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segunda-feira, junho 22, 2026

Quase "certificados (ou atestados) de sexualidade"...


Uns familiares afastados, quase que nos obrigaram a entrar na sua casa, com o argumento de tomarmos o café, que íamos beber à Associação Cultural local, quando passámos pela sua rua. Acabou por ser uma visita de médico agradável.

Um dos aspectos curiosos que mereceu a atenção dos meus filhos, foram duas fotografias, de nus, de bebés, dos dois filhos do casal, que são da minha geração, expostas em cima de um dos móveis da sala.

Começaram por "gozar" o prato, afirmando que eu e o meu irmão também devíamos ter fotos daquelas na casa da avó. Acabámos os quatro a sorrir. Argumentei que foi um pormenor que escapou à nossa família, e ainda bem. Isso fez com que nós também não explorássemos a sua nudez em bebés...

Quase em coro, os meus filhos disseram, "que pena". E nova gargalhada geral.

O mais curioso, é que a maior parte destes retratos eram tirados no atelier de fotografia. Sem encontramos uma justificação, achámos devia ser uma moda geracional, que ajudava as lojas de fotografia a sobreviverem.

A conversa ainda avançou mais, ao ponto de se falar em "certificados (e atestados) de sexualidade", a prova de que éramos meninos ou meninas... 

Algo que hoje não prova grande coisa (a não ser para o "toureiro"do CDS...), pois há quem tenha pilinha e se ache mulher e quem tenha pipi e se sinta homem...

(Fotografia de Luís Eme - A Foto Franco é uma boa resistente, que continua com a sua loja história aberta, na Rua das Montras das Caldas. E tem exposta, com orgulho, uma fotografia do  actual Presidente da República).


domingo, junho 07, 2026

A "praia da minha vida" na Feira do Livro...


Ainda sem sair da Feira do Livro, penso que nunca se fizeram livros tão bonitos como os que se fazem hoje. Há capas demasiado atractivas, como são as dos livros de bolso da Penguin Clássicos, em que apetece comprar algumas obras que já temos lá por casa, só pela sua graciosidade e bom gosto.

Também achei curioso um álbum com fotografias das nossas praias, estar aberto na Foz do Arelho. Acabei por perguntar se podia tirar uma fotografia, porque esta era a "praia da minha vida"...

Uma das senhoras que vendia aqueles livros, disse-me que sim, afirmando que esse pedido era comum, porque todos nós tínhamos uma "praia da nossa vida"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, maio 23, 2026

Olhar para o mundo, no lado de dentro da janela do autocarro...


A vida é quase sempre mais complicada do que aquilo que parece.

O que nos vale (aos optimistas, claro), é agarrarmo-nos às coisas boas que vão aparecendo, ainda que cada vez mais espaçadas.

E não vale a pena insistir que o dinheiro está longe de ser uma "fábrica de felicidade".

Há tantos exemplos, que nem vale a pena falar, mesmo que as pessoas não desistam de tentar comprar "as melhores coisas do mundo", ou pelo menos, "melhores que as do vizinho do lado"...

É por isso que o título desta posta é apenas a legenda da fotografia...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, maio 08, 2026

Uma semana com exposições...


Esta semana visitei três exposições (uma delas era três...), diferentes. Uma de fotografia, uma de pintura e outra documental, na Capital.

Apetece-me falar das fotografias de Gérard Castello Lopes ("Fotografias 1956-2005"), Georges Dussaud ("De Lisboa para Ti") e Rita Barros ("Hyperosmia"), cada uma com o seu espaço e a sua narrativa, que estão nas paredes do Arquivo Municipal à espera de visitantes.

Claro que me identifico mais com o Gérard e com o Georges que com a Rita, o objecto da sua arte. Faz-me confusão nós sermos o centro da nossa forma de nos expressarmos artísticamente, como acontece com a Rita, que se especializou nos "auto-retratos", tal como Jorge Molder e antes Helena Almeida. Poderá ser falta de sensibilidade minha para a coisa...

Quando sai do Arquivo (Rua da Palma) vinha agradado com o que vira. Ainda antes de chegar ao Martim Moniz pensei que se havia duas pessoas ligadas a fotografia, que gostaria de ter conhecido, eram Gérard Castello Lopes e Augusto Cabrita, por razões diferentes. 

