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segunda-feira, outubro 26, 2026

O país das falsas questões e das não decisões...


No futebol há uma expressão que diz muito sobre sermos melhores a destruir que a construir, que é o vulgar "chutar para canto".

Também é muito normal discutirmos o acessório e deixarmos o importante quase sempre para trás, como se vê com os problemas da habitação, que acabam por ter interferência em quase tudo das nossas vidas. Em vez de se falar da nova lei do arrendamento (que espero que seja metida na gaveta pelo governo...) e da falta de casas, fala-se do direito à manifestação, da violência policial ou da pernoita em tendas...

Pior é sermos o país em que os governos (quase todos são bons a não tomar decisões e a culpar os outros pelos seus próprios erros...) adiam a resolução dos problemas mais prementes, até estes se tornaram verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento do país ou mesmo dramas sociais...

A construção de um aeroporto arrasta-se há pelo menos quatro décadas. O mesmo se passa com o comboio de alta velocidade. E nem vale a pena falar dos hospitais públicos necessários que não se construíram próximo dos principais centros urbanos... e que em alguns casos já foram substituídos por unidades de saúde privadas.

O nosso normal dos políticos é prometer e não fazer.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, outubro 12, 2026

«Se isto continuar assim, vou ter de fechar...»


«Se isto continuar assim, vou ter de fechar...»

Ouvia aquele desabafo, a cinco metros de mim, e sabia que não se tratava de "música de cordel". Caminhávamos novamente para o fundo de qualquer coisa. A vida voltara a estar difícil, para todos, sem excepção (a meia dúzia do costume não conta...).

Uma noite antes passara por outro lugar de petiscos, que não visitávamos há meses (mais largos do que pensava, facto comprovado pelas as mesas e as cadeiras novas, oferta de uma cervejeira...). A minha companheira estranhou encontrar clientes diferentes, mais jovens, mas que quase enchiam a casa.

Depois percebemos que era a noite dos "jogos de tabuleiro". O dono, de quem nos tornámos amigos durante a pandemia (era um dos poucos lugares onde bebíamos café sem grandes incómodos, por ter uma esplanada que mantinha as distâncias), contou-nos a história daquele encontro de amigos, e quase que nos disse: "venham elas, as noites de jogos, todos os dias"...

Claro que não seria comigo que estas "casas de pasto" se iriam governar. Além do meu almoço tertuliano semanal, fazia praticamente todas as outras refeições em casa...

Mas era triste ouvir o discurso do primeiro-ministro, sempre preparado para apontar o dedo aos "xocialistas", ao mesmo tempo que mentia descaradamente, ao dizer que "estava tudo melhor". 

Não é o que dizem os rostos das pessoas, muito menos as ruas, com cada vez mais lojas e restaurantes fechados...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, outubro 04, 2026

Os deputados da vergonha (mesmo no interior das suas famílias)...


Eu estou farto de saber que o mundo nunca foi a apenas "preto e branco". Há toda uma paleta de cores, que faz com que o mundo seja muito mais coisas, do que aquelas que imaginamos.

E ainda fico algumas vezes surpreendido com as histórias que me contam. É por isso que me apetece usar o slogan comercial mais popular do Pessoa sobre a bebida pela qual Salazar nunca morreu de amores: "primeiro estranha-se, depois entranha-se"...

Não fazia ideia que no interior de algumas das chamadas "boas famílias", se dizia o pior possível do Chega, por estas saberem "o que a casa gastava". O partido tinha imergido no seu seio, com os seus piores elementos, ou seja, com os filhos que eles nunca escolheriam para gerir as suas empresas ou os seus interesses. O que lhes faltava em competência, sobrava em esperteza e isso nunca foi bom para os negócios. Aquele "vale tudo" assustava-os, por saberem que normalmente era isso que os levava à ruína.

Alguns mais desbocados, nem sequer escondiam a vergonha que sentiam pelas tristes figuras que os seus familiares faziam no Parlamento.

