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quarta-feira, junho 03, 2026

Um dia menos igual que os outros...


É possível que fora de Lisboa e Porto, a greve geral não se tenha sentido, pelo menos de uma forma que alterasse o dia a dia das pessoas.

Focando-me apenas na Capital, com os dois transportes que mais utilizo (cacilheiro e metropolitano...), completamente parados, o melhor mesmo foi deixar a  "cidade grande" entregue às moscas e aos turistas (para quem pode, claro...).

Imagino que os "serviçais" - que moram na Margem Sul - desta gente que chega de fora e desembarcam das barcas gigantes e dos aviões, não tivessem desculpa para não aparecerem. Só devem ter desistido de ir e vir a nado porque o Tejo é mesmo parecido com um mar...

A educação e a saúde também causam sempre constrangimentos, embora estes, como de costume,  sejam desvalorizados pelos governantes, clientes e defensores da oferta privada, cada vez mais vasta de Norte a Sul...

Não deixa de ser curioso, que as atenções televisivas se tenham focado sobretudo nos "piquetes de greve" (cada vez menos influentes...) e nos "malucos" (de ambos os sexos...), cujo masoquismo, faz com que escolham estes dias para experimentarem a qualidade dos cacetetes dos polícias...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, abril 19, 2026

Abril também pode ser um sorriso (daqueles que ficam cravados na memória)...


No meu último livro falo sobre o Abril que descobri aos dezoito anos na Capital, na festa que foi desfilar pela primeira vez na Avenida da Liberdade (não sei quantas cidades do mundo se podem gabar de ter uma Avenida que tem o nome de Liberdade e é tão larga e comprida, ao ponto de dar a sensação que cabem lá todos os amantes de Abril...

Muito ao de leve falo de uma miúda amorosa, que conheci nesse dia 25 de 1981. Digo apenas: «E depois desci a Avenida da Liberdade de mão dada com uma miúda gira, a Esmeralda, que ainda gostava mais de liberdade que eu.»

Se hoje continuo tímido, com dezoito anos, era muito mais...

Lembro-me apenas de termos trocado um sorriso e de nos termos aproximado, de estarmos ao lado um do outro e de nos tocarmos, quase empurrados pela multidão.

E depois desfilámos os dois de mão dada. Sei que dissemos muitas vezes, "Abril Sempre! Fascismo nunca mais!"...

Parece ficção, mas aconteceu mesmo. Aos dezoito anos quase tudo nos é permitido.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 08, 2025

Coisas que aparecem dentro das fotografias...


Às vezes penso que Lisboa tem cada vez mais coisas para fotografar.

Sei que é apenas mais uma daquelas patranhas que oferecemos a nós próprios, por nos darem jeito, funcionando quase como um "empurrão" para andar por aí a tirar retratos a quase tudo o que nos rodeia, seja bonito ou feio, tenha ou não história.

E como sou cada vez mais adepto do retrato instantâneo, muitas vezes só em casa é que olho, com olhos de ver, para os pormenores que existem em cada fotografia.

Por exemplo, só em casa, a olhar para esta fotografia, é que me lembrei que um dos meus primeiros amores, se chamava Júlia e sim, ainda era uma menina...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 06, 2025

«Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»


Há poetas que são mais de dizer e outros mais de escrever.

Conheço uns e outros, normalmente não moram em ruas parecidas nem vestem roupas feitas no mesmo alfaiate.

Os que dizem, misturam os seus poemas com os que mais gostam, dos outros, quase sempre gente com mais de dois metros de poesia.

Os que só escrevem, gostam de falar de outras coisas, ou então de permanecer em silêncio.

Já me devem ter dito mais de cinco vezes a frase que escolhi para dar título a estas palavras. Recordei-a dita pela boca de uma amiga que na passagem dos anos 80 para os 90, morava numa das casas mais pequeninas que conheci (se bem que na China ou no Japão pudesse passar por um apartamento familiar...).

Era uma mulher cheia de particularidades, que também gostava de me ler poesia. 

Curiosamente, a singularidade que mais recordo é o facto de termos dormido juntos também mais que cinco vezes e nunca a ter visto completamente nua. Só descobria a sua nudez através do tacto, era como se a luz tivesse algo de errado. Nunca levei isso para o seu corpo, que sabia que era bonito com e seu roupa...

