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segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 08, 2024

Um oito de Março que continua a ser necessário...


Nunca pensei que o 8 de Março durasse tanto tempo, e que continuasse a ser tão necessário. 

De uma forma, ingénua (eu sei), pensei que seria possível em pouco mais de uma década, chegarmos à igualdade plena, de direitos e deveres, entre as mulheres e os homens.

Infelizmente a forma como a nossa sociedade aceita estas "desigualdades" (com muitas mulheres a serem as maiores inimigas das outras mulheres...), às vezes quase de mãos nos bolsos, faz com que se perceba que talvez se tenha de fazer mesmo, uma revolução (não se vai lá, com toda a certeza, com a oferta de flores ao dia oito do costume...).

Poderia falar de vários sintomas desta desigualdade, mas vou-me focar em apenas dois, que na minha opinião, são dos mais graves.

Começo pela diferença de ordenados para as mesmas funções, que continua a ser uma realidade no nosso complexo mundo laboral. Será muito difícil de eliminar (pelo menos no sector privado), enquanto o capitalismo reinar, de uma forma cada vez mais "selvagem", com a conivência dos governos, que se fingem democráticos e igualitários.

Mas o maior dos flagelos continua a ser a violência, que é exercida no próprio lar, por todos aqueles que se acham "donos" das mulheres que um dia desposaram. É uma vergonha para todos os homens, o número de mulheres que continuam a ser vitimas de violência doméstica no nosso país (muitas perdem a vida...). 

Isso explica muita coisa. Até o crescimento da extrema-direita...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 29, 2022

Um País com um Tempo Próprio... que se chama Depois...


Apesar da rapidez com o mundo se aproximou de nós, através da visualização dos múltiplos écrans que se ocupam de nós, diariamente, há coisas que não mudam, como o nosso tempo, que continua a ser muito próprio.

É por isso que só agora é que está a surgir com mais alarido o "metoo#" entre nós. E não surge por acaso,  no interior das universidades, onde milhares de jovens vivem pela primeira vez, longe dos pais, entregues a si próprios.

Além de tempos de descobertas, são também tempos de fragilidades, dos primeiros enganos, das primeiras grandes ilusões (e desilusões) amorosas... onde quase tudo parece ser possível, como nos filmes.

As meninas inocentes e giras sempre foram os principais alvos de alunos batidos e também de professores com alma de "dom juan". Muitas viviam primeiros amores com sexo à mistura e fingiam não perceber que uma boa parte das promessas de amor não passavam disso mesmo, de promessas (claro que também há sempre um grupo de alunas, tudo menos inocentes, que sabem que também é possível subir notas, em "sessões de estudo" mais viradas para anatomia, mas pertencem a outro "filme"...).

Isto vai ao encontro de uma realidade que sempre me fez confusão, mas que faz da natureza humana: a atracção que as mulheres têm por patifes. Mas não era disso que eu queria falar, era apenas de sermos um país com um tempo próprio, que se chama depois...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, janeiro 01, 2022

"A Criança e a Vida"


Por saber que a maior parte dos livros que temos, acabarão por ter a má sorte de não serem lidos, às vezes apenas por terem o selo de "esquecidos". Podem passar anos e anos numa estante (se tiverem pior sorte, podem ficar mais escondidos, dentro numa caixa de papelão guardada no sótão ou na garagem...), foi por isso que fiquei extremamente feliz por uma colectânea que deu muito que falar, ainda antes de Abril (a primeira edição até acabou por ser apreendida...), me ter feito um sinal.

Falo de "A Criança e a Vida", uma colectânea organizada por Maria Rosa Colaço e escrita pelos seus alunos da escola primária onde começou a dar aulas, em Cacilhas.

