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segunda-feira, setembro 14, 2026

As perguntas que não sabemos responder...


Ele perguntou-me se existia algum ponto inteligível que conseguisse definir o que é arte e o que é um artista. Alguma coisa que fosse perceptível ao olhar, algo que mexesse com as emoções do espectador comum.

Lembro-me que no jornalismo com bola usava-se muito a expressão "perguntas de mil paus", quando alguém se silenciava e fechava a caixa de respostas a sete chaves.

Ali o caso ainda era mais complicado. O artista em causa, com a "estrela de famoso", por vezes, parecia brincar com a inteligência dos outros, ao fazer obras de arte que se confundiam, aqui e ali, com obras públicas manhosas.

Tal como ele, eu também não sabia quem é que tinha inventado as "instalações". Nem estava muito interessado em saber, diga-se de passagem.

Entre outras coisas falou-me do monte de tijolos que encontrou uma vez expostos em Tavira. Mas quis ir ainda mais longe e recordou-me o episódio polémico com as vigas de ferro que colocou numa rotunda de Leça de Palmeira. "Escultura" que acabou por ser vandalizada, porque alguns munícipes, além de se sentirem "gozados" pelo artista, acharam que havia coisas mais importantes no Concelho para se gastar dinheiro e manifestaram-se da pior maneira possível.

Quem percebe um pouco de arte, sabe que escrevo sobre Pedro Cabrita Reis.

O mais provável é que sejamos demasiados "incultos" para querer colocar limites na arte, que vive mais do nosso olhar, que das imposições exteriores..

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas - não sei se o "artista" que virou um dos contentores do lixo de pernas para o ar, teve a noção de que podia estar a criar uma "instalação artística"...)


domingo, setembro 13, 2026

Quando os artistas mudam as "suas dores" e deixam de falar das artes...


Estava a ouvi-la e a ficar cada vez mais enfastiado. Tentava disfarçar. É possível que o tenha conseguido, porque ela "só se ouvia a ela própria". Eu estava ali, quase a fazer apenas de "ponto"...

Só me conseguia lembrar de um outro nosso amigo comum, que a partir de certa altura (é verdade que começou a visitar mais vezes hospitais que galerias de arte...), não conseguia começar uma conversa sem se queixar disto ou daquilo. Ela disse-me mais que uma vez, que era cada vez mais difícil falar com ele, que se tornara um chato, que só falava de doenças...

Depois de a deixar, fiquei a pensar que aquilo podia ser quase "epidémico". Ela estava como ele. Talvez o problema seja da vidinha. Sim, quando o mundo ameaça cair-nos em cima, aquilo que nos realizava até aí, pode deixar de ser importante...

De uma forma optimista, pensei que talvez conseguisse escapar a este epidemia, por ser um tipo estranho. 

Sim,  já que raramente falo com os outros dos meus "achaques" e até há muito "boa gente" que acha que isso não é muito normal...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa - detesto quando destroem a arte alheia como aconteceu neste caso...)


quarta-feira, setembro 09, 2026

«Continua a falar-se pouco do país que queria ser uma "máquina de fotocópias humanas"»


Percebi de uma forma curiosa, que a liberdade estava longe de ter o mesmo valor para a quase dúzia de pessoas sentadas à mesa do jantar.

Sempre falámos de política de uma forma aberta, usando as divergências que surgiam aqui e ali, com algum humor.

Por ser o mais velho daquele convívio, fui sentindo com o decorrer da conversa que o meu mundo era diferente do deles. Mas não era só isso. Eu sempre fui pouco maleável a novas ideias e a novas tecnologias (era o único que não usava smartphone e isso podia explicar muita coisa...).

O mais estranho, era aquela gente achar-se mais bem informada que eu, por estarem a ler títulos de notícias quase minuto sim minuto não, ignorando que eu era assinante e leitor de jornais a sério...

Houve mesmo alguém que foi capaz de dizer que o país do Salazar não era assim tão mau como o pintavam. Foi quando eu disse que era muito pior.

A duas ou três coisas que foram ditas de forma leve, eu respondi com meia-dúzia de factos, que por si só, conseguiram silenciar aquela mesa, por alguns segundos.

Antes do ignorante atrevido meter a viola no saco, por perceber que estava sozinho, ainda lhes disse: «Percebo que não conheçam a realidade do país salazarento. Continua a falar-se pouco do país que queria ser "uma máquina de fotocópias humanas".»

