domingo, abril 14, 2024

«Não foi para isto que fiz o 25 de Abril!»


O meu único amigo, que foi "Capitão de Abril", era uma pessoal especial. Conversámos sobre muitas coisas que continuavam mal explicadas e outras que não nos deixavam qualquer dúvida, sobre todo o processo revolucionário.

Uma das coisas que mais o irritava, era ouvir, um ou outro camarada de armas, em momentos mais polémicos do nosso país, dizer: «Não foi para isto que fiz o 25 de Abril!» 

Irritava-o por duas razões, pela exploração do "eu", quando a Revolução foi um Movimento Colectivo, mas sobretudo por saber que as questões mais importante tinham sido resolvidas com o 25 de Abril de 1974.

Ele dizia com um sorriso, que o novo regime democrático devolveu-nos a Liberdade e a Paz. Só por isso, a tarefa dos Capitães ficou cumprida. 

50 anos depois não tenho dúvidas, de que o Carlos, estava mais que certo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 13, 2024

Como dizia o Poeta Eduardo: isto está tudo ligado (e está mesmo...)


Não deixa de ser curioso, que sejam muitos destes liberais, empresários e gestores, que se dizem defensores da "família tradicional" (há a possibilidade de as suas teorias serem só para os condomínios de luxo onde vivem, desgostosos por oferecerem às esposas todas as condições para lhes darem "um magote" de filhos, e elas não estarem para aí viradas...), quem mais tem contribuído para o empobrecimento da maior parte das famílias portuguesas, pagando ordenados miseráveis aos seus "colaboradores", ao mesmo tempo que lucram milhões.

São eles, os defensores e grandes beneficiados deste capitalismo selvagem (com a tal capa do "liberalismo"), que tem desregulado todos os sectores da nossa sociedade, com a teoria de que o "mercado tudo conserta" (mesmo que cada vez existam mais pobres e miséria à sua volta...), quem mais têm contribuído para que cada vez seja mais complicado constituir famílias (tradicionais ou das outras) e deixar descendentes. Com ordenados baixos, casas caríssimas no mercado, o mais sensato continua a ser dar ouvidos ao "apresentador da obra" em causa, que há uns anitos aconselhou os jovens a emigrarem...

Podem escrever os livros que quiserem, mas se continuarem a pensar apenas nos cinco por cento, que têm rendimentos que lhes permitem alimentar o sonho de ter, no mínimo, um número de filhos que lhes dê o prazer de formar uma equipa de "futebol de cinco", continuam a reduzir o mundo aos seus condomínios fechados, ao mesmo tempo que "expulsam" os nossos jovens para fora do país...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 12, 2024

O "silêncio ensurdecedor" das mulheres portuguesas (as "esquerdistas" do costume não contam...)


Estava à espera de assistir a reacções mais contundentes das mulheres portuguesas sobre o que alguns homens escreveram (num livro) e disseram (na apresentação e depois). Sim, alguns não se sentiram completamente realizados na sua tarefa da defesa da "família tradicional" e já vieram com propostas ainda mais "interessantes", como a do "estatuto da dona de casa".

Não frequento as redes sociais, pelo que não sei se estou completamente certo, sobre este "silêncio ensurdecedor" das mulheres portuguesas (tanto as antigas como as modernas).

E há ainda outra questão: até podem haver por aí muitas mulheres que querem que se volte ao tempo em que elas se limitavam a ser mães e donas de casa... Só que isso só poderá ser garantido a uma minoria de mulheres (as esposas dos "empresários" e dos "políticos"  bem sucedidos do nosso país...), pelo menos com um nível de vida economicamente aceitável.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, abril 11, 2024

A nossa irracionalidade (tão mal disfarçada)...


Pois é, também pertencemos ao grupo de animais (racionais é apenas um apelido...), num mundo onde continua a imperar a lei do mais forte.

Embora eu soubesse, o Carlos fez questão de quase "me esfregar na cara" a nossa animalidade, com os exemplos de Gaza e Ucrânia, onde se mata, tortura e faz sofrer o semelhante, por razões que a própria razão e a nossa humanidade começa a desconhecer (ou nunca conheceu...).

Isto claro, se esquecermos o negócio das armas, que vai de vento em popa, para a América dos loucos (sim loucos, que malucos somos nós, que fingimos não conseguir viver sem eles...) ou para a China, que fingiu ser uma "loja dos trezentos" para nos comer a todos por parvos, aqui nas europas... e até para a Coreia dos nortes e o Irão.

Como o Carlos disse, somos mesmo uns "gatinhos" (até me sugeriu uma fotografia...)...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 10, 2024

As Gaivotas na apropriação do espaço público e no fingimento de que são "animais domésticos"...


Ontem fui surpreendido por uma gaivota na minha varanda, que dava bicadas nos vidros (vá-se lá saber porquê...). Quando fui ver do que se tratava, dei com a descontração e ligeireza, como ela passeava na varanda aberta.

A minha primeira reacção foi buscar a máquina fotográfica. Normalmente elas quando vêm uma máquina fogem (penso que  se deverão assustar com o reflexo da lente...), esta não. Mesmo quando abri uma das portadas, ela limitou-se a subir para o parapeito e por ali ficou, quase em desafio. Tirei três fotografias e depois aproximei-me um pouco mais, para a fazer voar e tirar uma fotografia com o seu voo (algo que não consegui). Mas ela não foi para longe, poisou no parapeito da varanda do vizinho de lado, antes de decidir partir para os céus.

Estava a espera que regressasse hoje, mas ainda não aconteceu. E ainda bem.

Não acho muita piada a este "fingimento" de que são aves à procura de espaço na lista dos "animais domésticos", com a sua aproximação. É dessa forma que se aproximam, cada vez com mais lata, das esplanadas, em busca de restos de torradas ou de bolos, dando um "chega para lá" aos pombos. Pombos esses, que não lhes devem achar nenhuma piada (e com toda a razão, mesmo que no mundo animal ainda prevaleça a lei do mais forte...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, abril 09, 2024

Abril lembra-nos que a Liberdade é outra coisa...


Ontem visitei um amigo, que quase que não sai de casa, que é das pessoas mais honestas e autênticas que conheço. Tem um defeito e uma qualidade (depende sempre do ponto de vista...), que é ser comunista.

Mas antes de ser comunista, é um Amigo, e dos melhores...

Apesar da sua "ortodoxia" (é daqueles que será Comunista até ao fim dos seus dias), nunca achou piada às "cassetes" e ao quase "coro das velhas", ditados pelo Partido, como se todos fossem obrigados a dizer e a pensar as mesmas coisas.

