segunda-feira, agosto 31, 2026

Tantas vezes que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa...


Tive de partir a conversa sobre a genialidade de alguns escritores como o nosso Lobo Antunes, em dois.

Acontece demasiadas vezes estarmos à conversa e misturarmos assuntos, ao ponto de fingirmos que não percebemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa. 

Pois... à mesa, nem sempre temos agilidade suficiente para "separar as águas". Felizmente, as palavras escritas são muito menos complicadas que as palavras faladas...

Ou seja, além de se falar do escritor, também se falou dos seus leitores, dando realce aos "compradores de livros com autógrafo", mais coleccionadores que leitores, tanto do António como do Saramago e companhia...

Foi a Carla que melhor caricaturou o tal sujeito (não deixa de ser curioso, que fizesse um boneco engraçado masculino...), oferecendo-lhe um lenço ao pescoço e colocando-o na primeira fila dos lançamentos dos chamados consagrados (os "eusébios" dos livros...), de perna cruzada, com mão no queixo e ar interessado pela tramóia bem resumida pelas palavras do apresentador. Sem se esquecer de dizer que ele é sempre um dos primeiros a ir para a fila para sacar o respectivo autógrafo do livro que tem o destino habitual: embelezar a estante cheia de livros assinados, que nunca leu, nem vai ler...

Todos sorrimos, por gostarmos de ter amigos que têm a capacidade de fingir que o mundo é muito melhor do que é, dizendo coisas que fazem sorrir as mesmas pedras da calçada, que soltam lágrimas com os fados da desgraçadinha...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 30, 2026

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances»


Há tantas coisas sobre a qual nunca pensámos, algumas importantes outras quase sem importância nenhuma, muitas vezes são apenas meras teorias ou conjecturas.

O Rui voltou a ler os livros de crónicas de António Lobo Antunes, depois de ter lido, e gostado, dos seus poemas. E por essa razão resolveu criar algum alvoroço na nossa mesa de críticos literários sem jornal, com uma frase daquelas, que não se apresentam todos os dias à mesa de café:

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances.»

Mas não se ficou por aqui, explicou bem demais a sua tese, baseada nos livros de ficção do bom do António que só se liam com grande esforço e paciência, de trás para a frente e da frente para trás, porque ele "habitava noutra galáxia". Só descia à terra quando tinha de escrever as crónicas semanais, que gostava de desvalorizar, por lhe parecerem coisas demasiado simples e corriqueiras, mesmo sem o serem...

Depois de duas ou três tentativas para desmontar a sua teoria, acabámos quase convencidos, porque o Rui vinha bem preparado para uma possível "guerra literária".

Quando nos levantámos da mesa, percebemos que estávamos quase sem argumentos, graças ao bom exemplo que nos foi apresentado, sobre alguém que se faz entender  mais como cronista e poeta que como romancista, pelo menos para o leitor comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 29, 2026

Quando capitalista rima com vigarista...


Embora estivesse longe de ser uma exclusividade nossa, era impossível negar que capitalista rimava vezes de mais com vigarista, mesmo que fossem palavras demasiado compridas para caber em qualquer poema-canção, mesmo de intervenção.

Mas a realidade é o que é.

Há mais de cem anos já havia quem pensasse dessa maneira, mesmo que usasse palavras diferentes. Era um tempo em que não se usavam muito as palavras acabadas em "ismo", desde comunismo, passando por capitalismo e acabando em fascismo...

Voltando à actualidade, naquele caso particular tratava-se apenas de um negócio, em que alguém, por avançar com a totalidade do dinheiro, queria ficar com 90% das acções e dos lucros da empresa, mesmo que para isso não precisasse de "mexer uma palha" em relação ao negócio...

Como o protagonista da história estava longe de ser alguém desesperado ou sem trabalho, pôde dizer ao fulano com alma de "agiota", para escolher outro "otário".

Claro que sabíamos que não havia nada a fazer. Este é um exemplo, simples e cru de um adepto do capitalismo selvagem, que tenta sempre usar, explorar, enganar, e até escravizar o outro, para maximizar o seu lucro...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


sexta-feira, agosto 28, 2026

A chamada "lei de retorno" e o nosso habitual assobiar para o ar...