Os sorrisos voltaram à mesa e começou-se a falar de futebol, pois tanto o Sporting como o Benfica tinham acabado de ganhar os seus jogos de "pontapé na bola"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, setembro 06, 2026

«Foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados»


Sabia que aquela frase podia ser o começo de um guião para qualquer telenovela portuguesa.

Mas não, referia-se mesmo a uma mulher, que tinha escolhido há semanas um de nós para "cortejar".

Começámos a reparar nisso quando os vestidos da senhora começaram a encurtar e o rosto ganhou alguma cor, nos olhos e nos lábios. E claro, quando começou a dar atenção a mais a um de nós e a desafazer-se em sorrisos.

Não foi preciso o Carlos insistir, quase poeticamente, «foge, mas sem nunca correres, desta e de outras mulheres, que querem sair de casamentos falhados.»

Foi quando ele fingiu que ia comprar tabaco (por sorte, não se vendia naquele café...) ao outro lado da rua, mesmo sem fumar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, setembro 05, 2026

Também não sei para onde foi a "normalidade"...


Deve ser das coisas mais difíceis de definir nesta actualidade estranha, a tal "normalidade", tanto ao alto como ao baixo nível. Todos sabemos que o que é normal para países como a Rússia ou o Israel, é diferente para  a Ucrânia, ou o Irão...

Depois podíamos descer um patamar e chegar aos chamados conservadores e aos ditos progressistas, onde uma simples saia acima do joelho ou um véu que cobre o cabelo, conseguem encher um livro de reclamações.

Pior que as saias curtas são os livros cheios de obscenidades e ideias malucas, que tanto medo provocam a quem gosta de um mundo demasiado certinho e cheio de regras, pelo menos fora de casa...

Mas o pior deve ser a valoração da mentira, que começa a ficar quase ao mesmo nível da verdade, como era entendida antes de aparecerem as redes sociais e todos aqueles que as "cavalgam", como se o seu hoje fosse o amanhã...

O mais curioso é que escrevi uma data de coisas, que passam ao lado da conversa de sábado de manhã, que questionava a "normalidade" e tinha como protagonistas um político aldrabão, que quer ter no currículo  a demissão de um ministro (e vai conseguir, mas mais tarde do que aquilo que estava a pensar...), e um antigo polícia "chico esperto", com a escola das américas dos xerifes...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, setembro 04, 2026

Encontrar medidas para uma coisa que é mais de sentir que de medir...


Fazia-me confusão ver pessoas da minha geração a quererem medir a amizade, fingirem que não percebiam que havia mais de uma dúzia de formas de se ser amigo, de se expressar a amizade...

Foi quando me lembrei que aquele era um dos momentos em que me apetecia fumar cigarros, para ter uma desculpa fácil para ir até ao átrio e ficar por ali a ver passar os carros e as pessoas, a várias velocidades...

E a amizade até era uma coisa mais fácil de lidar do que com o amor, por exemplo, em que se fazem coisas muito mais incompreensíveis e pouco razoáveis.

Mesmo assim fui à casa de banho. Olhei-me ao espelho. Lavei os olhos. Mijei. Lavei as mãos. Voltei.

Eles continuavam com a fita métrica à querer tirar medidas a uma coisa que é mais de sentir, que de medir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 01, 2026

«Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»


Alguns leitores, assumidamente, não comentadores do "Largo" gostam de dizer coisas sobre o que escrevo, como foi o caso do "anónimo" da camisola azul que frequenta o café da praça. Não só teve o descaramento de acrescentar palavras sobre os livros, como o disse de uma perspectiva sobretudo comercial: «Quem é que te disse que os livros são vendidos para ser lidos?»

Pois foi... ninguém me disse. Mas é o que acontece, mais vezes do que pensamos. 

O "anónimo" da camisola azul, está cheio de razão... Desde que a Feira do Livro se tornou um "hiper-mercado", até mesmo os leitores de livros acabam por comprar ainda mais livros, que sabem que nunca irão ler. 

São apenas os livros que gostavam de ler um dia...

A "febre" do consumismo é isto... leva-nos sempre a comprar coisas, que não nos fazem falta, nem mesmo na nossa cabeça. 

Pois é, nada escapa a esta vontade de vender e de comprar destes tempos, nem mesmo os livros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 31, 2026

Tantas vezes que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa...


