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terça-feira, setembro 15, 2026

A honra suprema de uma má actriz de telenovelas que faz o papel de jornalista com grande êxito


Sei que tanto uma como a outra, não frequentam blogues. São adeptas de lugares mais populares, onde se pode representar, cantar, dançar, pescar, caçar, e claro, "pintar a manta", com mais descontração (e imaginação...).

Mas mesmo assim achei que não podia perder esta "caricatura" de bairro, desenhada com tanta perfeição.

Falava-se de qualquer coisa na mercearia, e uma das senhoras dizia, "fale com a Tânia, que ela sabe", repetiu isto umas três vezes até que uma senhora, que tal como eu, pertencia ao  clube dos "incautos" e "ignorantes" do lugar, curiosa, perguntou quem era essa tal de Tânia. A mulher que falava pelos cotovelos sorriu e esclareceu o assunto numa penada:

«E esta? Claro que sabe quem é a Tânia. Não conhece você outra coisa!» Sem que deixasse que alguém a interrompesse, virou-se para mim e disse: «É a loira que mora na rua deste senhor.» E depois concluiu, «Ela é a mulher mais bem informada do bairro. Como tem o cabelo amarelo e é avantajada de carnes, houve alguém com olho que a batizou, e muito bem, de Tânia Laranjo.»

Gargalhada geral. Até eu que não apreciava o estilo, conhecia esta "peça principal" do jornalismo de faz de conta do "Correio da Manhã"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, junho 30, 2026

Uma boa e memorável espera...


Só teve de esperar 50 minutos, para embarcar num cacilheiro autêntico, ainda cor de laranja e com motor diesel.

Não tem nada contra as energias mais limpas, é apenas um problema de cor, de daltonismo. 

Como acha que os eléctricos de Lisboa devem ser sempre amarelos, também pensa que os cacilheiros deviam ficar sempre com os bonitos tons da laranja, com que têm ficado imortalizados por tantos pintores e fotógrafos, com bom gosto...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, junho 05, 2026

Mistificaçães sobre a Margem Sul...


Depois de ser apresentado como almadense, percebi que este era um péssimo cartão de visita, pelo menos para aquela alminha, que talvez tivesse atravessado o rio de cacilheiro menos de meia dúzia de vezes e não gostasse nada do que encontrou, logo em Cacilhas.

Ainda bem que já estava longe da "idade dos porquês", porque não senti a mais pequena curiosidade, sobre toda esta "azia" para com a Margem Sul.

Já estava sentado num dos eléctricos que agora fazem a ligação fluvial, quando me pus a pensar, que nunca tinha levara muito a sério algumas mistificações sobre o que existe para cá da margem esquerda do Tejo e se estende quase até Setúbal e Sesimbra.

Nem mesmo agora, que Almada é um dos "últimos redutos" das muitas pessoas que chegaram de fora e trabalham em Lisboa e só conseguem encontrar casa por estes lados, mesmo que também sejam a preços proibitivos...

Eles não sabem nem sentem as coisas agradáveis que o "melhor rio do mundo" é capaz de fazer por nós. 

Basta assistir às procissões diárias dos turistas, jovens de todas as idades, que desembarcam em Cacilhas e percorrem o Cais do Ginjal na direcção dos dois restaurantes com fama internacional ou do Jardim do Rio, o pequeno oásis com relva, que se enche de gente ao fim do dia, que escolhe aquele lugar para se despedir do Sol...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


terça-feira, janeiro 13, 2026

Eu sei que me vou acabar por habituar, mas...


Às vezes acontecem pequenos acasos, agradáveis, nas viagens de cacilheiro, entre as duas margens do "melhor rio do mundo", como são os encontros inesperados com pessoas de quem gostamos.

Foi o que aconteceu na sala de espera do Cais de Sodré, quando descobri as as minhas queridas vizinhas Natália e Rosa. Além de atravessarmos o Tejo, apanhámos o metro e ainda subimos a rua Emília Pomar. Só nos despedimos depois do elevador do nosso prédio parar no terceiro andar...

Como sempre, falámos de várias coisas, até das novas barcas que nos levam para cá e para lá e que funcionam a electricidade.

