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domingo, setembro 06, 2026

«Foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados»


Sabia que aquela frase podia ser o começo de um guião para qualquer telenovela portuguesa.

Mas não, referia-se mesmo a uma mulher, que tinha escolhido há semanas um de nós para "cortejar".

Começámos a reparar nisso quando os vestidos da senhora começaram a encurtar e o rosto ganhou alguma cor, nos olhos e nos lábios. E claro, quando começou a dar atenção a mais a um de nós e a desafazer-se em sorrisos.

Não foi preciso o Carlos insistir, quase poeticamente, «foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados.»

Foi quando ele fingiu que ia comprar tabaco (por sorte, não se vendia naquele café...) ao outro lado da rua, mesmo sem fumar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


quinta-feira, agosto 20, 2026

"A mulher que me chama branco"


A mulher que me chama branco

Há uma mulher que me chama branco.
Diz a palavra de tal forma agradável
que quem ouve fica a pensar que é apelido.
Já houve mesmo uma ou outra senhora
que fazia limpeza à sala de trabalho
que me chamou "senhor Branco"...
Apenas por acaso, ela também era branca.

Toda a gente acha improvável que uma preta
use o antónimo de preto para chamar
alguém que tem a pele clara e pálida.
É por isso que eu nunca digo a ninguém 
qual é o meu último nome, até
por ser mais esquisito que branco.

Conversamos muito.
Até falamos de mundos estranhos
como Gaza, Irão, Ceuta ou Sudão
habitados por gente que é tratada
de uma forma diferente do que é ser gente,
para depois voltarmos ao nosso país
que finge ser quase normal.

Uma ou outra vez 
há quem pense que somos amantes
Mas depois dizem que não
por não andarmos escondidos pelos cantos
nem nos verem a trocar bilhetes ou mensagens.
Como se fosse má ideia amar uma preta
que ainda por cima, é uma mulher bonita...

A mulher que me chama branco
tem toda a razão quando diz que
pior que ter a pele escura, é ser mulher e ser preta.
Mesmo que ela seja castanha e Bela (até de nome)...

Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, julho 23, 2026

«Vocês protegem-se sempre uns aos outros...»


Por viajar muito, dentro e fora das nuvens, sou melhor a fixar as frases que as conversas dos outros.

Estávamos a beber café e de repente sou surpreendido pela frase, «vocês protegem-se sempre uns aos outros...»

Não percebi o contexto destas palavras, mas percebi que foi dita mais como "quem quer comprar" a coisa, que "por desdém".

Nós na camaradagem quotidiana somos mais unidos e solidários, ao ponto de guardarmos segredos "do arco da velha"...

As mulheres nem por isso. Estão logo preparadas para entrar em qualquer jogo de intrigas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, julho 20, 2026

"De vez em quando"...


De vez em quando
 
De vez em quando
Acontecem-me coisas estranhas
Daquelas que surgem com mais frequência
Aos poetas e aos malucos.
Eu começo já a contar:
Sentei-me num dos bancos de uma carruagem de metro,
Quando olhei para a frente,
Descobri uma jovem mulher de pele castanha
Enquanto a olhava
Comecei a escutar uma música longínqua
Um blues que ecoava na parte interior dos meus ouvidos
Olhei à volta e percebi que a música era só minha
 
A mulher de pele castanha era jovem
Podia ser minha filha.
Tinha um vestido negro com listas com espigas
cremes e uma mala de viagem
De quem parte ou de quem acaba de chegar
Por mais de meia-dúzia de dias…
 
A música só acabou quando ela saiu
na estação do Marquês.
 
Fiquei sem perceber se tive
Um laivo de loucura ou de poesia…
 
Luís Alves Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, junho 18, 2026

Eles não sabem, mas o Humanismo não cabe nos caixotes do lixo...


O que mais me tem chocado na governação falsamente democrática de Montenegro, é a quase ausência de humanismo, na maior parte das suas medidas de cariz social.

Eu sei que esta maltinha da direita sempre gostou mais de dar esmolas, que de criar condições para que as pessoas pudessem viver com mais dignidade... e não se limitarem a olhar para o chão.