Sei que aprendia algumas coisas com eles (já aprendo bastante só quando olho as suas fotografias...), porque me identifico com o seu trabalho e também por gostar de comparar tempos...

Fala-se muito de censura, da escrita durante as ditaduras salazarista e marcelista, mas fala-se pouco da imagem, de como ela era recebida, tanto pelas pessoas (especialmente nas ruas), como pelos poderes, nesses tempos com poucas cores...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 22, 2026

As conversas, as cerejas e os saberes...


Já escrevi sobre a conversa "Ginjal: memória e futuro", que aconteceu depois da inauguração da minha exposição de fotografia, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos", no "Casario do Ginjal". Gostei de conversar e de pensar sobre o que se foi dizendo, mas prefiro falar de outras coisas aqui no "Largo"...

Embora perceba que muitas vezes tem de se "cortar o mal pela raiz" (deve ter sido isso que se pensou e fez no Ginjal, com toda a terraplanagem que tornou o edificado que ainda restava das indústrias e das habitações numa montanha de pedras...), há o lado humano, que por vezes esquecemos (no meu caso por preconceito e por um ou dois mal-entendidos, protagonizados com os então novos habitantes deste espaço rente ao Tejo).

Cheguei a escrever no "Casario" sobre o absurdo destes moradores clandestinos terem chegado ao ponto de inventar portas para o "Corredor do Luís dos Galos" (que conheci sempre aberto), tornando-o aparentemente propriedade  "privada", com um bar e tudo no seu interior...

Foi este e mais um ou outro absurdo, que me fez pensar que aquela gente não era do Ginjal... Por entender que quando se ama a liberdade, não se tenta limitar a liberdade dos outros.

Claro que é apenas mais um absurdo - este meu -, porque o Ginjal quer-se que seja de toda a gente, no presente e no futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, março 21, 2026

"Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos" (e de conversas)


Inauguro hoje em Almada na sede/ galeria da SCALA, uma exposição de fotografia sobre o Ginjal. Escolhi como título, "Ginjal: memórias que cabem dentro de retratos". Por a palavra memória ser um pouco "perigosa", normalmente anda em busca de coisas antigas, saliento o facto de todas as minhas fotografias expostas serem do século XXI.

Mas a palavra memória continua a fazer sentido, pelo menos para mim, porque as trinta imagens (são quase cinquenta, algumas foram transformadas em "mosaicos"...) que apresento foram tiradas ao longo de todo o século XXI e mostram um Ginjal, ainda com paredes e muita cor, o que já não existe, desde 2025, quando se resolveu terraplanar todo aquele espaço, cada vez mais povoado por habitantes clandestinos, que viviam em situações completamente indignas...

Há um movimento de antigos habitantes e gente que gosta do Ginjal, que tenta defender este espaço, para que ele não seja retirado a pessoas como eu, que tanto prazer têm em passear por ali, de mão dada com o Tejo. É por isso que depois da inauguração da exposição, decorrerá uma conversa, dinamizada por elementos deste movimento, intitulada: "Ginjal: memória e futuro".

Poderá parecer a muito boa gente que  estas conversas não fazem grande  sentido, por vivermos num tempo pouco receptivo à defesa de interesses colectivos. Como eu penso exactamente o contrário, acho que esta exposição é mais uma boa oportunidade para dizermos o que não queremos que transformem o Ginjal.

Penso que todos estão de acordo, em não querer que o Ginjal se torne numa espécie de Tróia (onde até as viagens de barco se tornaram quase um luxo...), com a invenção de vários condicionalismos que tentem limitar a passagem a todos aqueles que gostam de passear  pelo Cais rente ao rio e conversar com o Tejo.

Como os nossos políticos se distraem com facilidade, é preciso dizer isto aos governantes da nossa Cidade, de uma forma clara. 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, janeiro 10, 2026

Fotografias, sorrisos e coincidências...


Estava a passar pelo Largo de Cacilhas ao fim da manhã e vi uma moçoila em cima do "vidro/ chão" que mostra as "salgas romanas" a quem passa. Ela ensaiar poses, enquanto outra jovem a ia fotografando com o telemóvel, sem nunca se esquecer de sorrir.