Se eu achava que os novos nomes das "barcas rectangulares" deviam ser mais simples, elas acharam deliciosa a escolha de aves do rio (mesmo que algumas nos fossem completamente desconhecidas...). Como era o caso particular da "Tarambola-Dourada", o nome da barca que nos levou até Cacilhas, 

Eu sei que me vou acabar por habituar à elegância das aves escolhidas, mas tinha preferido que tivessem escolhido as singularidades da toponomia popular da nossa Margem, como são os casos do "Olho de Boi" ou da "Boca do Vento". 

Mas ninguém é perfeito...,

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, novembro 21, 2025

Os velhos "laranjinhas" estão quase a desaparecer no "mapa" do rio...


Como acontece muitas vezes, perdi o cacilheiro por um minuto. Em vez de ficar parado à espera, cirandei pelo cais de Cacilhas, a fazer tempo.

Depois de ter ido até ao Farol e voltado, vi que era uma das velhas barcas laranjas, o "Sintrense", que estava atracada ao cais.

Os "caixotes eléctricos" já andavam por aqui. Já viajara num deles e sabia que daqui a nada os "laranjinhas" desapareciam do mapa...

O que me fazia confusão não era as novas barcas não terem proa, era terem perdido a sua cor característica, que passava a ser apenas um risco na nova imagem de marca. Era aquele laranja que sobressaía tanto nas fotografias e aguarelas que retratavam a travessia, estar prestes a desaparecer.

Mais uma vez fiquei a pensar que era muito conservador, em algumas coisas, mais ou menos tradicionais. Lembrei-me dos eléctricos de Lisboa, que houve um tempo em que estavam a perder a cor para a publicidade excessiva e também dos táxis, que felizmente voltaram à velha cor, ao preto e verde...

Ninguém é perfeito.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, março 30, 2025

O "comércio justo" é bom, mas o "comércio simpático" ainda é melhor...


Fala-se aqui e ali do "comércio justo", mas do que eu gosto mesmo, é do "comércio simpático".

Nem sei por onde comece. Não é que sejam muitos, eu diria até que, são do clube dos "poucos e bons".

Apesar do Manel da mercearia do bairro se esticar um pouco com os preços, é de uma simpatia a toda a prova. Não é por acaso que há algumas avós que vão lá só para "namorar" com o jeitoso do moço, que nasceu para atender pessoas. Também é bastante culto (formado em gestão, ficou com a loja dos pais, no período complicado do pós-troika), ou seja, tem conversa para toda a gente.

Depois desço à Gil Vicente, onde tenho pelo menos quatro cafés à minha disposição. Curiosamente, nem sempre vou ao que tem melhor atendimento, graças à Soraia, porque tenho de atravessar a rua e nem sempre o faço (o piloto automático leva-me vezes demais na direcção do "Repuxo", mais pelo peso histórico da primeira tertúlia cultural que frequentei, que pelo "atendimento", que deixa muito a desejar, porque  há quem esteja sempre a fazer um "frete ao cliente" e deixe o sorriso em casa.

Continuo na direcção de Cacilhas e entro na "melhor farmácia do mundo". Sim, são quatro os funcionários (três "elas" e um "ele"...), além do sorriso e das palavras agradáveis que oferecem a quem chega, tentam resolver todos os problemas, nunca nos mandam para a concorrência. Penso que acabam por ser vítimas da simpatia, deve haver quem lá vá, só para se sentir bem atendido e ter "uma prosa", sobre um dor qualquer.

Sobre Cacilhas, estamos conversados. 

Depois subo a Almada e entro no "Olivença", que mesmo sem ter nada de especial como restaurante, tornou-se quase familiar, muito graças ao Carlos, que recebeu de braços abertos a nossa cada vez menos expressiva, "Tertúlia do Bacalhau com Grão", no primeiro dia da semana.

Falta falar da loja de fotocópias que frequento, no centro de Almada, há mais de vinte anos. Falo de um casal daqueles que já não há (o Carlos e a Maria José). Além da simpatia e do serviço de excelência, são de uma honestidade que também já se usa pouco nestes tempos estranhos.

