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domingo, outubro 18, 2026

A frieza das palavras está quase sempre mais perto da realidade que o calor (ou a vida como ela é)...


Sim, é verdade. A frieza das palavras está quase sempre mais perto da realidade que o calor, por muito que nos possa perturbar e irritar.

Voltaram a falar-me do "Largo", para me dizerem que o título do meu último texto aqui publicado era um exagero.

Preferia que comentassem o texto e eu dava a resposta no local certo. Mas há gente que continua a ser avessa a dizer o que pensa na "caixa" (alguns ficaram traumatizados com o "facebook" e outros preferem a "conversa directa"...).

Foi por isso que voltei a dar uma olhadela ao texto e ao título. Num primeiro olhar, pareceu-me rude e insensível. Num segundo, senti que as coisas são mesmo assim. Quando se esquecemos de usar "paninhos quentes" no meio das palavras, tudo soa mais a desumano, mas é apenas a vida como ela é...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 14, 2026

A cantiga é sempre a mesma: "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"...


Ao ouvirmos os outros, olhamo-nos ao espelho mais vezes do que pensamos, mesmo que nem sempre estejamos muito atentos ao que se passa tanto a sul como a norte.

Sei que quem têm mais de cinquenta anos, viaja mais pela memória... e até é capaz de se habituar a dizer que, "no meu tempo é que era bom", porque só gosta de se lembrar das coisas boas que lhe foram acontecendo ao longo da vidinha (pois é, é muito melhor)...

É nestes momentos que reparo que não sou muito saudosista. Acho mesmo que nunca disse algo do género, por saber que o passado só existe dentro das nossas cabeças.

Foi quando me lembrei do Fausto, um trovador com muito mais de dois metros de talento, que nos disse a cantar esta grande evidência, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, agosto 09, 2026

«O que é que te incomoda mais nos domingos?»


Não sabia qual era a melhor forma de dizer, que não havia nada de especial, que me causasse incómodo, nos domingos, tanto de manhã como à tarde.

Depois de deixar a esplanada que tem sombra durante as manhãs, fiquei a pensar na frase, «O que é que te incomoda mais nos domingos?»

Havia muitas coisas que tinham mudado, mas quem queria, e gostava, podia continuar a ir à missa de manhã e ao futebol de tarde, por exemplo.

Foi quando me lembrei de um pequeno pormenor, dos "condutores de fim de semana", que gostam de ensaiar passeios lentos pelas ruas da cidade, para não cansarem muito os motores das suas bombas de garagem ou de capa...

Mas nem eles eram um "incómodo", porque só andava de carro aos domingos, se fosse mesmo necessário...

Mudei logo de pensamento e sorri ao olhar para a leveza das minhas roupas, ao mesmo tempo que fingia não ter no roupeiro um simples "fato de domingo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, julho 01, 2026

Bom é continuar a seguir a estrada que finge que nos afastar dos problemas...


Pois é... nestas coisa do ambiente, por muito que se tente inventar, não há melhores previsões.

Todos estamos a sentir que o desiquilíbrio é maior do que o que se esperava, ao ponto de começar a silenciar os negacionistas, que usavam mentiras de "perna curta", para se enganarem a eles próprios. 

E o sobe e desce não vai parar. O trágico que acontecia quando "o rei fazia anos", quer passar a ser "o nosso normal".

Não vai ser preciso fazer mais leis, para que não se façam "casas de papel" ou "palácios rente à praia", a natureza resolverá o problema de uma penada.

O curioso, é que para muto boa gente, a solução não está em "acordarmos de vez" para o problema, em mudarmos de atitude, em perdermos o hábito de assobiar para o ar e afagar o nosso umbigo.

Bom bom, era alguém inventar um chapéu com "ar condicionado" para cada um de nós, nestes dias em que os termómetros se querem chamar "cristianos ronaldos" e bater recordes...

E, claro, continuarmos a seguir a estrada com setas e placas, que finge que nos afasta dos problemas (no nosso país temos várias, com mais ou menos buracos...).

(Fotografia de Luís Eme - São Martinho do Porto)


terça-feira, maio 19, 2026

As coisas que pensamos, enquanto o mundo vai passando por nós...


Uma das coisas que os anos fazem, ao passar por nós, é conseguirem com que acreditemos cada vez menos, na espécie humana.

A vida dá-nos demasiado "calo", assim como algumas "bofetadas" sem mãos, que nos vão "acordando para a vida" (tal como ela é e não como devia ser...).