Claro que também sei que há muitas outras famílias do "antigo regime", que se sentem orgulhosas do crescimento do Chega, por terem a sensação de que o 24 de Abril já esteve mais longe...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, setembro 09, 2026

«Continua a falar-se pouco do país que queria ser uma "máquina de fotocópias humanas"»


Percebi de uma forma curiosa, que a liberdade estava longe de ter o mesmo valor para a quase dúzia de pessoas sentadas à mesa do jantar.

Sempre falámos de política de uma forma aberta, usando as divergências que surgiam aqui e ali, com algum humor.

Por ser o mais velho daquele convívio, fui sentindo com o decorrer da conversa que o meu mundo era diferente do deles. Mas não era só isso. Eu sempre fui pouco maleável a novas ideias e a novas tecnologias (era o único que não usava smartphone e isso podia explicar muita coisa...).

O mais estranho, era aquela gente achar-se mais bem informada que eu, por estarem a ler títulos de notícias quase minuto sim minuto não, ignorando que eu era assinante e leitor de jornais a sério...

Houve mesmo alguém que foi capaz de dizer que o país do Salazar não era assim tão mau como o pintavam. Foi quando eu disse que era muito pior.

A duas ou três coisas que foram ditas de forma leve, eu respondi com meia-dúzia de factos, que por si só, conseguiram silenciar aquela mesa, por alguns segundos.

Antes do ignorante atrevido meter a viola no saco, por perceber que estava sozinho, ainda lhes disse: «Percebo que não conheçam a realidade do país salazarento. Continua a falar-se pouco do país que queria ser "uma máquina de fotocópias humanas".»

Os sorrisos voltaram à mesa e começou-se a falar de futebol, pois tanto o Sporting como o Benfica tinham acabado de ganhar os seus jogos de "pontapé na bola"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, agosto 28, 2026

A chamada "lei de retorno" e o nosso habitual assobiar para o ar...


É normal que cidades como Lisboa ou o Porto, ao duplicarem (sei que são mais...) o seu número de habitantes - mesmo que estes sejam apenas de ocasião - passem também a registar o dobro de crimes, com a tendência de que estes se tornem mais violentos, se os bandidos perceberem que existe uma forte possibilidade de escaparem impunes.

É que isto de se receber todos os dias dezenas de milhares de turistas, não significa apenas mais receitas em taxas turísticas ou mais gente a largar dinheiro nos monumentos, nas lojas, nos cafés ou nos restaurantes... há também a chamada "lei de retorno", que inclui sempre algumas chatices, como a apetência para o "gamanço" dos "amigos do alheio" (alguns parece que também chegam de fora...).

E por isso mesmo devia existir um reforço policial condizente com o aumento de pessoas nas ruas. Reforço que tem sido constantemente adiado.

Isso explica que no percurso que fiz ontem a meio da tarde, entre o Cais Sodré e o Rossio, só me tenha cruzado com uma agente da polícia, e já nesta praça larga, povoada de gente.

Por muito que nos agarremos à estatística e que continuemos a assobiar para o ar, é óbvio que o Governo não está a levar a sério a questão da segurança nas duas principais cidades do país. 

É provavelmente o único ponto em que o "alcaide calimero" da Capital, sempre estridente, tem razão. 

A presença de mais polícia nas ruas, além de transmitir segurança às pessoas, faz com que alguns larápios pensem duas vezes, antes de "atacarem"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, agosto 25, 2026

«Como é que se contraria a versão humana, do "desde que não me chateiem, está tudo bem"?»


A pergunta fazia todo o sentido e teria uma boa resposta, quase moderna, fazer-se uma "actualização" da tal versão humana, menos egoísta e com mais sentido cívico e colectivo.

Foi o Rui que colocou a questão, por perceber que o seu prédio está prestes a ser "tomado de assalto", por uma empresa que já gere a maior parte dos edifícios da sua rua. Ninguém se quer dar ao trabalho de administrar o condomínio e estão pouco preocupados se o valor da prestação mensal passe a ser o dobro num futuro próximo...

