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quinta-feira, setembro 03, 2026

Homens que bebem para viver, sem perderem de vista os lugares onde foram felizes...


Há muitas formas de convívio, de estar e de conversar com os amigos.

Gostei de estar ali sentado, de sentir que havia uma outra forma de gostar, de conversar e até de rir nas esplanadas. Por ser um estranho, deixaram-me beber apenas uma imperial, enquanto eles já iam na quarta ou quinta.

Não deixei de ser bem recebido, porque um "amigo de um amigo", naquela mesa recebe também o mesmo tratamento.

Sorri muitas vezes, porque as conversas são muito diferentes das que estou habituado entre amigos. Há um jeito trocista na forma como se olha para o bairro, para o país e para o mundo, que é descontraído com os lados cómicos da vida, alimentados pelas imperiais de Verão e pelas taças de tinto no Inverno.

Nas nossas mesas com livros, teatros e cinemas não se ia falar das "quatro mulheres" de um dos convivas, que querem se encontrar e conhecer no aniversário dele, muito menos qualificá-las com o habitual humor masculino de tasca, com gargalhadas de todos, inclusive do homem que fazia o papel de "galã" na mesa e que se preparava para fazer setenta anos.

O meu amigo fez-me sinal, de que estava na hora. Despedi-me daqueles companheiros de ocasião, que como acontece em quase todas as tertúlias, me trataram como se fosse um deles.

Já no carro, ele ainda disse que esperava que não tivesse desgostado de todo daquele "circo humano". Claro que não, respondi com um sorriso. Ainda acrescentou que havia ali um ou outro rapaz, que até poderia querer ser personagem de alguma das minhas aventuras literárias.

O mais curioso naquela tertúlia de "amigos do copo", era terem nascido todos por ali e serem amigos desde os tempos da primária. E perceber-se que continuavam a gostar, muito, de estar uns com os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 16, 2026

A memória boa que aparece misturada com o bacalhau com grão...


Reparo que nós - os que temos uma capacidade especial de dar voltas para trás como o caranguejo e conseguir tirar sempre algo de positivo, mesmo das partes menos boas das nossas vidas - acabamos por relativizar as coisas, quase todas.

Pensei nisto depois de ter almoçado com os meus queridos amigos, Carlos e Chico, que ajudam a perpetuar no tempo a nossa "tertúlia do bacalhau com grão" e a recordar com saudade os nossos companheiros de aventura, que foram partindo, mas que mesmo assim, gostam de aparecer no meio de qualquer conversa sobre o quotidiano.

Há sempre um ou outro pormenor, que convoca um ou outro amigo... 

O Orlando continua a ser o mais requisitado, porque tinha a capacidade de "encher a mesa", com coisas sérias e coisas a brincar. Mas aparece logo de seguida o Carlos Guilherme, com a sua brutalidade meiga ou o Jaiminho, com as palavras certas (lembrava-nos muitas vezes que quem fala muito pouco acerta....). Mas depois surjem também o Viriato, o Carlos Alberto ou o António, nem que seja apenas com um sorriso ou uma provocação...

Pois era, falávamos muito... e sorriamos ainda mais... 

Sei que também bebíamos bastante vinho tinto "da casa". Mas estou convencido, que mesmo que só bebêssemos água, a conversa continuaria animada pela tarde fora dessas nossas memoráveis segundas-feiras...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, janeiro 26, 2026

Viajar dentro do outro país antigo, que felizmente já não existe...


Estávamos a acabar de almoçar e no já habitual entrelaçar das conversas, começámos a falar do tempo antigo. Acho que foi a água que desperdiçamos nos banhos diários, que nos levou lá, acompanhada pelos "pareceres científicos" de que este hábito nos rouba defesas ao corpo...

O Tomás é um rapazola demasiado inteligente para se ficar e lembrou-nos da esperança média de vida desses tempos, em que ultrapassar os setenta anos era quase como hoje vencer-se a barreira dos noventa. Respondi-lhe que havia muitos outros factores para que isso acontecesse, como a alimentação muito mais pobre e uma assistência médica quase inexistente, em especial nos lugares onde hoje se continua a sentir mais o abandono... 