Um dia cansamo-nos de fingir que não percebemos que nos estão a tentar enganar. Outro dia desistimos de ser nós a fechar a porta. Quando damos por ela, descobrimos que estamos cansados de tentar ser "boas pessoas" (o que quer que isso seja, que para muitas pessoas é ser-se parvo...).

Podemos pensar nestas coisas todas a ler um livro... Mas também, sentados num banco, a ver o mundo a passar por nós...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, abril 04, 2026

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»


Embora ainda estivesse a alguma distância dos oitentas, sabia que era uma idade complicada. Além das doenças que apareciam, quase do nada, havia também algumas coisas que começavam a funcionar mal, outras deixavam mesmo de funcionar...

Tinha à minha volta pessoas que me lembravam desta perda de faculdades, desde a minha mãe ao Chico. Mas as queixas deles eram mais físicas que intelectuais (e ainda bem...).

Sento-me menos vezes na esplanada do café da minha praça, porque raramente encontro alguém conhecido, com quem possa trocar algumas palavras. Desta vez apeteceu-me ficar um pouco por ali, à sombra, a beber café a ver quem passa.

Foi quando um senhor com quem não falava há uns dois, três anos (ou mais que agora o tempo também começa a passar a correr por mim...), me perguntou se se podia sentar. Claro que podia, e devia.

Com o tempo fui percebendo que tinha muitas falas guardadas, por não ter pessoas que gostassem de livros por perto. Foi por isso que foi falando mais do que eu. Até me contou que às vezes tinha saudades de escrever um poema, mas as palavras já não lhe saiam da cabeça, há muito tempo. Mas disse isto sem qualquer mágoa.

Depois disse-me que tinha uma coisa boa para me contar, acrescentando: «Boa para mim, claro.»

E depois contou-me que a leitura deixara de lhe dar o prazer de outros tempos. E estava reticente em voltar aos "autores da sua vida" por um "medo" que nem é assim tão estranho no seio dos leitores.

Mas encheu-se coragem e lá voltou a ler um dos vários livros de Camilo Castelo Branco que nunca lera. Sentiu-se muito reconfortado, por encontrar o Camilo de sempre. Sorriu quando me disse:

«Tinha medo de já não conseguir gostar de ler os livros dos meus escritores...»

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa) 


quarta-feira, março 18, 2026

Quando não se tinha tempo para esperar pela inspiração...


Talvez os velhos escritores de livros policiais, escrevessem sempre a mesma história, mudando apenas os nomes das personagens, a arma do crime e a localização. Talvez...

Isso era pouco importante para o leitor dos "livros pretos", que já gostava de telenovelas mesmo antes delas existirem.

As pequenas variações feitas através das personagens obedeciam sempre a um plano, que alterava sobretudo os hábitos dos criminosos, na escolha da vitima e na forma de lhe roubar a vida. Fazia também sentido fingir-se que se mudava de cidade.

O resto eram coisas banais, como as cores, dos olhos, do cabelo, do baton, da gabardine ou ainda, a oferta de mais uns centímetros de altura ao protagonista. Também se podia e devia alterar a marca e o modelo do carro.

O resto era igual. Continuava a fumar-se muito e a beber-se mais ainda, quase sempre bourbon, na companhia de mulheres fatais com preço.

O velho Dinis uma vez disse-me que eram tempos complicados, nunca se tinha tempo para ficar à espera da inspiração em qualquer esquina.

Sei que os leitores antigos divertiam-se bastante com estas histórias e tinham quase sempre uma lista longa de escritores preferidos. 

Ainda bem que eram menos esquisitos que os do nosso tempo...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

A sensação de ter perdido algumas palavras pelo caminho...


Quando escrevo tenho a sensação de que o meu vocabulário está a ficar mais incompleto, que há uma ou outra palavra que ficou perdida no caminho...

Recorro mais ao dicionário (devia dizer aos...) e ao "senhor google", que por muito que disfarcemos, é um grande "inteligente artificial".

Talvez exista um limite de idade para escrever...

É quando me aparece o exemplo do nosso Nobel, que publicou o "Memorial do Convento" aos sessenta anos e foi galardoado com o prémio sueco com setenta e seis anos de idade...

Depois do "Memorial" foi escrevendo obras como "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), "A Jangada de Pedra" (1987) ou o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991), que tanta polémica deu, ao ponto de ele se exilar de forma voluntária em Lanzarote...

O mais provável, é esquecermos umas palavras e encantarmo-nos com outras...