Uma das melhores provas de amizade que me deu foi a minha defesa que fez numa reunião partidária (nunca falámos sobre isso, foi uma terceira pessoa que me contou o que aconteceu...), quando numa homenagem pública a um grande almadense (o professor Alberto de Araújo), as pessoas que estavam na mesa, quiseram trasnformá-la um comício político do PCP. E no final, levantaram-se todas e ergueram o punho fechado e começaram a gritar: "PCP, PCP, PCP" (a excepção fui eu e uma jovem jornalista que estava a meu lado, ficámos ambos sentados, em silêncio, a olhar um para o outro...).

Nem se pode falar de um acto de coragem (embora nunca fosse uma "maria vai com as outras"). Fui de tal forma surpreendido por aquela reacção colectiva, que me senti a mais naquele filme... e fiquei sentado. E ainda bem que o fiz (algumas pessoas podem ter começado a olhar-me de lado na rua, mas sai dali sem qualquer problema de consciência).

Como devem calcular, houve até quem quase me chamasse "fascista" nessa reunião. Foi por me conhecer bem, que este Amigo fez a minha defesa. O seu argumento mais contundente foi: "Se ele não pertence ao Partido, por que razão é que se deveria ter levantado?" E conseguiu silenciar alguns dos meus "inimigos de estimação"...

Mas onde eu queria chegar, é ao ponto que mais me afasta do PCP. Curiosamente, é o mesmo que me afasta da Igreja Católica: o seu tom de superioridade em relação ao resto da sociedade, agirem como se eles fosse os "bons" e os outros fossem "os maus" (em quase tudo...). 

Quem ama a Liberdade e conhece o Mundo, sabe que isso não existe, sabe que há gente boa e má por todo o lado, e ainda bem.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, abril 08, 2024

«Sei que se tivesse estudado, estudado a sério, fazia filmes...»


Quase do nada, o velho que estava ancorado no banco ao pé da minha casa, disse: «Sei que se tivesse estudado, estudado a sério, fazia filmes...»

Ele não me disse aquilo como se estivesse no "muro das lamentações", mesmo que não escondesse que gostava de ter tido as possibilidades que outros tiveram... E antes que lhe fizesse alguma pergunta acrescentou: «Gostava de ter nascido em Lisboa, a Terra das salas de cinema.»

E depois assisti, em poucos minutos, à "história da sua vida"...

Foi a tropa que o trouxe do distrito da Guarda para a Capital. Assim que se apanhou em Lisboa, soube que nunca mais ia regressar para a aldeia onde nasceu. A família? Se tivessem saudades que viessem vê-lo a Lisboa... Foi deixando o tempo passar e esteve quase quatro anos sem pôr os pés na Terra onde nasceu. Casou e só quando foi pai pela primeira vez, é que decidiu que já era tempo de voltar, para mostrar a filha aos pais. A partir daí voltou mais vezes, mas fingia que vivia na América e só aparecia de dois em dois anos, e eram visitas quase mais curtas que as de médico.

Deixou a família e a aldeia para trás, porque o que queria era voltar ao cinema...

Não sabe quantos filmes viu. Sabe apenas que foram muitos, muitos... Ainda hoje, a única coisa que o prende à televisão, são os filmes, até mesmo aqueles que se adivinha o fim logo no princípio...

Quando lhe perguntei se alguma vez teve uma câmara de filmar, disse-me que não. Sorriu e disse, que não foi esse pequeno pormenor que o impediu de fazer "filmes", dentro da sua cabeça, de olhar para as coisas e deliciar-se com o movimento, com a possibilidade de inventar um mundo diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 07, 2024

Não, Obrigado (regresso do Serviço Militar Obrigatório)


Não encontro explicações racionais para o facto de a nossa democracia, aliás, o bloco central (os Socialistas e os Sociais Democratas) sempre terem tratado as Forças Armadas sem a dignidade que mereciam, desvalorizando a sua importância na sociedade.

Não sei se foram "traumas" por a Revolução de Abril de 1974 e a transição democrática ter sido feita por Militares, por serem eles os nossos "Heróis da Liberdade", e não os políticos e os partidos.  A única coisa que sei, é que tanto o PS como o PSD, foram-se servindo dos Militares, quando lhes dava jeito, ao mesmo tempo que adiavam as reformas tão necessárias (e que nunca foram realizadas por inteiro...).

É importante dizer que isto aconteceu, quase sempre, com a cumplicidade dos generais e almirantes, que nunca foram capazes de abordar os problemas criados com o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO), que foi encurtando cada vez mais o número de homens e mulheres que queriam seguir a vida militar, dificultando o cumprimento das missões em terra, no ar e no mar. 

Se pensarmos que o SMO acabou há mais de 20 anos. E que os Governos e as chefias militares nunca se uniram para tornar a vida militar atraente para os jovens (além de oferecerem poucas perspetivas de futuro e de formação, os ordenados  foram sempre baixos...), não será com o regresso desta obrigatoriedade, que as coisas irão melhorar.

Aliás, só se começou a falar do regresso do SMO, com alguma insistência, porque começa a não haver gente para cumprir os "serviços mínimos", uma vez que cada vez é mais difícil recrutar jovens voluntários para a vida militar. O problema é que os defensores  desta proposta não estão a pensar em melhorar condições para quem quiser ser militar. Estão sim, a pensar que com a "obrigatoriedade" deste serviço, pode acabar-se com o défice humano existente, ao mesmo tempo que se consegue de volta a antiga "mão de obra barata".

É demasiado óbvio que esta tentativa de trazer de volta o SMO, não tem nada de reformista, nem pretende melhorar as condições oferecidas aos militares. É por isso que estou completamente contra este regresso ao passado. 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 06, 2024

Um Outro País, a 6 de Abril de 1974...

Vou regressar ao Portugal de antes de 25 de Abril de 1974, demasiado pobre e atrasado, em todos os sectores da sociedade. 

Hoje vou falar da educação. Posso começar por falar da separação que existia de sexos, das aulas só para meninas e das aulas só para meninos, assim como os respectivos recreios... mais ao jeito de curiosidade, que de outra coisa.

A taxa de analfabetização em 1974 ainda ultrapassava os 25%, um quarto da população (há quem fale numa taxa maior, porque nestas estatísticas era contabilizada a frequência escolar, mesmo que este fosse irregular e os alunos não tivessem os conhecimentos mínimos, na arte de ler e escrever...), com maior incidência no sexo feminino (superior a 30%). Mas esse nem era o problema mais grave. Até se tinha vindo a reduzir, ainda que lentamente, ao longo dos anos...

Só que quanto mais se subia, mais o número de alunos encolhia...