Até iam à missa (muitos ainda devem ir e até comungam e tudo...) e fingiam-se cristãos, mesmo que não soubessem muito bem o que era isso. O que eram mesmo, era católicos...

Mas vamos lá ao assunto que interessa. Não satisfeita com a tentativa de aprovação da PSU, a AD resolveu alterar também as regras do SMC (Subsídio de Mérito Cultural). Pelo que li na reportagem da Joana (Amaral Cardoso) nas páginas do "Público", fizeram-no de uma forma cobarde e silenciosa. Ou seja, simplesmente decidiram reduzir e cortar os subsídios, que eram atribuídos a antigos homens e mulheres das artes e letras, que viviam com dificuldades, sem qualquer aviso ou informação.

Perante este drama, houve mesmo uma tentativa de suicídio de um velho fotógrafo, que viu o seu subsídio ser reduzido de 470 para 128 euros. Já vivia mal e esta alteração fez com que se sentisse quase "condenado à morte".

Faz-me ainda mais confusão que sejam ministras a estarem ligadas a todas estas polémicas de tostões (e o dinheiro nem é delas, é de todos nós...), quando sempre se reconheceu uma maior sensibilidade social às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, junho 04, 2026

Havia tanto a dizer sobre os homens e sobre o fechar de olhos da sociedade e da própria justiça...


Estava sentado a ouvi-la contar os insultos diários de que a mãe era vítima do pai, e pensava, que mesmo sem nos termos apercebido, o mundo mudou tanto. E ainda bem. 

Claro que podia - e devia - ter mudado mais, muito mais...

As notícias diárias informam-nos de que o que não faltam por aí, são homens - devia dizer bestas, eu sei - que não aceitam as mudanças, nem conseguem olhar para a mulher como uma igual (muitos nem os outros homens, por isso é que se refugiam nos partidos de direita, mesmo que não passem de uns "pobretanas"...). Entre outras coisas, é sua "propriedade", ponto final.

O pai desta amiga era movido a álcool, desde quase que se levantava, tal como a maior parte destes cobardes. Era pequena e já conhecia todos os nomes feios que existiam. E quase todos os dias via o pai ameaçar a mãe de morte, de formas diferentes (era isto que mais a assustava e fazia com que passasse alguns começos da noite, quase se sentinela à porta do quarto dos pais...).

Embora estes "cães" fossem mais de ladrar que de morder, o álcool consegue dar-lhes a força que não têm, para destruir a sua vida e a dos outros...

De vez em quanto interrompia-a, dizendo coisas como porque não "saíam de casa", etc., esquecido da dependência económica e da sociedade de então, que em casos de infidelidade (ou apenas suposições...), tratava sempre a mulher como "puta" e o homem como "justiceiro"...

Poucas horas depois desta conversa somos informados da morte de uma jovem de 16 anos, barbaramente assassinada pelo namorado de vinte anos.

Ficamos sem palavras. 

Apesar das muitas mudanças que se verificaram, continuam a existir demasiadas "bestas" e  "odivelas" à nossa volta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, junho 01, 2026

Bom dia tristeza...


Sempre gostei de Marylin Monroe.

Há várias razões para que isso aconteça. A primeira delas, e a mais importante, é a sua beleza, única. A capacidade que ela tem de nos seduzir através das imagens, mesmo que nos aparecesse como outra mulher, a tal personagem que continuamos a amar através dos tempos...

Claro que o aparecimento de um "furacão", nos anos cinquenta do século passado, em forma de uma mulher bonita e atrevida,  tinha de virar muitas coisas de pernas para ar...

Isso explicará que tenha morrido cedo demais e com uma névoa à sua volta, que nunca se dissipou. 

E também explica o porquê de que nunca termos deixado de a amar, ao mesmo tempo que sentimos que não precisamos de a tentar compreender.

É isso que faz com que diga neste primeiro dia de Junho de 2026, BOM DIA TRISTEZA.

Esta é uma das fotografia que mais gosto da Marylin. Não consegui descobrir a sua autoria, embora ela tenha sido fotografada por todos os grandes fotógrafos da época...


domingo, abril 26, 2026

Que assim seja...



