sábado, março 13, 2021

Defender a Legalidade e a Transparência


Dediquei dois textos à "indefinição" profissional que existe em quase todos os sectores da Cultura, por sentir que ela abarca, em simultâneo, as profissões mais desprotegidas e também os sistemas de acesso profissional mais abertos. Vou dar dois exemplos do que acontece actualmente: para alguém entrar numa telenovela, basta ter um "palminho" de cara e ser convidado, o talento ou o conservatório, passam para segundo lugar. O mesmo se passa com qualquer cantor. Basta ele decidir que quer cantar e aí temos nós mais um "artista da tv e cassete pirata", colocado no mundo.

Tudo isto para dizer que o que está acontecer no futebol, com Ruben Amorim, não tem qualquer comparação com a Cultura, porque neste desporto as coisas estão bem legisladas em relação à profissão de treinador. Mas mesmo assim há sempre alguém que "fura as regras" (os dirigentes continuam a achar que "podem fazer tudo", até contratar treinadores sem habilitações...), com a conivência das instâncias superiores. 

Numa primeira análise, quase todos temos a tentação de ficar do lado de Ruben Amorim (por ele ser muito bom...) e do Sporting. Mas as coisas não são assim tão simples. 

Eu percebo quais são os objectivos da Associação de Treinadores de Futebol em todo este processo: ela pretende acabar, de uma vez por todas, com as ilegalidades cometidas por alguns dirigentes, que contratam treinadores sem a formação adequada, como adjuntos, embora toda a gente saiba que serão eles os técnicos principais das suas equipas...

Embora se trate de uma acção pouco popular, e o Ruben Amorim esteja a ser usado como "bode espiatório", a Associação de Treinadores apenas pretende tornar o futebol mais transparente, acabar com algo a que os órgãos de decisão da Liga e da Federação têm fechado sistematicamente os "olhos". 

Claro que esta Associação podia, e devia, ter agido há muito mais tempo (estas "chico-espertices" duram há pelo menos uma década) e não ficar à espera que um excelente técnico, mesmo "não habilitado" - e sem uma equipa de "milhões" -, esteja cada vez mais perto de ser o próximo Campeão Nacional.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, março 12, 2021

A Boa "Aparição" de Vergílio


Voltei a ler Vergílio Ferreira e a  minha satisfação por este reencontro fez com que pensasse na história do meu "regresso" aos livros como leitor a sério. 

Pois é, há sempre um ou outro acaso, à nossa espera, para mudar o rumo dos nossos dias... Ir dar aulas para Vila Franca de Xira e apanhar o comboio que levava mais de três quartos de hora entre as estações de Santa Apolónia e da bonita terra ribatejana, fez com que tivesse de inventar alguma coisa para "reduzir" este tempo, mesmo que a viagem à beira Tejo não fosse das mais desagradáveis.

Sei que um dia levei um livro e nunca mais parei (raramente tinha companhia para a conversa...). Depois descobri que a escola tinha uma excelente biblioteca e tornei-me um dos seus principais requisitantes. O curioso foi a minha insistência nos autores que mais gostava de ler (li praticamente todos os livros que existiam naquelas estantes, escritos por Camilo, Hemingway, Aquilino, Amado ou Steinbeck...), sem nunca experimentar a desilusão.

Era mesmo este o ponto. Mas quando começo a escrever mudo de "rua com facilidade"... 

Estamos sempre um mudança, mesmo sem nos apercebermos. Com o tempo, fui gostando de muitos outros autores, mas não continuei atrás deles (talvez por nunca mais ter sido tão assíduo de bibliotecas...), como neste começo delicioso de leituras. Vergílio Ferreira foi um desses autores que nunca me desiludiu, mas não "persegui". Sempre senti que é um dos nossos grandes escritores. É por isso que estranho só agora estar a ler a sua aclamada "Aparição" (e estou a gostar bastante...).

Sem querer tirar qualquer mérito a Saramago ou a Lobo Antunes, Aquilino, Vergílio e Cardoso Pires, são os meus escritores do século XX.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, março 11, 2021

Quando a Escolha entre os "Bons" e os "Maus", é mais Difícil do que o que Parece...


Como faço parte das "culturas", é normal que tenha mais conversas sobre estas áreas, tão complexas, por funcionarem muito em "roda livre".

Um meu amigo disse-me que há gente a mais nas artes e que era necessário haver uma "autorregulação", que as pessoas tinham de perceber que nem toda a gente pode ser artista, como nem todos podem ser engenheiros ou médicos. E deu-me como exemplo as respectivas ordens, que limitam o acesso a estas duas profissões.