O número de estudantes formava uma verdadeira pirâmide, desde o primeiro ano (primeira classe) até ao ensino superior, que só estava acessível às classes mais privilegiadas, economicamente.

A maior parte das crianças ficavam-se pela quarta classe, especialmente no interior, onde escasseavam os liceus e as escolas técnicas nas Vilas e Cidades da maior parte dos distritos. Apesar da obrigatoriedade de todas as crianças frequentarem o ensino primário, imposta nos anos 1960, não se conhecem exemplos de qualquer tipo de penalização, para os pais que colocavam os filhos a trabalhar desde tenra idade, em vez de estudarem...

Se em algumas aldeias, as crianças para puderem ir à escola tinham de percorrer distâncias, por vezes superiores a dez quilómetros (só existiam escolas nas sedes de freguesia...), em relação ao ensino secundário, tudo piorava. Quem morava em Aldeias e Vilas mais afastadas, chegava a ter de percorrer distâncias entre os 20 e os 50 quilómetros, o que era um convite ao abandono escolar...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)


sexta-feira, abril 05, 2024

«Aposto que nunca se sente nua...»


Quando o homem disse para a jovem, que estava no palco. «aposto que nunca se sente nua...», todos os que os rodeavam interromperam o ensaio e ficaram a olhar, surpreendidos. 

Por breves instantes ficaram suspensos pelas palavras do encenador, depois sorriram. Aquilo podia parecer uma provocação, mas não era. Era mesmo uma constatação pelo que observava enquanto a jovem se expressava, pelas cores e imagens que faziam com que os braços e as pernas parecessem telas.

Há pessoas que acham que lhes é permitido dizer tudo o que lhes apetece, quase sempre pelos cargos que ocupam. Outras parece que gostam de "abusar da sorte". Fernando era uma dessas pessoas. Não falava muito, mas dizia sempre o que lhe apetecia, fazendo-se notar pelas coisas que dizia. Era por isso que era levado a sério.

Quando pararam para descansar, ele justificou as suas palavras, com a simplicidade que o caracterizava. «Olho para a Sara e sinto que ela tem uma segunda pele, mesmo sem nunca a ter visto sem qualquer peça de roupa. Imagino que o seu corpo seja igual aos braços e às pernas, esteja todo decorado.»

Todos ficaram a olhar, sem dizer uma palavra, provavelmente nunca tinham pensado no assunto, muito menos com  esta perspectiva. E depois ele continuou.

«Eu que não tenho nenhuma tatuagem, não tenho a sorte da Sara. Não consigo disfarçar nenhuma parte do corpo, nem tão pouco esconder a minha brancura, de quem não vai à praia há anos.»

Ficámos todos a sorrir. A Sara também sorriu e piscou o olho ao Fernando, com um aceno, como se concordasse com ele, na parte da nudez.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, abril 04, 2024

O cheiro destes dias de nevoeiro...


Quando me levantei e espreitei a janela, descobri uma manhã quase de nevoeiro cerrado. Apenas via a fachada do prédio de frente.

Depois abri a varanda e não foi difícil de descobrir o cheiro esquisito da atmosfera, que normalmente vem "colado" a estes episódios, em que parece que o "mundo desapareceu"...

Enquanto bebia café lembrei-me dos dias de nevoeiro do  Barreiro, no começo dos anos oitenta do século passado, em que o ar se tornava quase irrespirável, especialmente nas noites mais fechadas e húmidas. Sabíamos que as fábricas da Quimigal aproveitavam estas "quase barreiras" para misturarem os gases tóxicos das suas torres enormes com o ar que respirávamos, deixando à nossa volta um cheiro muito pouco saudável, povoado de enxofre, amoníaco e outras pestilências, que quase nos arranhava a garganta.

Nessa altura as fábricas ainda funcionavam a todo o vapor e falava-se pouco do ambiente. Mesmo que todos soubéssemos que a única coisa que aquelas coisas deviam fazer era aumentar o crescimento dos pelos no nariz, nas orelhas e nas costas... 

Claro que estou a brincar. Faziam pior que isso, de certeza.

Mesmo sendo das artes e não das ciências, continua a fazer-me muita confusão, que estes cheiros esquisitos só apareçam no ar nos dias de nevoeiro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, abril 03, 2024

Um Outro País, a 3 de Abril de 1974...


Nem sei por onde começar.

O País que existia a 3 de Abril de 1974, não tem nada a ver com este, em que vivemos, em 2024.

Onde se notavam mais diferenças era nas Aldeias, especialmente as das regiões do interior. Era um mundo vivido "à luz do candeeiro e à água do chafariz". Do saneamento básico nem vale a pena falar, porque só chegou a algumas aldeias, e já no século XXI...

Mesmo na aldeia dos meus avós maternos, que ficava a apenas a cinco quilómetros das Caldas da Rainha, já existia electricidade antes da Revolução, mas não em todos os lares. Como o meu tio Zé, estudava electricidade, na escola técnica, assim que esta apareceu em Salir de Matos, ele fez logo a instalação e passámos a ter "luz" (deve ter sido alguns anos antes do 25 de Abril, porque eu não me lembro da casa dos avós sem lâmpadas...), Mas recordo-me de visitar algumas casas de outros familiares (afastadas do centro da Aldeia) e de não existir luz eléctrica. Adorava o espectáculo proporcionado pelos candeiros a petróleo, com verdadeiros jogos de sombras  refletidos nas paredes, graças aos nossos movimentos. Sei que andava sempre de um lado para o outro com o meu irmão a ver a nossa sombra a crescer e a diminuir nas paredes (quando somos crianças brincamos com tudo...).

A água canalizada só deverá ter chegado a todas as casas, já nos anos noventa do século passado. Isso até se percebe, por o Oeste ser uma zona muito rica em água e quase toda a gente ter um poço. 

É curioso, que o chafariz onde se ia buscar a água para beber, da bica, com cântaros, hoje tenha um aviso, de que aquela água não e tratada e recomenda-se que não seja bebida,,,

Em relação ao saneamento, também deverá ter chegado nos anos noventa à aldeia, mas uma boa parte das casas, ainda mantêm o velho sistema da "fossa" (uma espécie de poço...).

Mas se falar da aldeia dos meus avós paternos, na Beira Baixa (Zebras), as coisas mudam de figura, para pior. Lembro-me, já depois do 25 de Abril, de a electricidade ainda não ter chegado. Havia uma única televisão na aldeia,  no também único café existente, que tinha um gerador para lhe fornecer energia... 

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos)


terça-feira, abril 02, 2024

A Gente Boa de Abril e de Almada


Cresci numa cidade conservadora, que nunca se livrou (por vontade da maioria das pessoas que votavam...) do domínio da chamada direita democrática (PSD). Mesmo hoje é governada por um movimento independente, cujo presidente é um "dissidente" dos sociais democratas. Embora tenha sido uma "lufada de ar fresco" não se podem esperar rasgos demasiado revolucionários na sua governação.

