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segunda-feira, outubro 12, 2026

«Se isto continuar assim, vou ter de fechar...»


«Se isto continuar assim, vou ter de fechar...»

Ouvia aquele desabafo, a cinco metros de mim, e sabia que não se tratava de "música de cordel". Caminhávamos novamente para o fundo de qualquer coisa. A vida voltara a estar difícil, para todos, sem excepção (a meia dúzia do costume não conta...).

Uma noite antes passara por outro lugar de petiscos, que não visitávamos há meses (mais largos do que pensava, facto comprovado pelas as mesas e as cadeiras novas, oferta de uma cervejeira...). A minha companheira estranhou encontrar clientes diferentes, mais jovens, mas que quase enchiam a casa.

Depois percebemos que era a noite dos "jogos de tabuleiro". O dono, de quem nos tornámos amigos durante a pandemia (era um dos poucos lugares onde bebíamos café sem grandes incómodos, por ter uma esplanada que mantinha as distâncias), contou-nos a história daquele encontro de amigos, e quase que nos disse: "venham elas, as noites de jogos, todos os dias"...

Claro que não seria comigo que estas "casas de pasto" se iriam governar. Além do meu almoço tertuliano semanal, fazia praticamente todas as outras refeições em casa...

Mas era triste ouvir o discurso do primeiro-ministro, sempre preparado para apontar o dedo aos "xocialistas", ao mesmo tempo que mentia descaradamente, ao dizer que "estava tudo melhor". 

Não é o que dizem os rostos das pessoas, muito menos as ruas, com cada vez mais lojas e restaurantes fechados...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 15, 2026

A honra suprema de uma má actriz de telenovelas que faz o papel de jornalista com grande êxito


Sei que tanto uma como a outra, não frequentam blogues. São adeptas de lugares mais populares, onde se pode representar, cantar, dançar, pescar, caçar, e claro, "pintar a manta", com mais descontração (e imaginação...).

Mas mesmo assim achei que não podia perder esta "caricatura" de bairro, desenhada com tanta perfeição.

Falava-se de qualquer coisa na mercearia, e uma das senhoras dizia, "fale com a Tânia, que ela sabe", repetiu isto umas três vezes até que uma senhora, que tal como eu, pertencia ao  clube dos "incautos" e "ignorantes" do lugar, curiosa, perguntou quem era essa tal de Tânia. A mulher que falava pelos cotovelos sorriu e esclareceu o assunto numa penada:

«E esta? Claro que sabe quem é a Tânia. Não conhece você outra coisa!» Sem que deixasse que alguém a interrompesse, virou-se para mim e disse: «É a loira que mora na rua deste senhor.» E depois concluiu, «Ela é a mulher mais bem informada do bairro. Como tem o cabelo amarelo e é avantajada de carnes, houve alguém com olho que a batizou, e muito bem, de Tânia Laranjo.»

Gargalhada geral. Até eu que não apreciava o estilo, conhecia esta "peça principal" do jornalismo de faz de conta do "Correio da Manhã"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 01, 2026

«Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»


Alguns leitores, assumidamente, não comentadores do "Largo" gostam de dizer coisas sobre o que escrevo, como foi o caso do "anónimo" da camisola azul que frequenta o café da praça. Não só teve o descaramento de acrescentar palavras sobre os livros, como o disse de uma perspectiva sobretudo comercial: «Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»

Pois foi... ninguém me disse. Mas é o que acontece, mais vezes do que pensamos. 

O "anónimo" da camisola azul, está cheio de razão... Desde que a Feira do Livro se tornou um "hiper-mercado", até mesmo os leitores de livros acabam por comprar ainda mais livros, que sabem que nunca irão ler. 

São apenas os livros que gostavam de ler um dia...

A "febre" do consumismo é isto... leva-nos sempre a comprar coisas, que não nos fazem falta, nem mesmo na nossa cabeça. 

Pois é, nada escapa a esta vontade de vender e de comprar destes tempos, nem mesmo os livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 05, 2026

Um ar campestre no centro da cidade


Estou a passar quatro dias nas Caldas da Rainha.

Hoje, logo pelo começo da manhã fui às compras à Praça da Fruta, que é, provavelmente, a única praça diária que funciona ao ar livre no nosso país.

