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sábado, julho 04, 2026

Com o mundo na ponta dos dedos...


Comecei a ler a biografia, "Com o Mundo nos Punhos - elementos para uma biografia de José Santa Camarão", de Luís Filipe Maçarico, mais por curiosidade que por outra coisa.

Publicada pelo Município de Lisboa num curto espaço de tempo, devido à comemoração do centenário do boxeur de Ovar (1902-2002), teve logo à partida um problema, que só quem escreve sente: não existir tempo para deixar o "livro respirar". Muitas vezes esta "pausa", faz com que exista a possibilidade de perguntar à personagem principal, duas ou três coisas que consideramos essenciais, que nos foram deixando com "a pulga atrás da orelha".

Estas questões e estas dificuldades (que o autor não teve qualquer problema em assinalar nas suas "considerações finais"), por que passam todos os investigadores, fizeram com que percebesse muito bem o trabalho hercúleo que foi realizado em apenas quatro meses, o que ainda faz com que esta biografia - de um dos nossos primeiros grandes atletas do nosso país com projecção internacional - seja mais relevante. 

O confronto com testemunhos contraditórios, está longe de ser uma novidade para quem escreve (tanto no jornalismo como na literatura...), e por isso mesmo, é bom que o leitor tenha noção das dificuldades por que passam os biógrafos...

E é aqui que vem ao de cima o bom senso, matéria essencial para qualquer autor, conseguir chegar a um resultado satisfatório, como aconteceu nesta obra de Luís Maçarico.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 30, 2026

A deturpação diária da realidade...


A deturpação da realidade é uma constante diária da sociedade actual.

As pessoas que vivem alheadas da realidade e que gostam de criar narrativas paralelas, nunca tiveram um tempo tão propício às suas "invenções", como este em que vivemos.

Não podemos culpar apenas o partido populista, que gosta de normalizar a mentira, a indecência e a falta de respeito pelo próximo. Até porque existe pelo menos um canal de televisão que se alimenta das ficções noticiosas que cria.

O que aconteceu nos balneários do FC Porto, antes da realização do jogo de andebol entre a equipa da casa e o Sporting, diz quase tudo sobre este tempo em que vivemos. 

O cheiro tóxico existente nas instalações portistas quer fizeram com que a equipa leonina se equipasse nos corredores, conseguiu que os dirigentes portistas colocassem a possibilidade de terem sido os sportinguistas a levarem substâncias abrasivas para o balneário, em vez de fazerem um pedido de desculpas público, mais que justificável, aos adversários...

Mesmo que o desporto goste de se afirmar como "um mundo à parte" da sociedade, é uma vergonha o que se passou no Porto. 

Pior que o episódio que fez com que o treinador e um atletas recebessem assistência médica, foi a tentativa do FC Porto de branquear a situação, com as tais narrativas paralelas, que se estão a normalizar, dia após dia.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, março 19, 2026

Um mundo que teima em ser mais masculino que feminino...


Podia dar dezenas (ou centenas...) de exemplos de um mundo que finge ser igual para os homens e as mulheres, mas que sempre que pode, trata-as de maneira diferente.

Podia começar pela parte material, em que para a mesma tarefa é normal existirem ordenados diferentes. Há patrões que até se dão ao desplante de fazer referência à função de "chefe de família", colocando em segundo plano as tarefas que ambos realizam...

Mas o que vou falar é do desporto. Soube de três casos de clubes (um deles conhecido a nível nacional, a Académica de Coimbra...) em que por dificuldades financeiras, as primeiras modalidades a fecharem foram as secções femininas. Em qualquer um destes casos, nem sequer se deram ao trabalho de ouvir as atletas ou os seus familiares, para estudaram com ambos qualquer possibilidade de viabilidade...

O curioso disto tudo é ver à parte mais direita de quem nos representa no Parlamento, querer mudar tanto a Constituição, quando, apesar de ser a principal lei do país, se percebe que continua a contar pouco no nosso dia a dia, numa coisa tão concreta como a igualdade de oportunidades para todos, homens e mulheres. 