Falo de Caldas da Rainha. A minha ligação à prática desportiva desde cedo fez com que passasse ao lado de muitas coisas. Mas aquela mania de querer "mostrar aos outros", o que se tinha e não tinha, sempre me fez confusão à cabeça. Sim, ter vontade de fazer uma casa com mais um divisão ou comprar um carro mais caro, que o familiar, vizinho ou até amigo (é uma maneira estranha de se ser amigo, mas acontece...), só para mostrar que tinha subido mais um degrau da tal "escadaria social", como se isso fosse a coisa mais importante do mundo.

Felizmente foi possível partir aos dezoito anos para a Cidade Grande, viver os meus primeiros tempos com um casal solidário e amigo, cuja formação superior não os desviou das preocupações sociais, de olhar os outros, nem de sentir que o País se começava a desviar de uma forma significativa do sonho de Abril...

O Zé e a Elisete foram muito importantes para uma ainda maior consciencialização política, e para o bom uso que se devia fazer da liberdade individual. Embora os meus pais fossem de esquerda (tal como eu perdiam as eleições todas nas Caldas...), não tinham a cultura social e política dos primos.

Mas a grande mudança deu-se quando eu tinha 24 anos e escolhi Almada como o meu porto de abrigo. Em pouco tempo, senti logo que pertencia aquela gente, sem preconceitos e manias de grandeza. Por ser governada pela CDU, a cidade tentava resistir (e conseguiu por alguns anos...) ao cavaquismo e ao mundo dos "novos-ricos", que essa figura tão bem caricaturada como "múmia", trouxe para o poder.

Apesar das muitas transformações do País, a gente de Almada que tive o prazer de conhecer, era a minha gente. As pessoas que trato orgulhosamente pela "Gente Boa de Abril".

Não as vou enumerar, até porque são bastantes as pessoas que me ajudaram a ser um melhor ser humano e cidadão. Gentes que valorizavam sobretudo os valores colectivos e que continuavam (e continuam...) a sonhar com o "País de Abril"...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, abril 01, 2024

Bom dia Abril!


Há meses que achamos que são melhores que os outros, por razões várias. A escolha prende-se quase sempre com o clima. Depois há um ou outro caso, que se prende com acontecimentos, com memórias, e até mesmo com o mês em que nascemos.

É por isso que se eu dizer que Abril e Maio são os meus meses preferidos, é quase um lugar comum. Quem gosta de vida, de cor, de cheiros, dos campos, tem de gostar destes dois meses únicos (nem as alterações climáticas ainda lhe conseguiram roubaram algumas características muito próprias).

Abril tem ainda o atractivo de ser o mês da nossa Revolução mais recente, que comemora 50 anos daqui a pouco mais de vinte dias. É por essa razão que lhe irei dar uma atenção especial, com regressos ao passado, comparações que poderão ser uteis para quem "tem pouca memória" e passa o tempo a dizer mal de tudo (sem se preocupar muito em dar a sua pequena contribuição para que sejamos um País melhor...).

E é por isso que digo: bom dia Abril!

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


sábado, março 30, 2024

Duas boas notícias dentro de uma (se as coisas correrem bem...)


Ainda a pensar nos Museus, a primeira boa notícia na constituição do novo Governo é a manutenção do Ministério da Cultura, algo a que o PSD costumava torcer o nariz (nunca percebi porquê).

A outra boa notícia, que acaba por estar dentro da primeira, é a escolha do ministro, aliás ministra, Dalila Rodrigues, que por onde passou deixou um rasto de competência e de vontade de mudar as coisas para melhor (foi ela que "revolucionou" e deu a importância que o Museu de Arte Antiga sempre teve, mas que se fingia não perceber...). Acabou por sair, aparentemente em conflito com os responsáveis políticos pela Cultura, por defender algo que deveria ser normal em todas as instituições, haver uma gestão própria, inclusive do orçamento.

Nos últimos anos foi a responsável pelo Mosteiro dos Jerónimos e pela Torre de Belém, onde também se verificaram algumas mudanças positivas (até por serem dos espaços culturais mais visitados de Lisboa...).

Provavelmente, não é uma pessoa fácil e maleável, para lidar com o mundo da política, onde existem sempre demasiados jogos de bastidores e hipocrisias. Mas a sua experiência (já deve ter engolido um número considerável de "sapos"...), competência e saber, são um sinal de esperança, para todas as pessoas que, de alguma forma, estão ligadas à Cultura no nosso País.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 29, 2024

Pois é, as "mordomias" do funcionalismo público continuam a fechar museus...


Ontem não fui apanhado pelo "dilúvio", embora tenha andado pelas ruas de Vila Franca de Xira, que ameaçavam transformar-se em pequenos rios.

Tudo isto porque, "à última hora", apeteceu-me ir ao Museu do Neo-Realismo ver a exposição de fotografia de Alfredo Cunha.

Esqueci-me foi que estávamos em véspera de feriado e que a função pública tem particularidades muito próprias, como fazer "tolerância de ponto" (sempre que podem), fechando as suas instalações ao público.

Por poucos minutos (cinco), ou talvez não, é provável que fechassem as portas antes... embora o papel afixado na entrada do museu dissesse que a partir das 13 horas as instalações estavam fechadas e só voltariam a abrir depois da Páscoa.

Embora o tempo continue apenas bom para a agricultura durante esta quadra religiosa, não consigo perceber que instituições como o Museu do Neo-Realismo, não sejam mais importantes que o "funcionalismo público", que não pensem nos turistas que costumam aproveitar os feriados para passear  e podiam querer  conhecer esta "casa de história e de histórias", que venha a Vila Franca de Xira e descubra que "está de férias"...

Vou mais longe, não percebo (nem acho que faça muito sentido...) que um Museu que queira ser visitado por pessoas, funcione no modelo "das nove às cinco" e esteja fechado aos sábados, domingos e feriados (acontece em muitos museus municipais de Norte a Sul...), que é quando as pessoas que trabalham, têm mais disponibilidade para os visitar...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)


quinta-feira, março 28, 2024

«Desconfia sempre dos homens que se preocupam demasiado com o teu aspecto físico.»


«Desconfia sempre dos homens que se preocupam demasiado com o teu aspecto físico.» A frase vinha acompanhada de uma piscadela de olho. 

A conversa não era comigo, mas fiquei a sorrir por dentro. Mesmo sabendo que aquelas palavras se referiam a qualquer jogo de sedução sexual - aliás homo -, e não a uma simples singularidade corporal.

