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sábado, setembro 12, 2026

Viver com as coisas "fixas", que nunca mudam...


Não vale a pena pensar no que é melhor ou pior. Somos o que somos. E não deixa de ser boa ideia, aceitarmos que temos de viver com essas coisas "fixas", que nunca mudam...

E não é por a escritora Rosa Montero ter metido esta frase dentro de uma das suas personagens, que banalizava as coisas: «Ela não sabia fazê-lo. Não sabia jogar esse jogo de intrigas nem conquistar pessoas com quem antipatizava.»

Eu também não sabia (nem queria...) gostar de quem não gostava de mim. Nunca consegui ser agradável para quem me é desagradável (e houve alturas que me esforcei...).

Sim, pudemos gostar de Jesus de Nazaré e achar o gesto magnânimo, de dar a outra face, uma estupidez...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 01, 2026

«Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»


Alguns leitores, assumidamente, não comentadores do "Largo" gostam de dizer coisas sobre o que escrevo, como foi o caso do "anónimo" da camisola azul que frequenta o café da praça. Não só teve o descaramento de acrescentar palavras sobre os livros, como o disse de uma perspectiva sobretudo comercial: «Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»

Pois foi... ninguém me disse. Mas é o que acontece, mais vezes do que pensamos. 

O "anónimo" da camisola azul, está cheio de razão... Desde que a Feira do Livro se tornou um "hiper-mercado", até mesmo os leitores de livros acabam por comprar ainda mais livros, que sabem que nunca irão ler. 

São apenas os livros que gostavam de ler um dia...

A "febre" do consumismo é isto... leva-nos sempre a comprar coisas, que não nos fazem falta, nem mesmo na nossa cabeça. 

Pois é, nada escapa a esta vontade de vender e de comprar destes tempos, nem mesmo os livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 31, 2026

Tantas vezes que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa...


Tive de partir a conversa sobre a genialidade de alguns escritores como o nosso Lobo Antunes, em dois.

Acontece demasiadas vezes estarmos à conversa e misturarmos assuntos, ao ponto de fingirmos que não percebemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa. 

Pois... à mesa, nem sempre temos agilidade suficiente para "separar as águas". Felizmente, as palavras escritas são muito menos complicadas que as palavras faladas...

Ou seja, além de se falar do escritor, também se falou dos seus leitores, dando realce aos "compradores de livros com autógrafo", mais coleccionadores que leitores, tanto do António como do Saramago e companhia...

Foi a Carla que melhor caricaturou o tal sujeito (não deixa de ser curioso, que fizesse um boneco engraçado masculino...), oferecendo-lhe um lenço ao pescoço e colocando-o na primeira fila dos lançamentos dos chamados consagrados (os "eusébios" dos livros...), de perna cruzada, com mão no queixo e ar interessado pela tramóia bem resumida pelas palavras do apresentador. Sem se esquecer de dizer que ele é sempre um dos primeiros a ir para a fila para sacar o respectivo autógrafo do livro que tem o destino habitual: embelezar a estante cheia de livros assinados, que nunca leu, nem vai ler...

Todos sorrimos, por gostarmos de ter amigos que têm a capacidade de fingir que o mundo é muito melhor do que é, dizendo coisas que fazem sorrir as mesmas pedras da calçada, que soltam lágrimas com os fados da desgraçadinha...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 30, 2026

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances»


Há tantas coisas sobre a qual nunca pensámos, algumas importantes outras quase sem importância nenhuma, muitas vezes são apenas meras teorias ou conjecturas.

O Rui voltou a ler os livros de crónicas de António Lobo Antunes, depois de ter lido, e gostado, dos seus poemas. E por essa razão resolveu criar algum alvoroço na nossa mesa de críticos literários sem jornal, com uma frase daquelas, que não se apresentam todos os dias à mesa de café:

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances.»

