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terça-feira, novembro 26, 2024

Continuar o vinte cinco no dia vinte seis...


Por tudo o que tenho lido e ouvido (as conferências a que assisti na sede da Associação 25 de Abril, com alguns dos protagonistas, convidado pelo meu saudoso amigo, Carlos Guilherme, foram muito importantes...), existiu mesmo a possibilidade de se desencadear uma "guerra civil", no dia 25 de Novembro de 1975, de consequências imprevisíveis, até porque existiam demasiadas armas na posse de civis (distribuídas pelo exército)...

Há três factores, decisivos, para que só existissem três mortes, e de militares, nesta operação.

Aquilo que nos nossos dias, ainda pode ser entendido como um "acto de cobardia", também pode, e deve, ser olhado numa outra perspectiva, completamente oposta. 

Foi preciso ter muita coragem, para colocar os interesses do país acima de todos os outros (militares, partidários e pessoais). Refiro-me às "ausências" responsáveis de Otelo Saraiva de Carvalho, de Álvaro Cunhal e dos Fuzileiros (que não saíram da sua unidade, para "desempatar" a batalha entre Comandos e Paraquedistas...), decisivas que que este golpe militar fosse controlado por todos aqueles que defendiam a democracia.

Isto só foi possível, porque o Presidente da República era o general Costa Gomes, uma das pessoas mais ponderadas e inteligentes, do "Verão Quente". Foi ele que conseguiu que o Otelo, o Cunhal e os Fuzileiros, ficassem em casa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 07, 2024

Não, Obrigado (regresso do Serviço Militar Obrigatório)


Não encontro explicações racionais para o facto de a nossa democracia, aliás, o bloco central (os Socialistas e os Sociais Democratas) sempre terem tratado as Forças Armadas sem a dignidade que mereciam, desvalorizando a sua importância na sociedade.

Não sei se foram "traumas" por a Revolução de Abril de 1974 e a transição democrática ter sido feita por Militares, por serem eles os nossos "Heróis da Liberdade", e não os políticos e os partidos.  A única coisa que sei, é que tanto o PS como o PSD, foram-se servindo dos Militares, quando lhes dava jeito, ao mesmo tempo que adiavam as reformas tão necessárias (e que nunca foram realizadas por inteiro...).

É importante dizer que isto aconteceu, quase sempre, com a cumplicidade dos generais e almirantes, que nunca foram capazes de abordar os problemas criados com o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO), que foi encurtando cada vez mais o número de homens e mulheres que queriam seguir a vida militar, dificultando o cumprimento das missões em terra, no ar e no mar. 

Se pensarmos que o SMO acabou há mais de 20 anos. E que os Governos e as chefias militares nunca se uniram para tornar a vida militar atraente para os jovens (além de oferecerem poucas perspetivas de futuro e de formação, os ordenados  foram sempre baixos...), não será com o regresso desta obrigatoriedade, que as coisas irão melhorar.

Aliás, só se começou a falar do regresso do SMO, com alguma insistência, porque começa a não haver gente para cumprir os "serviços mínimos", uma vez que cada vez é mais difícil recrutar jovens voluntários para a vida militar. O problema é que os defensores  desta proposta não estão a pensar em melhorar condições para quem quiser ser militar. Estão sim, a pensar que com a "obrigatoriedade" deste serviço, pode acabar-se com o défice humano existente, ao mesmo tempo que se consegue de volta a antiga "mão de obra barata".

É demasiado óbvio que esta tentativa de trazer de volta o SMO, não tem nada de reformista, nem pretende melhorar as condições oferecidas aos militares. É por isso que estou completamente contra este regresso ao passado. 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 24, 2023

Dois "Pedregulhos" no Charco...


Não deixa de ser curioso, que as duas instituições mais conservadoras e menos democráticas da sociedade portuguesa estejam, de alguma forma, a ser colocadas em causa pela forma como funcionam e como interpretam os acontecimentos.

Falo da Igreja Católica e das Forças Armadas (em particular a Armada, que até tem fama de ser o seu ramo "mais democrático"...) e da reacção aos casos de abusos sexuais e à recusa de 13 marinheiros em embarcaram num navio longe de estar operacional.