Concordo.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, abril 13, 2026

As guerras das mulheres são diferentes das guerras dos homens...


Continuo à espera de um  mundo onde as mulheres consigam alcançar o poder, de uma forma natural, propensas a cometer erros, mas erros diferentes dos que são cometidos pelos homens...

Estou farto das mulheres que quando chegam a cargos de poder se transformam em "homens", sem precisarem de fazer qualquer mudança de sexo. Simplesmente se limitam a continuar a seguir a cartilha masculina de sempre, a exercer o poder como se tivessem uma pila entre as pernas.

Sei que em muitos aspectos, o maior adversário das mulheres nas últimas décadas, têm sido as próprias mulheres, por não conseguirem (ou não quererem...) sair deste registo masculino.

Embora agora até tenhamos mulheres especialistas em guerra, que falam com a mesma desenvoltura dos homens sobre armas e tácticas, nas notícias que abordam a realidade como se ela fosse quase uma ficção, continuo a acreditar que as suas "guerras" são muito diferentes das dos homens...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, março 31, 2026

Querer tentar ser europeia e continuar presa ao Oriente...


Não tinha mais nada que fazer, enquanto viajava de metro entre o Cais Sodré e Alvalade e acabei por focar a minha atenção na mulher jovem que se sentou no banco que ficava à minha frente.

Era uma mulher do Oriente, que fez de conta durante toda a viagem (ela continuou...) que não tinha ninguém à sua frente.

Embora se vestisse como as europeias, nem sequer usava lenço na cabeça, reparei que na sua roupa não se notavam curvas do corpo, nem mesmo os seios. Além das roupas serem largas, colocava o saco que trazia a tiracolo quase como um escudo.

Achei curiosa a forma de tentar ser europeia e continuar presa ao Oriente...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, março 19, 2026

Um mundo que teima em ser mais masculino que feminino...


Podia dar dezenas (ou centenas...) de exemplos de um mundo que finge ser igual para os homens e as mulheres, mas que sempre que pode, trata-as de maneira diferente.

Podia começar pela parte material, em que para a mesma tarefa é normal existirem ordenados diferentes. Há patrões que até se dão ao desplante de fazer referência à função de "chefe de família", colocando em segundo plano as tarefas que ambos realizam...

Mas o que vou falar é do desporto. Soube de três casos de clubes (um deles conhecido a nível nacional, a Académica de Coimbra...) em que por dificuldades financeiras, as primeiras modalidades a fecharem foram as secções femininas. Em qualquer um destes casos, nem sequer se deram ao trabalho de ouvir as atletas ou os seus familiares, para estudaram com ambos qualquer possibilidade de viabilidade...

O curioso disto tudo é ver à parte mais direita de quem nos representa no Parlamento, querer mudar tanto a Constituição, quando, apesar de ser a principal lei do país, se percebe que continua a contar pouco no nosso dia a dia, numa coisa tão concreta como a igualdade de oportunidades para todos, homens e mulheres. 

Nota: Por ser dia do Pai, é uma boa oportunidade para falar dos direitos da minha filha, que são mais pequenos, curtos e estreitos que os do meu filho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 08, 2026

Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...

 


sou um homem e pinto
 
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema, 
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha 
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.
 
já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.
 
já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.
 
já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.
 
há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça, 
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.
 
hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse, 
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.
 
alice macedo campos

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 30, 2026

O quase mestre da "escola de mulheres"...


Só estive uma vez com João Canijo, e foi por um mero acaso, estava com um amigo comum ligado ao mundo dos filmes e acabámos por conversar durante alguns minutos.

Isto já foi há uns anitos, foi pouco tempo depois dele acabar as filmagens de "Fátima". Ainda devíamos estar em 2016.

Acabámos por falar da "legião de mulheres" que o seguia, algumas das quais chegaram a ser suas companheiras. O Nuno disse que devia ser do "mel" que ele tinha lá em casa, como se o João não estivesse ali. Acabámos os três a sorrir, sem que o realizador abrisse muito o jogo. 

