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segunda-feira, agosto 24, 2026

Mudamos sempre, mesmo sem nos apercebermos...


O espelho diz-nos muitas vezes que estamos diferentes. Muitas vezes apetece-nos "não ver", "não olhar", especialmente quando não achamos muita piada às mudanças.

Mais problemático é quando passamos ao lado daquelas mudanças, que nenhum espelho detecta... Sim, quando passamos a olhar para as coisas de uma forma diferente e fingimos não o perceber. Talvez aconteça por aqui o mesmo que a sempre útil Sabedoria Popular nos diz sobre o que o tempo faz ao "bom vinho": se for bom ganha qualidade, se for mauzito, tem tendência para azedar... 

Sessenta e poucos anos de vida são suficientes para percebermos, que sim, somos exactamente como o bom vinho. De uma forma simplista, percebemos que todos os "filhos da puta" se tornam piores com o passar dos anos, ao passo que as pessoas mais bem formadas, têm tendência a relativizar tudo aquilo que se passa à sua volta...

Onde se nota muito estas diferenças é no comentário político. Os casos de Pacheco Pereira ou de António Barreto, são paradigmáticos, ambos foram ganhando racionalidade, ao mesmo tempo que se iam curando da "febre ideológica". Algo que com toda a certeza nunca acontecerá com João Miguel Tavares, tal como nunca aconteceu com Vasco Pulido Valente, e muito menos acontecerá com Cavaco ou Sócrates...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, maio 17, 2026

O chavão de que "o que vem de fora é que é bom"...


Por vezes escrevemos um texto diferente, sem sairmos da sua "alma".

Isso acontece quase sempre, por terem ficado demasiadas pontas soltas no ar.

Continua a ser uma evidência, que o nosso país é uma maravilha para quem chega de fora, então se tiver a pele e o cabelo claro...

Podia aplicar aqui o bom e bonito, "vive e deixa viver", mas não é uma coisa assim tão simples e agradável.

Não se pode apagar todo um histórico, que se deve ao facto de termos sido sempre, um país pobre e pouco desenvolvido, que fixou a frase, de que "o que vinha de fora é que era bom" (com alguma lógica...) e que acabou por ficar gravada na cabeça dos portugueses.

Agora que se fala tanto em "reforma laboral", é importante falar dos ingleses que desenvolveram algumas das nossas indústrias no século XIX e sempre trataram os trabalhadores com mais dignidade e respeito que os patrões portugueses.

Todas estas coisas fizeram com que nos tornássemos hipócritas e subservientes (os políticos continuam a dar o exemplo nas relações com o EUA ou a Europa, ao quererem ser "bons alunos").

Embora seja um tema pertinente, e com opiniões diversas, acho que nunca nos conseguimos livrar do tal chavão, de que, "o que vem de fora é que é bom" (com a excepção das peles mais escuras, claro...).

Não é por acaso que em muitos lugares, se dá mais importância ao que dizem as pessoas de fora, que os da casa. Mas isso dá para mais um ou dois textos, escritos em jeito de crónica...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, abril 06, 2026

Faz-nos muita falta ler coisas que nos façam pensar...


Há muitos anos que não lia um livro de Jorge Amado (provavelmente, há mais de trinta...). No início estranhei aquela forma "crescente" de agarrar o leitor à história, de quem não está preocupado em prender o leitor logo no primeiro capítulo, mas depois vamos ganhando confiança com as personagens e por ali ficamos até à última página. Foi assim com este "Terras do Sem Fim".

Mas não é sobre isso que quero falar, aliás escrever. Ao ler estes romances que falam sem rodriguinhos da vida das pessoas num tempo que parece estar a voltar, em que se volta a desvalorizar a vida humana e se cresce socialmente pisando e matando os outros, fico a perceber o quanto são importantes os livros que falam com crueza sobre a vida e sobre as pessoas. São eles que nos ajudam a abrir os horizontes em relação a este "novo-velho" mundo que nos cerca...

