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quarta-feira, junho 24, 2026

Nunca tinha pensado nisso, mas basta olharmos para o mundo, com olhos de ver...


Estava quase a chegar a casa, quando me cruzei com uma vizinha (daqueles com quem nunca trocámos qualquer palavras, nem mesmo um simples bom dia ou boa tarde...).

Ela falava com o seu pequeno cão (quase de bolso), como se fosse uma pessoa. Depois de lhe dar uma reprimenda quase a brincar, fez-lhe uma festa.

Estou farto de ouvir falar da "transferência familiar", dos animais que são tratados como filhos pelos seus donos, quase sempre com mil cuidados. Além das conversas diárias, como a que assisti, vivem no interior das casas, são regulares visitas ao veterinário, e os seus "pais" até os costumam "vestir", especialmente no tempo frio.

Mas desta vez pensei na "transferência de afectos"... Nunca vi esta senhora com um homem ou com uma criança. A sua solidão é igual à de milhares de pessoas, especialmente mulheres, que marcadas por más experiência de amor (nós homens somos bons como "bestas humanas"...), dentro e fora da família  nunca mais nos dão qualquer possibilidade de aproximação, pelo menos intima e afectiva.

Nem se trata de uma "solidão invisível", como por vezes se gosta de dizer. Ela é bem visível, está bem presente aos olhos de todos...

Basta olharmos para o mundo que existe à nossa volta.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, junho 12, 2026

Nem à sombra se está bem em Almada (quanto mais na Amareleja)...


A meio da tarde, um dos meus vizinhos disse, com alguma graça, quando se cruzou comigo há entrada do nosso bairro: «Se Almada está assim, nem quero imaginar como está Beja. Eu não fui de modas e respondi-lhe, «E da Amareleja, nem é bom falar.»

Continuámos a sorrir os dois sem perder o nosso andamento, calmo, quase de alentejanos, em direcções opostas.

Antes tinha estado numa mesa mais intelectualizada, onde se falou de cinema e de sondagens fabricadas, a quererem arrumar de vez com o mundo dos filmes, com gente com pouca vontade de sorrir.

Não percebi muito o porquê daquele "coro de indignações", pois praticamente desde que me conheço que sei qual é a fórmula para as sondagens, nos darem os resultados pretendidos. O partido mais populista e a televisão mais popular são bons nisso. Esqueci-me de lhes dar estes exemplos.

Continua a ser difícil é dizerem que está a cair neve na Amareleja, de resto vale quase tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)


domingo, novembro 09, 2025

Necessidades, oportunismos e "passa culpas"...


Estava a ler a notícia sobre o "passa culpa" entre a Câmara de Almada e o IHRU, tutelado pelo Governo sobre os bairros clandestinos do Concelho e percebi a mensagem de ambos.

Como de costume, sei que não irão fazer coisa nenhuma, a não ser que aconteça algo de grave, uma morte ou um acidente que coloque os vários poderes em causa. 

Se isso acontecer, a GNR ou a PSP serão enviadas de imeadiato para o local, tal como as máquinas para deitar abaixo algumas das barracas, que entretanto podem começar a ser construídas nas "terras de alguém" (até agora segundo se diz estes bairros estão eregidos em "terra de ninguém")...

Claro que este crescimento dos bairros da Penajóia, Raposo e companhia, deve-se a dois factores, que dificilmente se conseguem separar: os vários oportunismos de quem se habituou a "viver do nada" e dos "rendimentos mínimos" (até há quem já se dedique a "alugar barracas"...) e a necessidade de muitas famílias, que apesar de trabalharem, não conseguem ter dinheiro suficiente para alimentar o agregado familiar e alugar uma casa com condições mínimas de habitabilidade.

Nota: Texto publicado inicialmente no "Casario do Ginjal".

(Fotografia de Luís Eme - Feijó)


quinta-feira, setembro 11, 2025

Os bairros não são as aldeias que pensamos (e sonhamos)...


Os bairros não são as aldeias que pensamos.