É uma delicia passar no meio dos vendedores e perguntar o preço dos legumes e da fruta, ao mesmo tempo que é possível "escolher" a peça que queremos no meio daquela variedade.

É por tudo isto, que me faz confusão, que seja sequer levantada a possibilidade, de fazer uma "cobertura para a praça, de se acabar com este ar campestre no centro da cidade, tão importante em termos turísticos...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quarta-feira, julho 29, 2026

Não faz mal, não é importante...


Fomos a uma livraria a Vila Real de Santo António e fizemos o que é costume fazer-se nestes lugares, comprar livros.

Houve dois que se colaram logo às minhas mãos, "As Cartas de Berlim" e a "Aguarela de Paris", de Katherine Reay e João Pinto Coelho. Disse-lhes que sim...

Estava já em casa, de regresso às leituras, quando pensei na "perigosidade" de se lerem livros. Acabei por escrever estas palavras no "caderno de desabafos":

«Ler muitos livros é mais perigoso do que parece. Sem te aperceberes vais-te apropriando das palavras dos outros e começas a misturá-las com as tuas... e uns dias depois, olhas-te ao espelho e chamas-te escritor...»

Sei que há tanto de exagero como de realidade nesta frase... 

Não faz mal, não é importante...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


domingo, julho 26, 2026

Malvados preconceitos (e logo a "triplicar")...


Uma das formas que continuo a gostar de "passar tempo" é dentro de livrarias, enquanto as meninas andam a passear dentro das lojas de peças de roupa.

Foi numa dessas passeatas que fui surpreendido ao olhar para uma estante por um título "daqueles", que fazem furor na chamada "literatura de cordel". Quando li o nome do autor (com a fotografia do próprio escarrapachada na capa...), um actor ainda jovem, que aparece nas telenovelas, pensei ter ficado esclarecido.

Aquele título, "Tudo o que nunca te disse, meu amor", percebia-se à légua, que piscava o olho a jovens adolescentes ou pré-adultas (e porque não tias solteironas?). A fotografia na capa, idem idem aspas aspas. E depois a escolha de um actor jovem como escritor romântico (que até pode ter jeitinho para a escrita, mas...), indicava que havia por ali mais comércio que literatura.

Depois de virar as costas, percebi que no que tocava a livros, a minha crítica de capa continuava cheia de preconceitos. E desta vez a "triplicar"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, julho 14, 2026

A gente pequenina dos vales de 10 cêntimos e a nossa facilidade em deitar fora oportunidades...


Não fazia ideia que havia tanta gente, no mínimo estranha (não me estou a referir aos sem abrigo, como é óbvio), que embora andem nas ruas limpinhos e bem vestidos (as pessoas com quem me tenho cruzado são quase sempre homens e mulheres reformados que talvez não tenham mais nada de "útil" que fazer nas suas vidas, além de coleccionarem "inutilidades com preço"...), andam por aí à procura de um "novo lixo". 

Percorrem durante o dia os pequenos caixotes distribuídos cidade, munidos de sacos de plástico, em busca de garrafas e latas vazias, para trocarem nas máquinas de marca "volta". Pensam que são discretos, quando olham para o lado, a tentar perceber se estão a ser observados. Como vêm a maior parte dos transeuntes presos aos "smartphones", enfiam as mãos nos pequenos caixotes rente às paragens de transportes, como quem não quer a coisa... e de vez enquanto "ficam mais ricos".

Já me cruzei com mais de uma dúzia deles pelas ruas de Almada. Apetece-me quase sempre dizer alguma coisa, mas acabo por ficar em silêncio, limitando-me a abanar a cabeça...

Não sei se são estas mesmas pessoas que assim que o dia escurece, saltitam de contentor em contentor, desta vez com muito menos cuidado, ao ponto de revirarem o lixo e deixarem atrás de si um rasto de imundice por onde passam, pela merda de um vale de dez cêntimos. Provavelmente não, porque não olham para a noite como sua companheira...

Acredito que quem teve esta ideia pretendia mesmo que se fizesse um melhor aproveitamento da reciclagem e que as ruas ficassem mais limpas. Mas o ser humano é o que é... e bem podem meter a viola do saco, porque o resultado parece ser exactamente o contrário do pretendido.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, junho 06, 2026

Livros, poesia e comércio...


