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sexta-feira, setembro 11, 2026

"Cinco anos depois" (que agora são vinte cinco...)


Cinco anos depois
 
Cinco anos pode ser uma eternidade,
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Nova Iorque não voltou a ser igual,
As pessoas perderam tantas coisas...
Até a liberdade de serem quem eram.
O simples gesto, de um aceno ou sorriso,
Foi suprimido pela ditadura da segurança,
Assim como qualquer palavra circunstancial
Trocada na rua, com estranhos.
 
Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Podemos banalizar o que aconteceu
Fingir que as Torres Gémeas desapareceram,
Num truque qualquer de magia,
Podemos dizer que a vida continua,
Que o que já lá vai, lá vai...
 
Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Mas os rostos daqueles que partiram,
Sem marcar qualquer viagem,
Permanecem vivos no coração de Nova Iorque.
Sim, coração, de Nova Iorque!
O coração de qualquer cidade
São sempre os seus habitantes.
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema em 2006, quando passaram cinco anos desta tragédia, ou seja há vinte anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
 

domingo, agosto 23, 2026

As velocidades diferentes que se encontram dentro dos livros...


Os leitores, mesmo os mais apressados, sabem que todos livros têm uma velocidade própria de leitura. 

Se há livros que querem ser lidos da primeira à última página - tal é a sucessão de acontecimentos que nos vai surgindo, capítulo a capítulo, ao ponto de só descansarmos quando chegamos ao fim -, há outros que pedem reflexão, quase que nos pedem para parar para pensar...

Normalmente estas obras são escritas com alma, quase sempre sobre temáticas sensíveis, onde o escritor quase que se despe por inteiro... conseguindo expressar o que sente através das palavras que nos oferece.

No meu caso pessoal, é raro sentir esta vontade de parar a leitura e ficar agarrado a uma frase ou um verso, capaz de transmitir tanto apenas com meia dúzia de palavras. Senti isso com a "Fortaleza" de António Borges Coelho.

É um pequeno livro de poemas, com uma introdução em prosa, onde o autor nos oferece uma multiplicidade de sentimentos, sem nunca perder a autenticidade. Livro que pode muito bem ser entendido como um "diário poético", do seu tempo de prisioneiro no Forte de Peniche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 22, 2026

"o mesmo bilhete de ida e volta"


o mesmo bilhete
de ida e de volta
  
quando parti
sabia que tinha tirado
um bilhete de ida e de volta
ia ficar e ia voltar
ainda era um rapaz novo
estava longe de pensar
nas voltas que a vida dá
de como o tempo
nos pode transformar…
 
soube sempre que
aquele não era o meu país
era apenas o lugar possível
onde se podia acreditar
na palavra futuro e
pensar num final feliz
 
os anos foram passando
e já a dois sentimos
que nada é como sonhamos
a vida é sempre outra coisa
 
mesmo assim nunca desistimos
de voltar ao nosso ponto de partida
fingimos não perceber a factura
que no final teríamos de saldar
 
num tempo não muito distante
uma parte de nós, “ia ficar”…
talvez a mais importante.
 
Isso dizia-nos que iriamos continuar
a usar o mesmo bilhete
vezes sem conta
a ir e a voltar
porque quando o coração
está no sítio certo
ninguém consegue vencer o verbo amar
 
percebemos e aceitámos
que o nosso bilhete
nunca seria diferente
 
era o nosso
bilhete de ida e de volta
de sempre…
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema para os meus tios, Zé e Lurdes, que emigraram para Alemanha no começo dos anos setenta, onde nasceram os seus dois filhos. Filhos que se sentem, naturalmente, mais alemães que portugueses. O que faz com que os pais, embora tenham voltado para Portugal, para gozar a reforma, acabem por voltar, sempre que as saudades apertam, para estarem com os filhos e com os netos... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 20, 2026

"A mulher que me chama branco"


A mulher que me chama branco

Há uma mulher que me chama branco.
Diz a palavra de tal forma agradável
que quem ouve fica a pensar que é apelido.
Já houve mesmo uma ou outra senhora
que fazia limpeza à sala de trabalho
que me chamou "senhor Branco"...
Apenas por acaso, ela também era branca.

Toda a gente acha improvável que uma preta
use o antónimo de preto para chamar
alguém que tem a pele clara e pálida.
É por isso que eu nunca digo a ninguém 
qual é o meu último nome, até
por ser mais esquisito que branco.

Conversamos muito.
Até falamos de mundos estranhos
como Gaza, Irão, Ceuta ou Sudão
habitados por gente que é tratada
de uma forma diferente do que é ser gente,
para depois voltarmos ao nosso país
que finge ser quase normal.