Podem ser histórias do século XIX, princípios do século XX, mas percebe-se que podem ser facilmente transpostas para o período actual que estamos a viver no século XXI. Sim, tanto Trump como Putin ou Netanyahu, podem muito bem ser comparados com os "coroneis" dos romances de Amado, pela forma como não respeitam as leis (o "Direito Internacional" tornou-se uma anedota...) e se tentam livrar dos inimigos políticos.

Faz-nos falta voltar a ler livros (ou até reportagens de revistas e jornais...), que nos façam pensar e sentir que pode existir um outro mundo, melhor para todos nós. Um mundo distante destas "matanças diárias", que só estão a acontecer pela ambição humana doentia e desmedida provocada pelo poder.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

A sensação de ter perdido algumas palavras pelo caminho...


Quando escrevo tenho a sensação de que o meu vocabulário está a ficar mais incompleto, que há uma ou outra palavra que ficou perdida no caminho...

Recorro mais ao dicionário (devia dizer aos...) e ao "senhor google", que por muito que disfarcemos, é um grande "inteligente artificial".

Talvez exista um limite de idade para escrever...

É quando me aparece o exemplo do nosso Nobel, que publicou o "Memorial do Convento" aos sessenta anos e foi galardoado com o prémio sueco com setenta e seis anos de idade...

Depois do "Memorial" foi escrevendo obras como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1987) ou o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991), que tanta polémica deu, ao ponto de ele se exilar de forma voluntária em Lanzarote...

O mais provável, é esquecermos umas palavras e encantarmo-nos com outras...

Também sei que o ritmo da escrita diminui, com a mesma naturalidade que nos aparecem os primeiros cabelos cinzentos ou as dores que se vão tornando crónicas...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


quinta-feira, dezembro 04, 2025

Ser outra coisa, distante das "marias que vão com as outras"...


Olho para trás e sinto que esta coisa de querermos ser diferentes, começa logo na infância, com coisas tão simples, como a gastronomia, por exemplo. Não foi por acaso, que os primeiros problemas que tive de enfrentar foram na casa dos meus avós maternos, com uma coisa simples, a sopa.

Habituado à sopinha passada e cremosa da minha mãe, detestava a sopa liquida e com os legumes, completamente à solta, da avó. Em vez de ficar em silencio, como o meu irmão (que neste caso particular gostava mesmo da sopa da avó...), dizia que não gostava e recusava-me a comer...

Recordo-me que os adultos gostavam de me chamar "uma criança difícil", como se nestas idades a nossa missão fosse obedecer religiosamente a todos os adultos.

Cresci e continuei a gostar de pensar pela minha cabeça, de querer a ser eu a escolher o que gostava e queria fazer. Claro que a teimosia e espírito de contradição, fazem com que tenhamos de percorrer caminhos mais longos, apenas porque queremos e sentimos que aquele é que é "o nosso"...

Curiosamente, ou não, tenho a quem sair. Tal como o meu pai, sempre gostei e quis ser "eu". 

Claro que além das rosas, também tive de agarrar alguns espinhos, porque o mundo que nos rodeia não gosta muito de quem não tem vocação para  vestir a pele de "carneiro" ou ser uma "maria que vai com as outras"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, novembro 16, 2025

O tempo em que as pessoas se uniam e associavam para resolver os seus principais problemas...


Quando somos convidados para falar sobre a história do associativismo almadense e da Incrível Almadense (anda por cá há três séculos, desde 1848...), não é possível fugir do país que existia há 150, 100 ou 60 anos. E não é difícil concluir que a nossa sociedade evoluiu mais nas últimas cinco décadas, que em século e meio.

Mudámos para melhor em todos os aspectos. 

Olhamos para trás e descobrimos um país tão diferente, em que as pessoas estavam entregues a elas próprias, sem que existisse Estado para o que quer que fosse.