As colectividades que conhecemos também vieram à baila, por serem dirigidas há anos e anos pelas mesmas pessoas, devido ao desinteresse dos seus associados, sobretudo pela forma que elas passaram a ser geridas, onde o interesse particular se passou a sobrepor ao de todos.

A Carla deu a mão à palmatória, por ter tornado a filha mais "responsável", afastando-a dos grupos de jovens que defendem o clima de forma mais radical, ao ponto de já terem dado um banho de tinta verde ao primeiro-ministro.

Sim, todos sabemos que não vamos lá com "paninhos quentes", e o mais curioso, é estarmos sem soluções, mesmo à mesa do café... 

Talvez outro tipo de jornalismo, de políticas e de redes sociais, conseguisse combater esta quase "anestesia geral" por tudo o que cheire a colectivismos (e a chatices...). 

Talvez...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, agosto 18, 2026

Há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...


Não era uma questão de sabermos, ou não, dançar. Era mais de querermos, ou não... Também não ficamos nada preocupados que fossem os UHF a animar o Pontal. As coisas são o que são. Almada também já não é o que era. Percebemos neste Verão que a água que sobra no Tejo pode faltar-nos em casa...

Não somos muitos, mas a nós o "conde do rabal" não nos consegue convencer, muito menos os seus serviçais, que se tornaram autênticas "máquinas de propaganda" e passam a vida a tentar "vender" um país irreal, que nem na cabeça deles existe. 

Andamos por aí, quase perdidos nas ruas, utilizamos transportes públicos, vamos aos centros de saúde, os nossos filhos andam nas secundárias públicas perto das nossas casas, fazemos compras nas mercearias e mercados... Ou seja, sabemos que há cada vez mais gente que tenta "sobreviver", porque já não consegue "viver"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, julho 09, 2026

Pois é, parece que afinal "o dinheiro não paga tudo"...


O facto de ainda não ter sentido falta de água canalizada na minha casa, fez com que fosse alvo de algumas "bocas", de quem gosta de se informar através das redes sociais, sem sequer se dar ao trabalho de pensar um pouco, de saber como funcionam as coisas.

Penso que a abastecimento de água  nas cidades não tem grandes segredos. Há vários reservatórios, distribuídos por áreas geográficas, que na maior parte dos casos devem coincidir com os mapas das juntas de freguesia.

Se existir uma zona que consome o dobro ou o triplo da água das restantes, é óbvio que o seu reservatório, acabará por se esvaziar de uma forma mais rápida. E, em casos extremos (como o que está a acontecer no Concelho de Almada...), poderá condicionar mesmo a distribuição normal de água pelas populações.

Isso faz com que a palavra "solidariedade" não faça muito sentido, porque o consumo depende das próprias pessoas. Embora tudo indique que ela até esteja a ser feita em Almada, através do uso de camiões cisternas, que devem ir buscar água aos reservatórios que estão a funcionar normalmente, para a distribuir junto dos almadenses que estão mais necessitados deste bem essencial.

Além das grandes responsabilidades do Município, que não se preocupou em fazer as obras necessárias para evitar este problema, é importante dizer, que os moradores das freguesias mais afectadas, não deixam de ter alguma culpa, no agravar desta situação.

Fala-se de desperdício, e até de roubo de água. Mas existe ainda outro problema: a Charneca de Caparica é a freguesia com mais vivendas, e naturalmente, com mais jardins e piscinas do Concelho. Isso faz com que algumas pessoas usem a água como se esta fosse um bem infinito. E ainda sejam capazes de argumentar: "Se pago, uso a água que quiser..."

E o resultado está à vista...

