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segunda-feira, setembro 07, 2026

Dores de crescimento e dores de envelhecimento...


Eu sei que são dores diferentes.

Provavelmente as de crescimento parecem ser mais dolorosas. Parecem...

Noto isso com a minha filha, que se prepara para entrar no mundo do trabalho, onde vai descobrir uma outra "selva humana", mais animalesca que nos meus primeiros tempos de operário, por vivermos uma época diferente, em que por vezes até se fica com a sensação de que já vale "tirar olhos" e tudo...

Sei que vai ter de "enrijar" os ossos... e o coração...

As dores de envelhecimento, ainda não me chegaram, pelo menos de uma forma que merecem qualquer desabafo mais sério. Percebo-as no contacto e nas conversas que tenho com a minha Mãe e com o meu amigo Chico. Sei que são dores diferentes, porque são de todas as horas, doer isto ou aquilo, é quase como respirar...

Aqui não há "analgésico" possível, ou "morfina" que resulte, para lá das viagens que poderá proporcionar, dependendo apenas da respectiva dose...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, agosto 29, 2026

Quando capitalista rima com vigarista...


Embora estivesse longe de ser uma exclusividade nossa, era impossível negar que capitalista rimava vezes de mais com vigarista, mesmo que fossem palavras demasiado compridas para caber em qualquer poema-canção, mesmo de intervenção.

Mas a realidade é o que é.

Há mais de cem anos já havia quem pensasse dessa maneira, mesmo que usasse palavras diferentes. Era um tempo em que não se usavam muito as palavras acabadas em "ismo", desde comunismo, passando por capitalismo e acabando em fascismo...

Voltando à actualidade, naquele caso particular tratava-se apenas de um negócio, em que alguém, por avançar com a totalidade do dinheiro, queria ficar com 90% das acções e dos lucros da empresa, mesmo que para isso não precisasse de "mexer uma palha" em relação ao negócio...

Como o protagonista da história estava longe de ser alguém desesperado ou sem trabalho, pôde dizer ao fulano com alma de "agiota", para escolher outro "otário".

Claro que sabíamos que não havia nada a fazer. Este é um exemplo, simples e cru de um adepto do capitalismo selvagem, que tenta sempre usar, explorar, enganar, e até escravizar o outro, para maximizar o seu lucro...

(Fotografia de Luís Eme - Costa de Caparica)


quinta-feira, agosto 27, 2026

Um "mundo perfeito", com pessoas constantemente em saldo (e patos, claro)...


Uma das coisas mais curiosas do mercado de trabalho actual, é estarmos a viver um dos períodos em que existe mais emprego e também a época em que se pagam ordenados mais baixos aos trabalhadores.

Esta prática, além de contrariar toda a lógica social, consegue virar de "pernas para o ar" a relação normal que devia existir entre a oferta e a procura. 

Mas os absurdos não se ficam por aí. Basta ler os jornais para se saber que tanto os patrões (CIP) como o Governo (através da ministra do Trabalho), continuam apostados, não só  em criar uma nova Lei Laboral, como também em alterar as regras da Segurança Social...

Para esta gente um "mundo perfeito", é povoado com pessoas curvadas e constantemente em saldo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, julho 13, 2026

um incidente bem explicativo sobre o comportamento de algumas minorias...


O meu barbeiro dos últimos vinte e muitos anos, finalmente arrumou o "pente e a tesoura", já com oitenta e alguns anos.

Fiquei sem saber a que porta ir bater, enquanto o meu cabelo continuava a crescer. Durante o almoço o meu amigo Chico disse-me que passara a ir a uns paquistaneses dos famosos "cinco euros" e que estava satisfeito, quase na nossa rua. Pouco convencido, resolvi passar por lá. Um dos rapazes percebeu a minha indecisão e convidou-me a entrar e dizendo que estava quase a acabar...

Sentei-me sem suspeitar da "cena" que iria assistir nos minutos seguintes. Um dos dois clientes começou a queixar-se que o bigode estava torto, partindo pouco depois para o insulto ao jovem barbeiro. Pelo jeito de falar percebi que era de étnia cigana. E nunca mais parou de insultar o rapaz que lhe cortara o cabelo e aparara o bigode, ao mesmo tempo que acusava o outro, que era quem lhe cortava o cabelo normalmente, e como tal "era o culpado de tudo".