Completamente fora do contexto, pensei em dois jeitosos. Cruzara-me com um deles há meia-dúzia de dias, sem conseguir escapar de um cumprimento breve. Não nos encontrávamos há mais de quinze anos. E para mim até podiam ser cinquenta, pois passava bem sem aquele reencontro. Foi um dos tipos mais "ranhosos" que conheci nas culturas em Almada. A única coisa que ele disse, assim que me viu, foi: «Estás velho! Estás cheio de cabelos brancos.» limitei-me a responder ao cumprimento, sem dizer qualquer palavra, mas com vontade de sorrir.

Era verdade. Estava mais velho. O meu cabelo agora era cinzento (não estava nos meus planos pintar o cabelo), mas continuava a olhar para o mundo de frente.

O mais curioso do episódio era o aspecto do fulano. Embora pintasse a meia-dúzia de pelos que tinha na cabeça, estava quase marreco e usava óculos com lentes de copo de três. Para piorar o cenário, tudo isto vinha embrulhado em apenas metro e meio de gente.

Muitos anos antes, um outro jeitoso (também das culturas...), sempre que me via, tentava insultar a minha inteligência usando o meu corpo, mais concretamente a minha barriga (quase inexistente na época...). Dizia sempre a mesma coisa. «Estas mais gordo.» Depois de ele repetir a graçola umas dez vezes, perguntei-lhe se a minha barriga o excitava muito, olhando-o nos olhos. Desviou o olhar e respondeu-me apenas com um sorriso amarelo. Foi remédio santo, nunca mais se preocupou com os meus "tecidos adiposos", na barriga ou em qualquer outro lugar.

Nunca tinha pensado a sério nisso. Mas olhando para estes dois exemplos pessoais, é verdade. É mesmo de desconfiar...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, março 27, 2024

João Lagarto, ou a importância de um actor ( e da música, claro) dentro de "Tudo Isto é Jazz!"


Hoje festeja-se o teatro, por esse mundo fora. 

Lembrei-me do poema da AnyAna, das peças que escrevo directamente para a gaveta - sem lhes arranjar um final -, e sobretudo das salas que não visito e das peças que não vejo.

É por isso que vou falar de um acaso feliz, desta manhã. Enquanto trabalho, tenho muitas vezes a televisão ligada. Normalmente vejo coisas "atrasadas", que me passaram ao lado ou que não tive tempo de ver. Foi desta forma que "descobri" que na noite de domingo para segunda a RTP2 transmitiu o espectáculo, "Tudo Isto é Jazz!", de homenagem a Luís Villas-Boas, que fez cem anos este mês.

Comecei a ver o espectáculo que misturava jazz com teatro e a ficar deliciado com João Lagarto, que fazia (muito bem) o papel do "pai do jazz" no nosso País, e claro, com a música.

Não conheci muito bem Luís Villas-Boas (acho que o cheguei a entrevistar...), devo ter falado com ele duas ou três vezes. Mas mesmo assim penso que a personagem está muito bem caracterizada, até fisicamente (os óculos, o bigode, o penteado e os trejeitos pareceram-me excelentes...).

Felizmente houve pessoas como o Luís, irreverente, teimoso e desalinhado. Só desta forma é que é possível contrariar a "mediocridade" que se arma em sentinela nas ruas das artes e letras do nosso país (e se pensarmos nas coisas que fez durante as ditaduras salazaristas e marcelistas...) e virar algumas coisas, quase de pernas para o ar.

Felizmente escolheram o João Lagarto, para ser um Villas-Boas, quase autêntico, a falar com a normalidade possível, sem usar dotes declamatórios, passando em quase duas horas pela vida de um grande amante dessa música que hoje é de todo o mundo e de todas as cores (foi muito bem metida a frase, de que o jazz se dá muito bem com os climas frios, por ser também bastante amada e tocada no Norte da Europa...).

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, março 26, 2024

O bem e o mal (dentro e fora dos filmes), com e sem triunfos...


Se a vida cada vez é mais estranha, não se deve esperar que os filmes ou as peças de teatro, sejam muito diferentes. Mas nem é sobre isso que vou escrever.

Estou a deitar jornais fora e fixo a frase do realizador Victor Erice: «Reivindico o cinema da minha infância, que acabava com o triunfo do bem e do castigo do mal.» 

Fico a pensar na realidade e sinto que nunca foi bem assim. O mundo foi quase sempre dominado pelo "mal", mesmo que este se gostasse de disfarçar de "bom rapaz", durante séculos.

Quando leio a separação das coisas, entre o bem e o mal, a primeira coisa em que penso é nas religiões. Não consigo fugir dos homens das "igrejas", que faziam exactamente o contrário do que pregavam, sem se darem ao trabalho de dizerem para "olharmos" para o que eles diziam e não para o que faziam... 

Mesmo sem entrar nas suas práticas mais pecaminosas e reprováveis, ficando-me apenas pela sua postura em relação aos poderes (especialmente o político), que abraçavam com deleite, por defenderem ambos a sua opulência, a ignorância do povo e a existência de um "mundo com milagres", fico sempre de "pé atrás". 

Desconfio sempre de coisas que falam do triunfo do bem e do castigo do mal, especialmente das da minha infância...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 25, 2024

Ontem falei de títulos, hoje falo dos nomes das personagens dos livros...


Não conheci António Tabucchi. Mas li dois ou três livros da sua autoria. Entre os quais "Afirma Pereira", que despertou alguma confusão com o nome de personagens, à hora do café. O Jorge falou da existência de um senhor Ventura nesta sua história sobre Lisboa e sobre Pessoa. Quem lera o livro não se lembrava da existência da dita personagem (eu por ser péssimo em nomes, não entrei na discussão). Foi quando o Mário trouxe outro livro para a mesa, "O Senhor Ventura" de Miguel Torga, que tinha mesmo esta personagem. 

Se li o livro, não me lembro dele nem do senhor Ventura. O Mário disse que se tratava da história de um emigrante, um português mais perto do nosso Fernão Mendes Pinto que do comum emigrante dos arrabaldes de Paris, pois era bastante curioso e não tinha medo do mundo.

A existência deste livro fez com que o Jorge mantivesse a sua vontade de nos provocar, por causa desse grande mentiroso, que lidera a extrema-direita, que até foi capaz de inventar uma história de resistência e de fuga à guerra colonial de um nosso emigrante que partiu a salto para França, em 1976, eleito agora deputado pelo círculo da Europa.

