Estava numa daquelas paragens em que passa um autocarro por hora, quando se aproximou um homem que vinha agarrado a um cigarro. Ficou a dois três metros de mim, mantendo a "distância humana" que nos ficou da pandemia.
Também estava ao lado da paragem, onde o respectivo banco estava ocupado por três mulheres maduras que conversavam, provavelmente sobre os nadas da nossas vidas. Também mantive a tal distância.
Sei que quando cheguei disse bom dia e que ninguém respondeu ao cumprimento. E aquele subúrbio até tinha qualquer coisa de aldeia... Talvez não tivesse um bom ar (não me apeteceu fazer a barba nessa manhã...).
Nada de preocupante. Sabia que as pessoas nunca economizaram tanto as palavras como hoje...
Entretanto o cheiro do cigarro foi-se aproximando e não foi a melhor coisa do mundo, provavelmente por falta de hábito. Foi quando me lembrei da primeira "tertúlia" a que pertenci em Almada, do Victor, que fumava muito, mas que não me incomodava nada como fumador. Era como se ele engolisse todo aquele fumo que se torna desagradável e só nos deixasse aquele cheiro, que a par do café, eram "perfumes" destas casas onde as pessoas se encontravam para conversar...
(Na semana passada também me lembrei do Victor, porque ele deixou-nos vitima da mesma doença da Natália Correia. Deixou de fumar de repente e o organismo não aguentou a falta daquele fumo que lhe pintara os pulmões de negro... Ou então foi um problema psicológico, a falta daquele "amigo" de todas as horas, que o ajudava a descontrair e a enfrentar o mundo... Tal como poderá ter acontecido com a Natália...).
E entretanto chegou o autocarro...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)