Tive de partir a conversa sobre a genialidade de alguns escritores como o nosso Lobo Antunes, em dois.

Acontece demasiadas vezes estarmos à conversa e misturarmos assuntos, ao ponto de fingirmos que não percebemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa, é outra coisa. 

Pois... à mesa, nem sempre temos agilidade suficiente para "separar as águas". Felizmente, as palavras escritas são muito menos complicadas que as palavras faladas...

Ou seja, além de se falar do escritor, também se falou dos seus leitores, dando realce aos "compradores de livros com autógrafo", mais coleccionadores que leitores, tanto do António como do Saramago e companhia...

Foi a Carla que melhor caricaturou o tal sujeito (não deixa de ser curioso, que fizesse um boneco engraçado masculino...), oferecendo-lhe um lenço ao pescoço e colocando-o na primeira fila dos lançamentos dos chamados consagrados (os "eusébios" dos livros...), de perna cruzada, com mão no queixo e ar interessado pela tramóia bem resumida pelas palavras do apresentador. Sem se esquecer de dizer que ele é sempre um dos primeiros a ir para a fila para sacar o respectivo autógrafo do livro que tem o destino habitual: embelezar a estante cheia de livros assinados, que nunca leu, nem vai ler...

Todos sorrimos, por gostarmos de ter amigos que têm a capacidade de fingir que o mundo é muito melhor do que é, dizendo coisas que fazem sorrir as mesmas pedras da calçada, que soltam lágrimas com os fados da desgraçadinha...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 30, 2026

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances»


Há tantas coisas sobre a qual nunca pensámos, algumas importantes outras quase sem importância nenhuma, muitas vezes são apenas meras teorias ou conjecturas.

O Rui voltou a ler os livros de crónicas de António Lobo Antunes, depois de ter lido, e gostado, dos seus poemas. E por essa razão resolveu criar algum alvoroço na nossa mesa de críticos literários sem jornal, com uma frase daquelas, que não se apresentam todos os dias à mesa de café:

«As pessoas demasiado inteligentes deviam ser proibidas de escrever romances.»

Mas não se ficou por aqui, explicou bem demais a sua tese, baseada nos livros de ficção do bom do António que só se liam com grande esforço e paciência, de trás para a frente e da frente para trás, porque ele "habitava noutra galáxia". Só descia à terra quando tinha de escrever as crónicas semanais, que gostava de desvalorizar, por lhe parecerem coisas demasiado simples e corriqueiras, mesmo sem o serem...

Depois de duas ou três tentativas para desmontar a sua teoria, acabámos quase convencidos, porque o Rui vinha bem preparado para uma possível "guerra literária".

Quando nos levantámos da mesa, percebemos que estávamos quase sem argumentos, graças ao bom exemplo que nos foi apresentado, sobre alguém que se faz entender  mais como cronista e poeta que como romancista, pelo menos para o leitor comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


terça-feira, agosto 25, 2026

«Como é que se contraria a versão humana, do "desde que não me chateiem, está tudo bem"?»


A pergunta fazia todo o sentido e teria uma boa resposta, quase moderna, fazer-se uma "actualização" da tal versão humana, menos egoísta e com mais sentido cívico e colectivo.

Foi o Rui que colocou a questão, por perceber que o seu prédio está prestes a ser "tomado de assalto", por uma empresa que já gere a maior parte dos edifícios da sua rua. Ninguém se quer dar ao trabalho de administrar o condomínio e estão pouco preocupados se o valor da prestação mensal passe a ser o dobro num futuro próximo...

As colectividades que conhecemos também vieram à baila, por serem dirigidas há anos e anos pelas mesmas pessoas, devido ao desinteresse dos seus associados, sobretudo pela forma que elas passaram a ser geridas, onde o interesse particular se passou a sobrepor ao de todos.

A Carla deu a mão à palmatória, por ter tornado a filha mais "responsável", afastando-a dos grupos de jovens que defendem o clima de forma mais radical, ao ponto de já terem dado um banho de tinta verde ao primeiro-ministro.

Sim, todos sabemos que não vamos lá com "paninhos quentes", e o mais curioso, é estarmos sem soluções, mesmo à mesa do café... 

