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sexta-feira, março 27, 2026

O teatro é feito com e sobre pessoas...


Hoje é Dia Mundial de Teatro.

Quando penso em teatro, penso em pessoas.

De certa forma fui um felizardo, porque como jornalista pude conhecer e conversar com algumas das nossas grandes figuras dos palcos.

O mais curioso, é que a primeira entrevista que fiz para o meu "Contraponto" nas páginas do Record de domingo, foi com o grande Rui de Carvalho, que acabou de completar a bonita idade de 99 anos. Ainda me recordo da forma cordial como ele me recebeu,  no seu camarim, do Teatro D. Maria II, todo suado, depois de representar o velho "Minetti" de Thomas Bernhard...

Outra excelente memória que tenho é de Mário Viegas, que era mesmo uma personagem, um gigante nos palcos. Houve também tempo para conversar com Luís Miguel Cintra, Raul Solnado, Diogo Infante, João Perry, Filipe Lá Féria, Eugénio Salvador, João Lourenço, José Viana, Nicolau Breyner, João Mota, Joaquim Benite, António Anjos... E claro, com as excelentes Maria do Céu Guerra, Irene Cruz, Beatriz Costa, Rita Ribeiro, Alexandre Lencastre, Eunice Muñoz e Marina Mota.

Nessa altura o mundo e as pessoas eram mais simples...

E, VIVA O TEATRO!

(Fotografia de Luis Eme - a minha homenagem ao Cénico da Incrível Almadense, o único grupo que encenou e representou uma peça da minha autoria...)



domingo, março 15, 2026

«O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»


Falávamos dos temas nacionais do momento (continuamos a não gostar de falar de guerras...) e lá apareceu o partido do "vale tudo menos tirar olhos" na conversa - que consegue ser ainda mais fiel ao "faz o que eu digo, não faças o que eu faço",  que os partidos, que tanto critica -, com os escândalos do vereador de Lisboa e da sua namorada.

Como temos a mania de que somos todos "gente das culturas", acabámos por falar ainda mais da senhora do mesmo partido, também de Lisboa (Assembleia Municipal), que quer alimentar uma coisa que não existe: uma política cultural de direita.

Mas como sabe que existe a versão oposta (pelo menos no seu olhar...), atacou com as mãos, os braços e as pernas, o Teatro do Bairro Alto, mais por ignorância que por outra coisa. Se estivesse bem informada, sabia que aquele espaço (depois do fim da Cornucópia...) foi criado para se ensaiarem e experimentarem outros lados da cultura e do teatro, mas sem pensar apenas nas minorias. 

Claro que este foi o primeiro ensaio de um partido que quer "matar o teatro" e outras expressões artísticas "esquerdistas", que só conseguem sobreviver através dos subsídios que eles querem cortar (curiosamente, ou não, já contou com a complacência do Moedas, que substituiu, Francisco Frazão, o responsável pelo TBA).

Claro que a culpa acaba de ser de todos nós, de se olhar para  o teatro e para as culturas com estranheza. Se esquecermos os primeiros anos após a Revolução de Abril (anos setenta e oitenta...), nunca se fez um esforço muito grande para criar públicos, para ensinar a olhar o teatro com olhos de ver, tal como outras artes. Teatro esse, que funciona muitas vezes como o nosso espelho, mas sem brilhos...

Foi engraçado a forma como a regressada Rita nos surpreendeu, quando disse: «O que será de nós quando deixarmos de ler livros?»

Pois é. Parece que não tem nada a ver. Mas tem tudo a ver...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, junho 11, 2025

Ser português e defender o país, não é isto...


É importante dizer que o Dia de Portugal é de todos os portugueses, e não de apenas alguns.

E não é o facto de um partido ter agora sessenta deputados no parlamento, que fica com mais legitimidade para dizer e fazer tudo o que lhe apetece. Deveria ser sim, mais responsável. Mas isso é pedir quase o impossível, como se percebeu pelos comentários xenófobos, provocadores e ignorantes de alguns deputados da extrema-direita, em relação aos discursos de Marcelo Rebelo de Sousa e de Lídia Jorge durante a cerimónia comemorativa de Lagos. 

Mas o pior ainda estava para acontecer, em Santos, com agressões cobardes a actores que fazem parte do elenco da peça, Amor é um fogo que arde sem se ver, da companhia de teatro a  Barraca, por um grupo de "neo-nazis".