O bom dia e boa tarde, muitas vezes são enganos. Cumprimentamo-nos mais por empatia e hábito, que por outra coisa. Se pensarmos um pouco, não sabemos quase nada (ou mesmo nada...), destas pessoas com quem nos cruzamos diariamente.

Quem sabe muitas coisas é o ainda jovem merceeiro do bairro, que de vez em quanto fala-me que fulano é filho de sicrano, por me ter cruzado com alguém que me olha como se me conhecesse, sem que saiba alguma coisa da sua vidinha.

Quando nos deixamos de cruzar com estas pessoas, se já tiverem alguma idade, percebemos que desapareceram de circulação. Aconteceu com uma das personagens mais divertidas da rua de baixo, um antigo canalizador que adorava contar anedotas, de todos os géneros. Vivia sozinho e depois de uma queda em casa, os filhos colocaram-no num lar. Esteve lá apenas um mês...

Soube disto na mercearia, que graças à simpatia do dono, vai resistindo ao tempo e às pequenas e médias superfícies que se instalam por todo o lado. 

Ela é quase uma "âncora", onde as pessoas ainda se encontram para falar e saber novidades da vizinhança, mesmo que apenas comprem um pacote de arroz ou o pão para o lanche. Felizmente faz-nos navegar no engano e pensar que os bairros ainda são as aldeias dos nossos imaginários...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, junho 19, 2025

Talvez sim, talvez não...


Foi a terceira pessoa que se referiu ao senhor António como um antigo informador da PIDE.

Nunca levei esta informação a sério, mas à terceira, quase que foi de vez. Quem me relatou este facto foi um amigo, que trabalhou no mesmo lugar que o meu vizinho do prédio da frente.

Fiquei a pensar, até na sua excessiva simpatia. Não se podia falar de uma coisa normal, pelo menos nestes tempos. Mas porque não? Há pessoas assim, no mundo delas não há "gregos nem troianos", apenas pessoas...

E há pessoas que gostam de saber coisas dos outros, são curiosas por natureza.

De repente estava a desculpá-lo. Mesmo se fosse verdade, podia ter sido alguém da PIDE que lhe "dera a volta" e ele podia pensar que ser informador da polícia secreta era um "desígnio nacional".

Mas depois analisei mais cuidadosamente o seu perfil, quase "de mulher". Sim, embora possa existir aqui algum resquício do velho machismo, são normalmente as mulheres que falam com as outras mulheres, a partilharem novidades, para serem as pessoas mais bem informadas da rua e do bairro. Havia ali curiosidade a mais...

Mesmo assim acabei por banalizar a questão, por a "ignorância sempre ter sido atrevida".

Felizmente continuamos a viver em liberdade, sem "secretas". E por outro lado, esta sua imagem de "boa pessoa", pode ser ele a querer redimir-se dos erros do passado, se foi mesmo "bufo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, junho 17, 2025

O cumprimento diário que não custa nada e sabe bem...


A maior parte das pessoas que cumprimento com um bom dia ou uma boa tarde, são vizinhos e vizinhas, já com alguma idade.

Faço-o com satisfação, por notar que ficam agradados, apenas com este simples cumprimento diário. É algo que não custa nada e que também torna o nosso dia mais solar...

Pensei nisto depois de ler uma notícia sobre o óbvio, que onde se morre mais de solidão, é nas grandes cidades. 

Sim, o barulho dos outros, mesmo nos nossos prédios, não passa de ilusão, é quase igual às buzinas e aos motores dos carros das ruas...

Nas aldeias pode-se viver em silêncio, mas conhece-se toda a gente, sabe-se onde está o outro. E quando se dá pela sua falta, corre-se à sua procura...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, maio 08, 2025

Quase toda a vida dentro de uma mala...


Há pessoas que nos habituamos a cumprimentar, diariamente, apenas porque nos cruzamos quase todos os dias nos nossos bairros. Não sabemos nada delas, nem temos grande curiosidade em saber mais coisas...

Era o que acontecia com o homem que costumava estar à janela a fumar, com quem compartilhava o vulgar bom dia e boa tarde, sem qualquer sinal de fardo.