No seu texto de apresentação ela explica muito bem como foi o seu primeiro dia de aulas: 

«O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia: esculpidos em vento e mar.
Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro de lata, de sabe Deus donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros - não sei porquê mas traziam - folhas de plátano douradas. O Outono perfumava-lhes os cabelos.
Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.
Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua-apoio que o director me oferecera e dei-a ao que me pareceu mais velho: "Toma! Vai atirar fora." E depois... não o que lhe disse. Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto. E foi assim que ficamos solidários e Amigos-para-sempre.
Aprendi então que a verdade é uma palavra essencial.
E a lealdade também.»

Sei que o conteúdo do livro pode ter sido "amenizado" pela professora, mas não deixa de ser um documento histórico, que foi traduzido e editado em dezenas de países. E inédito, uma professora dar voz aos alunos em plena ditadura, tem muito que se lhe diga... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, abril 23, 2021

«Porque é que os portugueses lêem pouco?»


Hoje é dia de festejar os livros e até algum escritor, que esteja à mão, para o "trabalho político" do costume (as eleições estão quase à porta e a malta da cultura dá jeito para "decorar o ramalhete"...): tirar fotografias, oferecer um almoço ou atribuir uma medalha qualquer.

Quem gosta de discursos e de frases feitas, coloca qualquer coisa bonita na sua rede social preferida. Os jornais e a televisão têm de reserva meia página e alguns minutos, para fazerem - todos - a pergunta do costume: «Porque é que os portugueses lêem pouco?»

Porque será? Se há coisa que se estimula no nosso país, é a leitura, especialmente de livros... tão baratos e acessíveis. Na pandemia, se houve coisa que esteve aberta foram as livrarias... por serem lugares de grandes ajuntamentos de pessoas.

Falando mais a sério, é triste viver num país que nunca deu aos livros a importância que eles têm. 

Apesar de vivermos em democracia há quase meio século, desconfio que ainda há por aí muita gente que tem medo do que está dentro dos livros, das palavras que podem ficar na cabeça das pessoas e fazê-las pensar em "coisas perigosas".

Para não ser "desmancha-prazeres", vou terminar com um aplauso para as bibliotecas municipais, que um pouco por todo o país, disponibilizaram livros para quem gosta de ler, fazendo entregas ao domicílio, sem qualquer custo.

(Fotografia de Luís Eme - Uma mulher apanhada ontem a ler no jardim da Fonte da Pipa)


sábado, fevereiro 13, 2021

A Sabedoria do Meu Avô, "Doutor", sem Diploma...


As pessoas que não gostam muito de ouvir falar da "universidade da vida", normalmente acrescentam uma palavra antes do seu primeiro nome e enchem quase sempre o peito de ar, quando escutam um "doutor" ou "engenheiro", que se desloca na sua direcção. 

Fingem esquecer-se que a escola é demasiado limitada e limitativa (especialmente a universidade...), em relação ao mundo das pessoas e das coisas, que nos espera do lado de fora da porta e da janela.

Embora tenha andado na universidade, sei que aprendi coisas muito mais utéis, na outra "universidade", porque tive a sorte de ter melhores professores.

É por isso que não tenho qualquer problema em dizer: se não fosse a "universidade da vida", o que seria de nós?

Eu sei que fui um estudante ligeiramente distraído (ou azarado...), porque os bons professores que conheci nos vários patamares de ensino contam-se pelos dedos das minhas mãos. E nenhum foi capaz de me ensinar coisas tão duradouras como o meu avô materno, que era impossível ser analfabeto, pois foi um dos melhores professores que conheci pela minha vida fora.

Continuo a pensar que a escola é demasiado fechada (e rígida) para os próprios professores, que muitas vezes se sentem perdidos nas salas e nos corredores. Digo isto porque sou amigo de vários mestres do ensino, com quem é sempre um prazer partilhar saberes, que tanto podem vir de dentro como fora dos livros, num ambiente de amizade e cumplicidade.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, dezembro 05, 2020

Uma (boa) Conversa com Livros na Escola...


