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sábado, setembro 05, 2026

Também não sei para onde foi a "normalidade"...


Deve ser das coisas mais difíceis de definir nesta actualidade estranha, a tal "normalidade", tanto ao alto como ao baixo nível. Todos sabemos que o que é normal para países como a Rússia ou o Israel, é diferente para  a Ucrânia, ou o Irão...

Depois podíamos descer um patamar e chegar aos chamados conservadores e aos ditos progressistas, onde uma simples saia acima do joelho ou um véu que cobre o cabelo, conseguem encher um livro de reclamações.

Pior que as saias curtas são os livros cheios de obscenidades e ideias malucas, que tanto medo provocam a quem gosta de um mundo demasiado certinho e cheio de regras, pelo menos fora de casa...

Mas o pior deve ser a valoração da mentira, que começa a ficar quase ao mesmo nível da verdade, como era entendida antes de aparecerem as redes sociais e todos aqueles que as "cavalgam", como se o seu hoje fosse o amanhã...

O mais curioso é que escrevi uma data de coisas, que passam ao lado da conversa de sábado de manhã, que questionava a "normalidade" e tinha como protagonistas um político aldrabão, que quer ter no currículo  a demissão de um ministro (e vai conseguir, mas mais tarde do que aquilo que estava a pensar...), e um antigo polícia "chico esperto", com a escola das américas dos xerifes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 27, 2026

Um "mundo perfeito", com pessoas constantemente em saldo (e patos, claro)...


Uma das coisas mais curiosas do mercado de trabalho actual, é estarmos a viver um dos períodos em que existe mais emprego e também a época em que se pagam ordenados mais baixos aos trabalhadores.

Esta prática, além de contrariar toda a lógica social, consegue virar de "pernas para o ar" a relação normal que devia existir entre a oferta e a procura. 

Mas os absurdos não se ficam por aí. Basta ler os jornais para se saber que tanto os patrões (CIP) como o Governo (através da ministra do Trabalho), continuam apostados, não só  em criar uma nova Lei Laboral, como também em alterar as regras da Segurança Social...

Para esta gente um "mundo perfeito", é povoado com pessoas curvadas e constantemente em saldo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, março 22, 2026

As conversas, as cerejas e os saberes...


Já escrevi sobre a conversa "Ginjal: memória e futuro", que aconteceu depois da inauguração da minha exposição de fotografia, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos", no "Casario do Ginjal". Gostei de conversar e de pensar sobre o que se foi dizendo, mas prefiro falar de outras coisas aqui no "Largo"...

Embora perceba que muitas vezes tem de se "cortar o mal pela raiz" (deve ter sido isso que se pensou e fez no Ginjal, com toda a terraplanagem que tornou o edificado que ainda restava das indústrias e das habitações numa montanha de pedras...), há o lado humano, que por vezes esquecemos (no meu caso por preconceito e por um ou dois mal-entendidos, protagonizados com os então novos habitantes deste espaço rente ao Tejo).

Cheguei a escrever no "Casario" sobre o absurdo destes moradores clandestinos terem chegado ao ponto de inventar portas para o "Corredor do Luís dos Galos" (que conheci sempre aberto), tornando-o aparentemente propriedade  "privada", com um bar e tudo no seu interior...

Foi este e mais um ou outro absurdo, que me fez pensar que aquela gente não era do Ginjal... Por entender que quando se ama a liberdade, não se tenta limitar a liberdade dos outros.

Claro que é apenas mais um absurdo - este meu -, porque o Ginjal quer-se que seja de toda a gente, no presente e no futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, março 17, 2026

Os maus hábitos nunca se combateram com outros maus hábitos...


Apetece-me escrever, mas nem sei bem como relatar a situação, pouco normal...

(Por serem coisas que não fazem parte da tua maneira de ser, por sempre dares valor a pelo menos meia dúzia de exemplos na educação dos teus filhos, olhaste para tudo aquilo como algo no mínimo absurdo...)