É normal que cidades como Lisboa ou o Porto, ao duplicarem (sei que são mais...) o seu número de habitantes - mesmo que estes sejam apenas de ocasião - passem também a registar o dobro de crimes, com a tendência de que estes se tornem mais violentos, se os bandidos perceberem que existe uma forte possibilidade de escaparem impunes.

É que isto de se receber todos os dias dezenas de milhares de turistas, não significa apenas mais receitas em taxas turísticas ou mais gente a largar dinheiro nos monumentos, nas lojas, nos cafés ou nos restaurantes... há também a chamada "lei de retorno", que inclui sempre algumas chatices, como a apetência para o "gamanço" dos "amigos do alheio" (alguns parece que também chegam de fora...).

E por isso mesmo devia existir um reforço policial condizente com o aumento de pessoas nas ruas. Reforço que tem sido constantemente adiado.

Isso explica que no percurso que fiz ontem a meio da tarde, entre o Cais Sodré e o Rossio, só me tenha cruzado com uma agente da polícia, e já nesta praça larga, povoada de gente.

Por muito que nos agarremos à estatística e que continuemos a assobiar para o ar, é óbvio que o Governo não está a levar a sério a questão da segurança nas duas principais cidades do país. 

É provavelmente o único ponto em que o "alcaide calimero" da Capital, sempre estridente, tem razão. 

A presença de mais polícia nas ruas, além de transmitir segurança às pessoas, faz com que alguns larápios pensem duas vezes, antes de "atacarem"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 27, 2026

Um "mundo perfeito", com pessoas constantemente em saldo (e patos, claro)...


Uma das coisas mais curiosas do mercado de trabalho actual, é estarmos a viver um dos períodos em que existe mais emprego e também a época em que se pagam ordenados mais baixos aos trabalhadores.

Esta prática, além de contrariar toda a lógica social, consegue virar de "pernas para o ar" a relação normal que devia existir entre a oferta e a procura. 

Mas os absurdos não se ficam por aí. Basta ler os jornais para se saber que tanto os patrões (CIP) como o Governo (através da ministra do Trabalho), continuam apostados, não só  em criar uma nova Lei Laboral, como também em alterar as regras da Segurança Social...

Para esta gente um "mundo perfeito", é povoado com pessoas curvadas e constantemente em saldo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


terça-feira, agosto 25, 2026

«Como é que se contraria a versão humana, do "desde que não me chateiem, está tudo bem"?»


A pergunta fazia todo o sentido e teria uma boa resposta, quase moderna, fazer-se uma "actualização" da tal versão humana, menos egoísta e com mais sentido cívico e colectivo.

Foi o Rui que colocou a questão, por perceber que o seu prédio está prestes a ser "tomado de assalto", por uma empresa que já gere a maior parte dos edifícios da sua rua. Ninguém se quer dar ao trabalho de administrar o condomínio e estão pouco preocupados se o valor da prestação mensal passe a ser o dobro num futuro próximo...

As colectividades que conhecemos também vieram à baila, por serem dirigidas há anos e anos pelas mesmas pessoas, devido ao desinteresse dos seus associados, sobretudo pela forma que elas passaram a ser geridas, onde o interesse particular se passou a sobrepor ao de todos.

A Carla deu a mão à palmatória, por ter tornado a filha mais "responsável", afastando-a dos grupos de jovens que defendem o clima de forma mais radical, ao ponto de já terem dado um banho de tinta verde ao primeiro-ministro.

Sim, todos sabemos que não vamos lá com "paninhos quentes", e o mais curioso, é estarmos sem soluções, mesmo à mesa do café... 

Talvez outro tipo de jornalismo, de políticas e de redes sociais, conseguisse combater esta quase "anestesia geral" por tudo o que cheire a colectivismos (e a chatices...). 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


segunda-feira, agosto 24, 2026

Mudamos sempre, mesmo sem nos apercebermos...


O espelho diz-nos muitas vezes que estamos diferentes. Muitas vezes apetece-nos "não ver", "não olhar", especialmente quando não achamos muita piada às mudanças.