Mas não se ficou por aqui, explicou bem demais a sua tese, baseada nos livros de ficção do bom do António que só se liam com grande esforço e paciência, de trás para a frente e da frente para trás, porque ele "habitava noutra galáxia". Só descia à terra quando tinha de escrever as crónicas semanais, que gostava de desvalorizar, por lhe parecerem coisas demasiado simples e corriqueiras, mesmo sem o serem...

Depois de duas ou três tentativas para desmontar a sua teoria, acabámos quase convencidos, porque o Rui vinha bem preparado para uma possível "guerra literária".

Quando nos levantámos da mesa, percebemos que estávamos quase sem argumentos, graças ao bom exemplo que nos foi apresentado, sobre alguém que se faz entender  mais como cronista e poeta que como romancista, pelo menos para o leitor comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 23, 2026

As velocidades diferentes que se encontram dentro dos livros...


Os leitores, mesmo os mais apressados, sabem que todos livros têm uma velocidade própria de leitura. 

Se há livros que querem ser lidos da primeira à última página - tal é a sucessão de acontecimentos que nos vai surgindo, capítulo a capítulo, ao ponto de só descansarmos quando chegamos ao fim -, há outros que pedem reflexão, quase que nos pedem para parar para pensar...

Normalmente estas obras são escritas com alma, quase sempre sobre temáticas sensíveis, onde o escritor quase que se despe por inteiro... conseguindo expressar o que sente através das palavras que nos oferece.

No meu caso pessoal, é raro sentir esta vontade de parar a leitura e ficar agarrado a uma frase ou um verso, capaz de transmitir tanto apenas com meia dúzia de palavras. Senti isso com a "Fortaleza" de António Borges Coelho.

É um pequeno livro de poemas, com uma introdução em prosa, onde o autor nos oferece uma multiplicidade de sentimentos, sem nunca perder a autenticidade. Livro que pode muito bem ser entendido como um "diário poético", do seu tempo de prisioneiro no Forte de Peniche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 17, 2026

Tempo de organizar papéis e ideias...


Gosto dos começos de semana em que as ideias começam a circular à minha volta, ainda na cama, quase a quererem dar organização à confusão de papeis com frases e ideias, que coloco debaixo das pequenas pilhas de livros, que se julgam importantes, num dos cantos da secretária.

Sei que chegou o momento de comprar três ou quatro cadernos de capa preta, para "apagar a vela" e "acender a luz" aos vários projectos que me perseguem a  horas e dias cada vez menos incertos.

Tenho de me despedir da "preguiça" e das ideias pré-concebidas, de que o tempo dos livros já era...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, agosto 12, 2026

«Enquanto o mundo se desgranha falas de livros...»


É curioso, que só ouvimos vocábulos, que normalmente não se usam nas conversas do quotidiano, através das pessoas que se acham mais cultas ou de gente pouco instruída, que além de terem facilidade em "inventar" palavras, também têm presentes no seu vocabulário, termos que ouviam na infância aos pais e avós...

Foi o que aconteceu com a palavra "desgranha", que cheira a desgraça e a desarrumação e caracteriza muito bem este mundo que nos rodeia... 

Não menos curioso, foi esta palavra ter sido dita por uma mulher.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, agosto 11, 2026

O bom do Dinis e a sua "escola" literária povoada de policiais e banda desenhada...


Quando escrevi ontem sobre o António, acabei por me lembrar do bom do Dinis Machado, que no começo dos anos 90 do século passado, visitava quase todas as semanas no primeiro andar da Rua Anchieta, paredes meias com a Bertrand.

Falávamos sobre a vidinha, sem deixarmos fugir o cinema, os livros e a banda desenhada... Não é por acaso que o seu brilhante "O que Diz Molero" tem lá estas três coisas... embrulhadas numa Lisboa que ainda tinha bairros com gente, capaz de inventar aventuras do arco da nova e da velha...

Nem sequer se pode dizer que "trocávamos" heróis, porque eu conhecia tão pouco mundo na estrada das aventuras literárias. Era por isso que tentava fixar os escritores de policiais e as suas obras mais emblemáticas, que o Dinis me oferecia, como se de cromos se tratassem, entre uma cigarrilha e um sorriso de miúdo (algo que ele nunca perdeu...).