Nota: As notícias televisivas continuam a não reflectir a realidade. Há uma histeria e um exagero, que levam as pessoas a ver o problema com "lentes de aumentar" e a pensar que todo o Concelho de Almada está sem água.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, julho 07, 2026

O hábito (quase institucionalizado) do "passa culpa" dos políticos


O PSD por ser o partido em que os seus dirigentes continuam a gostar de "encher a boca" com o nome de Francisco Sá Carneiro, devia lembrar-se da sua prática governativa e de um aviso que ele fazia aos seus ministros e secretários de estado, de que só tinham seis meses para denunciar ou desculparem-se com os erros dos seus antecessores.

Muita coisa mudou na política e nos partidos do poder dos primeiros anos da democracia até aos nossos dias. 

É a explicação óbvia que encontro para a forma como a ministra da Saúde, a ministra do Trabalho e agora o ministro da Educação,  dois anos e alguns meses depois de serem poder, continuarem a apontar o dedo e a culpar o PS do muito que funciona mal nos seus ministérios...

Curiosamente, quando inauguram algo feito pelos antecessores, esquecem-se de falar deles...

Estes exemplos dizem quase tudo sobre os políticos do século XXI, que nunca se serviram tanto das meias verdades e das meias mentiras, para justificar os seus actos.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, julho 03, 2026

As coisas de que não se fala quando se ganha...


Só entendo a entrega do prémio "melhor em campo", a Cristiano Ronaldo, por a sua substituição ter sido decisiva para a vitória de Portugal (as quatro substituições anteriores de Martinez tinham desiquilibrado a equipa. Como de costume, o técnico continua a ter dificuldade em "ler" o jogo e a olhar para os seus jogadores como um todo...).

Como todos sabemos, a FIFA gosta de caminhar com demasiados rabos de palha atrás de si, pelo que nada disto é surpreendente. E já estou a léguas da atribuição do "prémio da paz" a Trump. Escrevo sim sobre a sua cobardia em relação ao que fizeram ao melhor árbitro africano, proibido de entrar em solo americano, ou ao tratamento desigual oferecido à selecção do Irão e aos seus adeptos, pelos norte-americanos.

Bonito, bonito, é vermos jogadores como Gonçalo Ramos darem lambadas de luva branca ao seleccionador ou Diogo Costa provar que é dos melhores guarda-redes do mundo...

(Fotografia de Luís Eme - Beira Baixa)


domingo, junho 21, 2026

Já nem é preciso chegar a amanhã para se mentir...


Se eu tivesse dúvidas da paixão que desperta o futebol, em que quase todos querem ter opinião, por mais diversas que sejam, elas dissipavam-se com o que se tem passado com o Mundial.

Nem se pode dizer que a "vox populi" esteja certa, mesmo que faça o mesmo que os comentadores televisivos, num contorcionismo diário, que se normalizou, dando razão a um certo dirigente desportivo que não teve qualquer problema em dizer que no futebol "o que hoje é verdade amanhã é mentira", como se tivesse uma "bola de cristal" para ver o futuro.

É por isso que o nosso "pior do mundo", se marcar um ou dois golos no próximo jogo, corre o risco de voltar a ter de vestir a pele de "salvador da pátria".

Noutros tempos podia-se falar de honestidade ou desonestidade intelectual, mas como estão a querer "matar" e a banir os intelectuais do Planeta, nem vale a pena pensar-se nisso.

A questão mais estranha nisto tudo, foi esta "futebolização televisiva" ter feito "rolar a bola" para todas as áreas, com relevo para a política. Aliás, ainda foi mais longe, nem é preciso chegar a amanhã, para se mentir, como percebemos com os discursos de Montenegro ou Ventura...

(Fotografia de Luís Eme - Feijó)


sábado, junho 13, 2026

Pensava que uma das maiores qualidades que um ministro deve ter é o bom senso...