Não resisti e disse-lhe, sem parar, «e agora uma sem sorriso», ela olhou-me e não se ficou, dizendo sem parar de sorrir: «as fotografias ficam bonitas é quando sorrimos».

Sempre a andar respondi-lhe: «isso do sorriso nas fotografias é para o passarinho. Aqui não há passarada.»

E já não voltei a olhar para trás, limitando-me a ouvir o sorriso rasgado da "fotógrafa", que devia estar a fazer caretas à mulher que estava em cima do "vidro/ chão", ambas surpreendidas pelas "bocas" de um qualquer intruso que estava por ali a passar...

Provavelmente nem perceberam a piada do "passarinho", muito menos imaginavam o que tinha escrito por aqui, ontem...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, janeiro 09, 2026

«Porque é que as pessoas se riem tanto "para a fotografia"?»


A pergunta fazia sentido, porque a poucos metros de nós, uma mulher ensaiava várias poses para o companheiro, que usava o telemóvel como máquina fotográfica. Mudava de posição mas mantinha sempre o mesmo sorriso, quase de plástico.

E a pergunta foi: «Porque é que as pessoas se riem tanto "para a fotografia"?» 

Pensei logo na anedota alentejana da Maria que pintava os beiços para ficar mais bonita... Talvez o objectivo do sorriso estivesse ligado à beleza, mesmo que nem sempre resultasse.

E depois falámos de várias coisas, até das pessoas que são mais bonitas quando não estão a sorrir, mesmo que não o saibam.

Em vez do "sobrenatural" do Nelson Rodrigues, apareceu-nos o "natural", que só é possível de se obter, quando estamos completamente distraídos e não precisa de qualquer tipo de encenação.

Foi quando recebi a explicação certa: «Não te lembras de ir ao fotógrafo e ele pedir-te para sorrires para o "passarinho"?»

Estava tudo explicado. A culpa dos sorrisos era dos fotógrafos de estúdio...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 22, 2025

Quando a fotografia quer ser outra coisa...


A meio da tarde visitei a exposição de fotografia de um amigo e à medida que olhava as suas imagens, ia percebendo, com mais nitidez, que ele já está numa outra "galáxia".

A sua fotografia deixou de ser o mero retrato, caminha cada vez mais para um campo que se alimenta da diferença, da procura do que "ainda não existe", e onde a marca pessoal começa a ser o principal motivo de inspiração.

Quando vinha para casa, pensei que esta "mutação" acontece quando nos dedicamos em demasia a uma arte, quando ela começa a tomar conta de nós. Ou seja, quando o que fazemos não deixa dúvidas a quem vê, de que é aquilo o que faz correr os artistas. 

Sim, não é preciso ser-se crítico de arte para perceber que as fotografias do Modesto Viegas já são outra coisa, ao nosso olhar. Não são pinturas, mas parece que existe aqui e ali, uma "pincelada", que além de alterar as formas, lhes dá uma tonalidade especial.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, novembro 08, 2025

Coisas que aparecem dentro das fotografias...


Às vezes penso que Lisboa tem cada vez mais coisas para fotografar.

Sei que é apenas mais uma daquelas patranhas que oferecemos a nós próprios, por nos darem jeito, funcionando quase como um "empurrão" para andar por aí a tirar retratos a quase tudo o que nos rodeia, seja bonito ou feio, tenha ou não história.

E como sou cada vez mais adepto do retrato instantâneo, muitas vezes só em casa é que olho, com olhos de ver, para os pormenores que existem em cada fotografia.

Por exemplo, só em casa, a olhar para esta fotografia, é que me lembrei que um dos meus primeiros amores, se chamava Júlia e sim, ainda era uma menina...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 31, 2025

Um Outubro que se despede em tons de cinzento...


Da minha janela, virada para o Tejo, olho o "melhor rio do mundo", pintado de cinzento.

Curiosamente, continua belo, mesmo sem ter os tons verdes e azuis habituais, graças às nuvens que escondem o Sol. 

Mas o Sol não se rende e tenta furar as nuvens que lhe dão banho, oferecendo novas tonalidades de cinzento e iluminando as águas do rio...