Também sei que o ritmo da escrita diminui, com a mesma naturalidade que nos aparecem os primeiros cabelos cinzentos ou as dores que se vão tornando crónicas...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


sexta-feira, dezembro 05, 2025

Este é "mundo" que está à espera de muitos de nós, depois da esquina...


Há sempre questões polémicas e estranhas para escrever, aqui no "Largo". Tinha prometido a mim mesmo não falar de política e de políticos, durante alguns dias, mas é quase impossível passar ao lado de alguns dramas, cada vez mais assustadores. 

Um dos problemas que se está a tornar cada vez mais visível é o quase desprezo com que se tratam as pessoas de mais idade. Ao ponto de já existir gente com mais de setenta anos, a dormir nas ruas. Muitos delas não conseguem suportar o aumento das rendas e sem filhos para as ajudarem, são forçadas a mudar de vida, entrando no "mundo dos indigentes"...

Quase em paralelo, existe outro problema, não menos grave, que atinge estas mesmas pessoas (e os seus familiares directos).

Estou a falar da falta de lares, de casas de repouso com cuidados continuados, com preços compatíveis com as reformas da maior parte das portugueses. É quase impossível alguém arranjar um lar, de um dia para o outro (a doença faz com que surjam situações imprevistas...), com um valor inferior a 1.500 euros. Ou seja, só uma pequena percentagem dos nossos reformados, tem possibilidade de pagar o alojamento numa casa de repouso ou lar de idosos com vagas.

Como tem acontecido nos últimos anos, em quase tudo (saúde, habitação, justiça, segurança social, etc), o Estado quase que se limita a assobiar parta o lado, usando a técnica de sempre, de fingir que se resolvem os problemas, sem que se resolva coisa nenhuma. Até que os problemas se agravam de tal forma (é o que está a acontecer na saúde e na habitação), que deixa de haver qualquer espaço para fugas... 

É esta falta de soluções que faz com que continuem a surgir, aqui e ali, lares ilegais, onde se usa e abusa quase sempre da fragilidade e da necessidade das pessoas. Como pagam menos que nas "casas de repouso", os seus donos acham-se no direito de as tratar de qualquer maneira, sem que lhes sejam garantidas as condições mínimas de conforto e dignidade.

É muito triste viveremos num país, em que se paga uma brutalidade de impostos, e que se percebe, diariamente, que as coisas em vez de melhorarem, estão cada vez piores.

E ainda é mais triste sermos velhos e sentirmo-nos completamente abandonados por toda a gente...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


terça-feira, outubro 28, 2025

Conversas, olhares, teorias e práticas...


Sei que há mais que uma forma de olhar para as coisas que nos rodeiam, da mesma forma que também sei, que a própria realidade é muitas vezes deturpada. Isso acontece pelas leituras erradas que se fazem e também pela vontade de se ser "o dono da verdade"...

Sinto isso nas conversas de café que tenho com amigos. Além de sermos teimosos, temos ainda a mania que estamos mais bem informados que o comum dos mortais. É por isso que nas questões mais polémicas, raramente chegamos a um consenso.

Não é nada de preocupante, sabemos que são apenas conversas. É por isso que nunca nos chateámos a sério e quando as coisas começam a querer "azedar", o humor instala-se na mesa e volta tudo ao normal (grande Carlos!).

Foi por isso que tivemos alguma dificuldade em chegar a acordo, sobre o "valor da vida" de todos aqueles que fazem parte das forças de autoridade, segurança e protecção (polícias e bombeiros). 

A morte de um elemento da GNR, numa operação contra o narcotráfico, no Guadiana, que provocou uma grande operação policial em busca dos assassinos, nos dois lados da fronteira, fez com que de início, poucos concordássemos com o envolvimento de mais meios, do que se fosse um cidadão normal. A troca de argumentos fez com que nos aproximássemos e sentissemos, pelo menos teoricamente, que a vida de quem passa o tempo a garantir a nossa protecção e de bens públicos, deve merecer mais respeito e ser mais valorizada, por todos nós.

O ponto de discórdia, não tinha nada a ver com este acontecimento, mas sim com a prática diária dos agentes da autoridade, que muitas vezes inspiram mais o medo e a desconfiança, que a segurança, junto das comunidades.

Mas no plano teórico, estivemos todos de acordo. A vida de quem tem como profissão e missão a nossa protecção, deve ser sempre valorizada e enaltecida.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, agosto 07, 2025

Esta coisa de se viver mais tempo levanta uma série de questões...


