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sábado, maio 02, 2026

O 25 de Abril não tem donos, mas tem pais e guardiões orgulhosos...


Felizmente o 25 de Abril não nasceu de um parto difícil, muito menos teve "pais incógnitos".

A sua história continua a ser demasiado bonita e real, ao ponto de alguns a continuarem a achar mais próxima dos filmes e dos sonhos, que da realidade.

O único sangue derramado foi pela polícia política, que não gostou de ver o povo a encher as ruas, muito menos a dar vivas à liberdade.

Foi o seu último gesto, cobarde e assassino, que felizmente não conseguiu retirar a beleza ao vermelho dos cravos.

Embora a direita goste de encher a boca e dizer que o "25 de Abril não tem donos", por questões dúbias, têm razão.

Abril não tem donos. Tem sim "pais" e "guardiões". Gente de todas as idades que vai gritar sempre, com orgulho: «25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais!»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 09, 2026

«Porque é que as pessoas se riem tanto "para a fotografia"?»


A pergunta fazia sentido, porque a poucos metros de nós, uma mulher ensaiava várias poses para o companheiro, que usava o telemóvel como máquina fotográfica. Mudava de posição mas mantinha sempre o mesmo sorriso, quase de plástico.

E a pergunta foi: «Porque é que as pessoas se riem tanto "para a fotografia"?» 

Pensei logo na anedota alentejana da Maria que pintava os beiços para ficar mais bonita... Talvez o objectivo do sorriso estivesse ligado à beleza, mesmo que nem sempre resultasse.

E depois falámos de várias coisas, até das pessoas que são mais bonitas quando não estão a sorrir, mesmo que não o saibam.

Em vez do "sobrenatural" do Nelson Rodrigues, apareceu-nos o "natural", que só é possível de se obter, quando estamos completamente distraídos e não precisa de qualquer tipo de encenação.

Foi quando recebi a explicação certa: «Não te lembras de ir ao fotógrafo e ele pedir-te para sorrires para o "passarinho"?»

Estava tudo explicado. A culpa dos sorrisos era dos fotógrafos de estúdio...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 06, 2025

As coisas que apanhamos no ar e as outras que "roubamos aos outros"...


Nunca foi tão fácil como hoje, apropriamo-nos das coisas que gostamos dos outros.

Trata-se de algo muito limitativo, aliás, todo este tempo que vivemos é demasiado limitativo. Nunca se seguiu tanto o outro, mesmo quando pensamos que estamos a ser originais.

Percebo que seja cada vez mais difícil pensarmos pela nossa cabeça. O mundo está organizado, para não termos tempo para isso, para "pensarmos pela cabeça dos outros", para sermos mais uma "maria que vai com as outras".

Há ainda "outra rua", onde se juntam para beber copos aqueles que preferem dizer que "já está tudo inventado". Só que o tudo, é sempre muito, em qualquer situação da nossa vida. 

O que importa é como as coisas nos aparecem na cabeça. Quando vêm ter connosco nos momentos que são só nossos, seja na varanda quando olhamos para rua ali ao lado ou para a outra cidade que se esconde quase na linha do horizonte e vemos coisas que mais ninguém vê, ou quando estamos deitados na cama, onde há todo o espaço do mundo para termos sonhos esquisitos. 

Nestas situações, as coisas são nossas, de certeza. Mesmo que sejam fruto de mil e uma influências, desde os livros que lemos às conversas que tivemos com os amigos, dentro de nós são nossas, até porque tiveram de passar pelo nosso "filtro", de gosto e de conhecimento...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 31, 2025

O mundo (e eu) a girar à volta das minhas palavras


Quando se escreve por tudo e por nada, o normal é andarmos rodeados de papelinhos. A maioria acaba por ir para o lixo, porque as boas ideias têm um prazo curtíssimo de validade. Sim, o que "ontem era engraçado, hoje perdeu a graça". São tantos anos a lidar com isto, que passou a ser o normal.