A minha filha também achou tudo aquilo estranho. Embora nunca trocássemos palavras sobre o assunto durante a refeição, trocámos demasiados olhares cúmplices.

Estávamos sentados à mesa com pessoas amigas e uma delas, ainda antes de começarmos a comer, recebeu uma chamada telefónica. Poderia ter despachado a conversa ou simplesmente ter dito que estava a começar a jantar. Mas não, a conversa com a amiga (escutada por todos nós) era mais importante...

Conversa que continuou durante toda a refeição, sobremesa e café incluídos...

O mais curioso naquilo tudo, foi sermos todos pessoas demasiado educadas, que nem sequer lhe chamámos a atenção para acabar com aquele "diálogo mole" e começar outro connosco, com bons modos claro...

Isto explica quase tudo sobre nós. Coisas que achamos importantes, para outras pessoas não têm importância nenhuma.

Mas depois deste retrato, acho que continua a ser muito bom tomarmos as refeições sem a presença dos telemóveis ao lado dos talheres...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 02, 2026

A decadência do nosso futebol enquanto modalidade e espectáculo desportivo


Uma das coisas positivas que me têm acontecido nos últimos tempos, é o afastamento gradual do "mundo dos futebóis". Já nem sequer consigo ver qualquer programa onde surgem comentadores assanhados (muitos quase que espumam pela boca, como é o caso do Rodolfo ou do Octávio...) ou "camaleões", que são capazes de dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário (a televisão está cheia deles e delas, seja no desporto, na política, na actualidade ou no entretenimento).

Penso que este afastamento se deve a dois pontos. O primeiro é a postura dos presidentes dos três grandes, cujo passado desportivo prometia no mínimo mais respeito pelo futebol, pelos adversários e pela verdade desportiva (o que quer que isso seja...). Nada disso aconteceu. Até se fica com a sensação de que se joga cada vez mais sujo (o que se tem passado nos últimos tempos nas instalações do FC Porto, tem sido uma vergonha...), dentro e e fora das quatro linhas...

O segundo é a sua transformação num "espectáculo" cada vez mais fraquinho. Não é por acaso que a maior parte dos estádios estão quase vazios (os jogos do Benfica, do Sporting e do Porto não contam...)...

Apesar de sermos um dos melhores países do mundo nas camadas jovens, há equipas da primeira divisão sem qualquer português no onze titular... Isto diz quase tudo sobre o "negócio" e a "mentira" que é o nosso futebol, com a complacência da Liga e da Federação...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, janeiro 06, 2026

A nossa passividade perante a "nova ordem mundial"...


Pensava que era fácil para as pessoas olharem para o que se passou na Venezuela, como algo profundamente errado e perigoso, pelo precedente aberto, quando se sabe quais são as vontades de Putin ou de Jinping, em relação à Ucrânia ou à ilha Formosa.

Uns culpam tanto Maduro como Trump, outros apenas o ditador da Venezuela... E depois há uma minoria que tem noção clara do que se passou e diz que, mais uma vez se desrespeitou o direito internacional e a autonomia das nações.

Olho para trás e penso que todos os avanços que se deram ao longo da segunda metade do século XX, no trabalho, na saúde, nos direitos humanos e na integridade das nações, estão a ser engolidos por algo que começou por ser apenas uma "maré" capitalista e populista, mas que rapidamente invadiu "a terra", com o objectivo claro de ser, a nova ordem mundial.

O mais curioso é isto estar a acontecer em praticamente todos os continentes, com a passividade da maior parte das pessoas, de todas as idades.

Ou seja, este 2026 que ainda está só no começo, promete ser um ano de grandes mudanças, para pior, para quase todos nós, até mesmo para uma boa parte dos norte-americanos e dos russos (não se tem noção de como é que eles vivem nestes tempos de guerra)...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, janeiro 04, 2026

O nosso habitual "baixar de calças" aos Estados Unidos da América...


As reacções do ministro dos Negócios Estrangeiros e do Primeiro-Ministro ao que aconteceu na Venezuela são cínicas e hipócritas, como é costume, no que toca às acções dos EUA.