Mas depois fomos ainda mais longe, falámos da ausência do saneamento básico em quase todo o país, antes de Abril. Dos muitos prédios, mesmo nas cidades, sem a existência de casas de banho. A única coisa que existia era uma pia colectiva, onde se despejavam os penicos, que iam directamente para uma "fossa" (um buraco subterrâneo apenas com paredes laterais, para que as porcarias fossem transformadas em "substrato" e absorvidas pela terra...).

O Tomás, com os seus quinze anos, olhou-nos com alguma incredulidade, até perceber que estávamos mesmo a falar a sério.

Nem me lembrei de lhe falar dos "bairros de lata" que vão crescendo à volta dos grandes centros urbanos, como aconteceu nos anos sessenta e setenta do século passado, onde se vive com os mesmos problemas. Falei-lhe sim da Palestina, da ausência de condições mínimas para aquela gente viver, a todos os níveis...

Depois houve alguém que mudou de assunto e ainda bem. Até porque aquela conversa não era para se ter à mesa, mesmo que já estivéssemos à espera dos cafés...

(Fotografoa de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, abril 28, 2025

Um dia estranho que deixou mais uma vez a descoberto a nossa (grande) vulnerabilidade...


Não queria falar do abanar de asas da borboletita espanhola, com força suficiente para parar dois países, ao mesmo tempo que dava espaço a todo o tipo de conjecturas, mas...

Felizmente, enquanto o mundo já andava demasiado preocupado com o que poderia estar a acontecer, eu andava ocupado a arrumar coisas e a pensar que se tratara de uma avaria local, mesmo que durasse mais que os cinco minutos normais. Sabia que estávamos mal habituados. Nos últimos anos  raramente faltava a "luz", e quando ela desaparecia, voltava quase sem nos dar tempo para acender uma velinha.

Passava das treze horas quando me sentei no nosso espaço reservado do "Olivença" e o Carlos me contou que havia numa série de países europeus sem electricidade. Percebi que já existiam primeiro várias "teorias " à solta, e não foi por acaso que o primeiro nome a vir a baila foi o de Putin, um dos bandidos mais "encartados" do Planeta...

Recebi um telefonema que me dava conta das "faltas de comparência" dos meus companheiros de tertúlia gastronómica. Se há coisa que detesto é tomar uma refeição sozinho num restaurante, mas não me podia ir embora, até pela amizade com o Carlos. 

E lá almocei o "bacalhau com grão", quase a seco, sem a falta das palavras e dos sorrisos do Chico, do Carlos III e do Tomás...

Já em casa, fui sentindo o vazio de estar a "viver" sem televisão e internet. E claro, há muito tempo que não subia tantas vezes as escadas até ao quarto andar. 

Precisava de um rádio e de pilhas para voltar a estar no mundo". Encontrei-os...

Por ter tudo "eléctrico" em casa, até o fogão, fui a mercearia comprar carvão. Falavam no mínimo de seis horas para repor a normalidade, pelo que os grelhados eram a única ementa possível para o jantar. Foi na loja local que descobri um país em alvoroço, com as pessoas a quererem esgotar a água existente assim como as conservas (estava gente à minha frente com mais de uma dúzia de latas de atum e outras tantas de feijão...). Como só precisava do carvão, consegui pagar e ir embora, "furando a fila", mas fiquei ligeiramente alarmado com a já normal prevalência do "eu" e do "salve-se quem puder", com a ânsia daquela gente em levar para casa coisas a mais, à espera da "guerra", sem pararem para pensar que o mundo tem mais pessoas...

O rádio não ia dizendo muitas coisas, mas pelo menos serviu para desmontar uma série de "teorias da conspiração", colocadas a circular pelos mentirosos do costume...

Ao jantar conversámos bastante (há sempre coisa boas nestas "aventuras"...), na nossa varanda, bem iluminada graças às engenhocas do meu filho. Ao ponto de parecermos a única casa com gerador na nossa rua (uma bela mentira)...