O curioso, é que, nem mesmo assim desisto de encher talões de compras de palavras... 

Claro que há papeis mais insistentes, que tentam-nos convencer que até têm "boas ideias", que podem ser transcritos para o caderno A5 do ano. 

Pobres palavras, pensam que passaram a ter "outro estatuto" (é apenas mais uma ilusão). Depois de cheios os "cadernos de palavras" são guardados em qualquer caixa e por lá ficam, esquecidos...

Estou a escrever estas insignificâncias, porque aproveitei este final de Agosto para "destruir" dois pequenos cadernos (acho que aquele tamanho é A6...), que já andavam a saltar de gaveta em gaveta há algum tempo (um deles tinha apontamentos de 2017...). Aproveitei algumas coisas, umas por estarem datadas e referirem-se a acontecimentos que tiveram alguma importância na época, outras por me dizerem alguma coisa. Sabia que havia coisas escritas sobre "os outros", que não fazia ideia de quem fossem. Mas isso nem era importante.

Aliás nada disto é importante, é apenas o mundo a girar à volta das minhas palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, agosto 16, 2025

"O que é meu é meu, o que é teu é nosso..."


Esta semana devolvi a chamada de um amigo (com mais de uma semana de atraso...), que me queria falar da publicação misteriosa de um dos seus trabalhos no "facebook". Até porque a sua aguarela tinha sido feita propositadamente para a capa de um dos meus livros.

Ele estranhou o facto, por calcular que se ele não tinha "oferecido" a imagem ao sujeito pequenino, que sempre foi hábil a usar as costas dos outros, para chegar ao alto das "montanhas da vida", eu muito menos.

Ficou incomodado, eu nem por isso. 

Sei que este mundo está mais do lado da "criatura", que do nosso, porque ele sempre agiu daquela maneira engraçada de que, "o que é meu é meu, o que é teu é nosso..." E, infelizmente, as redes sociais continuam adequadas à forma cobarde como ele age no dia a dia.

Claro que sabia por terceiros que "copiavam" textos e fotografias minhas e que as publicavam nestes lugares - onde o ar se torna irrespirável, mais vezes do que devia -, ignorando a autoria, como se fossem eles os seus criadores. 

Foi este sentimento de impunidade que sempre me afastou das redes sociais. Não preciso de me chatear (como acontece com o meu amigo e com muitas outras pessoas...), por estes lugares terem sido tomados por cobardes que se escondem atrás de um "nick name" e acham que podem fazer tudo, desde insultar as pessoas de quem não gostam a roubar os textos e as imagens dos outros, para "embelezarem" as suas "pocilgas"... 

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, julho 22, 2025

A palavra talvez...


Talvez seja um problema de personalidade... Talvez seja algo que já nasce dentro de nós.

Olho para trás e sei que andei quase sempre pelos caminhos mais longos e difíceis, mas não me importei muito em demorar mais tempo a chegar a Roma.

Sei apenas que habita dentro de nós, vezes de mais, a palavra talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, janeiro 31, 2025

Andar por Lisboa a ver o Mundo Passar...


Mesmo quem anda por todo o lado em Lisboa, como eu, sabe que também pode ficar ligeiramente "infectado", pelas notícias e pelas vozes dos "moedinhas" deste país.

Pensei nisso, hoje, ao descer a Almirante Reis. Continuo a ter o vício de andar a pé e a ver o mundo passar por mim, mesmo que as pernas já não sejam o que eram. 

Sentado no interior do cacilheiro, enquanto olhava o Tejo, pensei que olhei para as pessoas com quem me cruzei, com mais atenção. As vozes, as cores, as roupas faziam a diferença, mas isso acontece há pelo menos meia-dúzia de anos. E sim, vê-se cada vez menos portugueses nas ruas.

Mas não faltam explicações para o facto. A principal é a existência de cada vez menos portugueses a morar nesta zona de Lisboa. E isso acontece graças ao aumento obsceno das rendas. 