Não temos grandes dúvidas que se fosse o PS que estivesse no poder, as reacções não seriam muito diferentes. Provavelmente escolhiam outras palavras, para não se "comprometerem", com qualquer um dos lados. Mas não acredito que se manifestassem contra os EUA.

O mais fácil é refugiarmo-nos atrás das eleições fraudulentas que mantiveram Maduro no poder e falar na esperança de um novo país, democrata, sem se dizer qualquer palavra contra esta invasão dos EUA, que conseguiu capturar o presidente.

Como já se percebeu, o direito internacional é uma "treta", pelo menos para Trump, tal como a independência e autonomia das nações...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 24, 2025

Recuar até 24 de Novembro de 1975...


O 24 de Novembro de 1975 foi um dia crucial. Foi o dia onde quase tudo ficou decidido, graças à inteligência do "grupo dos nove" (felizmente eram mais que nove...), que com a ajuda de Costa Gomes, um Presidente da República, com um sentido de Estado raro, conseguiu reduzir de uma forma notória o número de "forças inimigas", ao fazer com que Otelo Saraiva de Carvalho (Copcon), Álvaro Cunhal (PCP) e Rosa Coutinho (Fuzileiros), dessem ordens às forças que dominavam, para que não participassem de uma forma activa na tentativa de golpe militar do dia seguinte.

Penso que só neste dia, quando se "contaram as armas", é que a possibilidade de uma "Guerra Civil" deixou de ser uma ameaça séria. É preciso recordar que tinham sido distribuídas milhares de armas aos partidos políticos, tanto do lado mais esquerdo como do lado mais direito do MFA e que o país estava "partido" ao meio (o Tejo era a fronteira)...

Carlos Guilherme foi dos meus melhores amigos nos últimos vinte anos. Era "Capitão de Abril" e fez parte das operações do 25 de Novembro de 1975. Tivemos muitas conversas sobre algumas datas importantes, como foram o 16 de Março de 1974 (eu tinha um interesse particular por ser de Caldas da Rainha...), o 11 de Março de 1975, e claro, o 25 de Novembro.

Tão boas como as nossas conversas foram os almoços para os quais ele me convidou, na Associação 25 de Abril, onde depois do repasto havia sempre uma palestra com um dos vários intervenientes deste período decisivo para Portugal. Eram sempre contados vários episódios importantes, bastante esclarecedores sobre alguns erros históricos e uma ou outra "mitologia", distante da realidade. Recordo as intervenções de Torcato da Luz e de Almada Contreiras sobre estes acontecimentos (na época estavam no lado esquerdo do MFA...), tal como os contributos de outras camaradas presentes, como realce para Otelo ou Vasco Lourenço.

Todas as movimentações que se deram nestes dias de Novembro, foram sobretudo militares. Mesmo o PS, teve uma importância relativa. A "contagem de espingardas" deu-se entre os militares moderados e os revolucionários, com a vitória dos primeiros, que estavam em maioria e defendiam um regime democrático, com eleições livres, assim como a aprovação de uma nova Constituição, pela Assembleia Constituinte, eleita a 25 de Abril de 1975.

O curioso, é que quem quer fazer, hoje, deste dia uma festa, em 1975 caminhava em sentido contrário. É preciso dizer que as famílias políticas mais conservadoras, que agora agarram o 25 de Novembro com as duas mãos  (como é o caso do CDS e da IL) tinham fugido para Espanha e para o Brasil. Ou então andavam entretidas a incendiar sedes comunistas no Norte do País e a realizar atentados bombistas, que fizeram várias vítimas mortais (o Padre Max é a mais conhecida...). 

Estavam longe de lutar pela democracia, queriam sim, o regresso da ditadura e do sistema social desigual, que lhes tinham roubado e de que tanto gostavam, pois fazia-os sentirem-se "reis" e "rainhas" num país, que ainda era "para menos pessoas" que na actualidade...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 03, 2025

«Já faltou mais, para que o humanismo volte a ser crime»


Ele podia utilizar outras palavras para falar destes tempos, onde começam a crescer sombras por todo o lado, mas usou Humanismo, talvez a mais sensata, mais profunda, mais abrangente, e por isso, também a melhor.