Esta coisa de de viver mais tempo levanta uma série de questões. 

Ao escrever sobre isso, estou a pensar sobretudo na qualidade de vida que se vai perdendo, à medida que fingimos ultrapassar o próprio tempo.

Penso nas fragilidades humanas, que se tornam cada vez mais visíveis, tanto físicas e mentais. Até nos pode dar a sensação de que se "inventaram" novas doenças, se nos esquecermos que o nosso corpo não está preparado para a "eternidade"...

Quem tem familiares entre os oitenta e os cem anos de idade, sabe do que estou a falar, assiste diariamente à perda de faculdades. É natural e tem de ser aceite de forma pacífica.

Claro que sei que há doenças que também vão aparecendo mais cedo, devido sobretudo ao modelo de vida citadino, muito menos saudável do que devia. O facto de se lidar diariamente com o "stress", de certeza que contribui para casos de demência, que por vezes surgem ainda antes da idade da reforma.

E não vou falar das questões sociais que se levantam, diariamente, em relação aos cuidados de saúde, por se perceber que o nosso país, não está estruturado para ter tanta gente de idade avançada.

O mais curioso, é notar que muitas destas pessoas, apesar das suas debilidades, não pensam "desistir de viver". Habituam-se a conviver diariamente com a dor e com as dezenas de comprimidos que lhes dizem que garante uma "vida mais saudável".

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, julho 29, 2025

Coisas "feias", num Verão pouco perfeito...


Eu sei que é feio ouvir a conversa dos outros, e ainda pior reproduzir o seu conteúdo, mas ninguém é perfeito...

A prenuncia do Norte não deixava dúvidas sobre a origem da mulher, que falava para toda a esplanada, apesar dos toques no braço de uma moçoila novita, que devia ser filha.

Quando olhei para a minha companheira, percebi que ela não fazia tenção de se levantar, perante a possibilidade de assistir a "teatro de borla". Além disso, nem sequer tive tempo para pensar, porque o tom de voz da senhora que devia ter ultrapassado os cinquenta anos de idade há pouco tempo, espantava qualquer tipo de pensamento para bem longe...

Um homem parou e perguntou-lhe pelo marido. Ela respondeu, sem olhar para ele: «sei lá onde é que anda esse estupor.» E ele seguiu o seu caminho, sem mais palavras.

Foi quando outra senhora, que falava de uma forma mais suave, trouxe para a conversa a nora, que a estava a virar do avesso, pois não fazia nadinha lá em casa.

E lá veio a resposta, para todos escutarem. «Vim uma vez de férias com os meus cunhados, jurei para nunca mais. Em vez  de criada de três, passei a ser criada de seis. A fina da minha cunhada, além de estragar as unhas a lavar a loiça, dizia que não sabia cozinhar para tanta gente.» Uma outra senhora interrogou-a, «E ficou-se?» A mulher ainda respondeu mais alto: «Isso é que era bom! Aproveitei a deixa e disse que ela tinha razão, era muita gente, o melhor era cada uma de nós cozinhar para a sua família. Sabe o que fizeram?» ninguém sabia, mas a resposta não tardou: «Começaram a ir comer fora. Foi um sossego lá em casa às refeições.» 

«No ano seguinte queriam mais férias com a Tina, mas eu mandei-os para o hotel. Lá é que eles estavam bem, não precisavam de mexer uma palha, tinham criados para tudo.»

Repetiu a expressão, «Está a ver o filme, não está?», pelo menos três vezes. Talvez a pensar na malta que estava na esplanada. E estávamos todos deliciados com a fita, mesmo quem fazia cara de caso...

Foi quando nos levantámos e seguimos viagem, ainda antes do "pano baixar"...

Enquanto caminhava fiquei a pensar que havia ali algo de mais feliniano que de "pátio das cantigas"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sexta-feira, junho 27, 2025

Não tenho a certeza que para se ser poeta, dos bons, tenha que se ser, marginal, mas...


Há muito tempo que não estava com um rapaz que escreve poemas e que diz falar com toda a gente, menos com poetas.

Outra coisa curiosa (pelo menos para quem não é do meio...), também não lê poemas, de ninguém. Nem mesmo do seu mestre, esse mesmo, o Herberto Helder, de quem acabou de ler a biografia escrita pelo "polícia dos costumes da nossa literatura".