Graças à vista larga do nosso "miradouro" pelo Mar da Palha, fomos assistindo ao regresso da energia pelas terras que nos rodeavam. O coração de Lisboa foi o primeiro a acordar, depois foi a Ponte Vasco da Gama, o Montijo, Palmela (mais longinqua...), Seixal e quase às vinte e três horas e meia, foi a vez de Almada regressar à "normalidade"...

Ao fim de um dia estranho, a única coisa em que pensei, foi na nossa pequenez, no quanto somos vulneráveis. Não queria voltar a pensar no que pode acontecer com um simples abanar de asas de uma borboleta em qualquer lugar afastado, mas...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, dezembro 03, 2024

As tertúlias de café, das certezas e das dúvidas...


Estava sozinho a beber café, mesmo ao lado de um grupo de tertulianos, que passam a manhã, por ali, a pôr as "certezas" em dia.

Pensei nas minhas tertúlias, que são tão diferentes daquela. Normalmente são povoadas de gente cheia de dúvidas, que se senta para ver se aprende alguma coisa, e se diverte, claro.

Percebi à légua que um deles, ainda tinha mais certezas, que todos os outros. Ouvi-o dizer pelo menos três vezes: «Não é nada disso.» Antes de tentar vender o seu "charrouco" aos companheiros.

Ao contrário daqueles senhores, temos algumas dúvidas de que o Sporting vá ser campeão ou que o Almirante possa ser Presidente da República...

E o melhor disto tudo, é não fazermos apostas, não termos medo de errar ou de estar errados. 

O pior que nos pode acontecer, no dia seguinte, é sermos alvo de "chacota" durante um ou dois minutos.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, julho 15, 2024

O extraordinário Fernão Mendes (cada vez menos "Minto"...) Pinto


Um dos livros que levei para ler nas férias foi "Na Senda de Fernão Mendes Pinto", de Joaquim Magalhães de Castro.

O autor não só desmonta muitas das falsidades que se foram escrevendo sobre este grande aventureiro, que felizmente se tornou escritor de viagens, quando estes ainda não existiam, como prova a passagem desta figura histórica pela China, Japão e muitos outros orientes. É importante recordar que Fernão viveu os últimos anos da sua vida no Pragal, em Almada, onde escreveu a "Peregrinação".

Neste caso particular, o tempo tem sido amigo do escritor português, pois, ano após ano, o seu registo histórico vai-se valorizando, pela quantidade de informação - cada vez mais respeitada e enaltecida - que nos ofereceu e também pela forma como conta as suas peculiares epopeias, positivas e negativas. Ou seja, afinal não é o "mentiroso" que muitos pensavam e difundiam.

Publico esta fotografia especial, de um amigo que já não está por cá, porque neste ano de 2024, se comemora o centenário do seu nascimento: o também almadense Fernando Barão. Fotografia tirada numa tertúlia histórica de Almada ("As Tertúlias do Dragão", organizadas pela SCALA no Café Dragão Vermelho...), com o Fernando a encarnar com graça e história, o extraordinário Fernão Mendes Pinto.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, maio 26, 2024

"Abril nunca será Novembro"...


Passei a tarde de hoje no Salão de Festas da Incrível Almadense, onde me coube o papel de moderador de uma "Tertúlia de Abril", que procurava visitar o antes e o depois de Abril, em Almada, organizada pela Incrível.

Os convidados eram do melhor que se poderia encontrar no Concelho (Mário Araújo, José Manuel Maia, Joaquim Judas, Augusto Flor e António Matos), em conhecimento e experiência política. Isso muitas vezes complica a função do moderador. Não foi o caso, porque eu limitei-me a deixar esta gente da história de Almada, falar. Falar do muito que viveram, para as duas dezenas de pessoas presentes, sempre atentas, que saíram dali muito mais ricas (tal como eu...), sem arredar pé, nas quase três horas em que se "tertuliou" e visitou a história recente de Almada e de Portugal.

Foi uma pena não se ter filmado a sessão (nem fotografado.. .), porque se disseram coisas extremamente importantes e sentidas (foi uma boa ideia pedir-lhes na segunda ronda de intervenções, que nos contassem aquilo que mais os marcou durante esse tempo verdadeiramente revolucionário e progressista).