Luís Montenegro é um primeiro-ministro sui-generis. Mais esperto que inteligente, escolheu duas ministras como os seus principais "para-raios". Ou seja, escuda-se nas "tropelias" e polémicas criadas pelas suas ministras da Saúde e do Trabalho, que são transformadas quase em telenovelas e se arrastam  durante meses, sem que se consiga resolver o que quer que seja, ao mesmo tempo que não se discutem nem resolvem os verdadeiros problemas do país...

Apesar das doses abundantes de propaganda em volta destas duas áreas, não há uma única coisa que se consiga dizer que esteja melhor na saúde ou no trabalho, nos últimos dois anos. 

Na saúde, a ministra além de não corrigir os problemas com maior gravidade, que encontrou no seu ministério, ainda conseguiu criar mais uns quantos, não menos graves...

Em relação à ministra do Trabalho, as coisas ainda são piores. Teve logo uma "entrada a pés juntos", em relação a Ana Jorge, que tutelava da Santa Casa da Misericórdia, assim que tomou posse. E nunca mais deixou de se envolver em polémicas, que culminaram com a Reforma Laboral e a PSU. Consegue ser quase sempre insultuosa, especialmente para com os mais fracos e desprotegidos do nosso país.

Ou seja, Montenegro consegue demonstrar (para seu interesse próprio...), que o bom senso, está longe de ser uma das maiores qualidade que um ministro deve ter. Pelo menos no seu governo...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quinta-feira, junho 11, 2026

O país dos políticos que são fracos com os fortes e fortes com os fracos...


Quando os políticos decidem fazer quase uma "caça ao pobre", como se este fosse o maior dos males do nosso país, além de estarem convencidos de que somos todos estúpidos e invejosos (da miséria alheia...), desceram ainda mais fundo no poço da  desfaçatez e da falta de vergonha.

Já não conseguem esconder mais o cinismo, a hipocrisia, a arrogância, o classicismo e a cobardia, com que regem a sua governação.

É a única explicação que encontro para a sua habitual recusa a taxar os muitos milhões que  entram todos os dias como lucro, nos bancos, nas gasolineiras e nas grandes superfícies comerciais, ao mesmo tempo que "ameaçam" os pobres, com novas regras nos apoios dados, além de trabalho não remunerado, a troco da "esmola" do costume, que querem condensar na PSU.

Ou seja, preferem poupar tostões, com os pobres, a lucrar milhões, com os ricos.

O que este exemplo nos diz, é que é impossível sairmos da habitual "cepa torta", com governantes que são fracos com os fortes e fortes com os fracos...

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade) 


terça-feira, junho 02, 2026

A cultura continua a ser olhada (e entendida) como um mero acessório social


Estava a ler um dos meus cadernos (que são quase diários...), com palavras escritas em 2014 e dei atenção a uma frase sobre a desvalorização da cultura como actividade profissional, na nossa sociedade.

Dava como exemplo a profissão de canalizador, que ninguém tem dúvida de que tem de pagar os seus serviços. O curioso é que esta questão tinha sido levantada por uma professora, de uma escola que visitei, que falou abertamente com os alunos, por não existir qualquer fundo para as visitas de agentes culturais às escolas, como se estivéssemos no século XIX e os convidados fossem pessoas que escreviam, pintavam ou cantavam apenas nas horas vagas...

Seguiu-se uma conversa muito animada e útil com os alunos, que perceberam que pouca gente podia viver apenas do trabalho artístico. Para viver de uma forma normal tinha de ter um emprego certo, o que normalmente só acontecia em poucas actividades culturais, como eram as orquestras, as companhias de teatro ou de dança. 

Lembro-me de ter dito que a culpa em parte era nossa, de quem também não olhava para estas actividades como profissão (como era o meu caso...).

Doze anos depois, pouco ou nada mudou.

Os principais responsáveis por esta situação continuam a ser os governantes, que continuam a gostar de usar a cultura e os agentes culturais para tirarem dividendos pessoais e políticos (as eleições e a manutenção no poder estão sempre na fila da frente...), e não para o interesse de todos e do país.