É o Outubro a despedir-se, quase num quadro a preto e branco, memorável...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, agosto 21, 2025

Uma boa notícia para Almada e para a Margem Sul


A notícia sobre a continuidade da exposição de fotografia, "Venham mais Cinco", até 23 de Novembro, nas instalações da Lisnave, é muito boa para Almada e para a Margem Sul, tantas vezes subalternizada.

Tenho poucas dúvidas de que esta continuidade se deve também ao pouco interesse desta mostra de fotografia memorável (não conheço nenhuma com tanta capacidade para contar apenas com imagens a história da Revolução e do PREC...), provavelmente por encher demasiadas paredes.

Sérgio Tréfaut já falou, mais que uma vez, na dificuldade que tiveram em fazer com que esta exposição passasse do papel para a parede, dos sonhadores para o público. Até o Presidente da República, normalmente tão solicito, lhes deu "sopa"...


Visitei a exposição três vezes, com a sua continuidade, é possível passar por lá, pelo menos mais uma vez. Desta última vez, gostei de me cruzar com dezenas de pessoas a olharem os bonitos retratos a preto e branco (a cor aparece para ser a excepção que confirma a regra).

Estou grato a Sérgio Trefaut e à Margarida Medeiros (que já não teve a possibilidade de assistir a este sonho que se tornou realidade...), pelo seu amor à história, pelo bom gosto e pela sua teimosia. 

Sim, tanta coisa que não se fazia neste país, se não existisse uma dúzia de teimosos, que quando mais os contrariam, mais eles lutam pelos seus objectivos (eu também já fui assim...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, agosto 19, 2025

Todas as imagens "falam", mas há algumas que dão mais nas vistas, por "falarem pelos cotovelos"...


Não sei se há alguma fotografia que substitua "mil palavras", nem acho que isso seja importante. 

É apenas mais um lugar comum, que pretende realçar a importância da mensagem (ou mensagens...) que é possível transmitir, através de uma simples fotografia, sem querer ser lei.

Sei apenas que todas as imagens "falam". E que há algumas que dão mais nas vistas, por "falarem pelos cotovelos"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, agosto 15, 2025

As palavras têm cada vez menos importância no mundo. Até já há quem as escreva por nós...


Não é de hoje, é de sempre. 

Sim, as pessoas sempre olharam mais para as coisas. É uma das coisas mais fáceis e naturais do mundo. Escrever ou ler sempre foram tarefas mais complicadas e trabalhosas.

É também por isso que se diz que uma imagem vale por mil palavras. E muitas vezes vale (falei disso com a minha filha, ontem, quando visitámos a exposição de fotografia "Venham mais Cinco", na minha terceira visita...)

Lá estou eu a fazer um "desvio na conversa"... 

Mas por ser feriado, vou deixar o "outro assunto" para amanhã. Fico-me mesmo pela importância, cada vez maior das imagens, ao mesmo tempo que a arte de escrever continua a ser desvalorizada, ao ponto de haver já gente a decretar o fim da literatura (há quem adore decretar "fechos" e "fins", já aconteceu com os jornais e livros de papel e até com a história...).

O que poderá acontecer, é a banalização da escrita de autor. Graças ao talento da Inteligência Artificial, uma ferramenta essencial para quem não tem "arte e engenho", a escrita bonita parece ficar ao alcance de todos...

Voltando ao segundo parágrafo, não é por acaso, que a imagem continua a ser hipervalorizada, hoje, graças aos "smarphones", que transformam os milhões de "telefonadores", que nos rodeiam, em "fotógrafos de excelência"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, agosto 03, 2025

Coisas normais de quem regressa a casa...


Não devia ser estranho, normalmente é assim. É domingo e as férias acabaram.

Normais são também os vestígios de quem acabou de regressar a casa, que se acumulam pelas várias divisões da casa. 

As coisas parecem não querer voltar aos lugares. É todos os anos a mesma coisa... 

Devemos ser nós, que estamos com pouca vontade de pensar que amanhã é segunda-feira.

Por isso é melhor mudar de assunto.

Estive a ver as fotografias que tirei nas férias e como algumas estão ligadas a coisas que fui vendo e escrevendo (além de ler, também escrevi bastante...), talvez ensaie uma coisa chamada "crónicas algarvias", uma ou duas vezes por semana aqui no "Largo". 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Mar)


quarta-feira, junho 04, 2025

O Adeus a um excelente fotógrafo, a um Mestre...


