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segunda-feira, setembro 14, 2026

As perguntas que não sabemos responder...


Ele perguntou-me se existia algum ponto inteligível que conseguisse definir o que é arte e o que é um artista. Alguma coisa que fosse perceptível ao olhar, algo que mexesse com as emoções do espectador comum.

Lembro-me que no jornalismo com bola usava-se muito a expressão "perguntas de mil paus", quando alguém se silenciava e fechava a caixa de respostas a sete chaves.

Ali o caso ainda era mais complicado. O artista em causa, com a "estrela de famoso", por vezes, parecia brincar com a inteligência dos outros, ao fazer obras de arte que se confundiam, aqui e ali, com obras públicas manhosas.

Tal como ele, eu também não sabia quem é que tinha inventado as "instalações". Nem estava muito interessado em saber, diga-se de passagem.

Entre outras coisas falou-me do monte de tijolos que encontrou uma vez expostos em Tavira. Mas quis ir ainda mais longe e recordou-me o episódio polémico com as vigas de ferro que colocou numa rotunda de Leça de Palmeira. "Escultura" que acabou por ser vandalizada, porque alguns munícipes, além de se sentirem "gozados" pelo artista, acharam que havia coisas mais importantes no Concelho para se gastar dinheiro e manifestaram-se da pior maneira possível.

Quem percebe um pouco de arte, sabe que escrevo sobre Pedro Cabrita Reis.

O mais provável é que sejamos demasiados "incultos" para querer colocar limites na arte, que vive mais do nosso olhar, que das imposições exteriores..

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas - não sei se o "artista" que virou um dos contentores do lixo de pernas para o ar, teve a noção de que podia estar a criar uma "instalação artística"...)


quarta-feira, setembro 09, 2026

«Continua a falar-se pouco do país que queria ser uma "máquina de fotocópias humanas"»


Percebi de uma forma curiosa, que a liberdade estava longe de ter o mesmo valor para a quase dúzia de pessoas sentadas à mesa do jantar.

Sempre falámos de política de uma forma aberta, usando as divergências que surgiam aqui e ali, com algum humor.

Por ser o mais velho daquele convívio, fui sentindo com o decorrer da conversa que o meu mundo era diferente do deles. Mas não era só isso. Eu sempre fui pouco maleável a novas ideias e a novas tecnologias (era o único que não usava smartphone e isso podia explicar muita coisa...).

O mais estranho, era aquela gente achar-se mais bem informada que eu, por estarem a ler títulos de notícias quase minuto sim minuto não, ignorando que eu era assinante e leitor de jornais a sério...

Houve mesmo alguém que foi capaz de dizer que o país do Salazar não era assim tão mau como o pintavam. Foi quando eu disse que era muito pior.

A duas ou três coisas que foram ditas de forma leve, eu respondi com meia-dúzia de factos, que por si só, conseguiram silenciar aquela mesa, por alguns segundos.

Antes do ignorante atrevido meter a viola no saco, por perceber que estava sozinho, ainda lhes disse: «Percebo que não conheçam a realidade do país salazarento. Continua a falar-se pouco do país que queria ser "uma máquina de fotocópias humanas".»

Os sorrisos voltaram à mesa e começou-se a falar de futebol, pois tanto o Sporting como o Benfica tinham acabado de ganhar os seus jogos de "pontapé na bola"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, setembro 07, 2026

Dores de crescimento e dores de envelhecimento...


Eu sei que são dores diferentes.

Provavelmente as de crescimento parecem ser mais dolorosas. Parecem...

Noto isso com a minha filha, que se prepara para entrar no mundo do trabalho, onde vai descobrir uma outra "selva humana", mais animalesca que nos meus primeiros tempos de operário, por vivermos uma época diferente, em que por vezes até se fica com a sensação de que já vale "tirar olhos" e tudo...

Sei que vai ter de "enrijar" os ossos... e o coração...

As dores de envelhecimento, ainda não me chegaram, pelo menos de uma forma que merecem qualquer desabafo mais sério. Percebo-as no contacto e nas conversas que tenho com a minha Mãe e com o meu amigo Chico. Sei que são dores diferentes, porque são de todas as horas, doer isto ou aquilo, é quase como respirar...