Sim, a ganância dos senhorios é a principal razão deste "abandono", e não o "medo" pela gente que veio das Índias que, pelo menos aparentemente, é quase sempre excessivamente simpática (especialmente os comerciantes). 

Sei que se não se levantasse tanta poeira do lado mais afastado da direita, ou se o alcaide de Lisboa não quisesse ser também "xerife", tudo seria mais normal. Sobretudo os comentários que se fazem sobre as ruas da cidade grande, normalmente feitos por quem nunca passa por estas ruas e avenidas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, janeiro 28, 2025

Há uma parte rural que não sai dentro de mim...


Estava a ler uma entrevista, que fez com que pensasse, logo naquele momento, nas minhas memórias. Embora fossem muito diferentes das do entrevistado, era sobretudo disso que tratava aquela conversa...

Fiquei a pensar, que, mesmo vivendo sempre na cidade, tinha muito presente dentro de mim, todo o espaço rural. A aldeia, as fazendas e toda aquela outra forma de vida, diferente, artesanal em quase tudo, continuavam vivas, sem que eu conseguisse encontrar uma explicação para isso, até por na época, não gostar nada daquilo (desde o trabalho duro à própria gastronomia, que o meu irmão adorava. Ainda hoje diz que gostava mais da comida da avó que da mãe, ao contrário de mim...). 

Claro que sei que tudo isso se deve à minha vivência, desde a infância, na casa dos avós maternos. Uma boa parte das férias grandes eram passadas lá... Mas também percebo que há coisas que fazem parte de nós (desde sempre, mesmo que não se dê por isso...), que tanto podem já ter nascido connosco, como terem sido adquiridas, sem nos apercebermos. Até porque existem vários estudos no campo da psicologia e da psiquiatria, que explicam que o que se viveu na infância, é essencial para o resto das nossas vidas...

O que sei, é que mesmo sendo, naturalmente, urbano, há uma parte rural muito importante dentro de mim. É ela que determina que goste tanto do contacto com a natureza, que pudesse viver com facilidade sem o conforto das cidades. E claro, tenha tantas memórias dos campos...

Parece contraditório, mas não é. Nós somos sempre mais que uma coisa.

Mesmo que saiba que não é verdade, fico por vezes com a sensação de que aprendi mais coisas, durante estes curtos períodos de férias, que na escola...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


sábado, novembro 09, 2024

A "Fenomenologia do Entroncamento" nas Culturas


Se o mundo se tornou um lugar mais estranho, o normal é que aconteçam muitas mais coisas estranhas, que no tempo em que tudo parecia ligeiramente mais normal.

E isso acontece em todas as áreas da sociedade. A cultura, apesar de esquecida, vezes de mais, não escapa às estranhezas deste tempo...

Vou dar apenas dois exemplos, só deste nosso Portugal: editam-se muito mais livros que há dez anos, mesmo que os leitores sejam cada vez mais menos; fazem-se também mais filmes falados em português, mesmo que espectadores continuem a preferir a língua inglesa.

E é possível viver assim, muito tempo? às vezes sim. Depende dos expedientes usados para se tentar "sobreviver"...

Acontece que os custos de produção de ambas as áreas são cada vez mais reduzidos: as tiragens são cada vez mais curtas no mundo dos livros - há primeiras edições de apenas de 100 exemplares;  os filmes produzidos têm muito menos custos e são realizados quase de forma caseira.

E ainda bem que somos bons na "guerra da sobrevivência", é a explicação simplista para a existência de um número significativo de livros e filmes portugueses novos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, outubro 12, 2024

O que se diz e o que fica por dizer (o improviso é isso)...


Provavelmente devia esperar por amanhã, para falar de hoje.

Sabia que a sala iria estar cheia, mas não estava à espera que aparecessem mais de cem pessoas ao lançamento do livro que escrevi com Fernando Barão, numa das homenagens com mais sentido, na comemoração do centenário do seu nascimento (isto aconteceu graças ao homenageado e não ao autor da obra...).

