são transformadas quase em telenovelas e se arrastam  durante meses, sem que se consiga resolver o que quer que seja, ao mesmo tempo que não se discutem nem resolvem os verdadeiros problemas do país...

Apesar das doses abundantes de propaganda em volta destas duas áreas, não há uma única coisa que se consiga dizer que esteja melhor na saúde ou no trabalho, nos últimos dois anos. 

Na saúde, a ministra além de não corrigir os problemas com maior gravidade, que encontrou no seu ministério, ainda conseguiu criar mais uns quantos, não menos graves...

Em relação à ministra do Trabalho, as coisas ainda são piores. Teve logo uma "entrada a pés juntos", em relação a Ana Jorge, que tutelava da Santa Casa da Misericórdia, assim que tomou posse. E nunca mais deixou de se envolver em polémicas, que culminaram com a Reforma Laboral e a PSU. Consegue ser quase sempre insultuosa, especialmente para com os mais fracos e desprotegidos do nosso país.

Ou seja, Montenegro consegue demonstrar (para seu interesse próprio...), que o bom senso, está longe de ser uma das maiores qualidade que um ministro deve ter. Pelo menos no seu governo...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sexta-feira, junho 12, 2026

Nem à sombra se está bem em Almada (quanto mais na Amareleja)...


A meio da tarde, um dos meus vizinhos disse, com alguma graça, quando se cruzou comigo há entrada do nosso bairro: «Se Almada está assim, nem quero imaginar como está Beja. Eu não fui de modas e respondi-lhe, «E da Amareleja, nem é bom falar.»

Continuámos a sorrir os dois sem perder o nosso andamento, calmo, quase de alentejanos, em direcções opostas.

Antes tinha estado numa mesa mais intelectualizada, onde se falou de cinema e de sondagens fabricadas, a quererem arrumar de vez com o mundo dos filmes, com gente com pouca vontade de sorrir.

Não percebi muito o porquê daquele "coro de indignações", pois praticamente desde que me conheço que sei qual é a fórmula para as sondagens, nos darem os resultados pretendidos. O partido mais populista e a televisão mais popular são bons nisso. Esqueci-me de lhes dar estes exemplos.

Continua a ser difícil é dizerem que está a cair neve na Amareleja, de resto vale quase tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)


quinta-feira, junho 11, 2026

O país dos políticos que são fracos com os fortes e fortes com os fracos...


Quando os políticos decidem fazer quase uma "caça ao pobre", como se este fosse o maior dos males do nosso país, além de estarem convencidos de que somos todos estúpidos e invejosos (da miséria alheia...), desceram ainda mais fundo no poço da  desfaçatez e da falta de vergonha.

Já não conseguem esconder mais o cinismo, a hipocrisia, a arrogância, o classicismo e a cobardia, com que regem a sua governação.

É a única explicação que encontro para a sua habitual recusa a taxar os muitos milhões que  entram todos os dias como lucro, nos bancos, nas gasolineiras e nas grandes superfícies comerciais, ao mesmo tempo que "ameaçam" os pobres, com novas regras nos apoios dados, além de trabalho não remunerado, a troco da "esmola" do costume, que querem condensar na PSU.

Ou seja, preferem poupar tostões, com os pobres, a lucrar milhões, com os ricos.

O que este exemplo nos diz, é que é impossível sairmos da habitual "cepa torta", com governantes que são fracos com os fortes e fortes com os fracos...

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade) 


terça-feira, junho 09, 2026

Um homem especial que gosta de livros, papeis, e sobretudo, de liberdade...


Hoje estive no Barreiro, onde assisti na Casa da Cidadania Cabós Gonçalves ao colóquio, "Comer em tempos difíceis", moderado por José Pacheco Pereira.

Os testemunhos do padre-operário, Luís Martins Ferreira, das trabalhadoras da indústria conserveira, Maria Poupinha e Alice Silva e do pescador, Rogério Correia, foram extremamente enriquecedores, de vários tempos, que tinham em comum as grandes dificuldades de se subsistir.

Mas o eu quero relevar é a singularidade do historiador José Pacheco Pereira, que conseguiu fazer da "Ephemera" e dos seus arquivos, o principal centro de história sobre as pessoas e também os objectos comuns, no nosso país.

E que bom que é existirem as antigas instalações fabris da CUF, que se transformaram em arquivos de todo o género de materiais. Todas as pessoas que gostam de guardar coisas, que parecem não ser importantes (para as suas famílias...), têm agora um lugar onde as depositar, distante dos caixotes do lixo...

Como a gratidão não é o nosso forte, nunca iremos agradecer a este homem especial, por tudo que ele tem feito pela nossa história, cultura, literatura e liberdade.