Embora ele tivesse alguma razão, escolheu dois maus exemplos. Até porque as dificuldades que existem (todos dizem que são demasiadas...) no acesso a estas profissões, ainda não conseguiram acabar com a existência de maus médicos e maus engenheiros.

Ou seja, será sempre muito difícil escolher quem são os "bons" e quem são os "maus", porque o talento natural raramente consegue ser passado para o papel, em qualquer teste que não se afaste muito da "teoria".

O melhor exemplo que lhe consegui dar foi o do mundo das canções. Provavelmente, a existência de uma espécie de "ordem dos artistas", não iria travar a existência de tanto cantor e cantora sem talento, que nos entram pela casa a dentro aos domingos à tarde, que nunca conseguiriam passar da primeira fase de selecção nos concursos de talentos televisivos (onde se descobrem rapazes e raparigas, que dão "vinte a zero" a estes cancionistas de arraial).

Mas sim, é necessário fazer alguma coisa. Até porque não existe mercado para tanta gente. Há muito mais músicos e actores, que concertos de música, peças de teatro ou telenovelas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, março 10, 2021

Não vamos lá pela Cultura, com toda a Certeza (pelo menos com a que temos...)


Às vezes estamos tão perto das coisas, que não lhe damos a devida atenção.

Foi a minha mãe, durante um telefonema menos breve, que me "falou" das pessoas de Almada que estão a viver com dificuldades, sem serem os "pobrezinhos" dos bairros clandestinos e dos outros, que lhes chamam "sociais".

Foi quando me lembrei que Almada é uma terra de múltiplas culturas. Claro que não estou a pensar nos políticos cá da terra, que sempre encheram o peito, quando falavam de "cultura". Falo sim dos músicos, actores, bailarinos, artistas plásticos, técnicos (escritores não... esses fazem parte de um mundo à parte da cultura, dos "endinheirados" que não precisam de apoios...). E acabei por escrever sobre isso no "Casario".

Claro que havia muita coisa a dizer sobre isto. Mas somos sobretudo uns "brincalhões", que gostam das culturas... uns para se promoverem e ficar bem na fotografia (olá políticos), outros para criarem e se divertirem. Já me estava a esquecer, há ainda uns poucos, que ganham uns céntimos com estas coisas...

(Fotografia de Luís Eme - Quinta da Arealva)


terça-feira, março 09, 2021

Sei que não Nasci para ser Carneiro


Sempre fui curioso, sempre gostei de perguntar coisas (isso explica o jornalismo...). Também desde cedo senti quando me estavam a "enrolar" ou simplesmente a "ficcionar a vida" (às vezes tem de ser...).

O meu avô era extremamente honesto. Nunca esqueço o que avó nos contava, quando queria falar do seu "excesso" de honestidade. Lembrava os primeiros anos de casada, a minha mãe ainda  era pequena e ele trabalhava como feitor de uma das quintas  que rodeavam as Caldas (ela falava das "pereiras" e não dos "pereiras", não sei porquê...). Ele andava altivo, a cavalo. Às vezes visitavam-no e aproveitavam a fruta caída do chão para saciar o apetite, em tempo de "vacas, galinhas e demais animais magros". Ele que não as queria a colher o que não era delas, logo lhes dava uma reprimenda e chamava-lhes "gulosas"... Embora o avô fosse excessivo, a avó dizia isto com orgulho.

Além disso, eu também gostava do jeito do avô para "ficcionar a vida". Como gostava das suas estórias...

Quando comecei a escrever era para falar de uma outra coisa, mas entretanto apareceram os meus avós maternos (e é sempre um prazer recebê-los...) e... Mas vamos lá, à forma como nos tentam levar à certa, com uma cada vez maior panóplia de métodos de controlo e de persuasão (duplicados ou triplicados em pandemia...), tentando que deixemos de pensar pela nossa cabeça, que usemos um "conhecimento" e um "pensamento" cada vez mais imposto.

E a única coisa que me apraz dizer, é que sei que não nasci para ser carneiro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, março 08, 2021

Vento, Velas, Dias, Mulheres...


O vento sopra lá fora, quase a querer fazer uma sonata (embora ele tenha demasiados andamentos). 

Talvez esteja forte de mais para velejar, com mudanças bruscas de direcção... 

Talvez.