E lá cometemos o erro mais comum dos jornalistas e comentadores: começámos a falar deste pequeno caso, de mais uma mentirinha do outro senhor Ventura. O Jorge queria saber se as pessoas tinham noção de que aquele sujeito tinha dificuldade em dizer uma frase sem mentir. A maior parte de nós, achámos que essa característica era secundária na vida política, só passaria a importante se ele alguma vez fosse primeiro-ministro, defraudando as espectativas dos seus seguidores como está a acontecer na Argentina, por exemplo.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, março 24, 2024

A importância (ou não) dos títulos


Nem sempre percebemos o porquê dos títulos dos livros e dos filmes, porque nem toda a gente tem jeito para essas coisas, nem escreve primeiro o nome e depois a obra, como fazia o nosso José Saramago.

A prosa é quase sempre mais simples de apelidar, porque normalmente não se mete em bicos de pés a ver se toca na lua. Também não costumamos questioná-los, mesmo que nos pareçam estranhos.

Nem nos nos lembramos que há pessoas capazes de escolher títulos esquisitos, só para nos verem a torcer o pescoço ou a pegar no livro de várias formas, para ver se sim, faz sentido. Sim, o mundo das artes e letras está infestado de provocadores, gente que ama a diferença, mesmo que ela seja a negação de tudo o que faz sentido.

Pensei nisto ao ler um conto, "A Galinha que não dava ovos", que não tinha lá dentro nenhuma galinha, nem sequer falava dos campos ou de aviários. Havia ali muito surrealismo. Embora não tenha encontrado a "galinha", sei que ela podia ser tantas coisas, até a televisão avariada, que continuava no mesmo lugar, onde antes falava e fazia companhia à avó.

Claro que quando estiver com a Carolina, vou perguntar-lhe duas ou três coisas, sem falar logo da galinha, que pode estar ali apenas para nos baralhar as ideias...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


sábado, março 23, 2024

"Um Amor Fora de Tempo", entre outras coisas, como o café...


Levanto-me da cama, faço a higiene pessoal minimalista, bebo um copo de água. Depois aqueço água para fazer café. 

A minha companheira passa pela cozinha e faz um "humm", de agrado, pelo cheiro desta bebida que me acompanha desde a infância, desde a casa da avó que tenho a sensação de que tinha uma cafeteira permanente ao lume (ou próximo...). Sim havia muito espaço em volta da lenha que ia queimando e aquecia a casa na metade do ano, que era mais fresca.

A minha mãe, provavelmente, também refém deste cheiro de infância, também fazia muito café, a nossa casa também abraçava este perfume tão especial.

Ligo a televisão e escolho a RTP3 e fico por aí. Falam de livros. Primeiro sobre livros com fotografias e com Abril, organizado pela Emília Tavares (vi que era um "calhamaço" mas não consegui saber o título), uma almadense que tenho o grato prazer de conhecer e é uma das pessoas que mais sabe de fotografia no nosso país.

Logo de seguida surgiu-me no ecrã, Carmen Yanez, poetisa e viúva de Luís Sepúlveda, um dos meus autores de culto, que nos fez uma síntese da sua história de vida e de amor, no Chile e no Mundo (reencontrara-se na Suécia, casados com pessoas diferentes...). Estava ali para falar do livro que escreveu sobre a sua história com Lucho, que tem como título, "Um Amor Fora de Tempo".

Fiquei logo com a sensação de que ganhara a manhã, com estes minutos de cultura televisiva (também existe, em dois ou três canais...).

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, março 22, 2024

Confusões (cada vez mais evidentes) sobre que é da esfera privada e da esfera pública...


Reparo que temos cada vez menos pudor a falar de alguns actos, que até aqui eram pessoais (e até privados), ao mesmo tempo que apontamos o dedo aos outros com mais facilidade, por coisas que ninguém tem nada com isso, por fazerem parte da nossa liberdade individual.

É desta forma que entendo o que o meu vizinho do rés de chão me disse (sem que eu lhe perguntasse...) que tinha votado no Chega. Disse-o com um sorriso provocatório. Apenas exclamei quase em jeito de interrogação: "Sério?!"

Continuou a sorrir. Percebi que sim. Dissemos mais duas ou três palavras de circunstância e depois cada um de nós foi à sua vidinha.

Fiquei a pensar no episódio. Ele disse-me algo que nunca me dissera. Algo que eu nunca lhe perguntaria. E somos vizinhos há mais de trinta anos. Embora eu também possa dizer em que partido votei, mas nunca o farei com um sorriso provocatório, nem sem que me perguntem. Mas, claro que nunca o direi a toda a gente.

O que para mim é claro, é que hoje se respeita menos a individualidade de cada um de nós (também por culpa própria, parece que não conseguimos, ou não queremos perceber, o que é da esfera privada e o que é da esfera pública...). 

Ou seja, temos menos de liberdade de sermos, falarmos e até de pensarmos o que queremos, muitas vezes por vontade própria.

E isto é agravado por uma vontade de querer "castrar" os outros - mesmo sem se recorrer a químicos -, quando sabem que pensam de forma diferente. 

E isso é cada vez mais perigoso para a democracia.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, março 21, 2024

Falar (e escrever) de poesia no seu dia...


Hoje festeja-se a Poesia.

Provavelmente o mais simples, o menos trabalhoso, seria "postar" um poema, daqueles bonitos (há os por aí aos milhares...).

Nos últimos anos tenho lido mais poesia (foi o que mais fiz durante a "pandemia", devo ter sido um dos maiores "clientes" da Biblioteca Municipal de Almada de poesia...), por ser uma companhia mais fácil de viagem (mesmo na simples travessia do Tejo de Cacilheiro, que já por si só transporta uma mão cheia de motivos poéticos, que não estão ao alcance de todos os olhos...) e nos questionar de formas diferentes.

Ia escrever que não sabia se hoje conhecia mais coisas sobre poesia que ontem. Ia mentir, quase sem dar por isso. Claro que sei muito mais coisas, sobre poesia e sobre poetas.

Deverá ter sido por isso que reparei que um dos meus amigos, que escrevia tudo o que lhe apetecia, e também escreveu bastante poesia (publicou três livros), não era um "Poetaço". Nos primeiros contactos que tive com os seus poemas, não achei que fosse diferente dos outros, por o ler com demasiada superficialidade. Só quando lhe fizemos uma homenagem e tive de escolher vários poemas para serem declamados é que percebi que havia por ali muitos resquícios da prosa, ele continuava a querer continuar a contar histórias dentro de um poema. Mas muitas vezes, os poemas eram demasiado secos, foi quando percebi que faltava ali qualquer coisa. Talvez alguma magia...

Conversei com outro amigo sobre isso, o Orlando, e ele confessou-me que já tinha sentido o mesmo. 