Discute-se tanto a falta de habitação, e há menos de um século, a maior parte dos bairros cresciam clandestinamente, num tempo em que a electricidade, a água canalizada e o saneamento, eram um luxo, ao alcance de uma minoria de portugueses.

Da saúde nem vale a pena falar. Apenas em Lisboa, no Porto e em Coimbra existiam unidades de saúde dignas desse nome. O resto do país socorria-se dos médicos particulares, de pequenas únidades de saúde e das associações de mutualidade.

E a educação? Se excluirmos os três centros urbanos referidos anteriormente, os liceus existentes de Norte a Sul contavam-se pelos dedos das duas mãos. Mais de metade dos portugueses nem sequer pisavam um estabelecimento escolar. E daqueles que se inscreviam na primeira classe, uma boa parte desistia a meio. Há cem anos, as pessoas que sabiam ler e escrever ultrapassavam ligeiramente os 25% da população...

Mas a grande mudança que Abril nos trouxe, foi a alteração do papel da mulher na sociedade, deixou de estar atrás (pelo menos na Constituição...) e passou a estar ao lado do homem, no que toca a direitos e deveres.

O problema, é que entre a assistência destes encontros, raramente se encontra um jovem com menos de quarenta anos...

E para estes, o país que existia em 1850, 1900, 1950 ou 1974, pouco lhes interessa. As diferenças que existem são tantas, que ao ouvirem-nos até são capazes de pensar que estamos a inventar...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, novembro 04, 2025

A forma como julgamos os outros...


Julgamos tantas vezes os outros, partindo apenas das nossas convicções e da nossa experiência de vida...

Pensei nisso depois de ouvir um desconhecido a divulgar, alto e bom som, numa rua movimentada de Lisboa (o senhor queria muito ser ouvido por quem passava por ali, naquela "encenação"...), que «podia haver igual, mas mais honesto que ele, não havia ninguém na terra». 

Sorri sem parar e sem perceber muito bem se o alcance daquele "terra" era mesmo planetário. Provavelmente era...

Nunca fui capaz de dizer algo do género, talvez por ter sido educado a nunca dizer algo do género. São conclusões que devem ser tiradas por terceiros e nunca por nós próprios.

Lembrei-me logo de duas pessoas: um primeiro-ministro, que transformou o país de uma forma miserável (continuamos a pagar por isso, sobretudo na forma egoísta como olhamos para o dinheiro e para as coisas do mundo...), que se vangloriou que "estava para nascer a pessoa mais séria que ele", mesmo que tivesse atrás de si, pelo menos dois ou três rabos de palha... A outra personagem que me veio à cabeça foi  João Noronha Lopes. Quando o vi na televisão a mostrar publicamente as suas declarações de rendimentos e a gabar-se dos milhões que ganhara como empresário, deixei de sentir confiança nele, deixou de ser o tal "candidato da mudança"...

É possível que exista algum preconceito nesta forma de olhar e julgar os outros. Mas somos o que somos, muito pelo que nos ensinaram e pelo que vivemos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 27, 2025

Talvez a maldade humana não tenha limites...


Uma das lições que o progresso nos dá, é a facilidade que temos em utilizar a maior parte das coisas que são pensadas e criadas para melhorar as nossas vidas, da pior maneira.

Ainda não sabemos muito bem, quais são os sectores onde podemos usar de uma forma mais eficiente a Inteligência Artificial, para nos facilitar o dia a dia, já ela anda nas "bocas do mundo", pelas piores razões. 

A "chico-espertice" do costume, de mão dada com a maldade humana, já a começaram a usar em todos os géneros de burlas e roubos de identidade, ao ponto de já ser olhada de lado, por uma grande parte da população mundial... 

Somos o que somos. 

Provavelmente, a maldade humana não tem limites...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 14, 2025

As várias velocidades do olhar...


Gosto cada vez mais de fotografia. Sinto que ela é, muitas vezes, o prolongamento do meu olhar. 