Um dia vi os bombeiros à volta da casa... E claro, na mercearia do bairro vim a saber que o senhor era um "acumulador" e que fora levado para um lugar qualquer, enquanto despejavam e limpavam a sua habitação. Depois fizeram obras e hoje tem novos inquilinos...

Meses depois vi-o, na paragem do metro, cumprimentámo-nos, como de costume, apenas com um boa tarde. Estava mais magro e vestia de negro. Fiquei a pensar que podia ter trocado duas ou três palavras com ele, mas. Pois, há sempre um mas...

Há uns tempos comecei a ver um homem, que anda sempre com boné e barba crescida, com bengala e uma mala de viagem, sentado em bancos públicos ou nos da estação do metro da Gil Vicente, onde pernoitava. Não o achei familiar (está ainda mais magro e a barba crescida também o transfigura...).

Foi a minha companheira que me disse quem era o senhor. A princípio não acreditei, mas uma amiga comum, que trabalha numa pastelaria, oferece-lhe diariamente o pequeno-almoço. Hoje olhei-o com mais atenção, e sim, é ele...

As nossas vidas estão longe de serem lineares. Por isto ou por aquilo, há quem escolha "não ter família", apagando todos os laços que existem. É possível que não ande assim tão longe da realidade deste homem, que agora, guarda quase toda a vida dentro de uma mala, que nunca larga...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 03, 2025

Uma visão e uma memória, dentro e fora de um bairro antigo...


Estava a passar por uma ruela estreita, com roupas estendidas em quase todas as varandas, quando comecei a ouvir uma voz feminina, que cantava um fado. Ainda olhei para cima para ver se a voz tinha dona, mas não descobri ninguém. 

Por alguns instantes, fiquei deliciado com aquele retrato de uma Lisboa antiga, e pus-me a imaginar uma cidade que já não existe...

Foi quando me cruzei com dois casais de gente de fora, que anda de calções num dia de Março com nuvens. Foi como se me dissessem, "acorda!"

E acordei, mas por pouco tempo.

De repente já não estava em Madragoa. Foi quando viajei pela minha meninice e ouvi a minha mãe a cantar, e o pai, com voz de desdém, a dizer que ela estava a adivinhar chuva. Não percebia quase nada da conversa mas gostava de ouvir a minha mãe a cantar, mesmo que ela fosse fiel à sabedoria popular, e acreditasse que "quem canta seus males espanta"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 28, 2024

«Nós, não somos bons. Somos muito bons, na arte de "enfiar a cabeça na areia"»


O Rui nunca escondeu a ninguém que cresceu no famoso "Bairro do Pica-Pau Amarelo". 

Felizmente, não foi uma coisa para todo o sempre. À distância de trinta e muitos anos, sente que não lhe fez mal nenhum conhecer gente tão diferente. Muito menos ter amigos de todas as cores.

Sentiu na pele, literalmente, desde muito cedo, que era um felizardo. Os suspeitos de qualquer coisa no bairro, tinham sempre a pele mais escura que ele.

Contou-me tudo isso, depois de ler o que escrevi aqui no blogue, sobre racismo. Mas foi ainda mais longe. Falou-me de outro problema, não menos problemático, o machismo reinante, a imensidão de homens bêbados que batiam quase diariamente nas mulheres, apenas porque sim. 

Acrescentou que essa foi a principal razão para a sua família sair do bairro. Os pais não suportavam a "normalidade" da violência doméstica naquele lugar. Se havia coisa que o seu pai se orgulhava, era de nunca ter levantado à mão à mãe. E acabou por ter problemas na vizinhança, por  ter "metido a colher entre homem e mulher", mais que uma vez...

Chocou-o ver o primeiro-ministro a falar de Portugal, como se fosse um autêntico paraíso, quase sem crimes, quase sem criminosos. E foi ainda mais longe, quando explicou que o número de mulheres que são mortas pelos companheiros ou ex-companheiros, os pretos que são presos e agredidos nas esquadras, culpados apenas de terem a pele mais escura, estão fora destas estatísticas.