Como costuma acontecer com os amores antigos, nunca mais nos encontrámos. O mais curioso, é que só penso nela por coisas muito singulares, diria mesmo, muito particulares.

E a frase que mais me aparece, misturada com o seu sorriso trocista e quase sem som, é esta: «Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, agosto 08, 2025

Estou farto de saber que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas...


Dei uma volta grande pela cidade, para finalmente chegar aquele lugar, mais oriental.

Depois foi entrar e descobrir a recepção e uma senhora que era segurança (a farda não engana...), fazer a pergunta, querer saber de fulano tal, e a mulher não fazer ideia quem era o senhor, mesmo que fosse ele o "pai e a mãe" daquela instituição.

A senhora já não era uma jovem, nem tinha qualquer sotaque, que a levasse para o território imigrante. Insisti, até lhe fui dando alguns pormenores biográficos. Percebi que dali não levava nada pelo que perguntei se não havia ninguém da empresa que me pudesse ajudar. Que não, já não estava lá ninguém da administração. Sei que Portugal é um país especial, é sexta-feira e o relógio indicava 12 horas e 12 minutos. Pois é, há sempre quem faça fins de semana prolongados, especialmente num Agosto quente e que não tenha um horário de trabalho das nove às cinco...

Quando me preparava para ir à minha vida, eis que apareceu uma senhora por ali, a quem a funcionária fez a "pergunta sacramental".

De repente o mundo deu uma volta e fiquei a saber o que queria. Sim, o mundo voltou a ser "simpático e culto"...

Já na rua, fiquei a pensar que a senhora não tinha culpa da "inutilidade" e da sua "irrelevância", porque era segurança e não recepcionista. Estava ali para não deixar "entrar bandidos" e não para dar informações sobre o histórico da instituição.

Nada que eu não soubesse. Pois é, estou farto de saber que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. 

O problema, é que estamos sempre à espera de ser surpreendidos, pela positiva, neste nosso pequenino país...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 21, 2025

A nossa aparente falta de jeito para ajudar a levantar aqueles que "caem no chão"...


Existem sempre coisas, que nos acontecem, ou que vemos acontecer à nossa volta, que escapam à nossa compreensão de simples mortais. Por serem difíceis de definir, normalmente nem damos grandes palpites, preferimos misturar as "circunstâncias da vida", suficientemente abrangentes para justificar o injustificável e fechar qualquer conversa.

Aconteceu há dias a um amigo, o que me aconteceu há anos. Viu um amigo dos seus tempos de escola, sentado na entrada de um prédio, com os seus parcos haveres, de "filho das nuvens". Olharam-se por breves segundos e baixaram os olhos quase em simultâneo. Depois aproximou-se e perguntou-lhe se ele era o Pedro. Claro que o homem disse que não, que ele estava enganado. Com alguma lata e para desviar o assunto, pediu-lhe uma moedinha. O meu amigo, que tal como eu nunca anda com muito dinheiro na carteira, deu-lhe uma nota de vinte euros, a maior que tinha na carteira. E depois virou costas, sem ficar à espera de agradecimentos e sem voltar a olhar para trás.

Eu depois de o ouvir, contei-lhe o que me acontecera, há uns bons trinta anos, ainda mais dramático. Cruzei-me com um dos muitos companheiros de infância na Rua Augusta. Estava descalço, vestido apenas com uma manta com um buraco que enfiara na cabeça e muito sujinho. Andava depressa e ia dizendo coisas sem nexo. Sei que gritei o seu nome, "Manel", ao mesmo tempo que ele soltou uma gargalhada louca. fiquei atónico por alguns segundos e ele aproveitou para desaparecer no meio da multidão. Ainda andei uns metros na sua direcção, mas nem um sinal dele. Claro que a única coisa que poderia fazer era o mesmo que o meu amigo fez, dar-lhe uma "moeda" maior do que as que ele costumava receber...

Acabámos a falar da "merdola" de  sociedade, em que vivemos, que permite todos estes altos e baixos. 

