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quinta-feira, agosto 06, 2026

"A Ponte é (mais que) uma Miragem" há 60 anos...

 


a ponte é uma miragem

a ponte é uma miragem
que ultrapassa a exposição
pois é também uma viagem
do olhar e dos sentidos
que buscam inspiração
e querem que a ponte seja mais
que uma simples passagem.
 
olhar que se cruza
com um Rio de “visões”
tanto a norte como a sul
e que se deixa levar
em todas as direcções
 
sentidos explorados
pelo som que se confunde com o vento
de um tabuleiro povoado de carros
suspenso pelos cabos do tempo
 
sentidos encantados
pelas cores de um Tejo radiante
que pinta toda a paisagem
de uma forma contagiante
e transforma a ponte na tal miragem
 
Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, junho 30, 2026

Uma boa e memorável espera...


Só teve de esperar 50 minutos, para embarcar num cacilheiro autêntico, ainda cor de laranja e com motor diesel.

Não tem nada contra as energias mais limpas, é apenas um problema de cor, de daltonismo. 

Como acha que os eléctricos de Lisboa devem ser sempre amarelos, também pensa que os cacilheiros deviam ficar sempre com os bonitos tons da laranja, com que têm ficado imortalizados por tantos pintores e fotógrafos, com bom gosto...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, junho 26, 2026

«Há pessoas que só dizem o que pensam, com uma máscara, como se fossem outras pessoas...»


Olhava para o Tejo, em mais uma travessia, na companhia da gente de fora, que não perdia uma viagem até Cacilhas, como se no outro lado existisse um ponto turístico, para lhes carimbarem o seu "encontro com o rio", dentro e fora do Cacilheiro.

Desta vez estava longe, não me conseguia desligar do desabafo de um amigo, que acabara de se separar. Disse-me muitas coisas, mas a que me fez mais confusão, foi a confidência de que nunca conseguiu conhecer bem a mulher, nunca conseguiu ter com ela uma daquelas conversas, em que sentimos que entramos dentro do outro... 

O que mais estranhava era ser extremamente activa nas redes sociais, onde usava um outro nome. Era como se fosse outra pessoa...

Confrontou-a mais que uma vez com isso, mas nunca conseguiu chegar a sítio nenhum. Nem mesmo quando foi colocado em uma ou outra situação embaraçosa, na família e no grupo de amigos, sem ser "ouvido e achado"...

Disse-me outra coisa, a que não liguei tanto, por ser mais comum do que o que parece: «Hoje sinto um grande alívio, por não termos tido filhos.»

Mas o que não me saía da cabeça era a frase: «Há pessoas que só dizem o que pensam, com uma máscara, como se fossem outras pessoas...»

Eu estava farto de saber que a maneira mais fácil de olharmos para o mundo, é com os nossos olhos, sem pensarmos que os outros olham para o mesmo lugar e vêm outras coisas... 

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sexta-feira, junho 05, 2026

Mistificaçães sobre a Margem Sul...


Depois de ser apresentado como almadense, percebi que este era um péssimo cartão de visita, pelo menos para aquela alminha, que talvez tivesse atravessado o rio de cacilheiro menos de meia dúzia de vezes e não gostasse nada do que encontrou, logo em Cacilhas.

Ainda bem que já estava longe da "idade dos porquês", porque não senti a mais pequena curiosidade, sobre toda esta "azia" para com a Margem Sul.

Já estava sentado num dos eléctricos que agora fazem a ligação fluvial, quando me pus a pensar, que nunca tinha levara muito a sério algumas mistificações sobre o que existe para cá da margem esquerda do Tejo e se estende quase até Setúbal e Sesimbra.

Nem mesmo agora, que Almada é um dos "últimos redutos" das muitas pessoas que chegaram de fora e trabalham em Lisboa e só conseguem encontrar casa por estes lados, mesmo que também sejam a preços proibitivos...

Eles não sabem nem sentem as coisas agradáveis que o "melhor rio do mundo" é capaz de fazer por nós. 

Basta assistir às procissões diárias dos turistas, jovens de todas as idades, que desembarcam em Cacilhas e percorrem o Cais do Ginjal na direcção dos dois restaurantes com fama internacional ou do Jardim do Rio, o pequeno oásis com relva, que se enche de gente ao fim do dia, que escolhe aquele lugar para se despedir do Sol...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


sexta-feira, maio 01, 2026

O Tejo com um Maio que promete amadurecer...


O Tejo está sempre em mim.

Basta aproximar-me da janela ou da varanda viradas para este, da minha casa.