Os políticos continuam a não estar muito interessados em apostar no desenvolvimento cultural -  mantêm os mesmos tiques, medos e hábitos dos tempos da ditadura -, porque quase todos os seus agentes têm o defeito de gostarem de pensar pela sua própria cabeça...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, maio 29, 2026

O cinema português a filmar a história


O cinema português de vez em quando intromete-se com a nossa história e com os seus protagonistas. E ainda bem.

Foi o que fez José Filipe Costa, com o seu, Pai Nosso - Os últimos dias de Salazar. Estou curioso e quero vê-lo, por mais que uma razão.

A principal é abordar um período histórico, santificado na actualidade por uma direita imergente, mesmo que as suas virtudes maiores fossem a mentira, a ambiguidade, a corrupção, a hipocrisia e a repressão.

Se pensarmos que durante o tempo retratado no filme, existiam em simultâneo dois "presidentes do conselho", um a sério e outro a brincar, isto explica muito a seriedade do regime, apesar do tom cerimonioso dos governantes e da meía dúzia de famílias do regime, que dominavam todos os sectores do país. Sim, não devem existir muitos países que tenham alimentado uma farsa do género durante praticamente dois anos. 

Há muitos portugueses que desconhecem, este, e outros factos curiosos, da nossa história.

E nem vou falar da existência de pelo menos três versões da queda de Salazar (de duas cadeiras diferentes e da banheira...), além da oficial (caiu de cansaço quando estava a "trabalhar para o país" no seu escritório...), divulgada um mês depois do acidente caseiro.

Gosto quando o cinema mostra alguns lados da história, de que se fala pouco... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, abril 12, 2026

A política caseira e as viagens até à Lua...


Pensava que era possível falar de política (sei que com o futebol ainda é pior...), de uma forma descontraída, sem termos necessidade de nos afastarmos uns dos outros, num jantar mais alargado de família.

Estava enganado. Continuam a existir temas demasiado "quentes", tanto à esquerda como à direita...

A primeira discussão começou em relação ao Livre, que a minha filha chamou de um "partido capitalista", apenas por não ser contra a iniciativa privada. Claro que ninguém concordou. Confunde-se muito democracia com outras coisas...

Mas o pior estava para vir depois. Um tio disse que o Chega não era um partido de extrema-direita. Toda a gente o contrariou. Apenas eu o "defendi", dizendo que não sabia se este partido tinha ideologia, para além do populismo, de ser capaz de dizer uma coisa agora e cinco minutos o seu contrário.

Claro que houve alguém de cabelos cinzentos e sorriso fácil, que teve a habilidade de mudar de conversa, falando da "Lua". Até foi capaz de dizer que depois do homem ter chegado ao nosso satélite lunar, pensava que por esta altura já seria normal viajarmos até lá, de forma regular...

Felizmente não havia nenhum "negacionista" à mesa e a refeição continuou animada.

(Fotografia de Luís Eme - Céu)


sexta-feira, março 20, 2026

Cargos de responsabilidade que querem transformar em tachos e tachinhos...


Sem fugir muito ao que escrevi ontem sobre a nossa lei maior, a Constituição, percebe-se que aqueles que deviam ser os primeiros a respeitá-la, desvalorizam-na, sempre que podem.

Isso explica a dificuldade que os principais partidos do Parlamento têm, em chegar a acordo para a nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional.

Quando se mete a política e a ideologia à frente da independência e do dever, acontecem coisas destas...

Os últimos governos tanto de Costa como de Montenegro tiveram de alterar vários diplomas porque eram inconstitucionais. Algo que os fazia "trepar paredes", como tem sido o caso do primeiro ministro actual, que nem sequer esconde o incómodo.

Ou seja, aquela que deve ser a principal qualidade na escolha de juízes para o Tribunal Constitucional - a sua independência em relação ao poder político - é a que menos conta nesta "batalha" pela escolha de três juízes. 