Nota: Por ser dia do Pai, é uma boa oportunidade para falar dos direitos da minha filha, que são mais pequenos, curtos e estreitos que os do meu filho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, novembro 13, 2025

Ser simpático deveria ser a décima primeira qualidade de um treinador...


A selecção de futebol portuguesa está longe de ser a "melhor do mundo", como muitos comentadores e jornalistas a "pintam".

Quanto muito, tem alguns jogadores de nível mundial.

E não vai ser com "sonhos" e "palavras simpáticas" que se chega lá. É preciso muito trabalho, porque isto de se ser capaz de fazer uma grande equipa, com grandes jogadores, não é para todos.

Já percebi há algum tempo, que este seleccionador - apesar de ser muito simpático, falar português e tratar o Cristiano Ronaldo como "sua alteza" -, está longe de ter a qualidade técnica necessária, para construir a tal "equipa de sonho", capaz de desafiar qualquer outra selecção por esse mundo fora.

Embora se trate de uma mera opinião pessoal, não tenho grandes dúvidas que na actualidade, os únicos treinadores portugueses com capacidade para construírem a tal "grande equipa", seriam Jorge Jesus, Abel Ferreira ou Leonardo Jardim.

(Fotografia de Luís Eme - Seixal)


terça-feira, novembro 11, 2025

A memória de Eusébio que vai desaparecendo...


Eusébio, o nosso primeiro grande ídolo planetário do desporto português nasceu em Moçambique, com um tom de pele ligeiramente mais escuro que o comum dos portugueses.

Começou a dar nas vistas bastante cedo, graças à sua qualidade como "jogador da bola", despertando o interesse dos dois grandes clubes lisboetas, com o Benfica a conseguir levar a melhor (embora ele tivesse de se esconder e de viajar como "Rute"...) e a trazê-lo para a Metrópole.

Eusébio era de tal forma talentoso, que em pouco tempo a equipa do Benfica, Campeão Europeu, passou a ser composta por ele e mais dez.

Embora hoje se fale pouco nisso, o facto de Eusébio ser o "melhor de todos", foi muito importante para se esbater a diferença de cor de pele na sociedade de então, ao ponto de muitos dos seus patrícios do Continente, se tornarem um bocadinho menos racistas e  quase fingirem que ele era "branco".

Até mesmo o ditador Oliveira Salazar se enchia de orgulho quando cumprimentava o "King", ao ponto de o ter classificado como "património de Portugal".

Escrevo sobre isto, porque fico com a sensação de que hoje há quase uma urgência no nosso país, em se arranjar um novo craque, de pele mais escura, com dimensão planetária. 

Talvez assim deixassem de mandar as pessoas de cor mais acastanhada, para a "sua terra", mesmo que estas tenham nascido em Portugal e tenham os mesmos direitos e deveres de qualquer cidadão português...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 03, 2025

O jornalismo de ontem e o de hoje...


Acordei cedo e a pensar no jornalismo, que eu fiz e que se fazia no século passado.

Escrever desta forma faz pensar que é mesmo uma coisa antiga, "do século passado"... E na realidade, acaba por ser, mesmo que tenham passado pouco mais de duas décadas.

Estava no "Record" no começo dos anos 1990, quando este começou a "morder os calcanhares à "bíblia", que ficava logo ali, a poucos metros, na Travessa da Queimada (e até a vender em algumas edições números próximos dos 100 mil...). Nessa altura a rivalidade atingiu pontos estranhos, ao ponto de numa entrevista que fiz ao escritor Manuel da Fonseca, a pessoa que editou a minha página, ter substituído "A Bola" por "outro jornal". Tirando essas pequenas diabruras, havia muito mais independência e liberdade na prática do jornalismo.