O nosso poeta mais alto sabia mesmo das coisas do comércio, a frase "primeiro estranha-se, depois entranha-se", diz quase tudo sobre a forma como reagimos às novas formas de mercado.

Ou seja, este ano a Feira do Livro, pareceu-me mais "normal", talvez pelas cores e por não a ter visitado em "hora de ponta", mesmo que tenha tudo de grande centro comercial a céu aberto.

Isso também deve ter acontecido por ter levado um lista com meia dúzia de títulos (para depois trazer uma dúzia...) e os ter encontrado praticamente todos.

Pelo que tenho lido, esta novo modelo é um êxito, para os escritores, para os leitores, e sobretudo para os editores. Também gostei de ver por lá o "Lobo de olhos azuis".



Tenho a sensação de que ter uma "biblioteca" na sala voltou a estar na moda. E se por lá estiverem livros autografados, tanto melhor. Sempre fomos melhor a mostrar que a fazer.  E como agora os livros são mais bonitinhos (grandes criativos gráficos)...

E além disso sabemos que a sabedoria popular poucas vezes se engana, pelo menos no nosso país: "um burro carregado de livros continua a ser um doutor..."

(Fotografias de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 28, 2026

Portas que se fecham e uma porta que se abriu...


Ia escrever, parece, mas não há nenhum parece na afirmação. As pessoas vão mesmo cada vez menos ao cinema (eu faço parte do lote...). Os números não enganam.

Até as salas de projecção dos centros comerciais estão a fechar, por míngua de espectadores... Embora aqui se perceba o encerramento, porque estas salas são "lojas", onde se vendem imagens com pipocas, o seu grande objectivo é ganhar dinheiro.

Tem acontecido o mesmo tem pelo interior fora (parece que já chegou ao litoral...), onde já existem várias cidades, com alguma importância social e cultural, sem um único auditório aberto para se verem filmes.

Curiosamente, cada vez há mais fitas portuguesas (sei disso porque ainda leio jornais...). Sei que isso se explica pela facilidade com que hoje qualquer pessoa pode fazer um filme, graças à evolução tecnológica e aos seus baixos custos).

Não sei qual é o verdadeiro objectivo desta "febre" de filmes que falam português. Pode ser a visita a festivais internacionais, ou então, a projecção para os amigos...

Não deixa de ser curioso, que se tenha criado em Almada no último mês um "cine-clube" municipal, no velho Salão das Carochas (esta sala já foi muita coisa e curiosamente foi "sala de cinema" logo depois do 25 de Abril, com a projecção de filmes infanto-juvenis). 

Ainda não me bem informei sobre o assunto, se tem público, embora perceba que o objectivo principal do "Cine-Carochas" é ser um espaço alternativo ao "comércio de filmes", ser uma casa aberta às fitas independentes (talvez as tais dos muitos realizadores portugueses...).

Como de costume não era para escrever nada disto, era para falar de história com cinema. Fica para amanhã...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, abril 14, 2026

«Sou um escritor de livros invisíveis»


Quando ouvi um amigo que escrevia livros, dizer, «sou um escritor de livros invisíveis», não o levei a sério.

Talvez por nesse tempo ainda existirem bastantes leitores de livros...

Apesar dos todo o optimismo de alguns editores, de que hoje há mais leitores e que se vendem mais livros, sei que são apenas mais duas mentiras, para juntar a tantas outras, deste nosso tempo. Tempo que perdeu a capacidade de olhar para dentro e para fora de si, e de se interrogar sobre o seu verdadeiro papel nesta bola cada vez mais achatada...

Hoje percebo melhor este meu amigo, por também eu ser "escritor de livros invisíveis"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, janeiro 20, 2026

Não sei quem fechou primeiro...


Não sei quem fechou primeiro, se foram os tribunais ou as finanças. Depois foram os bancos a decidirem transformar-se em caixas de multibanco. É esta a história de demasiadas cidades e vilas do interior...

Agora é a vez de fecharem restaurantes e salas de cinema, nos mesmos sítios onde já não existem os tribunais e outras coisas que tais... 

É normal. Sem pessoas, não há negócio que resista...