Aqui não há "analgésico" possível, ou "morfina" que resulte, para lá das viagens que poderá proporcionar, dependendo apenas da respectiva dose...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, setembro 05, 2026

Também não sei para onde foi a "normalidade"...


Deve ser das coisas mais difíceis de definir nesta actualidade estranha, a tal "normalidade", tanto ao alto como ao baixo nível. Todos sabemos que o que é normal para países como a Rússia ou o Israel, é diferente para  a Ucrânia, ou o Irão...

Depois podíamos descer um patamar e chegar aos chamados conservadores e aos ditos progressistas, onde uma simples saia acima do joelho ou um véu que cobre o cabelo, conseguem encher um livro de reclamações.

Pior que as saias curtas são os livros cheios de obscenidades e ideias malucas, que tanto medo provocam a quem gosta de um mundo demasiado certinho e cheio de regras, pelo menos fora de casa...

Mas o pior deve ser a valoração da mentira, que começa a ficar quase ao mesmo nível da verdade, como era entendida antes de aparecerem as redes sociais e todos aqueles que as "cavalgam", como se o seu hoje fosse o amanhã...

O mais curioso é que escrevi uma data de coisas, que passam ao lado da conversa de sábado de manhã, que questionava a "normalidade" e tinha como protagonistas um político aldrabão, que quer ter no currículo  a demissão de um ministro (e vai conseguir, mas mais tarde do que aquilo que estava a pensar...), e um antigo polícia "chico esperto", com a escola das américas dos xerifes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 03, 2026

Homens que bebem para viver, sem perderem de vista os lugares onde foram felizes...


Há muitas formas de convívio, de estar e de conversar com os amigos.

Gostei de estar ali sentado, de sentir que havia uma outra forma de gostar, de conversar e até de rir nas esplanadas. Por ser um estranho, deixaram-me beber apenas uma imperial, enquanto eles já iam na quarta ou quinta.

Não deixei de ser bem recebido, porque um "amigo de um amigo", naquela mesa recebe também o mesmo tratamento.

Sorri muitas vezes, porque as conversas são muito diferentes das que estou habituado entre amigos. Há um jeito trocista na forma como se olha para o bairro, para o país e para o mundo, que é descontraído com os lados cómicos da vida, alimentados pelas imperiais de Verão e pelas taças de tinto no Inverno.

Nas nossas mesas com livros, teatros e cinemas não se ia falar das "quatro mulheres" de um dos convivas, que querem se encontrar e conhecer no aniversário dele, muito menos qualificá-las com o habitual humor masculino de tasca, com gargalhadas de todos, inclusive do homem que fazia o papel de "galã" na mesa e que se preparava para fazer setenta anos.

O meu amigo fez-me sinal, de que estava na hora. Despedi-me daqueles companheiros de ocasião, que como acontece em quase todas as tertúlias, me trataram como se fosse um deles.

Já no carro, ele ainda disse que esperava que não tivesse desgostado de todo daquele "circo humano". Claro que não, respondi com um sorriso. Ainda acrescentou que havia ali um ou outro rapaz, que até poderia querer ser personagem de alguma das minhas aventuras literárias.

O mais curioso naquela tertúlia de "amigos do copo", era terem nascido todos por ali e serem amigos desde os tempos da primária. E perceber-se que continuavam a gostar, muito, de estar uns com os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 01, 2026

«Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»


Alguns leitores, assumidamente, não comentadores do "Largo" gostam de dizer coisas sobre o que escrevo, como foi o caso do "anónimo" da camisola azul que frequenta o café da praça. Não só teve o descaramento de acrescentar palavras sobre os livros, como o disse de uma perspectiva sobretudo comercial: «Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»

Pois foi... ninguém me disse. Mas é o que acontece, mais vezes do que pensamos. 

O "anónimo" da camisola azul, está cheio de razão... Desde que a Feira do Livro se tornou um "hiper-mercado", até mesmo os leitores de livros acabam por comprar ainda mais livros, que sabem que nunca irão ler. 

São apenas os livros que gostavam de ler um dia...