O advogado Garcia Pereira, na entrevista que deu hoje ao "DN", foi bastante pertinente na forma como abordou este último caso, assim como o funcionamento da justiça, em geral, no nosso país.

Embora saiba que é necessária a disciplina nas Forças Armadas, as coisas têm mesmo de mudar. De uma forma simplista, a mentira de um oficial continua a valer mais que a verdade de um sargento ou de uma praça. E isso não pode continuar, num Estado de direito.

E quando se fala em obediência, apesar do nosso hino nos convidar a "contra os canhões marchar", não se pode, nem deve, entender esta frase de uma forma literal. Não se pode obedecer "cegamente" a uma ordem. Se um comandante mandar que nos atiremos para um poço, profundo sem água, é evidente que temos todo o direito de a recusar, mesmo que depois possamos ser acusados de insubordinação...

É por isso que espero que estes "dois pedregulhos" atirados ao charco, ajudem estas duas instituições a aproximarem-se da sociedade e a funcionarem de uma forma mais democrática e respeitadora dos direitos humanos.

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


quarta-feira, março 15, 2023

Mais de Vinte Anos a "Mascarar a Realidade"...


O que aconteceu na Madeira, com uma embarcação da Marinha e com 13 marinheiros, que se recusaram a participar numa acção de vigilância, tem muito a ver com estes tempos, em que toda a gente parece ter vontade de "explodir".

Provavelmente os marinheiros irão ser castigados por insubordinação. Mas a partir de agora, vai ser muito mais difícil aos governos e ao almirantado continuarem a "mascarar a realidade". 

Porque, pior que o mau estado de uma boa parte dos navios de guerra da Marinha, é a falta de marinheiros. Cada vez se sente mais a falta de homens e mulheres nas unidades navais, colocando em risco as missões normais de defesa e fiscalização, num país com uma costa atlântica como a nossa...

E se a Saúde e a Educação podem  ver parte dos seus problemas resolvidos através das parcerias público-privadas (tão desejadas pela direita...), às Forças Armadas só resta o Estado. Esse mesmo, que se tornou perito em varrer os "problemas para debaixo do tapete"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, abril 20, 2022

Uma Guerra que Serve para Tudo (por cá alimenta a "feira de vaidades" e o "enriquecimento curricular")...


Sei que este título ficou ligeiramente comprido, mas teve se ser mesmo assim... Até porque a Guerra na Ucrânia tem alimentado uma série de coisas curiosas, no jornalismo televisivo do nosso burgo.

Não me lembro de ter visto tantos "especialistas" sobre o que quer que seja, a desfilarem pelos vários canais noticiosos, quase minuto a minuto. São centenas de pessoas, homens e mulheres, com mais e menos idade. Não fazia ideia que existiam tantas mulheres com conhecimentos bélicos (sei que o mundo mudou, mas...). E também pensava que já não havia tantos generais nas nossas forças armadas (parecem ser mais que os soldados, actualmente existentes nos quarteis...). Mas nota-se que estão bem sintonizados com o mundo actual, são capazes de dizer uma coisa hoje e amanhã o contrário...

Outro aspecto que não me tem passado ao lado, é o desfile diário de "repórteres-de-guerra", em todos os canais com notícias. Quase todos os jornalistas e apresentadores de telejornais, se devem ter voluntariado para viajarem para a Ucrânia ou Polónia, pois querem muito "colar" ao seu currículo a passagem por este "cenário de guerra". Não os somei todos, mas no conjunto, entre RTP, SIC, TVI e CMTV, os enviados especiais já se devem aproximar da centena (ou até ultrapassar)...

Infelizmente, as guerras servem para tudo...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


quarta-feira, abril 24, 2019

O Dia que Ainda Não É...


O 24 de Abril na actualidade é sobretudo um dia de antecipações de festas por todo o País (entre nós joga-se muito na "antecipação", para ficarmos primeiro na fotografia que os outros...).

Mas há 45 anos a história era muito diferente...

Ao contrário do que por vezes se diz por aí, a preparação da Revolução foi um segredo muito bem guardado. Isso ficou a dever-se em grande parte ao facto de ter sido protagonizado por militares, que normalmente são disciplinados e têm um sentido de honra diferente do comum dos mortais. Por outro lado sabiam o que estava em risco, caso falhasse a tentativa de Golpe de Estado. Pelo que quanto menos pessoas soubessem e estivessem envolvidas melhor (especialmente para elas). 