Ainda antes da pandemia, participei numa conversa sobre livros e sobre ficções, num intervalo de uma aula de geografia do décimo ano. Os alunos tinham feito trabalhos de grupo sobre a importância do livro, em toda a sua abrangência, como documento, como romance, como auxiliar (livros de autoajuda, mas também de culinária ou atlas, mais ligados à disciplina...) e também como divertimento.

A professora fez uma espécie de ciclo, com vários convidados, que falaram da tal diversidade que se encontra dentro dos livros. Eu fui convidado para falar de ficção. 

Provocadora, a professora quis saber o que eu pensava sobre o possibilidade de o romance ter os seus dias contados. Eu abanei os ombros e disse que normalmente as coisas não acabam de "morte matada", o que provocou gargalhada geral. Depois expliquei que coisas como os romances não acabam por decreto, poderão continuar a existir mais de um século, porque dificilmente acabarão os contadores de histórias e os leitores, por esse mundo fora. Provavelmente, cada vez serão menos... mas haverá sempre alguém, capaz de "devorar" com gosto uma boa história.

Uma das questões mais curiosas e corajosas, foi colocada por um rapaz, que não teve qualquer problema em assumir à frente da sua professora,  que nunca tinha lido um livro só com palavras, da primeira à última página. Ele perguntou-me, sem qualquer "curva", qual era a verdadeira importância dos romances nas nossas vidas. Expliquei-lhe que continuavam a existir muitas vantagens nos romances, a melhor  era a possibilidade de viajarmos no tempo e no espaço, ao mesmo tempo que nos conhecíamos melhor uns aos outros com os múltiplos exemplos de vidas, impressos nos livros (também falei de diversão e prazer, há muitos livros que nos deixam felizes...). E de forma provocatória, acabei a falar do enriquecimento do nosso vocabulário, da descoberta de palavras novas, coisa que falta muito aos jovens, oferecendo como exemplo os meus filhos, que me perguntam muitas vezes qual é o significado de algumas palavras, que não fazem parte do seu dia a dia.

Achei estranho alguém chegar ao décimo ano, sem nunca ter lido um "livro só com palavras", do princípio ao fim. Foi por isso que no final, já no corredor, lhe perguntei, particularmente, se ele não tinha tido leituras obrigatórias na disciplina de Português. Disse-me que sim, mas que se socorrera dos resumos das respectivas obras, para fazer trabalhos.

Pois é, a quantidade de informação que gira à nossa volta, banaliza tudo, até aquilo que ainda se considera como o verdadeiro conhecimento...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, abril 20, 2020

A (não) Valorização das Palavras Escritas...


Se o jornalismo, como profissão, nunca foi muito valorizado no nosso país (já foi sim, moda... mas era mais o televisivo, antes de alimentarem essa coisa deliciosa que é a "fama instantânea", em que o único talento que se exige é estar à vontade à frente das câmaras e ter lata para "aparecer" em todos os momentos), nem sei que dizer da literatura...

Ser escritor no nosso país, sempre foi tudo, menos uma profissão. A principal razão para que isso acontecesse (e continue a acontecer...), é o facto de sermos um país pequeno e com poucos leitores. Ou seja, com muito pouco "espaço" para gente que se queira dedicar à literatura a tempo inteiro.

Mesmo nos nossos dias, devem contar-se pelos dedos de uma mão, os escritores que não fazem mais nada, a não ser escrever livros. Sei que há alguns que "fingem" ser profissionais, mas vêem-se forçados a escrever crónicas todas as semanas, para jornais e revistas, para ganharem uns trocos suficientes para a "sopa".

Penso que a grande culpa é dos escritores com outras ocupações (quase todos...). Como não dependem economicamente dos livros que escrevem, têm dificuldades em encarar a literatura como profissão, é por isso que visitam escolas, sem cobrar um cêntimo, mesmo que além do tempo que oferecem, finjam esquecer os trocos gastos em transportes ou alimentação.

Embora quem os convide, também nunca está à espera que peçam "cachet"...