Uma ou outra vez 
há quem pense que somos amantes
Mas depois dizem que não
por não andarmos escondidos pelos cantos
nem nos verem a trocar bilhetes ou mensagens.
Como se fosse má ideia amar uma preta
que ainda por cima, é uma mulher bonita...

A mulher que me chama branco
tem toda a razão quando diz que
pior que ter a pele escura, é ser mulher e ser preta.
Mesmo que ela seja castanha e Bela (até de nome)...

Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sexta-feira, agosto 14, 2026

A cantiga é sempre a mesma: "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"...


Ao ouvirmos os outros, olhamo-nos ao espelho mais vezes do que pensamos, mesmo que nem sempre estejamos muito atentos ao que se passa tanto a sul como a norte.

Sei que quem têm mais de cinquenta anos, viaja mais pela memória... e até é capaz de se habituar a dizer que, "no meu tempo é que era bom", porque só gosta de se lembrar das coisas boas que lhe foram acontecendo ao longo da vidinha (pois é, é muito melhor)...

É nestes momentos que reparo que não sou muito saudosista. Acho mesmo que nunca disse algo do género, por saber que o passado só existe dentro das nossas cabeças.

Foi quando me lembrei do Fausto, um trovador com muito mais de dois metros de talento, que nos disse a cantar esta grande evidência, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, agosto 13, 2026

Ter vontade de esquecer a palavra "original"...


Falámos sobre a "originalidade", essa coisa que tanta gente anda à procura no mundo das artes e letras, quase numa perseguição doentia, mesmo que não se saiba muito bem o que quer dizer.

Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...

Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.

Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...

O que eu fui dizer ao António... 

Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:

«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»

E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.

Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 06, 2026

"A Ponte é (mais que) uma Miragem" há 60 anos...

 


a ponte é uma miragem

a ponte é uma miragem
que ultrapassa a exposição
pois é também uma viagem
do olhar e dos sentidos
que buscam inspiração
e querem que a ponte seja mais
que uma simples passagem.
 
olhar que se cruza
com um Rio de “visões”
tanto a norte como a sul
e que se deixa levar
em todas as direcções
 
sentidos explorados
pelo som que se confunde com o vento
de um tabuleiro povoado de carros
suspenso pelos cabos do tempo
 
sentidos encantados
pelas cores de um Tejo radiante
que pinta toda a paisagem
de uma forma contagiante
e transforma a ponte na tal miragem
 
Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, julho 20, 2026

"De vez em quando"...


De vez em quando
 
De vez em quando
Acontecem-me coisas estranhas
Daquelas que surgem com mais frequência
Aos poetas e aos malucos.
Eu começo já a contar:
Sentei-me num dos bancos de uma carruagem de metro,
Quando olhei para a frente,
Descobri uma jovem mulher de pele castanha
Enquanto a olhava
Comecei a escutar uma música longínqua
Um blues que ecoava na parte interior dos meus ouvidos
Olhei à volta e percebi que a música era só minha
 
A mulher de pele castanha era jovem
Podia ser minha filha.
Tinha um vestido negro com listas com espigas
cremes e uma mala de viagem
De quem parte ou de quem acaba de chegar
Por mais de meia-dúzia de dias…
 
A música só acabou quando ela saiu
na estação do Marquês.
 
Fiquei sem perceber se tive
Um laivo de loucura ou de poesia…
 
Luís Alves Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, maio 30, 2026

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»


Tenho um ou dois amigos anarquistas, surrealistas nunca tive nenhum.

Um ou dois pintores que se inspiram nas formas, ideias e mundos, que parecem mais saturnianas que terrestres, não contam.

Pensei nisso ao ler o livro, de António Maria Lisboa, "Uma Poesia Extrema", que como todos os "verdadeiros artistas", morreu novo.

No quinto ponto do seu "Aviso a tempo por causa do tempo" ele diz ao que vem: 

«que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.»

Falei sobre isto com um dos meus homónimos, que também conhece o bom gosto da colecção dos livros de bolso da Penguin.

Também acabei por pensar e falar em Luiz Pacheco e João de César Monteiro, que só devem ter sido anarquistas ou surrealistas, de apelido.

Lembrei-me deles porque sempre tive alguma dificuldade em os respeitar como gente, devido à sua prática quotidiana. Como artistas, reconheço-lhes talento, coragem (é mais lata...) e individualidade, mas a sua "alma de chupistas", o andar sempre à procura da rua "onde chove dinheiro", não me deixa morrer de amores pela sua forma de vida.