Não podíamos estar mais de acordo, quando recordámos que quando se entra num "beco sem saída", os familiares, amigos e conhecidos, começam a desaparecer todos à nossa volta. E quando damos por ela, estamos caídos e perdidos na rua...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


quarta-feira, maio 14, 2025

O medo, entre a "percepção" e a "realidade"...


As ruas da "percepção" e da "realidade", ficam quase sempre ao lado uma da outra.

Quase todos contribuímos para se faça alguma confusão entre as duas, especialmente os políticos do lado direito, que sentem saudades de um estado mais repressivo. E claro, as polícias, que têm sempre alguma dificuldade em fazer cumprir a lei nos regimes democráticos, onde não se pode, nem deve, "bater" apenas porque sim.

Falámos disso ontem. A conversa foi alimentada por alguns de nós sentirmos que o "medo", continua a crescer, quase todos os dias, à nossa volta. 

As guerras que matam gentes de todas as idades, diariamente, devem ter alguma influência, mesmo que nós não nos apercebamos bem destas "percepções" (todos achámos que sim).

O curioso foi na viagem de regresso a casa, de metro, ter reparado em três indivíduos orientais, que entraram na Alameda, com mochilas grandes (deviam ter chegado há pouco tempo...), além de falarem as suas línguas estranhas, olharem para quem os rodeava, com desconfiança. Eu sei que é difícil olhar de outra forma, para um mundo que nos trata como cidadãos de segunda ou terceira, que nos gosta de apontar o dedo, mas...

Aquela reacção fez com que recordasse uma boa parte dos ciganos que fui conhecendo ao longo da minha vida. Eles tinham como sua principal defesa, fazerem-nos sentir medo, pensarmos que eles eram capazes de fazer as coisas horríveis que nos ameaçavam, aqui e ali.

Pois é, temos quase sempre "medo" do que é diferente de nós. E quanto mais "fechados" e "nacionalistas" formos, pior...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 26, 2025

"25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais!"


Felizmente o Dia da Liberdade continua a ser uma festa.

É num clima de alegria, serenidade e cumplicidade que se desce a Avenida da Liberdade, com gente de todas as idades.

Curiosamente ou não, cada vez assistimos mais à presença de jovens, com cravos vermelhos, sorrisos bonitos e vivas ao "25 de Abril, sempre / Fascismo nunca mais!"


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 03, 2025

Uma visão e uma memória, dentro e fora de um bairro antigo...


Estava a passar por uma ruela estreita, com roupas estendidas em quase todas as varandas, quando comecei a ouvir uma voz feminina, que cantava um fado. Ainda olhei para cima para ver se a voz tinha dona, mas não descobri ninguém. 

Por alguns instantes, fiquei deliciado com aquele retrato de uma Lisboa antiga, e pus-me a imaginar uma cidade que já não existe...

Foi quando me cruzei com dois casais de gente de fora, que anda de calções num dia de Março com nuvens. Foi como se me dissessem, "acorda!"

E acordei, mas por pouco tempo.

De repente já não estava em Madragoa. Foi quando viajei pela minha meninice e ouvi a minha mãe a cantar, e o pai, com voz de desdém, a dizer que ela estava a adivinhar chuva. Não percebia quase nada da conversa mas gostava de ouvir a minha mãe a cantar, mesmo que ela fosse fiel à sabedoria popular, e acreditasse que "quem canta seus males espanta"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, fevereiro 09, 2025

A nossa cidade mais surpreendente...


Não deixa de ser curioso, que a nossa escolha sobre as cidades, que mais nos conseguem surpreender, acabe por ter no começo da lista, algumas daquelas que conhecemos melhor. 

Claro que este efeito surpresa não ganha vida na pequena cidade onde crescemos e tudo nos parece igual. Normalmente, isso acontece sobretudo nas urbes de dimensões razoáveis.

Achei curioso a Rita falar-me do Porto, quase como se a Invicta fosse uma aldeia. Eu sei que o normal é todas as cidades portuguesas parecerem pequenas, quando são colocadas ao lado da Capital. 

Isso não acontece apenas pela dimensão de Lisboa, há também o seu peso histórico e social, mas sobretudo um certo bairrismo, que consegue oferecer arquitecturas, cores, cheiros e olhares diferentes, quando subimos e descemos as mais de sete colinas lisboetas.

