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sexta-feira, setembro 11, 2026

"Cinco anos depois" (que agora são vinte cinco...)


Cinco anos depois
 
Cinco anos pode ser uma eternidade,
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Nova Iorque não voltou a ser igual,
As pessoas perderam tantas coisas...
Até a liberdade de serem quem eram.
O simples gesto, de um aceno ou sorriso,
Foi suprimido pela ditadura da segurança,
Assim como qualquer palavra circunstancial
Trocada na rua, com estranhos.
 
Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Podemos banalizar o que aconteceu
Fingir que as Torres Gémeas desapareceram,
Num truque qualquer de magia,
Podemos dizer que a vida continua,
Que o que já lá vai, lá vai...
 
Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...
 
Mas os rostos daqueles que partiram,
Sem marcar qualquer viagem,
Permanecem vivos no coração de Nova Iorque.
Sim, coração, de Nova Iorque!
O coração de qualquer cidade
São sempre os seus habitantes.
 
Luís [Alves] Milheiro

Nota: escrevi este poema em 2006, quando passaram cinco anos desta tragédia, ou seja há vinte anos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
 

terça-feira, junho 16, 2026

"Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."


A frase que escolhi para título deste pequeno texto faz parte de uma das canções do Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam por voltar sempre, de tempos a tempos...

Aparece sempre alguém, capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...

Nem a invenção dos deuses e das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...

Tenho à cabeceira um livro há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a 1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em Auschwitz. 

Não o leio todos os dias, porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.

Há muitas partes do seu testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença, se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial em duas frases:

«Polícias que obedecem a ordens expressas de ir prender uma bebé de dois anos, a casa da ama, para a internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»

E umas linhas mais abaixo: «Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização.»

E não são precisas mais palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, junho 04, 2026

Havia tanto a dizer sobre os homens e sobre o fechar de olhos da sociedade e da própria justiça...


Estava sentado a ouvi-la contar os insultos diários de que a mãe era vítima do pai, e pensava, que mesmo sem nos termos apercebido, o mundo mudou tanto. E ainda bem. 

Claro que podia - e devia - ter mudado mais, muito mais...

As notícias diárias informam-nos de que o que não faltam por aí, são homens - devia dizer bestas, eu sei - que não aceitam as mudanças, nem conseguem olhar para a mulher como uma igual (muitos nem os outros homens, por isso é que se refugiam nos partidos de direita, mesmo que não passem de uns "pobretanas"...). Entre outras coisas, é sua "propriedade", ponto final.

O pai desta amiga era movido a álcool, desde quase que se levantava, tal como a maior parte destes cobardes. Era pequena e já conhecia todos os nomes feios que existiam. E quase todos os dias via o pai ameaçar a mãe de morte, de formas diferentes (era isto que mais a assustava e fazia com que passasse alguns começos da noite, quase se sentinela à porta do quarto dos pais...).

Embora estes "cães" fossem mais de ladrar que de morder, o álcool consegue dar-lhes a força que não têm, para destruir a sua vida e a dos outros...

De vez em quanto interrompia-a, dizendo coisas como porque não "saíam de casa", etc., esquecido da dependência económica e da sociedade de então, que em casos de infidelidade (ou apenas suposições...), tratava sempre a mulher como "puta" e o homem como "justiceiro"...

Poucas horas depois desta conversa somos informados da morte de uma jovem de 16 anos, barbaramente assassinada pelo namorado de vinte anos.

Ficamos sem palavras. 

Apesar das muitas mudanças que se verificaram, continuam a existir demasiadas "bestas" e  "odivelas" à nossa volta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 07, 2026

Em nome do cinema e da família...


Só hoje é que pensei no filme de ontem.

Não me disse nada de novo, talvez por eu já ir para velho. 

Mas nem sempre fixamos o nosso olhar nas coisas pequeninas, e rasteiras, que as pessoas são capazes de fazer na defesa da família.

A desculpa que usam quase sempre no "caderno das justificações": é o amor.

Como se ele servissem para desculpar tudo, até mesmo as acções crueis e desprezíveis.

Pois é, o cinema faz-nos pensar de uma forma mais profunda e séria sobre a vida, porque só tem um episódio, ao contrário das séries e telenovelas televisivas... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, maio 04, 2026

Que famílias são estas? Quem são estes pais?