No decorrer da nossa conversa, o Luís desculpou-os. Falou-me de "adaptações", de "escolhas", de "provocações", para se conseguir sobreviver nesta autêntica selva, que é a nossa sociedade, que ainda está mais cheia de "leões e panteras" nas ruas da cultura...

Quando me armei em purista e falei na dignidade do individuo, ele voltou a desarmar-me e quase que me silenciou:

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, abril 30, 2026

Perder a mão para a escrita e a cabeça para as ideias...


Sei que acontece a quase todos os que escrevem, até mesmo aos chamados "melhores" (talvez até mais a estes, devido ao grau de exigência que os cerca...).

Começa-se por se sentir a falta de ideias, depois vem a falta de imaginação, e até a falta de palavras, para conseguirmos descrever o nosso mundo e o mundo dos outros.

Também sei que na literatura este "sentir" acontece mais aos poetas, que gostam de escrever coisas bonitas e não encontram as palavras certas... descobrindo o que é o vazio, que encolhe ou faz desaparecer os poemas. 

Eles bem olham para o céu, para o rio, para as pessoas, mas...

Tenho um amigo que quase foi obrigado a desistir de olhar o mundo com poesia. Começou a escrever prosa, coisas curtas, mas não é a mesma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 08, 2026

Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...

 


sou um homem e pinto
 
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema, 
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha 
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.
 
já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.
 
já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.
 
já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.
 
há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça, 
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.
 
hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse, 
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.
 
alice macedo campos

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, fevereiro 21, 2026

Claro que há sempre alguma coisa que se pode fazer...


A ideia quase inocente - e poética - de que tornar o mundo melhor só depende de nós, às vezes faz-me sorrir, outras dá-me cócegas.

Nem tudo é mau, até porque além de me fazer sorrir e coçar, também me faz pensar, e até escrever...

Ter dezoito ou dezanove anos é bom, entre outras coisas, por nos dar uma capacidade de sonhar, quase até ao infinito. 

E continua a ser boa ideia continuarmos a acreditar no poeta, que nos diz que "sonhar é uma constante da vida". Basta olhar para trás para perceber que muitas coisas boas que nos aconteceram, nasceram de sonhos...

Ao contrário do que os espertalhaços deste tempo pensam, ser inocente, nunca foi sinónimo de parvo.

E claro que sim, há sempre alguma coisa que se pode fazer, para tornar esta quase bola onde habitamos, numa coisa melhor, mesmo quando já se tem oitenta anos...

Talvez a mais importante seja olharmos para trás com olhos de ver, não termos medo do passado. É ele que nos ajuda a "ver melhor" e a não cometer o mesmo erro, mais que duas vezes... 

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, janeiro 23, 2026

A "Alma do Povo", a pequena e a (quase) grande burguesia...


Nos meios pequenos a cultura parece funcionar, quase em circuito fechado, por uma pequena elite que normalmente faz o dois em um, é produtora e espectadora. 

É assim na cidade onde nasci (Caldas da Rainha), como será em tantos outros lugares em que são quase sempre os mesmos a aparecer, a escrever, a pintar ou a tocar...

Fui espectador em duas ou três inaugurações de exposições artísticas e também em um ou dois lançamentos de livros. E lá estavam os mesmos "doutores", cheios de sorrisos e salamaleques, com um sentido crítico enviesado, logo à partida, porque a amizade é o que é... (continuo a pensar da mesma forma que o Miguel Esteves Cardoso, só conseguimos escrever uma crítica honesta, quando não conhecemos o escritor ou o artista cuja obra avaliamos...). 

Sabia que aquele não era o meu mundo...

O mais curioso, é que não era sobre isso que queria escrever. Aconteceu-me mais uma vez, entrar no "comboio" errado e ser obrigado a sair na próxima paragem...

Estou a  acabar de ler um livro datado de 1949, "Alma do Povo", da autoria de Leonel Cardoso (só pode ser o dono da rua onde mora a minha mãe, nas Caldas...), de "glosas de cantigas". Embora os poemas sigam todos o mesmo caminho, prontos a entrar em qualquer casa de fados onde ainda se valorize a "desgraçadinha", têm muita musicalidade. A espaços fui capaz de ouvir tanto o Marceneiro como a Aldina, a cantar aquelas coisas onde António pode rimar com demónio ou ciúme com lume.

Não tenho dúvidas que Leonel Cardoso fazia parte da tal elite de que falo, nesses anos quarenta e cinquenta, ainda mais reduzida...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, dezembro 29, 2025

Regresso com a poesia e os livros do Sidónio...