Pensei nisso ontem, quando li a notícia, de que tinha sido encontrado na sua casa, em Vila Viçosa, sem vida, pela empregada doméstica.

Sim, as mulheres são muitas vezes um enigma para nós, homens, porque fazem questão de fazer as coisas ao contrário do que estamos à espera. Digo isto sem qualquer onda de machismo ou feminismo. Somos diferentes, ponto final.

Elas têm muitas coisas em doses superiores a nós, como seja a força (de viver, não é a física...), a sensibilidade, a visão e a manha...

Provavelmente o João Canijo "viu mais longe" (como elas...),  que a maioria de nós, as pequenas e grandes coisas sobre a natureza feminina. Isso poderá explicar a relação que tinha com a Rita Blanco, a Anabela Moreira, a Beatriz Batarda ou a Cleia Almeida e os excelentes filmes que realizou com elas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, outubro 16, 2025

Mapas de vidas desenhados nos corpos...


Sei que nem toda a gente sente e é capaz de explicar o porquê das marcas que "escreve" no corpo.

Umas acontecem, apenas por que sim, outras porque se tornou um hábito (o vício não é para aqui chamado...), com a forma e a linha a surgirem quase momentaneamente, na tentativa de tapar mais alguma coisa na palidez dos corpos... Outras têm uma história, quase sempre de amor (com corações, palavras e retratos...).

Pensei nisto, à medida que me aproximava da mulher com corpo de menina que estava parada uns metros à minha frente, a ler e a enviar mensagens, que tinha "demasiado mundo" no corpo para uma adolescente.

Já por perto, percebi que a mulher-menina não tinha pele cor de pele, entre as calças e o top curto. Havia por ali linhas e ondas, quase numa aventura surrealista, que podiam ser mapas de qualquer coisa, ou apenas um desenho escolhido na loja.

Só quando parei para abrir o portão, a um metro daquele corpo desenhado, é que percebi que se tratava de  um mulher com corpo de menina. O barulho do ferrolho fez com que ela se virasse e se enchesse de desculpas, mesmo que não estivesse num território privado. 

A sua voz e o seu rosto ofereceram-lhe o retrato de uma mulher de trinta anos e a adolescente do corpo pequenino bem desenhado desapareceu...

Ficou explicado, aquele quase "mapa-mundo" num corpo feminino, que chegara do lado de lá do Atlântico, onde se fala um português mais adocicado.

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


quinta-feira, outubro 09, 2025

As "mulheres-turistas"...


Não sei explicar porquê, mas cruzo-me com mais "mulheres-turistas" (duas a duas, três a três ou mais), que com "homens-turistas", pelas várias avenidas das duas margens do Tejo.

Fico com a sensação que elas viajam mais que os homens, pelo menos para o nosso país.

Posso estar enganado. Podem ser os meus olhos que se fixam mais nas mulheres.

A única certeza que tenho, é que, pelo menos o Ginjal e o Jardim do Rio são mais visitados pelas mulheres que pelos homens que chegam do mundo...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, setembro 23, 2025

Um dos sorrisos mais bonitos do cinema


Claudia Cardinale deixou-nos hoje.

Foi uma das actrizes que mais encheu as telas com o seu sorriso bonito, num tempo em que a beleza era fundamental na sétima arte.

O curioso, é nunca ter sentido qualquer ameaça de uma Marylin Monroe, de uma Ava Gardner, ou de geografias mais próximas, de uma Sophia Loren...

Sim, nunca lhe faltaram filmes, bons, maus ou assim assim. Em qualquer deles, a Claudia dava nas vistas, muito graças ao seu sorriso, que fazia com que qualquer assassino do Oeste baixasse as armas...

(Fotografia de autor desconhecido)


sábado, setembro 06, 2025

«Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»


Há poetas que são mais de dizer e outros mais de escrever.

Conheço uns e outros, normalmente não moram em ruas parecidas nem vestem roupas feitas no mesmo alfaiate.

Os que dizem, misturam os seus poemas com os que mais gostam, dos outros, quase sempre gente com mais de dois metros de poesia.

Os que só escrevem, gostam de falar de outras coisas, ou então de permanecer em silêncio.