Quase todas as vezes que passeio por Lisboa, descubro uma coisa nova. Acho que é por isso que gosto tanto de entrar nos bairros e ruelas menos centrais. Sei sempre que vou ficar surpreendido...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa) 


domingo, fevereiro 02, 2025

As coisas que não se explicam...


Evito passar pela nossa rua.

Até porque quando olho para a janela da sala, que abríamos de par em par e onde dizíamos bom dia, boa tarde e boa noite à cidade, fico a pensar que ando a imaginar coisas.

Apeteceu-me telefonar-te e perguntar se ainda tocas viola e cantas as canções dos "comunas", mesmo que todos soubéssemos que o Zeca fosse o seu próprio "comité central" e o Adriano continuasse a ser o gigante, que era amigo do tio Zé, ambos de outras esquerdas. 

Foi quando me lembrei que não tenho o teu número actualizado. 

Pois foi, passou tanto tempo. 

O engraçado da coisa, é que as coisas pioram quando viro costas. O prédio que agora é cor de rosa volta à nossa cor. Sim, os nossos amigos de então sabiam que vivíamos no terceiro andar direito, da "casa amarela"...

Claro que não olho para trás. Não preciso de confirmar, que o nosso prédio é amarelo.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 31, 2025

Andar por Lisboa a ver o Mundo Passar...


Mesmo quem anda por todo o lado em Lisboa, como eu, sabe que também pode ficar ligeiramente "infectado", pelas notícias e pelas vozes dos "moedinhas" deste país.

Pensei nisso, hoje, ao descer a Almirante Reis. Continuo a ter o vício de andar a pé e a ver o mundo passar por mim, mesmo que as pernas já não sejam o que eram. 

Sentado no interior do cacilheiro, enquanto olhava o Tejo, pensei que olhei para as pessoas com quem me cruzei, com mais atenção. As vozes, as cores, as roupas faziam a diferença, mas isso acontece há pelo menos meia-dúzia de anos. E sim, vê-se cada vez menos portugueses nas ruas.

Mas não faltam explicações para o facto. A principal é a existência de cada vez menos portugueses a morar nesta zona de Lisboa. E isso acontece graças ao aumento obsceno das rendas. 

Sim, a ganância dos senhorios é a principal razão deste "abandono", e não o "medo" pela gente que veio das Índias que, pelo menos aparentemente, é quase sempre excessivamente simpática (especialmente os comerciantes). 

Sei que se não se levantasse tanta poeira do lado mais afastado da direita, ou se o alcaide de Lisboa não quisesse ser também "xerife", tudo seria mais normal. Sobretudo os comentários que se fazem sobre as ruas da cidade grande, normalmente feitos por quem nunca passa por estas ruas e avenidas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, dezembro 19, 2024

O poeta O' Neill faz hoje cem anos


O poeta O' Neill faz hoje cem anos.

Mesmo num país de grandes poetas, o Alexandre não conseguiu passar despercebido. E ainda bem.

O curioso, foi ele, depois de andar pelos cafés, com um casaco vestido do avesso, à boa maneira surrealista, ter conseguido mudar de rua, e retratar tão bem a nossa vidinha nos seus poemas.

A 17 de Agosto de 2022 escrevi sobre ele aqui no "Largo", porque estava a ler - e a gostar - da biografia da Maria Antónia Oliveira. E agora volto a esse texto, com um sorriso e um aplauso a um poeta, com visões poéticas geniais:

«Normalmente não tenho grande simpatia pelos nossos "génios meio chanfrados" (como são os casos de Luiz Pacheco ou de João César Monteiro, por exemplo), mas o Xana era bastante diferente deste "dueto chupista", embora também tivesse uma vida bastante irregular, não costumava "cuspir na sopa" nem deixar os amigos "descalços".

Mas vamos lá ao livro e ao poeta O'Neill...