Embora o mundo ainda continue demasiado desigual para o meu gosto, felizmente há mulheres que gostam de velejar. 

Pois é falo do vento e de velas, porque já não sei que faça ao 8 de Março. Sinto que esta coisa das mulheres terem um dia por ano, para festejar, é tão "machista". É por isso que bom bom, é festejar o Dia da Mulher a seis, a sete, a nove... ou a vinte. Sim, todos os dias que nos apetecer, muitos, quase todos...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, março 06, 2021

Cem Anos de História e de Luta


O PCP faz hoje a bonita idade de 100 anos, que só está ao alcance de poucos. Não é por acaso, que é o único partido político português a conseguir chegar a esta bonita idade.

Continua a ser o partido em que votei mais vezes (a primeira vez que "venci" umas eleições foi quando vim viver para Almada...), porque me sentia bem representado pelos seus parlamentares. Não esqueço a acção política de Álvaro Cunhal, João Amaral, Octávio Teixeira ou Lino de Carvalho, entre outros bons tribunos.

O facto de sempre ter tido amigos e familiares comunistas, que eram (e são) realmente um exemplo de cidadania e de solidariedade, fez com que sempre fosse próximo (sem deixar de ser crítico, em muitas situações...), quase um "primo (ligeiramente) afastado".

(Fotografia de Luís Eme - a partir de um cartaz em Almada)


sexta-feira, março 05, 2021

Dividido entre Abandonos e Ocupações...


Há poucos dias, durante uma das minhas caminhadas, vi uns fulanos ao "ferro" nas instalações devolutas do "Clube Lisnave" e também da velha empresa da Margueira.

Vi que havia dois novos buracos na rede e dois dias depois entrei lá dentro, para tirar algumas fotografias (o retrato de ontem é de lá...). Acabei por me cruzar com os dois fulanos, que pelos vistos ainda não tinham levado o ferro todo. Sem que eu perguntasse, um deles tentou justificar-se, contou-me que estava desempregado e andava por ali a ver se arranjava uns cobres. Respondi-lhe para estar à vontade, só estava a tirar fotografias. Minutos depois o outro passou por mim a alguma distância, e provocador, disse: «Não me queres tirar também uma fotografia?» A minha resposta foi um virar costas.

Fiquei a pensar que uma parte das instalações, que devia ser de escritórios, ainda estava com bom ar (esquecendo o vandalismo do costume...), e que podia ter tido outra vida, outra utilidade, e nunca o abandono. Também pensei que nunca fora ocupada pela "gente sem eira nem beira", por se encontrar à beira da estrada.

Foi então que "regressei" ao Ginjal, porque dias antes tinha descoberto que a casa da Júlia (a última moradora oficial do Ginjal...) estava de novo ocupada, mas com uma inovação: desta vez tinha electricidade e tudo. Da janela da sua cozinha vi uma lâmpada florescente e ouvi música, além de vozes a cantar. Na altura pensei na "arte e engenho" desta gentinha, que consegue ir buscar luz, onde ninguém espera...

Também fiquei dividido em relação a estes espaços abandonados. Sei que se estiverem desabitados a degradação e a destruição é muito mais rápida, a melhor solução era oferecer-lhe uma nova "família". Mas também sei que uma boa parte destes "ocupas", quando abandonam estas "casas de abrigo", deixam-as sempre muito pior do que as encontram...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, março 04, 2021

Quando uma ou Outra Árvore Estranha é Confundida com a Floresta...


O texto de ontem motivou algumas conversas com amigos. A opinião é unânime: estão a "matar o jornalismo", dentro das próprias instituições de informação. 

Pode - e deve - falar-se de um processo lento que já se arrasta há mais de uma década, quando se começaram a misturar demasiados interesses com o jornalismo. 

As dificuldades financeiras fizeram com que uma boa parte das empresas de comunicação social fossem adquiridas por pessoas que não tinham qualquer relação com o jornalismo. A única coisa que lhes interessava era o "negócio" (ou para ser mais preciso, os outros negócios que possuíam e precisavam de ser promovidos, com algumas "notícias felizes"...).

Um amigo das culturas foi mais longe e disse-me que eu era um lírico e que o jornalismo nunca fora livre e independente, em momento nenhum. Contou-me meia-dúzia de episódios sobre pressões exercidas nas direcções de jornais onde trabalhara (a maioria partidárias...). Eu contra-argumentei que as chefias poderiam estar comprometidas e enviar recados para a redacção, mas sem se imiscuírem  nos factos. Era impossível "abafar" uma notícia ou reportagem importante, que estivesse bem fundamentada...