É também por isso que este mesmo interior, corre o risco de deixar de ter à venda jornais diários em papel...

Quem não parece muito preocupado com este estado de coisas, é o Estado do país (que temos a mania de dizer que somos todos nós, mesmo que seja mentira...).

Talvez os governantes que têm como apelido "estado" gostem destes vazios. 

Talvez gostem que quase toda a gente viva com a possibilidade de ver o mar...

 (Fotografia de Luís Eme - Castelo Branco)



segunda-feira, dezembro 08, 2025

«Passei quase toda a vida a correr à frente e atrás dos homens»


Bastou a passagem de dois polícias pela rua para que todos os "comerciantes sem licença" pegassem nas trouxas e escapassem para outros lugares.

Poucos minutos depois uma mulher com mais de setenta anos de idade sentou-se na mesa ao lado da nossa e pediu um galão. Trazia consigo dois sacos grandes de plástico, cheios de camisas, meias, lençóis, etc. Percebia-se que pertencia ao grupo de vendedores sazonais que andavam a tentar aproveitar a onda dos presentes de Natal, que só passava pela baixa, uma vez por ano.

Pouco tempo depois apareceu outra, mulher mais jovem, que tanto podia ser filha, sobrinha ou simplesmente amiga ou vizinha. Também estava carregada com sacos de material para vender, a piscar o olho à boa vontade das pessoas com os preços baratos dos seus produtos. Um minuto depois apareceu um homem, que quase que apenas entrou e saiu. Deu um recado de ouvido, à mulher mais nova, que já dobrara os quarenta há uma meia dúzia de anos, que a deixou impaciente.

Foi quando começaram a falar das suas vidas, sem se preocuparem com quem estava à volta. Não era preciso ser muito esperto, para perceber que ambas tinham passado parte das suas vidas, nas ruas, em busca de clientes. A meio da conversa a mulher mais madura, aconselhou-a a mudar de homem, para não voltar a cair na armadilha das ruas.

Com a sabedoria dos seus cabelos brancos disse que os últimos anos tinham sido os mais felizes da sua vida e que o melhor que lhe acontecera, fora livrar-se dos homens.

Isto antes de me oferecer a melhor frase do dia, quando confessou: «Passei quase toda a vida a correr à frente e atrás dos homens. Chegou, já não tenho energia nem vontade para isso.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, julho 20, 2025

Muito barulho e saudades de porrada


A senhora com mais de oitenta anos discursava na mercearia, como se estivesse num parlamento como o nosso, com gente com ideias estranhas sobre o mundo.

Tinha saudades do tempo em que os pais "educavam" os filhos à "porrada", em que o medo se juntava ao respeito, com a maior das facilidades.

Deixei-a com as saudades dela, em silêncio.

Claro que quando vinha para casa, pensei na educação e nos meus filhos. Nunca fui de bater, mesmo assim lembro-me dos desafios e das provocações do meu filho, a pedir uma ou duas palmadas... Em relação à minha filha, nem me lembro de lhe ter dado uma palmada (mas deve ter acontecido, aqui e ali...).

Mas a senhora estava errada, o respeito não tem nada a ver com pancada. Com o medo, sim...

Acho que o maior problema da educação nos nossos dias não tem nada a ver com pancada. Tem sim, a ver com o uso da palavra "não", que devia ser utilizada com firmeza e não "meio a brincar"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, julho 07, 2025

«Já não posso ter a minha opinião?»


O meu corte de cabelo hoje foi um pouco mais agitado que o costume.

Assim que o meu barbeiro começou com o já habitual "discurso anti-emigrantes", comecei a desmontar uma boa parte das suas teses populistas com a realidade, com as aldeias e os campos que quase só albergam gente idosa, pelo que a mão de obra tem de ser obrigatoriamente estrangeira. Acrescentei que esta também era a escolha preferida dos exploradores da agricultura intensiva, porque assim têm sempre a possibilidade de ter metade dos seus trabalhadores em situação ilegal, o que lhes poupa uns cobres no pagamento para a segurança social e para as finanças.

Claro que ele não gostou de ser contrariado. Ninguém gosta. Foi por isso que se escudou na frase: «Já não posso ter a minha opinião?»