Não perco muito tempo com a "técnica e a táctica", gosto sobretudo do "improviso". É por isso que gosto mais de falar com fotógrafos amigos que de ler livros de fotografia.

E quando gostamos de coisas diferentes, ainda se aprende mais...

É com eles que percebo que não sou propriamente um fotógrafo. Sou simplesmente um gajo que gosta de tirar retratos, de ver o mundo por dentro da câmara, talvez por saber que a fotografia que sai, nunca é exactamente o que os nossos olhos viam.

Quando eles me começam a dizer que a fotografia x demorou cinco horas... ou em casos mais sérios, anos (sim o Aníbal diz que a sua fotografia "A Poeira no Caminho", demorou anos, até descobrir o Sol e a poeira perfeitas... Sorrio, por saber que raramente fico à espera de uma fotografia (a sensação é contrária, sinto muitas vezes que deixei fugir o momento, que a fotografia não vive de hesitações).

Comecei a escrever e a fugir ao tema da última conversa que tivemos, as "várias velocidades do olhar". Sei que até parece uma coisa surrealista, mas existe mesmo, e é facilmente compreensível...

Não vemos a mesma coisa, sentados, de pé a caminhar, a passear de bicicleta, a viajar de carro ou de comboio. Não é nada de mais. Mas são coisas em que raramente pensamos e ainda menos discutimos, com exemplos práticos...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, outubro 04, 2025

Existe mesmo uma "idade da sabedoria"...


Lembrei-me de uma das conversas que tive com o Alberto, há já meia dúzia de anos, sobre o pequeno mundo cultural e associativo  de Almada. Foi quando ele me contou o bem que lhe sabia, dizer não, a alguns convites que recebia para participar em mesas redondas e quadradas, onde se falava de tudo e mais alguma coisa, sem que sobrasse ou se resolvesse coisa alguma.

Depois disse-me que eu estava quase a chegar à "idade da sabedoria" e que também iria começar a dizer não, cansado das tais conversas estéreis...

Não o levei muito a sério, limitei-me a sorrir. 

Meia dúzia de anos depois, não só sinto, como sei que ele estava certo. A partir dos sessenta, passamos a ter menos paciência para tais as conversas de circunstância e para as futilidades. Só continuamos nessa vidinha, se não tivermos nada de interessante para fazer, além de olharmos  para o nosso espelho favorito, que até é capaz de nos encolher a barriga e colocar mais cabelo na cabeça, apenas porque sim...

Se ainda tivermos vontade de fazer algumas coisas, começamos a ser mais selectivos, agarrando-nos ao que realmente nos interessa.

E às vezes, sabe tão bem dizer não...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 20, 2025

A Constituição é a Mãe de todas as Democracias


Aquilo que chamamos democracia tem a grande vantagem de permitir a troca de argumentos entre rotos, gente com roupa remendada e, imagine-se, fulanos com fatos engomadinhos de domingo.

O que não permite é que não se cumpra a Constituição, que rege os países democratas, onde estão inscritos os deveres e os direitos de todos, sem qualquer tipo de discriminação. Sim, nas Constituições não há maiorias e minorias, cidadãos de primeira ou de segunda.

É por isso que as verdadeiras democracias não permitem dizer,  - ou fazer tudo o que nos apetece -, às pessoas de quem não gostamos ou com quem não concordamos. Mas não somos nós que impomos os limites, é a Constituição.

Ou seja, até podemos gostar de "xafurdar" em pocilgas, falar aos gritos ou dizer os nomes piores que conhecemos. Não temos é de obrigar os outros a fazerem também estas coisas, que parecem contribuir para a nossa felicidade.

Agora está na moda falar de "linhas vermelhas". Só que normalmente cada um traça as linhas que quer, mais curtas ou mais compridas, ou seja, conforme lhe dá jeito. 

É também por isso, que nunca foi tão importante o papel do Tribunal Constitucional, que até aqui tem funcionado de forma equilibrada, nas escolhas dos seus juízes (embora as direitas, que agora estão em maioria no Parlamento queiram desiquilibrar a balança...).