Antes de acabar esta pequena crónica, escrita por ser adepto do "comércio simpático", ainda fiquei a pensar se esquecera alguém. Acho que não. Claro que há mais pessoas que sabem receber, com a Carla dos "óculos" ou o casal simpático da tabacaria mais pequena de Cacilhas, mas não sou um cliente tão assíduo como nos outros lugares.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, janeiro 02, 2025

O ano que começa...


Haverá quem mude de vida, de forma radical, por várias razões. Talvez as profissionais e amorosas sejam as que mais concorrem para essa necessidade de partir, de ser e fazer, diferente...

Claro que não vão estar à espera do começo do ano, para a tal mudança de vida, por vezes demasiado urgente (é quase uma questão de sobrevivência...).

Nós não queremos fazer coisas diferentes, neste ano que começa. Queremos sim, continuar a fazer as coisas que gostamos. De preferência, melhor. E se possível, com mais prazer ainda.

Talvez tenha sido por isso que ontem mal me levantei, escrevi mais que uma página de histórias, que vão tentar furar este tempo, que se quer afirmar quase "sem história", quase sem os valores que nos tornavam mais iguais.

Também fiz um passeio solitário e fresco pela margem do Tejo, num Ginjal que nesta altura quase que nem consegue ver o Sol (o que ajuda a perceber todos aqueles que só voltavam a fazer vida no Ginjal no começo de Maio, abrindo as janelas e as portas para deitar fora a humidade que devia deixar um cheiro estranho nas divisões das casas...).

Já Cacilhas, esconde o frio e agarra o Sol com tudo o que pode, desde as mãos aos pés, para sonhar com um mundo diferente, mesmo que o bom senso continue a estar longe de ser a melhor característica humana...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, novembro 01, 2024

O Dia da Procissão de Cacilhas (sem procissão...)


Desci até Cacilhas com o objectivo de carregar o passe e acabei por me cruzar com os primeiros preparativos para a habitual procissão anual, que devia sair daí a minutos da Igreja da Localidade Ribeirinha.

A Fanfarra dos Bombeiros desfilava e animava a Rua Cândido dos Reis com a sua música. Já quase no seu final os vários vendedores de castanhas e de farturas, preparavam-se para satisfazer as gentes que daí a nada iriam encher a rua e o largo...

Foi quando caíram os primeiros pingos, sem que o Sol fugisse ou quisesse dar tréguas ao mau tempo. O costume era haver uma pausa do mau tempo, enquanto a procissão passava pelas ruas de Cacilhas.

Mas cada vez percebemos menos o tempo (a tragédia do Sul de Espanha, é um bom exemplo...). E, apesar de todos os preparativos, a procissão não saiu mesmo à rua... 

Até tivemos direito a uns trovões e tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas - ainda com Sol...)


sábado, novembro 11, 2023

Até a invejarmos somos pequeninos...


Aos fins de semana costumamos beber café a meio caminho da avenida e depois vamos até ao Largo de Cacilhas e uma ou outra vez descemos mesmo pelo Ginjal, se o tempo estiver convidativo.

É nestes lugares que descobrimos o melhor e o pior de nós, nas palavras e nos olhares dos outros. Ficamos cada vez mais em silêncio, porque parece ser mais fácil "desconversar" que "conversar" com desconhecidos. Limitámo-nos a olhar um para o outro, com cara de caso, embora soubéssemos que era este o nosso Portugal, da cidade mais populosa à aldeia mais curta de gente.

Um casal jovem emigrante com dois filhos (um ainda de carrinho de bebé) levantara-se e foi-se embora. Provavelmente oriundos das índias, com aspecto modesto (tanto um como o outro calçavam chinelos, apesar de já ser Outono). Foi quando uma mulher que já ultrapassara a meia-idade começou a barafustar com a companheira de mesa - depois de termos percebido pela conversa anterior que lhe iam aumentar a renda e andava à procura de casa -  dizendo que a esta gente dão tudo e a nós não dão nada. Maldizendo o país e os políticos corruptos, claro.

Depois de nos levantarmos, falámos da inveja, essa instituição nacional. Da forma como até a invejarmos somos pequeninos. Somos capaz de invejar alguém que vive como nós (ou pior...), apenas porque tem uma camisa ou um vestido bonito, ao mesmo tempo que fazemos vénias a quem enriquece diariamente a "roubar-nos" o pão...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, agosto 04, 2023

Os "seres cantantes" e os "velhos de cacilhas"...