O partido do costume, nem tem qualquer problema em dizer que esta é a altura de virar o país para o lado direito (mesmo nos órgãos que devem ser independentes...), como se o PSD já não fosse um partido democrático...

Pois, o problema está aí. Se calhar o PSD já não é o partido que ajudou a construir esta Constituição, mesmo que os seus dirigentes gostem de encher a boca com o nome de Sá Carneiro...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)


domingo, março 15, 2026

«O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»


Falávamos dos temas nacionais do momento (continuamos a não gostar de falar de guerras...) e lá apareceu o partido do "vale tudo menos tirar olhos" na conversa - que consegue ser ainda mais fiel ao "faz o que eu digo, não faças o que eu faço",  que os partidos, que tanto critica -, com os escândalos do vereador de Lisboa e da sua namorada.

Como temos a mania de que somos todos "gente das culturas", acabámos por falar ainda mais da senhora do mesmo partido, também de Lisboa (Assembleia Municipal), que quer alimentar uma coisa que não existe: uma política cultural de direita.

Mas como sabe que existe a versão oposta (pelo menos no seu olhar...), atacou com as mãos, os braços e as pernas, o Teatro do Bairro Alto, mais por ignorância que por outra coisa. Se estivesse bem informada, sabia que aquele espaço (depois do fim da Cornucópia...) foi criado para se ensaiarem e experimentarem outros lados da cultura e do teatro, mas sem pensar apenas nas minorias. 

Claro que este foi o primeiro ensaio de um partido que quer "matar o teatro" e outras expressões artísticas "esquerdistas", que só conseguem sobreviver através dos subsídios que eles querem cortar (curiosamente, ou não, já contou com a complacência do Moedas, que substituiu, Francisco Frazão, o responsável pelo TBA).

Claro que a culpa acaba de ser de todos nós, de se olhar para  o teatro e para as culturas com estranheza. Se esquecermos os primeiros anos após a Revolução de Abril (anos setenta e oitenta...), nunca se fez um esforço muito grande para criar públicos, para ensinar a olhar o teatro com olhos de ver, tal como outras artes. Teatro esse, que funciona muitas vezes como o nosso espelho, mas sem brilhos...

Foi engraçado a forma como a regressada Rita nos surpreendeu, quando disse: «O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»

Pois é. Parece que não tem nada a ver. Mas tem tudo a ver...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, março 03, 2026

A decência não tem cor, sexo ou ideologia


A vitória de António José Seguro nas nossas eleições presidenciais é o nosso melhor exemplo, de que a decência não tem cor, sexo ou ideologia.

Embora possa haver muitas "interpretações" e "percepções", os mais de 65% de portugueses que votaram em Seguro, votaram sobretudo na democracia.

Esta primeira reacção dos portugueses contra o populismo faz com que acredite que o líder do Chega nunca chegará ao poder, pelo menos como primeiro-ministro.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Parece que a mentira deixou de ter perna curta...


Não sei até onde se chegará, com todo este o movimento social e político crescente, em que se banaliza a verdade, ao ponto de deixar as pessoas cada vez mais divididas, entre a realidade e as percepções interesseiras deste ou daquele (Montenegro é bom nisso, quem o topa é o Passos...).

Sei que é um trunfo usado por todos aqueles que querem chegar ou permanecer "eternamente" no poder. E está longe de ser uma novidade.

Salazar sempre o fez, embora mentisse com o ar mais cândido do mundo e não se servisse do poder para enriquecer (só quem o rodeava é que "enriquecia", dizem...), mas apenas para se perpetuar como "dono do país".

Acontece que hoje, quando vemos e ouvimos Trump ou Ventura a mentirem com os dentes todos (se for preciso ainda pedem alguns emprestados...) e sem qualquer tipo de pudor, ficamos com a quase certeza de que a mentira deixou de ter a perna curta.

No meio disto tudo, há um coisa que ainda não percebi bem, foi se estamos mais estúpidos, ou se apenas fingimos ter as "orelhas maiores"... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)