É muitas vezes usado quase como "emblema" de um tempo em que os homens que lutavam pela liberdade, aliás nem era preciso lutar, às vezes bastava "pensar"... Não se chateia nada, nem tem problemas em falar desses tempos, da prisão em Caxias e em Peniche, ou de quando percebeu que o único Deus que existe, está na cabeça de alguns homens, demasiado crédulos, pelo menos para as coisas que lhes convêm...

Tudo isto, porque o "profeta" do partido fascista, que agora que tem sessenta deputados e passou a ser apenas de "direita", já começou a falar do fim do regime, anunciando para breve o começo de uma "nova coisa", que os que espalham a tal palavra de Deus, chamam "novos tempos"...

Mas nem precisamos de falar do nosso "vendedor de ilusões", basta olhar para Gaza, para várias regiões africanas ou para a Ucrânia, para percebermos que o Humanismo é cada vez mais "uma treta"... 

E sim, ele tem razão, o Humanismo está quase, quase a ser crime...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, janeiro 19, 2025

As palmas, os assobios, o silêncio, o vazio...


Uma boa parte das pessoas nunca saberá qual é peso que têm os aplausos e os apupos nas suas vidas, porque têm uma vida demasiado vulgar, para terem direito a palmas ou assobios...

Isso é mais para os artistas da bola, da música, do cinema ou do teatro.

Também nunca experimentarão o silêncio e o vazio, que se segue, pouco tempo depois de serem tratados como os "melhores do mundo". Muito menos quando são "pateados" e tratados como os piores do mundo.

E também nunca ganharão nem gastarão as fortunas que alguns destes artistas ganham...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 16, 2024

A aposta na diferença (mesmo que seja absurda)


Primar pela diferença não está ao alcance de todos.

Até porque há coisas que são difíceis de colocar em prática, por muito que nos apeteça andar por aí de pernas para o ar. 

É por isso que normalmente muitos dos amantes das diferenças preferem fazer coisas mais cómodas, mantendo bem vivo o "espírito inventivo da coisa".

É o caso do Manuel, que tem em casa um relógio que anda ao contrário e também têm os números colocados em sentido contrário, para que possa dar as horas certas (é quase como ver um "tic-tac" ao espelho...).

Claro que é mais uma maluquice que uma "descoberta da pólvora", como disse o Fernando. E há também a possibilidade de ser um problema de "quedas" e "trambolhões" na infância...

Lembrou-me o Jorge, que adorava ser o único com o "passo certo" nas paradas militares...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, abril 11, 2024

A nossa irracionalidade (tão mal disfarçada)...


Pois é, também pertencemos ao grupo de animais (racionais é apenas um apelido...), num mundo onde continua a imperar a lei do mais forte.

Embora eu soubesse, o Carlos fez questão de quase "me esfregar na cara" a nossa animalidade, com os exemplos de Gaza e Ucrânia, onde se mata, tortura e faz sofrer o semelhante, por razões que a própria razão e a nossa humanidade começa a desconhecer (ou nunca conheceu...).

Isto claro, se esquecermos o negócio das armas, que vai de vento em popa, para a América dos loucos (sim loucos, que malucos somos nós, que fingimos não conseguir viver sem eles...) ou para a China, que fingiu ser uma "loja dos trezentos" para nos comer a todos por parvos, aqui nas europas... e até para a Coreia dos nortes e o Irão.

Como o Carlos disse, somos mesmo uns "gatinhos" (até me sugeriu uma fotografia...)...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 10, 2024

As Gaivotas na apropriação do espaço público e no fingimento de que são "animais domésticos"...


Ontem fui surpreendido por uma gaivota na minha varanda, que dava bicadas nos vidros (vá-se lá saber porquê...). Quando fui ver do que se tratava, dei com a descontração e ligeireza, como ela passeava na varanda aberta.