A Maria Antónia escreveu esta biografia por aproximações, servindo-se com mestria dos testemunhos de pessoas que o conheceram bastante bem e também de alguns textos autobiográficos (embora a memória do poeta não fosse muito fiável...). A sua primeira esposa, Noémia Delgado, tem um papel importante nesta obra. Percebe-se que ele foi o amor da sua vida, mas não guardou qualquer ressentimento com a separação, nem nunca deixou de o achar um dos nossos grandes poetas.

Gostei de saber que ele além da paixão pela poesia da vida, também gostava bastante das pessoas, de preferência gente humilde, com quem gostava de conversar e acamaradar, de igual para igual. E eram muitas vezes as fontes de inspiração para os poemas e também para a publicidade, que foi o seu melhor "ganha-pão"....

Embora estivesse longe de ser um homem bonito, viveu muitos amores pela vida fora. Era um excelente conversador, levava as mulheres à certa, com o seu humor, a sua poesia e a sua simpatia natural (e também da outra, sedutora...).»

Graças a este livro-retrato, percorri, mais que uma vez, a sua Lisboa, que tinha como "capital", o Príncipe Real...

Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, novembro 15, 2024

Conversas com memórias (das curiosas e boas)...


Por motivos profissionais, por vezes cruzamo-nos com figuras públicas, e por razões óbvias, tratamos-as como qualquer outra pessoa. Até somos capazes de fingir que não vemos telenovelas ou programas de "novidades artísticas", apenas porque sim...

Conversámos sobre isso ao jantar, porque a minha filha, que dá os primeiros passos na sua vida profissional, confrontou-se com uma situação destas e disse-nos que se sentiu confortável, por ser capaz de tratar a "vedeta" como qualquer outro paciente.

Acabei por viajar no tempo e ver alguns "filmes" a passarem por mim. 

Primeiro passaram estes artistas da televisão. Nunca esqueci a cena patética de um actor que passou por mim, três ou quatro vezes no corredor de um supermercado, e em vez de ser eu a olhar para ele, era ele que não parava de olhar para mim. Não se tratou de uma cena de "assédio sexual" (duas palavras que andam na moda...), mas sim de busca de reconhecimento. Não só fingi que não o conhecia, como deixei o meu olhar ficar preso nas prateleiras deste espaço comercial.

E depois apareceu-me um outro "filme" e passaram por mim as pessoas que só são conhecidas por uma minoria, os leitores. Claro que falo de escritores. Normalmente preferem observar em vez de ser observados, pelo que têm uma postura antagónica em relação à gente da televisão, que já sai de casa com a preocupação de ser vista. 

Penso que a primeira pessoa do "mundo dos livros" que cruzou o seu olhar comigo, foi o grande José Gomes Ferreira, no Chiado, no começo da década de 80 (tinha acabado de chegar à "cidade grande"...). A sua farta cabeleira branca que o vento levantava, não enganava. Durante uns segundos olhámos um para um outro com espanto e também com vontade sorrir, como se fossemos apanhados em qualquer situação imprevista. Depois perdemo-nos na multidão, sem sequer trocarmos um bom dia ou boa tarde. Fiquei sempre com pena de não lhe dizer: "Olá "Poeta Gigante".

Acabei por recordar outros encontros. O mais curioso aconteceu com a Maria Gabriela Llansol, que estava à porta de uma livraria (também no Chiado...) e me ofereceu um sorriso, daqueles bonitos, também sem palavras. Sem fugir da zona, na escadaria do metro, na estação Baixa-Chiado, cruzei-me, recentemente, com o Mário de Carvalho, ele descia e eu subia. Também ficámos uns segundos a olhar um para o outro, mais uma vez sem dizermos uma palavra, com a tal vontade de sorrir, fruto da cumplicidade que existe entre leitor e autor.

Também podia falar do encontro na Praça Gil Vicente com Luísa Costa Gomes, onde experimentámos o mesmo espanto. Mas tenho uma história ainda mais curiosa e diferente, de todas estas, que teve como protagonista a minha poeta preferida, a Sophia. Nos anos 90 cruzámo-nos na Graça (nessa altura não sabia que ela vivia por ali...), ela vinha com um saco de compras e falava sozinha. Por ter óculos escuros, só a reconheci depois de nos cruzarmos. Desta vez não houve troca de olhares. Ela estava tão entretida a "falar com os seus botões", dentro do seu mundo, que o resto devia ser apenas paisagem. Mas pela elegância e altivez, só podia ser ela, a minha Poeta...

