domingo, agosto 02, 2026

Os campos de futebol inclinados que nos roubam o sonho e a ilusão...


Talvez exista algo de quixotesco e sobretudo de "Robin Hood", no meu gosto de ver aqueles que são descritos como mais fracos e pequenos, fazerem frente aos grandes.

Claro que no mundo da política ou das empresas, tratam-se de meras impossibilidades. Não sobra quase espaço nenhum para o sonho. Vinga sempre a "lei do mais forte"...

O desporto é um dos poucos sectores que dão essa ilusão, especialmente o futebol. No começo de cada partida como jogam onze contra onze, é sempre possível acreditar na possibilidade da existência de uma surpresa, do "Ulisses conseguir derrotar o Golias".

Infelizmente - e para não escapar desta sociedade desigual em que vivemos -, os chamados grandes têm quase sempre um aliado de peso dentro das quatro linhas; o árbitro. É ele que decide, que tira toda e qualquer dúvida que exista... e que se quiser "inclina" o campo, como disse anteriormente, para o lado que quiser, que vá lá saber-se porquê, é o do mais forte...

Foi o que aconteceu ontem na final da Supertaça, disputada entre o FC Porto e o Torriense. Na primeira parte do jogo o árbitro teve o cuidado de "amarelar" dois ou três jogadores da equipa de Torres Vedras, que não se intimidaram e mostraram ao que vinham. Ao ponto de até ter jogado bem melhor que a equipa do Porto nos primeiros vinte minutos, sem que alguém notasse que fazia parte da segunda divisão...

E foi sempre assim durante os mais de noventa minutos, em casos de dúvida, o "juiz" apitava sempre contra o Torriense.

Claro que esta evidência não tem nada de fervor clubístico, se fosse o Benfica ou o Sporting que estivessem no lugar do FC Porto, o cobarde do árbitro, teria o mesmo comportamento...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, agosto 01, 2026

Largos que se deixam ficar apenas pela memória...


Há textos que nos deixam a pensar, porque o mundo está longe de ser o que queremos ou imaginamos. As pessoas de hoje são diferentes das de ontem, porque as respostas que temos de dar a tudo aquilo que nos rodeia, também são diferentes... E isso altera tudo, até a paisagem com que estávamos habituados a conviver diariamente.

Foi o que aconteceu com as primeiras palavras da crónica de Ana Cristina Leonardo no "Ípsilon" de sexta-feira:

«Desde que fechou o café do largo junto à estrada que serpenteia até à vila, a vida no monte foi estreitando. Foi-se a caminhada diária que exercitava as pernas e os sentidos, incluindo o sentido comunitário, e não há tai chi walking que nos valha.
Para muitos, tratava-se de um hábito de décadas, ponto de encontro das mulheres pela manhã bem cedo, dos homens pela tarde para o petisco, posta-restante, central de notícias, posto avançado onde paravam obrigatoriamente o padeiro e o peixeiro, o “marroquino”, o homem dos queijos e chouriços, até, esporadicamente, o vendedor de conquilhas.
O largo passou a apresentar-se deserto, rendido ao silêncio que pesa sobre as duas únicas casas que restam. Além destas e do edifício do café encerrado, apenas uma charneca abandonada onde as chuvas se afundam no Inverno e no Verão se contorcem plantas rasteiras ressequidas pelo Sol.»

Não tem nada de premonitório, porque aqui o "Largo" continua com gente, mesmo que falem pouco ou quase nada (a Rosa é a excepção que confirma a regra), gostam de ficar por aqui, sentados nos velhos bancos de jardim, a ler, a olhar ou simplesmente a ver o tempo passar...

Mesmo assim, não deixa de ser uma boa maneira de começar Agosto. Até porque a realidade fez menos mal do que parece...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)