A "febre" do consumismo é isto... leva-nos sempre a comprar coisas, que não nos fazem falta, nem mesmo na nossa cabeça. 

Pois é, nada escapa a esta vontade de vender e de comprar destes tempos, nem mesmo os livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


segunda-feira, agosto 24, 2026

Mudamos sempre, mesmo sem nos apercebermos...


O espelho diz-nos muitas vezes que estamos diferentes. Muitas vezes apetece-nos "não ver", "não olhar", especialmente quando não achamos muita piada às mudanças.

Mais problemático é quando passamos ao lado daquelas mudanças, que nenhum espelho detecta... Sim, quando passamos a olhar para as coisas de uma forma diferente e fingimos não o perceber. Talvez aconteça por aqui o mesmo que a sempre útil Sabedoria Popular nos diz sobre o que o tempo faz ao "bom vinho": se for bom ganha qualidade, se for mauzito, tem tendência para azedar... 

Sessenta e poucos anos de vida são suficientes para percebermos, que sim, somos exactamente como o bom vinho. De uma forma simplista, percebemos que todos os "filhos da puta" se tornam piores com o passar dos anos, ao passo que as pessoas mais bem formadas, têm tendência a relativizar tudo aquilo que se passa à sua volta...

Onde se nota muito estas diferenças é no comentário político. Os casos de Pacheco Pereira ou de António Barreto, são paradigmáticos, ambos foram ganhando racionalidade, ao mesmo tempo que se iam curando da "febre ideológica". Algo que com toda a certeza nunca acontecerá com João Miguel Tavares, tal como nunca aconteceu com Vasco Pulido Valente, e muito menos acontecerá com Cavaco ou Sócrates...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 23, 2026

As velocidades diferentes que se encontram dentro dos livros...


Os leitores, mesmo os mais apressados, sabem que todos livros têm uma velocidade própria de leitura. 

Se há livros que querem ser lidos da primeira à última página - tal é a sucessão de acontecimentos que nos vai surgindo, capítulo a capítulo, ao ponto de só descansarmos quando chegamos ao fim -, há outros que pedem reflexão, quase que nos pedem para parar para pensar...

Normalmente estas obras são escritas com alma, quase sempre sobre temáticas sensíveis, onde o escritor quase que se despe por inteiro... conseguindo expressar o que sente através das palavras que nos oferece.

No meu caso pessoal, é raro sentir esta vontade de parar a leitura e ficar agarrado a uma frase ou um verso, capaz de transmitir tanto apenas com meia dúzia de palavras. Senti isso com a "Fortaleza" de António Borges Coelho.

É um pequeno livro de poemas, com uma introdução em prosa, onde o autor nos oferece uma multiplicidade de sentimentos, sem nunca perder a autenticidade. Livro que pode muito bem ser entendido como um "diário poético", do seu tempo de prisioneiro no Forte de Peniche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 21, 2026

«Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo seu primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»


Quem tem mais de cinquenta anos, ainda conheceu o país em que um simples licenciado de qualquer coisa, colava a palavra doutor antes do seu primeiro nome, mesmo que estivesse a falsear os seus cartões de identificação.

A chamada "pobreza franciscana" tinha destas coisas, gente que queria ser "importante à força" e que foi sempre muito bem caracterizada pela sabedoria popular, que gostava de dizer que um doutor, não passava de um "burro carregado de livros"...

Embora a mediocridade nunca se tenha afastado muito dos poderes, foi graças ao Sócrates e ao Relvas e aos seus diplomas domingueiros, que algumas pessoas começaram a ter vergonha de serem do clube dos "doutores da mula russa"...

Apesar de muitas coisas estarem a voltar atrás no tempo, esta é daquelas que dificilmente voltará a ser usada como sobranceria social, porque hoje deve existir um grande equilíbrio entre os jovens que tiram um curso superior e os que ficam pelo caminho.

E isso explica a memória das palavras do bom do Orlando: «Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


quinta-feira, agosto 20, 2026

"A mulher que me chama branco"


A mulher que me chama branco

Há uma mulher que me chama branco.
Diz a palavra de tal forma agradável
que quem ouve fica a pensar que é apelido.
Já houve mesmo uma ou outra senhora
que fazia limpeza à sala de trabalho
que me chamou "senhor Branco"...
Apenas por acaso, ela também era branca.