Apesar desta nossa ligação diária, não dispenso descer até às suas margens e conversar, tu cá tu lá, seja no Ginjal ou na zona ribeirinha de Lisboa.

E neste primeiro dia de Maio, houve mais gente que também quis conversar e festejar este "Dia do Trabalhador", no Ginjal, sem o bulício citadino da gente de todas as idades, que quis deixar bem audível, que a lei que este governo quer aprovar só serve o patronato, cujos olhos cheios de cifrões continuam apenas virados para eles próprios... 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Estava ali no cais à espera e reparei que...


Estava parado no cais de embarque dos cacilheiros, à espera que chegasse uma barca, que atravessasse o Tejo e me levasse até Cacilhas, quando reparei num "pequeno-grande" pormenor...

Um dos barcos atracados preparava-se para partir e tinha o nome de "Jorge de Sena".

Isso fez com que começasse a pensar, em qual seria a reacção do escritor, ao saber que agora era "nome de barco", que andava a atravessar o Tejo, entre Lisboa e o Seixal...

E logo ele, que sempre fora um grande crítico do nosso país, que sempre se sentiu mal amado, e até injustiçado... 

Em parte tinha razão, havia uma certa mediocridade intelectual, que não o podia ver à frente, mesmo que tentassem disfarçar... 

Mas o mais curioso, foi achar que o Jorge de Sena era capaz de gostar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, janeiro 25, 2026

A vida não está grande coisa para sonhos...


Quando estou a acabar um livro, deixo de ter tempo para quase tudo, até para a blogosfera, que deixa de ser o habitual espaço de recreação e também de reflexão.

Depois a "Ingrid" não me tem dado grande espaço nas ruas, muito menos nas esplanadas, para ouvir coisas que não têm nada a ver, mesmo que tenham tudo a ver...

Ou seja, quem anda nas ruas, esconde-se dentro de kispos e debaixo de chapéus de chuva, sem vontade para dizer bom dia ou boa tarde.

Quando passei por Cacilhas, no meu passeio higiénico, sem encontrar uma explicação palpável, fiquei a pensar no último encontro que tive com uma pessoa especial, rente ao rio.

Quase do nada ela perguntou-me: «Sonhas muito?»

Olhei-a meio surpreendido, antes de responder: «Jà sonhei mais. Muito mais!»

Pois é, a vida não está grande coisa para sonhos...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, janeiro 14, 2026

Parece que estou num país diferente...


Quem é mais assíduo no meu "Largo", sabe que o meu transporte preferido para vir de Almada a Lisboa e depois voltar, é o cacilheiro.

A principal razão é o Tejo, mas não é a única.

Hoje, por estar com pressa, acabei por apanhar o metro e depois o comboio. Cheguei mais rápido mas a viagem é muito diferente. Tudo começa e acaba nas pessoas. Quem como eu gosta de "olhar", sente que tudo se torna mais cinzento, mais pesado à nossa volta...

Mas basta pensar um pouco, para perceber o porquê desta mudança. Mudança que por vezes até me faz sentir que estou num país diferente...

O comboio é um transporte de trabalhadores, de gente que já sai de casa angustiada, só de pensar no que a espera nas próximas oito horas... O cacilheiro é uma "zona mista", composta maioritariamente por turistas de todos os mundos. Além de sorrirem mais, também passam o tempo a olhar para as janelas e a deliciarem-se com o Rio.

Esta energia acaba por chegar aos restantes viajantes, que até são capazes de sorrir. 

É como se se deixassem aprisionar pela leveza do sorriso dos outros...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, novembro 21, 2025

Os velhos "laranjinhas" estão quase a desaparecer no "mapa" do rio...


Como acontece muitas vezes, perdi o cacilheiro por um minuto. Em vez de ficar parado à espera, cirandei pelo cais de Cacilhas, a fazer tempo.

Depois de ter ido até ao Farol e voltado, vi que era uma das velhas barcas laranjas, o "Sintrense", que estava atracada ao cais.

Os "caixotes eléctricos" já andavam por aqui. Já viajara num deles e sabia que daqui a nada os "laranjinhas" desapareciam do mapa...

O que me fazia confusão não era as novas barcas não terem proa, era terem perdido a sua cor característica, que passava a ser apenas um risco na nova imagem de marca. Era aquele laranja que sobressaía tanto nas fotografias e aguarelas que retratavam a travessia, estar prestes a desaparecer.

Mais uma vez fiquei a pensar que era muito conservador, em algumas coisas, mais ou menos tradicionais. Lembrei-me dos eléctricos de Lisboa, que houve um tempo em que estavam a perder a cor para a publicidade excessiva e também dos táxis, que felizmente voltaram à velha cor, ao preto e verde...