Mas o mais curioso foi descobrir com ele o tempo em que se "alugavam" livros na "Barateira" e em outros alfarrábios.  que passavam de mão em mão pela malta do Bairro Alto que tivera algum tempo para ir à escola e era mais dada às leituras... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, julho 29, 2026

Não faz mal, não é importante...


Fomos a uma livraria a Vila Real de Santo António e fizemos o que é costume fazer-se nestes lugares, comprar livros.

Houve dois que se colaram logo às minhas mãos, "As Cartas de Berlim" e a "Aguarela de Paris", de Katherine Reay e João Pinto Coelho. Disse-lhes que sim...

Estava já em casa, de regresso às leituras, quando pensei na "perigosidade" de se lerem livros. Acabei por escrever estas palavras no "caderno de desabafos":

«Ler muitos livros é mais perigoso do que parece. Sem te aperceberes vais-te apropriando das palavras dos outros e começas a misturá-las com as tuas... e uns dias depois, olhas-te ao espelho e chamas-te escritor...»

Sei que há tanto de exagero como de realidade nesta frase... 

Não faz mal, não é importante...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


terça-feira, julho 28, 2026

Leitores e gostos diferentes para livros iguais...


Trago sempre pelo menos meia-dúzia de livros para ler nas férias. 

Voltei a perceber, mais uma vez que nem sempre são as melhores escolhas porque desta vez a minha companheira não trouxe nenhum livro e teve de ficar com as "minhas escolhas" e já torceu o nariz duas vezes...

Começou por ler "A Sala Magenta" de Mário de Carvalho, que leu até ao fim mas não gostou (eu também já acabei de ler e gostei, mesmo que não se trate de uma grande história, fala dos "desencontros" das pessoas nos meios das culturas, através do insucesso de um cineasta...). Mas com a segunda leitura é que se "estragou" tudo, graças aos contos de Charles Bukowski, do livro, "A Mulher mais bonita da cidade". E abandonou-o logo às primeiras páginas...

Além de estar cheio de sexo (ao vivo e a cores...), a linguagem sem travões do Charles não deixa de chocar alguns leitores. Quando um dos seus contos tem como título, "A Máquina de Foder", está tudo dito...

Comecei a ler o Charles com conhecimento de que ele escrevia sem qualquer cerimónia, sobre o mundo e sobre as pessoas (li um dos seus livros mais populares, embora não me lembre do título...). Não era do seu estilo substituir as palavras que acha certas para ilustrarem as suas histórias. Claro que há sexo e álcool a mais neste livro. É provável que tenham escolhido os seus contos mais vadios e marginais para esta antologia...

Imagino que não haja espaço para Bukowski, nesta nova América tão purista e adepta das "aparências". O mais certo é ele ter sido banido das bibliotecas públicas e até de algumas livrarias de "lacinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, julho 27, 2026

Quando um simples marcador de livros, se torna quase inseparável...


Uma das poucas colecções que tenho, é de marcadores de livros. Mesmo sem nunca os ter contado, devo ter mais de um milhar, guardados em várias caixas que já foram de sapatos.

Há um deles que me acompanha há meses, já marcou mais de duas dezenas de livros. Começou por ser o "marcador de mesa de cabeceira". Revelou-se de tal forma inseparável, que até veio de férias comigo e com os meus livros.

E agora cheguei a um conclusão. Uma das minha próximas aquisições literárias será "As Cartas de Berlim" da desconhecida (para mim, claro), Katherine Reay...

E apenas porque sim.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


domingo, julho 26, 2026

Malvados preconceitos (e logo a "triplicar")...


Uma das formas que continuo a gostar de "passar tempo" é dentro de livrarias, enquanto as meninas andam a passear dentro das lojas de peças de roupa.