A minha primeira reacção foi buscar a máquina fotográfica. Normalmente elas quando vêm uma máquina fogem (penso que  se deverão assustar com o reflexo da lente...), esta não. Mesmo quando abri uma das portadas, ela limitou-se a subir para o parapeito e por ali ficou, quase em desafio. Tirei três fotografias e depois aproximei-me um pouco mais, para a fazer voar e tirar uma fotografia com o seu voo (algo que não consegui). Mas ela não foi para longe, poisou no parapeito da varanda do vizinho de lado, antes de decidir partir para os céus.

Estava a espera que regressasse hoje, mas ainda não aconteceu. E ainda bem.

Não acho muita piada a este "fingimento" de que são aves à procura de espaço na lista dos "animais domésticos", com a sua aproximação. É dessa forma que se aproximam, cada vez com mais lata, das esplanadas, em busca de restos de torradas ou de bolos, dando um "chega para lá" aos pombos. Pombos esses, que não lhes devem achar nenhuma piada (e com toda a razão, mesmo que no mundo animal ainda prevaleça a lei do mais forte...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, abril 08, 2024

«Sei que se tivesse estudado, estudado a sério, fazia filmes...»


Quase do nada, o velho que estava ancorado no banco ao pé da minha casa, disse: «Sei que se tivesse estudado, estudado a sério, fazia filmes...»

Ele não me disse aquilo como se estivesse no "muro das lamentações", mesmo que não escondesse que gostava de ter tido as possibilidades que outros tiveram... E antes que lhe fizesse alguma pergunta acrescentou: «Gostava de ter nascido em Lisboa, a Terra das salas de cinema.»

E depois assisti, em poucos minutos, à "história da sua vida"...

Foi a tropa que o trouxe do distrito da Guarda para a Capital. Assim que se apanhou em Lisboa, soube que nunca mais ia regressar para a aldeia onde nasceu. A família? Se tivessem saudades que viessem vê-lo a Lisboa... Foi deixando o tempo passar e esteve quase quatro anos sem pôr os pés na Terra onde nasceu. Casou e só quando foi pai pela primeira vez, é que decidiu que já era tempo de voltar, para mostrar a filha aos pais. A partir daí voltou mais vezes, mas fingia que vivia na América e só aparecia de dois em dois anos, e eram visitas quase mais curtas que as de médico.

Deixou a família e a aldeia para trás, porque o que queria era voltar ao cinema...

Não sabe quantos filmes viu. Sabe apenas que foram muitos, muitos... Ainda hoje, a única coisa que o prende à televisão, são os filmes, até mesmo aqueles que se adivinha o fim logo no princípio...

Quando lhe perguntei se alguma vez teve uma câmara de filmar, disse-me que não. Sorriu e disse, que não foi esse pequeno pormenor que o impediu de fazer "filmes", dentro da sua cabeça, de olhar para as coisas e deliciar-se com o movimento, com a possibilidade de inventar um mundo diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 11, 2024

«Quem é esta gente que vive à nossa volta?»


Depois de saber os resultados eleitorais no meu distrito, Setúbal, com o Chega no segundo lugar, fiquei completamente abismado.

Por saber o que está pela frente e por detrás desta força política, a única pergunta que fiz a mim próprio foi: «Quem é esta gente que vive à nossa volta? Quem são estas pessoas que votam num partido assumidamente, racista, xenófobo, conservador e autoritário?»

Mesmo que esteja a divagar um pouco, não me deverei enganar muito.

Provavelmente é o merceeiro da rua de baixo, que usa um bigode fininho e ainda se penteia com brilhantina (onde só entro por necessidade extrema, porque tem sempre os preços mais altos do bairro...); o meu barbeiro, que ainda vive com os "fantasmas do Prec" dentro da cabeça; ou o meu vizinho da frente que vê em cada estrangeiro um bandido...

Só faltava mesmo este partido saltar para o poder, para todos "curarem a tosse" e fingirem-se felizes por a "missa" voltar a ser um acontecimento nacional...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)