Mas eu estou-lhe muito grato, por entre outras coisas, também gostar de livros, papeis e de liberdade...

(Fotografia de Luís Eme - Barreiro)


segunda-feira, junho 08, 2026

Os "donos das praias", com e sem chapéus de sol...


Já tinha pensado falar do mar e da praia, sem saber que hoje era o dia dos Oceanos.

Curiosamente, ou não, tinha pensado fazer uma abordagem de como muitas pessoas olham para o mundo. O mundo que querem que seja mais delas que dos outros. E nem estava a pensar em falar de chapéus de sol, queria sim, ficar à beira-mar. 

E fiquei por ali, a escutar a voz do Oceano, sem perder de vista a nossa costa... A dar graças pela sua força natural, que acaba por provocar mais medo que respeito a muito boa gente...  

Essa força acaba por ser o nosso maior aliado na luta contra todos aqueles que querem ter uma praia só para eles.

Voltando aos Oceanos, eles hoje acabaram por ser "mais notícia", pelo menos para todos que gostamos de andar informados. Ficámos a saber que ele está a subir muito mais do que se previa, graças à forma displicente como continuamos a olhar para as alterações climáticas (especialmente as grandes potências mundiais...).

Voltando às nossas praias, a primeira imagem que me veio à memória nas muitas histórias com "donos da praia", foi um casarão construído a poucos metros do mar na parte superior de um rochedo, na praia dos Salgados, do Sul (sei que não é uma coisa original, existem dezenas exemplos parecidos em toda a nossa costa, e legais...).

Como não vou  para aquela zona algarvia há vários anos, não faço ideia se a casa em causa ainda por lá está. Se está, de Inverno deve transformar-se quase numa "ilha" e ficar desabitada.

Volto a falar dos chapéus de sol, apenas por saber que esta temática não passa de mais um "fair-divers", para esconder discussões mais importantes, com a das praias da Arrábida com portão, ou as da Comporta e de outras praias algarvias, "com muros", em que meia-dúzia de pessoas se julgam os seus "donos" e querem aquele pedaço do Oceano só para eles...

(Fotografia de Luís Eme - Meco)


domingo, junho 07, 2026

A "praia da minha vida" na Feira do Livro...


Ainda sem sair da Feira do Livro, penso que nunca se fizeram livros tão bonitos como os que se fazem hoje. Há capas demasiado atractivas, como são as dos livros de bolso da Penguin Clássicos, em que apetece comprar algumas obras que já temos lá por casa, só pela sua graciosidade e bom gosto.

Também achei curioso um álbum com fotografias das nossas praias, estar aberto na Foz do Arelho. Acabei por perguntar se podia tirar uma fotografia, porque esta era a "praia da minha vida"...

Uma das senhoras que vendia aqueles livros, disse-me que sim, afirmando que esse pedido era comum, porque todos nós tínhamos uma "praia da nossa vida"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 06, 2026

Livros, poesia e comércio...


O nosso poeta mais alto sabia mesmo das coisas do comércio, a frase "primeiro estranha-se, depois entranha-se", diz quase tudo sobre a forma como reagimos às novas formas de mercado.

Ou seja, este ano a Feira do Livro, pareceu-me mais "normal", talvez pelas cores e por não a ter visitado em "hora de ponta", mesmo que tenha tudo de grande centro comercial a céu aberto.

Isso também deve ter acontecido por ter levado um lista com meia dúzia de títulos (para depois trazer uma dúzia...) e os ter encontrado praticamente todos.

Pelo que tenho lido, esta novo modelo é um êxito, para os escritores, para os leitores, e sobretudo para os editores. Também gostei de ver por lá o "Lobo de olhos azuis".



Tenho a sensação de que ter uma "biblioteca" na sala voltou a estar na moda. E se por lá estiverem livros autografados, tanto melhor. Sempre fomos melhor a mostrar que a fazer.  E como agora os livros são mais bonitinhos (grandes criativos gráficos)...

E além disso sabemos que a sabedoria popular poucas vezes se engana, pelo menos no nosso país: "um burro carregado de livros continua a ser um doutor..."

(Fotografias de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, junho 05, 2026

Mistificaçães sobre a Margem Sul...


Depois de ser apresentado como almadense, percebi que este era um péssimo cartão de visita, pelo menos para aquela alminha, que talvez tivesse atravessado o rio de cacilheiro menos de meia dúzia de vezes e não gostasse nada do que encontrou, logo em Cacilhas.

Ainda bem que já estava longe da "idade dos porquês", porque não senti a mais pequena curiosidade, sobre toda esta "azia" para com a Margem Sul.