Era um jornalismo que vivia sobretudo da venda de jornais nas bancas, com a publicidade a ter um papel secundário. Um dos segredos do sucesso do "Record" eram as manchetes de primeira página e também a melhoria de qualidade do seu jornalismo, até porque não tinha os "monstros sagrados" do rival, como eram os casos de Carlos Pinhão, Alfredo Farinha ou Carlos Miranda, que eram um bom exemplo da qualidade literária, de um jornalismo que nunca teve nada de menor em relação ao outro, mais generalista...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa - um retrato raro, tirado este ano junto ao Campo Pequeno...)


sexta-feira, setembro 05, 2025

E possível que exista uma explicação, mas...


Não me lembro de assistir a um qualquer campeonato da Europa ou do Mundo, em que uma equipa perde os três primeiros jogos e a seguir vai disputar o jogo dos quartos de final.

Curiosamente, ou não, estou a falar da Selecção Nacional de Hóquei em Patins, que perdeu os três primeiros jogos do Campeonato da Europa com a Itália, a França e a Espanha. Em vez de "ir para casa", depois de três derrotas, foi jogar com a Andorra o tal jogo dos quartos de final.

Devo ser muito estúpido, por não conseguir perceber a lógica deste campeonato. É como se já estivesse tudo combinado, antes do começo dos jogos. 

E também devo ser muito pouco "patrioteiro", por estar a falar deste assunto...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 29, 2025

Porque é que estas pessoas não se demitem?


Soube-se nos últimos dias que a Federação Portuguesa de Judo foi suspensa pelas instâncias internacionais oficiais, devido a dívidas que ascendem a mais de 800 mil euros.

Embora não esteja em causa a participação dos nossos atletas nas competições internacionais mais importantes do mundo, não poderão concorrer com as cores de Portugal, se entretanto a questão não for resolvida.

O mais curioso (ou não), é que os dirigentes actuais da Federação, em vez de assumirem as suas responsabilidades, dedicam-se ao habitual "passa culpa", apontando o dedo ao antigo presidente (apesar de terem tomado parte no anterior executivo...).

Faz-me muita confusão que esta gente não se demita, pois é demasiado óbvio que são incompetentes para gerir uma federação desportiva. 

Não só estão a prejudicar os nossos atletas, como a imagem do nosso país.

(Fotografia de Luís Eme - Caramujo)


quarta-feira, janeiro 29, 2025

Os oitenta anos da "Bíblia do futebol"


Podia falar do "calimero" que começa a andar em negação, quando se fala de violência em Lisboa, ao ponto de até colocar em causa os números apresentados pela polícia, mas isso era dar atenção a quem não a merece.

É por isso que prefiro festejar os oitenta anos de vida que a "Bíblia" do futebol comemora hoje.

"A Bola" foi o jornal que mais li no começo da adolescência até à idade adulta, porque tinha jornalistas extraordinários, como foram o Alfredo Farinha, o Carlos Miranda, o Aurélio Márcio, o Vitor Santos, e sobretudo, o Carlos Pinhão. Adorava ler as suas crónicas, especialmente quando "largavam a bola", e davam largas à imaginação e ao espírito de cronistas, com os populares "Hoje Jogo eu"...

Não tenho grandes dúvidas, que foi graças a eles, que quis ser jornalista desde muito cedo. Ainda tive o prazer de conhecer Alfredo Farinha, Carlos Miranda e o Carlos Pinhão. Acabei por ter uma maior proximidade com  este último, por gostarmos ambos das coisas da cultura. Conversámos bastantes vezes, sobre livros, mas também sobre cinema ou teatro, apesar da concorrência quase doentia desse tempo entre o "Record", - onde eu já trabalhava - e "A Bola". Era uma daquelas coisas em que fingíamos passar-nos ao lado...

E não posso esquecer Cândido de Oliveira, jogador, treinador, seleccionador nacional e democrata (esteve preso no Tarrafal...), o principal responsável por este projecto jornalístico de grande sucesso, que dura há oitenta anos...

A propósito da capa, eu é que agradeço!


domingo, setembro 01, 2024

Extraordinários exemplos de superação e de alegria...