Tinha pensado não levar nenhum papel escrito. Mas acabei por levar umas notas. Claro que durante a minha intervenção falei sempre de improviso e afastei-me algumas vezes do livro e quase sempre das notas, porque a minha convivência associativa e cultural com este amigo, levou-me a divagar aqui e ali.

Embora não me tenha esquecido de nada de muito relevante, sei que poderia ter feito referência a uma ou outra pessoa (nem sequer agradeci as palavras do Henrique e da Edite, que apresentaram a obra...). Chamaram-me a atenção para um destes "esquecimentos" na mesa (do Luís, que fez uma leitura crítica mais importante que a própria revisão do livro).

Nos outros não sei, mas em mim é natural estes esquecimentos. Tento falar apenas do essencial . Isso fez com que posteriormente ficasse com a sensação, de não ter falado tanto quanto devia da minha relação com o Fernando, até por estarmos quase sempre de acordo nas questões ligadas à cultura e ao associativismo. Algo que acontecia de uma forma natural, e aberta, sem usarmos qualquer tipo de subterfugio.

Embora pense que isso está bem espelhado neste nosso livro.  

Poderia ter falado também do Henrique (pai), do Orlando e do Carlos Guilherme, tão importantes também na minha caminhada cultural e associativa por Almada. Podia, mas não era o mais relevante.

Relevante foi ter na primeira fila dois amigos, cuja idade somada, está a aproximar-se a passos largos dos 190 anos, e não lhes agradecer de forma devida, a amizade, o companheirismo e a tolerância (que faz deles dois dos melhores seres humanos que tive a oportunidade de conhecer nesta Cidade, que praticou durante tantos anos a solidariedade, enquanto acto cívico e não "arranjo floral" de discursos.

Mas tanto um como o outro sabem o que penso deles. E que bom que é continuar a ter amigos como o Chico (que abriu a sessão com uma bela anedota do Fernando...) e Diamantino, "vivinhos da silva", que o que precisavam mesmo era de "uns joelhos novos" (tal como acontecia com o Fernando, uma das coisa de que ele mais se queixava, era dos joelhos)...

Mas a vida é isto. Quando falamos de improviso, há coisas que dizemos, que "estavam fora do programa", e muitas outras, que ficam por dizer...

(Fotografia de Elsa Carvalho - Cacilhas)


segunda-feira, outubro 07, 2024

O futuro, afinal, é hoje...


Um amigo meu, poeta, há mais de meia-dúzia de anos (o tempo passa por nós cada vez com mais velocidade...), lastimava-se pela falta de comentadores no seu blogue (que agora só está aberto a convidados). Perguntava-me, qual era a "fórmula" que eu tinha, para ter comentadores, em todos os meus textos. Eu abanava os ombros, porque não havia nada de fora do normal, aqui no "Largo". Tentava responder de uma forma agradável a quem por aqui passava, apenas isso.

Já não sei bem quando foi, mas a partir de certa altura, defini que este era o meu blogue principal, e tomei a decisão de que este seria o único onde responderia aos comentários, por ter cada vez menos tempo para dedicar à blogosfera.

E entretanto, nos últimos meses, fui perdendo os comentadores habituais. Aceitei-o com a normalidade possível (eu também comento cada vez menos nos outros blogues...). E hoje, a maior parte dos meus textos não merecem qualquer reparo dos leitores, positivo ou negativo (curiosamente, as estatísticas dizem que as visualizações aumentaram...).

Sinceramente, não é nada que me preocupe demasiado. Até porque este meu "Largo", funciona muito como diário. Às vezes não tenho nada para dizer e obrigo-me a escrever qualquer coisa, só como exercício.

O único problema, é sentir que o "Largo" se tornou um espaço cada vez mais pessoal. Ou seja, escrevo cada vez menos a pensar nos outros e mais em mim. Talvez até esteja a exagerar, e publique por aqui demasiados "estados de alma"...

Paciência. Ninguém é perfeito. E parece que o futuro, afinal, é hoje...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, setembro 09, 2024

Quando o que parece um problema, não é um problema...