Também se falou do presente, dos avanços da direita à tentativa dessas mesmas forças em "compararem o que não é comparável": a Revolução de Abril com um Movimento Militar democrático (o mais curioso é que esta direita nem sequer teve nenhum papel activo neste movimento, protagonizado pelo "Grupo dos Nove" e pelo PS...), que tentou cortar com os extremismos que estavam a dividir o País (tanto à esquerda como à direita...).

(Fotografia de Júlio Diniz - Almada, 27 de Abril de 1974, sábado)


terça-feira, fevereiro 27, 2024

Ter a mesma "ideologia cultural"...


Estou a preparar uma intervenção, de homenagem a um amigo. Quero fazer algo diferente, quero conseguir transmitir a imagem de alguém para quem a cultura era o motor de quase tudo na vida. E por conhecer as nossas muitas limitações, foi sempre um "farol cultural".

Ele acreditava no que Vergílio Ferreira escrevera um dia (e antes dele outros...), que "A Cultura só se aprecia, depois de se ser culto". Foi por isso que deu muitas "aulas" de cultura, nas muitas colectividades que passou durante a sua longa vida, com pequenos ensinamentos e exemplos retirados no nosso dia-a-dia, oferecendo pequenas pistas de livros que se deviam ler. 

Tinha uma grande bagagem cultural porque gostava de tudo, de literatura (de ler, escrever e contar...), de teatro (de ver, de escrever e de fazer...), de cinema (aqui era mais ver...), de música (mesmo sem ser um afinadinho gostava de cantar - fez parte de um grupo de canto coral - e de tocar a sua harmónica), e de fotografia (chegou a ser premiado em salões de fotografia...).

E tinha uma coisa muito importante, fugia da "cultura chata", aquela que podia dar sono ou fazer com que as pessoas estivessem nos sítios sem lá estar. Tinha a percepção de que que o começo de tudo devia ser agradável, desde os livros até ao teatro ou cinema. Não se podia começar pelas obras mais difíceis de entender, que mais nos obrigavam a pensar. Essas ficavam para depois de se gostar...

Acho que fomos grandes amigos por partilharmos a mesma "ideologia" cultural e gostarmos de espalhar e partilhar as coisas boas de que gostávamos...

(Fotografia de Elsa Carvalho - Cacilhas)


sexta-feira, janeiro 26, 2024

A "arte de desconversar"...


A "arte de desconversar" é comum a todos nós, por várias razões. A mais forte talvez seja o facto de não conseguirmos gostar e de concordar com toda a gente. Sim, fugimos de consensos quando não existe empatia com o outro, em vez de nos aproximarmos, vamos criando uma barreira invisível entre nós, que nos vai mantendo quase sempre afastados daquilo que poderia ser uma boa conversa.

Mas também podemos "desconversar" com quem gostamos. Há pessoas que nunca ultrapassam a fase dos "porquês" e raramente são afirmativas, questionam tudo e todos. E nem sempre temos paciência para elas...

Estou a lembrar-me neste momento do Jorge, filósofo de formação e ofício, que não era capaz de ter uma conversa simples. Tinha sempre que complicar as coisas, olhar e ver o que mais ninguém via. 

Ao contrário de outros amigos, que assim que o viam aproximar-se, eram capazes de pegar num jornal ou num livro, que estivesse ali à mão, só para não o "aturarem", conversava com ele, às vezes até lhe "dava corda" (ele adorava ser contrariado, ao contrário de quase todos nós...). E no final aprendia sempre alguma coisa. 

Fazia-o também por saber que ele vinha propositadamente da Lisboa das avenidas, para o nosso café tertuliano, para estar connosco. Nem me incomodava que ele durante a viagem de cacilheiro até à nossa banda, fosse menino para inventar um tema qualquer, só para nos fazer "saltar os neurónios"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, setembro 20, 2023

As pessoas que nos aparecem nas paragens de autocarros...


Estava numa daquelas paragens em que passa um autocarro por hora, quando se aproximou um homem que vinha agarrado a um cigarro. Ficou a dois três metros de mim, mantendo a "distância humana" que nos ficou da pandemia.