Mesmo no dia 25 de Abril havia alguma desconfiança, pelo menos nos sectores mais politizados, pois não sabiam muito bem se o golpe era democrático ou da extrema direita (Kaúlza de Arriaga conseguia estar à direita do regime...). Foi por isso que houve quem se mantivesse na "clandestinidade" por mais alguns dias, e até meses...).

Ou seja, o dia 24 de Abril de 1974, para a maioria dos portugueses foi um dia igual aos outros. Tanto para quem ouvia as "conversas em família" como para quem conspirava contra a falsa "primavera marcelista".

A DGS continuou a perseguir e a querer prender "comunistas"... e os antifascistas continuaram a tentar antecipar os seus passos, fugindo sempre que podiam...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, outubro 24, 2018

A Apropriação das Memórias...


Tenho lido algumas críticas (quase sempre de militares...) a António Lobo Antunes, por ele ficcionar demasiado a Guerra Colonial. Outros ainda vão mais longe, e duvidam mesmo que ele, que foi médico militar, alguma vez tenha pegado numa arma, ou até tenha estado em contacto directo com o fogo inimigo.

Acho todas estas críticas patéticas e mentirosas. Sem precisar de lhe perguntar, tenho a certeza de que pegou em armas, assim como esteve presente em situações de combate.

Mas mesmo que isso não tivesse acontecido, reconheço toda a legitimidade a Lobo Antunes para escrever sobre essa guerra estúpida (como são todas...). Ao tratar dos seus camaradas feridos em combate, sentia as suas dores e o feridas, um pouco como suas. É esse o espírito militar. E a união ainda se solidifica mais em situações dramáticas... 

E vou ainda mais longe, o escritor faz muito bem em se apropriar das memórias dos seus antigos camaradas, que sabem que têm nele, um extraordinário "porta-voz".

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, outubro 13, 2018

As Vaidades e os Masoquismos dos Governantes


Desde o início que se percebeu que o ministro da Defesa, não tinha nada que ver com aquela pasta e com aquele mundo (provavelmente a escolha do primeiro-ministro já foi feita com esse sentido, para que se fingisse que se fazia alguma coisa, sem se fazer coisa nenhuma...).

Mas os imponderáveis, como o "roubo de Tancos", são tramados...

Só não percebo é porque razão as pessoas (muitas mesmo...) aceitam ser ministros, de matérias que desconhecem, e não demonstram grande interesse em conhecer, para lá dos "dossiers"... Se calhar até percebo: a vaidade de um dia se ser ministro de qualquer coisa, ultrapassa todas as lacunas, possíveis e imaginárias, especialmente num país que continua a viver sobretudo das aparências.

E quem normalmente acaba por ser prejudicado com todos estes "jogos políticos", somos nós, portugueses...

Também não entendo por que razão, os ministros não abandonam os cargos, quando toda a gente percebeu (até eles...), que estão ali a mais. Parece que preferem ser "queimados vivos", como é a vontade do primeiro-ministro, que só aceita demissões, depois dos seus "muchachos" estarem bem "chamuscados" (sim, que este caso, é apenas uma repetição do que se passou com a ministra da administração interna).

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, outubro 03, 2018

Medalhas & Tiros nos Pés...


O assalto a um dos paióis de armamento de Tancos, é de tal forma caricato e inverosímil - em todos os seus episódios - que a realidade ultrapassa mais uma vez a ficção.

Mesmo assim é importante perceber que nada disto aconteceu por acaso, que foi um dos "preços a pagar" pelos muitos anos de desinvestimento nas Forças Armadas e na degradação da condição militar (provavelmente chegou-se a um ponto em que já existem mais oficiais e sargentos que praças na Marinha, Força Aérea e Exército...). Os principais responsáveis por se ter chegado a este ponto, são os três partidos do "arco governativo", quase sempre com a complacência das chefias militares, mais preocupadas com as suas estrelas e louvores, que com os homens e mulheres que comandavam.

Mas o que ainda me deixa mais apreensivo em todo este "filme", é a falta de cooperação que existiu entre as polícias (neste caso particular entre a PJ e a PJM...), desde o começo de todo o processo. 