Quando algumas crianças, entre os cinco e os sete anos, resolvem agredir outra criança, cega, mais desprotegida que elas, não nos deve apenas fazer pensar. 

Diz que é urgente agir, especialmente dentro das famílias. 

A primeira pergunta que faço é esta: "quem são os pais destas crianças agressoras?"

Sim, são eles os primeiros, e principais culpados, desta agressão cobarde e preconceituosa.

Não venham culpar as escolas e a falta de auxiliares, muito menos as guerras que assolam o Planeta. 

O problema começa e acaba nas nossas casas. Ponto final.

No meio desta atitude vergonhosa, só espero que não exista nenhum pai ou mãe, que ainda tenha ficado orgulhoso, do rebento que tem por casa, por ser bom a "bater no ceguinho".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, março 25, 2026

Tanta coisa que não sei...


Não sei a certo se as aulas de Cidadania, alteravam o nosso comportamento, muito menos se a escola é o lugar certo para nos tornarmos melhores pessoas (claro que sei que tudo começa e acaba em casa, mas a escola podia dar uma ajuda...).

Pensei nestas coisas depois de passar por um homem de uns quarenta anos, que acabara de estacionar o carro e quando saiu, gritou alguns dos nomes feios que conhecia para outro condutor, que entretanto já dera a curva e caminhava para outro planeta e lhe apitara segundos antes.

Provavelmente apitara com razão, o que não faltam nas estradas é gente que não faz uso dos sinais luminosos do carro quando muda de direcção ou estaciona.

O meu lado mais moralista teve vontade de perguntar ao homem, se ficara mais feliz depois de encher a rua de nomes feios. Sabia que se o fizesse, acabaria por sobrar para mim, qualquer coisa ainda mais feia que um "mete-te na tua vida"...

Também pensei que talvez hoje estejamos mais malucos que ontem, e a tendência seja continuarmos a piorar, dia após dia, ignorando algumas palavras calmas, da família do civismo...

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


terça-feira, janeiro 27, 2026

A violência e a intimidação na América de Trump...


Mesmo que Donald Trump nos dê mostras diárias de não passar de uma "besta humana", desta vez teve de se render aos abusos da sua querida policia de imigração (ICE) e demitir o chefe (com um ar e um discurso a fazer recordar as tenebrosas "SS"...).

A televisão mostrou ao Mundo as agressões que roubaram a vida a um enfermeiro, Alex Pretti, que tinha como única arma na mão, um telemóvel, desmentindo as primeiras informações de que se tratava de um "terrorista perigoso" ou de um "bandido ilegal"...

Nem mesmo a neve que tem caído no Estado de Minnesota, inibiu os habitantes de Mineápolis de sairem para a rua para protestar contra o que chamam de uma "ocupação da cidade por forças hostis", tal é o uso e abuso da ICE...

Quem tem dado nas vistas como opositor de Trump, é o governador Tim Waltz. Será que finalmente os democratas têm um líder para enfrentar os republicanos?

Uma das coisas mais estranhas a que temos assistido - quando sabemos que os EUA são um país partido ao meio (tal como o Brasil...) -, é o quase silêncio dos democratas, inclusive figuras públicas ligadas à cultura. As únicas notícias que se ouvem, é da chegada à Europa de actores e realizadores, em sentido inverso ao que aconteceu quando Hitler começou a ocupar a Europa e a perseguir os judeus...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


terça-feira, janeiro 06, 2026

A nossa passividade perante a "nova ordem mundial"...


Pensava que era fácil para as pessoas olharem para o que se passou na Venezuela, como algo profundamente errado e perigoso, pelo precedente aberto, quando se sabe quais são as vontades de Putin ou de Jinping, em relação à Ucrânia ou à ilha Formosa.

Uns culpam tanto Maduro como Trump, outros apenas o ditador da Venezuela... E depois há uma minoria que tem noção clara do que se passou e diz que, mais uma vez se desrespeitou o direito internacional e a autonomia das nações.

Olho para trás e penso que todos os avanços que se deram ao longo da segunda metade do século XX, no trabalho, na saúde, nos direitos humanos e na integridade das nações, estão a ser engolidos por algo que começou por ser apenas uma "maré" capitalista e populista, mas que rapidamente invadiu "a terra", com o objectivo claro de ser, a nova ordem mundial.