Se em relação aos deputados, parece não haver muito a fazer, já em relação às agressões, ainda somos um Estado de direito, e quem agride de forma gratuita tem de ser severamente punido.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, maio 13, 2025

E esta? Os políticos a fingirem querer ser apenas "gente normal"...


Nunca pensei que chegaríamos a um tempo em que os políticos, iriam passar a campanha eleitoral a "fingir" que eram pessoas "normais", preferindo passear-se pelos programas da manhã e da tarde, de entretenimento, que têm como espectadores privilegiados, os pensionistas (que também têm sido "disputados" nos discursos, quer pela AD quer pelo PS...), aos debates ou entrevistas políticas mais sérias, com jornalistas chatos e incómodos.

O giro da coisa, foi tudo ter começado com o actor Luís "Monteverde", que tem andado o tempo todo a fugir da sua empresa que tem um nome quase espacial. Só não estava à espera que ele fosse "copiado" por todos os outros cabeças de lista, da esquerda à direita, que nem aos programas de humor, dizem não.

Não sei o que diriam líderes como Francisco Sá Carneiro, Mário Soares ou Álvaro Cunhal, destes novos tempos e destes políticos, mais de entreter, que de falar de coisas sérias...

Talvez não dissessem, mas pensassem o óbvio: "são muito fraquinhos."

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, março 27, 2025

O meu aplauso para todos aqueles que amam o teatro e sentem o palco como um "céu"


Não vou falar do que se diz, quase em jeito de piada, de que o Teatro e a crise, são quase "irmãos gémeos".

Vou falar das mulheres e dos homens que gostam (e precisam) de ser outras pessoas, e que amam vestir as "suas peles" nos palcos.

Gostam tanto de teatro, que até são capazes de fingir que têm o público que merecem, mesmo que as salas onde tentam brilhar, tenham demasiados lugares vazios na plateia, mesmo que os preços nem sejam elevados.

Alguns (cada vez menos...), até se dão ao "luxo" de dispensarem a participação em telenovelas, mesmo que isso os obrigue a andar diariamente em transportes públicos, e que jantem mais vezes sopinha que bifes...

É por isso tudo, que digo: "Viva o Teatro!" 

"Vivam todos aqueles para quem o Teatro é a sua vida!"

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, dezembro 04, 2024

Eles não sabem, mas o teatro é o exagero da realidade...


A maior parte da gente que o conhece, não percebe nem olha com bons olhos para a sua paixão pelo palco.

As conversas quase de ouvido, têm quase sempre apenas um sentido, a sua vaidade pessoal, o querer exibir-se, o querer mostrar-se, em qualquer palco.

Esquecem a sua vontade de ajudar, o querer estar, o querer fazer, a aceitação de qualquer papel mesmo que seja de um simples figurante, como o de um actor amador menor, que ficou no "anedotário local", por causa da mulher. Falo do Tó da Mutela, que também gostava de tudo aquilo, de estar ali ao lado de todos aqueles homens e mulheres com muito mais jeito que ele para a arte de talma.

Quando me contaram a história da "queda em palco", sorri e lembrei-me logo do Tó...

Sim, é histórica a frase da sua mulher após a estreia. Depois de lhe fazer o jantar mais cedo, vê-lo sair de casa e passar os serões a ensaiar a nova peça do grupo cénico, meses seguidos, disse: «Tanta merda para isto? Para atravessares o palco, três vezes, de um lado ao outro, e dizeres apenas boa noite?», insistindo, irritada, «para dizeres uma merda de um boa noite, não era preciso ensaio nenhum.»

Claro que era preciso ensaio. Mas eles não sabem, nem sonham... 

O Tó tinha de conhecer a deixa, tinha de saber o caminho que iria percorrer, de um lado para o outro, no palco. Bastava um precalço para tornar o drama numa comédia...

O que ela nunca percebeu, foi a paixão do seu homem pelo palco, o querer estar ali, participar, nem que fosse apenas para ver os outros. 

Talvez preferisse que ele passasse os serões na taberna (lá não havia mulheres) e não no ensaio...

Foi por isso que percebi a frase do encenador, quando dois ou três elementos do grupo, o criticavam: «Dêem-lhe espaço, deixem-no ter o seu momento, deixem-no cair, sozinho...» 

