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sexta-feira, junho 12, 2026

Nem à sombra se está bem em Almada (quanto mais na Amareleja)...


A meio da tarde, um dos meus vizinhos disse, com alguma graça, quando se cruzou comigo há entrada do nosso bairro: «Se Almada está assim, nem quero imaginar como está Beja. Eu não fui de modas e respondi-lhe, «E da Amareleja, nem é bom falar.»

Continuámos a sorrir os dois sem perder o nosso andamento, calmo, quase de alentejanos, em direcções opostas.

Antes tinha estado numa mesa mais intelectualizada, onde se falou de cinema e de sondagens fabricadas, a quererem arrumar de vez com o mundo dos filmes, com gente com pouca vontade de sorrir.

Não percebi muito o porquê daquele "coro de indignações", pois praticamente desde que me conheço que sei qual é a fórmula para as sondagens, nos darem os resultados pretendidos. O partido mais populista e a televisão mais popular são bons nisso. Esqueci-me de lhes dar estes exemplos.

Continua a ser difícil é dizerem que está a cair neve na Amareleja, de resto vale quase tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)


segunda-feira, junho 01, 2026

Bom dia tristeza...


Sempre gostei de Marylin Monroe.

Há várias razões para que isso aconteça. A primeira delas, e a mais importante, é a sua beleza, única. A capacidade que ela tem de nos seduzir através das imagens, mesmo que nos aparecesse como outra mulher, a tal personagem que continuamos a amar através dos tempos...

Claro que o aparecimento de um "furacão", nos anos cinquenta do século passado, em forma de uma mulher bonita e atrevida,  tinha de virar muitas coisas de pernas para ar...

Isso explicará que tenha morrido cedo demais e com uma névoa à sua volta, que nunca se dissipou. 

E também explica o porquê de que nunca termos deixado de a amar, ao mesmo tempo que sentimos que não precisamos de a tentar compreender.

É isso que faz com que diga neste primeiro dia de Junho de 2026, BOM DIA TRISTEZA.

Esta é uma das fotografia que mais gosto da Marylin. Não consegui descobrir a sua autoria, embora ela tenha sido fotografada por todos os grandes fotógrafos da época...


sexta-feira, maio 29, 2026

O cinema português a filmar a história


O cinema português de vez em quando intromete-se com a nossa história e com os seus protagonistas. E ainda bem.

Foi o que fez José Filipe Costa, com o seu, Pai Nosso - Os últimos dias de Salazar. Estou curioso e quero vê-lo, por mais que uma razão.

A principal é abordar um período histórico, santificado na actualidade por uma direita imergente, mesmo que as suas virtudes maiores fossem a mentira, a ambiguidade, a corrupção, a hipocrisia e a repressão.

Se pensarmos que durante o tempo retratado no filme, existiam em simultâneo dois "presidentes do conselho", um a sério e outro a brincar, isto explica muito a seriedade do regime, apesar do tom cerimonioso dos governantes e da meía dúzia de famílias do regime, que dominavam todos os sectores do país. Sim, não devem existir muitos países que tenham alimentado uma farsa do género durante praticamente dois anos. 

Há muitos portugueses que desconhecem, este, e outros factos curiosos, da nossa história.

E nem vou falar da existência de pelo menos três versões da queda de Salazar (de duas cadeiras diferentes e da banheira...), além da oficial (caiu de cansaço quando estava a "trabalhar para o país" no seu escritório...), divulgada um mês depois do acidente caseiro.

Gosto quando o cinema mostra alguns lados da história, de que se fala pouco... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 28, 2026

Portas que se fecham e uma porta que se abriu...


Ia escrever, parece, mas não há nenhum parece na afirmação. As pessoas vão mesmo cada vez menos ao cinema (eu faço parte do lote...). Os números não enganam.

Até as salas de projecção dos centros comerciais estão a fechar, por míngua de espectadores... Embora aqui se perceba o encerramento, porque estas salas são "lojas", onde se vendem imagens com pipocas, o seu grande objectivo é ganhar dinheiro.