O grande motor da sua poesia é a imaginação. Depois vêm, quase em fila, os filmes, os romances, as suas viagens solitárias, de preferência por ruas vazias, onde seja possível enfiar as personagens que lhe saltitam de neurónio em neurónio.

O mais curioso, é que ele, a "olho nu", é um cidadão completamente normalizado, com um emprego de funcionário público, daqueles bons, em que pode passar o dia a ver as barcas a passar no Tejo (num dos poucos lugares do Estado que ainda não foi obrigado a virar as costas ao rio...), enquanto arquiva os papeis que lhe vêm parar à mão nos lugares certos (é bom nisso, sempre foi muito arrumadinho...).

Nunca casou. Sempre teve dificuldade em viver com outras pessoas no mesmo espaço. Precisa e gosta da sua solidão, de não ser importunado, muito menos que mexam nas suas coisas. É por isso que nunca teve empregada em casa, é ele que é o "fado do lar".

Apesar de todas estas coisas estranhas, quando está comigo, fala pelos cotovelos. Diz mal de tudo e mais alguma coisa. Como adora sublinhar os livros que lê e mostra-me partes que normalmente me passam ao lado (sei que se fosse crítico, seria um mau crítico...) e que são realmente alarvidades literárias.

O mais curioso é sentir, que além de sorrir, também aprendo uma ou outra coisa a seu lado. Sinto que ele é demasiado inteligente para se sentir confortável neste mundo que nos cerca.

A minha companheira conhece-o de vista e chama-lhe "o meu amigo estranho", sem fazer ideia das coisas que ele diz, seja dos poetas que passam a vida a rimar "cão com cagalhão", dos vizinhos a quem diz bom dia e boa tarde, que fazem um esforço do caraças para fingirem que são felizes, ou ainda, das mulheres que passam o tempo a mandar nos homens e no mundo, mesmo que finjam que isso é mentira...

Ele diz que não precisa nada disso. Não precisa de rimar com as palavras, muito menos de sorrir à vida ou agradar aos outros, com as mulheres incluídas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 24, 2025

O horizonte demasiado largo da América do Norte


Uma das coisas que percebi nas conversas que tive com o meu "Tio da América", foi da sensação que quase todos têm a oportunidade de melhorar as suas vidas (mesmo os mais pobres...), de que tudo é possível. Claro que é preciso fazer-se por isso. As tais oportunidades não caem do céu...

Ele disse-me mesmo que essa é a chave do sucesso dos Estados Unidos da América. Há um horizonte demasiado largo à sua volta, que lhes dá a ilusão de que se pode chegar a qualquer lado (pois, é provável que se viva a vida toda atrás de uma mentira)...

Isso explica que seja possível alguém como Trump chegar a presidente e também que os imigrantes (especialmente os nativos dos países próximos, como o México ou o Porto Rico), aparentemente, tão maltratados e perseguidos, mesmo assim não desistam do "sonho americano"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, abril 18, 2025

Ainda os deuses, transformados em bonecos de pedra...


Ando a ler "Um Adeus aos Deuses", de Ruben A., por sentir alguma curiosidade pela história do livro e pela paixão que várias gerações de romancistas, poetas, pintores e escultores tinham pela Grécia, enquanto civilização clássica povoada de deuses.

O Ruben, a páginas tantas, escreveu: «Compreendo esta paixão pelos deuses que tinham os gregos. Eles viviam permanentemente no profano, nos extremos do poder do homem e na aceitação de uma força mística que os continha dentro da prática local dos ritos religiosos. Depois dos gregos o homem raras vezes quis voltar à companhia dos pensamentos imutáveis, o homem criou uma vida própria fora da dúvida e alheia aos deuses - espécie de materialismo imediato que a ciência serve em utilidades domésticas.»

A partir de certa altura, quisemos  ser nós os "deuses", quisemos colocar o mundo a girar à nossa volta, ao mesmo tempo que usávamos a presença de um deus (em chegava...), para nos ajudar a perpetuar no poder, tornando-nos "senhores" de qualquer mundo...

(Fotografia de Luís Eme - Lagoa de Albufeira)


terça-feira, abril 15, 2025

As coisas são o que são (e não mudam por decreto)


Se antes de ouvir aquela conversa, já pensava que quem sonha acordado, não é mais feliz que as outras pessoas, mesmo tendo a capacidade de viajar sem sair do mesmo sitio. Depois, ficou tudo na mesma, como a "lesma"... 

A única coisa que sobrou, foi a percepção de que esta gente que nos rodeia, tem cada vez mais dificuldade em aceitar que somos todos iguais e todos diferentes.