Parece que a "coroa de louros" é sempre mais importante que o trabalho em equipa, para a resolução rápida e séria dos vários casos de polícia, que envolvem mais que uma força de segurança ou polícia de investigação...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, julho 05, 2017

Mais de Quarenta Anos de Desconfianças e Medos...

Os políticos do "bloco central" nunca se conseguiram relacionar de uma forma normal com os militares. 

Nunca lhes perdoaram o facto de terem sido os verdadeiros heróis da revolução, e muito menos da "contra-revolução".

Vingaram-se de várias maneiras. A mais visível é o facto de nenhuma das grandes figuras de Abril ter atingido o posto de general. Salgueiro Maia, Melo Antunes, Vitor Alves, Otelo Saraiva de Carvalho ou Vasco Lourenço,  marcaram e marcam passo como coronéis...

Muitos dos políticos que foram ministros e secretários de Estado, a partir de 1976, nem sequer cumpriram o serviço militar obrigatório (talvez por isso, tenham conseguido acabar com este desígnio patriótico, que em muitos casos era único na vida de milhares de jovens, pois só na instituição militar percebiam o verdadeiro significado de palavras como disciplina, respeito, ordem e espírito de corpo...), ou seja, eram contra a instituição sem sequer perceberem a lógica da sua existência.

Outros mais sabidos tinham "medo", até por saberem que as grandes revoluções do país tinham tido como principais actores os militares. Foi por isso que andaram anos anos a nomear para as suas chefias oficiais generais conservadores e pouco incómodos (na gíria militar "lambe botas"...).

A única coisa a que não podiam fugir era às obrigações que Portugal tinha com a Nato. Foi por isso que continuaram a gastar dinheiro em missões internacionais e em armamento (mesmo com exageros, como foi o caso dos submarinos do Portas...).

Alguns militares mais atentos foram lançando avisos ao longo dos anos, que eram desvalorizados tanto pelos políticos do costume como pelos jornalistas, que gostavam de os apelidar como a "brigada do reumático".

E agora somos notícia no mundo, por um daqueles acontecimentos, que quase parecem anedota (se puderem leiam a crónica de hoje do Ferreira Fernandes no "D. Notícias"...), mas aconteceu mesmo.

E como acontece sempre nestes casos, os políticos de direita da oposição - gente sem vergonha e sem memória -, "exigem" demissões, demitindo-se eles, como de costume, das suas responsabilidades (que não são menos que as do PS...) de mais de quarenta anos de governação contra a instituição militar.

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, julho 02, 2017

O Lado "Vampiresco" da Política...


Há muitas coisas que me incomodam na política e no jornalismo especializado.

Uma das mais irritantes é o lado "vampiresco" dos seus múltiplos actores, sejam eles políticos, comentadores ou jornalistas.

Sempre que acontece uma desgraça, o que todos eles querem é "sangue", começam logo por pedir demissões (muitas vezes parece ser a sua única preocupação, como se elas por si só resolvessem alguma coisa...).

Gostava de os ver tão assertivos na assumpção de responsabilidades em matérias tão delicadas como as que continuam a fazer manchetes nos jornais, nas rádios e nas televisões, a tragédia dos incêndios e o recente roubo de material de guerra numa unidade militar. E fundamentalmente na procura de erros graves e dos seus culpados, e não na aposta do seu "esquecimento"... 

Sim, porque este assobiar para o lado constante, sem que se avance com as reformas tão necessárias, quer no planeamento e ordenamento do território  de um lado, quer das forças armadas de outro (há largos anos que se tenta gastar o mínimo possível com os militares, Portas e os submarinos, são a excepção nas últimas duas décadas...), só pode dar desgraça atrás de desgraça... 

quarta-feira, maio 31, 2017

Mãos sem Pedras e Passos Trocados...

Nunca percebi muito bem o porquê, dos governantes do "bloco central" - mesmo sabendo que sempre foram bons a "destruir coisas" - decidirem acabar com serviço militar obrigatório, essa coisa chata, que "irritava" os meninos das juventudes partidárias, talvez por serem obrigados a sentir (pelo menos na recruta...), que eram quase iguais aos outros. Aliás, acho mesmo que aquele era o único sítio onde poderiam experimentar, muito suavemente, o que é ser cidadão da Coreia do Norte (pelo menos no corte de cabelo, no uso da farda e no tratamento pessoal...).