Quando se levantou disse, alto e a bom som, que não pagava e saiu pela porta fora. Os dois jovens ficaram parados a olhar um para o outro, desabafando na sua língua.

Antes, no meio daquela discussão, apeteceu-me levantar e sair pela porta fora, sem dizer "água vai, água vem", duas ou três vezes. Mas ainda bem que não o fiz, pois acabei por ficar satisfeito com o corte de cabelo e com a simpatia e simplicidade dos dois rapazes. E também foi o corte mais barato dos últimos trinta anos...

Depois de sair fiquei a pensar na diferença de comportamentos destas duas minorias, tantas vezes metidas no mesmo saco, pelo partido do costume, quando têm comportamentos tão diferentes. 

E talvez seja por estas e por outras que a gente do Oriente está a dar, cada vez mais, o salto para o "nosso país vizinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa, homenagem ao António, o "Rei dos Barbeiros" e da "Música Moderna")


domingo, julho 05, 2026

As boas das esplanadas, as conversas e o uso e abuso do "clube dos amigos disney" na televisão...


O calor não dá tréguas, nem mesmo nas esplanadas lisboetas. Ou seja, as horas do café neste Verão são menos conversadas que noutros tempos.

Espero que as línguas não enferrujem e não se perca este bom hábito tertuliano, de se "dizer mal de toda a gente", cara a cara, com sorrisos, caretas e rostos fechados, ou seja, com emoções para todos os gostos.

Recordo que a última conversa com alguma polémica e desacordo que tivemos foi sobre a televisão e o velho hábito de se convidarem os amigos para tudo e mais alguma coisa.

Todos nós sabíamos que é necessária alguma cumplicidade - e até amizade - para que as coisas corram bem em qualquer projecto. Quando conhecemos alguém que já trabalhou connosco, e é bom nessa área, o normal é falarmos com ele e não com um desconhecido...

Claro que a televisão abusa do amiguismo. Houve mesmo quem desse exemplos do que se passa na escolha de actores para as telenovelas. Há exageros claros e gente que quase que é "banida", por pequenas coisas que acontecem (às vezes apenas por deixarem de namorar alguém influente...).

Todos sabemos que há outras formas mais saudáveis de trabalhar, só que  muitas vezes, os amigos são  as únicas pessoas que acreditam e estão disponíveis para colaborar nos nossos projectos (é normal não estarem excessivamente preocupados com o dinheiro que irão ganhar...).

Espero que no máximo, Setembro nos traga os sorrisos e as línguas afiadas de volta... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 20, 2026

Festa operária em Lisboa na sexta-feira...


Tinha de ser alguém de fora, a dizer que exagerávamos, cada vez mais, na nossa forma de sermos "porreiros" para com os políticos. Disse inclusive que depois do que Hugo Soares e André Ventura tinham dito na quinta-feira e depois do que aconteceu na sexta (chumbo da Reforma Laboral), não havia mais espaço para eles na "câmara dos comuns".

Claro que o Peter - que adora que lhe chamemos Pedro  - estava a exagerar, embora o parlamentarismo do seu país nos oferecesse vários exemplos, de que nós éramos de facto demasiado permissivos.

Se estivermos virados para o humor, somos capazes de achar engraçada a reacção de ambos, no dia em que a proposta de Reforma Laboral foi votada e deitada para o lixo em São Bento. Ventura cantou vitória e até foi capaz de se virar para as bancadas onde estavam os representantes da CGTP e erguer o punho fechado como se fosse o grande defensor da classe operária.

Já o líder parlamentar do PSD, depois de levar mais um "bailinho populista" do Ventura, foi capaz de dizer, com um ar sério, que "com o PSD ninguém brinca"... E depois ainda teve coragem (ou cobardia, depende do ponto de vista...) para tentar colar o PS ao Chega e falar de uma "coligação"...

Tudo isto é realmente triste e mau de mais para ser verdade. 

É por isso, que a única coisa que interessa mesmo, é que esta Reforma Laboral, feita à medida dos patrões, foi chumbada. Ponto final.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 09, 2026

Um homem especial que gosta de livros, papeis, e sobretudo, de liberdade...


Hoje estive no Barreiro, onde assisti na Casa da Cidadania Cabós Gonçalves ao colóquio, "Comer em tempos difíceis", moderado por José Pacheco Pereira.