Passam por nós seres cantantes, um ou outro embrulhado em bandeiras que identificam as suas origens, que alegra estes dias quentes, repletos de santidade.

Não me embalo nem me incomodo com estas cantorias e alegria alheia.

A "velha do restelo" que me acompanha diz, «que pena na segunda-feira voltar a ser tudo como era...» 

Há mais ironia que vontade de parar este tempo que, entre outras coisas, deu férias aos ministros e secretários de estado que adoram enfiar os pés nos buracos das estradas...

Eu sei que ela tem razão mas mantenho-me em silêncio, a olhar esta multidão quase jovem, que junta a calma e a alegria ao ruído, sem fazer tremer as calçadas.

Antes de subirmos à cidade, assistimos ao embarque  lento de uma multidão de gente de todas as cores e raças no cacilheiro.

Penso que agora sim, imitamos os "velhos do restelo", mesmo que sejamos apenas "velhos de Cacilhas", cativos no cais, à espera dos dias normais de Agosto nas cidades. 

Ao contrário das calçadas, o cacilheiro, sim, deve abanar com tanta gente e tanta canção por metro quadrado...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, julho 23, 2023

Cacilhas com algumas novidades neste domingo de manhã...


Embora só tenha estado ausente uma semana, descobri algumas novidades, nesta manhã de domingo, quando resolvi dar um ligeiro passeio até ao Tejo em Cacilhas.

Gostei de ver algumas pinturas curiosas (com textos ligeiramente diferentes...) na parte superior das grades de sarjetas no largo de Cacilhas.


E também a instalação de oito "wc's" portáteis numa das extremidades do mesmo largo. Pelos vistos, a juventude católica pode vir à vontade a Cacilhas, pois já têm espaços para deixaram a sua "pegada", líquida ou sólida (bem os podiam manter depois das jornadas, pois a localidade recebe visitantes o ano inteiro)...

E quando me aproximava de casa, descobri junto aos contentores do lixo, um quadro com anjos, que parecia estar ali em exposição, mas o que queria mesmo era uma mão amiga que "salvasse" os anjinhos abandonados e com cara de caso...

(Fotografias de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, abril 22, 2023

Olhei-a e fiquei a pensar na "solidão do avançado centro"...


Estávamos no meio de um giro por Cacilhas quando reparei no número nove da camisa da rapariga, que estava sentada sozinha, a olhar para o Tejo.

Sabia que não devia perder aquele "retrato", porque em qualquer altura podia colar o número nove daquela jovem à "solidão do avançado-centro". Não deixa de ser curioso, que os jogadores que passam mais tempo, praticamente sós no relvado, são o ponta de lança e o guarda-redes. 

Não deixa de ser curioso, que as imagens que se colam ao nosso olhar, consigam transportar consigo vários simbolismos e particularidades. 

Simbolismos que nem sempre conseguimos, ou queremos, descodificar, porque os meus olhos nem sempre vêm o mesmo que os teus...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, março 14, 2022

Perder uma Boa Oportunidade (com mais de um milhão de euros)...


Desde o início que olho para as obras que procuram transformar o Largo de Cacilhas, num lugar mais agradável, com alguma desconfiança.

Quase um ano e mais de um milhão de euros depois, continuo com algumas reservas. Embora ainda esteja longe de descobrir o "produto final", tenho a sensação que se "finge que se mudam algumas coisas, para depois ficarem quase iguais"...

Mas o pior mesmo é não se aproveitarem as "mudanças" para se embelezar mesmo o Largo. No domingo passeámos por lá e acabámos por nos sentir desiludidos, por perceber que a calçada rente ao cais de embarque continua a ser colocada  por verdadeiros amadores (ainda mal foi  estreada e já se nota os seus "altos e baixos"...) e sem qualquer motivo que a torne diferente.  

Por saber que aquele lugar é, nada mais nada menos, que a entrada para a Margem Sul, por via fluvial, sei que merecia um trabalho de melhor qualidade, como é a bonita calçada portuguesa, com desenhos característicos da localidade ribeirinha (não faltam bons motivos...) e feita por verdadeiros profissionais...