Já estava sentado num dos eléctricos que agora fazem a ligação fluvial, quando me pus a pensar, que nunca tinha levara muito a sério algumas mistificações sobre o que existe para cá da margem esquerda do Tejo e se estende quase até Setúbal e Sesimbra.

Nem mesmo agora, que Almada é um dos "últimos redutos" das muitas pessoas que chegaram de fora e trabalham em Lisboa e só conseguem encontrar casa por estes lados, mesmo que também sejam a preços proibitivos...

Eles não sabem nem sentem as coisas agradáveis que o "melhor rio do mundo" é capaz de fazer por nós. 

Basta assistir às procissões diárias dos turistas, jovens de todas as idades, que desembarcam em Cacilhas e percorrem o Cais do Ginjal na direcção dos dois restaurantes com fama internacional ou do Jardim do Rio, o pequeno oásis com relva, que se enche de gente ao fim do dia, que escolhe aquele lugar para se despedir do Sol...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


quinta-feira, junho 04, 2026

Havia tanto a dizer sobre os homens e sobre o fechar de olhos da sociedade e da própria justiça...


Estava sentado a ouvi-la contar os insultos diários de que a mãe era vítima do pai, e pensava, que mesmo sem nos termos apercebido, o mundo mudou tanto. E ainda bem. 

Claro que podia - e devia - ter mudado mais, muito mais...

As notícias diárias informam-nos de que o que não faltam por aí, são homens - devia dizer bestas, eu sei - que não aceitam as mudanças, nem conseguem olhar para a mulher como uma igual (muitos nem os outros homens, por isso é que se refugiam nos partidos de direita, mesmo que não passem de uns "pobretanas"...). Entre outras coisas, é sua "propriedade", ponto final.

O pai desta amiga era movido a álcool, desde quase que se levantava, tal como a maior parte destes cobardes. Era pequena e já conhecia todos os nomes feios que existiam. E quase todos os dias via o pai ameaçar a mãe de morte, de formas diferentes (era isto que mais a assustava e fazia com que passasse alguns começos da noite, quase se sentinela à porta do quarto dos pais...).

Embora estes "cães" fossem mais de ladrar que de morder, o álcool consegue dar-lhes a força que não têm, para destruir a sua vida e a dos outros...

De vez em quanto interrompia-a, dizendo coisas como porque não "saíam de casa", etc., esquecido da dependência económica e da sociedade de então, que em casos de infidelidade (ou apenas suposições...), tratava sempre a mulher como "puta" e o homem como "justiceiro"...

Poucas horas depois desta conversa somos informados da morte de uma jovem de 16 anos, barbaramente assassinada pelo namorado de vinte anos.

Ficamos sem palavras. 

Apesar das muitas mudanças que se verificaram, continuam a existir demasiadas "bestas" e  "odivelas" à nossa volta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, junho 03, 2026

Um dia menos igual que os outros...


É possível que fora de Lisboa e Porto, a greve geral não se tenha sentido, pelo menos de uma forma que alterasse o dia a dia das pessoas.

Focando-me apenas na Capital, com os dois transportes que mais utilizo (cacilheiro e metropolitano...), completamente parados, o melhor mesmo foi deixar a  "cidade grande" entregue às moscas e aos turistas (para quem pode, claro...).

Imagino que os "serviçais" - que moram na Margem Sul - desta gente que chega de fora e desembarcam das barcas gigantes e dos aviões, não tivessem desculpa para não aparecerem. Só devem ter desistido de ir e vir a nado porque o Tejo é mesmo parecido com um mar...

A educação e a saúde também causam sempre constrangimentos, embora estes, como de costume,  sejam desvalorizados pelos governantes, clientes e defensores da oferta privada, cada vez mais vasta de Norte a Sul...

Não deixa de ser curioso, que as atenções televisivas se tenham focado sobretudo nos "piquetes de greve" (cada vez menos influentes...) e nos "malucos" (de ambos os sexos...), cujo masoquismo, faz com que escolham estes dias para experimentarem a qualidade dos cacetetes dos polícias...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, junho 02, 2026

A cultura continua a ser olhada (e entendida) como um mero acessório social


Estava a ler um dos meus cadernos (que são quase diários...), com palavras escritas em 2014 e dei atenção a uma frase sobre a desvalorização da cultura como actividade profissional, na nossa sociedade.

Dava como exemplo a profissão de canalizador, que ninguém tem dúvida de que tem de pagar os seus serviços. O curioso é que esta questão tinha sido levantada por uma professora, de uma escola que visitei, que falou abertamente com os alunos, por não existir qualquer fundo para as visitas de agentes culturais às escolas, como se estivéssemos no século XIX e os convidados fossem pessoas que escreviam, pintavam ou cantavam apenas nas horas vagas...

