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domingo, agosto 02, 2026

Os campos de futebol inclinados que nos roubam o sonho e a ilusão...


Talvez exista algo de quixotesco e sobretudo de "Robin Hood", no meu gosto de ver aqueles que são descritos como mais fracos e pequenos, fazerem frente aos grandes.

Claro que no mundo da política ou das empresas, tratam-se de meras impossibilidades. Não sobra quase espaço nenhum para o sonho. Vinga sempre a "lei do mais forte"...

O desporto é um dos poucos sectores que dão essa ilusão, especialmente o futebol. No começo de cada partida como jogam onze contra onze, é sempre possível acreditar na possibilidade da existência de uma surpresa, do "David conseguir derrotar o Golias".

Infelizmente - e para não escapar desta sociedade desigual em que vivemos -, os chamados grandes têm quase sempre um aliado de peso dentro das quatro linhas; o árbitro. É ele que decide, que tira toda e qualquer dúvida que exista... e que se quiser "inclina" o campo, como disse anteriormente, para o lado que quiser. Lado, que vá lá saber-se porquê, é quase sempre inclinado em benefício do mais forte...

Foi o que aconteceu ontem na final da Supertaça, disputada entre o FC Porto e o Torriense. Na primeira parte do jogo o árbitro teve o cuidado de "amarelar" dois ou três jogadores da equipa de Torres Vedras, que não se intimidaram e mostraram ao que vinham. Ao ponto de até ter jogado bem melhor que a equipa do Porto nos primeiros vinte minutos, sem que alguém notasse que fazia parte da segunda divisão...

E foi sempre assim durante os mais de noventa minutos, em casos de dúvida, o "juiz" apitava sempre contra o Torriense.

Claro que esta evidência não tem nada de fervor clubístico, se fosse o Benfica ou o Sporting que estivessem no lugar do FC Porto, o cobarde do árbitro, teria o mesmo comportamento...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, junho 23, 2026

O Portugal do Correio da Manhã (e das imitações que se fingem mais "finas"...)


Portugal acabou de ganhar, cinco a zero, a um pedaço da velha Rússia e União Soviética, chamado Uzbequistão.

Como era de prever, Cristiano Ronaldo marcou dois golos e passou de besta a bestial. Alguns dos comentadores que o crucificaram nos últimos dias, devem estar a montar um altar nas suas televisões...

Lembrei-me das palavras de António Lobo Antunes, que fingia não se levar a sério como cronista. Não eram sobre futebol, eram sobre nós, sobre a televisão e sobre os políticos que andam vestidos com a camisola da selecção nas redes sociais:

«É extraordinário como gostamos de comer merda desde que seja açucarada, é extraordinário percorrer a lista dos best sellers nas livrarias. Isto, claro, não é um fenómeno português, é um fenómeno universal, e nem sequer é recente. Dura desde o século XIX pelo menos, e é fácil de explicar, como é fácil de explicar o sucesso do jornal Correio da Manhã, de certos programas de televisão, de certos políticos, dos espaços sobre futebol que encharcam os ecrãs, das telenovelas miseráveis.»

Estas palavras foram publicadas na "Visão" a 23 de Fevereiro de 2017, há mais de nove anos. Provavelmente, daqui a vinte anos continuarão actualizadas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 02, 2026

A cultura continua a ser olhada (e entendida) como um mero acessório social


Estava a ler um dos meus cadernos (que são quase diários...), com palavras escritas em 2014 e dei atenção a uma frase sobre a desvalorização da cultura como actividade profissional, na nossa sociedade.

Dava como exemplo a profissão de canalizador, que ninguém tem dúvida de que tem de pagar os seus serviços. O curioso é que esta questão tinha sido levantada por uma professora, de uma escola que visitei, que falou abertamente com os alunos, por não existir qualquer fundo para as visitas de agentes culturais às escolas, como se estivéssemos no século XIX e os convidados fossem pessoas que escreviam, pintavam ou cantavam apenas nas horas vagas...

Seguiu-se uma conversa muito animada e útil com os alunos, que perceberam que pouca gente podia viver apenas do trabalho artístico. Para viver de uma forma normal tinha de ter um emprego certo, o que normalmente só acontecia em poucas actividades culturais, como eram as orquestras, as companhias de teatro ou de dança. 

Lembro-me de ter dito que a culpa em parte era nossa, de quem também não olhava para estas actividades como profissão (como era o meu caso...).

Doze anos depois, pouco ou nada mudou.

Os principais responsáveis por esta situação continuam a ser os governantes, que continuam a gostar de usar a cultura e os agentes culturais para tirarem dividendos pessoais e políticos (as eleições e a manutenção no poder estão sempre na fila da frente...), e não para o interesse de todos e do país.