Tem acontecido o mesmo tem pelo interior fora (parece que já chegou ao litoral...), onde já existem várias cidades, com alguma importância social e cultural, sem um único auditório aberto para se verem filmes.

Curiosamente, cada vez há mais fitas portuguesas (sei disso porque ainda leio jornais...). Sei que isso se explica pela facilidade com que hoje qualquer pessoa pode fazer um filme, graças à evolução tecnológica e aos seus baixos custos).

Não sei qual é o verdadeiro objectivo desta "febre" de filmes que falam português. Pode ser a visita a festivais internacionais, ou então, a projecção para os amigos...

Não deixa de ser curioso, que se tenha criado em Almada no último mês um "cine-clube" municipal, no velho Salão das Carochas (esta sala já foi muita coisa e curiosamente foi "sala de cinema" logo depois do 25 de Abril, com a projecção de filmes infanto-juvenis). 

Ainda não me bem informei sobre o assunto, se tem público, embora perceba que o objectivo principal do "Cine-Carochas" é ser um espaço alternativo ao "comércio de filmes", ser uma casa aberta às fitas independentes (talvez as tais dos muitos realizadores portugueses...).

Como de costume não era para escrever nada disto, era para falar de história com cinema. Fica para amanhã...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, maio 07, 2026

Em nome do cinema e da família...


Só hoje é que pensei no filme de ontem.

Não me disse nada de novo, talvez por eu já ir para velho. 

Mas nem sempre fixamos o nosso olhar nas coisas pequeninas, e rasteiras, que as pessoas são capazes de fazer na defesa da família.

A desculpa que usam quase sempre no "caderno das justificações": é o amor.

Como se ele servissem para desculpar tudo, até mesmo as acções crueis e desprezíveis.

Pois é, o cinema faz-nos pensar de uma forma mais profunda e séria sobre a vida, porque só tem um episódio, ao contrário das séries e telenovelas televisivas... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, maio 06, 2026

Era apenas eu que queria que o cinema fosse mais parecido com as nossas vidas...


Atravessava o rio e queria, quase à força, que o cinema fosse mais parecido que as nossas vidas que as telenovelas. Pelo menos com as vidas que queríamos ter, ou tivemos, quando pensávamos que éramos felizes...

Neste caso, não importava nada que a felicidade seja fosse só uma ideia.

Talvez tivesse tudo a ver com a possibilidade de se contar uma duas ou três histórias em apenas hora e meia, mais minuto menos minuto. Não se ter de ir buscar "palha" ao palheiro para andar a encher tempo de tempo, transformando uma simples história de cordel em algo enfadonho e repetitivo, apenas porque tem de durar meses e meses...

O mais curioso foi pensar nestas questões quase técnicas e não nas coisas que dissemos, antes e depois do filme.

Também não pensei no filme, porque era daqueles para falar apenas no dia ou na semana seguinte.

Talvez estivesse a valorizar o cinema, por ter visitado uma sala especial e por já não ver um filme às escuras e em silêncio (ali não se vendem pipocas...), há mais de meia dúzia de anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, maio 03, 2026

Festejar a Mãe com o cinema e com os museus...


Embora a minha mãe tenha nascido e crescido numa aldeia, onde nem mesmo a menina mais afortunada, aprendia a tocar piano e francês, nunca lhe passou ao lado a importância das coisas bonitas e curiosas no nosso crescimento.

Hoje ao almoço, nas Caldas, perguntei-lhe por que razão, na minha meninice e na do meu irmão, nos levava às matines do cinema e uma ou outra vez, ao Museu José Malhoa.

Disse-me que isso acontecia por passar muitos domingos sozinha connosco (o pai era caçador e preferia passar os domingos aos tiros que a passear com a família...) e que de vez enquanto, sentia necessidade de arranjar programas diferentes para nós...