Foi então que resolveu trazer os "críticos" para a conversa, dizendo que a maior "vergonha" dos jornais eram os "gajos" que escreviam sobre livros, discos, peças de teatro ou fitas de cinema. Raramente eram honestos. Escreviam por "amiguismo" ou "ódio de estimação".

Claro que quando generalizamos, estragamos tudo. E muitas vezes damos mais atenção a uma árvore estranha, que ao resto da floresta... 

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, março 03, 2021

As "Fábricas de Factos" (ou quando o jornalismo parece ficção...)


Hoje li um artigo de opinião no Diário de Notícias, escrito Pedro Tadeu, elucidativo sobre onde já vai o "mundo da manipulação" de notícias nos jornais, rádios e televisões.

Nada que seja muito de estranhar, e que leva as pessoas a verem cada vez menos notícias (é o que faz uma boa parte das que conheço...). O mesmo se passa com o "comércio" dos jornais, com mais moscas que leitores, agora que o tempo começa a aquecer.

Já não me lembro do dia em que vi esta notícia no nosso maior pasquim, sei que aproveitei logo o momento para tirar uma fotografia. Quando se coloca na capa de um jornal: "covid faz cair consumo de viagra", como manchete, está tudo dito (ou está tudo maluco...).

E na televisão do grupo, as coisas têm sempre tendência para piorar (muito). As notícias parecem ter muito de "faroeste", como se viessem acompanhadas de pistolas, facas e sangue.

Claro que eles sabem o que é bom para o negócio. Isso explica a obsessão pelo Benfica dia sim dia sim (talvez encha sofás em casa, agora que não pode encher estádios...), com uma aposta forte nas demissões de Luís Filipe Vieira e de Jorge Jesus. Por exemplo na véspera do FC Porto-Sporting, o jogo entre os dois primeiros classificados, em vez de se falar das tácticas do Amorim e do Conceição, só se falou do Benfica, de Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus... E a "novela" continua, diariamente. O episódio de hoje era sobre o buzinão "Rua Vieira", rente ao Estádio da Luz.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, março 02, 2021

Quatro Milhões no "Laréu"...


Não sei quem é que se deu ao trabalho de "descobrir" esse número redondo, e quase grande, dos quatro milhões de portugueses, que resolveram sair de casa, ao sábado ou ao domingo (não fixei, estou a ficar esquecido...).

Das duas uma (pois era, podiam ser três...):  estamos a ser mais vigiados do que pensamos... ou então há alguém que tem uma capacidade "paranormal" de contar pessoas que andam no "laréu", desde o Algarve até ao Minho, ao ponto de chegar a este belo número.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 01, 2021

Viagens Dentro e Fora de Nós...


Estes tempos, continuam a "não serem tempos" para viajar, pelo menos, fisicamente. É por isso que há sempre um ou outro livro, que promete levar-nos, aqui e ali, quase sempre com mais pormenores que os que costumamos encontrar nas verdadeiras viagens. 

E se forem como eu, que não faço planos muito elaborados por gostar de ser surpreendido pelos próprios lugares, pior ainda, em relação ao tal "sumo da viagem".

Lá estou eu a desviar-me... Queria escrever sobre o facto de a nossa riqueza geográfica não ser bem aproveitada pelos viajantes-escritores (andámos por aí espalhados pelos cinco ou seis cantos do mundo, e parece que só o Fernão Mendes Pinto, que também escolheu esta margem para ficar, é que nos contou, muito bem, as suas muitas aventuras e desventuras, na forma de livro  - Camões não conta, tudo aquilo é poesia).

Talvez partissem, sobretudo iletrados... gente com pouca instrução. Os outros, com mais imaginação e saber,  pensavam que lhes bastava "partir" de viagem, nos passeios, curtos ou longos à beira do Tejo ou do Atlântico.

Mas não bastava. Nunca bastou. E é por isso que não existem muitos romances sobre Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé, Macau ou Timor (e nem vou até ao Brasil ou à Índia...).

Tal como nunca fizemos séries ou filmes sobre os grandes protagonistas da história e sobre as nossas epopeias (sei que hoje o "politicamente correcto" é fingirmo-nos envergonhados pela nossa linhagem de conquistadores e descobridores, mas eu estou-me borrifando para tudo o que é "demasiado faz de conta" ou para se "ficar bem na fotografia"...).

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)