Só por estas "viagens dentro da minha memória", valeu a pena a conversa durante o jantar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 18, 2024

As palavras, os lugares e os amigos...


Estar com amigos é sempre um bom programa.

Foi o que aconteceu hoje. 

Como o "Lisboa Livro de Bordo" do José Cardoso Pires se tinha intrometido numa das nossas conversas sobre livros e lugares, acabámos por marcar encontro no Cais do Sodré, no "British Bar", onde iniciámos o nosso diálogo com livros, editores e escritores, com a companhia de  um aperitivo. Não fizéssemos nós também parte  deste mundo das palavras impressas, mesmo que raramente tenhamos feito as delícias dos críticos literários.

Depois seguiu-se o almoço num lugar agradável, onde o Tejo se mostra com todo o seu esplendor, tal como a Lisboa cheia de colinas. Nem mesmo o dia ligeiramente cinzento quebrou a beleza deste "miradouro".

A conversa continuou, viva e agradável, algumas pessoas apareciam, quase metediças, por causa disto ou daquilo. O primeiro a surgir foi o bom do Fernando Alves, que enche a rádio de poesia, que esteve ali com o meu companheiro de aventuras e deliciou-se com as vistas. Depois apareceram, quase em simultâneo, o José Gomes Ferreira e a Maria Judite de Carvalho, que tão bem descreveram esta Cidade, onde se fala cada vez menos português (que belas crónicas eles escreveriam sobre esta temática, se descessem do lugar onde estão e nos oferecessem o seu singular "olhar com palavras"...).

E depois a despedida, na Praça do Comércio, ou Terreiro do Paço, onde o Rei e seu Cavalo, repartem a imponência do monumento central, cujas escadas são lugar de repouso passageiro, para esta gente de todas as idades, que se diz perdida de amores por Lisboa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 14, 2024

Esta Lisboa, que está cada vez mais presa ao mapa das "cidades-cinema" e das cidades-museu"...


Ontem, quando regressava a casa, de cacilheiro, pensei que Lisboa era cada vez mais, uma das várias "cidades-cinema" europeias,  vocacionadas para se fazerem filmes, tirarem fotografias, enquanto se saboreia um pastel de nata, tudo coisas que fazem as maravilhas dos asiáticos, dos americanos, e claro, também dos europeus, de várias latitudes. 

A Europa está cheia de cidades apetecíveis para estes "realizadores" e fotógrafos" amadores, como Paris, Roma, Barcelona, Veneza, Florença, Berlim ou Londres. Mas estes lugares (se excluirmos Veneza e Florença...) além de estarem organizados para  continuarem a receber turistas, esforçam-se por ter vida própria, com os seus habitantes a quererem ser muito mais que meros figurantes, como estão a querer transformar os lisboetas, não deixam de estar em perigo.

É perigoso deixarmo-nos "prender" pelos nossos passados, por muito gloriosos que eles sejam, fazer com que as nossas vidas fiquem cada vez mais dependentes das "cidades-museu", o lado A das "cidades-cinema"...

E entretanto chegámos a Cacilhas.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, outubro 13, 2024

Um domingo à tarde na Capital...


Raramente saímos de casa, num domingo à tarde, depois do almoço, para passearmos pela Baixa da Capital.

Hoje foi um desses dias...

Mal entrámos no cacilheiro, ficámos logo com a sensação que éramos nós que estávamos num país estrangeiro. Nada que não soubéssemos muito menos nos incomodasse, nesta nossa "viagem (também) turística". 

Quase que só nós e os "barqueiros" é que falávamos a língua lusitana...

Em Lisboa as coisas ainda se tornaram mais "internacionalistas", com um amontoar de gente em quase todos os lados. 

Nem é de todo desagradável, se formos também "turistas", a ver as vistas num domingo à tarde.

Mas é impossível não termos um olhar crítico. Até por vermos filas em todo o lado, seja para o "pastel de nata" ou para o "sorvete"...