Claro que pode. Em democracia pode-se quase tudo, até navegar no erro e mostrar a nossa "costela revolucionária", quase a par com a nossa "costela reaccionária"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, julho 01, 2025

Olhar, ouvir e ficar a pensar no fim das coisas...


Havia alguma ironia e até humor, na forma como a mulher de idade falou, no balcão da velha drogaria: «Um dia acaba-se tudo, pelo menos para quem acredita que só temos uma vida.»

A frase ficou no ar, não pelos mesmos motivos que foi dita. Sim, eu em vez de me virar para as pessoas pensei logo noutras coisas, assim que comecei a caminhar pela rua.

Comecei por pensar logo na coisa mais difícil e estranha, que um ou outro entendido resolveu atirar à parede, "o fim da história". Não foi dita em jeito de piada, mas só podia ser da família, pois enquanto existirem seres humanos, haverá história...

Depois caminhei para coisas mais simples. Tenho a certeza que não foi Camões que inventou a frase feliz de que "mudam-se os tempos mudam-se as vontades...", a principal responsável pelo final de vida de tantos objectos, de profissões que deixam de fazer sentido (embora aqui seja mais a economia que "mate" alguns trabalhos que se tornam obsoletos ou pouco lucrativos...).

E só não acabam mais coisas, porque agora também se vive das "tradições", que começam a ter mais peso comercial que histórico. E ainda bem, porque além de darem vida a lugares esquecidos, também nos recordam como se vivia noutros tempos. 

E o mais curioso, é trazerem atrás de si o começo de outras coisas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, maio 30, 2025

«Não é preciso. O que mais se encontra nas livrarias são livros de instruções»


Quando a Ana disse que as pessoas (parece que já não são só os homens...) deviam trazer com eles, livros com instruções, o Carlos não perdeu a oportunidade de nos brindar com o seu humor sarcástico: «Não é preciso. O que mais se encontra nas livrarias são livros de instruções.»

Ela rebateu a frase do nosso amigo comum, dizendo que livros de autoajuda não são a mesma coisa. 

«Pois não.» Disse ele. Para depois acrescentar, logo de seguida: «Mas também existem muitos com instruções. O que não falta nas montras de livros são teorias sobre tudo e mais alguma coisa.»

Pois é. Há mais livros destes à procura de leitores, que romances, por exemplo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 23, 2025

Ter uma livraria na cidade é outra coisa...


Hoje comemora-se o "Dia Mundial do Livro".

Podia falar de livros, mas prefiro falar de livrarias (é quase a mesma coisa). Ou seja, da alegria de Almada ter voltado a ter uma livraria, depois de vários anos sem um único espaço comercial livreiro, no centro da Cidade (existia uma ou outra resistente, como a "Escriba" na Cova da Piedade, mas é um espaço demasiado pequeno...) 

Não tenho grandes dúvidas de que o regresso da "Bertrand" a Almada, foi uma boa aposta comercial (a renda deve ser inferior e as vendas não são menores do que quando estavam no "Almada Fórum"...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, abril 13, 2025

«Eles querem saber tudo sobre as nossas vidas»


Nunca fomos tão invadidos como agora, pelos "marcianos" que dominam a internet e passam a vida a espiar-nos, dentro dos smartfones e dos computadores.

Fala-se muito de "pegadas", e é o que deixamos, sempre que pesquisamos qualquer coisa, ao ponto de durante semanas aparecerem "promoções" das tais coisas que queríamos e que deixámos de querer, mas mesmo assim não nos livramos da respectiva perseguição comercial...

Foi quando eu disse que isso não acontecia apenas com o que pesquisávamos. Dei o exemplo dos aparelhos auditivos, que são a primeira coisa que me aparece quando abro o computador e que nunca andei à procura. Foi risota geral, por sermos quase todos da mesma geração, e já não irmos para novos. Eles sabem que estamos todos "duros de ouvido", ou seja, levamos todos com esta "publicidade", mesmo os que fingimos ouvir às mil maravilhas.

Quando o Rui disse que «eles querem saber tudo sobre as nossas vidas», quase que pareceu mais uma coisa banal deste tempos quase malucos, ou seja, mais uma "lapalissada"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 12, 2025

Pensamentos em volta do encontro de três homens na mercearia de bairro...