Mais problemático é quando passamos ao lado daquelas mudanças, que nenhum espelho detecta... Sim, quando passamos a olhar para as coisas de uma forma diferente e fingimos não o perceber. Talvez aconteça por aqui o mesmo que a sempre útil Sabedoria Popular nos diz sobre o que o tempo faz ao "bom vinho": se for bom ganha qualidade, se for mauzito, tem tendência para azedar... 

Sessenta e poucos anos de vida são suficientes para percebermos, que sim, somos exactamente como o bom vinho. De uma forma simplista, percebemos que todos os "filhos da puta" se tornam piores com o passar dos anos, ao passo que as pessoas mais bem formadas, têm tendência a relativizar tudo aquilo que se passa à sua volta...

Onde se nota muito estas diferenças é no comentário político. Os casos de Pacheco Pereira ou de António Barreto, são paradigmáticos, ambos foram ganhando racionalidade, ao mesmo tempo que se iam curando da "febre ideológica". Algo que com toda a certeza nunca acontecerá com João Miguel Tavares, tal como nunca aconteceu com Vasco Pulido Valente, e muito menos acontecerá com Cavaco ou Sócrates...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 23, 2026

As velocidades diferentes que se encontram dentro dos livros...


Os leitores, mesmo os mais apressados, sabem que todos livros têm uma velocidade própria de leitura. 

Se há livros que querem ser lidos da primeira à última página - tal é a sucessão de acontecimentos que nos vai surgindo, capítulo a capítulo, ao ponto de só descansarmos quando chegamos ao fim -, há outros que pedem reflexão, quase que nos pedem para parar para pensar...

Normalmente estas obras são escritas com alma, quase sempre sobre temáticas sensíveis, onde o escritor quase que se despe por inteiro... conseguindo expressar o que sente através das palavras que nos oferece.

No meu caso pessoal, é raro sentir esta vontade de parar a leitura e ficar agarrado a uma frase ou um verso, capaz de transmitir tanto apenas com meia dúzia de palavras. Senti isso com a "Fortaleza" de António Borges Coelho.

É um pequeno livro de poemas, com uma introdução em prosa, onde o autor nos oferece uma multiplicidade de sentimentos, sem nunca perder a autenticidade. Livro que pode muito bem ser entendido como um "diário poético", do seu tempo de prisioneiro no Forte de Peniche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 22, 2026

"o mesmo bilhete de ida e volta"


o mesmo bilhete
de ida e de volta
  
quando parti
sabia que tinha tirado
um bilhete de ida e de volta
ia ficar e ia voltar
ainda era um rapaz novo
estava longe de pensar
nas voltas que a vida dá
de como o tempo
nos pode transformar…
 
soube sempre que
aquele não era o meu país
era apenas o lugar possível
onde se podia acreditar
na palavra futuro e
pensar num final feliz
 
os anos foram passando
e já a dois sentimos
que nada é como sonhamos
a vida é sempre outra coisa
 
mesmo assim nunca desistimos
de voltar ao nosso ponto de partida
fingimos não perceber a factura
que no final teríamos de saldar
 
num tempo não muito distante
uma parte de nós, “ia ficar”…
talvez a mais importante.
 
Isso dizia-nos que iriamos continuar
a usar o mesmo bilhete
vezes sem conta
a ir e a voltar
porque quando o coração
está no sítio certo
ninguém consegue vencer o verbo amar
 
percebemos e aceitámos
que o nosso bilhete
nunca seria diferente
 
era o nosso
bilhete de ida e de volta
de sempre…
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema para os meus tios, Zé e Lurdes, que emigraram para Alemanha no começo dos anos setenta, onde nasceram os seus dois filhos. Filhos que se sentem, naturalmente, mais alemães que portugueses. O que faz com que os pais, embora tenham voltado para Portugal, para gozar a reforma, acabem por voltar, sempre que as saudades apertam, para estarem com os filhos e com os netos... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 21, 2026

«Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo seu primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»


Quem tem mais de cinquenta anos, ainda conheceu o país em que um simples licenciado de qualquer coisa, colava a palavra doutor antes do seu primeiro nome, mesmo que estivesse a falsear os seus cartões de identificação.