Os testemunhos do padre-operário, Luís Martins Ferreira, das trabalhadoras da indústria conserveira, Maria Poupinha e Alice Silva e do pescador, Rogério Correia, foram extremamente enriquecedores, de vários tempos, que tinham em comum as grandes dificuldades de se subsistir.

Mas o eu quero relevar é a singularidade do historiador José Pacheco Pereira, que conseguiu fazer da "Ephemera" e dos seus arquivos, o principal centro de história sobre as pessoas e também os objectos comuns, no nosso país.

E que bom que é existirem as antigas instalações fabris da CUF, que se transformaram em arquivos de todo o género de materiais. Todas as pessoas que gostam de guardar coisas, que parecem não ser importantes (para as suas famílias...), têm agora um lugar onde as depositar, distante dos caixotes do lixo...

Como a gratidão não é o nosso forte, nunca iremos agradecer a este homem especial, por tudo que ele tem feito pela nossa história, cultura, literatura e liberdade.

Mas eu estou-lhe muito grato, por entre outras coisas, também gostar de livros, papeis e de liberdade...

(Fotografia de Luís Eme - Barreiro)


sábado, maio 09, 2026

«Nem mas, nem meio mas. Sempre aceitámos estas regras»


Eu sabia que era assim. Mas também sabia que estamos sempre a tempo de mudar, mesmo que este tempo nos dê menos tempo para mudar o que quer que seja.

Foi por isso que ele insistiu na "mesma tecla": «Nem mas, nem meio mas. Sempre aceitámos estas regras.»

Embora existisse alguma crueldade e frieza nas suas palavras, elas eram verdadeiras. A meritocracia sempre foi uma treta. E não houve revolução que conseguisse mudar isso...

A nossa vida foi vermos pessoas a passarem-nos pela esquerda e pela direita, não pela sua competência, mas sim por outros predicados. Os "olhos bonitos" também fizeram algumas misérias, mas houve sempre um outro lado, quase oculto, que tanto podia vir da parte da mãe, do pai, do avô ou do tio, que arrumava quase todas questões.

E isso acontecia quando ainda podíamos mandar um chefe de merda para qualquer sítio desagradável, seguros pelos "trabalhos para toda a vida"...

Fiquei a pensar, que apesar dos nossos cabelos cinzentos e das rugas que se instalaram à volta dos olhos, parece que estamos a ver melhor agora. 

Parece... Os nossos filhos vivem os mesmos tempos que vivemos (ainda que sejam ligeiramente piores...), em que tínhamos a mania de que éramos felizes...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, abril 27, 2026

O trabalho ainda com Abril no horizonte...


Ainda com Abril no horizonte, é bom não ficar em silêncio com a tentativa de alterar as regras do mundo do trabalho.

Os argumentos dos governantes e dos partidos de direita, não enganam ninguém. Tanto uns como outros,  não fazem mais que defender os interesses do patronato, numas nova Lei Laboral, que apenas têm como objectivo facilitar a tarefa de quem manda e lucra com o trabalho dos outros.

A memória existe para alguma coisa. E ela é a primeira a dizer-nos que os donos de qualquer empresa, nunca tiveram qualquer problema em fugir das suas responsabilidades, quando estão em equação direitos dos trabalhadores ou até pagamentos ao Estado.

Daqui a meia-dúzia de anos, estamos cá para ver, as mudanças que esta lei fez no País... 

Era bom que a produção subisse como prometem, tal como os ordenados dos "colaboradores", mas, infelizmente, o capitalismo é o que é (e o português ainda consegue ser mais miserabílista, em tudo)...

(Fotografia de Luís Eme - Barreiro)


quinta-feira, abril 16, 2026

O regresso de um mundo a "preto e branco"...


Por se tratar de um processo lento,  nem toda a gente se apercebe de que estamos a voltar atrás no tempo.

Mas basta olhar com olhos de ver, para o se tem feito com o SNS e com a educação pública, com a não contratação dos profissionais necessários para que as coisas funcionem com alguma normalidade... ao mesmo tempo que crescem ao lado hospitais e as escolas privadas...