Escolhi esta fotografia tirada à nossa poeta maior, Sophia de Mello Breyner Andresen, na sua casa (sei que não é a mais conhecida, foi por isso que a escolhi...) para homenagear o seu autor, um dos nossos grandes mestres da fotografia: Eduardo Gageiro.

(Fotografia de Eduardo Gageiro - Lisboa)


domingo, maio 25, 2025

O bonito olhar estrangeiro de Abril


Não sei dizer o que gostei mais da exposição "Venham Mais Cinco", que vi hoje, no Parque da Antiga Lisnave (ao lado da Escola Profissional da Lisnave, em Almada). 


Mas talvez tenha sido a diversidade, o que mais me espantou, das duzentas bonitas imagens que retratam muitas das aventuras que ilustram os anos luminosos de 1974 e 1975. Sim, são trinta olhares diferentes, atentos à nossa  memorável Revolução, que foi muito mais que um só dia.

Recomendo vivamente a visita à exposição a todos aqueles que gostam de fotografia e de Abril. 

Vale a pena!

(Fotografias de Luís Eme - Margueira)


sábado, maio 24, 2025

Quando a fotografia se torna bela e complexa em simultâneo...


O desaparecimento de Sebastião Salgado é um bom motivo para falar de fotografia, como arte, mas também como objecto de denúncia, de clarificação, porque o que ele mais gostava de retratar era um mundo desigual e devastador, graças à acção do homem, mas sempre a perseguir a diferença, a encontrar beleza mesmo no "inferno".

Penso que ele chegou onde mais ninguém foi (muitos nunca quiseram ir por aí, até por uma questão de filosofia de vida e do entendimento que tinham da imagem). Onde havia exploração, escravidão, devastação, miséria, ele foi lá, e tirou retratos a tudo e mais alguma coisa, sem estar preso a questões éticas e morais.

No meu caso pessoal, devo dizer que a partir de certa altura, comecei a desinteressar-me pela sua fotografia. Senti que aquilo era tudo muito igual, ou seja, ele já não me surpreendia com a beleza das suas imagens. 

Acho que isso aconteceu quando entrei mais dentro da fotografia. Fui educando o meu olhar, através da prática da fotografia e também de conversas com amigos fotógrafos (as conversas influenciam-nos muito, mesmo sem darmos por isso...), comecei a achar que as imagens de Sebastião eram demasiado encenadas. Até mesmo a miséria humana, não me parecia real, entre outras coisas, mesmo que o fotógrafo brasileiro tivesse sempre a arte como prioridade, no seu olhar...

É por isso que eu digo que a fotografia com Sebastião Salgado, ganha uma beleza única (os seus cinzentos são uma marca...), mas também se torna complexa, enquanto objecto social...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, abril 25, 2025

Lembrei-me do meu Pai, por um pequeno pormenor...


Como de costume acordei cedo.

Pensei em várias coisas, não muito alegres, que não são para escrever hoje.

Lembrei-me do meu querido Pai. Por um pequeno pormenor.

Nunca me falou da prisão do pai, no começo da Guerra Civil de Espanha. Eu também nunca lhe fiz qualquer pergunta sobre esse tempos difíceis, que se agudizaram com a Segunda Guerra Mundial. 

Ele tinha dois, três anos, quando o meu avô foi preso. Tinha cinco, quando começou a Guerra provocada por Hitler.

Do que me falou bastantes vezes, foi da fome que passou, na infância passada na Beira Baixa...

Parece que não é uma história de Abril, mas acaba por ser, porque Abril é também memória. 

E é essa memória que nos faz lutar contra um passado, que parece longínquo, onde reinava a repressão e a exploração, onde se tentava roubar a dignidade às pessoas...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, abril 11, 2025

Ver o tempo a fugir por entre os dedos...


Este mês de Abril está ser de muito trabalho.

O curioso, foi a montagem da minha exposição de fotografia (que é inaugurada amanhã...), acabar por servir quase como um momento de distracção, e até descontração.

Há muito tempo que não sentia os dias tão curtos, mesmo que o Sol apareça cada vez mais cedo e vá-se embora mais tarde...

Até parece quase um título de livro ou filme, esta coisa de ver o tempo a fugir por entre os dedos...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)