A chamada "pobreza franciscana" tinha destas coisas, gente que queria ser "importante à força" e que foi sempre muito bem caracterizada pela sabedoria popular, que gostava de dizer que um doutor, não passava de um "burro carregado de livros"...

Embora a mediocridade nunca se tenha afastado muito dos poderes, foi graças ao Sócrates e ao Relvas e aos seus diplomas domingueiros, que algumas pessoas começaram a ter vergonha de serem do clube dos "doutores da mula russa"...

Apesar de muitas coisas estarem a voltar atrás no tempo, esta é daquelas que dificilmente voltará a ser usada como sobranceria social, porque hoje deve existir um grande equilíbrio entre os jovens que tiram um curso superior e os que ficam pelo caminho.

E isso explica a memória das palavras do bom do Orlando: «Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


quinta-feira, agosto 20, 2026

"A mulher que me chama branco"


A mulher que me chama branco

Há uma mulher que me chama branco.
Diz a palavra de tal forma agradável
que quem ouve fica a pensar que é apelido.
Já houve mesmo uma ou outra senhora
que fazia limpeza à sala de trabalho
que me chamou "senhor Branco"...
Apenas por acaso, ela também era branca.

Toda a gente acha improvável que uma preta
use o antónimo de preto para chamar
alguém que tem a pele clara e pálida.
É por isso que eu nunca digo a ninguém 
qual é o meu último nome, até
por ser mais esquisito que branco.

Conversamos muito.
Até falamos de mundos estranhos
como Gaza, Irão, Ceuta ou Sudão
habitados por gente que é tratada
de uma forma diferente do que é ser gente,
para depois voltarmos ao nosso país
que finge ser quase normal.

Uma ou outra vez 
há quem pense que somos amantes
Mas depois dizem que não
por não andarmos escondidos pelos cantos
nem nos verem a trocar bilhetes ou mensagens.
Como se fosse má ideia amar uma preta
que ainda por cima, é uma mulher bonita...

A mulher que me chama branco
tem toda a razão quando diz que
pior que ter a pele escura, é ser mulher e ser preta.
Mesmo que ela seja castanha e Bela (até de nome)...

Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quarta-feira, agosto 19, 2026

«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»


As conversas de café sempre se alimentaram muito dos jornais e revistas que se liam, quase em equipa, com comentários frescos e para todos os gostos. Curiosamente, no nosso grupo, mesmo que seja tudo gente com ligações próximas do jornalismo, é raro aparecer alguém com "notícias de papel".  Claro que nos ocupamos da actualidade, mas usando os computadores e os smartphones...

A pandemia quase que nos forçou a abandonar a leitura física e a rendermo-nos ao digital. E já não conseguimos voltar para trás... por muito que gostássemos de folhear e ler  as notícias, do princípio para o fim ou do princípio para o fim...

Tudo isto, porque a Manuela escreveu mais uma crónica feliz na sua revista, sobre os emigrantes. E nós acabámos por falar da forma como usávamos (ou não) a memória.

É de facto muito estranho, que um país de emigrantes receba mal quem chega de fora. Gente que acaba por enfrentar os mesmos problemas vividos por muitos portugueses, há sessenta e até mais anos... A maior parte das pessoas que partiam, iam "a salto" (pelo menos para França, talvez por ficar logo a seguir a Espanha e já existir a "gente" que vivia destas viagens com percursos previamente estabelecidos, mais rurais que citadinos...) sem documentos e sem saberem muito bem o que os esperava. E é bom que se diga, que fugiam mais da vida de miséria que da guerra colonial...

Voltámos à Manela, porque a Rita quis ler uma das suas frases, que mesmo sem ser a mais importante, era a que tinha ficado presa nos seus pensamentos e queria ser tema de conversa: 

«Muitos dos que regressam carregam uma sensação persistente: já não pertencem inteiramente a França, mas também já não pertencem inteiramente a Portugal. Lá são “os portugueses”; cá são “os franceses”. Vivem entre duas línguas, duas memórias, duas formas de estar. E esta condição não desaparece necessariamente com o tempo. Passa para os filhos e, em certos casos, para os netos.»

