Eu já sabia da generosidade do Pedro, o actor com quem falei, por ser um "faz tudo" na companhia, profissional, onde trabalha.
Quando tinha funções executivas numa associação, recebi várias vezes o seu telefonema, para nos disponibilizar bilhetes para assistirmos à peça em exibição nos "dias mortos" (meio da semana...). Fazia questão de nos oferecer bilhetes por saber que "éramos das culturas" e gostarmos de teatro. E quando não podia oferecer, fazia preços de grupo convidativos.
Numa das poucas vezes que conversámos, no bar do teatro, ele explicou-me o porquê daquelas "ofertas". Algumas empresas patrocinadoras recebiam bilhetes como contrapartida dos apoios, mas raramente os levantavam. E como o mais importante era ter gente na sala, a companhia tinha uma lista de associações e de escolas, que aceitavam os convites de bom grado, e que até poderiam, mais tarde ou mais cedo, tornarem-se espectadores assíduos (gostei deste seu argumento...).
Lá estou eu a "esticar-me"... Só queria escrever uma frase que ele me disse, e que diz quase tudo desta arte. Quando me falou da "feira de vaidades" que reina nos palcos, deixou bem claro, que essa é uma das características da profissão: «Aqui, ninguém esconde ao que vem.» E continuou, «ninguém esconde que o que quer é brilhar no palco. Não existem mentiras na nossa profissão.»
E como ele está certo... A maior parte dos actores de teatro (não estou a falar dos das telenovelas...) só quer aquele palco. Nem sequer participa no "jogo" das revistas castanhas, que alguém resolveu "pintar cor de rosa"...
(Fotografia de Luís Eme - Almada)