Não tenho assistido com a mesma assiduidade às competições dos Jogos Paraolímpicos, com que assisti aos Jogos Olímpicos.

Mesmo assim, nas provas a que tenho assistido, noto que transparece um maior companheirismo e também uma grande alegria, só pelo simples facto de estarem ali a participar na maior festa desportiva do mundo.

Mas o que mais me tem impressionado é a alegria destes campeões e campeãs, quando sobem ao pódio e recebem uma medalha, que não precisa de ser a de ouro. Há uma autenticidade expressiva que é capaz de emocionar qualquer pessoa, mesmo os que gostam de fingir que são insensíveis.

Nem quero imaginar o percurso cheio de obstáculos que estas pessoas tiveram de enfrentar, tudo o que passaram até conseguirem chegar aos Jogos. 

São dos mais extraordinários exemplos de superação para todos nós...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, agosto 12, 2024

O ouro inesperado de dois grandes campeões


A primeira imagem que me ficou gravada, depois da vitória inesquecível de Iúri Ribeiro e Rui Oliveira, na competição de ciclismo de pista, foi a alegria genuína dos dois jovens, para quem o sonho do ouro olímpico, era isso mesmo, apenas um sonho.

Mas felizmente há sonhos que se tornam realidade.

Claro que só se tornam realidade, quando se consegue lutar até à exaustão por eles, com espírito de sacrifício, inteligência e com a sorte dos campeões.

E foi isso que o Iúri e o Rui fizeram. 

E depois foi um espectáculo, dentro de outro espectáculo, protagonizado por quem ainda não acreditava no que tinha acontecido. 

Vou ainda mais longe, nunca tinha visto ninguém a cantar o hino de forma tão emotiva e feliz, depois de terem recebido as medalhas.

(fotografia de autor desconhecido retirada do site do "Record")


terça-feira, julho 30, 2024

A Maior Festa do Desporto Mundial na Televisão


Quem gosta de desporto, tem neste Verão a possibilidade de acompanhar os Jogos Olímpicos de Paris, de uma forma bastante completa, algo não acontecia há já alguns anos.

Não sei o que é que a RTP fez, para contornar o "negócio", mas o que fez fez bem.

De manhã à noite a RTP2 transmite praticamente todas as modalidades do programa olímpico, possibilitando-nos a oportunidade de perceber o equilíbrio que existe entre a maior parte dos atletas, com as vitórias e as derrotas a serem decididas por detalhes e também por alguma sorte, a tal coisa que, pelo menos no desporto, "dá muito trabalho"...

O comportamento dos portugueses não me tem desiludido nem iludido. Mostra a nossa realidade desportiva. Tirando meia-dúzia de grandes talentos que poderão realmente disputar medalhas, os outros atletas limitam-se a tentar fazer o melhor possível...

O único reparo que faço é a mania de fazer entrevistas mal os atletas acabam as provas, quando eles ainda estão a "digerir" as vitórias ou as derrotas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, abril 27, 2024

Também é um problema da democracia...


Tal como sempre se falou da "crise no teatro", também é histórica a "crise no associativismo".

Infelizmente são crises reais, por motivos diferentes. E de alguma forma estão ambas ligadas à democracia, mais pelo que não se fez do que pelo que se fez...

A preocupação de se criarem públicos para as actividades culturais ficou-se pelo caminho, algures entre as escolas e as instituições que tutelavam a Educação e a Cultura.

É difícil gostar do que não se conhece (a não ser que sejam espectáculos cuja comunicação seja mais directa com as pessoas, como acontece com as comédias...), do que não se sabe que também serve para pensar e nos ajudar a viver...

Em relação à "crise do associativismo", ela é sobretudo humana. Se antes de Abril era fácil encontrar, pessoas com "vontade de servir", hoje aparecem pessoas é com "vontade de se servirem"... Isso explica a crise do associativismo (a excepção são as grandes instituições, onde aparecem sempre várias listas de dirigentes, porque os interesses que se escondem por detrás, económicos, políticos ou desportivos, são mais que muitos...).