Os primeiros contactos que tive com Sidónio Muralha foi através de uma amiga, que aproveitava todos os momentos de poesia, para o declamar (sim, declamava, não lia...), a Ofélia.

Pela força das suas palavras, percebia-se que era um poeta da resistência.

Acabei por ler dois livros de poesia da sua autoria e fiquei com a certeza de que ele teria sido um "homem político" (um resistente, perseguido e preso,  provavelmente ligado ao PCP...) dos tempos do neo-realismo, mas sem nunca ter tido a curiosidade de saber quem foi realmente o Sidónio.

Foi a leitura de "Caminhada - livro de vivências", que fez com que percebesse que o Sidónio Muralha foi um cidadão do mundo. Esta obra é uma espécie de diário com múltiplas entradas escritas em São Paulo, Rio de Janeiro, Lages, Londrina, Curitiba, Bruxelas, Farim (Guiné), Stanleyville (Congo), Dakar, e claro, Lisboa, entre outros lugares. Fala de tudo menos de poesia. Isso fez-me perceber que havia uma outra vida, para lá da poesia...

Foi por isso que acabei por pesquisar mais algumas coisas e descobrir que Sidónio tinha partido para o exílio em 1943 (estava a ser perseguido politicamente...) e que foi um quadro superior da Unilever, o que o levou a trabalhar em vários países africanos, acabando por se radicar nos anos 1960 no Brasil, onde viria a falecer em 1982.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, novembro 23, 2025

Só conhecemos os livros depois de os abrirmos e lermos...


Sei que este meu título parece mais uma "lapalissada", que outra coisa, mas é a única forma de chegar ao lugar que quero.

E esse lugar é uma livraria, onde fui à procura de um livro, que não encontrei.

Depois desloquei-me para a estante da poesia - faço quase sempre isso... - e peguei no primeiro livro que estava à minha frente. Abri-o quase a meio e comecei a ler um dos poemas. Agradado, li mais dois. Convencido, trouxe o livro para casa.

O mais curioso, é que apesar de gostar das palavras da poeta (Maria do Rosário Pedreira...), o título dizia-me pouco, levava-me mais para um tratado de anatomia ("O Meu Corpo Humano") que para uma viagem poética.

Ainda bem que estava enganado.

Soube-me muito bem ler todos aqueles poemas, que usavam o corpo humano, quase como um disfarce, para falar de todos nós (sim, andamos todos por ali, no "braço", nos "olhos", no "nariz" ou nos "lábios"...).

Tanta mensagem escondida por debaixo das "unhas" ou do "cabelo"... É preciso ter "cabeça" e "estômago", para escrever coisas tão profundas, bonitas e sérias, num livro de poemas que só é pequeno no tamanho...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, outubro 26, 2025

As palavras bonitas (e compreensíveis) da Sophia...


Continuo a ler muita poesia.

Foi um hábito que ficou da pandemia, em que finalmente fiz uso do cartão de leitor da Biblioteca Municipal de Almada.

Já tinha os meus poetas preferidos (todos temos...). Pouco ou nada mudou, dezenas de poetas lidos depois.

A Sophia de Melo Breyner Andresen e o José Gomes Ferreira, continuam a ser grandes, nas palavras bonitas que escolhem para nos transmitirem as suas emoções, os seus encantos e desencantos, sem fugirem do mundo concreto, de tudo aquilo que nos cerca.

Poderia falar também de Alexandre O'Neill, de Ruy Belo, e de pelo menos, mais meia dúzia de poetas, que são de uma linha poética mais compreensível (pelo menos para mim...). Sim, eu gosto de ler, sentir e perceber a mensagem poética que está a ser transmitida.

Lá estou eu a fugir... Só queria transcrever por aqui, as palavras escritas, a lápis, que me ficaram depois da leitura de mais um dos livros da Sophia (Obra Poética II):

«Ao ler a poesia da Sophia, sinto-me maravilhado. A forma como ela consegue dar beleza e sentido poético às palavras, é única. Palavras que nunca se perdem no espaço, nunca querem ser estrelas, querem ser apenas poemas. Poemas que conseguem ser sentidos e maravilhar qualquer pessoa que seja sensível e goste de poesia.»

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, setembro 06, 2025

«Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»


Há poetas que são mais de dizer e outros mais de escrever.

Conheço uns e outros, normalmente não moram em ruas parecidas nem vestem roupas feitas no mesmo alfaiate.

Os que dizem, misturam os seus poemas com os que mais gostam, dos outros, quase sempre gente com mais de dois metros de poesia.

Os que só escrevem, gostam de falar de outras coisas, ou então de permanecer em silêncio.