O papel que fazia, era de um amante, que acabava assassinado em palco. Achavam que ele não caia com naturalidade, fazia um espectáculo dentro de um espectáculo. 

Eles fingiam não perceber que o teatro é isso, é o exagero da realidade...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, novembro 11, 2024

Fartos (e cansados) de perceber a parte do "não há dinheiro"...


Já escrevi vários textos sobre a vida difícil de quem tenta ser artista a tempo inteiro, viver apenas da sua arte, sem ter uma outra primeira actividade que chama segunda...

Talvez a teimosia maior resida em quem faz teatro e raramente recebe convites para  qualquer papel, grande ou pequeno nas telenovelas. Alguns fingem que não suportam a televisão, cada vez mais estupidificante, e acrescentam que nunca aceitariam fazer parte do elenco telenovelesco.

Dizem isto, mas contam os tostões até ao fim do mês, para sobreviverem com a dignidade possível (para alguns isso só acontece porque almoçam e jantam vezes demais na casa dos pais...). Comecei a contá-los e já ultrapassam os dedos das minhas duas mãos...

Olhando para a nossa realidade, só dois ou três "consagrados" é que se podem dar ao luxo de não fazer telenovelas. Mas para contrabalançar este "luxo", fazem publicidade, que normalmente dá mais dinheiro e menos trabalho, que as fitas por episódios que ocupam diariamente os serões televisivos portugueses.

Lá estou eu a querer dizer uma coisa e acabar por escrever sobre outra...

Eu só queria dizer que não há um actor português, das pequenas e grandes companhias de teatro, que não esteja farto e cansado, do disco riscado, que lhes é oferecido, quase todos os dias, de que "não há dinheiro" (quase sempre pelas autarquias...), porque é preciso alimentar as criancinhas nas escolas, sim a fome existe, em quase todo o lado; porque têm de fazer obras para realojar as pessoas; porque é preciso tapar os buracos da estrada, etc.. Ou seja, a cultura não consegue sair do último lugar das prioridades deste país, "cada vez mais de brincar"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, setembro 02, 2024

"Adeus Politécnica" (depois de outro e outro adeus)...


Na sexta-feira passei pela Rua Politécnica e reparei na faixa colocada pelos Artistas Unidos, no gradeamento da entrada do jardim. A Companhia, sem o Jorge Silva Melo, ainda ficou mais desprotegida, porque "dizer continua a ser muito diferente de fazer"...

Enquanto caminhava lembrei-me do grande poeta, Zé Gomes Ferreira, que assistiu à substituição de cafés por instalações bancárias (curiosamente hoje também em vias de extinção...) e deu mostras do seu desencanto nos seus livros, que quase pareciam diários. 

Não muito depois começaram a fechar as salas de cinemas. Mais tarde foi o tempo de se fecharem livrarias... Inventaram desculpas (inventam sempre...), apenas para meterem as salas de cinema dentro dos centros comerciais, tal como depois fizeram com os livros, que passaram a ser vendidos quase ao lado das batatas e do arroz, nos hipermercados... 

Agora nem sequer se viram para o teatro e para os grupos independentes, com salas próprias, limitam-se a cortar os apoios. 

Nunca vão ter a ousadia acabar com o teatro e com os actores. 

Talvez pensem, sim, em os substituir... 

Não é por acaso que os políticos são quem "faz mais teatro" entre nós (mesmo que sejam uns actores medíocres...). Envolvem-se diariamente em farsas, dramas, comédias e tragédias (para os outros, claro) e depois fingem que não é nada com eles.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, junho 15, 2024

«Somos todos malucos. É por isso que continuamos aqui, à espera do Godot...»


Muitas vezes fico sem muitas palavras para meter nos diálogos, quando converso com amigos. Parece que fico preso àquela frase velha e gasta de que, "só sei que nada sei". 

Talvez seja por isso que gosto do depois. Sim, é o depois que me faz acordar com uma vontade imensa de escrever, no dia seguinte e nos outros, sobre as pontas soltas e as outras.

Pois é, a noite tanto é boa como má conselheira.

Aquecia o café e não me saía da cabeça a proximidade daqueles amigos teatreiros com a "Avenida do Brasil". Foi a Rita que disse, num ar alegre, com a concordância geral: «Somos todos malucos. É por isso que continuamos aqui, à espera do Godot...»