Seguiu-se uma conversa muito animada e útil com os alunos, que perceberam que pouca gente podia viver apenas do trabalho artístico. Para viver de uma forma normal tinha de ter um emprego certo, o que normalmente só acontecia em poucas actividades culturais, como eram as orquestras, as companhias de teatro ou de dança. 

Lembro-me de ter dito que a culpa em parte era nossa, de quem também não olhava para estas actividades como profissão (como era o meu caso...).

Doze anos depois, pouco ou nada mudou.

Os principais responsáveis por esta situação continuam a ser os governantes, que continuam a gostar de usar a cultura e os agentes culturais para tirarem dividendos pessoais e políticos (as eleições e a manutenção no poder estão sempre na fila da frente...), e não para o interesse de todos e do país.

Os políticos continuam a não estar muito interessados em apostar no desenvolvimento cultural -  mantêm os mesmos tiques, medos e hábitos dos tempos da ditadura -, porque quase todos os seus agentes têm o defeito de gostarem de pensar pela sua própria cabeça...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, junho 01, 2026

Bom dia tristeza...


Sempre gostei de Marylin Monroe.

Há várias razões para que isso aconteça. A primeira delas, e a mais importante, é a sua beleza, única. A capacidade que ela tem de nos seduzir através das imagens, mesmo que nos aparecesse como outra mulher, a tal personagem que continuamos a amar através dos tempos...

Claro que o aparecimento de um "furacão", nos anos cinquenta do século passado, em forma de uma mulher bonita e atrevida,  tinha de virar muitas coisas de pernas para ar...

Isso explicará que tenha morrido cedo demais e com uma névoa à sua volta, que nunca se dissipou. 

E também explica o porquê de que nunca termos deixado de a amar, ao mesmo tempo que sentimos que não precisamos de a tentar compreender.

É isso que faz com que diga neste primeiro dia de Junho de 2026, BOM DIA TRISTEZA.

Esta é uma das fotografia que mais gosto da Marylin. Não consegui descobrir a sua autoria, embora ela tenha sido fotografada por todos os grandes fotógrafos da época...


domingo, maio 31, 2026

A vitória eleitoral dos "ausentes", que deve ter sempre sabor a derrota...


Falar de anarquismo e de surrealismo, leva-me quase sempre para discussões intermináveis com um ou outro amigo. Nem mesmo a minha costela libertária - herdada do meu pai e do meu avô - faz com que consiga compreender algumas das suas posições, que são no mínimo contraditórias.

A maior de todas, é a sua ausência eleitoral, a não participação na escolha democrática de governantes.

Claro que os cidadãos que compõem a tal metade que se furta ao único acto verdadeiramente democrático, e determinante, para o futuro de todos nós, estão longe de ser apenas anarquistas ou surrealistas. Uma boa parte é uma coisa pior, que nem me apetece classificar. Gostam que sejam os outros a resolver os seus problemas, bom bom é estar na "bancada" a "chamar nomes feios ao árbitro"...

Foi por isso que disse ao Luís que o crescimento de partidos como o Chega, também se deve em parte a ele. Claro que não aceitou o meu ponto de vista.

Até porque os anarquistas e os surrealistas, também estão cheios de razões que a razão desconhece...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, maio 30, 2026

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»


Tenho um ou dois amigos anarquistas, surrealistas nunca tive nenhum.

Um ou dois pintores que se inspiram nas formas, ideias e mundos, que parecem mais saturnianas que terrestres, não contam.

Pensei nisso ao ler o livro, de António Maria Lisboa, "Uma Poesia Extrema", que como todos os "verdadeiros artistas", morreu novo.

No quinto ponto do seu "Aviso a tempo por causa do tempo" ele diz ao que vem: 

«que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.»

Falei sobre isto com um dos meus homónimos, que também conhece o bom gosto da colecção dos livros de bolso da Penguin.

Também acabei por pensar e falar em Luiz Pacheco e João de César Monteiro, que só devem ter sido anarquistas ou surrealistas, de apelido.

Lembrei-me deles porque sempre tive alguma dificuldade em os respeitar como gente, devido à sua prática quotidiana. Como artistas, reconheço-lhes talento, coragem (é mais lata...) e individualidade, mas a sua "alma de chupistas", o andar sempre à procura da rua "onde chove dinheiro", não me deixa morrer de amores pela sua forma de vida.

No decorrer da nossa conversa, o Luís desculpou-os. Falou-me de "adaptações", de "escolhas", de "provocações", para se conseguir sobreviver nesta autêntica selva, que é a nossa sociedade, que ainda está mais cheia de "leões e panteras" nas ruas da cultura...

Quando me armei em purista e falei na dignidade do individuo, ele voltou a desarmar-me e quase que me silenciou:

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)