Ninguém é perfeito.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, outubro 31, 2025

Um Outubro que se despede em tons de cinzento...


Da minha janela, virada para o Tejo, olho o "melhor rio do mundo", pintado de cinzento.

Curiosamente, continua belo, mesmo sem ter os tons verdes e azuis habituais, graças às nuvens que escondem o Sol. 

Mas o Sol não se rende e tenta furar as nuvens que lhe dão banho, oferecendo novas tonalidades de cinzento e iluminando as águas do rio...

É o Outubro a despedir-se, quase num quadro a preto e branco, memorável...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, outubro 17, 2025

As barcas são sempre mais bonitas que os barcos ou navios...

Olho-as da janela ou da varanda das traseiras da minha casa, passam por mim dezenas de vezes, desde as de carreira, para o Barreiro, Montijo ou Seixal às mais pequenas de pesca, que se abrigam rente aos muros da Base Naval. Base de onde de longe a longe, saem as barcas mais cinzentas do Tejo, quase sempre para missões de apoio e socorro...

Nas conversas de rua, os marinheiros das barcas cinzentas estão sempre prontos a corrigir, aqueles que acham normal utilizar o seu masculino, dizendo com o pouco orgulho que lhes resta, que na Marinha só existiam navios (pois é, nada de barcos ou barcas...).

Também consigo olhar as barcas gigantes, que se fazem anunciar no adeus à Capital, com uma sirene de despedida, que enche as águas e chega às duas margens do Tejo.

Embora a minha varanda me ofereça, "muito Tejo, muito Tejo" está longe de ser o melhor miradouro do "melhor rio do mundo". Bons, bons são os do Jardim do Castelo e o da Casa da Cerca (o meu preferido e o do retrato...). 

Aí sim, as barcas ganham toda a poesia que as caracteriza... E se forem veleiros e o vento deixar, até desfraldam as velas e avançam pelo estuário fora, a fingir que o Tejo é um Oceano, ao mesmo tempo que os homens do leme, fingem-se orgulhosos de serem "netos dos nossos navegadores"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, agosto 03, 2025

Regresso (quase festivo) ao Ginjal


Ontem, tal como hoje, o dia estava quente, demasiado quente.

Tínhamos acabado de regressar.

Duas três frases batidas e a pergunta: porque não ir dar uma volta, ir passear ao lado do Tejo?

E fomos. 


O Ginjal esperava-nos. Tinha sido aberto de novo às pessoas, depois das "demolições".

Num primeiro olhar, parece mais amplo, por não ter paredes nem sombras. No Inverno, ainda se irá notar mais, embora também se esteja mais desprotegido do "mau tempo no Cais"...


Quem deve dar vivas, a este caminho aberto, são os dois restaurantes, com filas enormes, para quem quer ter o prazer de se sentar e estar duplamente a dar de beber e comer aos sentidos...

(Fotografias de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, janeiro 06, 2025

Duas notícias diferentes sobre o mesmo acidente


Quem gosta de estar bem informado, como eu, fica surpreendido, pela negativa, mais vezes do que deseja, com o que lê, o que ouve e o que vê.

Aqueles que achamos mais credíveis também "metem a pata na poça", porque na ânsia de dar a notícia, esquecem uma regra essencial do jornalismo, ouvir ou consultar sempre mais que uma fonte.

Há pouco, soube de um acidente no Tejo, entre uma das barcas de carreira do Barreiro e um pequeno barco de pesca fluvial, que provocou dois feridos graves e dois desaparecidos, entre os pescadores.

Já escurecia e não consegui perceber o local onde se tinha dado o acidente, na minha varanda com vista para todo o Mar da Palha. 

As notícias ainda eram vagas. E como de costume, foi o CMTV o primeiro a dar a notícia. Falaram logo do embate entre um "Ferry" do Barreiro e uma embarcação de pesca. Poucos minutos depois mudei para a SIC Notícias e ouvi uma outra notícia, o acidente tinha sido perto de Cacilhas, entre um Cacilheiro que fazia a ligação entre Lisboa e a Localidade Ribeirinha, e um barco de pesca.

A aproximação entre as notícias ainda demorou algum tempo. O mais curioso, é que eu pensava que quem estava errado era o CMTV, pela sua ânsia em "ser o primeiro"... O seu erro foi me depois transmitido pelo meu filho, por eles insistirem no "ferry", que é a denominação de um barco misto, que leva pessoas e viaturas.