Já me devem ter dito mais de cinco vezes a frase que escolhi para dar título a estas palavras. Recordei-a dita pela boca de uma amiga que na passagem dos anos 80 para os 90, morava numa das casas mais pequeninas que conheci (se bem que na China ou no Japão pudesse passar por um apartamento familiar...).

Era uma mulher cheia de particularidades, que também gostava de me ler poesia. 

Curiosamente, a singularidade que mais recordo é o facto de termos dormido juntos também mais que cinco vezes e nunca a ter visto completamente nua. Só descobria a sua nudez através do tacto, era como se a luz tivesse algo de errado. Nunca levei isso para o seu corpo, que sabia que era bonito com e seu roupa...

Como costuma acontecer com os amores antigos, nunca mais nos encontrámos. O mais curioso, é que só penso nela por coisas muito singulares, diria mesmo, muito particulares.

E a frase que mais me aparece, misturada com o seu sorriso trocista e quase sem som, é esta: «Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, julho 19, 2025

Poesia com (várias) guerras lá por dentro


Dois dos meus autores preferidos são a Maria Judite de Carvalho e o José Gomes Ferreira. Sempre que me vêm parar às mãos livros das suas autorias, viajo agradado dentro das suas páginas.

Hoje acabei de ler a "Poesia II" do Zé Gomes, com poemas escritos de 1938 a 1943, alguns muito sofridos, devido à Guerra que estava a destruir a Europa.

Transcrevo um dos poemas pela mistura de sentimentos, num tempo estranho, quase como aquele que estamos a viver. Embora ainda não estejamos em ditadura, como acontecia nesses anos sombrios...

                                                                                    (Subo lentamente a rua para casa...)

No céu, a lua e as estrelas...
Na terra, silêncio e gatos...

E, eu às três de madrugada
com passos de rasgar o chão
a ouvir ranger nos sapatos
o violoncelo da minha solidão...

(esta triste solidão de deus do avesso
onde até a Morte apodreço.)


(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)


sexta-feira, junho 27, 2025

Não tenho a certeza que para se ser poeta, dos bons, tenha que se ser, marginal, mas...


Há muito tempo que não estava com um rapaz que escreve poemas e que diz falar com toda a gente, menos com poetas.

Outra coisa curiosa (pelo menos para quem não é do meio...), também não lê poemas, de ninguém. Nem mesmo do seu mestre, esse mesmo, o Herberto Helder, de quem acabou de ler a biografia escrita pelo "polícia dos costumes da nossa literatura".

O grande motor da sua poesia é a imaginação. Depois vêm, quase em fila, os filmes, os romances, as suas viagens solitárias, de preferência por ruas vazias, onde seja possível enfiar as personagens que lhe saltitam de neurónio em neurónio.

O mais curioso, é que ele, a "olho nu", é um cidadão completamente normalizado, com um emprego de funcionário público, daqueles bons, em que pode passar o dia a ver as barcas a passar no Tejo (num dos poucos lugares do Estado que ainda não foi obrigado a virar as costas ao rio...), enquanto arquiva os papeis que lhe vêm parar à mão nos lugares certos (é bom nisso, sempre foi muito arrumadinho...).

Nunca casou. Sempre teve dificuldade em viver com outras pessoas no mesmo espaço. Precisa e gosta da sua solidão, de não ser importunado, muito menos que mexam nas suas coisas. É por isso que nunca teve empregada em casa, é ele que é o "fado do lar".

Apesar de todas estas coisas estranhas, quando está comigo, fala pelos cotovelos. Diz mal de tudo e mais alguma coisa. Como adora sublinhar os livros que lê e mostra-me partes que normalmente me passam ao lado (sei que se fosse crítico, seria um mau crítico...) e que são realmente alarvidades literárias.

O mais curioso é sentir, que além de sorrir, também aprendo uma ou outra coisa a seu lado. Sinto que ele é demasiado inteligente para se sentir confortável neste mundo que nos cerca.

A minha companheira conhece-o de vista e chama-lhe "o meu amigo estranho", sem fazer ideia das coisas que ele diz, seja dos poetas que passam a vida a rimar "cão com cagalhão", dos vizinhos a quem diz bom dia e boa tarde, que fazem um esforço do caraças para fingirem que são felizes, ou ainda, das mulheres que passam o tempo a mandar nos homens e no mundo, mesmo que finjam que isso é mentira...

Ele diz que não precisa nada disso. Não precisa de rimar com as palavras, muito menos de sorrir à vida ou agradar aos outros, com as mulheres incluídas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)