Mesmo esta lei laboral, que anda de reunião em reunião, até que seja aprovada,  aposta num corte significativo nos direitos dos trabalhadores, que já passaram a colaboradores há algum tempo, e cuja precariedade vai passar a ser entendida como "liberdade de acção e de mudança"...

Mas nem era disto que queria falar. Era sim do sentimento de um amigo antigo, que mesmo sem nunca ter sido comunista, nem antes nem depois de Abril, voltou a ver os outros a quererem colar-lhe este rótulo, apenas por se continuar a sentir humanista e gostar de ser livre.

A coisa mais curiosa que ele me disse ontem, foi que não é por lhe voltarem a chamar "comunista", que vai passar a chamar aos bandidos, tiranos e assassinos, que estão à frente da Rússia, do Israel, do Irão ou dos Estados Unidos, fascistas...

Claro que é no mínimo triste e desolador, voltarmos a ver tanta gente com vontade de roubar as cores ao mundo e querer que ele volte a ser apenas a "preto e branco"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, abril 09, 2026

A perda do sentido de comunidade e a precariedade reinante...


A sociedade está organizada de uma forma que valoriza cada vez menos o sentido comunitário, a importância do outro, seja na escola, no bairro ou no trabalho.

Penso que isso tem muito a ver com o sistema político e económico que "comanda", cada vez mais, as nossas vidas. 

O capitalismo tem conseguido "capturar", de uma forma inteligente, muitos dos valores que lhes podiam fazer frente, sobretudo os colectivos. É também por isso que tem conseguido "secar" instituições como os sindicatos, que normalmente funcionam como um obstáculo aos seus objectivos, já que a sua função primordial deve ser a defesa os interesses dos trabalhadores.

Isto deve-se muito à precariedade do trabalho. Estares a prazo em qualquer lugar faz com que a tua adesão a qualquer tipo de protesto, por muito justo que seja, possa conduzir ao teu despedimento. 

É esta mesma precariedade que faz com que as pessoas sejam educadas e vivam neste sistema que alimenta o "cada um por si", fazendo com que se acredite cada vez menos na importância dos valores colectivos. Quem entra no mercado de trabalho, rapidamente percebe que a maior parte das pessoas que estão à sua volta, estão mais preocupados com o seu umbigo e a sua vidinha, que em ser solidário ou combater o sistema injusto que está instituído...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 03, 2026

Fingimos quase todos, que isto é normal...


É verdade, praticamente desde que chegámos ao século vinte e um, que deixou de haver um rumo, do que quer que seja, tanto no nosso país, como no Mundo, começando na Europa e acabando nas Américas.

Quase nunca pensamos nisso. São as conversas mais profundas, mais doridas, que nos fazem pensar de como era a vida no final do século passado e como é agora. 

E nem sequer estou a pensar nas guerras...

Estou a pensar nas mudanças que se deram dentro e fora de nós. Passo a passo, os governantes em quem votamos, vão-nos roubando qualidade de vida, fazendo da "mentira uma nação".

Depois de um século de conquistas, de ganhos em dignidade e valor do trabalho, eis que a exploração capitalista volta a surgir como uma inevitabilidade, como se tivéssemos quase todos de ser explorados porque há um fulano que gosta de ter na sua garagem uma colecção de ferraris, outro sonha viajar até à Lua, e por aí em diante. 

Para tornar tudo mais legal, há uma lei laboral (que acabará por ser aprovada, com mais ou menos pontos...), que promete numerar, cada vez mais  os "colaboradores" e tratando-os quase como se estivessem no final do século XIX, princípios do século XX, em que se ia diariamente para a entrada das fábricas, ver se havia algum trabalho para nós...

O mais curioso, é que fingimos quase todos, que isto é normal...

(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)


quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Sim, fala-se menos e escreve-se mais (coisas curtas e grossas)...


Falámos sobre falarmos menos uns com os outros, em todo o lado, em casa, no trabalho, nas ruas.

Reparámos que até nós falamos menos uns com os outros. Desculpámo-nos com o Inverno que este ano decidiu ser um Inverno a sério, com todo o tipo de tropelias. Até obrigou a recolher as duas ou três esplanadas que fazem parte dos nossos roteiros... Bebemos café ao balcão porque detestamos o interior dos cafés e pastelarias com temperaturas de Verão e ofertas simpáticas de vírus de gripes de várias cores.