Graças a eles, agora os jovens passam de adolescentes a adultos sem experimentarem, pelo menos uma vez na vida, que têm de obedecer a horários e a regras, e que a graça de um espertinho pode dar direito a um castigo colectivo, reforçando mais uma coisa em desuso, que se chama "espírito de corpo", que na actualidade só poderá ser vivida na prática de desportos colectivos, onde a equipa é (ou pelo menos deve ser...) sempre mais importante que a "vedeta", que troca os olhos ao adversário.

E mais uma vez comecei a escrever e fui-me "perdendo"...

Quando pensei neste título queria escrever sobre a dignidade, o carácter, a sensibilidade e a honra (a autêntica, aquela que vive fora dos discursos...), que não são atributos da esquerda ou da direita, muito menos dos católicos ou dos muçulmanos. Está acima de todos os credos (ou pelo menos devia estar...).

O que eu queria mesmo era valorizar o exemplo militar, do tal espírito de corpo (mesmo que possa ser uma ilusão...), da importância que é darem-nos uma pedra, para sabermos qual é a nossa mão direita e a esquerda, para não andarmos de passo trocado. Era algo que nos iria servir para a vida toda. Só que nestes tempos, ninguém quer saber dessas coisas "chatas"...

(Fotografia de Johua Benoliel - o primeiro fotojornalista português)

quinta-feira, outubro 08, 2015

Publicidade Especial


Descobrirmos coisas velhas com sabor a novas, foi o que mais nos aconteceu depois de Abril de 1974.

E não foi apenas a Coca Cola, até coisas mais simples e saudáveis com os cereais "Corn Flakes", só apareceram por cá com a feliz abrilada proporcionada pelos "Capitães da Malta", cansados de lutar contra um inimigo cada vez mais forte, até por a razão se aproximar cada vez mais da sua causa...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

«Ó Escola!»


Há anos que não ouvia a expressão, «ó escola!». Quando me virei estava longe de pensar que era alguém a meter-se comigo. 

Quem passou pela Marinha conhece bem esta expressão, utilizada entre camaradas, normalmente dos mais antigos para os mais modernos.

Sim, camaradas. Por lá colegas eram as meninas oferecidas das ruelas viciosas e dos bares manhosos, que proliferavam por uma outra Lisboa, distante da dos nossos dias.

Era um antigo companheiro, que não via há mais de quinze anos. Falámos um pouco e despedimos-nos. Quando ele se afastou senti que aquele conhecimento era quase de outra vida, por termos actualmente tão pouca coisa em comum.

Às vezes pensamos que mudámos pouco, mas felizmente há sempre um ou outro episódio que nos prova o contrário...

O óleo é de Adam Pekalski.

sexta-feira, março 05, 2010

Lições de Vida

Gosto de receber lições de vida. Ontem foi dia (aliás, noite) de receber mais uma, de um dos "Capitães de Abril", mais genuinos, e mais importantes, de todo o processo revolucionário que pôs termo à ditadura e nos devolveu a democracia. Falo do coronel Vasco Lourenço, que foi o convidado das "Tertúlias do Dragão", organizadas pela SCALA, em Almada.

Vasco Lourenço além de ter desmontado alguns mitos, explicou-nos a verdadeira génese do "Movimento dos Capitães", num período em que quase todos os militares tinham consciência que a única solução para colocar fim à Guerra Colonial era política. A vontade colectiva de devolver a dignidade e o prestígio das Forças Armadas cresceu de tal forma, que era impossível recuar... e a Revolução saiu à rua no dia 25 de Abril de 1974.
Focou depois o desprendimento dos militares em relação ao Poder. Acrescentando que o grande objectivo do MFA foi criar condições para a realização de eleições livres, para que o poder pudesse ser entregue aos partidos políticos escolhidos pelos portugueses.
E foi isso que aconteceu. Quase trinta e seis anos depois, podemos dizer que se há alguém que não tem qualquer culpa da situação actual do nosso país, são os "Capitães de Abril".
E vou mais longe, não houve ninguém na nossa História de Portugal, que desse uma prova tão grande de generosidade e de desapego ao poder, como os "Capitães de Abril".
Basta olharmos com olhos de ver para todas as revoluções, desde a independência de então Condado Portucalense, em 1143, ao 28 de Maio de 1926.
É também por isso que irei ler com todo o interesse o livro-entrevista, "Do Interior da Revolução", de Maria Manuela Cruzeiro e Vasco Lourenço.

domingo, fevereiro 07, 2010

Diário do Meu Tio (três)

«Às vezes penso que nenhum de nós conseguiu ser feliz.