Disse-lhe que foi graças a Ela, que gosto tanto de cinema e que me sinto tão bem dentro de museus...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, janeiro 30, 2026

O quase mestre da "escola de mulheres"...


Só estive uma vez com João Canijo, e foi por um mero acaso, estava com um amigo comum ligado ao mundo dos filmes e acabámos por conversar durante alguns minutos.

Isto já foi há uns anitos, foi pouco tempo depois dele acabar as filmagens de "Fátima". Ainda devíamos estar em 2016.

Acabámos por falar da "legião de mulheres" que o seguia, algumas das quais chegaram a ser suas companheiras. O Nuno disse que devia ser do "mel" que ele tinha lá em casa, como se o João não estivesse ali. Acabámos os três a sorrir, sem que o realizador abrisse muito o jogo. 

Pensei nisso ontem, quando li a notícia, de que tinha sido encontrado na sua casa, em Vila Viçosa, sem vida, pela empregada doméstica.

Sim, as mulheres são muitas vezes um enigma para nós, homens, porque fazem questão de fazer as coisas ao contrário do que estamos à espera. Digo isto sem qualquer onda de machismo ou feminismo. Somos diferentes, ponto final.

Elas têm muitas coisas em doses superiores a nós, como seja a força (de viver, não é a física...), a sensibilidade, a visão e a manha...

Provavelmente o João Canijo "viu mais longe" (como elas...),  que a maioria de nós, as pequenas e grandes coisas sobre a natureza feminina. Isso poderá explicar a relação que tinha com a Rita Blanco, a Anabela Moreira, a Beatriz Batarda ou a Cleia Almeida e os excelentes filmes que realizou com elas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 23, 2025

Um dos sorrisos mais bonitos do cinema


Claudia Cardinale deixou-nos hoje.

Foi uma das actrizes que mais encheu as telas com o seu sorriso bonito, num tempo em que a beleza era fundamental na sétima arte.

O curioso, é nunca ter sentido qualquer ameaça de uma Marylin Monroe, de uma Ava Gardner, ou de geografias mais próximas, de uma Sophia Loren...

Sim, nunca lhe faltaram filmes, bons, maus ou assim assim. Em qualquer deles, a Claudia dava nas vistas, muito graças ao seu sorriso, que fazia com que qualquer assassino do Oeste baixasse as armas...

(Fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, setembro 16, 2025

Robert Redford: um dos raros actores que era tão, ou mais importante, que os filmes onde brilhava...


Embora este "Largo" tenha "Memória", ultimamente não tem feito homenagens às pessoas com mais de "dois metros", que nos vão deixando, como aconteceu agora com Robert Redford.

Redford foi muito mais que um actor bonito, conseguiu acrescentar sempre algo, aos seus papeis no cinema. Foi um dos raros actores que conseguia ser tão ou mais importante, que os filmes que protagonizava. São muito poucos os que têm este talento. Os primeiros nomes que me ocorrem são os de Robert De Niro e Meryll Streep, mas há também um Tom Hanks ou um Al Pacino, e pouco mais... 

Não esqueço Os Homens do Presidente, um filme de culto do jornalismo e da política (foi exibido, estudado e criticado no Curso de Jornalismo que fiz no Cenjor...). Embora ele tenha deixado a sua marca em todos os filmes que entrou (largas dezenas), mesmo os mais banais.

Além de actor também dirigiu alguns filmes, tendo mesmo ganho o óscar de melhor realizador com Gente Vulgar (que também foi melhor filme).

Mas Robert Redford não se ficou por Hollywood, nem viveu à sombra dos seus louros ou da sua imagem, foi o principal responsável pela criação do melhor festival de filmes independentes dos Estados Unidos da América, o Sundance Film Festival.

(Fotografia de autor desconhecido - uma cena de Os Homens do Presidente, onde contracenou com Dustin Hoffman)


segunda-feira, setembro 01, 2025

É tudo mais simples, até os "efeitos especiais"...