Foi por isso que me disse: «Nós, não somos bons. Somos muito bons na arte de "enfiar a cabeça na areia".»

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

 

terça-feira, junho 25, 2024

Tentar pensar "dentro dos outros"...


O Cacilheiro ainda é "margem-sul", não tens pensamentos sobre o que te rodeia, como eu tive, hoje, no interior do Metro.

Andei atrás no tempo e recordei as minhas primeiras viagens a Lisboa, ainda adolescente, com o meu irmão (ele já devia ter mais de dezoito anos e eu apenas dezasseis e viemos à Capital provavelmente por causa da Universidade, em que ele se preparava para entrar...). Mesmo assim, só dava para sentir o "cheiro a novidade", todo aquele movimento e a quase indiferença das pessoas pelo que as rodeava. Não dava para descobrir muito mais, entre aquele viver e o da nossa cidade de província.

Só quando vim viver para Lisboa (Cruz Quebrada) é que senti mesmo na pele as grandes diferenças, a quase desumanização da sociedade, mais interessada em coisas de somenos, como conseguir "chegar a casa", ao fim de um dia de trabalho ou de estudo... Era uma cidade diferente, esta, do começo da década de oitenta do século passado, mais velha, mais cansada e sem capacidade para explorar o seu melhor (vivia-se de costas voltadas para o Tejo e para os bairros típicos, onde a degradação era demasiado visível, lugares que hoje são os seus melhores cartões de visita, mesmo que sejam só isso...).

Lá estou eu a mudar de assunto ou a ir longe de mais com as palavras...

O que eu pensei, ao olhar aquela gente, mesmo que muitos fossem de fora, era o que viam no buliço da cidade. Provavelmente, vêm coisas diferentes... Os que têm a pele mais escurecida, que chegam das índias, devem achar que em Lisboa é tudo mais calmo ,que nos seus países de origem, demasiado desorganizados e habitados, e também com mais poluição e pobreza... Os das europas não devem pensar muito. Gostam sobretudo do nosso "exotismo" (mesmo que esteja a desaparecer...), dos preços das coisas e da nossa simpatia (mesmo que seja hipócrita...). Ou seja, em quarenta anos, este Lisboa, não tem quase nada da que descobri no fim da adolescência.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, dezembro 16, 2023

Notícias e personagens do meu bairro...


Nunca sei bem o que se passa, ao certo, no meu bairro. Normalmente apanho as notícias a meio, já quase em deferido e também com os "aumentos do costume" (quem conta um conto acrescenta mesmo um ponto...).

O curioso é que há homens com alma de mulheres (e ainda bem, senão mais de metade das coisas que se passam, passavam-me ao lado...). Um deles é meu vizinho.

Uma tarde vi um carro de bombeiros parado numa das ruas que percorro diariamente. Estranhei aquilo, até por não ver qualquer sinal de incêndio ou de outro acidente qualquer. Só dois dias depois é que soube que estavam a pintar o prédio e que um dos moradores do rés de chão não deixou que entrassem no seu quintal para pintarem as paredes. Aquilo acabou por meter senhorio, polícia e bombeiros. Acabaram por arrombar a casa e descobriram que o homem era uma "acumulador" e que as divisões estavam cheias de "lixo".

Entretanto o senhor (com quem costumava trocar bom dia e boa tarde, quando ele estava à janela a fumar...) desapareceu dali e a casa ficou devoluta... Falta-me saber o que lhe aconteceu. Estou em falta, porque ainda não perguntei a nenhuma das pessoas bem informadas da minha rua, para onde o levaram.

Outra das "novas" passou-me completamente ao lado. Estava a falar no meio da rua com o meu vizinho, quando passou uma senhora por nós. Foi quando fiquei a saber que ela tinha corrido com o amante lá de casa, e que aquilo tinha metido polícia e tudo. Como ele não queria sair a bem, saiu a mal. A mulher chamou a polícia e ele teve mesmo de fazer as malas e pôr-se a milhas.