É por isso que não se deve escrever poesia todos os dias. Há algo que é difícil de decifrar, que nos aproxima da "magia" e da "beleza" das palavras, e que só nos bate à porta de longe a longe.

Uma das coisas que percebi com a aproximação à poesia como leitor, é que há muitas poesias. E nem todas precisam de ter o seu "lado lunar". 

A poética deste meu amigo, que fez cem anos em Janeiro, é uma "poesia terrena", que todos entendem e sentem, é a poesia do nosso quotidiano, das nossas vidas e vidinhas. É o querer contar histórias utilizando a rima e palavras bonitas.

E também é poesia, mesmo que não nos leve de viagem para lá das nuvens...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, março 20, 2024

«A ganância vai voltar a ser o "calcanhar de aquiles" desta gente que acha que é dona do mundo»


Quando ele disse que «a ganância vai voltar a ser o calcanhar de aquiles desta agente que acha que é dona do mundo», estava certo. Mas ninguém disse nada.

Não havia nada para dizer.

Sabíamos todos que o problema é sempre o preço a pagar. Quantas pessoas têm de viver miseravelmente, em praticamente todos os continentes; quantas pessoas têm de ser empurradas para a rua e morrer de fome; quantos migrantes africanos têm de ficar no fundo do Mediterrâneo; quantos ucranianos ou palestinianos têm de ser mortos ou mutilados pelas bombas russas e israelitas... Muitas, muitas...

Ainda não chegámos ao ponto da rebelião. E eles e elas sabem. Foi também por isso que a senhora que agora é dona do império do Belmiro - que até pintou o cabelo de louro -, disse que ia pedir a devolução de parte dos impostos que pagara ao governo. Ela que graças à inflação e à exploração dos agricultores, nunca teve tantos milhões de lucros da sua cadeia de hiper e super-mercados...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, março 19, 2024

(Não querer perder o prazer de olhar...)


Há já algum tempo que noto que muitas pessoas olham para mim de lado e desconfiadas. Nada que me preocupe. É a chamada "fruta do tempo", embora seja cada vez menos sazonal.

Isso acontece porque continuo a olhar quase tudo de frente, mantendo vivo este vício de observar o mundo. Não sei o que é andar "adormecido e teleguiado" por um smarphone pelas ruas (o que tenho, passa a maior parte do tempo suspenso, na caixa de onde veio da loja... e está longe de ser encarado como um "companheiro").

Se continuar assim, conservador, corro o risco de viver quase "num outro mundo". Por enquanto, não é coisa que me preocupe. Se forem só os "olhares de lado", e as "desconfianças", são coisas com as quais convivo bem.

Acho que esta minha resistência, prende-se sobretudo com uma coisa: não quero perder o prazer de olhar. 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, março 18, 2024

Bocados nossos que colamos às personagens...


Abri o romance que escrevi há mais de trinta anos, na página 35, com vontade de ficar surpreendido. Não fiquei. Depois dei um salto para a página 64, continuava a ser futebol a mais para o meu gosto. Até que dei um "pulo" até à 81 e vi o Tejo. Foi por isso que li em voz alta:

«Olhou a janela do quarto da residencial, descobriu uma rua pouco movimentada que o confundia. Ao longe esperava-o um quadro diferente, o Tejo das horas boas e das horas más.

Voltava a sentir um desejo avassalador de percorrer as ruas de Lisboa e olhar ninfas que prometiam coisas que nunca cumpriam. Parar em esplanadas carregadas de inúteis que apenas sabiam contar anedotas com barbas e conversar sobre o tempo. Queria embarcar num cacilheiro e navegar no rio grande que transformava a capital numa ilha.»

Raramente falo sobre o que escrevo. Acho que isso acontece por achar que não é dos melhores assuntos de conversa. Mas desta vez abri uma excepção e falei de muitas coisas que estavam dentro do livro. Já não me lembrava da maior parte das personagens, mas mesmo assim admiti, que andamos anos a enganar-nos, a fingir que inventamos personagens a partir do nada nas histórias que escrevemos, como se isso existisse. Mais tarde descobrimos que cada uma delas tem sempre um bocado de nós, por muito pequeno que seja...

Outra coisa que fazemos é escolher traços das pessoas que gostamos para serem "bons da fita", e dos outros, que passamos bem sem lhes pôr a vista em cima, para fazerem de palermas ou de bandidos.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 17, 2024

A magia da rádio e aquele toque, quase festa, nas minhas costas...



A rádio tem uma magia especial. Mesmo assim não lhe dou a atenção que merece. Quase que só a oiço quando ando de carro (coisa que não faço todos os dias...).

Mas não foi por isso que visitei a Antena 3, a propósito dos 50 anos da Revolução de Abril. Foi porque a Incrível Almadense tinha sido convidada para participar e acharam que devia ser eu a falar da história desta enorme Colectividade de Almada. Isso aconteceu já nos finais de Fevereiro, mas só ontem é que foi para o ar.

A única experiência radiofónica que tive, deve ter sido há já uns bons quarenta anos, quando apareceram as "rádio piratas", que invadiram o país (de uma forma genuína e descontrolada...), e foi episódica. 

Fui muito bem recebido pela Rita, pelo Francisco e pela Raquel, que me abriram logo o estúdio, para ver "como era" e ficar ali a ouvir o bonito exemplo de voluntariado de Fernanda Freitas, com o seu belo projecto de contadores de histórias para as crianças adormecerem nos hospitais... E depois apareceu Isabel do Carmo, médica e resistente (tanta sabedoria e simpatia) e o Kalaf Epalanga (esse mesmo, dos "Buraka som Sistema") e entretanto começou o programa. 

Durante quase meia hora contaram-se histórias, neste programa de Abril, "Não Podias", em que o tema central era "não podias reunir-te". Gostei muito de ouvir a  Isabel e o Kalaf, que iam respondendo às perguntas pertinentes do Francisco e da Raquel. E quase no fim falaram da Incrível e fizeram-me também perguntas, sobre como era a Incrível na ditadura. Disse logo, com um grande orgulho, que foi sempre democrática. Falei das sessões solenes de Outubro, em que era costume convidar uma grande figura do republicanismo (dei o exemplo dos professores Simões Raposo e Vieira de Almeida), que empolgado com o apoio e com a sala cheia, começava a denunciar algumas das tropelias do regime e acabava muitas vezes com "Vivas à República" - por acontecerem quase sempre durante o feriado do 5 de Outubro.

Falei também da fuga do Zeca Afonso do Salão da Incrível, quando apareceu para cantar de surpresa (em 1970). Como estava proibido pelo regime de cantar em público o seu nome não podia constar nos cartazes publicitários sobre os concertos musicais... da qual existem duas versões (e possibilidades reais de fuga, uma por um alçapão que fica num dos cantos do palco, quando se vai para os camarins e outra por umas escadinhas estreitas que tinham ligação com o cinema, para ruas diferentes, para a Capitão Leitão e para a Heliodoro Salgado).