Esta é apenas uma das várias oportunidades perdidas, no Largo de Cacilhas, numa obra orçada em mais de um milhão de euros...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, janeiro 01, 2022

"A Criança e a Vida"


Por saber que a maior parte dos livros que temos, acabarão por ter a má sorte de não serem lidos, às vezes apenas por terem o selo de "esquecidos". Podem passar anos e anos numa estante (se tiverem pior sorte, podem ficar mais escondidos, dentro numa caixa de papelão guardada no sótão ou na garagem...), foi por isso que fiquei extremamente feliz por uma colectânea que deu muito que falar, ainda antes de Abril (a primeira edição até acabou por ser apreendida...), me ter feito um sinal.

Falo de "A Criança e a Vida", uma colectânea organizada por Maria Rosa Colaço e escrita pelos seus alunos da escola primária onde começou a dar aulas, em Cacilhas.

No seu texto de apresentação ela explica muito bem como foi o seu primeiro dia de aulas: 

«O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia: esculpidos em vento e mar.
Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro de lata, de sabe Deus donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros - não sei porquê mas traziam - folhas de plátano douradas. O Outono perfumava-lhes os cabelos.
Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.
Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua-apoio que o director me oferecera e dei-a ao que me pareceu mais velho: "Toma! Vai atirar fora." E depois... não o que lhe disse. Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto. E foi assim que ficamos solidários e Amigos-para-sempre.
Aprendi então que a verdade é uma palavra essencial.
E a lealdade também.»

Sei que o conteúdo do livro pode ter sido "amenizado" pela professora, mas não deixa de ser um documento histórico, que foi traduzido e editado em dezenas de países. E inédito, uma professora dar voz aos alunos em plena ditadura, tem muito que se lhe diga... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, novembro 24, 2021

Se Calhar Devia Comprar um Barco...


Tinha decidido ir a Lisboa hoje de manhã, porque precisava de comprar um caderno que só se vende na Capital. Embora fosse uma coisa sem urgências, não me estava a apetecer deixar a viagem para amanhã. Nem sequer me assustei com as nuvens que brincavam às escondidas com o Sol, quando espreitei à janela.

Cheguei a Cacilhas um pouco depois das dez e meia e o próximo cacilheiro era às 10.55 horas. Dei uma volta pelas redondezas e cinco minutos antes da partida, verifiquei que a hora de embarque fora alterada. Passara para as 11.15 horas.

Resolvi voltar a casa, porque não me estava a apetecer ficar ali mais 20 minutos, até porque havia a possibilidade dos funcionários da Transtejo mudarem novamente de ideias e suprimirem mais um horário.

Antes de me vir embora ainda passei pela bilheteira e dei mostras do meu descontentamento, falando da falta de respeito que os trabalhadores da empresa têm pelos outros trabalhadores.

E nem sequer falei da pandemia, de o cais de embarque estar cada vez com mais pessoas, que iriam encher o cacilheiro (sei que agora não há limitação de pessoas, mas um pouco de cuidado não fará, com toda a certeza, mal a ninguém...).

Vinha para casa e comecei a pensar que é um problema quando não temos escolha, como acontece hoje nos transportes fluviais. Antes de Abril de 1974, havia pelo menos três empresas a operarem nas travessias do Tejo. Mesmo alguém como eu, que é a favor do serviço público, detesta ser tratado de forma miserável e não ter outra alternativa (podem falar do comboio ou dos autocarros que passam a ponte, mas isso é outra coisa...). 

Sei que a comparação não é a melhor, porque há restaurantes em quase todas as esquinas, mas gostava de ter a liberdade de fazer com os transportes - ou com outro qualquer serviço público péssimo - o que faço com as casas de pasto: quando sou mal atendido, não volto a colocar lá os pés.

O que eu gostava mesmo era que a minha única solução para resolver este berbicacho e conseguir atravessar o Tejo sem problemas de maior, não fosse ter de comprar um barco...