Foi numa dessas passeatas que fui surpreendido ao olhar para uma estante por um título "daqueles", que fazem furor na chamada "literatura de cordel". Quando li o nome do autor (com a fotografia do próprio escarrapachada na capa...), um actor ainda jovem, que aparece nas telenovelas, pensei ter ficado esclarecido.

Aquele título, "Tudo o que nunca te disse, meu amor", percebia-se à légua, que piscava o olho a jovens adolescentes ou pré-adultas (e porque não tias solteironas?). A fotografia na capa, idem idem aspas aspas. E depois a escolha de um actor jovem como escritor romântico (que até pode ter jeitinho para a escrita, mas...), indicava que havia por ali mais comércio que literatura.

Depois de virar as costas, percebi que no que tocava a livros, a minha crítica de capa continuava cheia de preconceitos. E desta vez a "triplicar"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, julho 21, 2026

Olhar pela janela o mundo que está lá fora...


Lá acabei mais uma aventura do inspector Maigret (gosto mais que comissário).

Há sempre pequenas coisas que ficam.

Reparei que tal como o inspector, uma das coisas que gosto, é de olhar para o exterior no lado de dentro das casas, ver o mundo lá fora.

Mas não tem nada que ver com as razões que Georges Simenon invocou nas páginas de "A Defesa de Maigret":

«No seu gabinete, tal como no Boulevard Richard-Lenoir, Maigret tinha o costume de postar-se à janela, olhando para fora, fosse o que fosse: as janelas fronteiras, as árvores, o Sena, os transeuntes. Talvez isso fosse um sinal de claustrofobia. Por todo o lado procurava um contacto com o exterior.»

Eu sei que no meu caso não é claustrofobia. Ganhei este hábito na infância. Ainda recordo com alguma melancolia quando ficava preso à janela da sala, em especial no Inverno, a olhar para a rua e a ver as pessoas a pé, de motorizada ou de bicicleta (carro menos, havia poucos...), a passarem, a desviarem-se ou a andar a saltitar, para fugir às poças de água castanha, porque o alcatrão só  chegaria algum tempo depois ao bairro. E quando passava um carro, era banho certo para quem se deslocava a pé... Para uma criança era um espectáculo digno de se ver.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, julho 15, 2026

A simplicidade e os bons truques dos policiais


Graças à quase secular "colecção Vampiro", tenho lido Georges Simenon e as suas curiosas aventuras do comissário Maigret.

Já não me lembrava da simplicidade desta escrita, nem dos "truques" usados pelos escritores de policiais, que nos vão lançando pistas  e bandidos pelo caminho, para que continuemos presos às suas páginas, até chegarmos ao fim. 

Está a fazer-me bem, ajuda-me a escrever outras coisas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, julho 04, 2026

Com o mundo na ponta dos dedos...


Comecei a ler a biografia, "Com o Mundo nos Punhos - elementos para uma biografia de José Santa Camarão", de Luís Filipe Maçarico, mais por curiosidade que por outra coisa.

Publicada pelo Município de Lisboa num curto espaço de tempo, devido à comemoração do centenário do boxeur de Ovar (1902-2002), teve logo à partida um problema, que só quem escreve sente: não existir tempo para deixar o "livro respirar". Muitas vezes esta "pausa", faz com que exista a possibilidade de perguntar à personagem principal, duas ou três coisas que consideramos essenciais, que nos foram deixando com "a pulga atrás da orelha".

Estas questões e estas dificuldades (que o autor não teve qualquer problema em assinalar nas suas "considerações finais"), por que passam todos os investigadores, fizeram com que percebesse muito bem o trabalho hercúleo que foi realizado em apenas quatro meses, o que ainda faz com que esta biografia - de um dos nossos primeiros grandes atletas do nosso país com projecção internacional - seja mais relevante. 

O confronto com testemunhos contraditórios, está longe de ser uma novidade para quem escreve (tanto no jornalismo como na literatura...), e por isso mesmo, é bom que o leitor tenha noção das dificuldades por que passam os biógrafos...