O Carlos continua a ser o nosso "farol". Só ele mesmo para dizer que: «Fala-se menos para escreve-se mais. Daquelas coisas curtas e grossas que cabem dentro dos telemóveis, que tanto nos podem "derreter" como deixar furibundos.»

É verdade. Mas também se fala menos, porque nos fartámos dos "estranhos" que estão sempre a querer contactar connosco. Pobres diabos, vivem disso, do negócio de "impingir" coisas, seja via telefone seja na rua ou à porta de casa. Palavras sábias da Carla.

O Rui deu mais ainda uma achega a esses tocadores de campainhas, «tu não abres a porta da rua, mas há sempre um estúpido, normalmente do segundo esquerdo, que abre o trinco.»

Sorrimos, sem ir à procura da lógica do segundo esquerdo. Felizmente nenhum de nós mora numa fracção com esse número, para chamar o Rui de mentiroso.

Sabe bem falar com  leveza, neste dias pesados...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, dezembro 15, 2025

As "percepções" e o uso e abuso da ignorância como armas políticas


Penso que nunca existiram governos tão mentirosos como estes dois últimos, chefiados por Montenegro. 

Desde os seus primeiros tempos que a AD governa segundo as percepções que mais lhe dão jeito, par reforçar a sua presença no Parlamento e ter cada vez mais poder governamental. É por isso que vai criando narrativas, que mesmo que não encaixem na realidade, deixam muitos portugueses na dúvida.

Apesar do caos que se vive na saúde (recordes de urgências fechadas e de tempos de espera, nas mesmas urgências; cada vez mais utentes sem médico de família, etc), Montenegro tem a lata de dizer a todos nós que as "coisas estão melhor" nos hospitais...

O mesmo se passa em relação aos imigrantes, em que tem aproveitado a "boleia" do Chega, para criar a percepção que as pessoas que chegam de fora, com tonalidades de cor diferentes das nossas, são uns bandidos, quando todos sabemos que a sua maioria trabalha e contribui para o equilíbrio da nossa Segurança Social. Mais uma vez, a realidade é um bastante diferente. Afinal parece que os verdadeiros bandidos são os portugueses que além de os tratarem como escravos, oferecem-lhes condições de habitabilidade indignas para qualquer ser humano.

Se ainda existe alguém com dúvidas desta prática política, a reação do primeiro-ministro e do "ministro da propaganda" em relação à Greve Geral, diz tudo sobre a forma como o governo olha para a realidade. Leitão Amaro foi mesmo capaz de falar de uma adesão entre os 0 e os 10%. Tentaram desvalorizar este movimento grevista, dizendo que só teve algum significado no sector público, que o resto da país não parou, esteve sempre a trabalhar...

Haverá centenas de exemplos pelo país fora que desmentem o governo. Mas basta falarmos da fábrica que é usada como o nosso grande "sucesso empresarial no mundo", a Auto-Europa. Apesar de praticamente ter parado a sua produção, foi ignorada tanto pelos ministros como por alguma comunicação social...

Infelizmente, as coisas têm tendência para piorar, pois a aposta continua a ser o uso e o abuso da ignorância das pessoas (à boa maneira salazarista), puxando-as cada vez mais para o que dizem as redes sociais e menos para o que se edita no verdadeiro jornalismo.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, dezembro 12, 2025

"O congresso de migalhas" do primeiro-ministro


Não posso deixar de citar o grande Alexandre O' Neill, que num dos seus textos (De um "Congresso de Migalhas") do seu livro, "Tempo de Fantasmas", podia muito bem estar a referir-se ao espertalhaço do nosso primeiro-ministro.

«Ao grande torneio mandibular que os nossos antepassados introduziram no seu sistema de sobrevivência, com o correr sempre indiferente dos anos, sucedeu este pequeno jogo de migalhas, migalhas de tudo, que ficará como a forma típica do convívio neste tempo.»

A lei laboral, é isso mesmo, um jogo, ainda com mais migalhas, para serem distribuídas para os mesmos de sempre.

É por isso que o "conde de monteverde" é capaz de dizer, sem se rir, que a greve foi pouco geral, de mão dada com o seu querido Amaro, que já se percebeu há muito, que é "pau para toda a obra".