Talvez outro tipo de jornalismo, de políticas e de redes sociais, conseguisse combater esta quase "anestesia geral" por tudo o que cheire a colectivismos (e a chatices...). 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, agosto 21, 2026

«Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo seu primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»


Quem tem mais de cinquenta anos, ainda conheceu o país em que um simples licenciado de qualquer coisa, colava a palavra doutor antes do seu primeiro nome, mesmo que estivesse a falsear os seus cartões de identificação.

A chamada "pobreza franciscana" tinha destas coisas, gente que queria ser "importante à força" e que foi sempre muito bem caracterizada pela sabedoria popular, que gostava de dizer que um doutor, não passava de um "burro carregado de livros"...

Embora a mediocridade nunca se tenha afastado muito dos poderes, foi graças ao Sócrates e ao Relvas e aos seus diplomas domingueiros, que algumas pessoas começaram a ter vergonha de serem do clube dos "doutores da mula russa"...

Apesar de muitas coisas estarem a voltar atrás no tempo, esta é daquelas que dificilmente voltará a ser usada como sobranceria social, porque hoje deve existir um grande equilíbrio entre os jovens que tiram um curso superior e os que ficam pelo caminho.

E isso explica a memória das palavras do bom do Orlando: «Não me gozes, conheci demasiadas pessoas cujo primeiro nome era doutor. Paz às suas alminhas.»

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


quarta-feira, agosto 19, 2026

«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»


As conversas de café sempre se alimentaram muito dos jornais e revistas que se liam, quase em equipa, com comentários frescos e para todos os gostos. Curiosamente, no nosso grupo, mesmo que seja tudo gente com ligações próximas do jornalismo, é raro aparecer alguém com "notícias de papel".  Claro que nos ocupamos da actualidade, mas usando os computadores e os smartphones...

A pandemia quase que nos forçou a abandonar a leitura física e a rendermo-nos ao digital. E já não conseguimos voltar para trás... por muito que gostássemos de folhear e ler  as notícias, do princípio para o fim ou do princípio para o fim...

Tudo isto, porque a Manuela escreveu mais uma crónica feliz na sua revista, sobre os emigrantes. E nós acabámos por falar da forma como usávamos (ou não) a memória.

É de facto muito estranho, que um país de emigrantes receba mal quem chega de fora. Gente que acaba por enfrentar os mesmos problemas vividos por muitos portugueses, há sessenta e até mais anos... A maior parte das pessoas que partiam, iam "a salto" (pelo menos para França, talvez por ficar logo a seguir a Espanha e já existir a "gente" que vivia destas viagens com percursos previamente estabelecidos, mais rurais que citadinos...) sem documentos e sem saberem muito bem o que os esperava. E é bom que se diga, que fugiam mais da vida de miséria que da guerra colonial...

Voltámos à Manela, porque a Rita quis ler uma das suas frases, que mesmo sem ser a mais importante, era a que tinha ficado presa nos seus pensamentos e queria ser tema de conversa: 

«Muitos dos que regressam carregam uma sensação persistente: já não pertencem inteiramente a França, mas também já não pertencem inteiramente a Portugal. Lá são “os portugueses”; cá são “os franceses”. Vivem entre duas línguas, duas memórias, duas formas de estar. E esta condição não desaparece necessariamente com o tempo. Passa para os filhos e, em certos casos, para os netos.»

Ficámos quase sem palavras. Fomos salvos pelo Carlos, que interrogou, muito bem, a gente que passava por nós, sem nos ver, cuja cor e roupagem nos diziam que tinham chegado de fora.

«Somos afinal de onde? Dos lugares para onde vamos ou dos lugares de onde vimos?»

Não sei se foi por ser Agosto, mas desta vez não divergimos, nem mesmo nas vírgulas. Concluímos que que somos dos sítios onde nos recebem bem e onde nos sentimos "em casa", mesmo que estejamos a milhares de quilómetros do lugar onde nascemos e crescemos...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, agosto 18, 2026

Há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...


Não era uma questão de sabermos, ou não, dançar. Era mais de querermos, ou não... Também não ficamos nada preocupados que fossem os UHF a animar o Pontal. As coisas são o que são. Almada também já não é o que era. Percebemos neste Verão que a água que sobra no Tejo pode faltar-nos em casa...

Não somos muitos, mas a nós o "conde do rabal" não nos consegue convencer, muito menos os seus serviçais, que se tornaram autênticas "máquinas de propaganda" e passam a vida a tentar "vender" um país irreal, que nem na cabeça deles existe. 