Ao sábado de manhã, uma das coisas que cá em casa se faz, é o primeiro que se levanta ir à mercearia comprar um pão alentejano do Cercal para comermos ao pequeno-almoço.

Mas não é sobre a delícia deste pão que quero falar, é com o facto de à hora que cheguei (deviam ser umas nove e um quarto, mais minuto menos minuto) estar lá e senhor e logo a seguir a mim, apareceu outro.

Se eu acabei por levar apenas o pão, o fiambre e um pouco de presunto espanhol (para experimentar, o bom do moço da mercearia tem estas coisas, consegue que se leve sempre mais qualquer coisita...), os outros dois companheiros de aventuras tinham uma lista extensa de compras.

Fiquei a pensar que, mesmo que se finja que não, muita coisa mudou. Este quadro era impossível há trinta anos (não vou recuar meio século...), a mercearia era um espaço de mulheres, os homens só lá apareciam para comprar alguma urgência de última hora, que faltava para o jantar (e nem todos...), nunca com uma lista nas mãos.

É por isso que me faz confusão a volta que estão a querer dar ao mundo, muitas vezes com a cumplicidade das próprias mulheres (os espectáculos mais horríveis do Parlamento têm como intérpretes, as mulheres do Chega contra as outras mulheres dos outros partidos, ao mesmo tempo que se deixam manietar por aquele grupo manhoso de falsos "marialvas").

Se não estivéssemos a viver tempos de perdas de direitos, em que se coloca quase tudo em causa, talvez não pensasse desta forma, a partir de uma coisa tão simples, como foi o encontro de três homens na mercearia de bairro...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 30, 2025

O "comércio justo" é bom, mas o "comércio simpático" ainda é melhor...


Fala-se aqui e ali do "comércio justo", mas do que eu gosto mesmo, é do "comércio simpático".

Nem sei por onde comece. Não é que sejam muitos, eu diria até que, são do clube dos "poucos e bons".

Apesar do Manel da mercearia do bairro se esticar um pouco com os preços, é de uma simpatia a toda a prova. Não é por acaso que há algumas avós que vão lá só para "namorar" com o jeitoso do moço, que nasceu para atender pessoas. Também é bastante culto (formado em gestão, ficou com a loja dos pais, no período complicado do pós-troika), ou seja, tem conversa para toda a gente.

Depois desço à Gil Vicente, onde tenho pelo menos quatro cafés à minha disposição. Curiosamente, nem sempre vou ao que tem melhor atendimento, graças à Soraia, porque tenho de atravessar a rua e nem sempre o faço (o piloto automático leva-me vezes demais na direcção do "Repuxo", mais pelo peso histórico da primeira tertúlia cultural que frequentei, que pelo "atendimento", que deixa muito a desejar, porque  há quem esteja sempre a fazer um "frete ao cliente" e deixe o sorriso em casa.

Continuo na direcção de Cacilhas e entro na "melhor farmácia do mundo". Sim, são quatro os funcionários (três "elas" e um "ele"...), além do sorriso e das palavras agradáveis que oferecem a quem chega, tentam resolver todos os problemas, nunca nos mandam para a concorrência. Penso que acabam por ser vítimas da simpatia, deve haver quem lá vá, só para se sentir bem atendido e ter "uma prosa", sobre um dor qualquer.

Sobre Cacilhas, estamos conversados. 

Depois subo a Almada e entro no "Olivença", que mesmo sem ter nada de especial como restaurante, tornou-se quase familiar, muito graças ao Carlos, que recebeu de braços abertos a nossa cada vez menos expressiva, "Tertúlia do Bacalhau com Grão", no primeiro dia da semana.

Falta falar da loja de fotocópias que frequento, no centro de Almada, há mais de vinte anos. Falo de um casal daqueles que já não há (o Carlos e a Maria José). Além da simpatia e do serviço de excelência, são de uma honestidade que também já se usa pouco nestes tempos estranhos.

Antes de acabar esta pequena crónica, escrita por ser adepto do "comércio simpático", ainda fiquei a pensar se esquecera alguém. Acho que não. Claro que há mais pessoas que sabem receber, com a Carla dos "óculos" ou o casal simpático da tabacaria mais pequena de Cacilhas, mas não sou um cliente tão assíduo como nos outros lugares.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)