Pelos dados conhecidos, hoje vai acontecer "Abril" no Porto, com o fim do reinado de 42 anos de Pinto da Costa (que nos últimos anos se escuda nos muitos títulos conquistados, mas que se revelam cada vez mais insuficientes...). Este é o nosso exemplo maior do que o poder faz as pessoas, não as deixando sair na hora certa, desbaratando, tantas vezes, tudo o que se fez de positivo. 

Em Almada existem pelo menos meia-dúzia de colectividades que são presididas pela mesma pessoa há mais de vinte anos, fazendo com que estas caiam no marasmo, quase por razões naturais. Isso acontece porque a motivação deixa de ser a mesma, ao mesmo tempo que se vai ficando cada vez mais colado "à cadeira do poder" (sei do que falo porque presidi uma colectividade durante oito anos, mas por sentir na pele os "malefícios do poder", consegui sair pelo próprio pé...). É esta colagem que faz com que não se criem condições para que exista, pelo menos, uma alternativa de mudança, para que tudo se torne mais respirável e para que exista espaço para a diferença...

Infelizmente as pessoas fingem não perceber o que se passa à sua volta. E pior ainda, fingem não ver os vários maus exemplos alheios, que poderiam muito bem servir de "espelho"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, outubro 28, 2023

Ideias que saltitam no começo das manhãs de sábado (agora menos)...


Gostei de acordar e descobrir que andavam à minha volta, duas ou três ideias, à solta. Foi como se estivesse a viver um daqueles sábado à antiga, em que em vez de dormir até um pouco mais tarde, era acordado por uma ou outra história, que só descansavam quando ficavam registadas no pequeno bloco de mesa de cabeceira.

Como deixei de ter um bloco por perto, fico apenas com as ideias a cirandar na cabeça... 

E hoje gostei, particularmente, de pensar um projecto antigo de uma forma diferente  (sobre o clube e as pessoas do bairro da minha infância...). Foi como se alguém me dissesse ao ouvido, para fugir do rigor dos números e pensar mais nas pessoas, desde o seccionista, passando pelo treinador e acabando nos muitos companheiros de aventura...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, outubro 11, 2023

Já começam a cansar as "vitórias morais"...


Até acho bem que de vez em quanto a comunicação social descubra que existem mais modalidades desportivas no nosso país, além do futebol.

Mas isso não quer dizer que alimente ou concorde com todo este "foguetório" em volta da Selecção de râguebi ter vencido pela primeira vez um jogo num Mundial. Mais um bocadinho ainda é campeã de qualquer coisa, nem que para isso se vire a classificação de pernas para o ar.

Por já termos somado demasiados êxitos desportivos em várias modalidades, pensava que já tínhamos passado esta fase, mas parece que não. 

Pois é, percebe-se que ainda há por aí muita gente a delirar com as "vitórias morais"... A começar pelo Presidente da República.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, setembro 10, 2023

A ignorância "atrevida" e "burra" televisiva (cada vez mais normal)...


Logo que ouvi pela primeira vez a notícia, pareceu-me estranha, até pela marca obtida ser demasiado vulgar. Refiro-me ao recorde dos 10.000 metros tão badalado hoje nas televisões, porque finalmente Samuel Barata tinha batido o recorde nacional desta distância (com 27.45,00")  de Fernando Mamede.

Como fiz atletismo e gostava de estatística, tinha algum conhecimento sobre as melhores marcas nacionais de praticamente todas as disciplinas. Com o passar dos anos, fui-me afastando da modalidade, mas não ao ponto de perceber que estava a ouvir uma "burrice" nos vários canais televisivos que anunciavam o dito recorde.

Consultei a lista dos recordes nacionais e das melhores marcas e verifiquei que estava certo. Ou seja, estava a dar-se relevo a algo que nunca teve grande importância, que são os tempos obtidos em provas de estrada (se excluirmos a maratona...). E isso acontece porque há diferenças substanciais entre os vários percursos, que podem ser mais - ou menos - favoráveis a que se obtenham grandes marcas. Isso acontece por exemplo nas maratonas. Há duas ou três maratonas espalhadas pelo Mundo que são as onde se conseguem melhores resultados, e por essa razão são as mais procuradas pelos atletas...