Sei que o Francisco também me perguntou se não havia medo em relação às autoridades e como é nos defendíamos em relação a estes actos, de alguma forma "subversivos". Disse que a maior parte das vezes fazíamo-nos de parvos, como se tivéssemos sido apanhados de surpresa, perante os acontecimentos... E normalmente era suficiente para que as autoridades se ficassem pelas ameaças. Falei dos 175 anos e da banda, que dizem ser a única do país, que nunca deixou de tocar, desde a sua fundação e... o programa acabou (pois foi, soube a pouco, ficou tanto por dizer sobre a Incrível...).

Em relação ao título deste texto, ele deve-se ao gesto do meu filho, que foi apanhado de surpresa, no sábado de manhã e ficou a ouvir comigo (via televisão, que também pode ser rádio...) o programa "Não Podias" e gostou  do que ouviu e do que eu dissera e manifestou-o com um "que giro" e o tal toque suave nas minhas costas, em jeito de festa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, março 16, 2024

Encontrar a "casa vazia"...


Às vezes acontece, quase sem darmos por isso, deixamos fugir o tempo e, quando finalmente regressamos, aos lugares que nos marcaram, encontramos a "casa vazia".

Andamos demasiadas vezes distraídos com outras coisas e esquecemos que à medida que os anos passam por nós, as horas começam a ter menos minutos.

Mesmo sem saber como seria o reencontro, era melhor não encontrar a "casa vazia", era melhor ouvir vozes, sentir que a vida continuava por ali...

Talvez me tivesse enganado no mês. Março começa por éme, mas não é Maio.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 15, 2024

A "destruição" do jornalismo independente começou há mais de duas décadas


Os órgãos de comunicação social sempre foram uma tentação para todos aqueles que queriam aumentar o seu poder e influência, política e económica.

O aparecimento das televisões privadas limitou-se a dar um primeiro "safanão", no que se considerava até aí, ser o jornalismo independente. 

A aposta em tornar tudo num espectáculo, até mesmo os espaços de notícias, mudou a forma de informar. Ao ponto do director de um dos canais (Emídio Rangel) dar a entender que a sua televisão poderia ser determinante na escolha do Presidente da República, com uma conversa sobre "sabonetes"...

Depois também passou a ser moda comprar e vender jornais e revistas, com vários empresários, nacionais e africanos, a investirem na imprensa. Embora se duvidasse das suas verdadeiras intenções, nunca se levantaram grandes ondas. Quase toda a gente, inclusive os jornalistas, fingiu estar distraída, com este novo rumo do jornalismo, que foi trazendo ao mesmo tempo para as suas direcções, gente cada vez mais inclinada para o lado direito, que por sua vez, também começaram a convidar para cronistas e comentadores, amigos com as mesmas ideias políticas e com a capacidade de dizer uma coisa hoje, e o contrário, no dia seguinte.

Quase que podemos dizer que a imprensa apenas se limitou a imitar as televisões, onde hoje, mais de dois terços dos seus comentadores são próximos dos partidos de direita. Existe ainda a "curiosidade" do espaço de comentário político de domingo - mais longo -, ter como protagonistas Paulo Portas (CDS) na TVI e Marques Mendes (PSD) na SIC, que nem sequer se dão ao trabalho de disfarçar ao que vêm. Isso acontece há mais de meia-dúzia de anos, sem que alguém do PS demonstrasse desagrado (vá-se lá saber porquê)...

Foi desta forma que chegámos a 2024, com um jornalismo cada vez menos livre e menos credível. E com as redacções a trabalharem com cada vez menos condições materiais e humanas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, março 14, 2024

quarta-feira, março 13, 2024

O equilíbrio e bom senso que faltam cada vez mais neste nosso país...


Uma simples frase do folheto de um partido que parece ser uma "multinacional" (Volt), com uma cabeça de lista bonitinha e bem falante, sem ter tiques de "vendedora de feira", criou uma conversa, que a breves momentos parecia uma discussão. Tudo isto porque adoramos o nosso lado italiano de comunicação, em que falamos com tudo, palavras, mãos, braços, cabeça (mas sem qualquer vestígio de violência ou chatice séria, mesmo que isso possa transparecer para as mesas ao lado, durante o almoço...).

Todos estávamos de acordo que não era preciso irmos tão longe e termos "paixão pelo bom senso", como a Inês, mas que cada vez se notava menos equilíbrio e até inteligência, nas relações humanas, fosse no trabalho, em casa ou no comércio, ninguém qualquer tinha dúvida...

Quando dizíamos uns aos outros, que nunca fomos muito bons da cabeça, mas desde a pandemia, vamos mais facilmente do "oito ao oitenta". Parece que cada vez há menos meio termo, em praticamente tudo. Ergueu-se uma voz discordante.

O Jorge disse que a "pandemia" não tinha nada a ver com isso.

Não concordámos. Foi quando ele trouxe a justiça para a mesa, que era um dos factores essenciais de equilíbrio social, e que desde que se tornou uma "telenovela", com actores alexandrinos e rosinhas com e sem limões (são palavras dele...), nunca mais houve bom senso. E isso tornou-se mais grave quando se prendeu um ex-primeiro-ministro em directo no aeroporto. Ainda faltavam uns anitos para levarmos com a pandemia. E depois trouxe o último caso, não menos polémico nem menos telenovelesco, em que embarcaram 300 pessoas, a maioria inspectores da judiciária, num avião militar, para prenderem meia-dúzia de pessoas, que depois de estarem detidos de forma ilegal durante uns quinze dias, foram libertados sem que lhes fosse atribuída culpa de qualquer crime.

Como o Jorge estava com a corda toda, ainda nos deu mais um exemplo, este ainda mais gritante e verdadeiro, a acção policial. Onde devia existir mais sangue frio e bom senso, opta-se quase sempre, ora pelo deixa andar ou pela violência gratuíta. Ora se fecha os olhos (se foram meia-dúzia os criminosos, não vá sobrar para eles e ultimamente tem sobrado mais vezes...), ou se apanham um ou dois suspeitos, e antes de fazerem perguntas, usam-se logo os cassetetes, as botas e até os punhos nos seus corpos.

Não estávamos à espera de ser tão contrariados (houve mais exemplos). Pensávamos que tudo mudara depois da "pandemia", e afinal as coisas já estavam desequilibradas, vários anos antes...

Claro que as coisas estão pior. E ainda temos a guerra, que estando longe, parece estar perto...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)