Já me devem ter dito mais de cinco vezes a frase que escolhi para dar título a estas palavras. Recordei-a dita pela boca de uma amiga que na passagem dos anos 80 para os 90, morava numa das casas mais pequeninas que conheci (se bem que na China ou no Japão pudesse passar por um apartamento familiar...).

Era uma mulher cheia de particularidades, que também gostava de me ler poesia. 

Curiosamente, a singularidade que mais recordo é o facto de termos dormido juntos também mais que cinco vezes e nunca a ter visto completamente nua. Só descobria a sua nudez através do tacto, era como se a luz tivesse algo de errado. Nunca levei isso para o seu corpo, que sabia que era bonito com e seu roupa...

Como costuma acontecer com os amores antigos, nunca mais nos encontrámos. O mais curioso, é que só penso nela por coisas muito singulares, diria mesmo, muito particulares.

E a frase que mais me aparece, misturada com o seu sorriso trocista e quase sem som, é esta: «Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, agosto 18, 2025

«Se não tivesse amor próprio, há tanto tempo que estava na sarjeta...»


Estava sentado num café de bairro, com o Gui, que regressou por breves momentos a este pobre país, para ser padrinho de casamento de uma das irmãs.

Quase que não falámos dos incêndios. Era tudo demasiado trágico para estarmos a "bater na realidade"...

E depois houve uma senhora, numa mesa ao lado, ligeiramente mais nova que nós, que teve um daqueles desabafos que não nos foi indiferente: «Se não tivesse amor próprio, há tanto tempo que estava na sarjeta...»

O Gui aproveitou aquela frase para falar da força que as mulheres têm de ter, para se levantarem todos os dias da cama e irem "lutar contra o mundo" que gosta tanto de as subalternizar.

E depois aproveitou para dizer que a irmã ia cometer um erro, porque o gajo que ela escolheu para casar gostava mais de "ferraris" que de mulheres. Perguntei-lhe se ele falou com ela. Disse-me que não. Não fora preciso, a irmã do meio tinha se dado a esse trabalho. Para nada, como é normal.

Ainda lhe disse, se não era isso que acontecia com quase todos nós, fartarmo-nos de escolher para fazermos quase sempre a escolha errada. Sorrimos, claro. 

Depois reparámos que na mesa ao lado, as duas mulheres que também tinham dado pela nossa presença, e agora sorriam à vida.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 09, 2025

«Cuidado! Ele é capaz de prometer este mundo e o outro, para obter o que quer.»


Havia uma conversa mais acesa numa mesa ao lado da nossa, composta apenas por mulheres, de pelo menos três gerações. Sim, podiam ser a avó, a mãe e as duas filhas.

Quando as olhei, discretamente, percebi que as duas miúdas giras, não falavam. Limitavam-se a sorrir, em relação aos avisos dados pelas duas mulheres maduras, como se estes não fossem para ser levados muito a sério.

Deve ter sido esta indiferença, que fez com que a "mãe" lhes dissesse, num tom pouco amigável: «Cuidado! Ele é capaz de prometer este mundo e o outro, para obter o que quer.»

Na minha mesa estavam tão presos ao quotidiano, que ninguém ligou aquela frase. À maneira do bom "Zé Gomes", pensei que talvez só estivessem a falar alto para mim...

Não era nada estranho, darem-me espaço para "roubar" palavras, enquanto pensava em várias coisas. Comecei por desculpar a personagem de que falavam, por estar dentro deste tempo, em que os valores com que se rege a sociedade parecem ser outros. Sim, ele é tudo menos parvo. E ainda bem para ele.

Depois, o meu lado de "contador de estórias" fez-me pensar que não há muitas mulheres capazes de resistir à chamada "canção do bandido", onde se oferecem, entre outras coisas, bilhetes para duas ou três viagens imaginárias, que deixam qualquer apaixonada, mesmo que já seja cinquentona, a sonhar acordada.

Não era nada de novo, Camilo, Eça e outros bons contadores de histórias de amor, mesmo de outros séculos, exploraram o "filão".

E lá fui à minha vida, com assunto de sobra para pensar, para escrever e para contar...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)