Também estava ao lado da paragem, onde o respectivo banco estava ocupado por três mulheres maduras que conversavam, provavelmente sobre os nadas da nossas vidas. Também mantive a tal distância. 

Sei que quando cheguei disse bom dia e que ninguém respondeu ao cumprimento. E aquele subúrbio até tinha qualquer coisa de aldeia... Talvez não tivesse um bom ar (não me apeteceu fazer a barba nessa manhã...). 

Nada de preocupante. Sabia que as pessoas nunca economizaram tanto as palavras como hoje...

Entretanto o cheiro do cigarro foi-se aproximando e não foi a melhor coisa do mundo, provavelmente por falta de hábito. Foi quando me lembrei da primeira "tertúlia" a que pertenci em Almada, do Victor, que fumava muito, mas que não me incomodava nada como fumador. Era como se ele engolisse todo aquele fumo que se torna desagradável e só nos deixasse aquele cheiro, que a par do café, eram "perfumes" destas casas onde as pessoas se encontravam para conversar...

(Na semana passada também me lembrei do Victor, porque ele deixou-nos vitima da mesma doença da Natália Correia. Deixou de fumar de repente e o organismo não aguentou a falta daquele fumo que lhe pintara os pulmões de negro... Ou então foi um problema psicológico, a falta daquele "amigo" de todas as horas, que o ajudava a descontrair e a enfrentar o mundo... Tal como poderá ter acontecido com a Natália...).

E entretanto chegou o autocarro...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 19, 2023

A Memória e a Imaginação têm destas Coisas...


Já fomos uma dúzia (até causávamos algum transtorno no "nosso" restaurante Olivença, pela nossa mesa corrida que se estendia até mais de meio da sala...), agora somos dois, eu e o Chico.

O Mário e o Marinho, também vão aparecendo, mas cada vez mais, de longe a longe.

O curioso, é que todas as segundas-feiras, apareço com o mesmo entusiasmo e vontade de estar na nossa "Tertúlia", é como se o Chico trouxesse sempre alguns dos amigos que já nos deixaram para a mesa.

E é um pouco isso que acontece. Invariavelmente, por isto ou por aquilo, falamos sempre de pelo menos dois ou três amigos tertulianos. E recordamos-os sempre um sorriso no rosto, por uma ou outra passagem memorável, ou simplesmente pela amizade que nos unia e que fazia de cada encontro nosso um momento de alegria e saber. Sim, aprendíamos sempre qualquer coisa, mesmo sem darmos por isso...

Apesar do Chico ser muito mais religioso e místico que eu, sinto cada vez mais, que ele tem toda a razão. Às segundas, mesmo sem nos apercebermos, estamos sempre bem acompanhados. 

A memória e a imaginação têm destas coisas, que se vivem, mas que não se explicam... 

(Fotografia de João Miguel - Almada)


segunda-feira, novembro 21, 2022

A Memória do Chico Fixada nas Toalhas de Papel...


Chegámos a ser uma dúzia à mesa, às segundas feiras, na nossa "Tertúlia do Bacalhau com Grão", agora somos apenas dois, invariavelmente (quando o Mário, o Marinho ou o Luís aparecem é uma festa...).

O curioso, é que nunca nos falta assunto à mesa. O Chico repete-se muitas vezes, quando fala da nossa Incrível e da sua rua José de Mascarenhas ou das imediações (a Capitão Leitão, a Heliodoro Salgado ou a travessa Henriques Nogueira...), mas há sempre algo de novo que fica.

Por causa da sua "memória de elefante" (e também das do Orlando e do Jaiminho...). tenho bem muito mais que duas de dezenas de pedaços de toalhas de papel, dobradas no interior do meu caderno de capa verde (que está cada vez mais gordo...). 

Embora não tenha voltado a abrir grande parte destes registos avulsos, não resisto em pegar na esferográfica e fixar nas folhas de papel simples - que conta quase sempre a companhia de uma ou outra nódoa, de azeite ou de vinho tinto -, os nomes e acontecimentos que me ficam na retina, durante as nossas conversas. 