Apesar de se falar muito de empreendorismo, continuamos a ser um país com poucas escolhas e demasiados "monopólios"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, novembro 01, 2021

Céu Azul num Dia Cinzento


Apesar da procissão se ter realizado este ano numa versão mais "softe" (só com dois andores...), as ruas esburacadas de Cacilhas (a chuva não perdoou as muitas obras incompletas...) encheram-se de gente neste primeiro dia de Novembro. 

Gente que tanto pode vir acompanhar a Nossa Senhora do Bom Sucesso, padroeira da localidade ribeirinha, no cortejo religioso, como participar apenas no ambiente festivo que cresce junto ao Largo de Cacilhas e à Rua Cândido dos Reis.

Hoje voltou a estar um dia cinzento (ameaçou mesmo chover em vários momentos...), mas, curiosamente, quando a procissão passou pelas ruas o céu ficou azul. Embora não "empurre" este fenómeno natural, para a "rua dos milagres", não deixa de ser digno de registo.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Passeio (clandestino) ao Lado do Tejo Sujo


Hoje, no meu pequeno momento de "exercício físico e mental", fui até ao Largo de Cacilhas.

Cruzei-me com mais gente do que o costume na rua. Talvez estivessem a aproveitar a "aberta", o breve momento que a chuva se deixou substituir pelo Sol, para fazer compras...

Já no Largo, estranhei que a fita azul, colocada pela polícia marítima para cortar o acesso ao Ginjal, tivesse desaparecido (só lá estavam as pontas, presas aos postes). 

Interesseiro, achei que a ausência de qualquer fita era um convite para continuar a marcha à beira do rio, sem ter a sensação de estar a fazer algo proibido. Foi agradável passear ao lado do Tejo, mesmo que o encontrasse mais sujo que o costume (demasiados plásticos para o meu gosto...).

Quando subi para Almada e dei de caras com as outras fitas, que cortavam a passagem, em sentido contrário, intactas, percebi que sempre fora uma mão humana, clandestina,  que fizera desaparecer a fita em Cacilhas...

Entretanto o Sol ficou sem tempo e a chuva acompanhou-me no regresso a casa.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, setembro 14, 2020

Fica Para Amanhã...


Não é que eu não tivesse saudades do cheiro a terra molhada, mas os meteorologistas de vez em quando  são "embrulhados" pela natureza, que deve adorar trocar-lhe as voltas.

E assim, o céu continuou azul, o Tejo apetecível como de costume, e os turistas presos às suas margens, a quererem agarrar toda a paisagem com a câmara que está metida dentro do telemóvel...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, julho 23, 2020

Saudades de Estar (e de me sentir livre)...


Nunca fui pessoa de telefonar a toda a hora, nem de estar todos os dias com os meus amigos.

Continuo a não telefonar muito (lembro-me muito mais do que telefono...), mas sinto falta de estar, de olhar, de sorrir, de entrar de corpo e alma nas "conversas distraídas" que tinha com os meus poucos amigos, em que o almoço era sempre o menos importante. 

Falávamos de tudo o que nos apetecia... Havia anedotas, boa e má língua, memórias das que valem a pena (tanta gente que se sentava connosco à mesa...), que ficavam à beira do mundo dos livros e dos filmes...

E tenho saudades de me sentir livre... de poder dar corda aos ténis e saber que se aparecesse em tal sítio à hora do costume, alguém me pagava o café ou eu pagava o café a alguém... com a troca de palavras e de sorrisos do costume.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sábado, dezembro 14, 2019

Uma Travessia (quase) Esclarecedora


Eu sei que quando passamos quase diariamente por alguns lugares, deixamos de ter sentido crítico e discernimento, para lhes oferecer um retrato fidedigno.

Ou seja, nem sequer pensamos em diferenciar a monumentalidade do Terreiro do Paço (uma praça que honraria qualquer Capital Europeia...) da vulgaridade do Largo de Cacilhas (que há muitos anos, deixa bastante a desejar...).

Não era preciso ter no centro a estátua do D. José, do seu cavalo garboso e de toda a animação artística à sua volta, mas poderia ser outra coisa, como era o entendimento do meu Pai e também agora da Joana e do Pedro, bem mais agradável, para receber todos aqueles que querem vir dar uma volta até à Outra Banda.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)