Isso só quer dizer, que não podemos baixar os braços, muito menos aceitar que o nosso patronato, que sempre se esteve borrifando para o crescimento do país (gostam é de ter "bolsos cheios"...), tenha a vida ainda mais facilitada para explorar os seus "colaboradores".

Sim, há coisas que nunca mudam. Uma delas é a filosofia dos "patrões" portugueses.

 (Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)


sexta-feira, novembro 28, 2025

«Tiraram o lugar a quem? Você vai fazer o que eles fazem, por esses campos fora?»


Sei que estou melhor, mas estou longe de estar curado.

Ainda falo muitas vezes em situações, em que o o bom senso aconselhava o silêncio.

Tudo isto que aconteceu no Alentejo e que reflecte uma realidade que não é apenas do Sul, mas que nos devia envergonhar, a todos, fez-me recordar um episódio. 

Realidade que é quase sempre conhecida e aceite pelos habitantes locais, por razões que continuo sem entender. A única coisa que sei, é que são estas mesmas razões que levaram as pessoas a fazer uma viragem de quase 360 graus, passando a votantes do Chega, depois de andarem  décadas a votar na CDU, por essas planícies fora.

Sei que os seus níveis de instrução são baixos, mas daí a não conseguirem perceber a realidade que lhe entra pelos olhos dentro, é outra coisa... 

Compreendo que não olhem para os sujeitos que trespassaram o café e o mini-mercado, como as melhores pessoas do mundo, até por estarem ali para ganhar dinheiro à custa deles. 

Mas o problema nem é esse, nunca foi. 

É aquela cor de pele, aquele olhar escuro e em desconfiança permanente, que não lhe garante nada de bom. E depois vêm as palavras de ordem que lhes entram pela cabeça dentro, sempre que o "rei dos aldrabões" aparece na televisão. Palavras que ainda os fazem acreditar mais, que aqueles estranhos só vieram para cá para lhes "roubar trabalho".

Foi num destes cafés, perdidos por esse interior fora, quase sem gente, que escutei esta frase sacramental enquanto bebia uma mini na companhia de dois familiares afastados, à passagem pela rua de três "indianos".

Não consegui falar calado e perguntei-lhes, sem qualquer rodeio: «Tiraram o lugar a quem? Você vai fazer o que eles fazem, por esses campos fora?» Olharam um para o outro e não me responderam. 

Só uns dois minutos depois e que um deles disse qualquer coisa como: «Também não é bem assim...»

Nada era bem assim, mesmo que eles fingissem não perceber.

Não disse mais nada mas fiquei a pensar, que a trabalharem desta forma e ser recebidos desta maneira, de Norte a Sul, talvez a melhor coisa que esta gente fizesse, fosse mesmo "ir para a (tal) terra deles"...

(Fotografia de Luís Eme - Beira  Baixa)


quinta-feira, novembro 27, 2025

Um PSD apostado em desregular, desiquilibrar e destruir o País...


A escolha das ministras da Saúde e do Trabalho, foram feitas com um propósito cada vez mais claro, ao ponto de parecerem desenhadas a régua e esquadro.

E pode-se dizer que têm tido sucesso nos seus propósitos.

O SNS é o que se vê, por mais "areia que nos tentem atirar para os olhos", está tudo pior nos hospitais e centros de saúde públicos. Algo que deve agradar - e de que maneira - a todos os grupos privados, que têm construído hospitais e clinicas nas principais cidades do país, com um sentido de oportunidade único. 

O trabalho começa a ser cada vez mais sinónimo de precariedade e salários baixos. E com a nova proposta de lei deste Governo, que segundo a ministra apenas tenta "equilibrar a balança" (segundo ela a lei actual favorece os trabalhadores...), as coisas só podem piorar. 

Só alguém que está ao lado do patronato, é que é capaz de dizer uma coisa dessas.

É uma vergonha para todos nós termos um governo que se diz democrático, mas que se percebe à légua, que está cada vez mais apostado em desregular, desiquilibrar e destruir o país, tanto no campo económico como social.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, novembro 12, 2025

O tempo vai passando, mas é impossível fechar os olhos a um primeiro-ministro manhoso e a duas ministras vingativas...


Provavelmente devem existir alguns ministros competentes no governo do "conde de monteverde". Não serão com toda a certeza as ministras da Saúde e do Trabalho, cujas primeiras acções políticas que tiveram foi criarem condições para as demissões de Fernando Araújo e Ana Jorge.