Foi o que voltou a acontecer hoje, quando viajámos pelos teatros da vida do Chico (até passámos pelo desaparecido "Clube José Avelino"...). Desta vez não ficámos por Almada, atravessámos o rio, para visitar de fugida o Paiva, que tinha um armazém (talvez ateliê seja mais apropriado...) no interior do Parque Mayer, onde era possível alugar todo o género de vestidos e outras roupagens, sem esquecer ou ou outro acessório indispensável, para oferecer um outro brilho às revistas e peças de teatro Incríveis...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, agosto 22, 2022

«Parece que nem todos temos memória»



Enquanto almoçávamos, ouvimos alguém a queixar-se do barulho que um grupo fazia numa das mesas próximas. Foi o suficiente para recordarmos que aquela mesa onde agora estávamos dois, chegou a ter mais de dez. E alguns tinham uma costela italiana, era por isso que além de se falar alto, também se conversava com os braços, as mãos e algumas partes do rosto. O normal era existirem duas, três conversas cruzadas, misturadas com gargalhadas de contentamento daquele convívio tertuliano comensal...

Há sempre alguma coisa que faz com que o Chico se recorde dos tempos da meninice e começo da idade adulta... E lá aparece uma história, quase sempre com a Incrível como pano de fundo...

Ele sabe que eu gosto de ouvir as suas histórias, da mesma forma que há quem fique incomodado quando ele viaja pelo passado.

Nada que o preocupe. Foi por isso que ele disse a sorrir: «Parece que nem todos temos memória.»

(Fotografia de Luís Eme - Almada) 


terça-feira, maio 03, 2022

Crescer num Mundo com "Escolas" para Raparigas e "Escolas" para Rapazes...


Embora nunca me tenha sentido completamente confortável no mundo "onde os homens não choravam", foi assim que cresci e fui aprendendo a ser homem (por vezes erradamente, mas a vida era isso...).

A presença de um casal amigo (uma agradável surpresa...) na nossa "tertúlia" das segundas, ajudou-nos a viajar no tempo e no espaço, trazendo para a mesa muitas das nossas tradições e também a nossa gastronomia, num mundo tão diferente do dos nossos dias...

De repente, voltei à infância. Lembrei-me de coisas, como a "matança do porco", onde com apenas cinco, seis anos, comecei a assistir a todo aquele "espectáculo", inclusive à gritaria do animal que adivinhava o seu destino (aprendia a esconder o arrepio que me invadia o corpo, provocado por aqueles guinchos). De ano para ano, custava menos, com menos de dez anos devo ter tido a "permissão" para segurar uma das patas... quase num ritual de masculinidade.

Também me lembrei das touradas, que hoje olho como um espectáculo bárbaro (não faço manifestações, acredito que elas morrerão de "morte natural"). Visitei várias vezes a praça de touros das Caldas de mão dada com o avô (um verdadeiro aficionado...), desde os sete, oito anos. Na altura não tinha idade para perceber o porquê de tudo aquilo, muito menos para o questionar. Mas estava longe de ser um espectáculo agradável... Deve ter sido por isso que desde a adolescência, nunca mais visitei qualquer praça...

Quando falámos da gastronomia, falámos desse mundo antigo, tão compartimentado, em que um homem que gostasse de cozinhar, corria o risco de ser olhado de lado, porque "a cozinha era das mulheres"... E de como tudo é diferente, de como hoje podemos ser quase tudo, sem merecermos qualquer reparo.

Claro que a educação conta muito nestas coisas das igualdades... Por sermos dois rapazes, a mãe sempre nos habituou a fazer pequenas tarefas (lavávamos louça, estendíamos roupa... "tarefa proibida", por exemplo, para os homens no mundo da minha sogra, que uma vez fez quase um escândalo, quando a quis ajudar a estender roupa no quintal.

Ainda bem que o "mundo" em que os meninos se vestiam de azul e as meninas cor de rosa, quase que já não existe...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


segunda-feira, janeiro 31, 2022

Cafés (apenas) com História...


Ao ler uma reportagem sobre os cafés com história de Paris,  recuei no tempo e recordei alguns cafés e vários companheiros de "tertúlias"...

Saint-Germain-des-Près era o lugar mais apetecido do pós-guerra, com um histórico único no mundo, tantas foram as personalidades artísticas que por ali passaram.