Ao longo dos anos, tenho andado sempre com dois ou três livros na cabeça. Vou escrevendo episódios em folhas soltas, que umas vezes passam para os vários cadernos antológicos, outras vão simplesmente para o lixo.

Como toda a gente que escreve, ando sempre com uma esferográfica e com papeis no bolso (até podem ser simples recibos de compras...), não vá aparecer alguma "ideia genial", no lugar mais inesperado. Claro que a maior parte das vezes estas pequenas folhas ficam sem palavras e são transformadas em pequenas bolas de papel que vão para a "reciclagem"...

Claro que sempre fui mais de escrever em casa (embora chegasse a encher guardanapos de papel do café das tertúlias de palavras, por isto ou aquilo, enquanto esperava por companhia...). Sempre gostei particularmente das manhãs,  as do sábado e do domingo eram bastante inspiradoras (as ideias apareciam bem cedinho, quando ainda estava com vontade de dormir...). Com o tempo as ideias começaram a surgir sem dia marcado, embora continuassem a manter o bom hábito de serem madrugadoras... 

Lá estou eu a fugir do que estava a pensar escrever... É recorrente no blogue, vá-se lá saber porquê...

Curiosamente, continuo com esses dois ou três livros, na cabeça, há mais tempo do que o costume. Como tem sido hábito, sinto que preciso deles, até por uma questão de "sanidade". Sim, não tenho qualquer dúvida que eles me ajudam a viver, a ocupar a cabeça com coisas que me parecem mais interessantes que aquilo que chamamos a "vida normal". 

E sei que o que parece um problema - a forte possibilidade deles não chegarem a livros -, não é um problema...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, abril 13, 2024

Como dizia o Poeta Eduardo: isto está tudo ligado (e está mesmo...)


Não deixa de ser curioso, que sejam muitos destes liberais, empresários e gestores, que se dizem defensores da "família tradicional" (há a possibilidade de as suas teorias serem só para os condomínios de luxo onde vivem, desgostosos por oferecerem às esposas todas as condições para lhes darem "um magote" de filhos, e elas não estarem para aí viradas...), quem mais tem contribuído para o empobrecimento da maior parte das famílias portuguesas, pagando ordenados miseráveis aos seus "colaboradores", ao mesmo tempo que lucram milhões.

São eles, os defensores e grandes beneficiados deste capitalismo selvagem (com a tal capa do "liberalismo"), que tem desregulado todos os sectores da nossa sociedade, com a teoria de que o "mercado tudo conserta" (mesmo que cada vez existam mais pobres e miséria à sua volta...), quem mais têm contribuído para que cada vez seja mais complicado constituir famílias (tradicionais ou das outras) e deixar descendentes. Com ordenados baixos, casas caríssimas no mercado, o mais sensato continua a ser dar ouvidos ao "apresentador da obra" em causa, que há uns anitos aconselhou os jovens a emigrarem...

Podem escrever os livros que quiserem, mas se continuarem a pensar apenas nos cinco por cento, que têm rendimentos que lhes permitem alimentar o sonho de ter, no mínimo, um número de filhos que lhes dê o prazer de formar uma equipa de "futebol de cinco", continuam a reduzir o mundo aos seus condomínios fechados, ao mesmo tempo que "expulsam" os nossos jovens para fora do país...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, janeiro 29, 2024

Os Saudosistas do "tempo das nuvens escuras"...


Eu sei que 50 anos é bastante tempo, mas isso não explica que comece a ver por aí, cada vez menos escondidos, os saudosistas do "tempo das nuvens escuras".

Prefiro chamar-lhe "o tempo das nuvens escuras", porque nunca gostei  do "tempo da outra senhora" (até porque era o tempo dos senhores e não das senhoras...).

Por não se conseguirem libertar dos fantasmas que os perseguem,  devido à religião ou a educações demasiado rígidas e repressivas, odeiam aqueles que amam a liberdade. 