Claro que é um erro de só menos, quando comparado com o do canal noticioso da SIC. Embora o rio seja largo e extenso rente a Lisboa, é quase como nos enganarmos na rua onde ocorreu um acidente, pois as rotas seguidas pelos barcos de carreira para Cacilhas e para o Barreiro são completamente diferentes...

O grave da situação (para além dos dois desaparecidos), é ser normal esta discrepância de notícias, às quais nem sempre damos a atenção devida, por estas serem cada vez mais tratadas com o guião das "telenovelas". E muito menos os jornalistas dão a "mão à palmatória"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quinta-feira, janeiro 02, 2025

O ano que começa...


Haverá quem mude de vida, de forma radical, por várias razões. Talvez as profissionais e amorosas sejam as que mais concorrem para essa necessidade de partir, de ser e fazer, diferente...

Claro que não vão estar à espera do começo do ano, para a tal mudança de vida, por vezes demasiado urgente (é quase uma questão de sobrevivência...).

Nós não queremos fazer coisas diferentes, neste ano que começa. Queremos sim, continuar a fazer as coisas que gostamos. De preferência, melhor. E se possível, com mais prazer ainda.

Talvez tenha sido por isso que ontem mal me levantei, escrevi mais que uma página de histórias, que vão tentar furar este tempo, que se quer afirmar quase "sem história", quase sem os valores que nos tornavam mais iguais.

Também fiz um passeio solitário e fresco pela margem do Tejo, num Ginjal que nesta altura quase que nem consegue ver o Sol (o que ajuda a perceber todos aqueles que só voltavam a fazer vida no Ginjal no começo de Maio, abrindo as janelas e as portas para deitar fora a humidade que devia deixar um cheiro estranho nas divisões das casas...).

Já Cacilhas, esconde o frio e agarra o Sol com tudo o que pode, desde as mãos aos pés, para sonhar com um mundo diferente, mesmo que o bom senso continue a estar longe de ser a melhor característica humana...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, dezembro 08, 2024

A Europa não é o Oriente...


Há uma questão da qual nunca se fala, quando nos referimos às diferenças sociais, atribuídas às crenças e credos religiosos.

Estava a ver duas mães rodeadas dos filhos, a pescarem, rente ao Tejo, ainda em Cacilhas, no começo do Ginjal, com o rosto tapado com as suas "burkas" e fiquei a pensar nas crianças que as rodeavam.

Por muito que os pais insistam em "viver numa ilha", eles com toda a certeza, andam na escola, até porque é decisivo que aprendam português, para serem cidadãos como nós, para conhecerem melhor este mundo diferente que os cerca.

Será que eles acham graça a este "baile de máscaras" protagonizado diariamente pelas suas mães (sei que ainda há uma pergunta a fazer antes desta, é se estas mulheres se sentem confortáveis, quando circulam de rosto escondido, nas nossas ruas...)?

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, setembro 11, 2024

«Todos faltamos a encontros. Uns mais que outros...»


Talvez algumas pessoas possam fazer da "falta a encontros" quase uma profissão. Talvez.

Outras, quase nunca faltam, mesmo aqueles encontros onde não apetece estar.

Foi o aconteceu à Rita, quando me ligou a meio da manhã. Perguntou-me onde estava. Estávamos separados pelo rio e pouco mais.

Foi ela que apanhou o cacilheiro e me levou de viagem pelo Ginjal fora. Precisava de me contar uma coisa. Aliás, duas.

Faltou a um encontro. E logo ela, que não se lembrava de falhar ou riscar qualquer marcação na agenda...

Foi quando eu lhe disse, com um sorriso: «Todos faltamos a encontros. Uns mais que outros...»

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quinta-feira, agosto 22, 2024

Marés Vivas no Ginjal...


Quase tudo pode ser um "espectáculo", depende apenas do nosso olhar, daquilo que os nossos olhos querem ver.  

Graças às marés vivas as águas do Tejo subiram bem muito mais que um palmo durante as tardes desta semana. Lembrei-me de algumas aventuras curiosas vividas nas margens do rio perto de Vila Franca de Xira, quando o Tejo "transbordava"... 

Curioso, acabei por caminhar no paredão do Ginjal que estava quase ao "nível do mar", ao mesmo tempo que ia tirando algumas fotografias, aqui e ali.

Gostei bastante da fotografia que ilustra estas palavras.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, agosto 18, 2024

«As pessoas são mais bonitas ao longe»


A minha companhia ocasional durante a nossa caminhada à beira Tejo, além de não perceber o fascínio que o nosso país exerce sobre estas gentes de fora, de múltiplas nacionalidades, ainda menos percebe as filas enormes que elas fazem à beira dos dois únicos restaurantes do Ginjal.