Normalmente a sabedoria popular não se engana, e o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita...

Isso explica o estado da nossa Saúde e a contestação que está a merecer a proposta da nova "lei do Trabalho".

Também não deixa de ser curiosa a reacção do "conde de monteverde", que continua a assobiar para o ar em relação à empresa que continua a ter dentro de casa, mas que não teve qualquer dúvida a apontar o dedo aos malvados comunistas, que ainda mandam na CGTP e querem "parar" o país, por causa de uma lei, que só quer facilitar as relações laborais.

E tem razão. Se se tornar mais fácil despedir trabalhadores, isso facilita, e de que maneira, as relações laborais. Então para os patrões...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, novembro 01, 2025

Sim, podíamos falar de coisas mais interessantes, que essa coisa a que chamamos trabalho, mas...


Eu sei... Num feriado devia ser proibido falar de trabalho.

Mas não é da actividade em si, que vou falar, é mais da sua definição. Até porque nunca tinha pensado que "era tantas coisas".... e não apenas aquilo que fazemos como actividade profissional e remunerada.

Viajámos por muitos lados, até chegámos aquele senhor que  alguém quer que venha em dose tripla, graças à FNAT (que a liberdade transformou em INATEL...).

A conversa tornou-se ainda mais confusa, quando muitos de nós ganham (ou ganharam...) dinheiro a conversar, Sim, o jornalismo também é "conversar", dentro e fora das entrevistas. Para sabermos coisas temos de andar por aí a fazer perguntas.

Andámos por muitos mais sítios, por todas aquelas profissões que não oferecem felicidade a ninguém, Com alguma naturalidade também entrámos no mundo do funcionalismo público, onde quase que se fazem concursos, para ver quem consegue chegar ao fim do dia sem "mexer uma palha".

Depois entrámos na rua dos voluntários, onde ainda ficámos mais baralhados. Sim, hoje há muito voluntariado remunerado, porque algumas ocupações se foram tornando profissões (os bombeiros, por exemplo). Como devem imaginar, a confusão tornou-se ainda maior.

Como de costume, em vez de querermos chegar a alguma conclusão, preferimos derrubar um ou outro mito, como a expressão popular de que "trabalhar por gosto não cansa".

Sim, a maior parte de nós, por termos trabalhos, de alguma forma criativos, sempre fizemos coisas de que gostávamos. E não foi por isso que chegávamos o fim do dia menos cansados que os "infelizes" com quem nos cruzávamos diariamente nos transportes públicos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, setembro 13, 2025

As artes e as letras como "ganha-pão" (ou não)


Eu sei que, de certa maneira, sou um purista (para outros costumo ser coisas piores...), por não conseguir olhar para o mundo das artes e letras como uma profissão igual às outras.

Claro que sei que quem escreve, quem pinta, quem canta, quem faz teatro, tem de viver como as outras pessoas, ou seja, tem de ganhar dinheiro com as suas actividades criativas. E também sei que se quiser ser alguém, acima da média, não pode continuar a ser artista apenas ao final do dia ou aos fins de semana.

O curioso é que estas discussões normalmente não nos levam apenas a um lado, são demasiado complexas para se ter um olhar simples. Não deixou de ser curiosa a expressão do Jorge, de que apenas alguma boa fotografia e algum bom cinema, são a preto e branco. E mesmo esses nunca dispensam os cinzentos...

Todos conhecemos pessoas que pintavam apenas para vender. E quando o mercado encolheu, muitos arrumaram os pincéis e as tintas  e começaram a fazer outras coisas, que lhe pudessem ajudar a pagar a renda. O Gonçalo atreveu-se a dizer que os pintores eram pessoas diferentes, para levar logo de seguida com o exemplo do Manuel Ribeiro Pavia, que morreu à mingua. E logo ele que se fartou de trabalhar, de fazer capas de livros e ilustrações para escritores, uns amigos outros apenas conhecidos, sem ter tabela de preços. Como a maioria só se lembrava do Manel Pavia quando precisava, ele foi embora quase sem que se desse por isso...

E depois houve alguém que trouxe o futebol para a mesa. E lá se começou mais uma discussão daquelas, porque para uns este desporto era uma arte e para outros apenas um jogo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)