O mais curioso é isto estar a acontecer em praticamente todos os continentes, com a passividade da maior parte das pessoas, de todas as idades.

Ou seja, este 2026 que ainda está só no começo, promete ser um ano de grandes mudanças, para pior, para quase todos nós, até mesmo para uma boa parte dos norte-americanos e dos russos (não se tem noção de como é que eles vivem nestes tempos de guerra)...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, janeiro 04, 2026

O nosso habitual "baixar de calças" aos Estados Unidos da América...


As reacções do ministro dos Negócios Estrangeiros e do Primeiro-Ministro ao que aconteceu na Venezuela são cínicas e hipócritas, como é costume, no que toca às acções dos EUA.

Não temos grandes dúvidas que se fosse o PS que estivesse no poder, as reacções não seriam muito diferentes. Provavelmente escolhiam outras palavras, para não se "comprometerem", com qualquer um dos lados. Mas não acredito que se manifestassem contra os EUA.

O mais fácil é refugiarmo-nos atrás das eleições fraudulentas que mantiveram Maduro no poder e falar na esperança de um novo país, democrata, sem se dizer qualquer palavra contra esta invasão dos EUA, que conseguiu capturar o presidente.

Como já se percebeu, o direito internacional é uma "treta", pelo menos para Trump, tal como a independência e autonomia das nações...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, janeiro 03, 2026

Virar o mundo ainda mais de pernas para o ar...


O que se passou na Venezuela contraria tudo o que se conquistou ao longo do século XX, no campo da independência das nações e no respeito pelos direitos internacionais (e já nem falo da ONU, que devia fechar portas...).

Não sinto qualquer pena de Maduro, mas sim da Venezuela e dos seus habitantes, que, provavelmente, ainda gostam menos de Trump que do presidente deposto e capturado.

Mas se Trump quer mesmo dedicar-se à "caça" a ditadores, devia começar pelo seu amigo Putin...

Mas o pior de tudo, são os sinais que os EUA deram ao mundo. Não só abriram portas à  anexação definitiva da ilha Formosa por parte da China, como pioraram, muito, a situação da Ucrânia nas negociações de paz com a Rússia.

E a Groenlândia e a Dinamarca que se cuidem...

(Fotografia de autor desconhecido - o "regresso ao velho oeste"...)


sexta-feira, outubro 24, 2025

A vida, entre a realidade e as percepções...


Continuo a acreditar mais em percepções que num aumento de violência nas ruas (pelo menos de uma forma significativa), mesmo sabendo que há pessoas e pessoas, e há ruas e ruas...

Sempre existiram vários "guetos", onde quem era de fora, não era bem recebido. Havia "covas da moura" nos vários concelhos que rodeiam Lisboa, mesmo que não fossem tão fechados, labirínticos e perigosos. A Margem Sul tinha (e tem...) pelo menos meia dúzia deles...

Normalmente só se fala destes bairros, quando se percebe que cresceram demasiado (em vez de centenas de pessoas, acolhem milhares...) e que se tornaram mais sujos e mais violentos, lançando o alarme em quem vive nas proximidades. 

Infelizmente, estes lugares estão longe de alojar apenas "marginais". Há cada vez mais gente a procurar estas zonas para viver (até foi criado um novo nicho de mercado, pois há quem enriqueça com o aluguer de "barracas"...), porque não conseguem alugar uma casa a preços acessíveis. 

Não se pode esperar, que quem cresce nestes lugares, viva apaziguado. Eles sabem que há "quem tenha tudo" e que "eles não têm quase nada"...

É por isso que me faz confusão, que os políticos fechem os olhos à existência destes bairros, sem o mínimo de condições para alojar seres humanos, ao mesmo tempo que continuam a alimentar a percepção do aumento de violência, um pouco por todo o lado...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


segunda-feira, setembro 15, 2025

Foi aberta a nossa "caixa de pandora"...


As acusações contra um actor e encenador do Porto abriu a nossa "caixa de pandora", onde estão guardados muitos dos casos de assédio e de abusos sexuais do nosso mundo artístico.