Perguntei-lhe como é que ele sabia todas aquelas coisas. Começou a sorrir e passou a "bola" a outra personagem cá do bairro, que diga-se de passagem, além de boa "fonte de informação" é um excelente contador de anedotas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, outubro 28, 2023

Ideias que saltitam no começo das manhãs de sábado (agora menos)...


Gostei de acordar e descobrir que andavam à minha volta, duas ou três ideias, à solta. Foi como se estivesse a viver um daqueles sábado à antiga, em que em vez de dormir até um pouco mais tarde, era acordado por uma ou outra história, que só descansavam quando ficavam registadas no pequeno bloco de mesa de cabeceira.

Como deixei de ter um bloco por perto, fico apenas com as ideias a cirandar na cabeça... 

E hoje gostei, particularmente, de pensar um projecto antigo de uma forma diferente  (sobre o clube e as pessoas do bairro da minha infância...). Foi como se alguém me dissesse ao ouvido, para fugir do rigor dos números e pensar mais nas pessoas, desde o seccionista, passando pelo treinador e acabando nos muitos companheiros de aventura...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, outubro 13, 2023

Bairros com pessoas "embrulhados em jornais"...


Raramente compro um jornal coisa que fazia mais que uma vez por semana, antes da pandemia.

O "ter de ficar fechado em casa" habituou-me ao digital e... Quando o mundo tentou voltar ao normal, ainda comprei um ou outro jornal, mas não era a mesma coisa. Até porque eles tinham diminuído de tamanho (alguns pareciam ter metade das páginas...).

Mas não é sobre jornais que quero falar, embora tenha comprado hoje o "Público" (aliás eu comprei o "Ípsilon", o jornal veio atrás...). Comprei este diário porque a capa do suplemento tinha como título, "Sara Correia, o fado dela é o povo, é do bairro".

Ao começar a ler a reportagem sobre a fadista, senti que ela estava ali a falar do seu novo disco e também a lutar contra o estigma social que está colado a Chelas, o bairro das suas raízes lisboetas.

Cresci num bairro e nunca senti qualquer estigma, mesmo que não fosse uma "zona chique" das Caldas. Aliás, as ruas eram conhecidas por números (eu morava na "Rua 26"...). Provavelmente por ser um bairro de uma cidade de província ou por ser o lugar onde tive os meus primeiros amigos e onde se vivia normalmente.

Mas os bairros não são todos iguais, muito menos as cidades...

Aliás, nas cidades grandes há o hábito de despejar as pessoas "menos interessantes" (para cantos onde também parece não haver "nada de interessante"... que são normalmente feios. Deve ter sido um engano do caraças a construção do Bairro do Picapau Amarelo na Margem Sul, com aquela vista para o Tejo, que até causou "inveja" à presidente do Município...).

É por isso que compreendo a Sara. 

Eu que durante muitos anos só conhecia a expressão "pareces o comboio de Chelas" (para designar algo feio e estranho, sim havia raparigas que, segundo os entendidos, as suas caras pareciam o "comboio de chelas", vá-se lá saber porquê...), sem saber sequer onde ficava este bairro lisboeta...

(Fotografia de Luís Eme - Monte da Caparica)


quarta-feira, setembro 27, 2023

De banalidade em banalidade...


Este é o tempo em que uma qualquer banalidade é tratada como se fosse a coisa mais importante do mundo. O mais curioso, é ela ser rapidamente ultrapassada por uma outra qualquer banalidade, e depois outra, mais outra, e por aí adiante.

Eu sei que as pessoas sempre gostaram de falar das "coisinhas pequeninas", como por exemplo, as vidinhas dos vizinhos. Como moro quase num bairro, ainda consigo encontrar vizinhas a conversarem, quando saio de casa, e depois quando regresso, uma hora ou duas depois, descubro-as no mesmo sítio... 

Mas noutros tempos havia mais recato, e até pudor, faziam-se todos esses "joguinhos", mas quase às escondidas. 

Hoje graças às redes sociais, faz-se tudo às claras. Um boato de qualquer rua, pode chegar em minutos à outra ponta do planeta. O pior de tudo, é que uma mentira, mesmo das de perna curta, pode passar por uma "verdade verdadinha", durante uma semana...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, maio 12, 2023

As Filas Intermináveis Aqui e Ali...