Ou seja, o verdadeiro recorde de Portugal dos 10.000 metros, nem sequer pertence a Fernando Mamede. É de António Pinto e foi obtido em 1999, com 27.12,47". A segunda e terceira melhor marcas pertencem a Fernando Mamede e a Carlos Lopes, obtidos na mesma prova realizada a 2 Julho de 1984, que toda a gente que gosta de atletismo se deve recordar. Carlos Lopes estava isolado, quando Fernando Mamede faz uma parte final de prova incrível e além de passar Lopes, bateu o recorde Nacional e o recorde do Mundo (que nessa prova também foi batido por Carlos Lopes...). Mamede conseguiu a excelente marca de 27.13,81" e Lopes, 27.17,48". E ainda existem duas outras marcas com tempos inferiores ao de Samuel Barata, em pista, as de Domingos Castro (27.34,53", obtida em 1993) e de Dionísio Castro (27.42,84" em 1988).

Sem pretender desvalorizar o valor de Samuel Barata, sei que está longe da qualidade atlética destes cinco fundistas portugueses citados (na sua época eram dos melhores do Mundo)...

Se queriam noticiar este feito, não deviam falar em recorde, mas sim em melhor marca. E sem se esquecerem de dizer que tinha sido obtido numa prova de estrada, que continua a estar longe de ter a credibilidade dos tempos realizados numa pista de atletismo.

Estranho não ouvir ninguém da FPA (Federação Portuguesa de Atletismo) a manifestar-se sobre esta notícia. 

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)


sexta-feira, maio 05, 2023

Um Homem Completamente Desequilibrado


Normalmente evito falar de futebol por aqui, talvez por ter sido jornalista desportivo e por levar tudo aquilo que rodeia este desporto, muito pouco a sério.

Mas é difícil passar ao lado de Sérgio Conceição, que deverá ser uma das pessoas mais desequilibradas  que se podem encontrar dentro do recinto de jogo. E acrescento já que  não acredito na tese de que é uma boa pessoa fora dos relvados. Mesmo que possa ter dupla personalidade, ninguém muda assim tanto.

Como técnico é dos melhores do mundo, prepara as suas equipas muito bem e tem uma leitura de jogo extremamente clarividente (deve ser um dos treinadores que mais influencia o jogo através das substituições e mudanças de sistema de jogo enquanto decorrem as partidas...), mas depois perde-se, tem um comportamento verdadeiramente execrável para com os adversários e com os árbitros. Não é por acaso que deve ser o treinador português que mais vezes foi expulso no interior de um recinto desportivo.

É difícil encontrar alguém que não saiba perder e ganhar, como Sérgio Conceição. Podia limitar-se a não saber perder, mas não. Ontem, em vez de aplaudir João Pedro Sousa, o treinador do Famalicão, pela forma como se bateu no Estádio do Dragão - ao ponto de merecer a vitória -, gritou e bracejou, de uma forma ofensiva, quase em cima dele, quando a sua equipa marcou o golo da vitória.

Não lhe chamo "jabardo", como um embaixador famoso, que o Sérgio levou a tribunal, mas gostaria muito que demonstrasse ter alguma dignidade e o mínimo de respeito pelos adversários, tanto na hora e meia de ganhar como na hora e meia de perder.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, abril 18, 2023

Continua a ser Quase tudo, "Uma Questão Social"...


Achei muito curiosa uma frase de Artur Correia - que ficou conhecido no mundo do futebol pelo "ruço" e que foi um excelente defesa direito do Benfica, do Sporting e da Selecção -, que encontrei ao folhear o livro de entrevistas, "Um Homem em Ponto" de Baptista Bastos.