Pensava que as histórias que ouvia falar, aqui e ali, iam ficar perdidas no tempo (embora nunca fossem esquecidas pelas vítimas...), porque a globalização e a a popularidade das redes sociais tinham acabado com o nosso tradicional atraso entre países como os  EUA ou o Japão.

Parece que estava enganado. Pelo menos é o que a realidade conta. O "Me Too" está a chegar, com o atraso do costume...

Sim, as denúncias públicas e a desmontagem dos método de trabalhos da escola de teatro do Porto,  onde o assédio e a humilhação, fizeram parte do dia a dia dos alunos (preferencialmente os mais bonitos e mais frágeis), durante anos, parecem ter chegado em força. E o mais provável é que não se fiquem apenas por um actor ou encenador...

Sempre achei estranho que apenas as mulheres se queixassem do abuso de homens, quando os maiores escândalos (e perversões...) sexuais se passavam no mundo masculino, pelo menos nas artes cénicas e na moda (nas europas, nas américas e nas ásias...).

Quem conheceu e conhece (as coisas não devem ter mudado assim tanto...), ainda que de uma forma leve, os bastidores do meio mais apetecível e popular do espectáculo, a televisão, sabe que este sempre foi dominado pelo chamado "lobby gay". E sabe também como se "abriam e fechavam portas"...

A questão que acaba por ficar no ar, é se todas estas denúncias vão ficar apenas por um único caso...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, julho 20, 2025

Muito barulho e saudades de porrada


A senhora com mais de oitenta anos discursava na mercearia, como se estivesse num parlamento como o nosso, com gente com ideias estranhas sobre o mundo.

Tinha saudades do tempo em que os pais "educavam" os filhos à "porrada", em que o medo se juntava ao respeito, com a maior das facilidades.

Deixei-a com as saudades dela, em silêncio.

Claro que quando vinha para casa, pensei na educação e nos meus filhos. Nunca fui de bater, mesmo assim lembro-me dos desafios e das provocações do meu filho, a pedir uma ou duas palmadas... Em relação à minha filha, nem me lembro de lhe ter dado uma palmada (mas deve ter acontecido, aqui e ali...).

Mas a senhora estava errada, o respeito não tem nada a ver com pancada. Com o medo, sim...

Acho que o maior problema da educação nos nossos dias não tem nada a ver com pancada. Tem sim, a ver com o uso da palavra "não", que devia ser utilizada com firmeza e não "meio a brincar"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, junho 11, 2025

Ser português e defender o país, não é isto...


É importante dizer que o Dia de Portugal é de todos os portugueses, e não de apenas alguns.

E não é o facto de um partido ter agora sessenta deputados no parlamento, que fica com mais legitimidade para dizer e fazer tudo o que lhe apetece. Deveria ser sim, mais responsável. Mas isso é pedir quase o impossível, como se percebeu pelos comentários xenófobos, provocadores e ignorantes de alguns deputados da extrema-direita, em relação aos discursos de Marcelo Rebelo de Sousa e de Lídia Jorge durante a cerimónia comemorativa de Lagos. 

Mas o pior ainda estava para acontecer, em Santos, com agressões cobardes a actores que fazem parte do elenco da peça, Amor é um fogo que arde sem se ver, da companhia de teatro a  Barraca, por um grupo de "neo-nazis".

Se em relação aos deputados, parece não haver muito a fazer, já em relação às agressões, ainda somos um Estado de direito, e quem agride de forma gratuita tem de ser severamente punido.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, maio 15, 2025

As pessoas que gostam que tenhamos medo delas...



O texto que escrevi aqui foi ainda "mais falado", no dia seguinte.

Porque houve alguém que disse que não são só os ciganos que gostam que tenhamos medo delas. Referiu-se depois às forças de autoridade, que segundo a sua opinião, 51 anos depois de Abril, ainda não perderem alguns dos tiques fascistas que as caracterizam.

Quando quisemos saber desses tiques, o Pedro voltou à adolescência, à única vez que levou uns empurrões e uns pontapés da polícia, sem que tivesse feito alguma coisa de errado, além de estar no Bairro Alto com amigos sentado à beira do passeio a beber umas cervejas. Nunca esqueceu esta mania do "bater antes e perguntar depois", que pelo que se lê e ouve, ainda se mantém activa, especialmente se tivermos a pele mais escura.