Tudo isto para dizer que há limites nas democracias. Não é o Presidente da República ou o Primeiro-ministro que os impõem (muito menos os líderes partidários), é a nossa Constituição.

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 09, 2025

«A "estação das chuvas" é igual às outras coisas, foi forçada a mudar, a adaptar-se...»


Costuma-se dizer que fala e escreve sobre o tempo, quem não tem mais nada para dizer.

É apenas um lugar-comum, que não tem de ser, nem é, tantas vezes verdadeiro.

Se estiveres sentado com uma pessoa que sabe mil e uma coisa que desconheces sobre aquilo que chamamos "tempo", que é quase sempre mais coisas que o uso que damos esta palavra simples. Sim, não fica presa apenas ao sol, à chuva,  ao vento, ao calor ou ao frio...

Alguém disse que amanhã ia chover. Ninguém estranhou. Talvez pensássemos que chovera de madrugada durante o fim de semana e que também não se estava à espera, Fingimos que não acreditamos nos meteorologistas, mesmo que estes tenham uma tarefa mais difícil e sejam muito mais fiáveis que há vinte ou trinta anos. de domingo na manhã de sábado que acordámos.

O que ficou desta visitante-surpresa, foi uma frase simples, tão definidora: «A "estação das chuvas" é igual às outras coisas, foi forçada a mudar, a adaptar-se...»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 06, 2025

As coisas que apanhamos no ar e as outras que "roubamos aos outros"...


Nunca foi tão fácil como hoje, apropriamo-nos das coisas que gostamos dos outros.

Trata-se de algo muito limitativo, aliás, todo este tempo que vivemos é demasiado limitativo. Nunca se seguiu tanto o outro, mesmo quando pensamos que estamos a ser originais.

Percebo que seja cada vez mais difícil pensarmos pela nossa cabeça. O mundo está organizado, para não termos tempo para isso, para "pensarmos pela cabeça dos outros", para sermos mais uma "maria que vai com as outras".

Há ainda "outra rua", onde se juntam para beber copos aqueles que preferem dizer que "já está tudo inventado". Só que o tudo, é sempre muito, em qualquer situação da nossa vida. 

O que importa é como as coisas nos aparecem na cabeça. Quando vêm ter connosco nos momentos que são só nossos, seja na varanda quando olhamos para rua ali ao lado ou para a outra cidade que se esconde quase na linha do horizonte e vemos coisas que mais ninguém vê, ou quando estamos deitados na cama, onde há todo o espaço do mundo para termos sonhos esquisitos. 

Nestas situações, as coisas são nossas, de certeza. Mesmo que sejam fruto de mil e uma influências, desde os livros que lemos às conversas que tivemos com os amigos, dentro de nós são nossas, até porque tiveram de passar pelo nosso "filtro", de gosto e de conhecimento...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 08, 2025

Estou farto de saber que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas...


Dei uma volta grande pela cidade, para finalmente chegar aquele lugar, mais oriental.

Depois foi entrar e descobrir a recepção e uma senhora que era segurança (a farda não engana...), fazer a pergunta, querer saber de fulano tal, e a mulher não fazer ideia quem era o senhor, mesmo que fosse ele o "pai e a mãe" daquela instituição.

A senhora já não era uma jovem, nem tinha qualquer sotaque, que a levasse para o território imigrante. Insisti, até lhe fui dando alguns pormenores biográficos. Percebi que dali não levava nada pelo que perguntei se não havia ninguém da empresa que me pudesse ajudar. Que não, já não estava lá ninguém da administração. Sei que Portugal é um país especial, é sexta-feira e o relógio indicava 12 horas e 12 minutos. Pois é, há sempre quem faça fins de semana prolongados, especialmente num Agosto quente e que não tenha um horário de trabalho das nove às cinco...

Quando me preparava para ir à minha vida, eis que apareceu uma senhora por ali, a quem a funcionária fez a "pergunta sacramental".