Os meus filhos espantam-se que eu seja capaz de parar o meu tempo e sentar-me no sofá a ver uma "coboiada", num dos canais do agora Star.

Nada daquilo lhes interessa, desde as histórias aos actores, passando pela simplicidade dos diálogos e dos planos de fundo (embora eu só veja os filmes bem realizados onde entram actores e actrizes que gosto. Não consigo ver,  por exemplo ,os westerns falados em italiano - têm demasiado "spaguetti"...).

Às vezes questiono-me, porque gosto destes filmes, alguns dos quais já vi mais de uma dúzia de vezes. Talvez esteja mais agarrado ao passado - ao que já não existe - do que penso. Ou então continuo a gostar das mensagens sociais que são passadas, bastante simples e directas. 

Mensagens que já quase ninguém liga (as guerras estúpidas que se estão a prolongar no tempo e a matar todos os dias inocentes são o melhor exemplo)...

Pegando nas minhas últimas palavras, isso nem devia fazer muito sentido, porque nestes filmes também se "mata por tudo e por nada". No entanto há qualquer coisa em bruto (e também brutal) nestas fitas, que nos ajuda a perceber a natureza humana, até onde vai a ambição e a maldade do homem, sem nos esconder nada, ao contrário dos muitos jogos de palavras da actualidade, onde ditadores como Putin ou Natanyahu, apesar de ser uns assassinos do piorio, são capazes de dizer com o ar mais sério do mundo, que "lutam pela paz"...

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)


sábado, agosto 30, 2025

"A Janela Alta" de Raymond Chandler


Nas minhas voltas por Almada, de vez em quando passo pela Casa da Cerca, onde continua a ser possível visitar os jardins e dizer olá ao Tejo (as salas de exposições continuam fechadas e são um dos vários exemplos de obras de "santa engrácia" da Cidade...).

Depois de passar ao lado das "janelas altas" com vista para o Rio, descobri uma banca com livros com um convite para os levar de viagem, para serem lidos.

Os meus olhos pararam num policial da "Colecção Vampiro", do Raymond Chandler, que mesmo sem chegar aos calcanhares de Ross MacDonald (o autor mais lido da minha carreira de leitor...), me lembrou Bogart, provavelmente o melhor Chandler do cinema. Depois apeteceu-me voltar a ler as aventuras dos detectives do mundo escuro dos Estados Unidos da América e trouxe o pequeno policial, com um título que tinha mais que ver do que pensei na altura, com aquele lugar agradável, as tais janelas altas, onde se podem ver as muitas barcas que navegam no "melhor Rio do Mundo"...

E depois aconteceu a leitura rápida deste género literário. Sim, bastaram dois dias para "devorar" as 243 páginas escritas pelo bom do Chandler, em mais uma história com dólares, chantagens e assassinos.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, julho 05, 2025

As "duas vidas" do cinema português, uma para o povo e outra para intelectuais...


Desde que me interesso por cinema, que assisto a discussões intermináveis sobre as fitas portuguesas e os nossos realizadores.

O Mestre Manoel de Oliveira foi sempre uma das figuras mais contestadas, até pelos seus pares, porque a inveja sempre foi, e será, aquela coisa pequenina e quase "terrorista". Embora lhe reconheça alguma lentidão e fixação exagerada nos planos (o que para os seus admiradores mais pacientes é poesia...), ele sempre teve uma ideia  do que é cinema. Ou seja, o seu passado e presente, mereceram todo o apoio que teve, e não apenas para que Oliveira ficasse no "guiness" como o realizador com mais idade e experiência da Sétima Arte. Quem tem um mínimo de conhecimento do que é Arte, sabe que o Mestre Manoel foi um dos nossos melhores artistas.