A questão que veio a seguir, foi se é necessário esta cultura do medo, se é preciso termos medo dos agentes de autoridade. Todos dissemos que não. Até porque medo, apesar de alguma confusão que anda na cabeça das pessoas, nunca foi sinónimo de respeito...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa) 


sexta-feira, janeiro 31, 2025

Andar por Lisboa a ver o Mundo Passar...


Mesmo quem anda por todo o lado em Lisboa, como eu, sabe que também pode ficar ligeiramente "infectado", pelas notícias e pelas vozes dos "moedinhas" deste país.

Pensei nisso, hoje, ao descer a Almirante Reis. Continuo a ter o vício de andar a pé e a ver o mundo passar por mim, mesmo que as pernas já não sejam o que eram. 

Sentado no interior do cacilheiro, enquanto olhava o Tejo, pensei que olhei para as pessoas com quem me cruzei, com mais atenção. As vozes, as cores, as roupas faziam a diferença, mas isso acontece há pelo menos meia-dúzia de anos. E sim, vê-se cada vez menos portugueses nas ruas.

Mas não faltam explicações para o facto. A principal é a existência de cada vez menos portugueses a morar nesta zona de Lisboa. E isso acontece graças ao aumento obsceno das rendas. 

Sim, a ganância dos senhorios é a principal razão deste "abandono", e não o "medo" pela gente que veio das Índias que, pelo menos aparentemente, é quase sempre excessivamente simpática (especialmente os comerciantes). 

Sei que se não se levantasse tanta poeira do lado mais afastado da direita, ou se o alcaide de Lisboa não quisesse ser também "xerife", tudo seria mais normal. Sobretudo os comentários que se fazem sobre as ruas da cidade grande, normalmente feitos por quem nunca passa por estas ruas e avenidas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, outubro 28, 2024

«Nós, não somos bons. Somos muito bons, na arte de "enfiar a cabeça na areia"»


O Rui nunca escondeu a ninguém que cresceu no famoso "Bairro do Pica-Pau Amarelo". 

Felizmente, não foi uma coisa para todo o sempre. À distância de trinta e muitos anos, sente que não lhe fez mal nenhum conhecer gente tão diferente. Muito menos ter amigos de todas as cores.

Sentiu na pele, literalmente, desde muito cedo, que era um felizardo. Os suspeitos de qualquer coisa no bairro, tinham sempre a pele mais escura que ele.

Contou-me tudo isso, depois de ler o que escrevi aqui no blogue, sobre racismo. Mas foi ainda mais longe. Falou-me de outro problema, não menos problemático, o machismo reinante, a imensidão de homens bêbados que batiam quase diariamente nas mulheres, apenas porque sim. 

Acrescentou que essa foi a principal razão para a sua família sair do bairro. Os pais não suportavam a "normalidade" da violência doméstica naquele lugar. Se havia coisa que o seu pai se orgulhava, era de nunca ter levantado à mão à mãe. E acabou por ter problemas na vizinhança, por  ter "metido a colher entre homem e mulher", mais que uma vez...

Chocou-o ver o primeiro-ministro a falar de Portugal, como se fosse um autêntico paraíso, quase sem crimes, quase sem criminosos. E foi ainda mais longe, quando explicou que o número de mulheres que são mortas pelos companheiros ou ex-companheiros, os pretos que são presos e agredidos nas esquadras, culpados apenas de terem a pele mais escura, estão fora destas estatísticas.

Foi por isso que me disse: «Nós, não somos bons. Somos muito bons na arte de "enfiar a cabeça na areia".»

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

 

sexta-feira, outubro 25, 2024

Procurar explicações (mesmo que possam não existir justificações)...


Não é assim tão difícil encontrar explicações para a continuidade de actos de violência e de destruição de bens públicos e privados nos bairros mais problemáticos da periferia da Capital (em ambas as margens do Tejo...).

Todos sabemos que estes actos não nascem no "coração" destes lugares, que albergam maioritariamente, gente de bem. Gente que vive do seu trabalho e no seu dia a dia não faz grandes ondas, mesmo que receba um tratamento de "cidadão de segunda", e até de "terceira", neste país que finge não ser racista.