Perdemos o brilho dos olhos, lá, e sei lá que mais.
Só muitos anos depois de ter voltado, já com cabelos brancos e com os teus primos grandes, é que consegui chorar a ver um filme.
Acho que passamos tempo demais a fugir das emoções. Temos medo de fraquejar, como se as lágrimas fossem a arma dos fracos. Mas é tudo mentira, as lágrimas libertam-nos de tantas coisas.»

Nota: O meu tio um dia resolveu falar-me da guerra, depois de eu o ter questionado várias vezes sobre alguns pormenores e receber sempre respostas evasivas.
Seleccionei algumas das coisas que me disse, que coloquei aqui, sem saber muito bem porquê.
Sei que são poucas as pessoas que falam dos momentos que viveram a combater os inimigos, falam apenas da copofonia das cidades, do clima, das mulatinhas e pouco mais. É compreensível, nenhum de nós gosta de falar de coisas sobre as quais não sente qualquer orgulho. Acho que quem viveu a guerra com alguma intensidade, não fala nisso porque sente que deixou por lá um pedaço da alma, regressou sem a capacidade de sorrir e viver, que tinha antes...
E nem vale a pena falar dos pesadelos...

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Diário do Meu Tio (dois)

«Sentir-me culpado? Na altura não. Hoje sim. Mas é impossível alterar o passado...

Sermos muito novos e pouco politizados era uma desvantagem para nós e uma vantagem para os nossos comandantes. Qualquer lavagem ao cérebro fazia com que sentíssemos que nós éramos os bons e os pretos os maus.
Nem sequer me lembro de alguma vez me questionar que aquela terra era deles.
Até isso era compreensível, se passeasses por qualquer cidade moderna, eram os brancos que mandavam e eram donos de tudo.»

domingo, janeiro 31, 2010

Uma Revolta Decisiva

O 31 de Janeiro de 1891 foi um dia decisivo para a República.

Embora a revolta militar republicana que teve lugar no Porto não tenha tido sucesso, as pessoas com um conhecimento mais profundo da realidade portuguesa, perceberam que a monarquia tinha os dias contados. Algumas pela primeira vez...

sexta-feira, abril 04, 2008

Grito de Revolta na Madeira

Hoje comemora-se o 77º aniversário da Revolta da Madeira, que teve como principal protagonista o general Sousa Dias, exilado na Ilha e durou 28 dias, enervando, e de que maneira, os ditadores do Continente...
Muitas vezes fala-se do povo madeirense, como se ele não fosse muito personalizado, graças ao que nos vai chegando de Alberto João Jardim. Só que a nossa visão, não é exactamente a mesma dos habitantes da Ilha. E eles é que sabem com que linhas se cosem...
Esta "memória" serve também para falar de um livro evocativo da efeméride, "Lenços Brancos", uma narrativa escrita por Berta Helena, uma jornalista madeirense que resolveu "juntar bocadinhos" que ouviu aqui e ali (além da pesquisa histórica, claro...) e contar a história do avô, o sargento Firmino Camacho, oferecendo-nos um relato pessoal de como terá sido acolhida a Revolução na Ilha, que é uma agradável surpresa...

domingo, novembro 25, 2007

A Reposição da Democracia

Há trinta e dois anos deu-se o 25 de Novembro, um golpe militar que teve como principal objectivo acabar com os "avanços" esquerdistas, que começavam a colocar em perigo o regime democrático de Abril.
O sucesso desta acção militar só foi possível graças à passividade de algumas das pessoas que tinham mais poder no nosso país (Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal, por exemplo), que perceberam que a reacção ao golpe colocaria Portugal numa mais que provável guerra civil.
O general Costa Gomes foi um excelente "fiel da balança" em todo este processo, que entre outras coisas, conseguiu que os fuzileiros e os pára-quedistas - ao lado dos sectores mais revolucionários - não saíssem dos quartéis, evitando os confrontos armados...