Esta entrevista terá sido feita em 1981 (embora, estupidamente, não estejam registadas as datas das conversas...), pouco tempo depois de Artur ter sofrido uma trombose, no Casino do Estoril, a 24 de Setembro de 1980, entre o fim da noite e o começo da madrugada...

Quando Baptista Bastos pergunta a Artur, quanto tempo "dura" um jogador de futebol, este em vez de fugir, vai mesmo ao cerne da questão:

«Depende do estrato social de onde o jogador provém. Se vem das camadas baixas, está lixado; "dura" menos, porque na infância, não comeu bifes, nem bebeu leite, nem comeu fruta. Aos 30 anos está cansado, liquidado. Agora se comeu aquilo tudo, em vez de meter bagaços no bucho, então "dura" muito mais. É como quase tudo, uma questão social.»

Infelizmente pouco ou nada mudou, quarenta anos depois, no nosso País. Continua a ser quase tudo, "uma questão social"... no desporto, mas também na educação, na saúde, no emprego ou na habitação...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, março 13, 2023

"Dizer o que se quer", para depois se ouvir, o que "não se quer"...


É já antiga a má relação entre Nelson Évora e Pedro Pichardo.

Nelson nunca viu com bons olhos a chegada de Pedro a Portugal e ao Benfica (que ele abandonara, a troco de um melhor contrato por parte do Sporting...). Em pouco tempo passou de "número um" a "número dois" do triplo salto. Pedro além de ganhar mais títulos, ainda bateu os seus recordes com as cores do nosso País.

Com Nelson a caminho da "reforma", pensava que tudo isto já estava sanado. Mas não, passado todo este tempo, o atleta  voltou a colocar em causa a vinda do atleta cubano para o nosso país, assim como o processo da sua nacionalização e a própria Federação de Atletismo. 

E quando se "diz o que se quer", com o objectivo de colocar em causa o outro, pode acabar por se ouvir "o que não se quer"...

Foi o aconteceu ontem. Pedro finalmente respondeu à letra a Nelson (talvez tenha ido longe demais, mas limitou-se a responder a mais uma provocação).

O passado de Nelson Évora distancia-o daquilo que até se poderia chamar, "um português "bacteriologicamente puro" (este expressão é horrível, é quase "nazi"...), pois nasceu na Costa do Marfim e é de cor, e ainda bem. E por isso mesmo, torna ainda mais estranha, esta sua "não aceitação" de Pedro Pichardo como atleta português...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, janeiro 11, 2023

Conversar, Escutar, Aprender e Mudar...


O melhor das conversas é escutarmos e aprendermos. E às vezes até conseguimos perceber a parte em que estávamos errados.

Falámos dos sempre polémicos subsídios, que continuam a ser o "motor" de uma boa parte da nossa cultura. Eu achava que o ministro estava certo quando afirmava confiar no papel dos júris (nos concursos para apoios teatrais...). O seu papel não será desautorizar pessoas que à partida são da sua confiança. Mas a questão tem sempre outro lado, que muitas vezes é aquele para onde não estamos virados. Quando o Gui disse que a melhor defesa de qualquer governante é refugiar-se na tal "confiança", pois ao fazê-lo, está sobretudo a comprometer os elementos do júri, pelas suas escolhas e a "sacudir a água do capote". Ou seja, mais polémica menos polémica, sai sempre ileso.

Não demorei muito tempo a perceber o ponto de vista dos meus dois amigos, um do cinema e outro do teatro. E depois ainda foram mais longe, explicaram-me um caso concreto de injustiça, de uma companhia que deixou de ser subsidiada, e que à partida cumpria todos os requisitos para receber apoios do Estado. Até por saberem que o "mau feitio" e a "ideologia" do encenador não faziam parte dos critérios de atribuição dos dinheiros para os teatros...

Culpei-me a mim próprio, por com esta idade, ainda continuar tão "ingénuo"... Até por estar farto de conhecer histórias sobre o papel dos júris de tudo e mais alguma coisa, que antes de analisarem as obras já têm o nome do vencedor escolhido... 

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)