Ficámos quase sem palavras. Fomos salvos pelo Carlos, que interrogou, muito bem, a gente que passava por nós, sem nos ver, cuja cor e roupagem nos diziam que tinham chegado de fora.

«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»

Não sei se foi por ser Agosto, mas desta vez não divergimos, nem mesmo nas vírgulas. Concluímos que que somos dos sítios onde nos recebem bem e onde nos sentimos "em casa", mesmo que estejamos a milhares de quilómetros do lugar onde nascemos e crescemos...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, agosto 18, 2026

Há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...


Não era uma questão de sabermos, ou não, dançar. Era mais de querermos, ou não... Também não ficamos nada preocupados que fossem os UHF a animar o Pontal. As coisas são o que são. Almada também já não é o que era. Percebemos neste Verão que a água que sobra no Tejo pode faltar-nos em casa...

Não somos muitos, mas a nós o "conde do rabal" não nos consegue convencer, muito menos os seus serviçais, que se tornaram autênticas "máquinas de propaganda" e passam a vida a tentar "vender" um país irreal, que nem na cabeça deles existe. 

Andamos por aí, quase perdidos nas ruas, utilizamos transportes públicos, vamos aos centros de saúde, os nossos filhos andam nas secundárias públicas perto das nossas casas, fazemos compras nas mercearias e mercados... Ou seja, sabemos que há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 17, 2026

Tempo de organizar papéis e ideias...


Gosto dos começos de semana em que as ideias começam a circular à minha volta, ainda na cama, quase a quererem dar organização à confusão de papeis com frases e ideias, que coloco debaixo das pequenas pilhas de livros, que se julgam importantes, num dos cantos da secretária.

Sei que chegou o momento de comprar três ou quatro cadernos de capa preta, para "apagar a vela" e "acender a luz" aos vários projectos que me perseguem a  horas e dias cada vez menos incertos.

Tenho de me despedir da "preguiça" e das ideias pré-concebidas, de que o tempo dos livros já era...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, agosto 16, 2026

O dia a seguir a ontem...


Depois de ontem ter escrito sobre os "verdadeiros artistas pop", fiquei a pensar, que ainda bem que nunca tive muito jeito para as músicas, tanto para tocar como para cantar. 

Nunca se sabe o que poderia acontecer, se eu pensasse que tinha algum "jeito para a coisa"... Na volta, até poderia fazer como milhares de homens e mulheres, de todas as idades, que "gravaram" nas suas cabecinhas, que podiam ser "cantores à força".

Estou a escrever no "canal da crítica" e eles até são capazes de fazerem falta... Talvez o Agosto festeiro das nossas aldeias não fosse o mesmo sem eles... 

Assim como os programas de entretenimento dos fins de semana, que se alimentam com os seus "playbacks" (gratuitos) e as suas bailarinas com mais pele que roupa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 15, 2026

Ser um "artista pop" não é para quem quer. É só mesmo para quem pode...


Apesar de termos milhares de homens e mulheres, que passam o tempo a cantar coisas que chamam de "pop", sempre pensei que os verdadeiros "artistas pop", nesta nossa Lusitânia, se contavam com os dedos das duas mãos.

O primeiro artista que senti que era diferente de todos os outros, foi o António Variações, que não teve medo de ir atrás do que não existia, sem mostrar receio de ser antigo ou moderno, muito menos de ser único. Isso acontecia na forma como cantava, dançava e também como se apresentava em palco.

Depois apareceu o Rui Reininho. Mais tarde o David Fonseca. E depois o Samuel Úria (podia falar também da Manuela e dos Clã, da Sónia e dos The Gift ou do Tomás e dos Capitão Fausto... e pouco mais...).

Apesar de serem diferentes do António, vivem o palco como se estivessem nas suas salas de estar, sem se esconderem atrás de ninguém e sem terem qualquer problema em vestir umas calças às riscas amarelas e vermelhas.

Cada um deles tinha (e tem) uma identidade própria, coisa rara na música portuguesa.

Pensei nisto a0 olhar para este cartaz que anuncia os concertos do David em Lisboa e no Porto.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, agosto 14, 2026

A cantiga é sempre a mesma: "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"...