De repente o mundo deu uma volta e fiquei a saber o que queria. Sim, o mundo voltou a ser "simpático e culto"...

Já na rua, fiquei a pensar que a senhora não tinha culpa da "inutilidade" e da sua "irrelevância", porque era segurança e não recepcionista. Estava ali para não deixar "entrar bandidos" e não para dar informações sobre o histórico da instituição.

Nada que eu não soubesse. Pois é, estou farto de saber que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. 

O problema, é que estamos sempre à espera de ser surpreendidos, pela positiva, neste nosso pequenino país...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, julho 17, 2025

O mundo das músicas (quase todas)


A música continua a não estar muito estudada, pelo menos com algum conteúdo histórico, no nosso país (só o fado é que tem vários especialistas, entre outras coisas, porque é um mundo mais misterioso e envolvente...).

Foi por isso que me desafiaram para começar um projecto, sem data, para escrever quando e como me apetecesse. 

Isto aconteceu porque tive a "ousadia" de falar da originalidade, da diversidade, da qualidade, e claro, da banalidade da nossa música (com nomes e tudo...).

Acabei por dar um realce especial ao fado (ao antigo...), em que o principal objectivo dos, e das fadistas, era ser dono de um estilo próprio, ou seja, tinham muito cuidado com as imitações. As fadistas então (as boas claro), fugiam a sete pés da Amália e da sua forma única de cantar.

É por isso que é digno de realce, que tenham existido bastantes vozes femininas que cantaram o fado nos anos cinquenta, sessenta e setenta, sem deixarem de andar de cabeça levantada pelas ruas de Lisboa. E algumas ainda se ouvem com com prazer redobrado. Neste caso particular até dou meia dúzia de exemplos:  Argentina Santos, Beatriz Conceição, Celeste Rodrigues, Hermínia Silva, Lucília do Carmo ou Maria Teresa de Noronha.

Claro que se escrevesse algo sobre "músicas", teria de dizer que o autor era um não especialista, duro de ouvido...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, julho 15, 2025

Há sempre coisas que têm de ficar para amanhã...


Delegaram-me a missão de colocar determinada pessoa a par de um projecto colectivo comum, depois de uma reunião com avanços importantes.

Por ela estar envolvida numa iniciativa que estava a decorrer, deram-me um outro nome feminino, de uma espécie de secretária, com quem poderia falar e colocá-la a par de tudo.

Cheguei e perguntei se era possível falar com a tal senhora. Telefonaram e depois perguntaram-me qual era a temática, expliquei de uma forma sintética o que me tinha levado ali. Do lado de lá recebi a informação de que ela também estava muito ocupada com o mesmo certame e que o melhor seria aparecer noutra altura. Agradeci a atenção.

Depois de ter saído, segundos depois resolvi voltar a entrar. De repente  tive uma ideia quase luminosa. Pensei que me poderia voltar a acontecer a mesma coisa, no dia seguinte, receber a resposta de que ela "estar demasiado ocupada para falar comigo". E então voltei à recepção e disse ao rapaz do telefone se poderia perguntar à senhorita, se havia uma hora em que ela me pudesse receber, no dia seguinte.

Enquanto esperava resposta, ainda desabafei que estava a ficar velho demais, para aqueles jogos, ainda por cima quando estava em causa um projecto colectivo...

Segundos depois, veio a resposta. Sim, era possível falarmos, às 16 horas, de quarta-feira...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, julho 13, 2025

A vida tal como ela é


Quando escrevemos sobre pessoas mais próximas de nós (se existirem ligações familiares ainda se torna mais estranho...), em parte, sentimos que a história está ser reescrita de novo.

Isso acontece com alguma naturalidade. Além de não termos vividos todos os acontecimentos (é impossível estarmos em todo o lado...), também descobrimos, através das conversas que vamos mantendo aqui e ali, que não conhecemos assim tão bem a vida de algumas pessoas, mesmo as que nos são queridas. 