Basta utilizar os transportes públicos logo às seis, sete horas da manhã, para ver quem são as mulheres (estão em maioria...), que começam a trabalhar mal o dia amanhece, em escritórios, cafés, hotéis, restaurantes, etc., para que tudo esteja "num brinco", quando estes abrirem as suas portas ao público. Sobressai sempre a sua cor, pouco europeia, tal como a sua voz viva, mesmo que se exprimam muitas vezes em crioulo, umas com as outras.

Não são elas que andam a provocar desacatos, aqui e ali. Provavelmente são os seus filhos, que devido aos horários de trabalho estranhos das mães, ficam desde muito cedo entregues a eles próprios, nas ruas destes bairros, que se prestam a tudo. E naturalmente, mais rebeldes e conhecedores do mundo, não gostam, nem querem ser, "cidadãos de segunda" ou "de terceira", no país onde nasceram e cresceram...

Não devia ser normal o nosso esquecimento, destes pequenos-grandes pormenores, que acabam por explicar muitas coisas, mesmo que estejam longe de as justificar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, outubro 23, 2024

As "narrativas para todos os gostos"...


Eu sei que nunca nos faltaram bons mentirosos, da mesma forma que também sei que a sua existência era quase anedótica, pouca gente os levava a sério. Algo que não os incomodava nem um pouco. Até tinham um certo gozo em serem descobertos e apontados a dedo, por terem uma imaginação demasiado fértil.

O problema foi quando a mentira (aliás os mentirosos...) entrou em campo e começou a querer passar pela verdade, a deixar o riso de lado e ficar com o ar mais sério do mundo. 

A América voltou a dizer-nos, de que tudo é possível, com a eleição de um presidente, capaz de mentir até nos seus sonhos. Não foi preciso esperar muito pelas imitações...

Grave foi ela ter conseguido entrar no Parlamento, agarrada a um novo partido, que no início parecia enganar apenas os "incautos" do costume. Com a técnica dos "vendedores de banha da cobra", foram-se aproveitando da indignação e indecisão crescentes e enganaram muito mais gente, do que eles próprios deviam prever. Ao ponto de terem conseguido arranjar emprego a cinquenta "inimigos da verdade" na Casa da Democracia nas últimas Legislativas.

E com eles, não só se popularizaram, ainda mais, as "narrativas para todos os gostos", como se banalizou a falta de respeito pelo próximo, com um comportamento público indecoroso.

Como de costume, tinha pensado em escrever outra coisa. Queria apenas chegar a este tempo em que vivemos, com as tais "narrativas para todos os gostos".

Por falar em narrativas, e se o Odair Moniz,  assassinado por um agente da polícia, nem sequer tinha uma arma preta nas mãos, quanto mais branca?

Sim, porque para variar, temos várias versões populares do triste acontecimento. E até a polícia, tem pelo menos duas versões do que sucedeu (a oficial e a oficiosa)...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, outubro 08, 2024

O esquecimento e o facilitismo que habitam nos nossos dias...


Não tenho dúvidas que uma das missões que temos enquanto pais, é tornar (ou pelo menos tentar...) a vida dos nossos filhos mais fácil e melhor que a nossa. Nem sempre conseguimos chegar a uma delas, muito menos às duas. 

Isso acontece porque nós, humanos, temos o condão de tornar o que é fácil difícil, optando por caminhos cada vez mais manhosos e estranhos para o outro (estamos cada vez mais cercados pela tentação da violência e até da exterminação da diferença...).

Embora às vezes falemos nisso, nem sempre sei se eles estão mais capacitados que nós, para lidar com os "filhos da mãe", que crescem à nossa volta como "cogumelos no bosque"...  Provavelmente estão. Já levaram com eles nas escolas...

Pensei nisto ao ver os meus dois filhos saírem de casa, quando amanhecia.

Também pensei que, são sobretudo essas pessoas - que se alimentam diariamente do poder - que mais esquecem que têm dentro deles, várias coisas que os distinguem dos outros animais. 

Sem lirismos, pensei que um pouco mais de humanismo, não lhes fazia mal nenhum, mesmo que corressem o risco de deixarem de ser olhados como "filhos da mãe"...

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)