O que normalmente se discute é o "cinema de autor" e o "filme comercial", como se estes fossem inimigos e não pudessem conviver uns com os outros. E como em tudo na vida, as posições de quem faz estes filmes, em vez de se irem aproximando, vão ficando cada vez mais distantes. O ideal era que não se fizesse cinema apenas para o nosso imaginário (umbigo talvez ficasse melhor...), nem se explorasse tanto o que existe de mais popularucho (a graçola manhosa a querer imitar os senhores Santana e Silva, mas muito longe da sua qualidade...). Ou seja, que se pensasse a sério nos espectadores. Mas o mundo é o que é...

Estou a escrever sobre cinema, porque há dois filmes portugueses em exibição que têm sido olhados de forma diferente pelos críticos. Falo de Portugueses de Vicente do Ó e de A Vida Luminosa de João Rosas. Se o primeiro tem sido "deitado abaixo", o segundo tem sido apreciado pela maioria das pessoas que escrevem nos jornais sobre cinema.

Embora compreenda a "defesa" do filme feita por Vicente (também nos jornais), não acho que ele ganhe alguma coisa em se preocupar mais com terceiros que em explicar as coisas menos compreensíveis do seu filme. 

E pelo que tenho lido, se há fita que seja capaz de me levar de regresso às salas, será A Vida Luminosa do João, porque se aproxima mais do que gosto de ver e sentir no cinema.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 27, 2025

Conversas, pensamentos e mudanças...


Por me reconhecer conservador nos hábitos e avesso a mudanças (especialmente as tecnológicas...), tenho dificuldade em aceitar "verdades" que querem se tornar "absolutas".

Estava no meio de cinéfilos, a ouvir falar das últimas novidades, eu que não piso uma sala de cinema, há já uns anitos (lá vem a "pandemia" servir de "baliza temporal" e dizer-me que já são mais de cinto anos...).

A vida muda, nós mudamos (ou deixamos que nos mudem...) e há coisas que deixamos de fazer, por isto e aquilo, e depois é um "sarilho" para voltarmos ao antigamente...

Mas não era nada disso que queria falar, nem tão pouco do meu vizinho que veste o fato todos os domingos para ir à missa (eu que às vezes penso que já nem fato tenho...), com quem me cruzei no regresso a casa, antes do almoço. 

Fiquei a pensar foi na conversa do João, de que a rapaziada nova só vai ao cinema para encher a barriga de pipocas e sentir os efeitos especiais quase ao "vivo". Naquele momento duvidei, mas na viagem de regresso até à Quinta da Alegria, comecei a concordar e quando abri a porta de casa, já estava de acordo com ele.

Olhei para o exemplo dos meus filhos, que quase só vêm televisão no computador (séries e filmes...) e até nos minúsculos smartfones, quando andam pelo mundo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, fevereiro 26, 2025

Os "Verdes Anos" de Paulo Rocha (e de Carlos Paredes, Isabel Ruth e Rui Gomes...)


Há dias revi os "Verdes Anos" de Paulo Rocha (RTP2), filme que marca o inicio do chamado "cinema novo" português.

É giro, que cada vez que voltamos a rever um filme, descobrimos sempre coisas novas. Neste caso em particular, não via esta fita há uns vinte anos (ou mais...), pelo que fiz uma leitura mais política, olhando para as personagens (todas) como o retrato de um país cinzento, que não tinha nada para dar às pessoas, especialmente os jovens, que são sempre as principais vítimas de todos os governos que fingem governar...

E neste caso em particular, havia a guerra colonial à espera dos rapazes, pelo que a emigração masculina significava muitas vezes mais que um sonho, era a fuga a uma realidade que matava...

Há muito bom gosto nesta realização de Paulo Rocha. Além da boa escolha do par que protagoniza a longa metragem (Isabel Ruth e Rui Gomes), há a guitarra de Carlos Paredes que enche o écran. A fotografia também é muito boa. É curioso, o realizador mostra-nos as avenidas novas que crescem e ocupam uma nova parte da cidade, mas também as zonas campestres, que continuavam a resistir ao tempo, à medida que se íamos afastando do centro da Capital.