A minha companheira acha que já perdemos a Cidade grande. E pensa que só uma "grande crise" ou um "gigante fartar colectivo" de quem nos visita é que pode esvaziar as ruas e esplanadas. Até porque este país está longe de ser o paraíso que vende lá para fora.

Sabemos que é uma possibilidade. Até porque quem viaja gostar de variar, gosta de conhecer sítios diferentes.

Só os governantes das "taxas" e das "taxinhas" é que  esfregam as mãos, à medida que os cofres se vão enchendo, evitando cruzarem-se com o futuro por aí, em qualquer esquina...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 04, 2024

Problemas velhos que parecem novos...


Nem sempre nos apetece recuar no tempo, até porque não nos surgem apenas surpresas agradáveis, dentro das nossas memórias.

Pois é, de repente descobrimos uma Lisboa que sempre teve problemas de habitação...

Quando viemos viver para a Cruz Quebrada, em 1981, nas viagens de ida e de volta para as Caldas, éramos obrigados a reparar nas suas entradas (rodoviárias e ferroviárias...), povoadas de bairros de lata. Bairros que floresciam graças aos problemas que parecem ser "de sempre": falta de casas para alugar, a preços acessíveis, pelo menos para quem recebia "ordenados de miséria" (também não é um problema apenas de hoje...).

Só com a entrada na União Europeia e com a boa utilização dos fundos por parte da autarquia de Lisboa (penso que nos mandatos de Jorge Sampaio e de João Soares), foi possível acabar com este flagelo social.

Claro que existiam ainda outros problemas na Capital, como uma baixa pombalina praticamente desabitada, com os interiores dos seus prédios quase em ruínas,  com o perigo de derrocadas latente... 

Este só seria resolvido com o "paraíso turístico", que chegaria alguns anos depois. Mas isso fica para amanhã...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, outubro 03, 2024

O "calimero" da Capital...


Se há um político que me irrita, à séria, é o "alcaide" da Capital. Podia ser apenas por causa da voz, mas é muito mais que isso.

Sempre que o vejo armado em "calimero", lembra-me os "putos mete-nojo" que acabamos por aturar na primária, que passavam a vida a choramingar e a fazer queixinhas, por não terem jeito para jogar à bola ou para coisas ainda mais simples, como jogar à "apanhada" ou às "escondidas"...

Esta "merda de gente" quando cresce, além de não perder o hábito de fazer "queixinhas", de tudo e de todos, torna-se cobarde, cínica e hipócrita, a tempo inteiro.

E se têm a sorte de ter um "emprego", onde podem dar largas à sua "imaginação" e "mariquice", nunca mais temos descanso.

É por isso que o "alcaide" tem tido a lata de se aproveitar de tudo o que foi bem feito pelos socialistas no Município (como se fosse obra sua...), ao mesmo tempo que os culpa, de tudo o que corre mal, mesmo que já esteja no poder há mais de três anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 05, 2024

Não sei se é uma provocação, se é apenas um desejo...


Sei que este titulo é bastante enganador, porque apenas se refere a um livro, que me foi oferecido há dois dias...

Mas é a melhor forma para expressar o que sinto. Não é um livro qualquer, é da autoria de alguém que não aprecio particularmente como escritor (não é apenas preconceito, li um livro da sua autoria para perceber a razão dos seus livros terem quase sempre mais de quinhentas páginas, é como a avó dizia "muita palha para a burra" e de não ser "muito amado" pelos críticos ...).

É por isso que esta "quarta oferta" de um livro de Rodrigues dos Santos, além de ser uma provocação, pode ser um desejo do meu irmão, para que me concilie com o escritor que vende mais livros no nosso país.

Falo de "Um Milionário em Lisboa", sobre a vida de Calouste Gulbenkian (uma das coisas que me faz embirrar com o escritor é o mau gosto de algumas expressões. Logo no início do livro - que estou a ler e vou sublinhar muitas vezes, coisa que normalmente não faço aos livros... - descubro a personagem Azevedo Passarão, a forma escolhida para identificar Azeredo Perdigão. Só mesmo ele, para oferecer este nome ao "padrinho" da Fundação Calouste Gulbenkian...).

E só mesmo o meu irmão, para me "obrigar" a voltar a ler o Rodrigues dos Santos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)