Embora hoje tente alimentar o charme de outros tempos (mais para turista ver...), não acredito que os seus donos sintam saudades do tempo em que tinham as mesas cheias de artistas, que procuravam consumir o mínimo e passar ali o máximo de tempo possível.

Talvez o nosso sitio mais parecido com Saint-Germain-des-Près, seja o Chiado, que hoje também atrai sobretudo turistas. Muitos vão à procura do Fernando Pessoa de bronze, sempre fotogénico...

Os tempos de hoje não são propícios à existência de tertúlias. Ainda existem muitos artistas, mas parece que falam cada vez menos uns com os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 20, 2021

Os Bairros, as Pessoas e o Homem do Cachimbo


Não estou a escrever sobre o Homem do Cachimbo por ser sábado, o dia em que nos encontrávamos no café e dávamos vida à nossa Tertúlia das culturas (só faltava mesmo a da "batata"...). Foi na quarta-feira quando nos cruzámos mais uma vez, enquanto eu descia e ele subia a Rua Emília Pomar (essa mesma a tia do Pintor de Lisboa e do Mundo), que pensei em escrever sobre as andanças humanas. 

Trocámos um cumprimento e um sorriso, coisa recente, apesar de termos um historial de encontros e cruzamentos  com provavelmente mais de trinta anos, contando com o tempo em que éramos completamente invisíveis um para o outro. Sim, falámos pela primeira vez já nos tempos estranhos da pandemia, quando numa manhã lhe perguntei pelo cachimbo.

Olhou-me com surpresa e com um sorriso enquanto parava e pousava no chão o saco de compras. Depois pôs a mão no bolso e tirou o seu companheiro de tantas aventuras e mostrou-mo com orgulho. A partir daqui sempre que passamos um pelo outro, cumprimentamo-nos e trocamos um sorriso.

Reparei que envelheceu muito durante a pandemia. Perdeu peso e passou a andar com o apoio de uma bengala. Até eu ganhei cabelos brancos, rugas (e até algumas nuvens dentro de mim...), quanto mais as pessoas de idade, que eram apontadas como o principal alvo da covid 19.

Comecei a reparar nele na nossa esplanada. Sentava-se numa mesa da ponta e ficava por ali sozinho. Fingia que não nos via e ouvia, embora sorri-se de vez em quando (talvez devido às nossas "certezas" e ao nosso  gosto de falarmos "à italiana"), enquanto perfumava as nossas mesas com o seu cachimbo.

Pois é, como diria o bom do poeta Gomes Ferreira, isto da vizinhança tem muito que se lhe diga. Somos de tal forma estranhos, que até somos capazes de passar quase rente a algumas pessoas, durante trinta ou quarenta anos, sem nunca trocarmos sequer um bom dia ou boa tarde, mesmo que sejamos do mesmo bairro (uma denominação que já não se usa nas cidades, vá-se lá saber porquê)...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, setembro 19, 2019

A Importância das Tertúlias e dos Cafés...


Hoje tudo mudou. Fala-se menos cara a cara, há mesmo quem deteste estar próximo das mesas animadas dos cafés, onde ainda se fala alto e se gesticula (adoro este "parlar à italiana"...).

Das três "tertúlias" que frequentava, só uma continua activa. Isso acontece por que os anos levam alguns bons animadores, outros são forçados a mudar de cidade (outras até de país, como foi o Gui...), devido às contingências da vida...

Falo sobre as minhas "tertúlias" de Almada no meu caderno "25" e na respectiva exposição.

Até aproveito duas frases que esboçam muito bem a importância e o porquê das "tertúlias" nos cafés:

«A ideia do café é latina, ligada às discussões intelectuais e a uma certa classe média pobre que, em vez de convidar pessoas para as suas casas modestas, ia para os cafés. Onde havia tertúlias, algumas revolucionárias.» (Maria Filomena Mónica, socióloga)

«Passávamos todos a vida no café, que é uma espécie de Universidade ambulante, um espaço muito importante no desenvolvimento cultural de um país.» (Eugénio Granell, pintor)

(Fotografia de Luís Eme - Viseu)