Toda a gente acha improvável que uma preta
use o antónimo de preto para chamar
alguém que tem a pele clara e pálida.
É por isso que eu nunca digo a ninguém 
qual é o meu último nome, até
por ser mais esquisito que branco.

Conversamos muito.
Até falamos de mundos estranhos
como Gaza, Irão, Ceuta ou Sudão
habitados por gente que é tratada
de uma forma diferente do que é ser gente,
para depois voltarmos ao nosso país
que finge ser quase normal.

Uma ou outra vez 
há quem pense que somos amantes
Mas depois dizem que não
por não andarmos escondidos pelos cantos
nem nos verem a trocar bilhetes ou mensagens.
Como se fosse má ideia amar uma preta
que ainda por cima, é uma mulher bonita...

A mulher que me chama branco
tem toda a razão quando diz que
pior que ter a pele escura, é ser mulher e ser preta.
Mesmo que ela seja castanha e Bela (até de nome)...

Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sábado, agosto 15, 2026

Ser um "artista pop" não é para quem quer. É só mesmo para quem pode...


Apesar de termos milhares de homens e mulheres, que passam o tempo a cantar coisas que chamam de "pop", sempre pensei que os verdadeiros "artistas pop", nesta nossa Lusitânia, se contavam com os dedos das duas mãos.

O primeiro artista que senti que era diferente de todos os outros, foi o António Variações, que não teve medo de ir atrás do que não existia, sem mostrar receio de ser antigo ou moderno, muito menos de ser único. Isso acontecia na forma como cantava, dançava e também como se apresentava em palco.

Depois apareceu o Rui Reininho. Mais tarde o David Fonseca. E depois o Samuel Úria (podia falar também da Manuela e dos Clã, da Sónia e dos The Gift ou do Tomás e dos Capitão Fausto... e pouco mais...).

Apesar de serem diferentes do António, vivem o palco como se estivessem nas suas salas de estar, sem se esconderem atrás de ninguém e sem terem qualquer problema em vestir umas calças às riscas amarelas e vermelhas.

Cada um deles tinha (e tem) uma identidade própria, coisa rara na música portuguesa.

Pensei nisto a0 olhar para este cartaz que anuncia os concertos do David em Lisboa e no Porto.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, agosto 13, 2026

Ter vontade de esquecer a palavra "original"...


Falámos sobre a "originalidade", essa coisa que tanta gente anda à procura no mundo das artes e letras, quase numa perseguição doentia, mesmo que não se saiba muito bem o que quer dizer.

Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...

Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.

Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...

O que eu fui dizer ao António... 

Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:

«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»

E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.

Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 03, 2026

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...


Não sei se faziam uma escala diária, mas às sete da manhã havia alguém que saía de casa com o chapéu de sol, duas cadeiras e duas toalhas, para "reservar" uma parte do areal da praia de Armação de Pêra.

Com um sorriso maroto, disse-me que aquela hora estavam longe de ser os primeiros ou segundos a "marcar território".

Tudo aquilo me pareceu estranho, por na minha praia haver espaço suficiente a qualquer hora do dia, para montar um "mini acampamento de índios". O mais curioso, é que para ele, aquela "ocupação" era a coisa mais normal do mundo...

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


domingo, agosto 02, 2026

Os campos de futebol inclinados que nos roubam o sonho e a ilusão...


Talvez exista algo de quixotesco e sobretudo de "Robin Hood", no meu gosto de ver aqueles que são descritos como mais fracos e pequenos, fazerem frente aos grandes.

Claro que no mundo da política ou das empresas, tratam-se de meras impossibilidades. Não sobra quase espaço nenhum para o sonho. Vinga sempre a "lei do mais forte"...

O desporto é um dos poucos sectores que dão essa ilusão, especialmente o futebol. No começo de cada partida como jogam onze contra onze, é sempre possível acreditar na possibilidade da existência de uma surpresa, do "David conseguir derrotar o Golias".