Ao ouvirmos os outros, olhamo-nos ao espelho mais vezes do que pensamos, mesmo que nem sempre estejamos muito atentos ao que se passa tanto a sul como a norte.

Sei que quem têm mais de cinquenta anos, viaja mais pela memória... e até é capaz de se habituar a dizer que, "no meu tempo é que era bom", porque só gosta de se lembrar das coisas boas que lhe foram acontecendo ao longo da vidinha (pois é, é muito melhor)...

É nestes momentos que reparo que não sou muito saudosista. Acho mesmo que nunca disse algo do género, por saber que o passado só existe dentro das nossas cabeças.

Foi quando me lembrei do Fausto, um trovador com muito mais de dois metros de talento, que nos disse a cantar esta grande evidência, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, agosto 13, 2026

Ter vontade de esquecer a palavra "original"...


Falámos sobre a "originalidade", essa coisa que tanta gente anda à procura no mundo das artes e letras, quase numa perseguição doentia, mesmo que não se saiba muito bem o que quer dizer.

Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...

Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.

Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...

O que eu fui dizer ao António... 

Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:

«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»

E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.

Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 12, 2026

«Enquanto o mundo se desgranha falas de livros...»


É curioso, que só ouvimos vocábulos, que normalmente não se usam nas conversas do quotidiano, através das pessoas que se acham mais cultas ou de gente pouco instruída, que além de terem facilidade em "inventar" palavras, também têm presentes no seu vocabulário, termos que ouviam na infância aos pais e avós...

Foi o que aconteceu com a palavra "desgranha", que cheira a desgraça e a desarrumação e caracteriza muito bem este mundo que nos rodeia... 

Não menos curioso, foi esta palavra ter sido dita por uma mulher.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, agosto 11, 2026

O bom do Dinis e a sua "escola" literária povoada de policiais e banda desenhada...


Quando escrevi ontem sobre o António, acabei por me lembrar do bom do Dinis Machado, que no começo dos anos 90 do século passado, visitava quase todas as semanas no primeiro andar da Rua Anchieta, paredes meias com a Bertrand.

Falávamos sobre a vidinha, sem deixarmos fugir o cinema, os livros e a banda desenhada... Não é por acaso que o seu brilhante "O que Diz Molero" tem lá estas três coisas... embrulhadas numa Lisboa que ainda tinha bairros com gente, capaz de inventar aventuras do arco da nova e da velha...

Nem sequer se pode dizer que "trocávamos" heróis, porque eu conhecia tão pouco mundo na estrada das aventuras literárias. Era por isso que tentava fixar os escritores de policiais e as suas obras mais emblemáticas, que o Dinis me oferecia, como se de cromos se tratassem, entre uma cigarrilha e um sorriso de miúdo (algo que ele nunca perdeu...).

Mas o mais curioso foi descobrir com ele o tempo em que se "alugavam" livros na "Barateira" e em outros alfarrábios.  que passavam de mão em mão pela malta do Bairro Alto que tivera algum tempo para ir à escola e era mais dada às leituras... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 09, 2026

«O que é que te incomoda mais nos domingos?»


Não sabia qual era a melhor forma de dizer, que não havia nada de especial, que me causasse incómodo, nos domingos, tanto de manhã como à tarde.

Depois de deixar a esplanada que tem sombra durante as manhãs, fiquei a pensar na frase, «O que é que te incomoda mais nos domingos?»

Havia muitas coisas que tinham mudado, mas quem queria, e gostava, podia continuar a ir à missa de manhã e ao futebol de tarde, por exemplo.

Foi quando me lembrei de um pequeno pormenor, dos "condutores de fim de semana", que gostam de ensaiar passeios lentos pelas ruas da cidade, para não cansarem muito os motores das suas bombas de garagem ou de capa...

Mas nem eles eram um "incómodo", porque só andava de carro aos domingos, se fosse mesmo necessário...

Mudei logo de pensamento e sorri ao olhar para a leveza das minhas roupas, ao mesmo tempo que fingia não ter no roupeiro um simples "fato de domingo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, agosto 08, 2026

Um café com palavras e telenovelas...