Ontem falei do turismo e da possibilidade de existir um "prazo de validade", nesta avalanche, que continua a ser bem recebida por quem enche os bolsos e olhada de lado, por quem viu piorar a sua qualidade de vida.

Já li em mais que uma reportagem, que um dos aspectos que mais chateia os nossos visitantes são as filas intermináveis para visitar alguns dos nossos monumentos mais característicos, ou ainda, para dar uma volta por Lisboa de eléctrico (faz-me sempre confusão ver o monte de gente que aguarda a chegada do "amarelo" na praça do Martim Moniz)...

E vai continuar a chatear, porque não vejo ninguém a preocupar-se muito com este pormenor, que para gente oriunda de países mais organizados que nós, é um "pormaior"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 18, 2022

Príncipe Real: o "Centro do Mundo" de Alexandre O'Neill


A biografia de Alexandre O'Neill escrita pela Maria Antónia Oliveira oferece-nos vários aspectos curiosos, um deles é a geografia humana e física do poeta, que nunca se afastou muito da zona do Príncipe Real, e que se estendia até ao Bairro Alto, Chiado, São Bento ou Rato. 

A Rua da Escola Politécnica continua a acolher o prédio azul que foi a última casa de O'Neill (2º andar do nº 48) e também as Pastelarias Cister e a Alsaciana (muito diferentes na actualidade...), lugares de tertúlia e encontros com alguns dos seus melhores amigos, que o acompanharam a vida toda.

Mas toda aquele "bairro" lhe foi familiar, viveu em várias casas desde a Calçada do Monte, passando pela Travessa da Palmeira, Rua do Jasmim ou Rua de São Marçal (a casa minúscula que chamavam o camarote dos Irmãos Marx...). Havia vários amigos que também viviam por ali, na Rua da Imprensa Nacional, na Calçada Engenheiro Miguel Pais, na Rua Monte Olivete, na Rua Luís Fernandes, Praça das Flores ou Rua Cecílio de Sousa.

E devia conhecer todas as tascas das redondezas, onde gostava de parar e conversar com a gente do povo que sempre admirou e usou em dezenas de poemas, crónicas do quotidiano e até na publicidade.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, junho 13, 2022

As Marchas, os Bairros e as Colectividades Lisboetas


Provavelmente o meu filho foi excessivamente sincero quando disse, ontem ao jantar, que não conseguia encontrar qualquer encanto nas marchas populares. Não suportava a falta de originalidade, que começava na música, praticamente igual há cinquenta anos, e sem grandes variações, de marcha para marcha.

A única coisa que tem mudado são os cenários e a coreografia. De ano para ano as roupas e os arcos das marchantes vão mudando de cor e de temática, assim como a forma como se apresentam.

Embora saiba que o meu filho tem razão, também sei que há coisas tão ou mais importantes, que o espectáculo na Avenida...

Sim, as marchas são hoje um dos principais incentivos para a sobrevivência de muitas das colectividades, que representam nestes dias festivos os bairros lisboetas. Estas participações, além de trazerem os jovens para o seu seio, animam os seus arraiais, que acabam por ser a principal fonte de receitas para as suas actividades do ano inteiro.

Normalmente nestes dia falo dos dois aniversariantes, os dois Fernandos e os dois Antónios, que continuam a ser tão importantes para Lisboa. Mas hoje apeteceu-me falar do Associativismo Popular Lisboeta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, junho 12, 2022

Parece que "Não há Bela sem Senão"...


Os acontecimentos de violência do Bairro do Cerco no Porto (ligados à claque do FC Porto...) fizeram com que fizéssemos alguns "jogos de diferenças" no café, entre a Capital do Norte e Lisboa.

Quem conhece - mesmo quase só de relance - o Porto, sabe que as portistas são muito diferentes dos lisboetas, Há uma proximidade muito grande as pessoas, que nem mesmo este turismo de massas (que incide sobretudo sobre as duas nossas cidades maiores...) tem conseguido esbater.