Falei de exotismo. Ela sorriu. Acrescentei também que há sempre o Tejo, logo ali à mão...

Ela voltou a sorrir e a lembrar-me que ele não é muito simpático, ao cair do dia, junta-se ao vento e fazem "miséria". Respondi-lhe que isso era um refresco nestas noites quentes.

Quando regressávamos a Cacilhas ela sai-se com outra boa: «As pessoas são mais bonitas ao longe.»

Voltei a sorrir. Algumas sim, mas quem é bonito, é bonito a qualquer distância. Acrescentei.

Mas percebi o que ela queria dizer. Ao longe, não conseguimos ver os traços dos rostos das pessoas, que parecem mais jovens e bonitas à distância, porque a sua indumentária leve e o sol, são bons a fazer quase milagres...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, junho 25, 2024

Tentar pensar "dentro dos outros"...


O Cacilheiro ainda é "margem-sul", não tens pensamentos sobre o que te rodeia, como eu tive, hoje, no interior do Metro.

Andei atrás no tempo e recordei as minhas primeiras viagens a Lisboa, ainda adolescente, com o meu irmão (ele já devia ter mais de dezoito anos e eu apenas dezasseis e viemos à Capital provavelmente por causa da Universidade, em que ele se preparava para entrar...). Mesmo assim, só dava para sentir o "cheiro a novidade", todo aquele movimento e a quase indiferença das pessoas pelo que as rodeava. Não dava para descobrir muito mais, entre aquele viver e o da nossa cidade de província.

Só quando vim viver para Lisboa (Cruz Quebrada) é que senti mesmo na pele as grandes diferenças, a quase desumanização da sociedade, mais interessada em coisas de somenos, como conseguir "chegar a casa", ao fim de um dia de trabalho ou de estudo... Era uma cidade diferente, esta, do começo da década de oitenta do século passado, mais velha, mais cansada e sem capacidade para explorar o seu melhor (vivia-se de costas voltadas para o Tejo e para os bairros típicos, onde a degradação era demasiado visível, lugares que hoje são os seus melhores cartões de visita, mesmo que sejam só isso...).

Lá estou eu a mudar de assunto ou a ir longe de mais com as palavras...

O que eu pensei, ao olhar aquela gente, mesmo que muitos fossem de fora, era o que viam no buliço da cidade. Provavelmente, vêm coisas diferentes... Os que têm a pele mais escurecida, que chegam das índias, devem achar que em Lisboa é tudo mais calmo ,que nos seus países de origem, demasiado desorganizados e habitados, e também com mais poluição e pobreza... Os das europas não devem pensar muito. Gostam sobretudo do nosso "exotismo" (mesmo que esteja a desaparecer...), dos preços das coisas e da nossa simpatia (mesmo que seja hipócrita...). Ou seja, em quarenta anos, este Lisboa, não tem quase nada da que descobri no fim da adolescência.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 18, 2024

Bocados nossos que colamos às personagens...


Abri o romance que escrevi há mais de trinta anos, na página 35, com vontade de ficar surpreendido. Não fiquei. Depois dei um salto para a página 64, continuava a ser futebol a mais para o meu gosto. Até que dei um "pulo" até à 81 e vi o Tejo. Foi por isso que li em voz alta:

«Olhou a janela do quarto da residencial, descobriu uma rua pouco movimentada que o confundia. Ao longe esperava-o um quadro diferente, o Tejo das horas boas e das horas más.

Voltava a sentir um desejo avassalador de percorrer as ruas de Lisboa e olhar ninfas que prometiam coisas que nunca cumpriam. Parar em esplanadas carregadas de inúteis que apenas sabiam contar anedotas com barbas e conversar sobre o tempo. Queria embarcar num cacilheiro e navegar no rio grande que transformava a capital numa ilha.»

Raramente falo sobre o que escrevo. Acho que isso acontece por achar que não é dos melhores assuntos de conversa. Mas desta vez abri uma excepção e falei de muitas coisas que estavam dentro do livro. Já não me lembrava da maior parte das personagens, mas mesmo assim admiti, que andamos anos a enganar-nos, a fingir que inventamos personagens a partir do nada nas histórias que escrevemos, como se isso existisse. Mais tarde descobrimos que cada uma delas tem sempre um bocado de nós, por muito pequeno que seja...

Outra coisa que fazemos é escolher traços das pessoas que gostamos para serem "bons da fita", e dos outros, que passamos bem sem lhes pôr a vista em cima, para fazerem de palermas ou de bandidos.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)