As pessoas que se cruzam comigo e são capazes de dizer mais que bom dia ou boa tarde numa esplanada qualquer, são quase sempre actrizes. Não é nada de muito estranho, se há coisa que a vida ensina as meninas desde cedo é a serem actrizes, em serem "outra pessoa"...

Não fiz muitas perguntas (acho que já nem sei fazer entrevistas...), como de costume. Prefiro que as pessoas digam o que quiserem, desde que se sintam bem na pele que vestem.

Pensei que fazia parte do grupo de teatro amador do bairro, mas não, entrava em telenovelas e tudo. Talvez fosse verdade, mas ver estas "tragédias" portuguesas estava longe de ser o meu passatempo preferido. Ainda por cima ela trabalhava para o canal que menos contribuímos para a "guerra" das audiências, lá por casa.

Foi capaz de dizer que nunca fizera nenhum papel principal, talvez para dar mais autenticidade à sua história. 

Expliquei-lhe que conhecia pouca gente do meio, tirando um ou outro figurante que entravam em algumas cenas, que  passavam por lá, sem que se lhe conhecesse a voz. 

Ela sorriu e disse-me que também começara assim... 

Foi quase uma deixa para eu pagar os dois cafés e fazer-me à vidinha, no palco onde cabemos todos, sem termos direito a aplausos ou patadas.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 07, 2026

O parque que é campo e arte no centro da cidade...


O Parque D. Carlos das Caldas é um lugar já secular, de beleza única, pelo seu ordenamento que nos parece natural, ao qual nem falta um lago, onde é possível passear de barco e fazer a estreia a remar, quase a sério (não é a brincar como fizeram os noruegueses no Mundial de futebol...), durante 30 ou 60 minutos.

Foi o que aconteceu comigo. Foi naquelas águas demasiado verdes que remei pela primeira vez, no começo da adolescência, quando fazíamos "batalhas navais" com amigos que se disfarçavam de inimigos por meia-hora...

E depois existe a parte artística, com estátuas espalhadas por quase todo o Parque, que aumentam quando nos aproximamos do Museu José Malhoa, quase a piscarem-nos o olho e a fazerem-nos um convite para entrarmos naquele espaço, que aposta sobretudo na pintura naturalista de Malhoa e amigos, embora também possua muitas esculturas, e até uma original "Via Sacra", criada por Rafael Bordalo Pinheiro, com figuras de barro pintadas, em tamanho real.

Não tenho qualquer dúvida de que é um dos lugares mais agradáveis das Caldas, com árvores, relva, sombras e muitos bancos de jardim... sobretudo num Verão farto como o que estamos a viver.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, agosto 06, 2026

"A Ponte é (mais que) uma Miragem" há 60 anos...

 


a ponte é uma miragem

a ponte é uma miragem
que ultrapassa a exposição
pois é também uma viagem
do olhar e dos sentidos
que buscam inspiração
e querem que a ponte seja mais
que uma simples passagem.
 
olhar que se cruza
com um Rio de “visões”
tanto a norte como a sul
e que se deixa levar
em todas as direcções
 
sentidos explorados
pelo som que se confunde com o vento
de um tabuleiro povoado de carros
suspenso pelos cabos do tempo
 
sentidos encantados
pelas cores de um Tejo radiante
que pinta toda a paisagem
de uma forma contagiante
e transforma a ponte na tal miragem
 
Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, agosto 05, 2026

Um ar campestre no centro da cidade


Estou a passar quatro dias nas Caldas da Rainha.

Hoje, logo pelo começo da manhã fui às compras à Praça da Fruta, que é, provavelmente, a única praça diária que funciona ao ar livre no nosso país.

É uma delicia passar no meio dos vendedores e perguntar o preço dos legumes e da fruta, ao mesmo tempo que é possível "escolher" a peça que queremos no meio daquela variedade.

É por tudo isto, que me faz confusão, que seja sequer levantada a possibilidade, de fazer uma "cobertura para a praça, de se acabar com este ar campestre no centro da cidade, tão importante em termos turísticos...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


segunda-feira, agosto 03, 2026

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...


Não sei se faziam uma escala diária, mas às sete da manhã havia alguém que saía de casa com o chapéu de sol, duas cadeiras e duas toalhas, para "reservar" uma parte do areal da praia de Armação de Pêra.