Os políticos continuam a não estar muito interessados em apostar no desenvolvimento cultural -  mantêm os mesmos tiques, medos e hábitos dos tempos da ditadura -, porque quase todos os seus agentes têm o defeito de gostarem de pensar pela sua própria cabeça...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, junho 24, 2025

O horizonte demasiado largo da América do Norte


Uma das coisas que percebi nas conversas que tive com o meu "Tio da América", foi da sensação que quase todos têm a oportunidade de melhorar as suas vidas (mesmo os mais pobres...), de que tudo é possível. Claro que é preciso fazer-se por isso. As tais oportunidades não caem do céu...

Ele disse-me mesmo que essa é a chave do sucesso dos Estados Unidos da América. Há um horizonte demasiado largo à sua volta, que lhes dá a ilusão de que se pode chegar a qualquer lado (pois, é provável que se viva a vida toda atrás de uma mentira)...

Isso explica que seja possível alguém como Trump chegar a presidente e também que os imigrantes (especialmente os nativos dos países próximos, como o México ou o Porto Rico), aparentemente, tão maltratados e perseguidos, mesmo assim não desistam do "sonho americano"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, setembro 08, 2024

Tanta coisa que se esconde atrás das vitórias...


A selecção de Portugal ganhou há menos de uma hora, à Escócia, um jogo onde se desperdiçaram muitos golos (algo que têm acontecido demasiadas vezes no "reinado" de Roberto Martinez...).

Não foi um bom jogo de futebol. O golo de Cristiano Ronaldo aos 88 minutos que deu a vitória à "equipa de todos nós" vai voltar a adiar uma discussão generalizada sobre as opções técnicas e tácticas do seleccionador. Opções cada vez mais discutíveis, mesmo que ele não seja parvo nenhum e se perceba, que ele lê, ouve e vê, as críticas que vão aparecendo, aqui e ali (não foi por acaso que convocou o Pote e o Trincão ou colocou o Ronaldo no banco...). Muitas delas com razão de ser, como se viu em mais um jogo, em que é notório que um conjunto que tem dos melhores jogadores do mundo continua longe de ser uma das melhores equipas do mundo...

Continuo sem perceber as "variações" do lateral direito para outras zonas do campo, deixando vezes demais a defesa descompensada (não é por acaso que se sofrem golos "esquisitos", aqui e ali, que até parecem ser falhas dos centrais...). Os nossos melhores jogadores do meio-campo continuam subaproveitados (especialmente o Bernardo Silva...) e os avançados fartam-se de desperdiçar golos com iniciativas individuais. Esquecem-se mais vezes do que deviam, que o futebol é um desporto colectivo e que existem outros jogadores em campo, melhor posicionados para colocar a bola na baliza adversária. Mesmo que estes estejam amontoados dentro e fora da área, porque o sistema táctico do seleccionador, no mínimo, deixa muito a desejar... 

E já nem falo da sensação óbvia, e antiga, de que Ronaldo é o "dono da selecção", e que Martinez só consegue olhar para ele como um "deus" e não como mais um jogador à sua disposição. Ele continua a ser útil à selecção, como se percebeu neste jogo, mas há muito tempo que deixou de ser "indiscutível".

Mas o futebol é isto mesmo. Tanta coisa que se esconde (sempre) atrás das vitórias...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, julho 19, 2024

A expansão do "Algarve" dos "ingaleses" por este país fora...


Cada vez temos de ser mais criteriosos nas escolhas de restaurantes e noutros lugares de "estar", que apostam cada vez mais nos "turistas" (pelo menos é que os preços indiciam, tal como a qualidade dos serviços...). É também por isso que há muito tempo que não frequento restaurantes na rua Cândido dos Reis, em Cacilhas, onde os preços subiram e a qualidade baixou.

Mas isto já não acontece apenas em Lisboa (Cacilhas e Almada confundem-se com Lisboa...) ou no Porto. As grandes cidades parecem apostar cada vez mais no "dinheiro fácil", espalhando "passadeiras de cores berrantes" para quem vem de fora e esteja disposto a gastar dinheiro na restauração, na hotelaria, no património e na diversão nocturna.

É mesmo a expansão do "Algarve". Aquele Algarve do tempo em que quase só existiam listas nos restaurantes, escritas na língua inglesa. 

Estão todos esquecidos é de que esse Algarve, com as crises, teve de meter a "viola no saco" e voltar a ter listas escritas em bom português, porque se não fossem estes, a maior parte dos lugares virados para o turismo tinham fechado...

Os nossos governantes fingem esquecer-se do perigo que é para a nossa economia, esta cada vez maior dependência das receitas de turismo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)