Sim, mas além da tal loucura, deve ser preciso alguma dose de marginalidade, e até ausência de amor próprio, como se sentiu no desabafo do Ricardo. A "sopa" que os alimenta, deve ter ainda mais ingredientes, para os ajudar a viver tantas vidas diferentes, esquecendo o "Eu", que é nada mais nada menos, que o primeiro rosto que encontram quando se olham ao espelho de manhã (que quase nunca é de manhã...), e dizem para ele, «estou uma desgraça», como nos contou a Ana a sorrir.

Por serem parecidos com os palhaços, tão são capazes de rir com as coisas sérias, como de chorar, a fingir, porque a personagem que encostaram à pele é ainda mais melodrámatica que eles...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, junho 14, 2024

O teatro é cada vez mais outro...


Ontem estive com três amigos do teatro, que aproveitaram a minha visita, para fazerem contas à vida, para depois acrescentarem que os problemas continuam a ser os mesmos de sempre, para quem a vida nunca foi fácil, neste país que faz "gala" em tratar mal os criadores (quase todos, das artes e letras).

Os únicos que escapam a esta "triste sina" na Arte de Talma são a meia-dúzia de actores e actrizes, que gosta do conforto de fazer parte do clube dos "artistas do regime", ao mesmo tempo que enchem revistas com jogos de "verdade e consequência" e "brilham" na primeira fila das telenovelas.

Os subsídios são cada vez mais curtos, os espectadores cada vez visitam menos as salas... 

Eles sabem que o teatro nunca vai acabar, mas também sabem que cada vez haverá menos companhias ou grupos profissionais...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, junho 03, 2024

«Tenta escrever. Tens a história toda na tua cabeça.»


Já me tinham feito algumas propostas estranhas, mas nenhuma como esta.

A senhora cruzou-se comigo e com mais três amigos na rua, depois do almoço. Cumprimentou mais efusivamente um dos nós, de quem era amiga, depois virou-se para mim e disse que precisava de falar comigo.

Fiquei meio surpreso, mas disse que sim, sem saber o que viria dali, até porque apenas nos conhecíamos de vista e trocávamos bom dia e boa tarde. Perguntou se podia ser na segunda-feira, na esplanada de um dos cafés da Praça Gil Vicente, às 14.30 horas.

E hoje lá nos encontrámos, com a companhia de dois cafés.

Ela começou por perguntou se nos podíamos tratar por tu. Disse que sim. Depois começou-me a contar uma história que achava que poderia dar uma boa peça de teatro. Durante dez minutos escutei-a sem qualquer interrupção. Depois, com alguma lata, ela disse que estava ali para me convidar para escrever aquela peça.

Eu sorri, e, também com a lata possível, disse que ela não precisava de ninguém para escrever a peça. O drama estava toda na sua cabeça, era só colocá-lo no papel.

Fez uma careta e disse que não sabia escrever. Eu insisti e disse que só precisava de ir falando alto, como o tinha feito ali, e escrever, escrever... 

Continuou reticente. Foi então que lhe ofereci apoio, dizendo que não me importava de fazer uma leitura crítica, mas insisti: «Tenta escrever. Tens a história toda na tua cabeça.»

Vamos ver o que irá acontecer. Era bom que acontecesse teatro...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, abril 27, 2024

Também é um problema da democracia...


Tal como sempre se falou da "crise no teatro", também é histórica a "crise no associativismo".

Infelizmente são crises reais, por motivos diferentes. E de alguma forma estão ambas ligadas à democracia, mais pelo que não se fez do que pelo que se fez...

A preocupação de se criarem públicos para as actividades culturais ficou-se pelo caminho, algures entre as escolas e as instituições que tutelavam a Educação e a Cultura.

É difícil gostar do que não se conhece (a não ser que sejam espectáculos cuja comunicação seja mais directa com as pessoas, como acontece com as comédias...), do que não se sabe que também serve para pensar e nos ajudar a viver...

Em relação à "crise do associativismo", ela é sobretudo humana. Se antes de Abril era fácil encontrar, pessoas com "vontade de servir", hoje aparecem pessoas é com "vontade de se servirem"... Isso explica a crise do associativismo (a excepção são as grandes instituições, onde aparecem sempre várias listas de dirigentes, porque os interesses que se escondem por detrás, económicos, políticos ou desportivos, são mais que muitos...).