O filme retrata mesmo um tempo de mudança, no país e no cinema...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, dezembro 18, 2024

Um argumento forte, como ela...


Cada vez nos era mais difícil dizermos que ela não era actriz.

Puxava da lista da sua filmografia, com a participação em mais de 30 fitas e nós olhávamos uns para os outros, sem saber o que dizer. Escutávamos as suas palavras, naquela sua voz muito fininha, que não resultava em televisão ou cinema, a não ser para interpretar uma qualquer personagem complexa e ridícula. Só que, esses papeis complicados, estavam destinados para os bons actores e não para meros figurantes...

Ela merecia ser confrontada com a realidade, com o facto de nesses trinta e poucos filmes, não ter dito mais de trinta palavras...

Mas para quê? Estragava-se o sonho, a ilusão, ou o que lhe queiramos chamar.

Pensava que ela não sabia como era tratada nas ausências. Estava enganado. Foi ela que me disse, para não me preocupar se ouvisse chamarem-lhe, a "actriz gorda". Acrescentando que essa era a prova de que ela era mesmo actriz...

Parecia ser um argumento forte, parecido como ela...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, novembro 09, 2024

A "Fenomenologia do Entroncamento" nas Culturas


Se o mundo se tornou um lugar mais estranho, o normal é que aconteçam muitas mais coisas estranhas, que no tempo em que tudo parecia ligeiramente mais normal.

E isso acontece em todas as áreas da sociedade. A cultura, apesar de esquecida, vezes de mais, não escapa às estranhezas deste tempo...

Vou dar apenas dois exemplos, só deste nosso Portugal: editam-se muito mais livros que há dez anos, mesmo que os leitores sejam cada vez mais menos; fazem-se também mais filmes falados em português, mesmo que espectadores continuem a preferir a língua inglesa.

E é possível viver assim, muito tempo? às vezes sim. Depende dos expedientes usados para se tentar "sobreviver"...

Acontece que os custos de produção de ambas as áreas são cada vez mais reduzidos: as tiragens são cada vez mais curtas no mundo dos livros - há primeiras edições de apenas de 100 exemplares;  os filmes produzidos têm muito menos custos e são realizados quase de forma caseira.

E ainda bem que somos bons na "guerra da sobrevivência", é a explicação simplista para a existência de um número significativo de livros e filmes portugueses novos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 22, 2024

O cinema a ajudar-nos a reflectir sobre a loucura, a arte e a humanidade...


Um dia destes, acendi a televisão (é curioso, que tanto posso acender a televisão mal me levanto como deixá-la quietinha e em silêncio até às notícias da noite...) e fui surpreendido, pela positiva.

O canal que apareceu era um de filmes (é uma pena repetirem tanto os filmes quando existem milhares e milhares de clássicos de qualidade...) e a primeira imagem que vi foram os olhos azuis de Willem Dafoe, que fazia o papel de Vincent Van Gogh, esse extraordinário pintor dos Paises Baixos.

O filme já ia a meio e eu fui vendo, enquanto preparava o pequeno almoço e a mesa de trabalho.

Provavelmente já tinha visto o filme, mas nunca com esta intensidade. Tanta reflexão sobre a loucura, a arte e a humanidade, que ía aparecendo nas imagens, graças ao talento de Dafoe, que faz mais um dos seus vários "papéis de uma vida" (há actores que são assim, não estão logo na primeira fila de Holywood, mas são essenciais para os filmes graças à forma como dão vida às personagens). 

Fiquei com a sensação que só ele era capaz de nos oferecer tanta sensibilidade e intensidade, neste filme sobre os últimos anos de vida de um pintor que tinha tanto de genial como de problemático, devido à sua débil saúde mental.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, setembro 02, 2024

"Adeus Politécnica" (depois de outro e outro adeus)...


Na sexta-feira passei pela Rua Politécnica e reparei na faixa colocada pelos Artistas Unidos, no gradeamento da entrada do jardim. A Companhia, sem o Jorge Silva Melo, ainda ficou mais desprotegida, porque "dizer continua a ser muito diferente de fazer"...