Estão sempre à espera de um deslize de um qualquer "abusador" (alguém que goste mesmo de ser livre...), para colocarem em causa a liberdade de todos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 26, 2024

A "arte de desconversar"...


A "arte de desconversar" é comum a todos nós, por várias razões. A mais forte talvez seja o facto de não conseguirmos gostar e de concordar com toda a gente. Sim, fugimos de consensos quando não existe empatia com o outro, em vez de nos aproximarmos, vamos criando uma barreira invisível entre nós, que nos vai mantendo quase sempre afastados daquilo que poderia ser uma boa conversa.

Mas também podemos "desconversar" com quem gostamos. Há pessoas que nunca ultrapassam a fase dos "porquês" e raramente são afirmativas, questionam tudo e todos. E nem sempre temos paciência para elas...

Estou a lembrar-me neste momento do Jorge, filósofo de formação e ofício, que não era capaz de ter uma conversa simples. Tinha sempre que complicar as coisas, olhar e ver o que mais ninguém via. 

Ao contrário de outros amigos, que assim que o viam aproximar-se, eram capazes de pegar num jornal ou num livro, que estivesse ali à mão, só para não o "aturarem", conversava com ele, às vezes até lhe "dava corda" (ele adorava ser contrariado, ao contrário de quase todos nós...). E no final aprendia sempre alguma coisa. 

Fazia-o também por saber que ele vinha propositadamente da Lisboa das avenidas, para o nosso café tertuliano, para estar connosco. Nem me incomodava que ele durante a viagem de cacilheiro até à nossa banda, fosse menino para inventar um tema qualquer, só para nos fazer "saltar os neurónios"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, janeiro 03, 2024

Teatros e teatrinhos com ou sem final...


Continuo a escrever teatro, aqui e ali. Mesmo sabendo que dificilmente estas palavras têm um grupo teatral à sua espera...

Ninguém é perfeito.

Ontem, por um mero acaso, "esbarrei" numa entrevista dada por Arthur Miller ao "Público Magazine" de Abril de  2001.

Ele falou da importância do "final" e lembrou-me de uma conversa com um encenador que dispensava finais... Mesmo sabendo que ele é um dramaturgo do século passado, como concordo com ele, também devo ser um "escritor" do século passado (se é que isso existe...). Mas vamos lá às palavras de Miller:

«O final contém o percurso. Sem um final, não há peça, o percurso é irrelevante; podemos ter algumas cenas, algumas tentativas de construir uma peça, mas é o final que interessa, pois é aí que percebemos se fomos bem sucedidos a escrever a peça ou não.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, outubro 26, 2023

Coisas de "Um Eremita em Paris" (e não só)...


De vez enquanto pego em cadernos quase antigos, onde costumo deixar apontamentos sobre tudo e sobre nada. Este era de 2014...

Há sempre uma ou outra frase sobre livros ou filmes. Desta vez descobri mais que uma frase sobre um dos livros de Italo Calvino, "Um Eremita em Paris" e escrevi que a espaços, me estava a olhar ao espelho, graças às suas palavras. 

«É o anonimato que me atrai: aquela multidão em que posso observar todos, um a um, e ao mesmo tempo desaparecer completamente.» (pois é, como eu gosto de me perder na multidão...)

«Quando me encontro num ambiente em que posso ter a ilusão de ser invisível, sinto-me muito bem.» (eu também...) 

«Dantes os escritores realmente populares, ninguém sabia quem eram, pessoalmente. Eram só um nome na capa e isso dava-lhes um fascínio extraordinário.» (esta frase fez-me pensar como tudo mudou. E também me lembrei que isso também acontecia na rádio, onde as pessoas eram mais "vozes que rostos"...)

Por ser o livro sobre "Um Eremita em Paris", não podia deixar de deixar por aqui, uma frase de Calvino sobre esta cidade singular: «Em Paris podemos sempre ter esperanças de encontrar o que julgávamos perdido, o passado nosso ou de outrem. A cidade pode ser um gigantesco serviço de perdidos e achados.»