Infelizmente - e para não escapar desta sociedade desigual em que vivemos -, os chamados grandes têm quase sempre um aliado de peso dentro das quatro linhas; o árbitro. É ele que decide, que tira toda e qualquer dúvida que exista... e que se quiser "inclina" o campo, como disse anteriormente, para o lado que quiser. Lado, que vá lá saber-se porquê, é quase sempre inclinado em benefício do mais forte...

Foi o que aconteceu ontem na final da Supertaça, disputada entre o FC Porto e o Torriense. Na primeira parte do jogo o árbitro teve o cuidado de "amarelar" dois ou três jogadores da equipa de Torres Vedras, que não se intimidaram e mostraram ao que vinham. Ao ponto de até ter jogado bem melhor que a equipa do Porto nos primeiros vinte minutos, sem que alguém notasse que fazia parte da segunda divisão...

E foi sempre assim durante os mais de noventa minutos, em casos de dúvida, o "juiz" apitava sempre contra o Torriense.

Claro que esta evidência não tem nada de fervor clubístico, se fosse o Benfica ou o Sporting que estivessem no lugar do FC Porto, o cobarde do árbitro, teria o mesmo comportamento...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, julho 28, 2026

Leitores e gostos diferentes para livros iguais...


Trago sempre pelo menos meia-dúzia de livros para ler nas férias. 

Voltei a perceber, mais uma vez que nem sempre são as melhores escolhas porque desta vez a minha companheira não trouxe nenhum livro e teve de ficar com as "minhas escolhas" e já torceu o nariz duas vezes...

Começou por ler "A Sala Magenta" de Mário de Carvalho, que leu até ao fim mas não gostou (eu também já acabei de ler e gostei, mesmo que não se trate de uma grande história, fala dos "desencontros" das pessoas nos meios das culturas, através do insucesso de um cineasta...). Mas com a segunda leitura é que se "estragou" tudo, graças aos contos de Charles Bukowski, do livro, "A Mulher mais bonita da cidade". E abandonou-o logo às primeiras páginas...

Além de estar cheio de sexo (ao vivo e a cores...), a linguagem sem travões do Charles não deixa de chocar alguns leitores. Quando um dos seus contos tem como título, "A Máquina de Foder", está tudo dito...

Comecei a ler o Charles com conhecimento de que ele escrevia sem qualquer cerimónia, sobre o mundo e sobre as pessoas (li um dos seus livros mais populares, embora não me lembre do título...). Não era do seu estilo substituir as palavras que acha certas para ilustrarem as suas histórias. Claro que há sexo e álcool a mais neste livro. É provável que tenham escolhido os seus contos mais vadios e marginais para esta antologia...

Imagino que não haja espaço para Bukowski, nesta nova América tão purista e adepta das "aparências". O mais certo é ele ter sido banido das bibliotecas públicas e até de algumas livrarias de "lacinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, julho 25, 2026

Uma televisão que gosta de se lembrar das pessoas fora de tempo...


É no mínimo estranha esta moda, das televisões só se lembrarem das pessoas, depois delas partirem. 

Não estou contra as muitas homenagens que foram prestadas a Luís Represas  pelos canais generalistas, quer com a repetição de concertos como de outros programas. 

Gostava sim, era de assistir aos sábados ou domingos, a programas de música com a presença dos nossos melhores cantores e músicos. E não desta "misturada" de gente que finge que sabe cantar, mas que não passava das eliminatórias dos concursos que procuram novos talentos musicais...

Essa sim, era a melhor homenagem que se poderia prestar a Luís Represas...

(Fotografia de Hugo Delgado)


quinta-feira, julho 23, 2026

«Vocês protegem-se sempre uns aos outros...»


Por viajar muito, dentro e fora das nuvens, sou melhor a fixar as frases que as conversas dos outros.

Estávamos a beber café e de repente sou surpreendido pela frase, «vocês protegem-se sempre uns aos outros...»

Não percebi o contexto destas palavras, mas percebi que foi dita mais como "quem quer comprar" a coisa, que "por desdém".

Nós na camaradagem quotidiana somos mais unidos e solidários, ao ponto de guardarmos segredos "do arco da velha"...

As mulheres nem por isso. Estão logo preparadas para entrar em qualquer jogo de intrigas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quinta-feira, julho 16, 2026

«Se não os consegues vencer, juntas-te a eles...»