Andamos por aí, quase perdidos nas ruas, utilizamos transportes públicos, vamos aos centros de saúde, os nossos filhos andam nas secundárias públicas perto das nossas casas, fazemos compras nas mercearias e mercados... Ou seja, sabemos que há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 13, 2026

Ter vontade de esquecer a palavra "original"...


Falámos sobre a "originalidade", essa coisa que tanta gente anda à procura no mundo das artes e letras, quase numa perseguição doentia, mesmo que não se saiba muito bem o que quer dizer.

Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...

Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.

Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...

O que eu fui dizer ao António... 

Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:

«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»

E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.

Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 12, 2026

«Enquanto o mundo se desgranha falas de livros...»


É curioso, que só ouvimos vocábulos, que normalmente não se usam nas conversas do quotidiano, através das pessoas que se acham mais cultas ou de gente pouco instruída, que além de terem facilidade em "inventar" palavras, também têm presentes no seu vocabulário, termos que ouviam na infância aos pais e avós...

Foi o que aconteceu com a palavra "desgranha", que cheira a desgraça e a desarrumação e caracteriza muito bem este mundo que nos rodeia... 

Não menos curioso, foi esta palavra ter sido dita por uma mulher.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa).

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do piso térreo, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 09, 2026

«O que é que te incomoda mais nos domingos?»


Não sabia qual era a melhor forma de dizer, que não havia nada de especial, que me causasse incómodo, nos domingos, tanto de manhã como à tarde.

Depois de deixar a esplanada que tem sombra durante as manhãs, fiquei a pensar na frase, «O que é que te incomoda mais nos domingos?»

Havia muitas coisas que tinham mudado, mas quem queria, e gostava, podia continuar a ir à missa de manhã e ao futebol de tarde, por exemplo.

Foi quando me lembrei de um pequeno pormenor, dos "condutores de fim de semana", que gostam de ensaiar passeios lentos pelas ruas da cidade, para não cansarem muito os motores das suas bombas de garagem ou de capa...

Mas nem eles eram um "incómodo", porque só andava de carro aos domingos, se fosse mesmo necessário...

Mudei logo de pensamento e sorri ao olhar para a leveza das minhas roupas, ao mesmo tempo que fingia não ter no roupeiro um simples "fato de domingo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, agosto 08, 2026

Um café com palavras e telenovelas...


As pessoas que se cruzam comigo e são capazes de dizer mais que bom dia ou boa tarde numa esplanada qualquer, são quase sempre actrizes. Não é nada de muito estranho, se há coisa que a vida ensina as meninas desde cedo é a serem actrizes, em serem "outra pessoa"...

Não fiz muitas perguntas (acho que já nem sei fazer entrevistas...), como de costume. Prefiro que as pessoas digam o que quiserem, desde que se sintam bem na pele que vestem.

Pensei que fazia parte do grupo de teatro amador do bairro, mas não, entrava em telenovelas e tudo. Talvez fosse verdade, mas ver estas "tragédias" portuguesas estava longe de ser o meu passatempo preferido. Ainda por cima ela trabalhava para o canal que menos contribuímos para a "guerra" das audiências, lá por casa.

Foi capaz de dizer que nunca fizera nenhum papel principal, talvez para dar mais autenticidade à sua história. 

Expliquei-lhe que conhecia pouca gente do meio, tirando um ou outro figurante que entravam em algumas cenas, que  passavam por lá, sem que se lhe conhecesse a voz. 

Ela sorriu e disse-me que também começara assim... 

Foi quase uma deixa para eu pagar os dois cafés e fazer-me à vidinha, no palco onde cabemos todos, sem termos direito a aplausos ou patadas.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 03, 2026

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...


Não sei se faziam uma escala diária, mas às sete da manhã havia alguém que saía de casa com o chapéu de sol, duas cadeiras e duas toalhas, para "reservar" uma parte do areal da praia de Armação de Pêra.

Com um sorriso maroto, disse-me que aquela hora estavam longe de ser os primeiros ou segundos a "marcar território".

Tudo aquilo me pareceu estranho, por na minha praia haver espaço suficiente a qualquer hora do dia, para montar um "mini acampamento de índios". O mais curioso, é que para ele, aquela "ocupação" era a coisa mais normal do mundo...

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)