Pelos dados conhecidos, hoje vai acontecer "Abril" no Porto, com o fim do reinado de 42 anos de Pinto da Costa (que nos últimos anos se escuda nos muitos títulos conquistados, mas que se revelam cada vez mais insuficientes...). Este é o nosso exemplo maior do que o poder faz as pessoas, não as deixando sair na hora certa, desbaratando, tantas vezes, tudo o que se fez de positivo. 

Em Almada existem pelo menos meia-dúzia de colectividades que são presididas pela mesma pessoa há mais de vinte anos, fazendo com que estas caiam no marasmo, quase por razões naturais. Isso acontece porque a motivação deixa de ser a mesma, ao mesmo tempo que se vai ficando cada vez mais colado "à cadeira do poder" (sei do que falo porque presidi uma colectividade durante oito anos, mas por sentir na pele os "malefícios do poder", consegui sair pelo próprio pé...). É esta colagem que faz com que não se criem condições para que exista, pelo menos, uma alternativa de mudança, para que tudo se torne mais respirável e para que exista espaço para a diferença...

Infelizmente as pessoas fingem não perceber o que se passa à sua volta. E pior ainda, fingem não ver os vários maus exemplos alheios, que poderiam muito bem servir de "espelho"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, março 27, 2024

João Lagarto, ou a importância de um actor ( e da música, claro) dentro de "Tudo Isto é Jazz!"


Hoje festeja-se o teatro, por esse mundo fora. 

Lembrei-me do poema da AnyAna, das peças que escrevo directamente para a gaveta - sem lhes arranjar um final -, e sobretudo das salas que não visito e das peças que não vejo.

É por isso que vou falar de um acaso feliz, desta manhã. Enquanto trabalho, tenho muitas vezes a televisão ligada. Normalmente vejo coisas "atrasadas", que me passaram ao lado ou que não tive tempo de ver. Foi desta forma que "descobri" que na noite de domingo para segunda a RTP2 transmitiu o espectáculo, "Tudo Isto é Jazz!", de homenagem a Luís Villas-Boas, que fez cem anos este mês.

Comecei a ver o espectáculo que misturava jazz com teatro e a ficar deliciado com João Lagarto, que fazia (muito bem) o papel do "pai do jazz" no nosso País, e claro, com a música.

Não conheci muito bem Luís Villas-Boas (acho que o cheguei a entrevistar...), devo ter falado com ele duas ou três vezes. Mas mesmo assim penso que a personagem está muito bem caracterizada, até fisicamente (os óculos, o bigode, o penteado e os trejeitos pareceram-me excelentes...).

Felizmente houve pessoas como o Luís, irreverente, teimoso e desalinhado. Só desta forma é que é possível contrariar a "mediocridade" que se arma em sentinela nas ruas das artes e letras do nosso país (e se pensarmos nas coisas que fez durante as ditaduras salazaristas e marcelistas...) e virar algumas coisas, quase de pernas para o ar.

Felizmente escolheram o João Lagarto, para ser um Villas-Boas, quase autêntico, a falar com a normalidade possível, sem usar dotes declamatórios, passando em quase duas horas pela vida de um grande amante dessa música que hoje é de todo o mundo e de todas as cores (foi muito bem metida a frase, de que o jazz se dá muito bem com os climas frios, por ser também bastante amada e tocada no Norte da Europa...).

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, janeiro 03, 2024

Teatros e teatrinhos com ou sem final...


Continuo a escrever teatro, aqui e ali. Mesmo sabendo que dificilmente estas palavras têm um grupo teatral à sua espera...

Ninguém é perfeito.

Ontem, por um mero acaso, "esbarrei" numa entrevista dada por Arthur Miller ao "Público Magazine" de Abril de  2001.

Ele falou da importância do "final" e lembrou-me de uma conversa com um encenador que dispensava finais... Mesmo sabendo que ele é um dramaturgo do século passado, como concordo com ele, também devo ser um "escritor" do século passado (se é que isso existe...). Mas vamos lá às palavras de Miller:

«O final contém o percurso. Sem um final, não há peça, o percurso é irrelevante; podemos ter algumas cenas, algumas tentativas de construir uma peça, mas é o final que interessa, pois é aí que percebemos se fomos bem sucedidos a escrever a peça ou não.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 27, 2023

A vez do teatro (e do associativismo)...