Com um sorriso maroto, disse-me que aquela hora estavam longe de ser os primeiros ou segundos a "marcar território".

Tudo aquilo me pareceu estranho, por na minha praia haver espaço suficiente a qualquer hora do dia, para montar um "mini acampamento de índios". O mais curioso, é que para ele, aquela "ocupação" era a coisa mais normal do mundo...

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


domingo, agosto 02, 2026

Os campos de futebol inclinados que nos roubam o sonho e a ilusão...


Talvez exista algo de quixotesco e sobretudo de "Robin Hood", no meu gosto de ver aqueles que são descritos como mais fracos e pequenos, fazerem frente aos grandes.

Claro que no mundo da política ou das empresas, tratam-se de meras impossibilidades. Não sobra quase espaço nenhum para o sonho. Vinga sempre a "lei do mais forte"...

O desporto é um dos poucos sectores que dão essa ilusão, especialmente o futebol. No começo de cada partida como jogam onze contra onze, é sempre possível acreditar na possibilidade da existência de uma surpresa, do "David conseguir derrotar o Golias".

Infelizmente - e para não escapar desta sociedade desigual em que vivemos -, os chamados grandes têm quase sempre um aliado de peso dentro das quatro linhas; o árbitro. É ele que decide, que tira toda e qualquer dúvida que exista... e que se quiser "inclina" o campo, como disse anteriormente, para o lado que quiser. Lado, que vá lá saber-se porquê, é quase sempre inclinado em benefício do mais forte...

Foi o que aconteceu ontem na final da Supertaça, disputada entre o FC Porto e o Torriense. Na primeira parte do jogo o árbitro teve o cuidado de "amarelar" dois ou três jogadores da equipa de Torres Vedras, que não se intimidaram e mostraram ao que vinham. Ao ponto de até ter jogado bem melhor que a equipa do Porto nos primeiros vinte minutos, sem que alguém notasse que fazia parte da segunda divisão...

E foi sempre assim durante os mais de noventa minutos, em casos de dúvida, o "juiz" apitava sempre contra o Torriense.

Claro que esta evidência não tem nada de fervor clubístico, se fosse o Benfica ou o Sporting que estivessem no lugar do FC Porto, o cobarde do árbitro, teria o mesmo comportamento...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, agosto 01, 2026

Largos que se deixam ficar apenas pela memória...


Há textos que nos deixam a pensar, porque o mundo está longe de ser o que queremos ou imaginamos. As pessoas de hoje são diferentes das de ontem, porque as respostas que temos de dar a tudo aquilo que nos rodeia, também são diferentes... E isso altera tudo, até a paisagem com que estávamos habituados a conviver diariamente.

Foi o que aconteceu com as primeiras palavras da crónica de Ana Cristina Leonardo no "Ípsilon" de sexta-feira:

«Desde que fechou o café do largo junto à estrada que serpenteia até à vila, a vida no monte foi estreitando. Foi-se a caminhada diária que exercitava as pernas e os sentidos, incluindo o sentido comunitário, e não há tai chi walking que nos valha.
Para muitos, tratava-se de um hábito de décadas, ponto de encontro das mulheres pela manhã bem cedo, dos homens pela tarde para o petisco, posta-restante, central de notícias, posto avançado onde paravam obrigatoriamente o padeiro e o peixeiro, o “marroquino”, o homem dos queijos e chouriços, até, esporadicamente, o vendedor de conquilhas.
O largo passou a apresentar-se deserto, rendido ao silêncio que pesa sobre as duas únicas casas que restam. Além destas e do edifício do café encerrado, apenas uma charneca abandonada onde as chuvas se afundam no Inverno e no Verão se contorcem plantas rasteiras ressequidas pelo Sol.»

Não tem nada de premonitório, porque aqui o "Largo" continua com gente, mesmo que falem pouco ou quase nada (a Rosa é a excepção que confirma a regra), gostam de ficar por aqui, sentados nos velhos bancos de jardim, a ler, a olhar ou simplesmente a ver o tempo passar...

Mesmo assim, não deixa de ser uma boa maneira de começar Agosto. Até porque a realidade fez menos mal do que parece...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)