Enquanto caminhava lembrei-me do grande poeta, Zé Gomes Ferreira, que assistiu à substituição de cafés por instalações bancárias (curiosamente hoje também em vias de extinção...) e deu mostras do seu desencanto nos seus livros, que quase pareciam diários. 

Não muito depois começaram a fechar as salas de cinemas. Mais tarde foi o tempo de se fecharem livrarias... Inventaram desculpas (inventam sempre...), apenas para meterem as salas de cinema dentro dos centros comerciais, tal como depois fizeram com os livros, que passaram a ser vendidos quase ao lado das batatas e do arroz, nos hipermercados... 

Agora nem sequer se viram para o teatro e para os grupos independentes, com salas próprias, limitam-se a cortar os apoios. 

Nunca vão ter a ousadia acabar com o teatro e com os actores. 

Talvez pensem, sim, em os substituir... 

Não é por acaso que os políticos são quem "faz mais teatro" entre nós (mesmo que sejam uns actores medíocres...). Envolvem-se diariamente em farsas, dramas, comédias e tragédias (para os outros, claro) e depois fingem que não é nada com eles.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 14, 2024

«Olho para nós e só descubro filmes, peças de teatro e livros, que nunca vão ter vida própria.»


Estou tempos e tempos sem aparecer. Mas às vezes preciso mesmo de entrar naquele velho café, com mais histórias que clientes. É como se precisasse de me "carregar de raiva", daquela que depois se vai embora, à medida que regresso à Margem Sul, primeiro a pé e depois de metro ou autocarro. Às vezes estou no cacilheiro e pareço já estar "curado"...

O velho Henrique continua atrás do balcão, a música de fundo também é a mesma, um jazz longínquo. Sim, por ali para ouvires música, tens de estar em silêncio ou falar baixinho. O Jorge aparece às três da tarde para almoçar e a Catarina para beber café. São o "material humano fixo" daquele ninho de "pássaros feridos", o resto da malta vai aparecendo, sem hora ou dia marcado...

O Raul gosta de nos chamar "vencidos pela vida", confessa mesmo ser incapaz de se tornar amigo de alguém bem sucedido neste "país de merda". Também faz filmes de publicidade, mas ao contrário do Jorge finge não querer nada com o cinema, muito menos o português...

O Jorge tem três fitas começadas, que provavelmente nunca irão visitar qualquer sala de cinema. Desculpa-se com a idade, com o ter ultrapassado os cinquenta e ter perdido a "chama do ir à luta". Sei o que é isso, mas não tenho a certeza de a ter perdido de todo, agora que passei para o lado dos sessentões. A Catarina, menina ainda dos quarentas, sorri, mas não esconde o nervosismo, enquanto acende um cigarro e não quer olhar para o que se passa lá fora, na rua.

Foi nesta altura que o Jorge disse: «Olho para nós e só descubro filmes, peças de teatro e livros que nunca vão ter vida própria.»

Em vez de chorarmos, sorrimos.

Claro que não era bem assim. A Catarina tinha acabado de realizar um filme. A questão era mais complexa do que parecia. E lá apareceu o Fernando Lopes - um dos "nossos deuses" -  à mesa. Ele, mesmo com a qualidade que tinha como realizador, também viu um ou outro filme ser "chumbado" por aquela coisa estatal que é mais audiovisual que cinema. E não foi caso único. Estávamos todos de acordo, alguns daqueles chumbos não conseguiam disfarçar o "gosto da humilhação" e o "perfume da vingança", latentes nos elementos do júri.

Pelo menos desta vez não deixámos os sentimentos de revolta despertarem, em vez de "lamber feridas" "contámos anedotas".

Até porque estávamos a gostar da música escolhida pelo Henrique e lá fomos conversando, calmamente, sem que o jazz saísse do tom...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)