Já falei mais que uma vez da "tertúlia" (a "Tertúlia do bacalhau com grão") que tínhamos às segundas-feiras no restaurante "Olivença", no centro de Almada. Tertúlia essa que passou a um almoço quase sempre a dois - de longe a longe passa a quatro, quando o Mário e o Marinho aparecem. Mas nem por isso é menos rica em episódios marcantes. Para que isso aconteça, basta que eu dê "corda" ao Chico...

Desta vez o Teatro voltou a ser Rei... 

O Chico não me falou apenas das peças marcantes, do olhar diferente dos encenadores em relação ao palco, desde o "certinho" Malaquias de Lemos ao "desconcertante" Rogério de Carvalho. Falou-me sobretudo da alegria que sentia em representar e do ambiente de grande cumplicidade e camaradagem que sentia, aqui e ali. Embora a Incrível fosse a sua principal casa, adorou representar na Trafaria, onde se vivia e amava o teatro de uma forma especial...

Também voltou a "idolatrar" Fernando Gil, que foi uma das figuras mais marcantes da história da Incrível Almadense, onde foi um "faz tudo". Além de ter sido Presidente da Direcção durante vários mandatos também adorava o teatro e foi um bom actor amador. Reviveu vários episódios hilariantes, vividos em peças dramáticas, como "Duas Causas" ou "Amanhã há Récita" mas também em peças carnavalescas, onde Gil se transvestia, ano após ano, com uma graça única.

E para terminarmos o almoço da melhor maneira, o Chico recordou, mais uma vez, o sentido de comunidade e de pertença que existia  na relação de muitos almadenses com a Incrível. Deu o exemplo das muitas famílias que cresceram por ali (deu um destaque especial aos Tavares, pelo desaparecimento do José Luís...) sem esquecer os muitos casamentos que tiveram a bênção da "Rainha do Associativismo Almadense"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada, com o Chico em grande plano na exposição "50 anos 50 retratos")


terça-feira, março 28, 2023

Chegar "Ligeiramente" Atrasado ao Teatro...


Este título é quase mentiroso, porque as coisas não aconteceram assim. Não foi ao "teatro" que cheguei atrasado, mas sim ao "Dia Mundial do Teatro", que se festejou ontem.

É por estes pequenos pormenores que nos apercebemos que ainda não acertámos todos os passos, há coisas que ainda ficam para trás, esquecidas.

Curiosamente, na madrugada de 27 acordei bastante cedo e ainda na cama comecei a escrever o que poderiam ser duas peças de teatro (vieram duas ideias quase em simultâneo...), no caderno da "teatrices". É provável que não avancem muito (tem acontecido muito com este género literário, penso muitas vezes que era muito mais fácil ter uma ligação qualquer a uma companhia, mesmo amadora, e escrever um pouco de acordo com o que eles querem experimentar no palco...).

Mas não são coisas que me chateiem muito. Escrevo porque me apetece, porque algumas ideias vêm ter comigo. Se "morrem" quase à nascença, é porque não vieram com força suficiente, para se aguentarem "no mundo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, fevereiro 16, 2023

"Uma Sereia Chamada Ermelinda"


Nos anos em que ando mais envolvido com projectos literários, leio menos.

O mais curioso, é esta quase pausa, começar logo em Janeiro, mesmo que no começo do ano ainda tenha bastante disponibilidade para ler.

Este mês pensei que talvez seja possível "fintar" esta quase paragem com a escolha de livros mais pequenos e interessantes... A minha primeira escolha foi a peça de teatro "Uma Sereia Chamada Ermelinda", da autoria de Alexandre Castanheira (lida em dois "actos"...). O mais curioso, foi ter assistido à peça em 2011 (ano da edição do livrinho que me foi oferecido pelo autor...), que se baseava no romance autobiográfico, "Cais do Ginjal", de Romeu Correia, encenada pela Associação Manuel da Fonseca, e nunca a ter lido.

Gostei de ler a peça, porque Alexandre Castanheira não se cinge ao "Cais do Ginjal" (pelo menos foi o que senti...), há por ali pequenas coisas dos "Tanoeiros", do "Tritão" e até de obras biográficas, como a história de vida de Armando Arrobas, que Romeu quase imortalizou.