Não há nada como os livros e os filmes para nos transportarem para "outras ruas" e fazer pensar que o mundo pode ser uma coisa diferente...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, outubro 19, 2023

«Não. Não há qualquer ambiguidade.»


Perguntaram-me porque não digo o que realmente penso sobre esta ultima batalha entre o Hamas e o Israel. Chegaram a falar de ambiguidade.

Não. Não há qualquer ambiguidade.

Nunca houve.

Há sim, mais silêncio. Mais tristeza. E mais descobertas de culpas dos dois lados. Mas sem nunca esquecer que o único invasor é o Israel.

E por isso mesmo, sou contra os bandidos do Hamas e do Israel.

Da mesma forma que sou a favor das pessoas comuns, sejam elas Palestinianas ou Israelitas...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, julho 29, 2023

A última das minhas preocupações quando tiro retratos...


Estava a passar pelo largo do Bairro da Ponte (Caldas), onde ficava a velha sede dos "Pimpões" e se organizavam os bailes dos Santos Populares (há anos que já lá vão...), quando reparei num velho sentado a uma mesa da pequena esplanada de um café de supermercado, entretido a ler banda desenhada. Lia um dos clássicos de Walt Disney, que eram a "oitava maravilha" das leituras da minha infância. Nesse tempo eram escritos em brasileiro (importados do Brasil...). Penso que só depois do 25 de Abril é que se começaram a fazer edições em Portugal.

Vendo que o homem estava completamente absorvido pela leitura, não resisti a tirar "um boneco" (meio à pressa nem ficou com a nitidez desejada, não fosse ele olhar para mim  e "estragar a fotografia"...).

Só depois, quando olhei o retrato com "olhos de ver", é que verifiquei que estava a fazer publicidade ao grupo de supermercados. Nada que me preocupasse, até porque eu sempre gostei de publicidade (sou até coleccionador, tenho centenas de recortes da imprensa...) e faço-a por aqui de forma ocasional e gratuita.

Este pequeno episódio lembrou-me uma chamada de atenção de um dos responsáveis pela Oficina de Cultura de Almada, quando lá fiz a minha última grande exposição. Uma das minhas fotografias com um plano geral da Praça da Fruta das Caldas tinha ao fundo, em letras muito pequeninas, o nome de uma instituição bancária. O senhor começou por me dizer que aquilo era publicidade e que não podia constar no folheto. Claro que lhe disse que era uma fotografia de um lugar e que não podia "apagar" as coisas que por lá existiam. Ou seja, se estava a fazer publicidade, era à Praça da Fruta. E claro que fui intransigente. A exposição era minha, era eu que mandava nas minhas fotografias. Um pouco a contragosto, o funcionário da Autarquia lá meteu a "viola no saco" e foi dar música para outra freguesia.

Continuo a pensar da mesma forma. Não vou "apagar" a publicidade por estar atrás da pessoa ou do objecto que quero fotografar. 

E lá acontece, fazer mais uma vez publicidade, de borla, por aqui no "Largo"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, julho 15, 2023

"Ainda estou, mas quase que já não estou..."...


"Ainda estou, mas quase que já não estou..."

Pois é, daqui a pouco vou dizer adeus a Almada, por uns dias, e passar umas pequenas férias. 

Acho que era a minha avó materna que dizia, que sempre fez bem mudar de ares, nem que fosse um fim de semana prolongado. E como ela estava certa...

Sempre deve ter havido "stress", mas nunca como agora. Vou mesmo mais longe, acho que o nosso corpo não está preparado para viver a esta "velocidade" (tudo passa cada vez mais rápido nas nossas vidas e se não conseguimos acompanhar este ritmo, ficamos irremediavelmente para trás...). Isso explica também o aumento de depressões e outras doenças estranhas, quase iguais a este tempo quase maluco, que nos consome e se esforça para nos "engolir"...

É por isso que todos nós devíamos partir, mudar de ares, nem que fosse por apenas três ou quatro dias...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)