Sei que a profissão de escritor não  tem a "urgência" de um canalizador, eletricista, mecânico ou pedreiro, mas podia (e devia), merecer um outro olhar da sociedade.

Da mesma sociedade que é capaz de pagar aos tais "famosos", que não têm nada que os distinga socialmente - a não ser aparecerem na televisão e nas revistas -, pelas suas ditas "aparições"...

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)

domingo, novembro 10, 2019

«Em que vos posso ser útil?»


Tirei este título, "Em que vos posso ser útil?", de um artigo de 2006, que se reporta à visita de Luís Miguel Cintra, à reitoria da Universidade de Letras de Lisboa, no âmbito do Fatal (Festival Anual de Teatro Académico), que não sei se ainda se faz (a "troika" conseguiu acabar com demasiados festivais de teatro e cinema de Norte a Sul)...

Pensei nele porque há dias cruzei-me com uma professora amiga que me desafiou para visitar a sua escola e ir falar sobre fotografia aos alunos, eu que finjo que não sou "fotógrafo" (e não sou, sempre que posso fujo da técnica, dos truques e segredos, refugiando-me apenas no que os meus olhos querem ver e descobrir...), porque pertenço mais ao mundo das palavras. 

Mas depois pensei que podia falar das duas coisas, de fotografia e de palavras (palavras de grandes fotógrafos...), puxando pela criatividade e pelo pensamento autónomo dos alunos, que como se diz por aí, eles usam menos do que deviam, porque a coisa mais fácil sempre foi seguir o "rebanho", especialmente na adolescência.

Mas não se pense que são apenas os jovens que evitam pensar pela sua cabeça, os adultos gostam de fazer o mesmo. Como de costume, a descoberta do bebé por um "sem-abrigo", filho de uma jovem "sem-abrigo", deu espaço para todos os disparates (o "facebook", pelo que me contam, continua a ser rei e senhor da "ignorância", da "esperteza saloia", e pior de tudo, do "insulto fácil", mas isso são outros "quinhentinhos"...).

Desde a "estátua" que querem erguer ao "sem-abrigo" (desconfio que ele agradecia mais um quarto e uma mesada...) ao linchamento público que querem fazer à "rameira" e "drogada" (só falta fazerem o que ainda se faz pelo Oriente, acabarem com a sua vida à "pedrada"...).

Tudo isto para dizer, que faz tanta falta neste país (e no Mundo...), as pessoas pensarem pela sua cabeça. Um bocado de cepticismo num fez mal nenhum ao mundo... E isso tem de começar nas escolas, os jovens têm de ser educados a pensar pela sua cabeça, a não a acreditar às primeiras, em tudo o que lêem...

Sei que falar disto na escola, é mais importante que falar de fotografia ou de livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, outubro 12, 2019

A Paternidade do Acordo Ortográfico


Hoje o "Expresso" dá voz aos pais do acordo ortográfico, com Malaca Casteleiro, sua eminência parda, a dizer algo como:

«Não se pode voltar atrás, iríamos atraiçoar as novas gerações. Não é possível nem honesto nem justo», quando foi questionado sobre a possibilidade de uma eventual revogação do documento.

Eu diria, que a sua implementação escolar (as "criancinhas" das escolas continuam a ser o argumento mais utilizado na sua defesa, não a sua qualidade...) é que não foi honesta, nem justa. Embora tenha sido estrategicamente bem delineada...

Tudo isto é demasiado sério para se cair na tentação de recorrer ao humor de Ricardo Araújo Pereira, mas quando os "pais do acordo" se chamam Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, é difícil fugir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, abril 26, 2019

Dia 26 Continua Abril em Almada...


As escolas do Concelho nos últimos anos têm comemorado o 25 de Abril com arte e engenho, através de uma exposição artística colectiva, patente na Oficina de Cultura de Almada.


Eu passei por lá hoje, e como de costume, gostei do que vi...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)