E tem também uma forte componente de resistência e consciencialização política, através da Ermelinda, que é muito mais que uma "sereia"...

Foi bom reviver lugares e personagens (dentro e fora dos livros), numa obra que tem uma dedicatória muito singular e pessoal...


sábado, janeiro 28, 2023

Um Teatro do Absurdo que quer entrar dentro do Teatro da Liberdade...


Ainda não escrevi nada sobre o que se passou há já alguns dias no palco do Teatro São Luiz, porque tudo aquilo poderia fazer parte de uma outra "peça de teatro", daquelas que fogem da realidade e se aproximam do absurdo.

(Este aparte sobre o que se passou é mais dirigido à Catarina, que vive do lado de lá do Atlântico: Uma actriz transsexual invadiu o palco do teatro no decorrer na peça "Tudo sobre a Minha Mãe", baseada no filme de Pedro Almodóvar, só em cuecas, expulsando o actor que estava em cena e fazia o papel de um "trans", acabando com a peça, ao mesmo tempo que fazia quase um comício reivindicando direitos das minorias sexuais, defendendo que aquele papel só podia ser desempenhado por um actor transsexual...).

Infelizmente chegámos a um tempo que as pessoas de algumas minorias só se preocupam é em ter "direitos" para elas próprias, estão-se a borrifar para a igualdade, para os outros,  ou para a sociedade onde estão inseridos. Querem sim que lhes dêem empregos, casas, tudo de "mão beijada" (ao mesmo tempo que fecham os olhos aos direitos das maiorias, que têm de pedir empréstimos para comprar casa e ir a entrevistas de emprego para arranjar trabalho...).

Ou seja, estão a querer subverter a democracia e a própria racionalidade da sociedade em que todos vivemos.

E ainda por cima, neste caso particular, escolheram o pior sitio possível para se manifestarem, os palcos. Um dos poucos lugares onde os actores podem ser tudo e dar voz às minorias (como era, e é, o caso...). Durante uma ou duas horas os actores e as actrizes podem "vestir" a pele da mulher, do preto, do travesti, do homossexual ou do que quer que seja, com toda a liberdade criativa do mundo, focando os problemas que estas têm de enfrentar diariamente.

O problema mais grave desta e doutras questões próximas, é percebermos que são estes abusos do uso das palavras Liberdade e Igualdade, que fazem com que cresçam os movimentos fascistas, que circulam por aí "transvestidos" de partidos liberais e de direita...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, julho 29, 2022

O Teatro de Sala e o Teatro de Rua


Quando um amigo actor se lamentou da ausência das pessoas na sala onde representa, dizendo que «As noites de teatro parecem apenas ensaios. A única diferença é que vestimos a "pele verdadeira das personagens". Agora a plateia, essa continua às moscas.»

Foi quando lhe perguntei, porque razão não vinham para a rua representar, ao encontro das pessoas. Ele disse que se fosse assim tão fácil já há muito tempo que representavam peças ao ar livre no centro da Cidade. Depois falou da burocracia e das autorizações e apoios que são necessários, das juntas de freguesia, à Polícia...

Entretanto soube que o "Teatro da Rainha" tinha feito quatro representações de uma das suas peças ("Mandrágora"), ao ar livre, num dos largos das Caldas da Rainha e que fora um sucesso, com todos os lugares sentados esgotados durante os quatro dias.

Pois é, parece-me que não faz mal nenhum ir atrás das pessoas, se eles não vêm atrás de nós...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, março 15, 2022

A Nossa Cultura Ficou mais Pobre


Jorge Silva Melo deixou-nos ontem. 

Quem o conheceu, sabe que ele era muito mais que um encenador ou um homem de teatro. Adorava cinema e realizou vários filmes (ficções e documentários), que têm a sua marca pessoal. Apaixonou-se desde cedo pelo mundo dos livros, mas não se limitou a ser leitor. É também o autor de três bonitos livros de crónicas, onde nos oferece textos sobre as coisas que mais gosta (as pessoas, os lugares e claro, as suas Artes...) e de várias peças de teatro.

Mas o mais importante, era o Jorge ser um Homem Livre.

A nossa Cultura ficou mais pobre.

(Fotografia de autor desconhecido)