Estavam a falar de mim (e de mais duas ou três pessoas presentes...), usando o desdém e humor em simultâneo. Era quase como se fizéssemos parte de anedotas como os alentejanos, mas em pior... 

Curiosamente não falaram desse hábito que temos em falarmos com os nossos botões, cada vez mais alto, nas ruas. Talvez por isso ter passado a ser uma coisa normal, graças aos smartfones...

Não disse nada, porque a conversa não era directamente comigo, era mais com uma certa poeta, a Margarida. Ela esteve muito bem, ofereceu-lhes carradas de ironia e também algum humor, o que ainda os deixou mais insatisfeitos.

Fiquei mais uma vez a pensar na incapacidade que temos de perceber o outro, por ser e querer coisas diferentes da vida (normalmente isto começa em casa...).

E sim, a Margarida disse muito bem, que a vantagem de conseguirmos viajar sozinhos, sem precisarmos de apanhar um avião ou uma barca, não nos retira a vontade de conhecer o mundo real...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 09, 2025

A sina de partir, e voltar, só para ver se está tudo igual...


Recebi um telefonema agradável de um amigo que não vejo há mais de cinco anos (lá volta a "pandemia" a servir como medida do tempo...).

Falo do Gui, ex-realizador de cinema, e de certa forma, ex-português. Sim, mesmo que ainda não seja brasileiro no papel, é em tudo o resto, até como pai de "três crias" (é ele que gosta de chamar os filhotes assim...) com a Débora, que o tem ajudado a ser ligeiramente mais feliz do que era por cá.

Agora só faz publicidade e moda. O cinema ficou quase esquecido, porque há coisas mais importantes que andar em luta permanente "contra o mundo" e viver quase sempre de bolsos vazios e ficar com a sensação de que quando apresenta projectos, anda a "pedir esmola".

Diz que um mês destes aparece por cá com toda a prole e quer juntar as nossas famílias. Disse que sim, que será uma coisa boa.

Gozei com o facto de ele já falar com sotaque. Ele sorriu, quase orgulhoso, porque tal como Fernando Lemos e outros portugueses, sente-se mais feliz na confusão sul americana, que na pasmaceira europeia...

(Fotografia de Luís Eme - Seixal)


segunda-feira, março 17, 2025

A poesia dos livros e da vida...


Esta semana vou tentar falar mais de poesia e menos de outras coisas, mais desagradáveis e feias.

Sou leitor de poesia. Normalmente, são estes os livros que me acompanham em viagens ou em lugares que sei, que tenho de ficar à espera no mínimo alguns minutos...

E é por isso que sei que quase todas as editoras fazem questão em ter boas colecções de poesia (além de serem edições bonitas, as escolhas de autores também revelam qualidade), mesmo que digam que são livros que não vendem e que têm tiragens sempre curtas.

E isso é o mais curioso. Se não vendem, porquê esta aposta em edições memoráveis e de dimensões que tentam escapar à vulgaridade?

Talvez gostem muito de poesia. E provavelmente, até são capazes de vender alguma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 01, 2024

A Vida, a Poesia e a Ficção, com e sem sentido...


A vida não faz muito sentido. Nunca fez.

Não era essa a questão.

Mas sempre se podia apanhar boleia.

E era melhor falar de literatura que da vida...

Mas a verdadeira questão nem era assim tão estranha. Se a vida não faz muito sentido, por que razão a ficção e a poesia têm de fazer sentido?

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, agosto 06, 2024

Um mundo a mudar e as profissões do costume a desmoronarem-se...


Hoje fui entregar o conjunto de palavras - que querem ser livro - que fui escrevendo e alinhando, sobre, e com um amigo, na tipografia.

Reparei que há muito não entrava naquele lugar e disse-o ao companheiro de várias aventuras, escritas e impressas (a última vez que ali entrara, fora algum tempo antes da "pandemia"...).

Acabámos por conversar sobre aquele mundo e pude assistir ao seu desencanto, de ver a profissão que abraçou há mais de três décadas a desmoronar-se, a decair, lentamente, porque o progresso tem esta coisa terrível de "matar" profissões, à medida que o mundo avança...

Quase que me limitei a ouvir os lamentos de um bom profissional. A vida é o que é. Mas é terrível, pelo menos para os homens do "mundo das palavras", irem assistindo ao princípio do fim dos jornais em papel, e claro, dos livros (ainda que mais devagar)...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)