E é aqui que vem ao de cima o bom senso, matéria essencial para qualquer autor, conseguir chegar a um resultado satisfatório, como aconteceu nesta obra de Luís Maçarico.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, junho 29, 2026

O esboço de um novo ser humano, mais "panfleto" que "panfletário" (ou as duas coisas)...


Como hoje tudo é comerciável, não devia achar estranha, a abordagem feita por um potencial autor, que mesmo sem "saber escrever", disse-me que uma editora o andava a chatear, para que contasse a história da sua vida, ser o "autor" da sua "autobiografia".

No início fiquei sem perceber muito bem o que estava a ouvir. Ate cheguei a pensar que se tratava apenas de mais uma forma que alguém arranjara para enganar incautos e ganhar uns trocos. 

Quando senti que o meu interlocutor não conseguia esconder o seu orgulho, em poder passar para o lado de cá dos escritores, mesmo que se até então se revelasse incapaz de escrever uma história, por mais simples que fosse, fiquei com a sensação de que era mesmo possível que estivesse prestes a ser enganado.

Quando me vim embora, pensei que esta nova aventura literária devia ter o dedo, da cada vez mais popular, inteligência artificial. Só ela é que seria capaz de fazer a magia de transformar um cidadão sem qualquer talento literário num escritor...

É apenas mais um exemplo do esboço de um novo ser humano, mais "panfleto" que "panfletário", que também se prepara para ser um criativo a fingir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 16, 2026

"Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."


A frase que escolhi para título deste pequeno texto faz parte de uma das canções do Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam por voltar sempre, de tempos a tempos...

Aparece sempre alguém, capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...

Nem a invenção dos deuses e das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...

Tenho à cabeceira um livro há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a 1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em Auschwitz. 

Não o leio todos os dias, porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.

Há muitas partes do seu testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença, se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial em duas frases:

«Polícias que obedecem a ordens expressas de ir prender uma bebé de dois anos, a casa da ama, para a internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»

E umas linhas mais abaixo: «Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização.»

E não são precisas mais palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, junho 07, 2026

A "praia da minha vida" na Feira do Livro...


Ainda sem sair da Feira do Livro, penso que nunca se fizeram livros tão bonitos como os que se fazem hoje. Há capas demasiado atractivas, como são as dos livros de bolso da Penguin Clássicos, em que apetece comprar algumas obras que já temos lá por casa, só pela sua graciosidade e bom gosto.

Também achei curioso um álbum com fotografias das nossas praias, estar aberto na Foz do Arelho. Acabei por perguntar se podia tirar uma fotografia, porque esta era a "praia da minha vida"...

Uma das senhoras que vendia aqueles livros, disse-me que sim, afirmando que esse pedido era comum, porque todos nós tínhamos uma "praia da nossa vida"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 06, 2026

Livros, poesia e comércio...


O nosso poeta mais alto sabia mesmo das coisas do comércio, a frase "primeiro estranha-se, depois entranha-se", diz quase tudo sobre a forma como reagimos às novas formas de mercado.

Ou seja, este ano a Feira do Livro, pareceu-me mais "normal", talvez pelas cores e por não a ter visitado em "hora de ponta", mesmo que tenha tudo de grande centro comercial a céu aberto.

Isso também deve ter acontecido por ter levado um lista com meia dúzia de títulos (para depois trazer uma dúzia...) e os ter encontrado praticamente todos.

Pelo que tenho lido, esta novo modelo é um êxito, para os escritores, para os leitores, e sobretudo para os editores. Também gostei de ver por lá o "Lobo de olhos azuis".



Tenho a sensação de que ter uma "biblioteca" na sala voltou a estar na moda. E se por lá estiverem livros autografados, tanto melhor. Sempre fomos melhor a mostrar que a fazer.  E como agora os livros são mais bonitinhos (grandes criativos gráficos)...

E além disso sabemos que a sabedoria popular poucas vezes se engana, pelo menos no nosso país: "um burro carregado de livros continua a ser um doutor..."

(Fotografias de Luís Eme - Lisboa)