Sabia que o descontentamento das pessoas era a principal razão para o crescimento do populismo (continuo a ter dificuldade em chamar-lhe "extrema-direita"...), mas nunca tinha olhado para ele, numa outra perspectiva. É por isso que as conversas são importantes e duas cabeças pensam quase sempre melhor que uma...

Há quem não consiga (nem queira...) "lutar contra". E então juntam-se aos "reis da confusão", que passam o tempo de dedo em riste, a culpar alguém do que está a acontecer. Com eles a culpa nunca morre solteira, ao contrário do que acontece no país.  Até mesmo a "cagadela de pombo" que lhe calhou por sorte, é culpa de alguém...

Com toda esta obsessão - parecida com a popular "lavagem ao cérebro" - em querer "justiça", nem se preocupam que estejam a acusar as pessoas erradas. Eles querem é culpados, querem é apontar dedos, querem é  ver alguém no "cadafalso", mesmo que seja alguém inocente...

Quase no fim desta conversa, que começou com a tentativa de dividir a questão da segurança e da acção policial, em "esquerda" e "direita". Com um simplismo que até meteu dó: os esquerdistas defendem os bandidos, a direita defende os polícias.

Ou seja, eu e o meu amigo Orlando, éramos os únicos na mesa, com o "emblema" de perigosos esquerdistas, apenas por defendermos o estado de direito, por acharmos que a principal função das polícias é garantir a segurança das pessoas e não andar a agredi-las...

Houve alguém que teve a feliz ideia de mudar de assunto. Mas só mudou a temática, a "fome de justiça" continuava bem viva. Já não disse mais nada.

O meu amigo Orlando simplificou tudo aquilo que acabara de acontecer com uma simples frase: «se não os consegues vencer, juntas-te a eles...»

Não sei o que vem aí. Sei apenas não é nada de bom, quando percebemos que há cada vez mais "carneiros" à nossa volta, que em vez de pensarem pela sua cabeça, preferem o caminho mais fácil, ir atrás do rebanho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, julho 13, 2026

um incidente bem explicativo sobre o comportamento de algumas minorias...


O meu barbeiro dos últimos vinte e muitos anos, finalmente arrumou o "pente e a tesoura", já com oitenta e alguns anos.

Fiquei sem saber a que porta ir bater, enquanto o meu cabelo continuava a crescer. Durante o almoço o meu amigo Chico disse-me que passara a ir a uns paquistaneses dos famosos "cinco euros" e que estava satisfeito, quase na nossa rua. Pouco convencido, resolvi passar por lá. Um dos rapazes percebeu a minha indecisão e convidou-me a entrar e dizendo que estava quase a acabar...

Sentei-me sem suspeitar da "cena" que iria assistir nos minutos seguintes. Um dos dois clientes começou a queixar-se que o bigode estava torto, partindo pouco depois para o insulto ao jovem barbeiro. Pelo jeito de falar percebi que era de étnia cigana. E nunca mais parou de insultar o rapaz que lhe cortara o cabelo e aparara o bigode, ao mesmo tempo que acusava o outro, que era quem lhe cortava o cabelo normalmente, e como tal "era o culpado de tudo".

Quando se levantou disse, alto e a bom som, que não pagava e saiu pela porta fora. Os dois jovens ficaram parados a olhar um para o outro, desabafando na sua língua.

Antes, no meio daquela discussão, apeteceu-me levantar e sair pela porta fora, sem dizer "água vai, água vem", duas ou três vezes. Mas ainda bem que não o fiz, pois acabei por ficar satisfeito com o corte de cabelo e com a simpatia e simplicidade dos dois rapazes. E também foi o corte mais barato dos últimos trinta anos...

Depois de sair fiquei a pensar na diferença de comportamentos destas duas minorias, tantas vezes metidas no mesmo saco, pelo partido do costume, quando têm comportamentos tão diferentes. 

E talvez seja por estas e por outras que a gente do Oriente está a dar, cada vez mais, o salto para o "nosso país vizinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa, homenagem ao António, o "Rei dos Barbeiros" e da "Música Moderna")