O Carlos disse o óbvio que nos sítios onde se vive com mais dificuldade, as pessoas são mais unidas e mais solidárias. E o Porto ainda tem muitos bairros pobres onde o "turismo não entra" (talvez só a Rua Escura tenha perdido "qualidades" por estar no centro histórico do Porto e ter um casticismo único, mantendo as velhas tascas, muito apreciadas por quem vem de fora e se calhar até prostitutas em vãos de escada, impossíveis de descobrir por exemplo no Bairro Alto...).

O Paulo disse que o Porto não cresceu para os lados como Lisboa, nem nunca empurrou os habitantes no centro da cidade para as zonas suburbanas (as mudanças aconteceram de forma natural e não forçadas como em Lisboa...). Mesmo agora, em que começou a ser moda comprar prédios velhos para instalar alojamentos locais, houve sempre mais resistência das pessoas em deixarem as suas casas, ao contrário do que aconteceu por exemplo em Alfama, Castelo, Graça ou Bairro Alto.

Dissemos muitas mais coisas, evitando falar da violência dos "macacos" e dos "orelhas"... Embora acabasse por surgir à mesa outra violência, que também não pode ser silenciada. Nem tudo o que ficou do século XX e que parece permanecer mais vivo nestes bairros é positivo. A existência de cafés que continuam a ser tabernas, faz com que se beba de mais, que se viva o futebol como se fizesse parte integrante das vidas destas gentes e também que se bata com mais frequência, do que noutros sítios, nas mulheres...

Pois é, parece que "não há bela sem senão", nas coisas pequenas e grandes da vida...

(Fotografia de Luís Eme - Porto)


sábado, junho 11, 2022

O Calor Humano, os Bairros e os Santos


Ao passarmos por qualquer arraial de bairro dos Santos Populares, percebemos o quanto os portugueses gostam do "calor humano" e das festas.

Claro que mesmo não sendo todos, são muitos. Provavelmente são os mais bairristas, os que sentem os Santos Populares quase como uma tatuagem, que mesmo invisível, fica-lhes para sempre no corpo. 

Foi por isso que fiquei a pensar se os antigos moradores de Alfama e de outros bairros típicos (apesar de "terem sido corridos" pelos empreendedores do turismo de lucro fácil), nestas noites especiais, voltam às suas antigas ruas, para matar saudades da vizinhança e das colectividades locais.

Talvez sim, talvez não. Calculo que nem todos gostem das confusões em todas as ruas, que em alguns casos não permitem andar, nem para a frente nem para trás...

Eu por exemplo, menos dado a estas confusões, se sentisse saudades, escolheria dias e noites mais calmas.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 06, 2022

A Caracterização de Personagens...


Escrevi ontem um pequeno texto sobre um "homem invisível", que depois de se mudar foi mal recebido num prédio e numa rua de bairro, onde as pessoas gostavam de "viver a vida dos outros"  e pensavam saber tudo umas das outras.

Respondia com silêncios e sorrisos irritantes aos "avanços" dos vizinhos mais atrevidos. O senhor António, cuja elegância física e de trato, fazia com que fosse impossível mandá-lo para qualquer sítio. A dona Hortência era um caso de estudo, apesar de ter mais de cem quilos, parecia uma "enguia" a deslizar pelas esquinas do bairro. Por ser do Norte, tinha sempre muito "alho" para distribuir pela rua.

Claro que na caracterização destas personagens, pensei no meu bairro. No bom e no mau que é os nossos vizinhos "especializarem-se" nas nossas vidas...

O bom é a sua disponibilidade para nos ajudarem numa situação de aperto. São os primeiros a espreitarem pela janela, atrás do cortinado, mas também a virem para rua (para seguirem em "directo" o acontecimento e se possível, participarem...). 

O mau é estarem sempre a "meter o nariz onde não são chamados".

Mas não tenho dúvidas que o senhor António e a dona Hortênsia, dariam óptimos colaboradores do CMTV, sempre com excelentes directos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)