O curioso, é que tenho ficado, quase sempre, surpreendido de uma forma positiva.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, julho 04, 2025

Pode-se saber muito sem abandonar o "planeta terra"...


Eu sabia que podia ser uma chatice sabermos muito sobre um assunto qualquer, podíamo-nos tornar condescendentes com os outros, mesmo sem nos apercebermos. E se tivéssemos os hábitos de "professor universitário" de raramente "descermos as escadas" ou "apanhar o elevador", para voltar à terra e falar com os comuns, ainda pior.

Felizmente, há mais mundo nas ruas e nos transportes que nos levam, aqui e ali. Pode ser uma sensação de liberdade, quase indescritível, abandonar os gabinetes e as conversas chatas com os "sabões" e ir ao mercado, comprar cebolas, carapaus, sentir que é possível aprender com aquela gente despachada, e tantas vezes desbocada, que começa a sua "luta diária" ainda antes do sol nascer e mesmo assim consegue sorrir à vida.

 Claro que isto são palavras de "um não especialista", que cada vez mais, passa a vida a olhar os outros, a sentir o mundo a mexer-se, a uma velocidade que já não consegue, nem quer acompanhar. Mas está longe de ser um desistente, continua a caminhar e a olhar com nitidez para o que se passa à sua volta.

É por isso que fico feliz, por alguém, como o meu irmão, com uma carreira no ensino, de mais de quatro décadas, a maior parte dela passada na universidade, nunca ter perdido o nome próprio e passado a ser o "doutor"...

Claro que sei que isso também se deve aos meus queridos pais, e numa percentagem menor, aos meus avós maternos, que sabiam tanto, mesmo sem terem tido a possibilidade de conhecer as escolas por dentro, na sua infância.

(Fotografia de Luís Eme - Minho)


quarta-feira, junho 04, 2025

O Adeus a um excelente fotógrafo, a um Mestre...


Escolhi esta fotografia tirada à nossa poeta maior, Sophia de Mello Breyner Andresen, na sua casa (sei que não é a mais conhecida, foi por isso que a escolhi...) para homenagear o seu autor, um dos nossos grandes mestres da fotografia: Eduardo Gageiro.

(Fotografia de Eduardo Gageiro - Lisboa)


sábado, maio 31, 2025

As palavras difíceis de explicar e de lhes oferecer o seu verdadeiro sentido...


Ele podia perguntar a outra pessoa, mas veio logo perguntar-me a mim (isto de ter fama de "intelectual" tem que se lhe diga...), o que queria dizer "honra", palavra que ouvira duas ou três vezes durante o jantar.

Tive dificuldade em explicar às primeiras aquele miúdo curioso, de oito anos, o significado desta palavra tão em desuso. Percebi que não havia uma forma fácil de explicar algo que fora tão importante no seio das famílias, mesmo nas mais humildes. O quanto era importante para eles honrar os seu nome...

Foi quando me lembrei de lhe dizer que a honra era o orgulho que sentíamos pelos nossos pais, tios ou avós, por serem boas pessoas. Ao ponto de querermos seguir os seus exemplos pela vida fora.

Como acontece com as crianças, não se ficou com uma explicação tão simples e continuou a querer saber coisas: «Então os tios que não são boas pessoas, deixam de ser da família?»

Disse-lhe que não. Por mais disparates que os nossos familiares façam, são sempre da nossa família. Lembrei-me da expressão "laços de sangue", mas guardei-a para mim, achei que era melhor não complicar as coisas...

Não lhe quis estar a dar lições de moral, mas ainda lhe disse que não estarmos sempre a mentir, também era uma questão de honra. O que lhe fui dizer, falou-me logo, com um sorriso, do "maior mentiroso do mundo", esse mesmo o Trump, que quer tudo menos ser uma "pessoa honrada". 

Foi bom, porque nos deu uma oportunidade para mudarmos de assunto...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)